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domingo, 17 de abril de 2016

A Condessa Cercada. Isabel. Pedro Torres. «De pouco me vale sofrer por diabos perdidos como estes, não é?, perguntou Abrahem, puxando a rapariga para o seu lado com delicadeza, sorridente, fixando o olhar nas suas íris negras, vibrantes entre o fascínio e o temor»

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«(…) Quem vem lá?, perguntou uma voz exageradamente grossa do meio das almofadas, onde as sombras apenas podiam insinuar a presença dos corpos acomodados. Aí está ele, o nosso grande homem!, disse outra voz masculina, um pouco mais à direita. Anda, vem juntar-te a nós! Já tinha dito que talvez não aparecesses por cá esta semana, mas afinal retiro o que disse… O Alcaide nunca deixa o seu povo, disse o primeiro. Vem, senta-te aqui entre nós, porque quero apresentar-te esta linda jovem, recém-chegada à colmeia! Como é mesmo o teu nome? Junto à porta, Abrahem sorria, observando os amigos de braço apoiado ao longo do umbral da porta, movendo a cabeça em negação num falso gesto de censura. Era ainda jovem, de porte atlético e um rosto belo e anguloso, maçãs salientes e nariz largo e chato, encimando uns lábios carnudos e de sorriso fácil e caloroso, iluminado pelos olhos negros e rasgados, de muito agrado para o sexo oposto. Eu a pensar encontrar-vos na mesquita, nas vossas orações, e afinal deparo-me com esta cena de depravação... Não podem imaginar quanta tristeza me inspiram, disse, ao mesmo tempo que desapertava os cordões ao pescoço do grande manto pardo e enfeitado de motivos arabescos dourados que trazia às costas, entregando-o a um lacaio ainda rapaz, encarregue de o guardar. Instalados, os amigos observavam-no com inocente inveja, abraçados às famosas abelhas da colmeia, as quais acariciavam com gentileza. Eram jovens raparigas, envoltas em lenços de seda coloridos e repletas de colares em torno do pescoço e pulseiras entrelaçadas nos pulsos e tornozelos, adornadas por pequenas medalhas e moedas de reinos distantes, oferecidas por clientes abastados que passavam pela cidade em grandes caravanas de comércio. E sempre que se moviam com os seus gestos arrastados e dolentes, um chocalhar de metal acompanhava-as, como se fosse parte da sua pele a amálgama de metais preciosos que usavam com vaidade. Eram as abelhas ricas, porque na sala dos nobres, dizia-se em jeito de piada, era onde se encontrava o melhor mel.
Espreguiçando-se languidamente, Abrahem aproximou-se dos dois amigos e das três mulheres, e com um gesto de abandono deixou-se cair entre eles, satisfeito. Logo a rapariga nova se aproximava, caminhando de joelhos como um felino e lançando-lhe um olhar fixo e aceso pelas suas pestanas enormes, ao mesmo tempo que procurava, com o braço esticado, sentir o toque da mão do homem em cujos dedos compridos reluziam os anéis. Pela forma hesitante e tensa como executava os seus movimentos, tornava-se clara a sua falta de experiência, bem como o seu receio em desagradar ao mulai importante do qual, advertira-a o patrão com insistência, tinha que cuidar com um esmero exacerbado porque se tratava de nada menos que o alcaide da cidade. E balouçando-se, provocadora, os seus cabelos negros e soltos caíam sobre o kaftan verde do cliente, da cor do mármore italiano e debruado a fio de ouro junto ao colarinho, aninhando a cabeça pequena sobre o ventre do mulai que semicerrava os olhos e a contemplava, bem impressionado. E como uma gata dócil e submissa, ronronando ao toque e calor emanado pelo corpo do seu senhor, assim Abrahem a acariciava, passando os dedos por entre os cabelos suaves e tocados por um perfume adocicado. E ao contrário das outras mulheres abraçadas aos amigos, a quem a idade e o ócio de uma vida sedentária e repleta de prazeres na comida e na bebida haviam trazido os excessos também às formas do corpo, a jovem mostrava-se ainda na plenitude da frescura, magnífica na sua pele lisa, nos dentinhos brancos e de sorriso simples, no desenho da silhueta, ágil e crepitante.
