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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Continuava a enganar as insónias com o som das trombas de prata, longas e canoras, saltando ligeiro para a rua e convidando com berratas os mesteirais e os homens-bons a dançar com ele»

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O Comércio do Invisível
«(…) Leonor olhou para uma roseira que tinha na portada do estrado da varanda. Era o início do mês de Março e os dias nasciam luminosos e claros. A roseira estava cheia de rebentos novos, onde espreitavam, da grandeza duma unha, leques de folhas vermelhas. Podara-a com suprema delicadeza em Outubro ou Novembro. Juntara à severidade dos cortes um pedido intimo de escusas. Acreditava numa sinergia de afectos, numa convergência de propósitos entre a sua vida e a do reino vegetal. A roseira ganhara durante os meses parados do Inverno uma seiva vigorosa que subira pelos veios e explodia agora em todos os nós. Num dos cantos, sobre um dos pedúnculos mais adiantados, uma cheia rosa vermelha, estoirara o envólucro verde das suas sépalas verdes e mostrava, num punho cerrado, as suas pétalas virgens e vermelhas, prontas para abrirem à luz da Primavera. Eu sou assim como esta rosa, exortou, encostando os dedos às pétalas vivas que guardavam no seu seio os filetes minúsculos dos estames. Não posso viver sem os espinhos que a guardam.

Veio por fim um dos mais esperados momentos da vida de Pedro de Portugal. Tinha nos cárceres do sobrinho de Castela dois dos matadores de Inês, Álvaro Gonçalves e Pero Coelho. Corria que Diogo Lopes Pacheco conseguira à última hora, por um acaso milagroso, escapar aos meirinhos de Pedro de Castela, mas à boca fechada dizia-se que a fuga fora combinada por intermédio do camareiro-mor do rei de Portugal, João Afonso Telo, com o acordo tácito do soberano. Contentava-se o rei com os outros dois, deixando homiziado o Pacheco, cunhado ainda do seu conde. Por outro lado, o túmulo real de Inês avançado ia em Alcobaça. Tinha-o nas mãos um mestre canteiro que parecia haver compreendido, assim se dizia na corte, o desígnio de eternidade que Pedro pedia para o seu amor. O rei não tinha repouso. Há anos que esperava aquele momento. A justiça que praticava nos desgraçados que ia apanhando pelos caminhos e pelos lugarejos mais distantes já não tinha sabor. Continuava inexorável, mas baraço e chicote não passavam agora do ensaio do grande drama que vislumbrava próximo. Queria nas mãos os matadores de Inês. Antes disso, pensava ele, o seu sentido de justiça sempre sofreria maleita insanável. Tinha nos seus calabouços da alcáçova de Lisboa os quatro castelhanos que o sobrinho exigia para lhe entregar os dois ministros do pai.
Toste se faça a troca na fr..., fronteira de Elvas, ordenou ele ao seu primeiro camareiro. Os bargantes de Castela sa..., saem de Lisboa e os satanases que abocanharam a inocente de Sevilha. Ve…, venham os perros, venham do inferno que danças e tr..., trebelhos hemos cá para eles, eh-eh. Sonhava aquele momento com raiva, uma raiva boa, porque a sentia vibrar dentro de si em nome da justiça, que era para ele a virtude pura, sem mistura de manchas ou de interesses. Para Pedro não havia Deus sem justiça; o entendimento de Deus, que era Pai, traduzia-se na ideia de justiça. Por isso exigia momento a momento ao canteiro de Alcobaça que na pedra do túmulo da sua amante e santa figurasse aquele episódio que era para ele o sinal da vontade divina, o Juízo Final. Pudesse ele ser o Deus desse momento! Que bem se via no lugar do Pai do céu! Quem lhe dera nas mãos a missão de julgar a multidão final das almas!
Continuava a enganar as insónias com o som das trombas de prata, longas e canoras, saltando ligeiro para a rua e convidando com berratas os mesteirais e os homens-bons a dançar com ele. Primeiro, aliviado de pensamentos negros, bailava ao som das trombas de prata dos seus pajens; depois, quando os alvores da madrugada despontavam a oriente e a luz viva das grandes tochas começava a empalidecer, mandava o mordomo-mor ao paço trazer viandas, pão e vinho para que todos comessem e bebessem antes do destroçar». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Não vades pelo silêncio. Dizei já: que pensais vós de min? Sentindo-se em aperto, Maria Peres acabou por falar. Que quereis que vos diga, senhora?»

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O Comércio do Invisível
«(…) Cães, tão vulgares nas casas dos ricos-homens, recusava ter. Não suportava os odores fedorentos que produziam, os uivos sinistros que emitiam e aquela fome desencontrada e carnívora que todas as manhãs manifestavam e que só o sangue fresco apaziguava. Incensava ao invés os caracóis, em que via uma forma perfeita, depositária da ordem primordial da criação terrena. Esses seres escusos, esquivos e escorregadios haviam transitado sem mudança relevante do plano ascendente do Paraíso para o plano inclinado da Dor; por isso, na sua casca impenetrável se inscrevia em misteriosas pintas a escada de Jacob, que subia da Terra para os mundos superiores. Tinha ainda consigo uma toutinegra em liberdade, que lhe dava a ouvir todas as manhãs a filigrana da sua voz de oiro. Cativara-a apenas com a sua presença. E as plantas que cresciam e se desenvolviam nos aposentos de Leonor Teles não eram apenas motivos inertes de decoração; eram seres vivos, que respiravam e pensavam a seu lado. A elas dirigia a filha de Martim Afonso Teles a palavra, convicta de ser entendida.
Vós me entendeis melhor que uma formatura de letrados, costumava ela dizer, afagando com as mãos as labaredas de fogo verde que se soltavam no ar. Exigia no mais pequeno pormenor o mais sério requinte; a harmonia era para ela a memória da Luz celeste. Na beleza terrena via a derradeira emanação do fulgor divino e no canto dum pássaro humilde, escondido nas moiras silvestres, sentia a música do Verbo do Criador. A beleza era tudo, pois na beleza da Terra é que vinha morrer o último raio do esplendor das Alturas. Mas a beleza terrena, sendo a derradeira orla do manto divino, um efeito ainda da ofuscante Luz cimeira, não podia outrossim deixar de ser, num mundo que a cada instante morria por lhe sentir a falta, motivo de disputa e de ciúme. Por isso, quando a epifania da Beleza divina se dava, a reserva se impunha. Guardar silêncio é obrigação de quem tem a seu cargo um segredo; mas quando o sigilo é a boceta de Pandora (origem de todos os males) a obrigação passa a dever inviolável.
Um dia, em que se sentia impaciente com as exigências dos irmãos, que insistiam na sua companhia num passeio a Rates, interrogou Leonor Teles a camareira Maria Peres. Que pensais vós de mim? A Peres não soube que responder. Conhecia a mascarilha de seriedade que a donzela costumava usar junto dos tios, dos irmãos e dos primos e habituara-se à sua distensão na intimidade, com as momices próprias duma cortesã mimada. A bem dizer, só ela conhecia esse seu semblante de alívio e brincadeira. Nem a tia Guiomar, regrada de mais para a braveza solitária com que a menina tratava a vida, tinha notícia daquela alegria tão fresca e desusada. Encolheu os ombros e riu-se como quem se esquiva a entrar na conversa. Insistiu Leonor.
Não vades pelo silêncio. Dizei já: que pensais vós de min? Sentindo-se em aperto, Maria Peres acabou por falar. Que quereis que vos diga, senhora? Que ninguém vos conhece? E certo que sim. Quem sois ou quem pareceis? Mester esse azarado. Mais de jeito vai de vos dizer o que não sois. E decerto que não sois como as fustas que arribam às areias de Esposende, para enfunardes as velas e mostrardes o rosto.
Leonor olhou-a sem surpresa. Maria conhecia-a melhor do que qualquer outro. Ainda assim, estava longe de perceber o vulcão que ardia dentro dela e sobretudo desconhecia aquele sentido interior que lhe activava a visão mediúnica. A sua discrição era incondicional. Maria Peres era porém para ela nessa época a única ponte com o mundo. Digo-vos para vosso cuidado. Este mundo me ofende e ensandece. Não lhe pertenço nem o quero. Falais assim por causa do agravo com vossos irmãos?» In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Na intimidade, expandia-se. Deixava de lado a cor escura da capa, o resguardo do capuz, a sombra do silêncio. Rodeava-se de cores quentes e impressivas, como o amarelo e o laranja; perfumava o ar de essências capitosas e inebriantes»

