sexta-feira, 31 de julho de 2015

Realeza no 31. Uma Rainha Inesperada. Isabel Pina Baleiras. «Em 1458, por ordem do rei Afonso V, o cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, Gomes Eanes Zurara, iniciou um processo de depuração e remodelação […] os dezassete livros de Fernando I resumiram-se a dois, os quarenta e oito de João I passaram a quatro…»

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Fernão Lopes, a verdade e a história
«(…) A leitura das crónicas, como de toda a outra documentação, deve ser feita com alguma reserva. No caso das crónicas lopesianas, náo deveremos deixar de ter em conta que foram escritas entre 1437 e 1443, ou seja, sensivelmente sessenta a setenta anos depois do reinado fernandino (1367-1383) e da regência de dona Leonor (22 de Outubro de 1383 a Janeiro de 1384). Esta distância temporal, embora não seja muito acentuada, difere da do tempo em que o cronista castelhano Pero López Ayala (1332-1407) viveu. É preciso que saibamos, também, que Ayala foi não só cronista, como curador do casamento entre o infante Henrique e a infanta portuguesa dona Beatriz; chanceler e alferes-mor do rei João I de Castela (marido da dita dona Beatriz); vassalo presente nos juramentos ao Tratado de Salvaterra de Magos e participante na batalha de Aljubarrota, do lado castelhano. Ou seja, ao contrário de Lopes, foi testemunha ocular de acontecimentos passados na época a que nos reportamos, acontecimentos esses muitas vezes relatados nas suas crónicas. Por fim, é importante ter em conta que a obra de Fernão Lopes resultou de uma encomenda feita pela dinastia de Avis, nos primeiros anos da sua vigência, quando urgia afirmar o reinado dos novos governantes.
A juntar a estes factores, existe a informação de que a maioria dos documentos que fizeram parte dos livos da chancelaria de Fernando I (que contém também os diplomas de dona Leonor Teles) não chegou até nós. Vejamos porquê. A Torre do Tombo, criada por Fernando I, em 1378, e instalada no castelo de São Jorge, passou a ser o arquivo onde se guardavam os livros das chancelarias régias. Com o passar dos anos, a desorganização foi-se instalando: o grande número de livros de registos, o desconhecimento da língua latina e do português arcaico, a ilegibilidade das grafias antigas, o estado de conservação, a proficuidade de traslados e cópias de um mesmo acto, a caducidade das cartas tornavam inútil uma parte dos diplomas guardados e dos registos feitos e, ao mesmo tempo, dificultavam o exame e a consulta dos mesmos.
Urgia reformular a Torre. Em 1458, por ordem do rei Afonso V, o cronista e guarda-mor da Torre do Tombo, Gomes Eanes Zurara, iniciou um processo de depuração e remodelação que marcou para sempre a História e que consistiu no seguinte: escolher nos livros de registo antigos os actos dignos de memória e copiá-los para novos livros de registo. Assim, os dez livros de Pedro I foram reduzidos a um, os dezassete livros de Fernando I resumiram-se a dois (Livros 1 e 2, da sua chancelaria), os quarenta e oito de  João I passaram a quatro e os cinco de Duarte I a um. Os antigos livros de registo passaram à categoria de obsoletos e foram esquecidos, até acabarem por desaparecer no reinado de João III; se no inventário de 1526, feito por Tomé Lopes, guarda-mor da Torre, ainda constavam cerca de setenta desses livros antigos, entre os quais os dezassete de Fernando I, no inventário de 1529, elaborado pelo guarda-mor seguinte, Fernão Pina, a respeito do conteúdo deixado pelo seu antecessor, os mesmos já não foram citados. Assim sendo, só depois de João I e, sobretudo, a partir de Duarte I, voltaram a existir registos primitivos (e não registos reformados), com actos mais numerosos e mais bem conservados do que os livros de chancelaria dos reinados anteriores.
A chancelaria do rei Fernando I resume-se actualmente a quatro livros. O primeiro e o segundo são cópias do século XV e englobam todo o reinado. O terceiro é um livro original respeitante aos anos de 1381-1383. O quarto tem fólios originais dispersos que compunham alguns dos livros antigos da chancelaria fernandina, contendo actos produzidos nos anos de 1368-1378. Ao fazer a cópia do registo, o escriba riscava-o com um X ou um traço oblíquo, escrevendo por baixo traslado, passando depois ao registo seguinte, sobre o qual aplicava o mesmo processo. Esta triagem foi feita ao longo do tempo por diferentes agentes. No início, pelos próprios serviços de chancelaria que trabalhavam para Fernando I, depois pelo próprio Fernão Lopes, que foi guarda-mor da Torre e que teve ainda acesso aos dezassete livros iniciais da chancelaria fernandina, e, por fim, pelas depurações praticadas nos séculos XV e XVI. A partir do século XX, alguns historiadores chamaram a atenção para a suposta parcialidade do cronista. Horácio Ferreira Alves, por exemplo, alertou para o facto de as crónicas antigas, em que Fernão Lopes se baseou para escrever a história dos reis antigos, terem desaparecido depois dele. Na sua opinião, este desaparecimento foi intencional, já que a sua existência podia contrariar a verdade contada por Fernão Lopes. Enaltecer o reinado de João I, cujo filho sustentava o cronista, era imperioso, mas exigia que se deformassem e falsificassem os reinados anteriores, particularmente os de Pedro I e de Fernando I, de modo a que o governo de João I pudesse sobressair e ser aceite como uma tábua de salvação que reerguia Portugal da crise económica e social em que mergulhara no final do século XIV». In Isabel Pina Baleiras, Uma Rainha Inesperada, Leonor Teles, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-989-644-230-9.

Cortesia de CLeitores/Temas e Debates/JDACT