Mostrar mensagens com a etiqueta Vitorino Magalhães Godinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vitorino Magalhães Godinho. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «Sugiro que existem três momentos de pensamento: a análise sistemática e historizada; a escolha moral; as implicações políticas. São três tarefas diferentes e distintas, mas muito imbricadas umas nas outras e, no fim de contas, indissociáveis»

Cortesia de wikipedia

O passado relativiza-se no presente
«(…) Quando um historiador insiste, como tem a obrigação de fazer, junto de outros cientistas sociais, em que é necessário historizar as análises deles, que são demasiado ou exclusivamente presentistas ele não está a falar, ou pelo menos, não deveria estar, em acrescentar uma cronologia dos acontecimentos ao seu texto. No que ele insiste é em que o presente incorpora o passado, que o passado faz parte integral do presente, e que ele tem de ter isso em conta, não deve pressupor que a fácil teorização do presente se aplica eternamente. Mas, ao mesmo tempo, Magalhães Godinho fala aos historiadores que abandonam a selecção com facilidade porque, assim confundindo tudo, não explicam nada. Há, pois, um caminho estreito a seguir, nem a distorção que as paixões do presente implicam nem a sedutora retirada das paixões do presente que nos cercam, nos formam e nos determinam largamente. É preciso ser intelectual, o que é uma tarefa muito mais difícil do que ser um erudito pedante.
Um intelectual é sempre e necessariamente um intelectual público, mesmo, ou até sobretudo, quando o nega. A negação, quando não a hipocrisia, é de bom tom em muito lado. Como é que se pode seguir esse caminho estreito? Sugiro que existem três momentos de pensamento: a análise sistemática e historizada; a escolha moral; as implicações políticas. São três tarefas diferentes e distintas, mas muito imbricadas umas nas outras e, no fim de contas, indissociáveis. Cada um de nós realiza os três momentos cada vez que pensa. E fazê-lo com conhecimento de causa é sempre mais sensato. Parece-me que Magalhães Godinho o demonstrou biograficamente, oferecendo-nos o exemplo de como ser um intelectual coerente, isto é, comprometido e público. Os três momentos de pensamento são sucessivos e cada tarefa tem as suas regras próprias. É preciso começar sempre pela análise. Quando não, arriscamo-nos a fazer não poucas asneiras. E este esforço é contínuo; não termina nunca. Todos nós temos um fundo de conhecimentos limitado. E o mundo está em constante mudança. Há, pois, sempre muito a aprender, muito a analisar, muito a repensar e, sobretudo, muito a despensar. E, evidentemente, e por causa disso, não devemos demorar demasiado a revelar o que supomos ter aprendido. Esperar pela certeza é esperar pelas calendas gregas.
Mas uma vez feita a análise, como evitar as escolhas morais? Elas estavam já implícitas na nossa escolha de tema, de variáveis, de dados, e de métodos, mau grado todos os nossos esforços para minimizar as tendenciosidades mais evidentes e para proporcionar uma exposição que seja convincente e resista à demolição fácil dos nossos críticos. Não obstante, temos de assumir as nossas simpatias, os nossos juízos. Como poderíamos sugerir que os que são menos aptos para a análise são, apesar disso, mais aptos para as escolhas morais que dela derivam? Ninguém pode evitar as escolhas morais, sobretudo, diria eu, um intelectual. Se não, o intelectual é como alguém que coloca na rua um explosivo potencial sem o confessar e deixando aos outros o encargo de o neutralizar. Não estou a dizer que as escolhas morais do intelectual são as únicas possíveis. Longe disso. Toda a gente pode e deve tirar as consequências da análise. O que estou a dizer é que o intelectual não tem o direito de dizer que se desliga deste dever comum. Aliás, estou a dizer que ele nunca se desliga. E quando finge fazê-lo, é uma maneira de aceitar, talvez mesmo de apoiar, as escolhas de outros, sobretudo dos que detêm o poder.
Mas não chegámos ainda ao fim da participação inevitável do intelectual na vida pública. O intelectual compromete-se, por natureza, a analisar a forma de levar à prática as escolhas morais que derivam da sua análise. Isto é uma tarefa política, no sentido amplo da palavra político. Há muitos meios de prosseguir essa análise política, através da vida política pública, através da imprensa, através dos testemunhos. Pouco importa. Depende das situações locais diferentes, das possibilidades que se apresentam a todos. Mas, mais uma vez, não há alternativa. O intelectual que tenta evitar esta parte do seu papel cede o seu dever, deliberadamente ou não, aos outros. Não basta dizer que se participa como cidadão. Participa-se também como intelectual. E isto porque outros usam as análises sistemáticas e historizadas já feitas para justificar as suas políticas. O intelectual é, pois, obrigado a descer à arena para defender a boa interpretação daquilo que escreveu ou que escreveram os seus colegas, sobretudo aqueles que não estão em condições de o fazer eles próprios. O intelectual permanece sempre um cidadão intelectual, com o encargo perpétuo de ajudar à clareza e à clarificação das decisões.

Uma visão de futuro
Ouso fazer apelo à obra e ao exemplo de Magalhães Godinho para traçar um programa de trabalho para o nosso novo século. Este resume-se à palavra de ordem já lançada e bem conhecida da história total, a que Magalhães Godinho e um bom número de outros investigadores se dedicaram desde há bastante tempo mas que só constitui um compromisso para uma minoria de investigadores pelo mundo fora, uma minoria que continua bastante sitiada. Mas que quer dizer na prática a história total? Parece-me que há quatro debates a resolver, quatro caminhos a seguir. O primeiro continua a ser a respeito de saber qual é a unidade de análise útil, frutuosa, plausível. Quando falamos da descoberta da economia-mundo, escolhemos uma resposta possível a esta pergunta. Não vou fazer de novo a justificação de uma tal categoria. Gostaria simplesmente de sublinhar o facto de que aceitar essa designação está longe de resolver todas as dificuldades». In Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde: Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de RCSociais/JDACT

Ensaios. A História de Portugal. Vitorino Magalhães Godinho. «Uma das características deste complexo é que põe em relação economias monetárias, como a dos Países Baixos, Portugal, Pérsia e Índia, com economias pré-monetárias como as africanas e as situadas a leste do meridiano que passa a meio do golfo de Bengala»