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O Comércio do Invisível
«(…) A luta que se travava no plano visível da Natureza degradada, com seres cegos e impiedosos, devorando e sendo devorados, continuava de forma ainda mais atroz no plano das emanações invisíveis terrenas. Uma fada que fosse cooptada por um monstro, servia de imediato as disformidades do seu hospedeiro, perdendo-se para sempre. O contrário porém era impossível; nenhuma fada, nenhum elfo ou nenhum génio volátil, emanação do mais leve e anódino animal de asas e penas, se podia tornar hospedeiro dum monstro, reformando-o dentro de si. Enquanto a humanidade não deixasse de ser pábulo das trevas, as benéficas emanações da Natureza material haviam de continuar a viver uma vida de fugitivas, sem qualquer possibilidade de exporem a sua mansidão, vencendo o horror das emanações disformes.
Leonor Teles, tendo visitado os planos angélic osda criação anterior à formação da Terra, possuía na alma uma irremediável nostalgia do além. O seu narural impulso atirava-a para esse píncaro de Luz, onde o Criador residia num estado próximo do Nada, alimentando-se em si, de si e para si. Tinha por isso momentos em que detestava estar viva, na Terra, sendo pertença da mesma criação terrena que parira lobos carniceiros, ursos ferozes, insectos sanguinários. Sentia-se anjo, essência nómada, olor luminoso, não mulher. Não percebia porque razão adquirira um vestuário de carne e sangue, idêntico ao de tantos seres densos, cegos e inferiores. Nessas alturas, em que a tristura de se sentir viva era tanta, falando alto consigo, como lhe sucedia sempre que estava só, desafogava. Isto é uma tulha do Inferno. O demo me prendeu a esta terra maldita de vinte passos!
Outros momentos tinha em que se adequava melhor à sua situação carnal, compreendendo que depois da vinda de Cristo à Terra era mister continuar uma obra de resgate, em que ela teria, não sabia onde nem como, um papel escolhido. Havia o sinal de Caim e o sinal de Jesus; aquele era uma nódoa escura, um ponto negro, e este um fumo branco, uma fragrância estonteante, derradeiro e precioso vestígio das correntes do bdélio que o paraíso terreal, no momento inicial da criação, conhecera. Por isso a tunicela de aromas estonteantes que de quando a quando na solidão a visitava de modo tão inebriante era para a jovem Leonor Teles o traço da sua aliança com Jesus. Nela o perfume era uma essência espontânea da alma e não uma exalação exterior. Não precisava de procurar as destilações exteriores que faziam o furor da irmã e da prima para sentir as sublimações da transcendência. Esse traço lhe chegava para saber que, não conhecia onde nem quando, teria um papel a desempenhar na história da redenção do mundo terreno.
Por agora, calava e escondia. Guardava o interior dos seus aposentos para manifestar aquilo que mais cerca andava da sua essência. No exterior reservava-se no silêncio, por vezes até na rispidez, não se desavindo por passar por aquilo que não era, uma menina brava e de mau humor. Na intimidade, expandia-se. Deixava de lado a cor escura da capa, o resguardo do capuz, a sombra do silêncio. Rodeava-se de cores quentes e impressivas, como o amarelo e o laranja; perfumava o ar de essências capitosas e inebriantes; adorava a voluptuosidade dos tecidos raros e aveludados. Os seus aposentos nada tinham da cela austera duma casa religiosa; antes pareciam os paços duma princesa mimosa que não suportasse senão o esplendor duma manhã ruidosa de Maio. Caprichava nos adornos, nas colgaduras, nos bordados a fio de oiro; cercava-se de plantas e de flores, que ela própria cuidava, delas tirando um brilho invulgar». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 22 de novembro de 2016

O Canto da Salamandra. Seomara Veiga Ferreira. «A minha primeira estada em Lisboa foi breve. Regressei a Pombeiro e soube então que me encontrava grávida... Quando me casara era uma garota de longos cabelos que arrecadei em tranças…»

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«(…) Lisboa de branco e azul, beijada pelo areal de ouro que a contornava e onde ia adormecer. no vaivém lento do movimento de um berço de criança, o rio que se estende, a Ocidente até ao mar. Lisboa, nave de altas velas que rasgam o céu, Lisboa-viagem, Lisboa-destino, Lisboa-ninho de outras vidas que, com o tempo irá encontrar. Rodeada de hortos e vinhedos de Valverde, vestida pelos olivedos do Andaluz, cercada pelas almoinhas de Alvalade, Lisboa das gordas vinhas de Almafala e dos pomares úberes que estendem a folhagem até às zonas mouriscas do Restelo e ao reguengo refrescante de Algés. Vi-a como ave, também, no alcandorado dos Paços, na colina da Alcáçova, como águia mirando o Sol rubro do Poente a afundar-se no mar de estanho, prata e sangue, de onde vêm os mercadores, homens de negócio, genoveses, florentinos, ricos judeus das repúblicas italianas. Mirava a colorida exposição dos tecidos nos armazéns, que percorri com o séquito de meus irmãos, aias e camareiras, os briais flamengos, as granadas, os cendrais de cor rosa, verdes e lilazes, os doces arminhos, os magníficos brocados de Florença, os ricos e finos panos, quase transparentes ao Sol, de Holanda, as mercadorias da Veneza feérica e longínqua, Veneza a magnífica. Os seus navegadores vão aos confins do mundo, ao Mar Negro e a Constantinopla, dessas zonas de onde também veio a negra peste do nosso infortúnio, Lisboa, meu bom amigo, onde os judeus mercadejam tudo, vindos também da Itália, da França, das terras banhadas pelo Mar Interior, e que nas barcas vendem desde a estamenha pobre para os mais desfavorecidos e para confeccionar os hábitos dos cenóbios até às valencianas, as almáfegas, os bragais, as solias, os saiais, as crespinas ou as capeleiras que enobrecem e ataviam as cabeças, tudo se vende, desde as roupas aos metais, as pedras preciosas, o ouro, a prata, os esmaltes. Tenho um enorme rubi que minha tia me ofereceu e o comprou a um mercador florentino em Lisboa. Ah, meu bom amigo, Lisboa ainda nas velhas ruínas, não as da guerra, dos fogos, da violência dos homens, mas as antigas, as que o passar inexorável dos anos esculpiu e acariciou. Tão antigas, lá no alto, como aquelas que pertenceram a um velho edifício do tempo dos pagãos, com as suas colunas de capitéis trabalhados, mármores róseos e brancos e as bancadas de assentamento de placas polidas, onde os espectadores se sentavam a ver representar as tragédias de que me falava mestre Judah, ou Judas como sempre lhe chamei, os autos pagãos de tempos imemorais.
Eu, frei Juan, que posso dizer que a minha vida não foi mais que um acumular de ruínas, amo-as de uma forma especial, porque elas apresentam as cicatrizes do tempo como o nosso rosto. Têm face também e falam. As velhas pedras relatam a vida e a memória. Estão sempre vivas, mesmo quando as olhamos distraidamente ou nos esquecemos delas. São também, em muitos casos, com o secreto calor da sua vida antiga, uma companhia e um lenitivo para as nossas dores e a nossa memória, quando vivemos no esquecimento, anónimos e distantes. Frei Juan, aprendi isso, recentemente, aqui.
A minha primeira estada em Lisboa foi breve. Regressei a Pombeiro e soube então que me encontrava grávida... Quando me casara era uma garota de longos cabelos que arrecadei em tranças atrás ou dos lados da cabeça, enroladas a preceito, ou em bandós, logo que passei de donzela a mulher casada. Nunca, apesar de usar coifa, rapei o cabelo acima da testa, como vi muitas mulheres fazer para se sacrificarem à moda que vinha, então, de França. Mas depilei as sobrancelhas para que se avolumasse a linha dos meus belos olhos. Desculpai, frei Juan, este resto de vaidade tão feminil mas eu fui bela, murito bela e meu marido João Lourenço nem sequer teve consciência disso a não ser quando, enfim, me livrei da sua desagradável presença. Eu era jovem, inexperiente, ele mais velho, habituado como todos os homens ao conforto transitório das comborças de ocasião». In Seomara da Veiga Ferreira, Leonor Teles, ou o Canto da Salamandra, 1998, Editorial Presença, Lisboa, 1999, ISBN 942-23-2347-4.