Já viste, Ahmed?, perguntou o amigo sentado ao lado esquerdo de Abrahem, soerguendo-se a custo das almofadas, preso no pescoço pelos braços enleados da mulher de rosto redondo e lábios cheios e carmim, que se recusava a largá-lo. Não há como a tranquilidade de um gato para afastar a tristeza do coração de um homem! Ah, nesse coração de que falas não há tristeza que pegue, nem amor que perdure, respondeu o outro, com uma palmada amigável nas costas do alcaide. Os dois eram filhos de mercadores ricos que percorriam todo o Magrebe com as suas longas cáfilas, carregadas de todos os produtos formidáveis que naqueles anos surgiam, vindas quer do coração africano, quer do oriente. Perfumes, especiarias, armas e marfim, de tudo os seus pais negociavam, numa actividade segura e extremamente rentável, a qual os rapazes logo tomaram, chegada a idade adulta. Toda a vida habituados aos melhores produtos, os dois eram agora eles próprios senhores das suas caravanas, e nas viagens constantes travavam inúmeras amizades, e assim tinha acontecido com o alcaide de Xexuão. Os três eram da mesma idade, e partilhavam o gosto pelas festas nocturnas, pela música e pelos excessos a que se entregavam secretamente na famosa colmeia, conhecida desde Ceuta até Marraquexe. De pouco me vale sofrer por diabos perdidos como estes, não é?, perguntou Abrahem, puxando a rapariga para o seu lado com delicadeza, sorridente, fixando o olhar nas suas íris negras, vibrantes entre o fascínio e o temor. E também ela tentava sorrir-lhe para o agradar, porém não tinha qualquer sucesso, pois os seus lábios cerravam-se contristados, e o seu corpo permanecia rígido e curioso, como um pequeno animal acossado pela presa, pressentindo o seu ataque. Ah, pobre pequena, para quê tanto medo? Podes estar descansada, que não te vou tratar como estes brutos, cujas mãos servem apenas para lidar com camelos... Olha para isto, Ahmed, disse o mercador, pegando numa ponta do kaftan de Abrahem. O senhor alcaide desdenha agora, mas não se queixa quando veste tecidos desta qualidade. E a categoria daqueles sapatos, hã? Couro mais macio que esse, nem no paraíso. Ora, disse, Abrahem com um encolher de ombros, esticando as pernas para observar vaidoso a elegância dos seus sapatos bicudos. Para pequenos luxos destes não preciso das vossas caravanas malcheirosas para nada. Sei com quem negociar para ter tudo o que quero, e não preciso de esperar três semanas». In Pedro L. Torres, Isabel, A Condessa Cercada, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-660-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A Condessa Cercada. Isabel. Pedro Torres. «A porta principal dava para um minúsculo pátio entre as casas, sobre qual se debruçavam janelas apertadas e machrabiryas (varanda cercada por um gradeamento fechado de madeira que permite ver sem ser visto do exterior)…»

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«(…) Como vês, estamos muito mais próximos um do outro do que poderias supor. O teu fim pode ser o meu também. Por isso preciso que me ajudes, e se o fizeres, hei-de comprar-te a liberdade, se um dia a tua cabeça for a mercado. Sabes que nunca hei-de confiar em ti, disse a aia, após um momento de silêncio, olhando o ferreiro de soslaio. Mas também já não confio em ninguém. Diz-me o que pretendes. Uma chuva miudinha voltava, entretanto, a cair sobre a vila. Ao longe encerravam-se, pesadas, as portas da igreja. Apesar da estreiteza da sua fachada e da altura baixa do terraço superior, quando comparada com as casas vizinhas, quem lá entrava pela primeira vez admirava-se sempre pelo grande e intrincado número de divisões que ali havia, e da ilusão de tamanho que estas davam. Por esse motivo, era conhecida como A colmeia, e não havia habitante em toda a cidade que não soubesse da sua existência nem dos assuntos ali tratados. Ficava perdida entre o bairro mais antigo, nas traseiras do casbah, e para lá chegar era preciso atravessar ruas tão estreitas que um cavalo mais gordo não era capaz de por lá passar. E naquele labirinto de casas frágeis de adobe junto ao sopé da montanha a sul praticamente nunca chegava a luz do sol, senão através de pequenas nesgas de curta duração, que de nada serviam para aquecer um lugar sempre fresco, onde a humidade se estabelecia nos meses de Inverno, e onde o vento assobiava, soprado do vale montanhoso e guiado através das encostas pedregosas. Assim era também a colmeia, escondida, complexa e parca de luz, tanto no exterior como na complexa rede de corredores e pequenos quartos que a compunham por dentro.