jdact

A evolução dos complexos histórico-geográficos
«(…) Mas para determinar a estrutura seria necessário estabelecer as proporções. Conhecemo-las num caso; Alenquer em fins do século XV (…). Desde meados do século XIV, o comércio nacional enfrentava a rude concorrência dos estrangeiros mas mantinha-se corn firmeza: entre 1385 e 1456, num total de 46 navios apresados ou roubados por piratas ou em terra, dos que faziam o tráfego entre Portugal dum lado e a Inglaterra e a Flandres de outro, 83% pertencem a portugueses, 15% a estrangeiros, 2% são de senhorio misto; conhecemos a propriedade da carga em 20 casos: 55% é de portugueses, 20% de estrangeiros, 25% mista. Muitos dos nobres e cavaleiros e até fidalgos armam navios, arrematam estancos, investem em resgates, bem como em canaviais: vai surgindo o cavaleiro-mercador, enquanto também se constela o senhorio capitalista. O Estado alicerça-se agora nos impostos gerais de compra e venda, as sisas, logo no comércio interno, e crescentemente nas rendas aduaneiras, no comércio marítimo. Geograficamente, este complexo abarca Portugal, os arquipélagos, o Noroeste africano atlântico. Tal expansão processa-se em torno do ouro sudanês, caravelas contra caravelas, do dinamismo açucareiro que leva às plantações e engenhos, da necessidade de controlar mercados de cereais ou de criar, do apresamento ou resgate de cativos canários, azenegues e negros para mão-de-obra, da busca de cores para a tinturaria, da multiplicação de gado (indústria e exportação de coiros).
Em fins do século XV, numa economia em expansão e em que o elemento monetário é cada vez mais importante, começa a estruturar-se um novo complexo histórico-geográfico em que o factor dinamicamente decisivo é o trato das especiarias e a rota do Cabo. A sua configuração caracteriza-se pela extrema dispersão (a ritmo acelerado) que vai de Antuérpia à China, do Mediterrâneo central ao Brasil e à Terra Nova. Articula-se em volta do ouro da Mina (700 kg), do açúcar da Madeira e São Tomé, do pau-brasil de Vera Cruz (10 000 quintais), dos bacalhaus da Terra Nova, dos escravos de Guiné, do pão e do pastel dos Açores, da coirama e sal das ilhas de Cabo Verde, do ouro do Monomotapa e de Samatra (4 toneladas de ouro oriental), da pimenta e gengibre do Malabar, da canela de Ceilão, da noz e da maça de Banda, do cravo das Molucas, dos larins persas, da seda e porcelanas chinesas, da prata e cobre da Europa central e oriental, dos grãos do Báltico. As principais artérias por onde corre a circulação são a de Lisboa a Antuérpia, levando as especiarias, o açúcar, trazendo a prata, o cobre, os cereais, os panos; de Lisboa à Mina, para retorno do metal amarelo; de Lisboa a Cochim, levando a prata e o cobre, o coral, o vermelhão, o cinábrio, o chumbo, os panos, trazendo uns 50 000 quintais de especiarias; de Moçambique à Índia; de Cochim a Malaca; de Malaca a Banda e às Molucas; de Cochim a Ormuz, reanirnando o tráfego caravaneiro de Bassorah à Síria, esta e a rota do Cabo em concorrência com a do mar Roxo. Num século a produção de especiarias asiáticas mais do que duplica. Uma das características deste complexo é que põe em relação economias monetárias, como a dos Países Baixos, Portugal, Pérsia e Índia, com economias pré-monetárias como as africanas e as situadas a leste do meridiano que passa a meio do golfo de Bengala. No reino a população aumenta apesar da emigração, olivais e vinhas começam a propagar-se para satisfazer a nova procura, as indústrias do biscoito e da louça, dos tecidos também se desenvolvem pela mesma razão. Se o capital estrangeiro intervém no comércio ultramarino, não é, longe disso, o seu factor preponderante. Entre os que têm negócios com a Casa da Moeda no século XVI conta-se apenas l/6 de estrangeiros quanto ao ouro e 1/3 quanto à prata, não sendo dos negócios de maior vulto. O Estado e a nobreza mercantilizam-se, sem todavia adquirirem a mentalidade e o estilo de vida capitaiistas, burgueses, obstando-se assim a que surjam as sociedades por acções. Mas porque assente nos estancos comerciais e nos direitos alfandegários, o Estado desenvolve a burocracia e tende a tornar-se absoluto. Uma boa parte do trato marítimo está todavia em mãos particulares e mesmo burguesas: de 65 moradores de Guimarães que de 1513 a 1530 sofreram roubos de franceses no mar contam-se 34 mercadores, 14 mesteirais, 2 tabeliães e advogados, 1 marinheiro, 6 lavradores, 3 religiosos e só 5 cavaleiros e escudeiros. Precisemos a estrutura económica com os valores globais de alguns comércios e produções que informam o complexo português cerca de 1515.
Ou seja, 1 855 000 para o l.º grupo e 4 300 000 para o 2.º. As rendas eclesiásticas montam em 1537 a 1 milhão de cruzados, os ingressos régios a 650 000 ou mesmo mais (em 1534), as rendas da nobreza devem-se aproximar das do clero. Socialmente, ao findar o século, a Península (não entrando Portugal) divide-se nuns 312 000 fidalgos e mercadores, 350 000 artífices e trabalhadores manuais, 338 000 lavradores, 58 000 marinheiros e pescadores e 47 000 servidores e ociosos; é natural que esta imagem corresponda também ao caso português. Note-se que fidalgos e mercadores aparecem juntos porque, como diz o próprio texto, a maior parte dos mercadores são fidalgos. A população portuguesa metropolitana anda por 1 400 000, Lisboa tem agoru 85 000 (1528) e 100 000 habitantes (1551), o Porto uns 14 000». In Vitorino Magalhães Godinho, Ensaios, Sobre a História de Portugal, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1ª Edição, 1968.

Cortesia LSdaCosta/JDACT

sábado, 3 de janeiro de 2015

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «… as ciências sociais são necessariamente históricas e que a história necessariamente se define como ciência social. Magalhães Godinho indica-nos este caminho ao longo de todas as suas discussões sobre a crise da história»

Cortesia de wikipedia

A História é Geográfica
«(…) Não é demasiado difícil discernir as origens desta tripartição. A ideologia centrista liberal, que, nessa época, estava em vias de dominar a geocultura, insistia em que a qualidade mais fundamental da modernidade e, portanto, do progresso científico, era a diferenciação das arenas da acção social em três: o mercado, o Estado e a sociedade civil. Era-se moderno na medida em que estes três domínios erigissem muros uns contra os outros. E, ao mesmo tempo, construía-se a modernidade construindo esses muros. Cada domínio, dizia-se, tem as suas regras distintas. Cada domínio é logicamente independente do outro. Cada domínio deveria, pois, abster-se de interferir com os outros. E, em consequência, torna-se evidente que os investigadores e as estruturas do saber devem vigiar atentamente para que as características de cada um desses domínios não sejam invadidas nem corrompidas pelo outro. E eis-nos chegados às verdades universitárias actuais contra as quais se insurgiam os Annales, se insurgia Vitorino Magalhães Godinho, para proclamar a unicidade da história. E se a história vivida é única, unificada, chegamos logicamente à interciência, à conclusão de que as ciências sociais são necessariamente históricas e que a história necessariamente se define como ciência social. Donde, logicamente, organizacionalmente, deveríamos ter baseado as nossas chamadas disciplinas numa disciplina única, a que, por mim, chamaria ciências sociais históricas ou historizadas. Magalhães Godinho indica-nos este caminho ao longo de todas as suas discussões sobre a crise da história. Ouçam a sua argumentação:
  • Ao longo do Cinquecento, as economias não caminharam todas ao mesmo ritmo […] a desgraça de uns era a boa fortuna dos outros […]. Que tais desequilíbrios sejam muitas vezes de origem extra-económica, no sentido estrito ou, melhor, académico que a economia pura dá a este adjectivo, muito bem. Está por fazer, começa a fazer-se, uma teoria do técnico, as inovações estão à cabeça da teoria económica de Schumpeter. Está por fazer a psicologia histórica, quem está a servir de parteiro é Lucien Febvre. Mas a necessidade de teorização impõe-se em todos os domínios e no conjunto dos domínios como um todo. A história não pode deixar de continuar a absorver mais teoria. Mas tem de entender-se o real e, portanto, as suas transformações, o devir; a única forma de, por sua vez, o conseguir é através da historização das teorias, da tecnologia, da psicologia, da sociologia e, porque não, da própria economia. (Godinho, 1971).
Este programa, enunciado em 1951, não foi ainda realizado pela grande maioria dos analistas mundiais. Sem dúvida que, aqui e ali, houve muitos esforços mas, mesmo se admirados, eles não são amplamente seguidos.