Cortesia de Presença/JDACT

domingo, 5 de junho de 2016

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «… o facto de Leonor ser natural de Trás-os-Montes e ter lá muitos parentes. Leonor teve antepassados com ligação a Bragança e a Trás-os-Montes. Afonso Teles Córdova, filho do primeiro casamento…»

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«(…) Em 1355 encontramos outra referência do cronista a Martim Afonso Telo. A rainha dona Maria estava em Toro acompanhada de Martin Alfonso Tello, que era natural de Portogal, é viniera com la Reyna Doña María quando ella vino de Portogal, segundo dicho avemos. De Toro, dona Maria pediu aos seus enteados, Henrique Trastâmara Fradique, que fossem ter com ela àquela cidade, antes de o rei seu filho lá chegar, pois temia que este se vingasse da protecção que ela lhes tinha prestado anteriormente. Estes acederam e foram ter com a rainha. Em 1356, a rainha continuava em Toro, com Martim Afonso Telo, a condessa dona Joana, mulher de Henrique Trastâmara e outros cavaleiros. A aproximação do rei de Castela fê-los ir para a alcáçova da cidade, onde julgaram estar mais protegidos. Pedro I e os seus escudeiros entraram em Toro e mataram diversos cavaleiros que estavam contra o rei. Ao chegar à alcáçova, o rei exigiu que a mãe viesse ao seu encontro. Maria ainda tentou negociar o perdão dele para os homens que a acompanhavam, mas o filho mandou-a ir ter com ele, acrescentando que logo saberia o que fazer com os cavaleiros em questão. O resultado foi a morte destes, aos pés de dona Maria e de dona Joana, situação que provocou o desmaio às duas senhoras. Um desses cavaleiros foi Martim Afonso Telo. Ao recuperar os sentidos, a rainha amaldiçoou o filho e a vida e desejou morrer. Dias depois, Maria pediu ao filho que a enviasse para Portugal; o que de facto veio a suceder. A 10 de Janeiro de 1357 a rainha parece ter estado em Toro, segundo a Crónica de Alcântara, mas o Cronicon Conimbricense e a História genealógica da Casa Real portuguesa referem que a 18 de Janeiro a rainha dona Maria faleceu em Évora, depois de ter ido visitar os pais a Leiria.
A Crónica do rei Afonso IV (1325-1357) confirma que Maria faleceu viúva em Évora, mas não indica o ano. Acrescenta só que o corpo foi depois trasladado para a Capela dos Reis em Sevilha. A Crónica de Pedro I, de Fernão Lope, indica que Pedro I de Castela pediu ao seu homónimo, o rei Pedro I de Portugal, seu tio, logo que este começou a reinar, que lhe enviasse o corpo da mãe, para o sepultar ao lado do de seu pai, o rei Afonso XI, na Capela dos Reis, em Sevilha. Solicitou igualmente o envio das joias pertencentes a dona Maria. A História genealógica da Casa Real portuguesa afiança ainda que no testamento da rainha, outorgado a 8 de Novembro de 1351 (um ano depois de ficar viúva), Maria solicitava ser sepultada na dita capela, ao lado do marido, mas que, se este fosse trasladado para outro lugar, fizessem o mesmo com ela. Esta fonte não fez qualquer alusão ao adultério de Maria com o pai de Leonor Teles, antes descreveu a rainha como uma mulher que sempre dedicou ao marido o seu amor, quer em vida deste, quer depois da sua morte. Pero López Ayala também referenciou o óbito de Maria em 1357, e acrescentou-lhe um dado curioso, de que não encontrámos menção nas fontes portuguesas acima mencionadas: Maria morreu vítima de envenenamento causado pelo próprio pai, o monarca Afonso IV de Portugal: segund fué fama, dixeron que el Rey Don Alfonso de Portogal, su padre della, le ficiera dar hierbas con que moriese, por quanto non se pagaba de la fama que se oia della. O rumor era, pois, o adultério de Maria com Martim Afonso Telo, o pai de Leonor Teles.

O nascimento de Leonor Teles
Do nosso ponto de vista, consideramos credível que Leonor fosse natural de Trás-os-Montes. Vejamos os factos: na carta de doação de Vila Real de Trás-os-Montes dada a Leonor Teles, no ano de 1375, Fernando apresentou dois motivos para o acto: a obrigação que o casamento implicava e que o levou a ter de dar bens à rainha para ella sofrer os encargos que escusar nom poder; o facto de Leonor ser natural de Trás-os-Montes e ter lá muitos parentes. Leonor teve antepassados com ligação a Bragança e a Trás-os-Montes. Afonso Teles Córdova, filho do primeiro casamento de Afonso Télez (o quarto avô paterno de Leonor Teles), surge em 1258 como tenente de Bragança. Por outro lado, o irmão de João Afonso Telo I (o trisavô paterno da rainha dona Leonor Teles) foi Martim Afonso, que foi tenens de Santa Maria, Bragança e Montenegro. Por fim, Afonso Martins Telo (avô paterno da rainha) casou com Berenguela Lourenço, de Valadares. Esta família dos Valadares possuía importantes territórios no Norte de Portugal, nomeadamente em Trás-os-Montes, através de ligações matrimoniais estabelecidas com os senhores de Chacim. Leonor possuía, pois, relações familiares com a dita comarca, que prosseguiram ao longo da vida, já que a sua filha Beatriz foi presenteada por seu pai com a vila de Bragança em dote de casamento». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «É esta a primeira vez que encontramos menção a Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles. Depreendemos que este passou a estar ao serviço da rainha a partir de então…»


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A Amante do Pai
«(…) Em 1350, morreu Afonso XI de Castela, vítima da Peste Negra, e subiu ao trono o filho herdeiro dele e de Maria, Pedro I. No ano seguinte, foi mandada executar dona Leonor Gusmão, ao que parece por instigação da rainha viúva, dona Maria. Dona Leonor Gusmão, que fora concubina de Afonso XI, dera-lhe uma plêiade de filhos bastardos que rivalizavam em afectos e poder com o legítimo Pedro I. Foram eles Henrique, conde de Trastâmara; Frederico, mestre de Santiago; Fernando, senhor de Ledesma; Tello, senhor de Aguilhar, de Lara e de Biscaia; Sancho, conde de Albuquerque; João; Pedro; Joana, que casou com Fernando de Castro; e dois outros filhos que morreram de tenra idade. O reinado de Pedro I de Castela ficou marcado por guerras internas, que contaram com a participação de outros reinos, como Aragão e Inglaterra. A par do comportamento violento e indiscriminado de que era acusado, Pedro I também colhia antipatias de alguns sectores da nobreza pela atenção que prestava à sua concubina, dona Maria de Padilha, em detrimento da fraca consideração que votou às mulheres dos seus dois casamentos: dona Branca Bourbon e dona Joana Castro. Após o assassinato de dona Leonor Gusmão, a rivalidade entre Pedro I e os seus irmãos bastardos agravou-se. Henrique de Trastâmara opôs-se a Pedro I, de forma veemente, logo em 1352, com uma insurreição nas Astúrias contra a Coroa, que saiu fracassada. As disputas entre os dois irmãos continuaram por largos anos, já que Henrique não aceitou a autoridade do irmão, que acusou de ser cruel, acabando por se fazer coroar rei de Castela, em Huelgas de Burgos, no ano de 13661. Neste ano iniciou-se pois uma guerra fratricida, que terminou em 1369, com o homicídio de Pedro I às mãos de Henrique, em Montiel. Seguindo o percurso da rainha dona Maria depois de ficar viúva, observámos que esteve presente no casamento do filho, Pedro I de Castela, com dona Branca Bourbon, sobrinha do rei francês, que se celebrou a 3 de Junho de 1353 em Valhadolid3. Nesse mesmo dia, dona Maria tentou dissuadir o filho de ir ter com a sua favorita, dona Maria Padilha, uma vez que ta1 procedimento seria desonroso para a sua pessoa e vexatório para a noiva e o rei de França, seu parente. Pedro assegurou à mãe que o não faria, mas acabou por não cumprir, partindo para os braços da amada. A partir de então, acentuou-se a separação entre a mãe e o filho. Dona Maria protegeu a nora e os fidalgos que se opuseram ao comportamento de Pedro, como João Afonso, senhor de Albuquerque; João Nunes Prado, mestre de Calatrava; Álvaro Peres Castro e Álvaro Gonçalves Mourão. Estes dois últimos, fugindo às perseguições do rei de Castela, recolheram-se em Medina del Campo, onde estava a rainha dona Maria, que, inclusive, lhes cedeu cavalos. Álvaro Peres Castro partiu para Portugal e passou a estar ao serviço do infante Pedro, filho do rei Afonso IV de Portugal e amante ou marido da sua irmã, dona Inês de Castro.
A notícia do apoio prestado pela rainha dona Maria a estes fugitivos deve ter chegado aos ouvidos do filho. Na verdade, quando pouco depois, ainda no ano de 1353, se festejaram as bodas de Tello, irmão bastardo do rei, com dona Joana Lara, senhora de Biscaia, em Segóvia, a rainha dona Maria e os cavaleiros que estavam com ela foram proibidos de comparecer. Pedro de Castela decretou a prisão da mãe e enviou para junto dela uma série de guardas. Em 1354, porém, encontramos dona Maria, em Portugal, a visitar os pais e possivelmente também a assistir ao casamento de sua sobrinha, dona Maria (de 12 anos), com o infante Fernando de Aragão, que se celebrou em Évora. O cronista não referiu a presença da rainha dona Maria na cerimónia, mas indicou que a sua ida àquele reino se fizera com licencia del Rey su fijo. Foi igualmente nesta ocasião que Álvaro Peres Castro, a pedido de João Afonso Albuquerque e dos irmãos bastardos do rei de Castela, Henrique e Fradique, propôs ao infante Pedro de Portugal, filho de Afonso IV, que se candidatasse ao trono castelhano, visto ser neto legítimo do rei Sancho IV de Castela. O infante pareceu ficar satisfeito com o repto, mas o seu pai, Afonso IV fez por o dissuadir de tal empresa.
A rainha dona Maria apercebeu-se da conspiração que João Afonso Albuquerque e os outros planeavam contra o filho e, não querendo ser envolvida no plano, resolveu regressar a Castela, escolhendo um caminho onde não os pudesse encontrar. Acompanhada pelo irmão, o infante Pedro de Portugal (futuro rei D. Pedro I), pelo mestre de Cristo Rodrigo Eanes e por Álvaro Peres Castro, dona Maria partiu de Portalegre e foi para Nisa e depois para Castelo Branco. Aqui permaneceu oito dias, até que fueron aá Sant Vicente de la Vera: é lebaba Martin Alfonso Tello en este caminho á la Reyna Doña Maria por la rienda [rédea], é dalli se levanto la fama que despues ouvieron. É pois esta a primeira vez que encontramos menção a Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles. Depreendemos que este passou a estar ao serviço da rainha a partir de então e que a pretensa relação amorosa se iniciou também na mesma altura. Martim Afonso seguiu com a rainha para Castela (para Toro, ao encontro do rei Pedro), enquanto os outros acompanhantes foram só até pouco depois de cruzar a fronteira, regressando então a Portugal». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