A porta principal dava para um minúsculo pátio entre as casas, sobre qual se debruçavam janelas apertadas e machrabiryas (varanda cercada por um gradeamento fechado de madeira que permite ver sem ser visto do exterior) atrás das quais era impossível saber se alguém ali espreitava para fora. Tudo era pintado da cor barrenta do adobe e da poeira que errava pelo ar, trazida pelo vento e depositada até nos recantos mais escondidos e abrigados. Normalmente os homens esperavam, junto a uma esquina, que ninguém por ali passasse antes de se dirigirem furtivamente até à tosca porta de madeira, onde davam três pancadas apressadas com os nós dos dedos e esperavam que o empregado, do outro lado, não tardasse em abri-la. Depois sumiam-se na escuridão dos corredores estreitos, abertos a intervalos regulares com entradas para pequenos cubículos sem janelas e chão de terra batida, coberto apenas por velhas carpetes de pele de cabra. Porém, nas traseiras e junto a um terreno descampado e abandonado de cultivo devido ao excesso de calhaus no solo, havia ainda outra pequena porta disfarçada atrás de uma cerca, por onde apenas os visitantes privilegiados entravam, livres dos olhares indiscretos da vizinhança e das suas línguas afladas, sempre ansiosas por novos mexericos. E ainda que não houvesse na verdade esconderijo e entrada suficientemente furtiva para escapar à manha popular que tudo sabia, era sempre por aí que ele entrava, após deixar o cavalo atrelado nas cavalariças destinadas ao exército, a cem metros de distância.
Uma vez lá dentro, era logo tomado pelos ritmos sensuais que a orquestra tocava de forma quase constante, desde a abertura do estabelecimento, até às primeiras horas da madrugada. Pela complexidade dos corredores era difícil perceber de onde vinha a melodia, pois esta reflectia-se e misturava-se nos seus próprios ecos, como se fossem as paredes de adobe as verdadeiras cantoras das notas musicais. E se não fosse um visitante habitual, dificilmente conseguiria guiar-se ali dentro, apenas pela miserável luz de duas ou três velas de sebo ardendo não tanto para efeito de alumiar como de provocar uma atmosfera sedutora e de vício. A intervalos regulares soavam as pancadas do tambor da orquestra, à distância, e seguindo curvado para evitar as traves de madeira do tecto, assim foi o visitante percorrendo o templo labiríntico, rumo à área reservada apenas aos mais abastados, onde as notas do alaúde se misturavam com os risos das melhores concubinas que o mestre Safir, gerente, conseguia encontrar.
Era uma pequena sala rectangular e estreita, rodeada a toda a volta por almofadas e tapetes, que tanto cobriam o chão como as paredes, pintadas de cores quentes e garridas. Do lado direito, ao fundo, acomodavam-se os músicos, sentados em pequenos bancos de madeira e compenetrados de tal forma na sua arte que ignoravam tudo o que decorria no resto do compartimento. Ao lado esquerdo, rodeando duas pequenas mesas de carvalho, ficava a área de lazer, repleta de almofadas de linho e veludo ricamente adornadas, onde os visitantes mergulhavam como monarcas. Uma nuvem de fumo pairava em todo o espaço, visível apenas junto aos pequenos candeeiros de ferro, cuja luz era quebrada por folhas de latão, côncavas e recortadas de forma triangular, e o seu odor a sândalo e haxixe era tão intenso que tornava o ar embriagado e sufocante». In Pedro L. Torres, Isabel, A Condessa Cercada, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-660-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Condessa Cercada. Isabel. Pedro Torres. «Se te portas mal levo-te ao Álvaro Dias para te fechar na cave, ouvia a garotada que crescia na vila. Pois que era má rês, diabo feito gente, o maldito do ferreiro de Arzila…»

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«(…) E tantas vezes sonhou acordada, recordou, durante os passeios que davam juntas pela muralha, avistando o mar sadio e belo em dias de calor e sol radiante, escutando com reverberação as descrições de dona Catarina sobre Portugal, e seus palácios e festas grandiosas, esperando ardentemente que no dia em que ela partisse com Vasco também a levaria consigo, para servi-la e dormir sob o esplendor rico da corte, e passear por Lisboa como mulher livre e independente, justamente recompensada pelo sacrifício prestado no ultramar ao lado dos nobres... Mas agora aquela mão fraca e quebradiça tudo varrera, dispersando os seus sonhos como nuvens de fumo, intangíveis e fugidias. Ingrata, maldita, falsa!, rosnava, entredentes, enquanto caminhava muito direita e de olhos semicerrados, culpando-se por todo o empenho que colocara no serviço à condessa, e que no fim de nada lhe valera. E tão absorvida estava no seu exercício de ódio que nem deu conta de um vulto que surgiu pela sua esquerda e se intrometeu no caminho, agarrando-lhe o braço com força, ao que respondeu com um grito de susto. Shh! Escusas de gritar que aqui ninguém te vem acudir, disse uma voz arranhada de homem, mantendo os dedos cravados no seu braço a ponto de lhe causar dor. Aqui não há soldados que te valham. De tal forma estava com a cabeça distraída com a dispensa da condessa que não dera conta das ruas que ia percorrendo, acabando por chegar ao lugar mais perigoso da vila, cuja fama se estendia para além das muralhas. Era uma casa amarela, recuada numa viela escondida e apertada, enterrada no solo desnivelado e de paredes de adobe esburacadas e com aspecto de ruína. Sobre ela e sobre seu dono contavam-se histórias às crianças para lhes meter medo, e eram conhecidos os lamentos de dor nocturnos que saíam das janelas estreitas ao nível da rua, gritos de sofrimento de escravos aprisionados no calabouço que ele construíra no subsolo. Se te portas mal levo-te ao Álvaro Dias para te fechar na cave, ouvia a garotada que crescia na vila. Pois que era má rês, diabo feito gente, o maldito do ferreiro de Arzila.