O passado relativiza-se no presente
«Há todo um mundo a desbravar, desde que quem estude o passado não esqueça o presente e saiba sacrificar ao espírito crítico quer os interesses apaixonados que tudo deturpam porque demasiado exclusivos, quer o cómodo abandono de selecção que nada permite explicar porque tudo confunde». (GODINHO, 1971)

Entre todos os temas, considero este o mais importante e o mais radical. As guerras culturais que irrompem quando se utiliza o verbo relativizar! E que afronta à suposta distância imparcial do historiador quando se insiste no facto de que a história é, de facto, uma descrição do presente e não o texto de um passado à moda de Ranke, o passado tal como era realmente. O presente, como se sabe, é o mais evanescente dos fenómenos, terminado antes que possa captar-se». In Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde: Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de RCSociais/JDACT

Ensaios. A História de Portugal. Vitorino Magalhães Godinho. « Seja como for, nas suas decisões essa realeza tem de entender-se corn os riquis hominibus mas também com mercatoribus et cum civibus et bonis horninibus de consiliis regni mei (Lei de 26-XII-1253), e nas cortes de Lisboa de 1371»

jdact

A evolução dos complexos histórico-geográficos
«(…) Até Ceuta, teria sido, segundo L. de Azevedo, a monarquía agrária; segundo J. Cortesão, o género de vida nacional definir-se-ia antes pelo comércio marítimo a distância com base na agricultura. Caracterizações certamente equívocas e até inadequadas dessa primeira época, como Sérgio tão bem provou. A monarquia era agrária só no sentido de que os réditos do soberano, como os do clero e da nobreza, provinham da renda da terra. O modo de vida nacional é verdadeiramente a agricultura, e sê-lo-á ainda por longos séculos, no sentido de que a esmagadora maioria da população activa nela se ocupa, de que o valor global da produção agrícola ultrapassa o dos outros recursos, e de que quase toda a população dela vive afinal; mas os vectores dinâmicos dessa econornia são a salicultura, a indústria da pesca e o comércio marítimo que exporta para Flandres, Levante hispânico e Maghrebe o sal, o pescado, os vinhos, o azeite, as frutas (com que se obtêm as dobras mouriscas), os coiros, a cortiça, a grã, importando os cereais nos anos de escassez, os têxteis flamengos e italianos, o ferro da Biscaia, as madeiras do Norte, a prata da Europa central e oriental, as especiarias, o açúcar. População rústica, pois como cidades contam-se tão só Lisboa, que orçará pelos 40000 habitantes, e o Porto com uns 8000; além disso, vilas de 1000 a 3000 habitantes. A grande circulação interna ventila-se por 64 feiras (68 em 1383), e corre, como aliás correrá durante longos séculos, pela navegação de cabotagem, pelas barcas fluviais e pelas récuas tocadas pelos recoveiros. Uma monarquia relativamente centralizada, capaz de leis gerais desde o século XIII, mas cujo aparelho é constituído essencialmente pelos ricos-homens poderosamente instalados no topo, pelos fidalgos de solar e outros e pelos cavaleiros (sobretudo de linhagem) que partilham em hierarquia alcaidarias e judicaturas, dispondo dos meios militares e judiciais; defronte; um clero opulento mas politicamente posto no seu lugar, embora também partilhe da engrenagem estadual. Seja como for, nas suas decisões essa realeza tem de entender-se corn os riquis hominibus mas também com mercatoribus et cum civibus et bonis horninibus de consiliis regni mei (Lei de 26-XII-1253), e nas cortes de Lisboa de 1371 no capítulo I insiste-se com o rei que nom faça guerra nem moeda sem conselho do povo, salvo com conselho dos nossos cidadãos e naturais.
Uma sociedade organizada em senhorios e concelhos. Estes concelhos são, na maioria dos casos, comunidades de proprietários rurais alodiais, herdadores, quer cavaleiros-vilãos cujos bens lhes permitem ter cavalo e obrigados ao fossado, bem perto dos escudeiros, quer peões que pagam jugada; noutros casos, comunidades de mercadores e mesteirais. Abaixo, os malados, que não têm propriedade, logo vivem em casa alheia, e, em pequeno número, os escravos. Desde a revolução de 1383-5 e da tomada de Ceuta estrutura-se um outro cornplexo histórico-geográfico. Isso resulta da regressão económica internacional e do ambiente de crise social em toda a Europa, ligados à descida dos preços, à contracção dos negócios, às dificuldades de mão-de-obra, instabilidade monetária, baixa real dos réditos da nobreza. As jacqueries e os motins urbanos de aprendizes, oficiais e pequenos mesteirais contra os graúdos, aproveitando as divisões da nobreza e o descontentamento da alta burguesia, levam os mercadores, mesteirais e escudeiros a aliarem-se com a arraia miúda contra os nobres e o alto clero; assim aquela revolução vai dar uma reconstrução mas não idêntica dos antigos quadros sociais em proveito de burgueses e escudeiros promovendo-se a cavaleiros e nobres; a capilaridade social aumenta, o poder passa para quadros novos, aumenta a força política das cornunidades, os letrados tornam-se parte fundamental do pessoal público, o Estado começa a organizar-se como burocracia; as cortes reúnem-se 27 vezes em meio século, quando só se tinham reunido 9 no meio século precedente; o povo miúdo passa a intervir na vida municipal pelas Casas dos Vinte e Quatro. D. Duarte; além das três ordens tradicionais dos oradores (clero), defensores (guerreiros), lavradores e pescadores (os que mantêm o mundo), reconhece já os oficiais, ou seja, a administração pública, e até os que usam de algumas artes aprovadas e mesteres e outros, isto é, os mercadores, mesteirais, mareantes e profissões liberaís (Leal Conselheiro, 1438).
Em 1472 os próprios procuradores das cidades e vilas dividem a sociedade nas seguintes categorias:
  • Fidalgos;
  • Cavaleiros;
  • Escudeiros;
  • Mercadores;
  • Mesteirais;
  • Lavradores e trabalhadores.
Nas Cortes de 1481-2, a classificação é ligeiramente diferente:
  • Fidalgos;
  • Escudeiros e gente limpa (sem dúvida oficiais e mercadores);
  • Gente de ofícios mecânicos e outra de baixa mão;
  • Lavradores, criadores e gente desta sorte.
Esta mesma oscilação é reveladora: fundamentalmente, temos um estrato supremo de fidalgos e cavaleiros, depois outro de escudeiros, mercadores e funcionários, em terceiro lugar os mesteirais, em quarto os lavradores, e abaixo sem dúvida os serviçais e jornaleiros, e no ínfimo os escravos em aumento». In Vitorino Magalhães Godinho, Ensaios, Sobre a História de Portugal, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1ª Edição, 1968.

Cortesia LSdaCosta/JDACT

terça-feira, 20 de maio de 2014

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «… o caminho para uma ciência social historizada infinitamente mais fecunda do que os saberes que conhecemos nos últimos dois séculos. E, por isso, temos que agradecer a “Godinho”, não como o único, mas como um dos pioneiros»

jdact

Uma visão de futuro
«(…) O problema, evidentemente, é que não inventámos um vocabulário adequado a esta imbricação, esta unicidade da vida social moderna. E, consequentemente, caímos todos na utilização deste vocabulário que nos foi legado pelo liberalismo do século XIX. E, consequentemente, reproduzimos sem cessar estas falsas divisões. Nem Godinho nem Braudel nem eu próprio fomos capazes de evitar totalmente esta armadilha. Considero que a busca de um outro vocabulário mais realista é uma das principais tarefas que temos ante nós no século XXI. E, finalmente, há o debate sobre as duas culturas. Construído simplesmente apenas há dois ou três séculos, aquilo a que se chama o divórcio entre a ciência e a filosofia domina-nos nas estruturas de saber. A clivagem epistemológica é um pressuposto basilar da maior parte dos investigadores. Ou se é adepto da ciência ou humanista. São dois campos, duas religiões, que se defrontam, e nem sempre de modo pacífico. No entanto, esta antinomia é tão errada e sem pertinência como as outras antinomias que discutimos.
Desde há trinta anos que esta clivagem, enraizada nas nossas estruturas universitárias, está a ser posta em questão por dois movimentos de saber provenientes dos dois campos. Entre os cientistas, existe agora um forte movimento que se chama as ciências da complexidade, o qual rejeita o uni-linearismo, o determinismo e o reducionismo da ciência dita clássica (de Newton a Einstein), em favor de uma ciência que insiste sobre a impossibilidade intrínseca de prever o facto de que toda a curva tende a desviar-se do equilíbrio, que rejeita a reversibilidade do tempo e põe em realce a flecha do tempo. E, entre os humanistas, existe agora um forte movimento de saber, os estudos culturais, que rejeita os cânones universais da beleza e insiste na contextualização social de toda a actividade cultural.
O que há que observar é que estes dois movimentos tendem para um centro ocupado pelas ciências sociais historizadas, e, portanto, para a possibilidade da restauração de uma epistemologia única do saber, o que irá ter um impacto profundo não somente sobre a busca da verdade, mas sobre todas as instituições universitárias que conhecemos actualmente. Ainda não chegámos à junção destas duas tendências centrípetas, mas pode sugerir-se que se trata de um campo de trabalho central para a evolução futura do saber mundial. Por conseguinte, quatro debates susceptíveis de aplanar o caminho para uma ciência social historizada infinitamente mais fecunda do que os saberes que conhecemos nos últimos dois séculos. E, por isso, temos que agradecer a Godinho, não como o único, mas como um dos pioneiros». In tradução de António Sousa Ribeiro.

In Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde; Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de wikipedia/JDACT

terça-feira, 6 de maio de 2014

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «… a investigação transforma o objecto e, portanto, não é nem falsa nem verdadeira. No plano macro que é a vida social humana, isto quer dizer que a história baseada em acontecimentos não é falsa nem verdadeira…»

jdact

Uma visão de futuro
«(…) O primeiro continua a ser a respeito de saber qual é a unidade de análise útil, frutuosa, plausível. Quando falamos da descoberta da economia-mundo, escolhemos uma resposta possível a esta pergunta. Não vou fazer de novo a justificação de uma tal categoria. Gostaria simplesmente de sublinhar o facto de que aceitar essa designação está longe de resolver todas as dificuldades. Mesmo entre os adeptos, subsistem grandes desacordos sobre os limites de espaço-tempo de todo o exemplo específico. E, por detrás do que poderiam parecer debates menores e marginais sobre os pormenores, encontram-se diferenças fundamentais sobre a teorização da realidade e, portanto, das suas tendências seculares e, portanto, sobre as implicações morais e políticas. O grau em que o tempo implica o espaço e o espaço, o tempo faz parte integral desta discussão. A discussão da linearidade da história humana continua a ser uma questão latente quando se quer delimitar o que é uma unidade de análise. Por conseguinte, aceitar que é absolutamente necessário argumentar a unidade de análise não é senão um primeiro passo na concepção e na escrita da história total. O segundo debate, incontornável quando se procura situar a melhor unidade de análise, consiste em saber como a conceber teoricamente, sistematicamente ou / e historicamente. Na minha opinião, longe de ser obrigado a escolher entre as duas sereias, há que encontrar um terceiro não-excluído, impossível, segundo Aristóteles, mas, todavia, a única escolha em condições de abarcar a totalidade da história. Porque em qualquer descrição histórica, cada vez que se narra o que aconteceu, é-se obrigado a empregar vocábulos categoriais que escondem toda uma teorização. Mas, em contrapartida, o mundo evolui a cada instante e não se pode acreditar que uma teorização permaneça válida através de todo o tempo e espaço.
Por conseguinte, temos obrigatoriamente que procurar teorizar e historizar ao mesmo tempo. É um pouco análogo ao dilema de Heisenberg: a investigação transforma o objecto e, portanto, não é nem falsa nem verdadeira. No plano macro que é a vida social humana, isto quer dizer que a história baseada em acontecimentos não é falsa nem verdadeira, mas que, ao mesmo tempo, também a história analítica não é falsa nem verdadeira. Tudo o que podemos fazer é esforçarmo-nos por fornecer uma explicação plausível da realidade, mais plausível do que toda a explicação alternativa. O terceiro debate consiste em saber o que fazer com as divisões do real que achamos tão evidentes porque elas nos são implantadas na nossa formação e são repetidas incessantemente nas análises dos investigadores e na vida pública. Estou a referir-me à divisão entre o económico, o político e o sócio-cultural. Dizem-nos recorrentemente que se trata de três domínios bastante diferentes, bastante separados, que seguem regras próprias. Ou, pelo menos, que isto é verdade para o mundo moderno. Mas não é verdade. Trata-se quando muito de três aspectos de uma única realidade muito imbricada, na qual não é possível compreender o que se passa num destes assim chamados domínios sem se dar conta da totalidade. Cada decisão económica depende das suas consequências políticas e sócio-culturais, e é também resultado de elementos políticos e sócio-culturais. E assim sucessivamente». In Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde; Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de wikipedia/JDACT

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «O intelectual compromete-se, por natureza, a analisar a forma de levar à prática as escolhas morais que derivam da sua análise. Isto é uma tarefa política, no sentido amplo da palavra “político”. … através da vida política pública, através da imprensa, através dos testemunhos…»

jdact

O passado relativiza-se no presente
«(…) Como é que se pode seguir esse caminho estreito? Sugiro que existem três momentos de pensamento:
  • a análise sistemática e historizada;
  • a escolha moral;
  • as implicações políticas.
São três tarefas diferentes e distintas, mas muito imbricadas umas nas outras e, no fim de contas, indissociáveis. Cada um de nós realiza os três momentos cada vez que pensa. E fazê-lo com conhecimento de causa é sempre mais sensato. Parece-me que Godinho o demonstrou biograficamente, oferecendo-nos o exemplo de como ser um intelectual coerente, isto é, comprometido e público. Os três momentos de pensamento são sucessivos e cada tarefa tem as suas regras próprias. É preciso começar sempre pela análise. Quando não, arriscamo-nos a fazer não poucas asneiras. E este esforço é contínuo; não termina nunca. Todos nós temos um fundo de conhecimentos limitado. E o mundo está em constante mudança. Há, pois, sempre muito a aprender, muito a analisar, muito a repensar e, sobretudo, muito a des-pensar. E, evidentemente, e por causa disso, não devemos demorar demasiado a revelar o que supomos ter aprendido. Esperar pela certeza é esperar pelas calendas gregas.
Mas uma vez feita a análise, como evitar as escolhas morais? Elas estavam já implícitas na nossa escolha de tema, de variáveis, de dados, e de métodos, mau grado todos os nossos esforços para minimizar as tendenciosidades mais evidentes e para proporcionar uma exposição que seja convincente e resista à demolição fácil dos nossos críticos. Não obstante, temos de assumir as nossas simpatias, os nossos juízos. Como poderíamos sugerir que os que são menos aptos para a análise são, apesar disso, mais aptos para as escolhas morais que dela derivam? Ninguém pode evitar as escolhas morais, sobretudo, diria eu, um intelectual. Se não, o intelectual é como alguém que coloca na rua um explosivo potencial sem o confessar e deixando aos outros o encargo de o neutralizar. Não estou a dizer que as escolhas morais do intelectual são as únicas possíveis. Longe disso. Toda a gente pode e deve tirar as consequências da análise. O que estou a dizer é que o intelectual não tem o direito de dizer que se desliga deste dever comum. Aliás, estou a dizer que ele nunca se desliga. E quando finge fazê-lo, é uma maneira de aceitar, talvez mesmo de apoiar, as escolhas de outros, sobretudo dos que detêm o poder.
Mas não chegámos ainda ao fim da participação inevitável do intelectual na vida pública. O intelectual compromete-se, por natureza, a analisar a forma de levar à prática as escolhas morais que derivam da sua análise. Isto é uma tarefa política, no sentido amplo da palavra político. Há muitos meios de prosseguir essa análise política, através da vida política pública, através da imprensa, através dos testemunhos. Pouco importa. Depende das situações locais diferentes, das possibilidades que se apresentam a todos. Mas, mais uma vez, não há alternativa. O intelectual que tenta evitar esta parte do seu papel cede o seu dever, deliberadamente ou não, aos outros. Não basta dizer que se participa como cidadão. Participa-se também como intelectual. E isto porque outros usam as análises sistemáticas e historizadas já feitas para justificar as suas políticas. O intelectual é, pois, obrigado a descer à arena para defender a boa interpretação daquilo que escreveu ou que escreveram os seus colegas, sobretudo aqueles que não estão em condições de o fazer eles próprios. O intelectual permanece sempre um cidadão intelectual, com o encargo perpétuo de ajudar à clareza e à clarificação
das decisões.