domingo, 31 de janeiro de 2016

Narrativa no 31. O Canto da Salamandra. Leonor Teles. Seomara Ferreira. «Ela, a tal mulher, uma judia pobre enrolada num manto apardado, de baixa qualidade, é evidente, e que os mortos espoliava para lhes vender os tristes panos»

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Do Sonho e da Guerra
«(…) O rei Dinis I, esse, ah, meu amigo!, era diferente. E vede lá, dos dois o que maior dor me provocou foi João. Apesar de Dinis I ter, inclusive, pretendido assassinar-me. Dinis I é mais novo ainda, menos um ano que eu. Foi sempre um menino querido para o pai que via nos filhos de dona Inês o futuro da sua terra, a consumação dos seus miríficos sonhos. Desde pequeno foi-lhe concedido um rendimento que, à morre do pai, rondava as dez mil libras. Altivo, também extremamente pertinaz e violento, tem como aio um homem de nobre carácter, é certo, mas que lhe incutiu na alma um veneno indestrutível, o ódio: Gil Vasques Resende. Já homem, escolheu para conselheiro aquele que foi a alma e o cérebro do assassínio de sua própria mãe: o ressabiado Diogo Lopes Pacheco. Aprendi ao longo da minha vida que em política não há bem ou mal mas resultados. Se foi isso que o Pacheco ensinou a meu cunhado Dinis, estaria certo, mas não compreendo como rum homem que se diz nobre e de honestos sentimentos pode compactuar e comer à mesma mesa com outro que barbaramente retirou a vida àquela que o pôs aqui neste mundo. Talvez eu esteja errada, frei Juan, e os desígnios do mundo e de Deus, que me ultrapassam, os justifiquem mas não posso, em consciência, aceitar. Disseram-me, e posso até vos dizer quem, a minha camareira Maria Peres e o Guedelha, que foi médico meu e do rei meu marido, que Dinis, para se livrar de mim, como em Lisboa não conseguiu, quando Fernando e eu resolvemos casar, até contratou os serviços de uma dessas mulheres que se dedicam à bruxaria... Ela, a tal mulher, uma judia pobre enrolada num manto apardado, de baixa qualidade, é evidente, e que os mortos espoliava para lhes vender os tristes panos, derretera chumbo e lançara-o em água fria para com ele conseguir uma figura de mulher que, depois, pendurou num pedaço de cordel e sobre ela fez muitos sinais, proferiu encantamentos e disse orações numa estranha língua que ninguém percebia. O sortilégio só resultou alguns anos depois... Sempre conheci judeus. De resto existe sempre na Casa Real um ou vários. Tive-os ao meu serviço na fazenda, como criados e como médicos. O Guedelha de que lhe falei for médico, ilustre, mas, como todos, não conseguia milagres. Fernando não se curou. O irmão do judeu, chamado José, era um dos mais belos homens que conheci. De elevada estatura, branco, aquela tez pálida e os lábios vermelhos, o cabelo acobreado, uma figura no todo cativante e majestosa. É escritor e poeta e, dizem, filósofo. O Guedelha lá tem sobrevivido. É agora o médico do Mestre de Avis, do rei de Portugal.
Em Lisboa os judeus vivem entre as barbacãs da cerca que o rei Afonso construiu, o terceiro de nome, e a Porta do Mar. Ainda chamam a essa zona o bairro de Gibraltar, da Vila Nova. Ainda me recordo das badaladas do sino da Oração, ao lusco-fusco, quando os judeus e os mouros, que viviam e vivem a Oriente de S. Domingos e na base do monte de Alfela, acorriam de rodo o lado onde labutavam e mercadejavam com os cristãos, para o sossego de suas casas, isolados da população cristã. Recordo-os e à cidade, que sempre me odiou por obra e graça dos burgueses e de meus cunhados. A cidade que se lança sobre o rio como uma barca branca, saída de tempos passados, ruidosa e viva, cheia de luz e que eu pensei amar quando a olhei pela primeira vez. Há momentos especiais da nossa memória que, despertos, são um livro, uma vida. E chegam a ser tão fortes, perfeitos e poderosos que acabam por criar um tempo próprio, libertos de nós, como se não nos pertencessem. Vêmo-los ali, na nossa frente, quase intocados, não fora a saudade. Vi Lisboa pela primeira vez só um ano depois de me ter casado, em 1407. Só conheci Fernando em casa de sua irmã, a Infanta, em Agosto de 1409, quando fui visitar minha irmã, então já viúva e também mãe de um filho». In Seomara da Veiga Ferreira, Leonor Teles, ou o Canto da Salamandra, 1998, Editorial Presença, Lisboa, 1999, ISBN 942-23-2347-4.