Larga-me, não tenho medo de ti, peçonhento!, atirou-lhe Amina, sacudindo-se como um gato selvagem, acabando por libertar-se. Rica surpresa, dizia por seu lado o ferreiro, passando-lhe a mão pelo rosto, ao que a aia recuava, com um esgar de desprezo no rosto. Sabes que tenho andado para te falar há alguns dias? Só me faltava a oportunidade, e não é que te vou encontrar mesmo à porta de casa? Parece que me leste o pensamento. Era um homem grande e sem pescoço, de franja sobre a testa e com uma bocarra enorme e de lábios grossos e arroxeados, de onde surgiam os dentes negros e apodrecidos de cada vez que sorria. Falava lentamente, com um vozeirão arrastado, e os olhos, escuros e grandes, pareciam sempre admirados, esquadrinhando tudo em seu redor com doentia atenção. E esfregando as enormes manápulas uma na outra, encolhia-se e aproximava-se de Amina, ávido e bruto. Sabes que já ouvi a novidade. Então quer dizer que a tua estimada velhota está de partida. Os condes voltam à terra. Vão-se estes mas vêm outros, respondeu a aia por seu lado, indiferente, de mãos postas nas ancas. Pois não duvido, continuou Álvaro Dias, olhando por cima dos ombros para ver se havia alguém na rua, que permanecia deserta. A chuva entretanto cessara, e o nevoeiro adensara-se, pairando sobre os telhados e conferindo à atmosfera um ambiente lúgubre e desolado. Mas que eu saiba, a nova condessa já deve trazer lá do reino uma aia ou duas, não será? E olha que devem ser cristãs de berço, e de pele branquinha e perfumada. Ou estavas em crer que depois destes condes, alguém ia querer uma mourisca escura como tu?
O diabo que te carregue, ripostou Amina, cuspindo no chão aos pés do ferreiro. Da minha vida cuido eu, e não preciso que se preocupem com ela, muito menos um cão preto como tu. Toma cuidado, disse Álvaro Dias, desta vez sem sorrisos, apontando-lhe o indicador direito. Assim que os velhos se marcharem, tu não vais ser mais do que uma moura metida dentro de Arzila, e ainda por cima pouco apreciada por estes lados. Julgas que mandas muito mas espera até os condes saírem daqui. És vendida aos xarifes em três tempos, e esses não te vão perdoar certamente por teres andado a beijar a cruz. Ou então compro-te eu, e então vais direitinha para o buraco, disse, fazendo um gesto com o polegar para indicar a casa atrás de si. Tenho lá vários, acorrentados às paredes, tísicos e alguns quase cegos. Posso ser cão preto, mas também posso vir a ser teu dono. Amina preparava-se para responder com insultos ao ferreiro, mas calou-se por alguns momentos, enquanto o considerava, pensativa. E então perguntou-lhe, desconfiada: Mas então o que é que tinhas para me dizer? Desembucha de uma vez que faz-se tarde e se chego depois dela vou ter muitas perguntas para responder. Álvaro Dias fez-se então muito sério, e baixando a voz, respondeu: Tenho uma proposta para te fazer.
Assim que o ferreiro começou a explicar a sua ideia, logo Amina compreendeu que não era a única ameaçada pela partida dos condes. Aos poucos começou a perceber que o próprio Álvaro Dias vivia aterrorizado ante a ideia de um novo capitão em Arzila. Tinha conseguido alcançar um entendimento com Vasco que lhe permitia ter o seu negócio de escravos, a sua botica infernal de maus-olhados, esconjuras e feitiços, e podia praticar toda a espécie de vícios e tropelias sobre os demais cidadãos sem nunca por isso ser açoitado. Essa liberdade, que por si só constituía grande mistério na vila, advinha da grande qualidade do ferreiro como atirador de espingarda, pelo que era um elemento fundamental tanto nas caçadas como nas corridas aos mouros. E por esse motivo o velho conde sempre fingiu desconhecer toda a sorte de práticas obscuras que se passavam na casa amarela, em virtude do valor inestimável do seu dono na guerra. Mas se tal beneplácito acabasse de repente, o futuro nada de bom auspiciava a Álvaro Dias». In Pedro L. Torres, Isabel, A Condessa Cercada, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-660-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A Condessa Cercada. Isabel. Pedro Torres. «… desaparecendo pela praça fora, sob uma chuva miudinha e uma névoa espessa vinda do mar e que entretanto começara a descer sobre a vila. Para trás ficava o grupo de soldados e pajens, intrigados…»

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«(…) Era uma cerimónia que se repetia todas as noites desde que se iniciara, duas semanas antes, para estranheza das poucas almas que por acaso vinham à janela ou cruzavam a praça naquele momento. Como uma procissão silenciosa, lá vinha o grupo percorrendo as ruas furtivamente até chegar à igreja de São Bartolomeu, onde se dispersava junto à entrada. Aí, os pajens e guardas encostavam-se às portas e ficavam à conversa, aguardando que sua senhoria a condessa cumprisse as suas orações nocturnas. Fazia-o àquela hora para evitar o bulício das horas do dia na praça, assim como para escapar à vontade exacerbada de muitos habitantes em saudá-la e transmitir-lhe o pesar pela morte do filho. Se saía do castelo antes do anoitecer, era uma confusão tremenda que se gerava, e assim preferia a tranquilidade da noite, mesmo fria e chuvosa, à tremenda choradeira e algazarra que se erguia entre os populares, assim que punha o nariz fora da porta do castelo. Vasco chegara a sugerir-lhe rezar em casa no oratório, mas era ideia fixa da velha condessa, a de que seria melhor escutada na própria casa do Senhor. Além disso fazia-a sentir-se bem passar aquela pequena provação da caminhada à chuva, enrolada num manto pesado e de capuz às costas, como sinal de sacrifício e entrega para que a alma de Bernardo melhor fosse acolhida no Reino dos Céus. Mas apesar de todas as explicações e motivos, a conclusão entre os rapazes vivaços à porta, encostados uns aos outros para se aquecerem enquanto esfregavam as mãos enregeladas, era a de que, tal como o senhor conde que perdera o juízo e passava as noites às voltas no salão, não era o que diziam as mulheres na cozinha, no andar de baixo?, também dona Catarina começava a mostrar que não estava boa das ideias.
O que vale é que estão para ir embora, sussurrou um deles, de barrete enfiado até às orelhas e cara muito rosada e pintalgada de sardas. Não tardava nada até termos que começar a passear à noite o andor da igreja pela vila toda, com ela atrás! E estava o grupo tiritante a tentar abafar os risos, quando a porta se abriu de repente, pondo-os de imediato em sentido, pensando que a condessa, apesar de ter entrado não tinham passado cinco minutos, estivesse já de regresso. Para que é que estão com essas caras de defunto?, surpreendeu-os porém uma voz jovem que lhes era familiar. Julgam que a velha não sabe que é só galhofa aqui, enquanto ela reza? Até se conseguem ouvir os risinhos lá dentro...Que vergonha! Já aí vem?, perguntou o mais novo, amedrontado. Se viesse, esta não estava aqui a falar assim, disse o maior do grupo, enorme e gordo, com uma barba cerrada e nariz adunco. Então diz-nos lá, princesa, que estás aqui a fazer? Já não ficas lá dentro com a tua senhoria a rezar pelo seu filhinho? Agora que ela está para se ir embora é que te fartaste de dar em beata? Finge só mais um pouco que está quase! E enquanto soltava uma gargalhada zombeteira, os outros rapazes com a voz ainda a mudar acompanhavam-no, rindo como gaivotas excitadas.
Cuidado com essa língua, borrachão, disse-lhe porém a rapariga, lançando-lhe um olhar tão carregado de fúria que logo o ar de riso se lavou da cara do soldado, deixando-o desconcertado. Não preciso de fingir nada para lhe dizer uma palavra e meter-te no calabouço durante um mês com uma côdea de pão, sabes bem disso, não sabes? Apesar da diferença abismal de tamanhos, o soldado recuava com genuíno medo, enquanto a jovem se insinuava com ar ameaçador diante de si. Era de pequena estatura e um cabelo negro e forte, tão denso quanto as sobrancelhas espessas que encimavam os olhos grandes e cristalinos, destacados na pele de cor trigueira. Filha de mouros, fora educada pela condessa no castelo para a servir como aia. Chegara a ser baptizada e quis-se-lhe dar um nome cristão, mas desde cedo a sua rebeldia se revelou, e assim nunca permitiu, nem mesmo aos condes, que não a chamassem outra coisa senão Amina. Apesar de mourisca, tal como tantos outros em Arzila, desprezados pelos mouros de outras praças e desconsiderados pelos portugueses, que os viam como cristãos de segunda, a sua personalidade felina e a sua inteligência levaram-na a conseguir alcançar um posto de grande relevo, junto da esposa do capitão. Muito mais do que uma simples aia, Amina era uma força de influência dentro do castelo, e o seu nome era temido por todos dentro de muralhas.
Sei perfeitamente. Mas os teus dias de poder estão por um fio, moura. E depois, quero ver quem te deita a mão, e quero ver quem e que vai precisar de mais cuidado com a língua. Mas, Amina nada mais disse e apenas voltou costas ao grupo, desaparecendo pela praça fora, sob uma chuva miudinha e uma névoa espessa vinda do mar e que entretanto começara a descer sobre a vila. Para trás ficava o grupo de soldados e pajens, intrigados pela saída abrupta, da aia, que desde que a conheciam acompanhava sempre a condessa onde quer que esta fosse. Como pôde ter feito uma coisa daquelas?, pensava, caminhando decidida por entre as ruas estreitas, contornando as poças de água e lama acumuladas pelo caminho. Como pôde, depois de tantos anos de serviço, de cuidados e atenções para que nada lhe faltasse, depois de tantas horas a escutar os seus queixumes, sofrimentos e reclamações, depois de uma vida a servi-la, dispensá-la agora como o mais reles e insignificante dos lacaios? Todos aqueles rosários que desfiara noite após noite, ajoelhada a seu lado nas tábuas geladas e desconfortáveis da igreja repleta de humidade, não valiam agora de nada? Estás dispensada, hoje não preciso de ti, repetiu em pensamento, sentindo a recordação das palavras frias e impessoais com genuíno ódio, ainda mais a enfurecendo. Que golpe de traição tão reles, deixá-la ali de pé, no corredor da igreja, esperando que terminasse de ajudá-la enquanto ajoelhava o seu corpo frágil e seco, para depois a mandar embora, com um gesto mecânico da mão como de quem enxota uma mosca...» In Pedro L. Torres, Isabel, A Condessa Cercada, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-660-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

domingo, 17 de maio de 2015

A Condessa Cercada. Isabel. Pedro Torres. «Também tu me queres desgraçar? Pois então aqui estou, leva-me e deixa-os em paz, maldito! De tal forma está o conde transtornado que se debruça perigosamente no parapeito da janela, brandindo a espada em círculos»

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«(…) O suor assomava-lhe à pele enquanto os dedos secos e inseguros eram assaltados por tremores incontroláveis. Orientava a cabeça ao tecto procurando ver o céu, e aí repousado o seu filho Bernardo. Mas a vista assustada não passava das grossas traves de madeira que suportavam o telhado, e tamanha era a culpa que o cobria, que desejava que esta por si só fosse capaz de fender os apoios nas extremidades e fazer desabar todo aquele peso sobre o seu próprio corpo... Não havia noite em que não fosse assaltado por aqueles ataques de pânico que ora lhe anulavam as forças e a vontade, ora o enlouqueciam com crises frenéticas de ansiedade, levando-o a percorrer as salas do castelo e até as muralhas, correndo perigosamente sobre pedras irregulares e traiçoeiras. Durante o dia, as distracções dos soldados e do povo mantinham-no sereno, por vezes até conformado; mas com o cair da noite, tal como um nevoeiro cerrado e frio, vinha a solidão, e com ela o círculo de pensamentos tortuosos dos quais não conseguia escapar. O Natal, duas semanas antes, fora o mais triste da sua vida, e chegado o ano novo de mil quinhentos e catorze, era tempo de partir para Portugal e deixar Arzila pela última vez. Triste forma de despedida, concluiu, abandonando-se sobre o seu cadeirão, onde tantas vezes reflectira sobre estratégias e políticas, onde escutara atentamente os conselhos dos seus homens, inconfidências de mercadores amigos e segredos de viajantes, que a troco de um punhado de reis estendiam os seus olhos ao que acontecia nas outras praças, tanto as portuguesas como as mouriscas. Das janelas na parede oposta vinha o som da rebentação das vagas nas rochas e no paredão da muralha, tão forte e assustador que parecia capaz de desfazer as pedras a qualquer instante, e entrar pe1a sala adentro e esmagá-lo entre as paredes ruídas.
Seria pelo melhor, pensou, pegando de forma mecânica na sua espada, esquecida junto ao braço do cadeirão. De nada mais lhe servia, e sem força nem vontade para agarrá-la no punho e erguê-la ao alto, apenas se limitou a deixar a ponta tombar sobre o soalho, e sacar deste pequenas lascas, picando-o distraidamente enquanto permanecia absorto na sua letargia. O Inverno estava a ser particularmente rigoroso naquele ano. Chovera com uma intensidade e persistência das quais não havia memória, a humidade instalara-se como a praga nas casas, na igreja e no castelo; e aquelas manchas pretas, agarradas às pedras das paredes do salão como bivalves nas rochas da praia, cresciam e tomavam a forma de autênticos fantasmas, espíritos antigos e malignos, dançando ao ritmo da luz quebradiça das velas de sebo, alongando-se pelo tecto e descendo por detrás do velho conde, abrindo-se nas suas costas como as asas de uma mariposa, prestes a fechar-se sobre o corpo cansado e gasto. E o vento lá fora agitava-se e batia contra as portadas de madeira das janelas, tão empenadas que mal fechavam, rangendo de forma arrastada e aguda. A cada rajada mais forte estremeciam com tanta violência que pareciam prestes a desfazer-se em pedaços, e naquela agitação o par da janela diante do conde escancarou-se por completo, batendo contra a pedra num grande estrondo que o fez pular com o sobressalto. Fora de si, ergueu-se de repente, solto da modorra de espírito que lhe arrastava os pés, e dirigiu-se de espada em punho até à janela por onde agora até pequenas gotículas de mar salgado entravam, esvoaçantes e agrestes. O coração voltava a acelerar-lhe no peito e as pupilas dilatavam-se-lhe, enquanto se apoiava no parapeito, perscrutando a imensidão do mar escuro e medonho. Apenas a espuma branca da rebentação se via, algures nas rochas, lá em baixo na praia. Tudo o resto era breu, e voltado contra aquele cenário de tormenta, perdido em mais um acesso de loucura, o conde Vasco erguia a espada ao céu e às nuvens pretas, de onde caía agora uma chuva torrencial, sentindo a água escorrer pelas faces, encharcando-lhe os cabelos e as barbas ao mesmo tempo que praguejava contra os elementos da natureza.
Mas já não era a morte do filho Bernardo aquilo que o levava a desejar acometer contra a tempestade. Temendo o velho dito que uma desgraça nunca vem só, era agora o medo de uma outra tragédia, aquilo que o levava a querer desfigurar as nuvens e as vagas poderosas a golpe de espada. Leva-me antes a mim, se é a morte que te satisfaz!, gritava para o mar, com um vozeirão rouco. Também tu me queres desgraçar? Pois então aqui estou, leva-me e deixa-os em paz, maldito! De tal forma está o conde transtornado que se debruça perigosamente no parapeito da janela, brandindo a espada em círculos. E insiste naquele combate inútil quando de súbito lhe escorregam os pés no chão onde mal se apoiava e desequilibra-se, deixando cair a espada pela parede do castelo abaixo, a qual soltou um som metálico ao bater nas rochas, vinte metros abaixo, antes de desaparecer por completo no vaivém das ondas. Ainda se debruça mais no parapeito e procura, lá baixo, algum sinal da lâmina de aço, mas de nada lhe vale. Num repente tresloucado quis então saltar para as rochas, cravando os dedos na pedra para se impulsionar, mas uma rajada súbita e ascendente tomou-o mesmo pelo peito, e como está sem os pés apoiados no chão e apenas com a barriga sobre o parapeito, aquele empurrão fá-lo regressar para dentro, caindo sentado no chão como um velho tonto e ridículo. Depois vem outra rajada que sacode as portadas e as bate com tamanho estrondo que as cerra de vez, como se as tivesse desempenado». In Pedro L. Torres, Isabel, A Condessa Cercada, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-660-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Condessa Cercada. Isabel. Pedro Torres. «No início do século XVI, a expansão portuguesa avança sobre as praças mouras do norte de África, conquistando importantes posições do inimigo. Arzila, grandiosa praça costeira, recebe um novo capitão, o conde de Redondo…»

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«Depois da ultima campanha o castelo era um outro, estranho e frio. De adivinhas, as pedras fizeram-se ásperas e zombeteiras, e sempre que a noite caía, o negrume da culpa descia pelas paredes do salão, tal como as manchas de humidade, grotescas naquele Inverno. Sentia-se como um estrangeiro na casa onde vivera os últimos vinte e três anos. Não mais reconhecia o ranger do soalho de madeira, a labareda mortiça das velas, o ar salgado das ondas do mar ou o fogo da lareira, agora tão ténue e amodorrado. E no entanto, tudo era tão igual. Confuso e angustiado, o conde percorria o grande salão em círculos com as mãos atrás das costas, movendo a cabeça com gestos bruscos e arregalando os olhos em todas as direcções, procurando respostas naquela que fora a sua sala de jantar e onde reunira com os seus comandantes militares, onde tudo era tão familiar e repleto de boas recordações, desaparecidas assim que o Sol se punha. Por momentos deu de caras com um grande escudo fixo na pedra, e com a sua imagem reflectida na superfície côncava e polida do metal, o rosto, já de si magro e ossudo, ainda mais se sumia na distorção que o traiçoeiro espelho provocava. Encovava-lhe os olhos, afundava as órbitas, abria as bexigas da pele e animava as manchas escuras de antigos ferimentos coagulados, abertos a golpes de espada ou por explosões de pólvora dos tiros de espingarda. Que aspecto desgraçado, Vasco!, suspirou tristemente. Enquanto o maxilar inferior pendia mecanicamente e repuxava os lábios gretados e lívidos, a sua mão tentava alisar os longos cabelos brancos, também eles desgrenhados e de aspecto baço, movendo a cabeça ligeiramente ora para a esquerda ora para a direita, buscando no escudo uma perspectiva mais favorável à sua imagem. Mas era inútil. Qualquer que fosse o ângulo, qual manto pesado, roto e bolorento, a velhice cobria-o por completo. Já não pertencia mais ali. Soubera-o de imediato, no momento em que descera da caravela e pisara a areia da praia, estranhamente calada naquele dia. O povo estava lá todo, aguardando, apinhado ao longo do areal, prostrado do alto das muralhas, sentado nos rochedos castanhos e lustrosos que a maré baixa trazia. Mas tão silencioso que até o rumor tranquilo do estertor das ondas lhes sobrepunha. E quando o povo cerrava os dentes, era sinal de que havia notícias da morte pela vila.
O  que mais o consumia por dentro, mesmo passado um mês sobre o regresso, era o seu atraso sobre a malfadada notícia que, viajando por terra pela mão de mercadores judeus, havia chegado antes que a armada tivesse tempo de desembarcar. Enquanto a bordo das caravelas ecoavam os risos e palavras de alegria pelo sucesso de uma campanha vitoriosa em pleno coração do território mouro, animados pela brisa fresca e sadia que agitava os estandartes no topo dos mastros e se envolvia na curvatura do pano-cru da vela latina, os sinos da torre da igreja de São Bartolomeu tocavam a rebate, e toda a vila de Arzila vinha ao largo, que a desgraça era grande. Enquanto uma parte enorme de si ruía e se afundava sob os seus pés, o conde Vasco apenas celebrava e ria, nada sabendo. E era essa ignorância, ainda que inevitável e sem culpas, o que o atormentava como uma ferida interna, dolorosa e persistente. O luto antecipado, que não esperara o regresso do seu capitão, era o motivo pelo qual o castelo já não era o mesmo, nem a vila, nem as muralhas ou o fosso em seu redor. Nada tinha já, aos seus olhos tristes, a mesma força e robustez e pujança de outros tempos. Arzila, a imponente praça portuguesa cravada no Algarve Dalém repleto de perigos, conquistada aos mouros à força corajosa dos antepassados e defendida de inúmeras corridas e cercos com a vontade obstinada dos seus habitantes e a de Deus, fugia-lhe do seu comando e recebia-o apenas como um visitante, cuja derradeira partida estava para breve. O seu povo e seu exército continuavam a admirá-lo e respeitá-lo, por toda a forma engenhosa com que havia governado a praça africana. Os mouros superavam os seus por três e quatro vezes em número, mas o velho conde era, muito mais que um estratega militar, um político e um diplomata de grande experiência. A sua gente ainda lhe reconhecia todas as capacidades, e não havia alma que não desejasse que ali permanecesse até ao fim dos seus dias. Mas as teimosas pedras tinham uma força e persistência muito superiores, e essas já não mais o queriam, acreditava, encostado a uma coluna, depois de furtar ao escudo ilusório. Sim, porque voltaste, Vasco? Porque não ficaste mais uma semana entre os homens no terreno, porque deste como concluída a tua parte quando sempre soubeste que depois das conquistas era fundamental prestar guarda redobrada, reforçar as posições e assegurar que o inimigo, reorganizado, não poderia causar mais dano e provocar uma reviravolta surpresa? Como podias ter embarcado e ignorar o perigo daqueles dias quando ainda o sangue vertido exalava o seu odor morno, sabendo que entre aqueles a quem era entregue a missão de assegurar o rechaço de novos ataques estava o teu filho infante? Como pudeste ser um pai tão negligente, Vasco? Como podias falhar de forma tão grosseira? In Pedro L. Torres, Isabel, A Condessa Cercada, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-660-4.

Cortesia de SEmergência/JDACT