Uma visão de futuro
Ouso fazer apelo à obra e ao exemplo de Godinho para traçar um programa de trabalho para o nosso novo século. Este resume-se à palavra de ordem já lançada e bem conhecida da história total, a que Godinho e um bom número de outros investigadores se dedicaram desde há bastante tempo mas que só constitui um compromisso para uma minoria de investigadores pelo mundo fora, uma minoria que continua bastante sitiada. Mas que quer dizer na prática a história total? Parece-me que há quatro debates a resolver, quatro caminhos a seguir». In Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde; Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de wikipedia/JDACT

quinta-feira, 1 de maio de 2014

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «… mas de factores / aspectos / elementos que intervêm integralmente numa história única. Para ir além destes preconceitos nocivos, é necessário “des-pensar” os nossos saberes. … todos empregam a palavra economia ou outras palavras tradicionalmente ligadas à economia…»

Cortesia de wikipedia

A História é Geográfica
«(…) E como o sistema-mundo moderno pôde e teve de estender-se por todo o mundo para envolver todas as partes sob o mesmo regime, o mesmo complexo histórico-geográfico, como diria Magalhães Godinho, não existe nenhuma zona que escape a estas consequências globais. A ruptura social exprimiu-se através da criação de um sistema capitalista que pôde sobreviver e consolidar-se no seio de uma economia-mundo. O leitmotiv do capitalismo é a acumulação incessante do capital. O resultado é que os que triunfam são, na maior parte, os que recusam obrigações sociais com o fito de maximizar o rendimento imediato da empresa. Um elemento central desta maximização é a externalização máxima dos custos de produção.
Há três métodos principais para externalizar os custos. Despeja-se noutro lado os restos da produção, sobretudo o que for tóxico. Não se tem preocupações a respeito da reprodução das matérias-primas da produção. Depende-se de outros (sobretudo das autoridades públicas) para construir as infraestruturas que facilitam o transporte e a comunicação. Na medida em que possa escapar-se a estes três custos de produção, a margem de lucro aumenta.
De início, era simples, em certo sentido. Primeiro, as estruturas burocráticas capazes (se quisessem) de limitar os excessos eram muito débeis e dispersas. Em segundo lugar, estas acções pareciam legítimas e, em todo o caso, a aliança na prática entre os produtores e as autoridades públicas era suficientemente forte para que não se suscitassem tais questões. Em terceiro lugar, as zonas relativamente vagas para receber os resíduos, as zonas relativamente abundantes para obter as matérias-primas, faziam com que não se tivesse muita consciência dos danos ocorridos. Enfim, e esta é talvez a explicação mais fundamental, em geral os custos eram pagos pelos pobres e pelos outros e não tinham um impacto real sobre a vida das elites.
Em todo o caso, foi preciso que passassem pelo menos quatro séculos para que estes danos se acumulassem ao ponto de haver uma reacção política importante, o que significa os últimos 30 anos. Chegou-se a um momento em que se começa (com justa causa) a recear consequências difíceis de remediar, consequências que ameaçam tanto as elites como as camadas marginais. Vistas em conjunto, as relações entre o mundo físico-geográfico e o mundo social já viram melhores dias.

A unicidade da história
O homem real não é actor separadamente de uma história politica, de uma história económica, etc.; todo ele intervém integralmente numa história única, que é a história da sua plurifacetada mas uma actividade. In Godinho, 1971.
O que me atrai nesta citação é que Godinho começa por falar do homem real, em contraste implícito com o homem abstracto que tantos analistas constroem. E, a partir deste sólido rochedo, chega à conclusão de que a actividade do homem é composta por múltiplos aspectos, mas permanece, apesar disso, única ou unificada, aquilo a que chamo a unicidade da história. O seu grande livro, mas também os seus múltiplos ensaios, reflectem fielmente este compromisso com a totalidade, que é um compromisso com a realidade vivida, concreta. Ele não fala numa abordagem multidisciplinar, mas numa abordagem unificada, o que constitui uma nuance essencial. É que não se trata de um agregado de dados recolhidos separadamente por investigadores distintos e diferenciados, mas de factores / aspectos / elementos que intervêm integralmente numa história única. Ele faz sua uma aspiração que é a aspiração de uma minoria de investigadores e que só é realizada por uma minoria dentro desta minoria, por ser tarefa eminentemente difícil. A dificuldade reside, não na amplitude da investigação (falso problema), nem na escrita sintética (que está ao alcance de todos os que têm uma visão clara), mas sim na conceptualização. A conceptualização é difícil porque se faz a contrapelo, porque exige que nos desembaracemos das nossas socializações intelectuais, das hipóteses de tal modo interiorizadas que nem sequer nos damos conta disso. Para ir além destes preconceitos nocivos, é necessário des-pensar os nossos saberes.
Quando se observa o plano de obra do seu grande livro, não se trata de nada que não seja económico, o próprio título do livro, os títulos das três partes, os títulos de vários capítulos, todos empregam a palavra economia ou outras palavras tradicionalmente ligadas à economia. E, no entanto, quando se lê o texto, está-se liberto deste espartilho. Percorre-se o mundo real sem que nos apontem isso como uma espécie de travessia de fronteiras. Porque é que é tão difícil para nós despirmos esta tríade enraizada, o económico, o político, o sócio-cultural? Porque é que insistimos em pensar nestas categorias como domínios, como acantonamentos, quase como Estados soberanos? Também isso faz parte da ruptura do mundo moderno, separando-o de outros sistemas históricos. Esta ideia ia progredindo lentamente desde o século XVI, mas foi só no século XIX que ela foi consagrada e institucionalizada nas estruturas universitárias reconstituídas. Mas porquê nesse momentoIn Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde: Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de RCSociais/JDACT

Ensaios. A História de Portugal. Vitorino Magalhães Godinho. «… as proporções que entre essas partes existem e a sua disposição relativa, o conjunto das relações internas e externas dessa totalidade que a especificam quanto a outras totalidades (de que eventualmente até faz parte), mantendo-se relativamente constante num intervalo de tempo assás longo»

jdact

A Divisão da História de Portugal em períodos
«(…) Embora tais investigações ainda não estejam feitas, que pensar razoavelmente de uma divisão da história de Portugal em períodos? Herculano situava uma primeira cesura no último quartel do século XIII; então, ou em começos do XIV parece haver realmente uma transformação. 1385 é certamente muito importante (o mesmo não cabe dizer da paz com Castela em 1411), mas a reconstituição de estruturas anteriores, embora vivificada por novos quadros, a persistência das crises e lutas leva a pensar se não seria melhor considerar um corte a meio de Quatrocentos, com a inversão do feudo económico e os começos de repercussão na estrutura metropolitana da expansão ultramarina. Se entre estas duas soluções é lícito hesitar, já não é quanto à justeza da concepção de Herculano, de que 1580 e 1640 representam tão só levíssimas alterações no modo de existir nacional. A grande viragem parece situar-se a meio do século XVI, entre 1545 e 1550 (a data de 1557 adoptada na Barcelos, é insignificativa). A crise do imperialismo peninsular data de entre 1620 e 1630, quando à subida longa de preços sucede a baixa e diminuem sensacionalmente as chegadas de prata mexicano-peruana. A outra viragem para novo complexo histórico-geográfico é de 1670-1680, e conviria terminar esse período quando o antigo regime entra em crise, em fins do século XVIII ou começos do XIX, para chegarmos a alturas de 1870 e marcarmos nova cesura. Estes tópicos representam um compromisso entre vários pontos de vista, sem que possamos esquecer a persistência profunda de estruturas e maneiras de ser mesmo em períodos posteriores e sob novas roupagens (ainda hoje a sociedade portuguesa mantém muitas características do antigo regime). Seja como for, a divisão em períodos não pode traduzir-se em datas precisas: as viragens estruturais operam-se, embora a ritmos diversos consoante as épocas, assás lentamente; as inversões de conjuntura longa também não datam de um ano preciso simultâneamente para todos os produtos ou sectores, levam alguns anos a espraiar-se; aquelas e estas não resultam de acontecimentos, no sentido em que se entendia o acontecimento, facto histórico com data e personagens definidos de grande alcance, mas de processus de transformação colectiva. Daí que seja preferível, para dividir a história de Portugal, não escolher datas mas sim balisar franjas de separação, mais ou menos largas temporariamente.

A evolução dos complexos histórico-geográficos
A economia tem de ser consideracia na sua configuração espacial, inscrita no espaço geográfico cuja geometria é dada pelas condições técnicas (distâncias medidas em velocidades e em riscos e custos de comunicação). Por outro lado, como toda a dominância o é tão só num sector regional e em função de outras dominâncias noutras regiões, há que considerar a complexa economia (e a sociedade, dela inseparável) em que se insere, com as suas específicas tensões de factores. Nesta dupla perspectiva, a noção mais geral é a de estrutura: unidade de uma multiplicidade, é a maneira como um todo se compõe das suas partes (ou um conjunto dos seus elementos), as proporções que entre essas partes existem e a sua disposição relativa, o conjunto das relações internas e externas dessa totalidade que a especificam quanto a outras totalidades (de que eventualmente até faz parte), mantendo-se relativamente constante num intervalo de tempo assás longo. Como tal, a noção de estrutura tanto opera quanto à sociedade global como quanto aos grupos, sectores de actividade, regiões e localidades que a integram, sendo sempre o meio de aprender analítico--sinteticamente (por explicação-compreensão) o facto social total. Há que definir-lhe pois a sua pluridimensionalidade nas multiplicidades dos espaços geográficos, dos tempos histórico-sociais e das relações humanas; as estruturas justapõem-se, são intersecantes, integram-se, subordinam-se ou coordenam-se, umas vezes de forma compatível, outras em incompatibilidade ou pelo menos em desharmonia ou discronia. A realidade é sempre, assim, um complexo mais ou menos coerente, ou antes, incoerente, de estruturas configurando-se num espaço geográfico, processando-se nos tempos histórico-sociais. Se considerarmos um complexo coerente de estruturas tal que o conjunto das relações pareça resultar de um pequeno número de princípios compatíveis explicitados, teremos o sistema, concepção doutrinária mais do que realidade social, mas que em força real se transforma sempre que os homens, ou pelo menos certos homens, dele tomam consciência: assim o feudalismo; o mercantilismo, o absolutisrno, o liberalismo, o capitalismo, o socialismo. Convém ainda distinguir o regime, que é afinal a ordem jurídica, global (monarquia, república...) ou relativa a uma colecção de fenómenos (propriedade, trabalho...), conjunto de normas compulsórias ligadas a sanções fixadas e aplicáveis por órgão socialmente diferenciado. O regime é, pois, uma parte ou aspecto de um complexo histórico-geográfico, que marca mais ou menos profundamente consoante a potência do aparelho estadual». In Vitorino Magalhães Godinho, Ensaios, Sobre a História de Portugal, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1ª Edição, 1968.

Cortesia LSdaCosta/JDACT

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «É preciso ser intelectual, o que é uma tarefa do que ser um erudito pedante. “Um intelectual é sempre e necessariamente um intelectual público”, mesmo, ou até sobretudo, quando o nega. A negação, quando não a hipocrisia, é de bom tom em muito lado»

Cortesia da cmp, jdact

A unicidade da história
«(…) Donde, logicamente, organizacionalmente, deveríamos ter baseado as nossas chamadas disciplinas numa disciplina única, a que, por mim, chamaria ciências sociais históricas ou historizadas. Magalhães Godinho indica-nos este caminho ao longo de todas as suas discussões sobre a crise da história. Ouçam a sua argumentação:

Ao longo do Cinquecento, as economias não caminharam todas ao mesmo ritmo […] a desgraça de uns era a boa fortuna dos outros […]. Que tais desequilíbrios sejam muitas vezes de origem extra-económica, no sentido estrito ou, melhor, académico que a economia pura dá a este adjectivo, muito bem. Está por fazer, começa a fazer-se, uma teoria do técnico, as inovações estão à cabeça da teoria económica de Schumpeter. Está por fazer a psicologia histórica, quem está a servir de parteiro é Lucien Febvre. Mas a necessidade de teorização impõe-se em todos os domínios e no conjunto dos domínios como um todo. A história não pode deixar de continuar a absorver mais teoria. Mas tem de entender-se o real e, portanto, as suas transformações, o devir; a única forma de, por sua vez, o conseguir é através da historização das teorias, da tecnologia, da psicologia, da sociologia e, porque não, da própria economia. (Godinho, 1971)

Este programa, enunciado em 1951, não foi ainda realizado pela grande maioria dos analistas mundiais. Sem dúvida que, aqui e ali, houve muitos esforços mas, mesmo se admirados, eles não são amplamente seguidos.

O passado relativiza-se no presente
Há todo um mundo a desbravar, desde que quem estude o passado não esqueça o presente e saiba sacrificar ao espírito crítico quer os interesses apaixonados que tudo deturpam porque demasiado exclusivos, quer o cómodo abandono de selecção que nada permite explicar porque tudo confunde. (Godinho, 1971)

Entre todos os temas, considero este o mais importante e o mais radical. As guerras culturais que irrompem quando se utiliza o verbo relativizar! E que afronta à suposta distância imparcial do historiador quando se insiste no facto de que a história é, de facto, uma descrição do presente e não o texto de um passado à moda de Ranke, o passado tal como era realmente. O presente, como se sabe, é o mais evanescente dos fenómenos, terminado antes que possa captar-se. Quando um historiador insiste, como tem a obrigação de fazer, junto de outros cientistas sociais, em que é necessário historizar as análises deles, que são demasiado ou exclusivamente presentistas ele não está a falar, ou pelo menos, não deveria estar, em acrescentar uma cronologia dos acontecimentos ao seu texto. No que ele insiste é em que o presente incorpora o passado, que o passado faz parte integral do presente, e que ele tem de ter isso em conta, não deve pressupor que a fácil teorização do presente se aplica eternamente. Mas, ao mesmo tempo, Magalhães Godinho fala aos historiadores que abandonam a selecção com facilidade porque, assim confundindo tudo, não explicam nada. Há, pois, um caminho estreito a seguir, nem a distorção que as paixões do presente implicam nem a sedutora retirada das paixões do presente que nos cercam, nos formam e nos determinam largamente. É preciso ser intelectual, o que é uma tarefa muito mais difícil do que ser um erudito pedante. Um intelectual é sempre e necessariamente um intelectual público, mesmo, ou até sobretudo, quando o nega. A negação, quando não a hipocrisia, é de bom tom em muito lado». In Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde; Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de wikipedia/JDACT

quinta-feira, 27 de março de 2014

Ensaios. A História de Portugal. Vitorino Magalhães Godinho. «Na política, aos acontecimentos trepidantes antepor as bases de organização (não apenas legal mas também de facto) e as relações de forças em presença, tentando surpreender quando tais alicerces se modificam»

jdact

A Divisão da História de Portugal em períodos
«(…) A história económica brasileira poder-se-ia dividir nos seguintes ciclos:
  • 1.º Ciclo do pau-brasil, com os comércios ancilares de animais e algodão, pré-colonial, até cerca de 1530;
  • 2.º Ciclo do açúcar, dominante na 2.ª metade do século XVI e no XVII, tendo como actividades ancilares o tabaco e a criação de gado, esta última responsável pela penetração no sertão e a grande integradora da unidade nacional brasileira;
  • 3.º Ciclo de mineração, do ouro e diamantes, que marca com o seu cunho o século XVIII;
  • 4.º Ciclo do café, séculos XIX e XX, cedendo hoje o lugar à civilização industrial (Afonso Arinos Melo Franco, Síntese da História económica do Brasil, Rio de Janeiro, 1933).
É evidente que se segue o figurino cortado por Lúcio Azevedo, mas a sua periodização cíclica do Portugal económico de Antigo Regime não oferece a mesma nitidez de recorte. Depois da medieva Monarquia agrátia, estruturalmente definida como um quase feudalismo num país de lavradores que produzem azeite, cera, cortiça, mel, vinho e peles, cevada e trigo, intercala-se uma Jornada de África, arca onde tudo se mete mas que é essencialmente um Ciclo dos escravos, passa-se ao ciclo da pimenta ligado à Índia, e isto antes do metal amarelo da Guiné, Mina e Monomotapa agrupado num Primeiro ciclo do ouro, a que sucede o Império do açúcar seguido de uma Idade de ouro e diamantes. Assim, ciclo parece designar essencialmente um sistema de actividades constelando-se em volta de um produto e processando-se da génese ao ocaso, de modo a dar o tom dominante a toda uma economia. Mas na mesma época podem coexistir dois ou mesmo mais ciclos, no século XVI o dos escravos, o da pimenta, o primeiro do ouro e até já o começo do do açúcar; no século XVIII a idade do ouro e diamantes, ou melhor, o segundo ciclo do ouro, agora brasileiro e combinado aos diamantes, não esgota a realidade histórica-económica, um outro capítulo completa o quadro Sob o signo de Methuen. Tanto quanto de periodização, o ciclo serve pois de arrumação de matérias segundo um princípio de lógica interna de desenvolvimento. Aliás, em Lúcio Azevedo a concepção cíclica está sobretudo no obsessivo retorno de uma falência a cada ciclo apenas adiada.
Aplicando à assás imprecisa concepção de ciclo de Lúcio Azevedo a precisa noção de efeito dominante de François Perroux, Frédéric Mauro propõe manter aquela entendendo-a de forma que o ciclo do açúcar seria a economia em que o açúcar exerceria o efeito de dominação: Produto dominante, visto que o crescimento do seu comércio traz consigo a prosperidade geral, e o seu declínio um declínio geral, ao passo que a inversa não é verdadeira: nesta irreversibilidade é que, como é sabido, reside o efeito de dominação. Escravos, material dos engenhos, consumo de sal, de vinho, de produtos manufacturados, tudo é comandado, dominado pelo açúcar. Mas não era esta, no fundo já a concepção de Afonso Arinos, talvez até do próprio Azevedo agora melhor definida e caracterizada? Mauro aproxima-se porém de uma outra concepção, a de complexos histórico-geográficos, ao introduzir a distinção; devida a Perroux, de zonas dominantes e zonas dominadas. Convém reservar a designação de ciclo aos processus de recurrência em que o movimento se fecha, retornando ao estádio inicial, depois de percorrer sempre as mesmas fases. Por outro lado, a estruturação da economia sob a dominância de um factor (feixe de actividades ligadas a um produto ou pequeno conjunto de produtos interconexos) só pode considerar-se modelo historicamente válido num reduzido número de casos: precisamente os das economias coloniais caracterizadas pela monocultura para exportação; é o que em boa parte acontece no Brasil com a sucessão pau brasil-açúcar-ouro-café. Por isso mesmo há que integrá-los em noções operatórias de maior generalidade; esse seu carácter só se afirma porque fazem parte de totalidades mais vastas, não passam de aspectos regionais delas.
No estado actual da pesquisa no nosso País não é possível assentar sem arbitrariedade uma divisão da história de Portugal em períodos. O critério foi luminosamente definido por Herculano há um século e um quarto; há que repensá-lo, evidentemente, e aperfeiçoá-lo à luz da ferramenta moderna de estrutura e complexo histórico-geográfico, mas a linha mestra está traçada. Que cabe fazer? Estudar a sociedade portuguesa através dos tempos, não apenas nas suas formas jurídicas mas sim na sua existência colectiva tal como é na realidade, procurando rastrear as relações fundamentais que definem estruturas sucessivas; desenhar as correspondentes configurações espaciais, numa perspectiva de geografia dinâmica que dê as proporções de forças em acção, suas áreas de incidência, vectores de articulação ou transformação; na história cultural, averiguar das maneiras de sentir e pensar colectivas (globais ou de grupo), de modo a caracterizar mentalidades e grandes revoluções psicológicas. Na política, aos acontecimentos trepidantes antepor as bases de organização (não apenas legal mas também de facto) e as relações de forças em presença, tentando surpreender quando tais alicerces se modificam. Há que determinar os próprios ritmos do tempo tal como os homens o vivem em cada época e dele têm consciência. É de esperar, aliás, que os tempos das estruturas, das conjunturas e dos acontecimentos não coincidam, e portanto de admitir mais de uma periodização consoante o ponto de vista em que nos colocarmos». In Vitorino Magalhães Godinho, Ensaios, Sobre a História de Portugal, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1ª Edição, 1968.

Cortesia LSdaCosta/JDACT

Ensaios. A História de Portugal. Vitorino Magalhães Godinho. «Não parece que Vico repercutisse no pensamento português setecentista e oitocentista, embora fosse conhecido da geração de 70 graças à tradução de Michelet, assim, é-o de Antero, de Teófilo…»

jdact

A Divisão da História de Portugal em períodos
«(…) A abertura do derradeiro período corresponde à elevação do Brasil a reino e aos antecedentes da revolução liberal: não é, pois, inadequada.  A cesura de 1640, que Oliveira Marrins consagrara como a da passagem do império baseado no Oriente ao império baseado no Brasil, é ainda, politicamente, a da Restauração mas esbarra contra as objecções, em que poucos repararam, de Herculano. A grande novidade da Barcelos é, sem dúvida, o corte em 1557 em vez de 1580, neste caso parece ter-se atendido, em parte, a Herculano; aquela data é, no entanto, a da morte de João III, e como tal, só por si, não muito significativa. Se as divisões da história de Pornrgal em períodos que até aqui apresentámos exprimem, no fundo, teorias dessa história de Portugal ou aplicam de forma mais ou menos consciente rotinas didácticas e ideologias dorninantes, convém considerar as tentativas de periodização ligadas à aplicação sistemática de uma ideia operatória. É o caso das divisões em ciclos operadas quer na evolução portuguesa quer na brasileira. A ideia de ciclo, originária do pensamento mítico ligado aos cultos agrários da fertilidade e pastoris da fecundidade, transpõe-se para a esfera do pensamento filosófico relativo ao homem e à sociedade com Platão, cuja tipologia das formas políticas é ao mesmo tempo uma dinâmica pois elas não seriam mais do que momentos engendrando-se sucessivamente num movimento circular em constante repetição. Como concepção da história da humanidade, coube a Vico precisá-la e desenvolvê-la (1725, 1730, 1744). Essa história passaria recurrentemente por três idades: a idade divina, de teocracia, em que predomina o sentimento; a idade heróica, das aristocracias, época de violência e epopeia, em que o tom dominante é dado pela imaginação; e a idade propriamente humana, marcada pela inteligência e pelo saber racional, em que triunfa o direito, em que o regime é a república ou a monarquia temperada.
Se com o mundo greco-romano a humanidade alcançara a terceira idade, com o mundo medieval regressou à barbárie da primeira. Assim, em corsi e ricorsi, seria para os homens um eterno retorno e um eterno recomeço. Mas porque contrapondo a fantasia poética na construção da história ao racionalismo matemático e experimental, a filosofia de Vico não exerceu influência no movimento iluminista, e as revoluções industriais do século XIX, radicando a crença no progresso, como que varreram a concepção cíclica, que só quando aquela está em crise ressurge com Spengler principalmente: cada ciclo de cultura seria um domínio hermeticamente fechado, com personalidade própria, sujeito internamente a um ritmo que o faria passar da Primavera ao Verão, Outono e por fim Inverno, do nascimento à morte. Mas a ideia de uma como que lei de desenvolvimento interno de estrutura em vaso fechado vem já do século XIX e encontra-se, por exemplo, em Oliveira Martins. Não parece que Vico repercutisse no pensamento português setecentista e oitocentista, embora fosse conhecido da geração de 70 graças à tradução de Michelet, assim, é-o de Antero, de Teófilo, que em As modernas ideias na Literatura portuguesa (1892) lhe consagra um capítulo mas apenas em relação com os tropos, as figuras literárias e as formas de lógica poética; é-o de Oliveira Martins, que todavia não aceita sua filosofia (Theoria do Socialismo, 1872), preferindo-lhe a do historiador francês tradutor do italiano, e que transforma os ricorsi numa série de círculos concêntricos sucedendo-se sempre e alargando em periferia, logo ascensionais; a humanidade não está como os bois a tocar a nora, descreve sim uma espiral (carta a Barros Gomes, Correspomdência n.º XXV).
Mas a marcha da humanidade não segue uma evolução rectilínea e progressiva em todos os seus pontos, A história é um sistema de civilizações, e cada civilização é em si um sistema com história e leis próprias; em cada civilizaçio encontrar-se-ão sempre três mornentos incontestáveis e evidentes:
  • o da agregação ou mecanismo, o do espírito inconsciente representando em mitos (a que corresponde como método histórico a narrativa dos factos e a descrição do meio);
  • o da organização das forças democráticas operando como elementos naturais (e aqui cabe o estudo da concatenação sistemática dos costumes, dos movimentos de classes, das instituições); 
  • o da sociedade animada por um pensamento, em que a liberdade humana positivamente cria (método artístico, biografias) (O Helenismo, 1878, introdução; História da Civilização Ibérica, Liv. IV). Perpassa aqui a influência de Vico, e como o italiano; Martins considera paradigmática a história romana.
A ideia de ciclo serviu a Lúcio Azevedo para periodizar a história económica de Portugal e a vários historiadores brasileiros, na sua esteira, para periodizarem a história económico-social do Brasil. Não parece todavia que haja que relacionar tal periodização com a concepção cíclica à Vico nem talvez sequer com a dos ciclos culturais da etnologia, embora com esta manifeste certas afinidades. Trata-se fundamentalmente de épocas sucessivas, cada uma das quais estruturada em volta de um núcleo que é constituído por um produto dominante arrastando todas as outras actividades; em cada desenrola-se um processus segundo o qual o factor dominante aparece, se fortalece e depois de um apogeu decai e mesmo desaparece, e na recurrência de tal processus para vários produtos e actividades sucessivamente é que reside propriamente o carácter cíclico. Como escreve Afonso Arinos, em torno de tais sois económicos ficam, em cada ciclo, os planetas vassalos e submissos, maiores ou menores, descrevendo órbitas de mais longo ou mais diminuto alcance. São aquilo a que podemos chamar os comércios ancilares do produto principal». In Vitorino Magalhães Godinho, Ensaios, Sobre a História de Portugal, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1ª Edição, 1968.

Cortesia LSdaCosta/JDACT

segunda-feira, 17 de março de 2014

A descoberta da economia-mundo. Immanuel Wallerstein. «… a vida histórica da humanidade, por exemplo, destruição em curso da camada de ozono, enfraquecimento da diversidade biogenética, diminuição na Terra da vida biótica essencial para a sua regeneração, aquecimento da Terra, e assim por diante»

Cortesia de wikipedia

A história é geográfica
«(…) Antes de mais, reorganização. Para optimizar a produção rentável é necessário, como toda a gente reconhece, especializar-se. Para os economistas clássicos, a especialização é uma escolha feita de comum acordo pelo empresário e o trabalhador que maximiza as vantagens para todos. Mas no mundo real, como toda a gente sabe mesmo se se recusa a admiti-lo, a escolha é imposta e é vivida com muito sofrimento pela grande maioria das pessoas. Talvez que no início dos descobrimentos o objectivo e mesmo a realidade do comércio fossem a troca de produtos que cada um dos lados já produzia, a troca mais ou menos igual de um excedente mais ou menos natural. Mas o comércio rapidamente se inclinou numa direcção inteiramente diferente. Os que eram mais fortes, e, desde os descobrimentos, esses eram quase sempre os europeus, impunham uma produção primária aos povos com quem faziam trocas. Lentamente aqui, mais rapidamente acolá, a Europa exigia o desenvolvimento de uma produção primária especializada, diferente segundo as regiões, uma produção das culturas comerciais (cash crops, como dizem os historiadores) ou uma produção orientada para a exportação (como dizem hoje em dia os economistas). É preciso pensar em tudo o que implica a criação de uma tal produção primária. Antes de mais, há que escolher o terreno para a implantação. E normalmente, necessariamente, há que deixar de fazer uma outra coisa nesse terreno. Esta outra coisa era muitas vezes, talvez sempre, uma produção alimentar para o consumo local. É necessário, pois, substituir esta produção alimentar local por uma qualquer importação, por vezes, de uma região vizinha, por vezes, de terras distantes. E como esta nova produção dos cash crops exige por via de regra trabalhadores mais ou menos permanentes, bem enquadrados, coloca-se o problema do seu recrutamento e da sua manutenção, um problema resolvido com muita frequência, pelo menos durante alguns séculos, pela criação de uma força de trabalho coagida, servos e corveia, escravos, peones, la mita. E como os habitantes locais muitas vezes resistiram a um tal trabalho, era preciso ou proibi-los de se deslocarem ou importá-los de outro lado, o que criou outras formas de comércio, o trato de escravos, os contratados.
Este processo de periferização das zonas onde eram impostos trabalhos forçados ou coagidos implicava uma transformação das zonas centrais. Não insistirei sobre os processos mundiais de industrialização nem sobre a constante transformação de tudo em mercadoria. É a história do capitalismo enquanto sistema. Assinalo simplesmente que o resultado, ao fim de 500 anos, é uma polarização global nos planos económico, social e político, que não cessa de aumentar. Já não existem zonas relativamente estáveis do ponto de vista cultural. As identidades são reivindicadas no seio de uma turbulência enorme e perturbadora. Os ódios inter-étnicos constroem-se através do recurso a uma historicidade que tem uma existência muito débil. E, geograficamente, as pessoas já não estão de modo nenhum onde estavam há 500 anos. As migrações sobrepõem-se às radicações ditas tradicionais. Em segundo lugar, destruição. Em 500 anos da vida do sistema-mundo moderno, a vida na Terra transformou-se mais rapidamente do que jamais havia acontecido. Não estou certo de que possa dizer-se que esta transformação foi maior do que qualquer uma outra. Mas o que pode dizer-se é que esta transformação criou uma série mais vasta de perigos à continuação saudável do nosso mundo social do que qualquer uma outra desde o começo daquilo a que chamamos a vida histórica da humanidade, por exemplo, destruição em curso da camada de ozono, enfraquecimento da diversidade biogenética, diminuição na Terra da vida biótica essencial para a sua regeneração, aquecimento da Terra, e assim por diante.
E como o sistema-mundo moderno pôde e teve de estender-se por todo o mundo para envolver todas as partes sob o mesmo regime, o mesmo complexo histórico-geográfico, como diria Magalhães Godinho, não existe nenhuma zona que escape a estas consequências globais. A ruptura social exprimiu-se através da criação de um sistema capitalista que pôde sobreviver e consolidar-se no seio de uma economia-mundo. O leitmotiv do capitalismo é a acumulação incessante do capital. O resultado é que os que triunfam são, na maior parte, os que recusam obrigações sociais com o fito de maximizar o rendimento imediato da empresa. Um elemento central desta maximização é a externalização máxima dos custos de produção. Há três métodos principais para externalizar os custos. Despeja-se noutro lado os restos da produção, sobretudo o que for tóxico. Não se tem preocupações a respeito da reprodução das matérias-primas da produção. A descoberta da economia-mundo depende-se de outros (sobretudo das autoridades públicas) para construir as infraestruturas que facilitam o transporte e a comunicação. Na medida em que possa escapar-se a estes três custos de produção, a margem de lucro aumenta». In Immanuel Wallerstein, A descoberta da economia-mundo, Comunicação ao colóquio Le Portugal et le Monde; Lectures de l’Oeuvre de Vitorino Magalhães Godinho, Paris, 2003, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 69, 2004.

Cortesia de wikipedia/JDACT