Cortesia de Presença/JDACT

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. « Mas dona Maria acabou por engravidar e Leonor de Gusmão temeu que a rainha desse a Afonso o desejado filho legítimo, facto que impediria que um dos seus ascendesse à Coroa»

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O Pai de dona Leonor em Castela
«(…) Dona Maria, filha de Afonso IV de Portugal, celebrou as suas bodas de casamento com Afonso XI, rei de Castela, em Alfaiates, no ano de 1328, e em 1333, na cidade de Burgos, o casal foi coroado. O consórcio não terá sido feliz, pois o monarca, dois anos depois de casar, não conseguindo que Maria engravidasse, iniciou uma relação amorosa com uma fidalga, Leonor Nunes Gusmão, de quem veio a ter muitos filhos. Esta relação manteve-se até ao final da vida de Afonso, apesar dos esforços dos seus vassalos e do seu sogro para que findasse. Leonor era a sua conselheira e exercia sobre ele e sobre o reino o verdadeiro poder. Reza a crónica que era em casa dela que Afonso XI reunia o seu Conselho e desembargava os assuntos do reino. Leonor estava rodeada dos melhores prelados e ricos-homens do reino, que lhe beijavam a mão e a tratavam como se ela fosse rainha de Castela. Quando o monarca partia em campanhas contra os mouros ou estava fora por outras razões, os oficiais de justiça e de chancelaria ficavam com ela.
Mas dona Maria acabou por engravidar e Leonor de Gusmão temeu que a rainha desse a Afonso o desejado filho legítimo, facto que impediria que um dos seus ascendesse à Coroa. Para evitar tal episódio, Leonor de Gusmão encomendou um feitiço a uma moura capaz de matar dona Maria e o seu rebento. No entanto, depois de dez dias e oito horas de parto agonizante, a rainha foi socorrida por um físico e astrólogo judeu que o monarca mandara chamar e que foi capaz de quebrar o encantamento. O infante Pedro, futuro Pedro I de Castela, o Cruel, nascia, pois, a 21 de Agosto de 1333. Apesar da alegria com que Afonso XI acolheu este acontecimento, a relação com a concubina manteve-se até ao final da sua vida. A rainha era preterida, recebendo Leonor Gusmão muitas das terras que tradicionalmente costumavam ser entregues às consortes legítimas dos monarcas de Castela.
Os melhores oficiais da rainha dona Maria foram-lhe retirados pelo próprio marido e alguns foram entregues aos filhos de Leonor Gusmão. A crónica fez menção de que um dos que saiu foi Rodrigo Álvares Astúrias, mordomo-mor de dona Maria, mas não indicou se foi servir os bastardos do rei. Ora, para nós, é importante registar que, por volta de 1333, a rainha ficou sem o seu mordomo-mor, já que sabemos que Martim Afonso Telo, pai de dona Leonor Teles, veio a ocupar este cargo, talvez logo nesta ocasião, ou apenas em 1340, conforme aventou Monteiro Machado. Este estudioso propôs esta data baseando-se na hipótese de que a formosíssima dona Maria, rainha de Castela, teria recrutado para seu mordomo-mor o dito Martim Afonso Telo ao vir a Évora pedir ao pai com grande humildade e muitas lágrimas auxílio militar na batalha (a dita Batalha do Salado) que o marido iria travar contra os reis de Marrocos e de Granada. Anselmo Braamcamp Freire acrescentou, por seu lado, que Martim Afonso Telo se veio a tornar amante da rainha de Castela, a infeliz dona Maria de Portugal.
Assim, tem sido relativamente consensual na historiografia portuguesa aceitar que os pais de dona Leonor Teles viveram em Castela, entre 1340 e 1356, (ano em que Martim Afonso Telo foi assassinado) e que os seus filhos terão lá vivido e talvez até nascido. A nossa investigação, porém, propõe-nos datas e convicções diferentes. Primeiro: lendo com atenção a crónica do rei Pedro, de Pero López Ayala, e não possuindo outras fontes, julgamos que Martim Afonso Telo passou a estar ao serviço da rainha dona Maria, em 1354, que morreu, de facto, em 1356, e que, durante este período, é provável que os dois tenham sido amantes. Segundo: consideramos muito possível que dona Leonor Teles tenha nascido em Portugal, possivelmente em Trás-os-Montes, como Fernando afiançou». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «A excelência do seu trabalho e a sua intensa formosura conquistaram o coração do bom lavrador. Acabou por lhe pedir a mão em casamento e Ximena aceitou de bom grado»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«(…) Ana Paula Sousa sublinhou a urgência da dinastia de Avis em legitimar as suas origens (a bastardia e o golpe de Estado). Isabel Barros Dias afirmou que, quanto mais próximo se está dos acontecimentos narrados, mais feroz é a crítica, embora esta se faça de modo velado, não assumido. Segundo a investigadora, a exaltação dos novos detentores do poder tornava tentador o aproveitamento a partir de figuras marcadas como negativas, tais como Fernando e dona Leonor Teles. E o que teve a dizer Fernão Lopes sobre este assunto? Obviamente ele não escutou os reparos que sucintamente parafraseámos. Mas no seu Prólogo à Crónica de D. João I, primeira parte, respondeu já a algumas das questões suscitadas. Ao escrever as crónicas dos reis passados e do rei presente, João I, Fernão Lopes afirmou que a sua intenção não fora escrever um romance ou deturpar os factos históricos, de acordo com as conveniências afectivas e políticas, como tinham feito alguns historiadores de Castela e de Portugal que se haviam desviado da direita estrada, e corrido por semideiros escusos. Tão-pouco foi buscar a eloquência do discurso, pois se outros per venrura em esta crónica buscam formosura e novidade de palavras e não a certidão das histórias, desprazer-lhes-á de nosso razoado. O seu objectivo principal foi apenas contar a verdade, qualquer que esta fosse: nosso desejo foi em esta obra escrever verdade sem outra mistura, leixando nos bons aquecimentos todo fingido louvor e nuamente mostrar ao povo quaisquer contrarias cousas da guisa que avieram. Se errar, foi por ignorância e não por vontade de deturpar a história, visto que mentira em este volume é muito afastada da nossa vontade.

A Lenda
Era uma vez um rei chamado Ordonho II, que governava em Leão em 921. Este rei tinha uma filha, Ximena, que era bela e gentil e que se deixara seduzir por um fidalgo da corte de seu pai. Algum tempo depois, a bela infanta viu-se abandonada pelo seu bem-amado. Sentindo-se só e amargurada, Ximena resolveu recolher-se no lugar de Meneses, em terra de Campos. A sobrevivência obrigou-a a procurar trabalho na casa de um lavrador abastado e honrado, que se chamava Telo Sanchez. Este acabou por se comover pelos modos modestos e desamparados que a bela serva demonstrava ter nas suas lides. A excelência do seu trabalho e a sua intensa formosura conquistaram o coração do bom lavrador. Acabou por lhe pedir a mão em casamento e Ximena aceitou de bom grado.
Passado pouco tempo, tinha já o casal dois filhos gémeos, Ordonho foi caçar para as montanhas e, chegada a noite, pediu agasalho na casa de Telo, a principal daquele lugar. Ximena reconheceu o ilustre viajante e, não querendo perder a oportunidade de se dar a reconhecer ao pai, preparou-lhe um belo repasto. Enquanto isso, resolveu ir buscar o vestido de brocado com que fugira da corte e um anel de rubi que o pai lhe tinha dado. Do vestido fez duas vestes para cada um dos seus filhos e o anel deitou-o no prato do pai, onde serviu um preparado de massa, azeite e ovos, a comida preferida do rei. À hora da refeição, Ximena mandou os filhos, vestidos com as ditas vestes, servirem o hóspede. Ordonho, que ainda não tinha suspeitado de nada, surpreendeu-se ao ver as duas crianças trajadas daquela singular maneira.
Depois, quando provou o manjar, admirou-se por lhe terem servido o seu prato predilecto. Mas a surpresa maior foi quando descobriu, no interior da massa, o anel de rubi! Ximena atirou-se então a seus pés e pediu-lhe perdão pela sua conduta. Ordonho reconciliou-se com a filha e reconheceu a magnitude do lavrador que casara com Ximena, julgando elevá-la socialmente. Declarou os filhos do casal como seus netos e nobilitou o lavrador. A família, unida, feliz e aumentada, partiu para a corte, onde foram celebradas justas festejando o regresso de Ximena e a sua descendência. Esta é a lenda que está associada ao lugar de Meneses, onde a família de Leonor Teles teve raízes. Cruzando esta narrativa com a História, sabemos que Ordonho II nasceu em 860 e faleceu em 924. Foi rei da Galiza, de 910 a 924, e rei de Leão, entre 914 e924. Casou três vezes, mas só teve descendência do primeiro consórcio, tendo sido Ximena a terceira dos seus filhos bastardos. Sucedeu-lhe o seu irmão, Fruela II, que reinou em Leão entre 924 e 925 e nas Astúrias entre 910 e 925. Fruela II foi o duodécimo avô de dona Leonor Teles». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Realeza no 31. Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «Em 1458, por ordem do rei Afonso V, o cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, Gomes Eanes Zurara, iniciou um processo de depuração e remodelação […] os dezassete livros de Fernando I resumiram-se a dois, os quarenta e oito de João I passaram a quatro…»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«(…) A leitura das crónicas, como de toda a outra documentação, deve ser feita com alguma reserva. No caso das crónicas lopesianas, náo deveremos deixar de ter em conta que foram escritas entre 1437 e 1443, ou seja, sensivelmente sessenta a setenta anos depois do reinado fernandino (1367-1383) e da regência de dona Leonor (22 de Outubro de 1383 a Janeiro de 1384). Esta distância temporal, embora não seja muito acentuada, difere da do tempo em que o cronista castelhano Pero López Ayala (1332-1407) viveu. É preciso que saibamos, também, que Ayala foi não só cronista, como curador do casamento entre o infante Henrique e a infanta portuguesa dona Beatriz; chanceler e alferes-mor do rei João I de Castela (marido da dita dona Beatriz); vassalo presente nos juramentos ao Tratado de Salvaterra de Magos e participante na batalha de Aljubarrota, do lado castelhano. Ou seja, ao contrário de Lopes, foi testemunha ocular de acontecimentos passados na época a que nos reportamos, acontecimentos esses muitas vezes relatados nas suas crónicas. Por fim, é importante ter em conta que a obra de Fernão Lopes resultou de uma encomenda feita pela dinastia de Avis, nos primeiros anos da sua vigência, quando urgia afirmar o reinado dos novos governantes.
A juntar a estes factores, existe a informação de que a maioria dos documentos que fizeram parte dos livos da chancelaria de Fernando I (que contém também os diplomas de dona Leonor Teles) não chegou até nós. Vejamos porquê. A Torre do Tombo, criada por Fernando I, em 1378, e instalada no castelo de São Jorge, passou a ser o arquivo onde se guardavam os livros das chancelarias régias. Com o passar dos anos, a desorganização foi-se instalando: o grande número de livros de registos, o desconhecimento da língua latina e do português arcaico, a ilegibilidade das grafias antigas, o estado de conservação, a proficuidade de traslados e cópias de um mesmo acto, a caducidade das cartas tornavam inútil uma parte dos diplomas guardados e dos registos feitos e, ao mesmo tempo, dificultavam o exame e a consulta dos mesmos.
Urgia reformular a Torre. Em 1458, por ordem do rei Afonso V, o cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, Gomes Eanes Zurara, iniciou um processo de depuração e remodelação que marcou para sempre a História e que consistiu no seguinte: escolher nos livros de registo antigos os actos dignos de memória e copiá-los para novos livros de registo. Assim, os dez livros de Pedro I foram reduzidos a um, os dezassete livros de Fernando I resumiram-se a dois (Livros 1 e 2, da sua chancelaria), os quarenta e oito de  João I passaram a quatro e os cinco de Duarte I a um. Os antigos livros de registo passaram à categoria de obsoletos e foram esquecidos, até acabarem por desaparecer no reinado de João III; se no inventário de 1526, feito por Tomé Lopes, guarda-mor da Torre, ainda constavam cerca de setenta desses livros antigos, entre os quais os dezassete de Fernando I, no inventário de 1529, elaborado pelo guarda-mor seguinte, Fernão Pina, a respeito do conteúdo deixado pelo seu antecessor, os mesmos já não foram citados. Assim sendo, só depois de João I e, sobretudo, a partir de Duarte I, voltaram a existir registos primitivos (e não registos reformados), com actos mais numerosos e mais bem conservados do que os livros de chancelaria dos reinados anteriores.
A chancelaria do rei Fernando I resume-se actualmente a quatro livros. O primeiro e o segundo são cópias do século XV e englobam todo o reinado. O terceiro é um livro original respeitante aos anos de 1381-1383. O quarto tem fólios originais dispersos que compunham alguns dos livros antigos da chancelaria fernandina, contendo actos produzidos nos anos de 1368-1378. Ao fazer a cópia do registo, o escriba riscava-o com um X ou um traço oblíquo, escrevendo por baixo traslado, passando depois ao registo seguinte, sobre o qual aplicava o mesmo processo. Esta triagem foi feita ao longo do tempo por diferentes agentes. No início, pelos próprios serviços de chancelaria que trabalhavam para Fernando I, depois pelo próprio Fernão Lopes, que foi guarda-mor da Torre e que teve ainda acesso aos dezassete livros iniciais da chancelaria fernandina, e, por fim, pelas depurações praticadas nos séculos XV e XVI. A partir do século XX, alguns historiadores chamaram a atenção para a suposta parcialidade do cronista. Horácio Ferreira Alves, por exemplo, alertou para o facto de as crónicas antigas, em que Fernão Lopes se baseou para escrever a história dos reis antigos, terem desaparecido depois dele. Na sua opinião, este desaparecimento foi intencional, já que a sua existência podia contrariar a verdade contada por Fernão Lopes. Enaltecer o reinado de João I, cujo filho sustentava o cronista, era imperioso, mas exigia que se deformassem e falsificassem os reinados anteriores, particularmente os de Pedro I e de Fernando I, de modo a que o governo de João I pudesse sobressair e ser aceite como uma tábua de salvação que reerguia Portugal da crise económica e social em que mergulhara no final do século XIV». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «Numa carta de 19 de Março de 1434, o monarca encarregou-o de pôr em crónica as histórias dos reis que antigamente em Portugal foram, isso mesmo os grandes feitos e altos do mui virtuoso e de grandes virtudes el-rei meu senhor e padre, cuja alma Deus haja»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«As crónicas de Fernão Lopes sobre os rei Fernando I e João I (primeira parte) constituem a fonte do nosso conhecimento sobre a vida de dona Leonor Teles. Quanto à participação da rainha no reinado de Fernando I e na regência, é possível encontrar outras fontes) como os diplomas da chancelaria do rei (serviço responsável pela elaboração dos documentos régios) ou outros ligados aos mosteiros com os quais ela se relacionou. Por ora, debrucemo-nos sobre o cronista e conheçamos um pouco da sua vida e obra na pequena cronologia que se segue: 1380. Nascimento provável de Fernão Lopes, no seio de uma família de camponeses ou de mesteirais, em Lisboa. 1418. Data apontada para o início da sua carreira de guarda-mor da Torre do Tombo. Simultaneamente, foi escrivão do rei João I e do infante Duarte. 1419. Por ordem do infante Duarte, começou a escrever a Crónica dos sete primeiros reis de Portugal. Parece ter iniciado, também, as crónicas sobre Pedro I e Fernando I e as duas partes da crónica sobre João I. 1422. Exercício do cargo de escrivão de puridade (espécie de secretário dos assuntos particulares) do infante Fernando. 1434. Duarte, agora já rei, oficializou o trabalho de Fernão Lopes, que o deve ter iniciado em 1479. Numa carta de 19 de Março de 1434, o monarca encarregou-o de pôr em crónica as histórias dos reis que antigamente em Portugal foram, isso mesmo os grandes feitos e altos do mui virtuoso e de grandes virtudes el-rei meu senhor e padre, cuja alma Deus haja. Em troca deste trabalho, o escritor recebeu uma tença de 14 000 reais anuais. Parece ter-lhe sido, igualmente, passada uma carta de nobreza, usando ele, a partir desta altura, o título de vassalo de el-rei; redacção da Crónica de D. Pedro I.
1437.Início da elaboração da Crónica de D. Fernando, cija redacção terá terminado em 1443. 1439. O regente Pedro confirmou-lhe a tença concedida por Duarte I, que falecera no ano anterior. 1443. Final da redacção da Crónica de D. Fernando; final da redacção da Crónica de D. João, Primeira Parte. 1449. Afonso V aumentou a tença anual do cronista para 20 000 reais anuais. Final da redação da Crónica de D. João I, segunda parte. 1454. Foi substituído no cargo de guardador das escrituras do Tombo, por Gomes Eanes Zurara, devido à idade avançada e a um estado de saúde mais debilitado. 1460. Data provável da sua morre.
As fontes utilizadas pelo cronista parece terem sido: crónicas de Pero López Ayala; Crónica do condestabre, anónima; redigida possivelmente entre 1431 e 1436; crónica latina sobre o reinado de João I, que Fernão Lopes atribuiu ao Doutor Christophorus; a crónica de Martim Afonso Melo, mencionada pelo próprio Lopes, no capítulo 47 da Crónica de D. Fernando; Livro de linhagens do conde D. Pedro. A obra de Ayala serviu como fonte para cinquenta e cinco capítulos da Crónica de D. Fernando, e a Crónica de Don Juan I foi aproveitada em setenta capítulos da Crónica de D. João I. A utilização da Crónica do condestabre como fonte é quase total; apenas oito capítulos não são utilizados por Lopes. As fontes narrativas dominaram a pesquisa de Fernão Lopes e a consulta das fontes documentais ocorreu, de forma pontual, somente para completar o relato. Primeira publicação das suas obras: 1644. Crónica de D. João I; 1735. Crónica de D. Pedro I; 1816. Crónica de D. Fernando». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Por isso, homens e mulheres emanavam depois da morte corporal aquela bolha fantasmática, transparente e incolor, que ficava a pairar no oceano invisível das almas dos defuntos»

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O Comércio do Invisível
«(…) Fazia-se donzela acabada de sair da primeira idade, mas metia em tudo uma disposição firme e madura, que tanto lhe subia da natureza arredia como da imaginação excitada pelo sal das narrativas bíblicas ou populares. Também a irmã, dona Maria Teles, mais velha, mais estimada, e muito mais requestada do que ela em meio paceiro, lhe merecia pouco apreço, apesar do carinho que dela recebia. Estava certa que só enquanto se apagasse, no silêncio da sua capa, ajudando a irmã a brilhar, o afecto duraria. Era de resto o que sucedia com a primita, dona Leonor Meneses. Se um dia a irmã levantasse a ponta do seu véu e percebesse o que ele tapava, moveria com desagrados escandalizados a língua contra ela. O doesto é quase sempre um prato espontâneo, cozinhado de improviso, mas que traz no paladar o sabor pensado da vingança. Em virtude de contraste assim tão marcado, dona Leonor Teles calava e escondia.
Nada dizia ou mostrava de si. O isolamento passou a ser a protecção da sua dissemelhança. Solidão e silêncio, em vez de castigo, serviam de socorro; eram duas flores forçadas e amargas, que libertavam porém alívio e conforto no perfume. Da visão da história da Terra e dos mundos tirava dona Leonor Teles uma relação extensamente conflituosa com a existência terrena. Possuía uma memória antiquíssima do plano terrestre e era capaz de distinguir, por entre a densa névoa de sofrimento em que a Terra mergulhara, o momento glorioso da criação paradisíaca. De qualquer modo, percebia que essa origem fora subvertida e que a Terra, pela destruição do seu princípio, se tornara num caos infernal de confusão. A humanidade, esquecida do seu estado primeiro, passara a viver do aguilhão dos instintos mais basilares, enovelando-se num enredo de lutas e de crimes. Era presa duma amnésia e duma inclinação maléfica. Concomitante ao aviltamento das qualidades do homem e da mulher, estava a degradação da natureza. Os animais, que haviam vivido outrora no Paraíso numa mansidão sem mancha, tornaram-se, com excepções pouco frequentes, predadores ferozes e cegos, que viviam para se devorarem uns aos outros.
Por isso, homens e mulheres emanavam depois da morte corporal aquela bolha fantasmática, transparente e incolor, que ficava a pairar no oceano invisível das almas dos defuntos. E por isso ainda, animais e plantas depois de perderem a sua forma terrena libertavam aquelas emanações invisíveis, ora horrorosas e repelentes, ora aceitáveis e até simpáticas, que se chamavam elfos, fadas, génios, monstros e orcos. Não podia dona Leonor Teles conviver serenamente com um mundo assim constituído. Aquilo que mais lhe inspirava aversão eram certos fantasmas humanos que flutuavam na atmosfera das almas mortas. Logo a seguir, na escala do seu pavor, vinham os monstros disformes e os orcos, que eram o resultado das emanações fétidas das feras terrestres que haviam passado a vida a rosnar e a beber o sangue das suas congéneres. Havia depois os elfos, os duendes, as fadas e os génios que eram volatizações próprias aos seres mais pacíficos e misteriosos da natureza, sobretudo aqueles que abriam em caprichosas e olorosas flores, vivendo uma vida de silêncio, quietude, cor e beleza. Havia ainda certos animais que emanavam seres invisíveis atractivos, dignos de benquerença. Estavam nesse caso os que se alimentavam apenas de ervas, sementes ou frutos, e ainda outros que viviam, fechados na sua casca, quase sem contacto com o exterior e quase sem necessidade de alimento. Ainda assim, todo este conjunto de seres invisíveis benéficos vivia uma vida oculta e fugitiva, acossada em permanência pelos grandes monstros e os desproporcionados orcos». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «Olhava dona Leonor Meneses, sua prima, modelo de casquilhas e linguareiras, e não se impedia de comentar. Deus me guarde de tal modo! Não há mofina pior que viver amiúde em faladuras de alheios»

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O Comércio do Invisível
«(…) Pela segunda vez, se sentiu Deus desiludido com a sua criação. Primeiro, aspectos ingovernáveis da omnisciência dos planos subtis, haviam feito degenerar a sua primitiva obra numa batalha campal entre duas facções rivais; agora, a própria degradação dos planos subtis de tal modo se infiltrara na sua nova modelação, que do primeiro estado da Terra nada restava. Nem tudo estava ainda assim perdido, já que a humanidade podia optar por uma aliança com os anjos da Luz, repelindo os rebeldes; um tal conluio se revelaria até decisivo para o recuo definitivo das legiões diabólicas, se não para o seu aprisionamento e posterior desaparecimento. Não podia porém restituir à humanidade a sua primitiva imortalidade; tudo o que lhe sobrava era esperar, ansioso mas distante, o resultado da livre escolha do homem e da mulher. Retirou-se pois o Criador para o píncaro do seu universo, aí onde a Luz podia brilhar sempre no meio-dia.
Era o seu reduto e aquele que mais próximo estava do seu estado inicial, quando a criação não se diferenciara ainda do seu Criador e todos os problemas correlatos que daí advieram eram desconhecidos. Entregou o comando das operações contra os revoltosos aos seus arcanjos e a vigilância dos seus domínios aos querubins e serafins. Ele ficou entregue ao Nada, que fora a sua primitiva existência. Apenas saía desse estado de nolição, para tomar contacto com a sua coorte e activar em momentos particulares uma subtil intervenção providencial na nova natureza material da Terra. Ele não podia restituir a inocência original à humanidade, e por via dela o seu glorioso estado de imortalidade inicial, mas podia não obstante, por uma intervenção pontual bem dirigida, agir sobre ela, aclarando o seu discernimento e acelerando as suas escolhas a favor da Luz e do Bem. Assim acontecera com Noé e Abraão, assim sucedera com Jacob, com José e com Moisés. Assim se voltara a cumprir com David, com Salomão, com Daniel e com os profetas. O derradeiro momento dessa intervenção era a presença de Jesus Cristo na história da humanidade. Jesus era o Filho unigénito do Criador, uma emanação da Luz mais alta, um emissário da inteligência divina, propositadamente enviado à humanidade para se misturar com ela. Por Ele se havia encetado o processo da definitiva redenção da Natureza material degradada da Terra e a sua resoluta reintegração na Luz pura do Pai.
Eis a visão que dona Leonor Teles tinha da criação do plano terreno. Percebiam-se nesta visão aspectos seminais que vinham da formação com o cónego de Braga unidos a outros que eram apenas o resultado da sua índole de solitária e imaginativa. Caso os manifestasse, seria com certeza repreendida, ainda que brandamente, pois nela se via pudor, concórdia com a eucaristia, que todos os dias tomava, e fé na figura de Cristo. Mas ela, fechada e anacoreta, guardava o que pensava. Vivia desejosa de solidão; por ela resguardava segredos e salvava o invisível. E por essa porta chegava o eflúvio divino dos primeiros tempos, a que ela se habituara, depois da lição do cónego, a chamar de bdélio. Tinha consciência que o seu saber era o resultado dum dom invulgar, que pouco se semeava e mais raro se colhia; se o não calasse, roubar-lho-iam. A mediunidade com que soubera observar primeiro a história da vida terrena, desde o parto no paço de Zamora até à estação do Paraíso, e depois a existência dos mundos invisíveis, a partir das auras emanadas pelos seres materiais até às manifestações dos mundos subtis primordiais, alertara-a para a raridade da sua situação, levando-a a instituir um contraste com os contemporâneos. Olhava dona Leonor Meneses, sua prima, modelo de casquilhas e linguareiras, e não se impedia de comentar. Deus me guarde de tal modo! Não há mofina pior que viver amiúde em faladuras de alheios». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

domingo, 28 de junho de 2015

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «A História de Portugal teve em Leonor Teles e em João de Avis uma bifurcação de dois ramais, ou de duas vontades, em que um ficou por seguir. A História correu até hoje, a toda a velocidade, impante e ufana…»

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O Comércio do Invisível
«(…) Estava porém certa que o mundo físico e visível tal como se desenvolvera não era para si. Ela via a criação do mundo terreno de acordo com o relato bíblico. A Terra fora a última criação do Criador. Pretendera este por um lado emendar a mão, depois de alguns dos seres celestes se revoltarem contra a sua ordem e se exilarem nos recantos mais afastados do universo, criando aí um reino independente, a partir do qual iniciaram uma guerra declarada aos seres que lhe haviam permanecido fiéis, e por outro quisera descansar um pouco das fadigas da criação, vindo tomar a brisa cósmica naquele parque chamado Terra, com essa novidade que eram os seus habitantes. Acreditara ingenuamente que essa plateia permaneceria arredada da luta dos seus anjos. A criação da Terra obedecera a projecto distinto e estava apenas fadada a ser um intervalo de repouso nas trabalhosas canseiras em que o Criador se metera depois da rebelião dos seus anjos. O plano dessa criação desconhecia o Bem e o Mal e era por isso irrelevante nas premissas da rebelião.
Descuidara entretanto o Criador o extraordinário avanço dos revoltosos. Confinados a princípio a um pequeno recanto dos limites do universo, tinham vindo a multiplicar os seus domínios. Souberam eleger entre eles um condutor seguro, o Diabo ou o Divisor, que lhes dera uma estratégia de multiplicação imparável. Aproximavam-se assim dos planos mais luminosos da Criação como uma enchente se aproxima das terras secas. Durante largo espaço, funcionou a Terra como o lugar onde o Criador, longe do Bem e do Mal, descansava das suas preocupações, que muitas eram por via daquela guerra. Era o Paraíso, onde Deus, depois da experiência meio falhada da criação dos anjos, tentara emendar a mão, voltando a ter novas crias, desta vez mansas, ingénuas, humildes. Mas a capacidade de multiplicação do Diabo era já de tal ordem que se apercebeu da totalidade dos propósitos do Criador e se conseguiu insinuar no novo plano da Criação, subvertendo-o por dentro. Para isso conseguiu infiltrar na Terra o Bem e o Mal, que eram o meio ou a essência da luta dos seus anjos. Quando se apercebeu da presença destas duas forças junto do homem e da mulher, o desespero do Criador foi enorme. Viu os seus filhos mais jovens, nos quais apostara uma segunda criação isenta dos erros ou das imprevisibilidades da primeira, pasto das mesmas divisões em que a primeira criação soçobrara. Teve um momento de desalento, ao medir as consequências daquela convulsão.
A Natureza terrena saíra das suas mãos imortal; a garantia desse estado era o desconhecimento do Bem e do Mal. O primeiro resultado da destruição da primitiva ordem era o colapso dessa eternidade. Com o fim do estado imortal da Natureza, vinha o sofrimento da matéria, a dor, a doença, a noite, a escassez, a morte, o esforço, quer dizer, o Mal. Sem remédio, a Natureza, que fora a esperança do Criador, decaía de plano, perdendo a sua primitiva glória. Não que a Terra tivesse caído definitivamente nas mãos da rebelião diabólica, mas volvera-se pelo menos em novo e perigoso palco de investidas revoltosas. A Terra, que fora criada como intervalo de repouso, via-se de repente motivo duma inesperada disputa. No fundo, o confronto do plano anterior, próprio aos anjos, alastrava à Natureza terrena, fazendo dela um tabuleiro decisivo das forças em confronto. A Terra passava, no círculo geral do universo criado, de breve desvio quase irrelevante, tapada onde Deus vinha saborear a ignorância do Bem e do Mal, a região do meio, verdadeiro tampão entre os que habitavam as regiões luminosas e permaneciam fiéis ao Criador e os sublevados que haviam decidido tudo submergir em negra treva.
Todo este processo significara uma carregada derrota para os planos subtis onde viviam os anjos da Luz. A Terra, que fora criada muito próxima desses planos, estava agora meio chamuscada pelas labaredas da rebelião. Perdera o seu estado de jardim estável e glorioso e ganhara um semblante de fuligem cinérea, com céus enegrecidos por tempestades de fumos narcóticos e malévolos. Relâmpagos assustadores fendiam de há muito a escuridão em que a Terra mergulhara depois da intromissão dos anjos revoltosos. Ao optarem pelo conhecimento do Bem e do Mal, o homem e a mulher haviam perdido a imortalidade da sua primitiva criação e haviam outrossim ganho a liberdade de optar, quase sempre sem disso haverem a consciência, entre as duas forças em confronto». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

Vida Ignorada de Leonor Teles. António Cândido Franco. «O rombo das convenções, o apuro dos sentimentos e a transcendência do amor são o mote para a viagem ao seio de uma história apócrifa, velada e secreta, que os historiadores persistem em ocultar»

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O Comércio do Invisível
«(…) Estes revoluteantes acontecimentos que tinham lugar no interior de dona Leonor Teles eram porém inexistentes para quem apreciasse de fora a jovem sobrinha de Guiomar Pacheco. Bem podia ela identificar com os olhos de dentro a estranha criatura que aparecera a Tobias, que todos os que a observavam de nada se apercebiam. Ninguém a notara até aí e não era agora que alguém se dignava reparar nela. Tudo se passava em segredo, dentro da cortina de silêncio da sua capa escura e mantilha. Tirando a ocasional observação que fizera ao cónego de Braga a propósito do sinal de Caim, ou a expressão de pavor que deixara escapar na capela do paço de Barcelos, e numa altura em que ela descia e subia já a escada dos mundos sobrenaturais como se transitava simplesmente do patamar duma barbacã para o alto dum torreão, ninguém ouvira dela uma palavra sobre a sua estranha vivência interior. Deixara ainda, com teima, de comer carne, mas isso não passava aos olhos dos adultos de braveza ou de falta de costumes. Santa Maria val! Nunca nenhum viu tal cousa, exclamava com frequência a tia, Guiomar Pacheco, quando percebia que a menina não filhava carne de animal e só trincava frutas, folhas ou raízes. Isolara-se nos aposentos que os tios lhe haviam destinado no paço de Barcelos, afastando do convívio todo o ser humano, com excepção duma jovem aia, pouco mais velha do que ela, chamada Maria Peres, que se ocupava do preparo e do arranjo de sua casa. Viera recomendada pelos Castros galegos, que tinham ainda ligação de parentesco vago com o pai da donzela. Era enfiada, pouco atraente, seca de corpo, lábios de pergaminho, nariz deformado, mas levava na apreciação de dona Leonor Teles vantagem sobre todas as outras aias que os tios lhe haviam apresentado. Era silenciosa. O silêncio, num mundo em convulsão como o dela, sempre pronto à metamorfose, era o alicerce da sua experiência; a tagarelice, tão vulgar naquele género de meninas, era ao invés a sua distracção. Demais, era a Peres muito dotada para o apresto doméstico. A casa de dona Leonor Teles, apesar da ausência de pessoal, não perdia em relação à da irmã, que se distinguia por alfenim, ou à da prima, vistosa mas perdulária. Tinha asseio irrepreensível e a formosura dos seus adornos abalava os sentidos mais que qualquer outra. Mas acima de tudo, Maria Peres, fosse pelo jeito, fosse pelo apagamento, não afugentava a subtil exalação odorífera que fora a grande revelação da vida de dona Leonor Teles e que tão esquiva se mostrava ao contacto humano.
Guiomar Pacheco, quando se apercebeu daquele isolamento, não estranhou. Há muito que ambientara a alma à natureza furtiva e singular da sobrinha. O facto da sobrinha não filhar carne para comer fazia dela um ser separado da comunidade civil. Que outro se podia aguardar de ti, menina? És bicho de além mais que senhora de prol. A tua senda está mais numa cela de mosteiro que em torre de paço. E tanto insistia que um dia levou a sobrinha a Braga a visitar as agostinhas de Braga. Dona Leonor Teles, embrulhada nos panos da capelina, não deu sequer pelo lugar, a que mais tarde, em situação reforçada, regressou. Assim como assim, a tia gabava-lhe a limpeza, o gosto dos bordados e a marca dos vários enfeites coloridos que aformoseavam a moradia. E guardava por ela, quando a arredava da comunidade, um veio de respeito, que mais tinha a ver com a discrição que com a singularidade. Dona Leonor Teles não ligava ao assunto das monjas, porque a única cela que conhecia era a que tinha dentro de si. Era de mais bravia para se poder adequar à rígida formação duma casa de religiosas». In António Cândido Franco, Vida Ignorada de Leonor Teles, Edições Ésquilo, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-8092-59-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT