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sábado, 6 de dezembro de 2014

Três Momentos na Existência do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Helena C Toipa. «… Boletim da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, em 1921, com o título Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte»

Cortesia de wikipedia

«Foi recentemente trazido de novo à luz, liberto das águas e das areias do Mondego, o que resta do complexo de edifícios que constituía o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e anexos. E o que resta é simplesmente a Igreja e o Claustro, pois os outros edifícios, também mandados construir pela Rainha Santa Isabel, já tinham desaparecido antes da acentuada submersão do mosteiro, segundo testemunho de autores contemporâneos desses desaparecimentos. Quando falamos do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, a associação à figura da Rainha Santa Isabel é imediata, pelo papel fundamental que ela teve na sua construção e florescimento. Por isso, as biografias desta rainha apresentam, todas elas, como não podia deixar de ser, informação sobre a sua dedicação e o seu empenho na construção e manutenção desta complexa edificação, que incluía igreja, claustros, um paço régio onde costumava alojar-se quando residia em Coimbra, para estar próxima das clarissas, e alojamentos para homens e mulheres carenciados, de vida honesta, com a respectiva igreja e cemitério. O primeiro documento biográfico da rainha é um texto de autor desconhecido, que andou manuscrito por muito tempo na biblioteca do Mosteiro, onde foi consultado por todos os biógrafos seguintes e cronistas que se debruçaram sobre os reinados de Dinis I e Afonso IV, e que foi escrito muito pouco tempo depois da sua morte, que ocorreu em 1336; foi editado pela primeira vez por fr. Francisco Brandão, na Monarchia Lusitana, parte VI, com o título Relaçam da vida da gloriosa Santa Isabel, Rainha de Portugal, e depois reeditado, com nova leitura e mais completa, por José Joaquim Nunes, no Boletim da Classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, em 1921, com o título Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte. É este último texto que seguiremos e citaremos, referindo-o pela designação tradicional de Lenda da Rainha Santa.
Neste texto se refere a origem do monumento e o papel da rainha para a resolução do impasse a que se tinha chegado depois de longa contenda judicial e o empenho e entusiasmo que colocou na edificação do Mosteiro onde, depois de viúva, viria a passar grande parte do seu tempo e em cuja igreja escolheu ser sepultada. O mosteiro de Santa Clara teve um início atribulado; fora fundado por D. Mór Dias, uma abastada dama da nobreza que, decidindo afastar-se do mundo, recolhendo-se num mosteiro, em 1250, sem, no entanto, professar, para poder continuar a possuir e a administrar os seus bens, começara por escolher para a sua reclusão, o mosteiro feminino da Ordem de Santa Cruz, em Coimbra, onde viveu algum tempo, aparentemente em situação de poder dispor dos seus bens. Poucos anos depois, por volta de 1278, mandava ela construir, junto do Mondego, umas casas e, em 1283, obtinha autorização para fundar um mosteiro onde pudesse recolher-se, da ordem de Santa Clara, dedicando-o a Santa Isabel de Hungria. Os Cónegos Regrantes de Santa Cruz, no entanto, não aceitaram pacificamente esta transferência de D. Mór Dias e da sua fortuna para outra instituição e iniciaram contra ela uma demanda, argumentando que tinha professado na sua ordem e que, como tal, quer a pessoa quer os seus bens lhes pertenciam. O conflito prolongou-se por vários anos, contando mesmo com a intervenção da Santa Sé, quer em vida da fundadora, quer depois da sua morte, que ocorreu em 1303. Finalmente, por decisão do tribunal, favorável aos frades de Santa Cruz, as clarissas foram expulsas e o mosteiro ficou desabitado. In Lenda, 1921.
Foi a intervenção da rainha D. Isabel de Aragão que veio dar novo alento à iniciativa de D. Mór Dias: contribuiu para a composição das partes em litígio; solicitou autorização para fundar um mosteiro de invocação a Santa Clara, naquele mesmo lugar onde o quisera D. Mór Dias, mas agindo como se começasse de novo, comprando os terrenos em redor, e planeando uma grande construção, cujas obras decorriam já em 1316. O mosteiro conheceu, após a intervenção da rainha, o seu grande desenvolvimento. In Lenda, 1921. Para seguir de perto e orientar a construção, quando estivesse em Coimbra, a rainha mandou construir, nas proximidades, uma casa para si e para os seus, que posteriormente acompanhou de outros edifícios, destinados a um hospício que albergaria separadamente 15 homens e 15 mulheres pobres, com a respectiva capela e cemitério consagrados; estes edifícios ficariam, à sua morte, propriedade do mosteiro. In Lenda 1921. A Rainha decidiu também escolher para seu eterno descanso a igreja do Mosteiro e tratou de mandar fazer o seu túmulo. Foi colocado no meio da Igreja, mas desde logo, as águas do Mondego se mostraram ameaçadoras, dando sinal já do destino que havia de sofrer esta vasta edificação, que foi conquistada, ao longo dos séculos, pelas águas, das quais só recentemente se voltou a libertar». In Helena Costa Toipa, Três Momentos na Existência do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Revista Humanitas nº LXI, Universidade de Coimbra, 2009, ISSN 0871-1569.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Bocage. Retratos. Fantasmas. Desencantos. Teresa Duarte Carvalho. «… como as Cantatas, as Epístolas, as Odes ou os Idílios, revelará, desde logo, uma tensão dialéctica entre a memória e o esquecimento, a traduzir o receio de ficar aquém do limiar da eternidade que tanto o atraía»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Não tremo de que os séculos me ultrajem:
lá (mercê do pincel, mercê do canto)
meu nome viverá, e a minha imagem».
In Bocage

«A erosão do Tempo conduz à morte. O retrato realiza, pelo seu poder mágico, uma luta contra a morte: ele traz, na ilusão dos volumes, nas sombras do rosto, nos contrastes da alma, na luz pessoal e nos seus sinais, dispersos pelos contornos, um tempo que sobrevive ao Tempo. A morte pode transformar-se, assim, numa cortina para além da qual os vivos do passado continuam a viver no presente. Manuel Maria Barbosa du Bocage parece ter acreditado, como poucos, na possibilidade de atravessar essa cortina. Os versos, dirigidos pelo poeta a um membro da maçonaria que havia composto um soneto na presença do retrato do Senhor Bocage, que muito [o] enterneceu, são disso um óbvio sinal. Com menor clareza, mas, ainda assim, suficiente para o leitor atento, se apresentam algumas composições em que a confiança no talento próprio e na imortalidade poética é notória. Refiro-me, concretamente, quer às composições em que, de forma directa, se dirige ao leitor vindouro (Incultas produções da mocidade / exponho a vossos olhos, ó leitores, soneto 5), quer àquelas que o pressupõem (Quer tristes, quer ditosos amadores, / hão-de falar de mim com dor e espanto). E muitas foram as vezes em que se lhe dirigiu: para fazer coincidir alguma produção poética com a voz da dependência, a que o obrigara a vida instável; para fundamentar certa falta de melodia, pois, em princípio, não pode cantar com melodia / um peito, de gemer cansado e rouco, (soneto 6). A verdade é que, muito embora Bocage parecesse acreditar que a sua imagem literária reunia atributos suficientes para viver depois da morte, e estava certo, uma leitura de superfície, quer da parcela mais conhecida da sua obra poética, os Sonetos, modalidade em que se revela dos mais perfeitos cultores, quer de outros pelouros menos conhecidos da sua escrita, como as Cantatas, as Epístolas, as Odes ou os Idílios, revelará, desde logo, uma tensão dialéctica entre a memória e o esquecimento, a traduzir o receio de ficar aquém do limiar da eternidade que tanto o atraía. Com efeito, de um lado, surge-nos um profuso leque de expressões que aponta claramente no sentido da imortalidade, a que aspira toda a grande criação literária: perpétua fama, grau sublime, nome permanente, padrões e estátuas, véu da eternidade, posteridade, imortal memória e até um Letes preguiçoso; do outro, as formas do apagamento e da morte: o esquecimento, negro e mudo; o Tempo, que gastará, que tudo gasta, como faz questão de sublinhar num idílio; os próprios letreiros da Morte! Oh lei do Fado! / É verdade, é verdade: acaba tudo (soneto 368).
A complexa personalidade poética de Bocage permitiu que, ao longo do tempo, dele se tivessem traçado múltiplos retratos. Começo justamente por aquele que, sendo falso, nunca é demais apresentar, para pôr de lado ou destruir, retrato pintado com tintas malévolas de gosto plebeu, que lhe mancharam a imagem e que sucessivas gerações se habituaram a fixar na parede lisa da comodidade. Nele sobressaem, mais que os olhos azuis ou o nariz alto no meio e não pequeno (soneto 1), uns lábios finos, pelo riso nunca unidos, donde brota um anedotário sem fim que não deixa fissura para a grandeza do seu amplo universo poético, tão marcado pelo lirismo. Sobre este retrato (que, decerto, poria rubras as magras maçãs do rosto do poeta sadino) não luz qualquer talento, traço de que se serviu, com acerto, para a si mesmo se retratar. Perante o perfil desenhado, Bocage repetiria talvez, pudesse ele, a pergunta que, num soneto, a si próprio fizera, ao ver-se envolvido nos braços de uma dama venal: Céus! Quem me reduziu a tal baixeza? (soneto 117). Dir-se-ia que foi a sua própria fama, mais difundida que a obra, excessiva fama que, de clima em clima, nas suas próprias palavras, bebidas em Ovídio, por cem bocas, alígera, semeia.
Houve quem, optando pela linha satírica, preferisse retratá-lo de corpo inteiro, com um pé mergulhado nos botequins das horas tardias da improvisação repentista e maldizente, outro no lodo, a que conduziu a baixa boémia. Na mesma linha, outros, mais fixados no rosto (que no retrato anterior, entretanto, se afundava), desalinharam-lhe irremediavelmente a cabeleira, carregaram demais no azul revolto dos olhos, para os fazer sair das órbitas, esquecidos dos sombreados, das horas de solidão amargamente vividas na residência fixa que a Inquisição (maldita) por duas vezes lhe impôs (das poucas que teve), da entrega ao trabalho disciplinado. Há perfis cujo desenho não se coaduna com suposições apressadas e que exigem o domínio do claro-escuro: Bocage não foi apenas o boémio improvisador, foi também o burilador dos seus versos, o estudioso da tradição clássica, o homem de vasta cultura humanística, tão presente na sua obra, o tradutor elogiado, até por Garrett. Com fundada razão, afirmou Hernâni Cidade que ele soube erguer do lodo os pés jamais nele presos, posto que, mais de uma vez, fundamente mergulhados». In Teresa Duarte Carvalho, Bocage, Retratos, Fantasmas, Desencantos, Revista Humanitas nº LXII, Universidade de Coimbra, 2010, ISSN 0871-1569.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Jerónimo Cardoso. Um Poeta de Afectos. Carlos A. André. «A língua da poesia é, por essência, a língua do coração. Trazemo-la agarrada à alma, como se fora uma raiz. É a língua com que choramos, a língua com que rimos, a língua com que amamos»

jdact

«Indagava o homem o passado, os pés assentes no presente, a alma, quem sabe?, a lançar pontes para o futuro. A quem assim age, nesses longínquos anos de Quinhentos, dão-lhe o nome de Humanista. Sentado à beira do tempo, vive o afã de descobrir a palavra e, nela, a semente de tudo, da vida e da morte, do amor e da tristeza, da verdade e da invenção, da história e da profecia, da prece e do canto. Contempla o mundo e os anos que carrega; e detém-se na imitação de um tempo preciso desse percurso, porventura sem se dar conta do caminho percorrido: muitos séculos haviam passado. Mas é aí, à distância de séculos, como se fora possível não os sentir, que perscruta raízes e busca firmá-las. Mais não possui, para tanto, que a palavra. E dela faz o seu arrimo.
Jerónimo Cardoso era, acima de tudo, um daqueles humanistas que faziam da palavra o seu instrumento de trabalho. Não é por acaso que ficou conhecido como lexicógrafo (um dos primeiros e mais notáveis que tivemos) e, também gramático, o mesmo é dizer, um filólogo, como, mais tarde, viria a definir-se quem assim indagava a palavra, na sua essência, nas suas origens, nos seus sentidos. Não se quedou, porém, aí a sua actividade. A vasta epistolografia que nos legou demonstra um intenso diálogo com os humanistas seus contemporâneos. Cultivou, além disso, a oratória, um dos domínios em que os Humanistas do Renascimento foram mais férteis. E foi, enfim, poeta. Perfeito na forma, como convinha a quem fazia da palavra o seu instrumento de eleição; menos inspirado, porventura, no conteúdo, como era mais ou menos corrente entre os poetas novilatinos do seu tempo. Nem surpreende que assim seja. A língua da poesia é, por essência, a língua do coração. Trazemo-la agarrada à alma, como se fora uma raiz. É a língua com que choramos, a língua com que rimos, a língua com que amamos. Em boa parte dos casos, posto que o Latim fosse língua corrente no século XVI, tal como o Inglês o é nos dias de hoje, era, acima de tudo, a língua dos actos formais. Dominava na Retórica, na Ciência, na Filosofia; era, ainda, a língua da Gramática e também da Epistolografia. Isso, porém, não bastará, por certo, para fazer dos seus cultores poetas. Salvo raras excepções, por isso, entre os grandes poetas desse tempo figuram, acima de tudo, os que compuseram em vernáculo; raramente com eles ombreiam os que usaram o Latim como veículo de expressão poética. Não é muito frequente encontrarmos nos seus textos aquela espécie de centelha mágica que faz do poema uma obra de arte.
Isso, no entanto, não vale por dizer que Jerónimo Cardoso fosse um poeta tosco; nem sempre o era no conteúdo, muito menos na forma. Os seus poemas tratam uma multiplicidade de temas. Muitos deles convencionais, que hoje diríamos estereótipos, como provará quem ler o excelente contributo para o conhecimento deste Humanista, que é a edição dos seus escritos, em boa hora levada a cabo por Telmo Reis. Mas nem todos assim podem considerar-se. Alguns há que deixam perceber as suas emoções, os seus afectos, numa tentativa de aproximação àquilo que deverá ser a essência da poesia lírica. Alguns, dedicou-os à sua terra natal, Lamego. A eles se voltará adiante, por breves instantes. Outros falam de pessoas. De mulheres, também, ainda que o amor celebrado em seus versos seja um tanto artificial, dir-se-ia sem chama. E de amigos, com quem se carteou, com quem manteve estreitas relações. Especial atenção merecem aqueles onde se despede de quem parte, num assomo de emotividade que não pode deixar de sublinhar-se, ou outros onde saúda um amigo acabado de regressar ao seu convívio e que acolhe com inusitada alegria. É desses, de uns e de outros, em especial (mas não só), que se falará aqui.
Os primeiros, os cantos de despedida, são, valha a verdade, filhos do seu tempo. A arte (e a literatura) viviam sob a égide do Maneirismo, esse período que antecede o Barroco. Tempo de encruzilhada, próprio de emoções exacerbadas, nascidas de angústias múltiplas que assaltavam o homem e esta sua época, ou, se se preferir, com mais propriedade, que assaltavam o homem nesta época. A poesia portuguesa, como Vítor Aguiar Silva demonstrou, é pródiga em exemplos. Aquela que nos legaram os poetas portugueses que escreveram em Latim não poderia ser diferente. É assim Jerónimo Cardoso, por exemplo, quando se despede de Inácio Morais, no momento em que ele partia de Lisboa, talvez para as distantes terras de Bragança. Os versos estão perpassados de emoção e pesar, porventura excessivos e desproporcionados em relação ao motivo que lhes subjaz. É um canto choroso, este que a Musa lhe traz; um poema doloroso, carregado de luto e tristeza, que hão-de dobrar os seus queixumes e fazer jorrar uma torrente de lágrimas. Imagem excessiva, como é bom de ver, e que mais não é que o portal de uma construção poética rebuscada, toda ela fiel a um espírito de emoções exacerbadas e, porventura, doentias». In Carlos Ascenso André, Jerónimo Cardoso, Um Poeta de Afectos, Revista Humanitas nº LXII, Universidade de Coimbra, 2010, ISSN 0871-1569.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

domingo, 30 de novembro de 2014

Philosophari placet sed pavcis. Nair de Nazaré Soares. «Salutati será o pregoeiro do ideal de vida activa e integrará com Leonardo Bruni e Leon Battista Alberti a primeira geração do humanismo civil italiano. Entre nós, Cataldo, o introdutor do Humanismo em Portugal»

Cortesia de wikipedia

Philosophari placet, sed pavcis…
«(…) Traduções em língua vulgar fazem-se em toda a Europa culta até finais do século XVI, de que são exemplo as versões francesas de Claude Seyssel, Étienne de la Boétie, Amyot e Louys le Roy. Em língua castelhana, as de Diego Gracián de Alderete e em língua portuguesa, as de Duarte de Resende, Damião de Góis, Diogo de Teive e António Pinheiro. Não resistimos a referir, a este propósito, a importância das descobertas de textos essenciais da Antiguidade clássica e o empenhamento e afã dos primeiros humanistas na sua busca, Petrarca, Boccacio, Salutati, Poggio, de quem se conhece a correspondência com os monges de Alcobaça, no sentido da aquisição de exemplares existentes neste mosteiro. São os primeiros humanistas italianos, empenhados na vida pública das suas cidades e na formação integral dos concidadãos, que impõem ao mundo culto os padrões de uma educação aristocrática. Os studia humanitatis deixam de limitar o seu âmbito aos auctores medievais e abrem-se à literatura, à filosofia e até à arte da Antiguidade Clássica. O novo curriculum, alargado à história, à poesia, à ética e às artes da pintura, escultura, arquitectura e desenho, figura já no Panepistemon de Angelo Poliziano. Intencionalmente, a filosofia moral torna-se um traço característico da vida intelectual deste período, de par com o conhecimento da história e do direito, disciplinas que preparam para a vida activa. Na linha da tradição aristotélico-tomista, em convergência com a doutrina platónica, e sob o signo do franciscanismo e do scotismo, Salutati será o pregoeiro do ideal de vida activa e integrará com Leonardo Bruni e Leon Battista Alberti a primeira geração do humanismo civil italiano.
No humanismo renascentista, o saber clássico é essencialmente fruto da instituição docente. Se alguns dos primeiros humanistas italianos, a começar por Petrarca, não se encontram directamente ligados à docência, a segunda geração de humanistas e os principais representantes do humanismo europeu são em grande parte indissociáveis da história da pedagogia. São eles os autores dos tratados pedagógicos desta época, subsidiários, quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista doutrinal, dos ideais educativos do humanismo greco-latino, que confluem com a ética cristã, numa interdependência e complementaridade entre humanitas epietas, a exemplo do que já acontecera com os autores da Patrística. Menção especial, neste sentido, merece o opúsculo de S. Basílio Magno sobre a forma de ler os clássicos, que Leonardo Bruni traduz para latim e dedica em 1405 a Coluccio Salutati. Este texto de S. Basílio, De legendis antiquorum libris, é frequentemente citado pelos humanistas, o que prova bem a orientação dada à leitura das obras da Antiguidade pagã. Entre nós, Cataldo, o introdutor do Humanismo em Portugal, apresenta a autoridade de S. Basílio, ao aconselhar a leitura dos escritores e poetas da Antiguidade pagã para inteligência da sacra página. Fá-lo em carta que dirige a Fernando Meneses, escrita em fins de 1499 ou em Janeiro/Fevereiro de 1500, considerada o primeiro manifesto publicado em Portugal, em defesa do latim humanístico contra a barbárie estilística do latim medieval, na linha de Lorenzo Valia. Aliás os autores da Patrística são ensinados nas escolas humanistas, como na de Guarino de Verona, considerado, com Vittorino Feltre, modelo de educador. Figuram, a par dos clássicos, na ratio studiorum proposta pelos tratadistas pedagógicos europeus e merecem ser comentados e editados, desde o Quattrocento italiano, e designadamente por Erasmo. Santo Agostinho, com Cícero e Séneca, moldou a alma de Petrarca, o primeiro humanista. Além disso, a concordância entre a doutrina de Cícero no De oratore e a de Santo Agostinho no De doctrina christiana tomou-se pedra angular na definição de uma estética retórica cristã, de que é expoente máximo, no século XVI, a obra de Erasmo, bem como de uma oratória eclesiástica tridentina. Ilustrativa, neste particular, é a Ecclesiasticae rhetoricae libri sex (Olissypone, 1576) de frei Luís Granada». In Nair de Nazaré Castro Soares, Philosophari placet sed pavcis, Universidade de Coimbra, Revista Hvmanitas, volume L, 1998.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «Em o primeiro dia do mês de Agosto de mil e quinhentos e setenta e um anos, .m Évora, na ermida dos Reis Magos da dita cidade, o senhor licenciado Jerónimo Sousa, comigo, notário abaixo nomeado, por virtude de um precatório dos senhores inquisidores da cidade de Lisboa»

jdact

Testemunho de Helena Jorge
«(…) E assim disse mais que era lembrada dizer-lhe, por ume vez, haverá três anos, pouco mais ou menos, Sebastião Macedo, seu marido, por o dito Damião de Goes mandar naquele tempo um filho para Flandres, que não tinha paciência mandar o dito Damião de Goes seu filho a Flandres, estando lá, a terra tão arruinada nas coisas da fé, a seu parecer. E que assim lhe parece que ouviu também dizer ao dito seu marido, assim agastado do dito Damião de Goes mandar seus filhos a Flandres, que não era mais cristão o dito Damião de Goes que essas paredes ou pedras ou paus. E que outra coisa não sabe do dito referimento, nem ouviu dizer nem fazer coisas ao dito Damião de Goes que lhe parecesse de mau cristão. E al não disse. E lhe foi mandado, sob cargo do juramento, ter segredo no caso. O que tudo disse estando presentes, por religiosas e honestas pessoas, que tudo viram e ouviram, os reverendos padres frei Francisco Santana, guardião do dito mosteiro, e frei Filipe S. José, morador no dito mosteiro, que juraram ter segredo no caso, e assinaram aqui. E ao costume disse a dita testemunha nada mais, que somente ser o dito Damião de Goes tio do dito seu marido. Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), o escrevi, e a assinou ela aqui, juntamente com ele muito reverendo Domingos Simões. Pedro Álvares o escrevi. Helena Jorge. Domingos Simões. Frei Francisco Santana. Frei Filipe S. José.
E ida a dita testemunha, o muito reverendo Domingos Simões fez pergunta aos ditos reverendos padres que era o que lhes parecia acerca do crédito da dita testemunha e se lhes parecia que falava verdade. E por eles foi dito que lhes parecia que a falava, segundo a maneira de seu testemunhar e pola terem por muito católica cristã e por pessoa que falara verdade e tornaram assinar. Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), escrevi. Domingos Simões, frei Francisco Santana, frei Filipe S. José.

Em Évora. Precatório
Os Inquisidores Apostólicos contra a herética pravidade e apostasia, em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc., fazemos saber ao muito magnífico e muito reverendíssimo senhor doutor Diogo Mendes Vasconcelos, fidalgo da Casa de el-rei Nosso Senhor e do seu Desembargo, cónego da sé da cidade de Évora e Inquisidor Apostólico na mesma cidade e arcebispado e seu distrito, etc. Que, neste Santo Ofício (maldito), está preso Damião de Goes, cristão velho, e porque para despacho de seu processo é necessário o testemunho de sua filha dona Catarina, mulher de Luís Castro, que vive nessa cidade. Se é verdade que o dito Damião de Goes, em um dia de sábado, comeu carne, com dona Briolanja, sua sobrinha, andando ela prenhe, e depois na mesma mesa tornara a comer peixe; e sendo-lhe dito que como comia ele carne no dia de sábado, ele Damião de Goes respondera e dissera que o que entrava pela boca não sujava a alma; e que a isto estava presente ela dona Catarina. Pelo que requeremos a Vossa Mercê, da parte da Santa Sé Apostólica, e da nossa pedimos por mercê, que sendo-lhe este presentado, mande vir perante si a dita dona Catarina, ou ao lugar onde lhe parecer conveniente, e aí a perguntará, conforme ao estilo do Santo Ofício (maldito), pelo conteúdo na pergunta atrás, por ser testemunha referida no sobredito. E virá logo ratificada em forma; e o dito testemunho nos enviará cerrado e selado, por próprio sem suspeita. E isto se diz passar de catorze anos a esta parte. Dado em Lisboa, sob nossos sinais e selo do Santo Ofício (maldito), aos onze dias do mês de Julho, João Velho, notário da Santa Inquisição (maldita) o fez, de 1571. Jorge Gonçalves Ribeiro, Simão Sá Pereira.

Testemunho de dona Catarina Goes
Em o primeiro dia do mês de Agosto de mil e quinhentos e setenta e um anos, .m Évora, na ermida dos Reis Magos da dita cidade, o senhor licenciado Jerónimo Sousa, comigo, notário abaixo nomeado, por virtude de um precatório dos senhores inquisidores da cidade de Lisboa, perguntou dona Catarina, filha de Damião de Goes, preso no cárcere do Santo Oficio da Inquisição (maldito+maldita) da dita cidade de Lisboa, pelo conteúdo do dito precatório e, para em todo dizer verdade, lhe foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que ela pôs sua mão, e prometeu de a dizer. E sendo perguntada se seu pai, Damião de Goes, tinha uma sobrinha que se chamava dona Briolanja, disse que sim tinha; e que muitas vezes vinha a casa do dito seu pai. E, como eram parentes, a dita dona Briolanja se criara com ela testemunha, em casa do dito seu pai. Perguntada se a dita dona Briolanja comia muitas vezes em sua casa, disse que sim e que o mesmo fazia ela testemunha, em casa da dita dona Briolanja». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Philosophari placet sed pavcis. Nair de Nazaré Soares. «Os autores gregos eram agora divulgados em latim pelas traduções de humanistas de renome, em que se destacam as de Leonardo Bruni e Marsilio Ficino. O valor e significado destas traduções na orientação cultural e espiritual do movimento humanista»

Cortesia de wikipedia

«O processo da evolução espiritual do homem do Renascimento e as novas experiências culturais e humanas, em que se realiza, participam, de forma intrínseca, da mundividência da Antiguidade Clássica e dos valores ético-políticos que a sustentam. A Idade Média não tinha conhecido a República de Platão: o pensamento do filósofo era divulgado apenas através de compendia. A descoberta da Política de Aristóteles dá-se no séc. XIII. A obra de Diógenes Laércio, que ilustra todas as escolas filosóficas antigas, é encontrada nos primeiros anos de Quatrocentos. Os humanistas italianos dos alvores do Renascimento abandonam o Aristóteles lógico e físico, símbolo da barbárie estilística medieval, e procuram na filosofia uma finalidade profundamente humana e um conteúdo mais vasto, que pudesse abarcar motivos político-morais e os problemas da vida concreta da sociedade do tempo. Este distanciamento do formalismo escolástico coincide com a reabilitação do neoplatonismo. É sem dúvida através do platonismo, configurado com o cristianismo, a ética aristotélica, ou mesmo com a tradição hermética e cabalística, que os conceitos do saber medieval vão ser alvo de renovação, em figuras como Petrarca, Pier Paolo Vergerio, Lorenzo Valia, Marsilio Ficino, Giovanni Pico delia Mirandola.
Apesar disso, não há solução de continuidade entre o Humanismo Renascentista e a Época Medieval. Basta considerarmos o período carolíngio e o designado Renascimento dos séculos XII e XIII. No decurso de longos períodos, as ideias evoluem lentamente. Se é impossível encerrar dentro de regras fixas o fervilhar das ideias novas que se defrontam, ou equacionam de forma diferente ou paralela, com o espírito medieval, numerosas são as perspectivas que reflectem uma gradual evolução de pensamento ou uma mera repetição de motivos, de lugares comuns, transmitidos inconscientemente de autor em autor. O legado da cultura grega no mundo romano e o génio da sua reelaboração nos autores latinos, da República ao Império, que a Patrística assimila, deixaram marcas indeléveis na cultura ocidental, de que o Humanismo Renascentista é o afloramento mais expressivo.
A língua do Lácio, que Lorenzo Valia, nas Elegantiae linguae Latinae, pretende ver dignificada, ao propor um ideal de estilo, capaz de conferir dignidade e beleza ao discurso, assume-se como veículo de comunicação no mundo culto e meio privilegiado de expressão da consciência humanística. A par do latim, o grego e o hebraico tornam-se instrumentos indispensáveis ao conhecimento da Antiguidade e dos textos bíblicos, aos ideais filológicos e exegéticos do movimento humanista. A divulgação do saber clássico tem um apoio inestimável na tradução, a partir do século XV, a que deu grande impulso o papa Nicolau V, fundador da Biblioteca Vaticana. Expressiva é, nesta mesma linha, a produção literária dos nossos príncipes de Avis, que deram a maior importância à tradução dos clássicos em linguajem.
Os autores gregos eram agora divulgados em latim pelas traduções de humanistas de renome, em que se destacam as de Leonardo Bruni e Marsilio Ficino. O valor e significado destas traduções na orientação cultural e espiritual do movimento humanista, que se afirmava em Itália, são verdadeiramente notáveis. Basta lembrarmos, por exemplo, a afirmação do neoplatonismo na Academia platónica florentina, que nasceu do conhecimento aprofundado da obra de Platão, que as versões de Marsilio Ficino, feitas sob a égide de Lorenzo de Médicis, propiciaram. Ou o afloramento do averroismo paduano, que teve como suporte as traduções de humanistas, como Leonardo Bruni, à obra de Aristóteles, e conheceu em Pomponazzi, no séc. XVI, o seu principal defensor. Ou ainda a difusão do neo-estoicismo, favorecida pela versão latina do Manual de Epicteto da autoria de Angelo Poliziano. Traduções em língua vulgar fazem-se em toda a Europa culta até finais do século XVI, de que são exemplo as versões francesas de Claude Seyssel, Étienne de la Boétie, Amyot e Louys le Roy. Em língua castelhana, as de Diego Gracián de Alderete e em língua portuguesa, as de Duarte de Resende, Damião de Góis, Diogo de Teive e António Pinheiro». In Nair de Nazaré Castro Soares, Philosophari placet sed pavcis, Universidade de Coimbra, Revista Hvmanitas, volume L, 1998.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

segunda-feira, 31 de março de 2014

História no 31. A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577). As suas Damas. Carolina Michaëlis. «Não existe quem mais lamente os desgostos da Rainha ou quem mais regozije com a sua prosperidade. As cartas d'ella proporcionam-lhe prazer tal que as agasalha no seio, as acaricia e repete sempre de novo a leitura»

jdact

NOTA: Texto na versão original.

A Infanta D. Maria
«(…) Posteriormente aceitou a homenagem de diversos escriptores de Portugal, Hespanha e França, em latim e vernaculo. Que maravilha se ambicionava illustrar tambem sua filhinha, segundo o gosto e as exigencias da epoca, de modo que sem desdouro do nome português e castelhano, podesse luzir em qualquer throno da Europa? Que maravilha se, velando de longe pela sua felicidade, desejou vestir-lhe ricamente a alma, augurando- que no convivio com as musas encontraria uma consolação ideal ás mil decepções moraes que a vida não poupa a ninguém, nem mesmo ás princesas? Na fé de que ao cabo de breve prazo a Infanta viria, como esposa do Dauphin, residir na côrte culta e galante de Francisco I onde brilhava Margarida de Navarra, não só pediu e aconselhou, mas ordenou repetidas vezes que aprendesse o latim, e tentasse afeiçoar-se ás letras.
Assim o lemos numa carta que D. Maria escreveu á mãe, quando vencidas as longas agruras da iniciação, começava a avaliar com lucidez o serviço que lhe haviam prestado, occupando-a, interessando-a, ampliando o seu horizonte, acostumando-a a raciocinar e a trabalhar. A principio o estudo lhe fôra penoso. –Frequentemente havia desanimado, em briga com os rudimentos enfadonhos da grammatica, necque laboriosa illa grammaticae fastidia aequo animo ferre non poteram. Mas pouco a pouco, o santo desejo de saber invadiu-a. Conseguiu deleitar-se de veras no trato dos livros, realizando assim a predicção de D. Leonor quod ea res maximam olim mihi voluptatis esset allatura et ornamenti non parum. Se á mãe parecesse bem o estylo da missivazinha, a ella, só a ella, eram devidos louvores. Se, porém, descobrisse defeitos, a Infanta diligenciaria aperfeiçoar-se mais e mais no conhecimento do idioma classico. O estylo é juvenil, de graciosa simplicidade e elegancia. Tentando adivinhar aproximadamente a data de que carece na obra de onde, á falta do original, a copio, calculo, seria escripta entre 1535 e 1537, quando a Infanta contava quinze annos.
Além d'essa amostra conheço apenas mais uma da sua dicção latina, curiosa sob mais de um aspecto. É dirigida a uma soberana estrangeira, cujo perfil já desenhei: Maria Tudor, a bloody Mary, flagello da Inglaterra protestante. A filha de Henrique VIII, subindo ao throno (6 de Julho de 1553), tivera de suffocar uma revolta a favor de Jane Grey, e mandára dggolar o duque de Northumberland que a capitaneava. Felicitando a sua parenta e amiga por ter sahido incolume d'este attentado contra os seus direitos, a Infanta emprega expressões exuberantes de amizade. Não existe quem mais lamente os desgostos da Rainha ou quem mais regozije com a sua prosperidade. As cartas d'ella proporcionam-lhe prazer tal que as agasalha no seio, as acaricia e repete sempre de novo a leitura. Pede resposta rapida, pela qual anceia». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, (1851-1925), Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada, Enclave de Reabilitação Profissional da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1994, ISBN 972-565-198-7.

Cortesia de BNacional/JDACT

sábado, 29 de março de 2014

Um Testemunho Jurídico-Político na Corte Quinhentista Portuguesa. António Pinheiro. Isabel Graes. «… torna-se mesmo um dos colaboradores mais próximos do monarca o que lhe permite a presença e intervenção em alguns dos momentos mais determinantes não só da política interna mas também externa neste reinado na medida em que acompanha já a celebração de alguns tratados…»

Cortesia de wikipedia

Um Testemunho Jurídico-Político na Corte Quinhentista Portuguesa
«Iniciado em 1521 e caracterizado por momentos de esplendor jurídico e cultural, o reinado de João III todavia cedo entraria na sua fase crepuscular. Não era apenas um rei, cujo reinado se revelava agonizante, moribundo, tendo a seu lado permanentemente um leito de morte, era um reino que sucessivamente se via órfão e que desesperado procurava um sucessor. Ao descrever o período que antecede o desastre de Alcácer Quibir, J.P. de Oliveira Martins define o reinado de João III, a quem atribui o epíteto de faraó, como um período onde a ambição deixara de existir, onde havia apenas a sombra da velhice, o cansaço depois da grande obra, e as consequências dela. Em suma, o reino ávido do poder de outrora, estava agora apático e facilmente se tornava uma presa fácil da corrupção. É neste contexto e enquanto símbolo de uma corte elitista, receptiva e conhecedora dos ideais do humanismo que surge a figura de António Pinheiro. Humanista, estadista, hábil na retórica e na eloquência, mestre de príncipes, capelão e pregador régio, figura presente nos momentos cruciais da política portuguesa do reinado de João III ao entrega do poder a Filipe II de Espanha, António Pinheiro revelar-se-ia como profundo conhecedor e divulgador do ideário político do século XVII capaz de enaltecer o Venturoso e o Piedoso, mas também persuasivo o suficiente para justificar não só os anseios de um jovem e inexperiente monarca como de fazer aceitar em Portugal o herdeiro de Carlos V.
Integrado numa corte de validos, de onde se destacam frei Diogo Sylva, Francisco de Portugal, frei Gaspar Casal, António Ataíde, Pêro Alcáçova Carneiro e Miguel Silva, evidencia-se o filho de Pedro Braz Couto e Leonor Alvares Pinheira, nascido supostamente em 1510, na localidade de Porto de Mós. O neto paterno de Braz Annes Couto, e de Álvaro Fernandes Pinheiro, padroeiro da capela de S. Sebastião na igreja de São Pedro da vila de Porto de Mós, cedo revelaria uma total aptidão pelas letras o que leva João III a decidir enviá-lo para o Colégio de Santa Bárbara, em Paris, onde é reitor Diogo Gouveia para aí desenvolver os seus conhecimentos na área das ciências humanas. Tal foi a ascensão do aprendiz que rapidamente se vê a comentar os textos de Quintiliano, situação que não sendo do desconhecimento do monarca português vem a determinar o regresso do humanista ao reino.
Não se conhece o momento exacto do seu regresso, apenas se sabe que em 1541 já se encontra em Portugal, pois nesse ano dedica ao monarca, a tradução do Panegírico de Plínio a Trajano, a qual como ele próprio declara foi começada a 10 do dito mês. O apreço que o rei lhe tem é notório sendo traduzido com a atribuição de algumas funções, como a de mestre dos jovens fidalgos que então residiam na corte, e em especial a de acompanhar o estudo do príncipe herdeiro, João. Tamanha graça régia, não voltaria a ser-lhe concedida, facto que o deixará deveras inconformado. Capelão, conselheiro e pregador de João III, ao lado de Simão Rodrigues, Fernando Meneses Vasconcelos, António torna-se mesmo um dos colaboradores mais próximos do monarca o que lhe permite a presença e intervenção em alguns dos momentos mais determinantes não só da política interna mas também externa neste reinado na medida em que acompanha já a celebração de alguns tratados com a Santa Sé, num período em que os cismas se sucedem.
Do mesmo modo, também por alguns autores, como Inocêncio José Silva, é indicado ter António desempenhado as funções de guarda mor do arquivo real, visitador e reformador da Universidade de Coimbra, cujo ministério exercita no ano de 1565, ainda que em relação às primeiras não existam dados conclusivos a esse respeito. Aliás, tudo parece indicar que não terá desempenhado o cargo de guarda-mor, pois numa carta que lhe é dirigida de Almeirim por D. Catarina, datada de 19 de Março de 1569 esta pede-lhe notícias do estado em que se achava a crónica de João III, e lhe promete as cópias dos documentos do arquivo que lhe fossem necessárias, para a prossecução da mesma. As funções que desempenha na corte não são apenas as de educador de príncipes ou de tradutor de textos clássicos já que são reconhecidos os dotes do exímio mestre na eloquência portuguesa, sendo intitulado o Cícero Português na expressão de Manuel Faria Sousa, ou de Oráculo daquela idade na classificação de Jorge Cardoso. A si se devem algumas das orações de obediência enviadas ao Sumo Pontífice e a intervenção em alguns dos momentos de maior melindre político verificados no reino como sucede em 1562; ou ainda textos em que o teor político acaba por se mesclar com uma redacção epistolar mais pessoal, como ocorre com a prática consolatória que o Humanista dedica ao monarca em virtude do falecimento da sua tão amada filha D. Maria, mulher do príncipe D. Filipe de Espanha. No entanto é pela construção e divulgação do pensamento político presente em alguns dos seus textos que ora o analisaremos». In Isabel Graes, D. António Pinheiro, Um Testemunho Jurídico-Político na Corte Quinhentista Portuguesa, Faculdade de Direito da U. de Lisboa, Cuadernos de Historia del Derecho, nº 15, 2007-2008.

Cortesia de RCH del Derecho/JDACT

A Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577). As suas Damas. Carolina Michaëlis. «Fez estudar as Infantas suas filhas. Instituiu o posto de mestra latina, a favor de D. Beatriz Galindo. Em harmonia com o aphorismo então lançado por um dos cortesãos: “jugaba El-rey, eram todos tahures; estudia la reina, somos ahora estudantes”»

jdact

NOTA: Texto na versão original.

A Infanta D. Maria
«(…) Pela minha parte, creio que o ponto de partida para o endoutrinamento da Infanta e seu primeiro norte, francamente liberal, inculcou-lhe um ideal philosophico superior, mas que posteriormente abalada pelos acontecimentos particulares que aniquilaram as suas aspirações mundanas, e coincidiram com a reacção jesuitica a sua mentalidade tomou evolução mais theologica. A materia dos livros que lhe foram dedicados, nos primeiros decennios e nos ultimos, confirmam que houve scissão. De 1520 a 1550 estava-se em pleno renascimento. A cultura classica, o amor á antiguidade, que de modo muito imperfeito havia penetrado na côrte de João II e Manoel I, expandia-se impetuosamente por todo o reino. Quanto á vitalidade intellectual, ao fervor artistico, á energia litteraria, nunca houve em Portugal periodo que se possa comparar aos decennios em que recahe a mocidade da Infanta.
João III, convencido de assim cumprir uma missão civilisadora, tratava muito a serio da reforma da educação nacional. Chamou humanistas estrangeiros e humanistas indigenas, instruidos em Salamanca, Paris e Florença. Uns foram para Coimbra, Evora, Braga; outros para o ensino no paço. Foram secretários del Rei e mestres dos infantes seus irmãos, e de seus proprios filhos, vultos como Aires Barbosa, André de Resende Nicolau Clenardo, João Vaseu, Pedro Nunes, Lourenço de Caceres, Jorge Coelho, Diogo Sigeu, Ignacio Moraes, Pedro Sanches, Jeronymo Cardoso, Pedro Margalho. Em casa dos duques de Bragança, barões de Alvito, condes do Vimioso, de Linhares e outros magnates encontramos os mesmos, e para ensino da lingua patria a João de Barros, Fernam Oliveira, Francisco Moraes, e Luiz de Camões, se o seu ultimo biographo descobriu a verdade. Na capital, installaram-se aulas de latim para os moços-fidalgos. E comquanto nem todos aproveitassem e alguns maldizessem a sorte que os fizera nascer em sino de latim (conforme com muita graça confessou um dos mais antigos letrados palacianos), a medida do saber foi subindo consideravelmente entre os aristocratas privilegiados, aos quaes o reformador da poesia havia dirigido pouco antes uns conhecidos aphorismos,

Dizem dos nossos passados
que os mais não sabiam ler:
eram bons, eram ousados…
eu não louvo o não saber,
como alguns ás graças dados…

Quanto á educação feminina, reformistas eminentes como Luis Vives, haviam-na classificado como indicio seguro da civilisação alcançada por um povo. Persuadidos que só de mulheres solidamente instruidas nas artes liberaes, iniciadas directamente no puro gosto da antiguidade, havia de nascer uma geração de entes superoires, de caracter, energia e intelligencia privilegiada, exigiam que as humanidades formassem parte integrante tambem da cultura do sexo fragil.
A grande em tudo rainha Isabel a Catholica já havia aceite o alvitre com enthusiasmo. Em idade madura venceu as difficuldades da lingua de Lacio. Fez estudar as Infantas suas filhas. Instituiu na sua aula o posto de mestra latina, a favor de D. Beatriz Galindo, sua preceptora. Em harmonia com o aphorismo então lançado por um dos cortesãos: jugaba El-rey, eram todos tahures; estudia la reina, somos ahora estudantes, a aristocracia do sangue imitou-a. Quanto á aristocracia das letras, é evidente que, dando o impulso, dera tambem o exemplo.
Em Portugal a evolução foi a mesma, posto que mais tardia, vagarosa e incompleta. As duas filhas da rainha Catholica que occuparam o throno português de 1495 a 1519 não eram de modo algum hospedas nas letras, como não o haviam sido a esposa de João II nem a de Affonso V. Mas ainda assim, não implantaram nos paços da Ribeira a moda erasmiana nem a sua transformação italo-castelhana. A neta, isto é a mãe da Infanta e irman da rainha D. Catharina, pertence o impulso. D. Leonor era boa latina como a avó e a progenitora, porque mesmo a pobre D. Juana contestava de improviso em latim aos discursos gratulatorios das cidades de Flandres. Logo no primeiro anno da sua assistencia em Portugal, a esposa de Manoel conseguiu que lhe representassem na côrte uma engraçada comedia latina, escripta por um estudante em ferias, emquanto Salamanca ardia em febre». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, (1851-1925), Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas Damas, edição fac-similada, Enclave de Reabilitação Profissional da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1994, ISBN 972-565-198-7.

Cortesia de BNacional/JDACT

sexta-feira, 14 de março de 2014

A Chibata. Caminhos diversos. Virgil Gheorghiu. «Examina o aldeão que está em frente dele. O aldeão olha, com prazer evidente, a chibata com castão de prata, a boquilha de ouro, as luvas de fina pele de porco e o fato de tecido fino do oficial. Estende o pescoço o mais que pode para estar mais perto do perfumado fumo azul que sai da boquilha de ouro»

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Missão ao alvorecer
«(…) Apresentam-se ao tenente. Fazem a continência e esperam ordens, com apreensão. Cabo Motok, volte a cabeça e olhe para o Sul, ordena o tenente. Com a chibata, indica um ponto e acrescenta: Onde acaba o campo de milho, a pouco mais de um quilómetro daqui, há um ponto branco. Neste momento, o ponto branco está imóvel. Olhe bem. Quando distinguir o ponto indicado, diga-me... Vê-o? -Vejo, meu tenente-responde o cabo. Ele ergueu-se na ponta dos pés e pôs as mãos sobre os olhos. Olhando, com atenção, para o ponto indicado pela chibata, continua: é um pobre aldeão que colhe qualquer coisa no seu campo, meu tenente. Vejo-o muito bem. O aldeão parou e olha-nos. Ele pergunta a si próprio, evidentemente, porque é que o observamos. Vejo-o muito claramente, é um pobre aldeão. O feldwebel Otto Ritter, o soldado Hans Kurt e os nove soldados romenos vêm, também, muito claramente, o ponto branco indicado pelo oficial. Dir-se-ia um insecto branco, à beira do campo de milho verde. É, realmente, um aldeão, que fica imóvel, a olhar para os camiões. O aldeão segura qualquer coisa na mão. Qualquer coisa que apanhou do chão. Exactamente como explicou o cabo Motok. O aldeão deve ter apanhado qualquer coisa para comer, para ele ou para os animais. Neste momento, ele não tem nada para colher nos campos, cabo Motok, diz o tenente. Os trabalhos agrícolas terminaram e a colheita ainda não começou. Nenhum aldeão tem que fazer no seu campo. É por isso que todos os campos estão desertos. O homem que vêm na vossa frente é um paraquedista inimigo. Um sabotador. Um espião ou um desertor. Não esqueçam que nos encontramos a menos de cem quilómetros da linha da frente. O inimigo está perto de nós. A vigilância impõe-se. Somos militares. A vida da nação e o destino de vinte milhões de romenos estão nas nossas mãos de militares. Exclusivamente nas nossas mãos. A falta de vigilância de um militar é um crime nacional. O tenente Fanoti é comandante militar, chefe de todas as instituições militares e civis da região. Todos os territórios perto da frente estão confiados aos comandantes militares e eles têm poder absoluto. Cabo Motok, dirija-se àquele indivíduo, com os seus dois soldados. Marchará para atacar. Mantenha a linha recta. Não afrouxem ao caminhar para ele. Avancem os três com a arma carregada, prontos a fazer fogo. Por nada deste mundo afastem o dedo do gatilho. Se o indivíduo fugir, abram imediatamente fogo sobre ele. Matem-no. Tragam-mo aqui, morto ou vivo. Em conclusão: olho sobre ele e dedo no gatilho. Execução.
O cabo Motok e os dois soldados põem-se em marcha, arma na mão como para o assalto a uma fortaleza, em direcção ao aldeão imóvel, branco, sozinho à beira do campo. O homem, desconfiado, não se mexe. Logo que os camiões pararam, ele parou também. Depois, não mudou de posição, como que petrificado. O cabo Motok e os seus dois soldados avançam. Têm os três os ombros arqueados. O seu caminhar é pouco vigoroso. Com surpresa geral, o homem não procura nem fugir, nem esconder-se. Os três soldados aproximam-se dele. O homem suspeito, certamente um aldeão da região, não só não procura fugir, como está encantado por constatar que os dois camiões pararam por causa dele, unicamente por causa dele, no meio da estrada, e que os três soldados se incomodam para lhe falar. Não compreende porque é que os militares não lhe ordenaram para vir ter com eles. Porque é que se incomodam eles? O aldeão está lisonjeado. O cabo comunica-lhe a ordem do tenente. O aldeão põe-se em marcha. Os soldados seguem-no, enquadrando-o, receando que ele se escape. Os quatro avançam para os camiões. O aldeão sente-se cada vez mais à vontade. É da mesma estatura que os soldados que o escoltam. E vão com o mesmo passo. Um passo cadenciado, como os patos, o corpo inclinado para a frente. Os quatro homens avançam como se estivessem ligados à terra; e a cada passo arrancam um pouco desta terra, colada à sola dos seus sapatos. Dir-se-ia que o aldeão suspeito e os soldados da escolta eram irmãos. O aldeão leva ao ombro um saco de riscas largas, pretas e vermelhas, saco meio cheio. Enquadrado pelos três soldados, detém-se em frente do tenente Marcel Fanoti. O aldeão tem o sorriso nos lábios. Segura na mão um chapéu de palha, de abas largas. O homem saúda militarmente o tenente, pondo-se em sentido. Volta a cabeça respeitosamente e saúda os dois militares alemães, depois os quatro soldados romenos do segundo camião. Estes levantaram o toldo que os cobria, a fim de assistirem, com as caras assustadas, à cena. O aldeão está agora muito sorridente, o saco ao ombro, o chapéu de palha na mão, em sentido, pés descalços na poeira. Tem os cabelos curtos, cor de cinza, uma cara ossuda, queimada pelo sol. Rosto oval, semelhante à argila cozida no forno. A pele das mãos e do pescoço têm a mesma cor de tijolo velho. O homem usa uma camisa de cânhamo, branca, muito limpa, de mangas largas, aberta no peito. A cintura está apertada numa grande faixa de lã preta, com a largura de um palmo. As calças justas são, também, de cânhamo branco. Os pés descalços na poeira, os calcanhares juntos, como no exército... O tenente Marcel Fanoti fuma. Examina o aldeão que está em frente dele. O aldeão olha, com prazer evidente, a chibata com castão de prata, a boquilha de ouro, as luvas de fina pele de porco e o fato de tecido fino do oficial. As narinas do aldeão, queimadas pelo vento, palpitam de prazer: saboreia o tabaco louro fumado por Fanoti. Este tabaco, dir-se-ia que o próprio aldeão o fuma. Estende o pescoço o mais que pode para estar mais perto do perfumado fumo azul que sai da boquilha de ouro». In Virgil Gheorghiu, A Chibata, tradução de António Fernandes, Livraria Bertrand, Lisboa.

Cortesia de LBertrand/JDACT

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «… em um dia de sexta-feira ou sábado e que, à ceia ou jantar, se trouxera à mesa carne para a dita sua mulher, e que, comendo ela da dita carne, comera também o dito Damião de Goes dela e dissera que o que ia para dentro não fazia nojo senão o que saía para fora»

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Testemunho de Dona Briolanja
«(…) O que tudo disse, estando presentes, por honestas e religiosas pessoas que tudo viram e ouviram, os padres mestres Manuel da Câmara, o prior da Igreja de S. Pedro da dita vila, e Pedro Esteves, sacerdote de missa, ecónomo na dita igreja, que juraram ter segredo no caso. E assinaram aqui juntamente com ele, rev. Domingos Simões, e eu Pedro Álvares, notário do Santo Ofício, que o escrevi e assinei a rogo da dita Dona Briolanja. Pedro Álvares de Soto Maior - Domingos Simões Manuel da Câmara - Pedro Esteves.
Ida a testemunha o muito rev. Domingos Simões fez pergunta aos ditos reverendos padres se lhes pareciam que a dita testemunha falava verdade no que disse, segundo a ordem e maneira do seu testemunho. E por eles foi dito que lhes parecia que falava verdade, segundo a maneira com que testemunhou e segundo sua qualidade e segundo opinião que tem de sua cristandade e consciência. E tornaram assinar. Pedro Álrarrr, notário do Santo Ofício, o escrevi. Manuel da Câmara - Domingos Simões - Pedro Esteves.

Testemunho de António Gomes
E logo aí pareceu o senhor António Gomes de Carvalho, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor marido da dita senhora Dona Briolanja, testemunha referida, e o muito reverendo Domingos Simões lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, prometendo dizer verdade. E lhe fez pergunta pelo referimento atrás nele feito; e por ele foi dito que verdade era que ele ouviu dizer à dita senhora Dona Briolanja, sua mulher, que estando um dia, haverá treze ou catorze anos, pouco mais ou menos, em Lisboa, em casa de Damião de Goes, desejara sendo prenhe de auditu, comer carne de porco. E que lhe parece que lhe disse que era isto em um dia de sexta-feira ou sábado e que, à ceia ou jantar, se trouxera à mesa carne para a dita sua mulher, e que, comendo ela da dita carne, comera também o dito Damião de Goes dela e dissera que o que ia para dentro não fazia nojo senão o que saía para fora.
E que isto lhe disse a dita senhora sua mulher, agora que ouviu dizer que o dito Damião de Goes era preso. E que não é lembrado dizer-lhe a que propósito o dito Damião de Goes dissera que o que ia para dentro não fazia nojo senão o que saía para fora. E que a ele testemunha lhe parece que o dito Damião de Goes comeria a dita carne, sendo em dia proibido, por festejar a dita sua mulher, por então estar mal disposta e prenhe; e que ele o tem por muito bom cristão e que nunca lhe viu fazer nem dizer coisa que fosse contra nossa santa fé católica. O que tudo disse estando presentes, por honestas e religiosas pessoas, o padre mestre Manuel Câmara, prior da igreja de S. Pedro da dita vila de Alenquer e o padre Pedro Esteves, ecónomo da dita igreja, que juraram ter segredo no caso e assinaram aqui, juntamente com ele Domingos Simões e testemunha, e eu Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), que o escrevi. E lhe foi mandado ter segredo no caso, sob cargo do dito juramento e ele assim prometeu. E ao costume disse que o dito Damião de Goes é tio da dita sua mulher. Ido ele dito António Gomes, testemunha, o muito reverendo Domingos Simões fez pergunta aos ditos reverendos padres se lhes parecia que falava verdade no que testemunhou. E por eles foi dito que lhes parecia que falava verdade, segundo o que disse e por ser mui temente a Deus e homem fidalgo e honrado. E tornarem a assinar - Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), que este escrevi. - Domingos Simões - Manuel Câmara - Pedro Esteves.

Testemunho de Helena Jorge
Ao primeiro dia do mês de Julho de mil quinhentos e setenta e um anos, no mosteiro de Santa Catarina da Carnota, estando aí o muito reverendo Domingos Simões, capelão do cardeal infante nosso senhor, e secretário do Conselho Geral da Inquisição (maldito), comigo notário perguntou a senhora Helena Jorge, mulher que foi de Sebastião Macedo, que Deus tem, testemunha referida, e lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs a mão, e prometeu dizer verdade. E lhe fez pergunta pelo referimento feito nela. Disse que é verdade que, depois de ser agora preso Damião de Goes, lhe disse Dona Briolanja, sua filha, tratando da tal prisão, que achando-se um dia em casa do dito Damião de Goes, em Lisboa, e desejando uma pequena de carne de porco, por estar prenhe, se trouxe à mesa, sendo dia de pescado e em que se proibia pela Santa Madre Igreja comer carne. E que começando ela a comer da dita carne, lhe dissera o dito Damião de Goes: - Sobrinha, não hás-de vós de comer essa carne só. E que lhe parece a ela testemunha que lhe disse também a dita sua filha que o dito Damião de Goes comera da dita carne. E que outra coisa lhe não lembra acerca disto».

In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «E do costume não disse nada, mas somente que o que dito tem do dito Damião de Goes ser tio do dito seu pai. E lhe foi mandado, sob cargo de juramento, que recebeu, que tivesse segredo no caso e assim o prometeu»


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Testemunho de Dona Briolanja
«(…) Disse, por ser também perguntada pelo referimento nela feito, que não era lembrada ouvir nem ver fazer, nem dizer e pessoa alguma coisa alguma que fosse contra nossa santa fé católica; mais somente que, haverá seis anos, que estando ela testemunha em Lisboa, em casa do dito Damião de Goes, tio do pai dela testemunha, em um sábado, desejando ela testemunha, por ao tal tempo andar prenhe, comer carne de porco por ver levar umas laranjas para a cozinha do dito Damião de Goes, e dizendo os desejos que tinha de comer a dita carne e que logo à ceia se pôs na mesa em que ela testemunha estava, e assim o dito Damião de Goes e sua mulher Dona Joana, já defunta, entrecosto de porco e linguiça. E posto tudo na mesa, junto a ela testemunha, disse o dito Damião de Goes: - Sobrinha, não haveis vós de comer isso só; que havemos de comer todos. E ela testemunha, por ser dia de sábado, disse: - Vossa Mercê também há-de comer?
Por lhe não parecer bem o que ele assim dizia; e ele lhe respondeu: - Sobrinha, o que vai para dentro não faz nojo. E que comeu o dito Damião de Goes da dita carne e linguiça, com ela testemunha; e assim a dita dona Joana, sua mulher, e lhe parece que comeram até se acabar a dita carne e linguiça e que a dita dona Joana era mal disposta e que o dito Damião de Goes estava são. E, acabada a dita carne, se pôs a comer do pescado que havia na mesa e assim a dita sua mulher, sem parecer que tinham pejo de comer a dita carne no dia de sábado, por andarem servindo à mesa criados seus que o viam comer. Que lhe não lembra agora quem eram, por haver treze ou catorze anos, pouco mais ou menos, que isto foi (posto que atrás diga que haveria seis anos) e que lhe parece que estava à dita mesa, e devia ver e ouvir o sobredito, sua filha Dona Catarina, que então era solteira, e ora é casada com Luís de Castro. E que ela testemunha ficou escandalizada do que assim viu fazer e ouviu, posto que o dito Damião de Goes lhe não falou mais sobre isso palavra alguma, mas que, pelo escândalo que isso teve, por ser sábado, lhe parece que logo o disse a António Gomes, seu marido. E lhe contou todo o sobredito.
E que, ao tempo que ela testemunha soube como o dito Damião de Goes era preso pelo Santo Ofício (maldito), o tornou a dizer ao dito seu marido, dizendo: - Não sei porque o prendessem pela Santa Inquisição (maldita), porque nunca lhe vi fazer nem dizer coisa de mau cristão, mais que somente ver-lhe comer aquela carne em dia de sábado. E que, falando ao mesmo propósito com seu irmão Sebastião de Macedo, e assim com sua cunhada Dona Guiomar, mulher do dito seu irmão Sebastião de Macedo, lhes disse que não sabia porque o prendessem porque não sabia mais dele que ver-lhe comer carne de porco e linguiça em dia de sábado, e dizer-lhe que o que ia para dentro não fazia nojo, senão o que vinha para fora.
E que lhe parece que o mesmo disse ela testemunha a Helena Jorge, sua mãe; e que lhe parece que lhe disse isto pela dita prisão e assim por lhe dizer a dita sua mãe, algumas vezes, estando em prática: - Não tinha vosso pai paciência de Damião de Goes mandar seus filhos moços a Flandres, nem sabia que proveito esperava tirar disso. E assim lhe parece que lhe disse também a dita sua mãe que dizia o dito seu pai algumas vezes: - Não crê mais Damião de Goes em Deus que nessa parede.
Não declarando o porque. E que doutra coisa não é lembrada ao presente. Nem que o dissesse a outras pessoas. E que ela testemunha comeu da dita carne por sua indisposição e por razão do perigo que corria, por causa dos ditos desejos; e que todavia o confessou a seus confessores e que não confessou a seus confessores o que assim ouviu fazer ao dito Damião de Goes, por não cair bem na obrigação que a isso tinha, posto que lhe pareceu muito mal por ser contra o que manda a Santa Madre Igreja. E que, se nisso teve alguma culpa, pede disso perdão porque não deixou de o fazer por respeito nenhum senão por não cair nisso. E al não disse. E do costume não disse nada, mas somente que o que dito tem do dito Damião de Goes ser tio do dito seu pai. E lhe foi mandado, sob cargo de juramento, que recebeu, que tivesse segredo no caso e assim o prometeu. E eu Pedro Álvares, notário do Santo Ofício (maldito), que o escrevi e assinei aqui, com o Rev. Domingos Simões, por ela a seu rogo». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

domingo, 28 de abril de 2013

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante»

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Testemunho de Manuel Correia
«Aos vinte e cinco dias do mês de Maio de mil quinhentos e setenta e um anos, em Lisboa, nos Estaus, na Casa do Despacho da Santa Inquisição (maldita), estando aí os senhores Inquisidores, perante eles pareceu, sendo chamado, o senhor Manuel Correia, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor, e lhe deram juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, e prometeu dizer verdade. E, perguntado pelo referimento nele feito, disse que há vinte dias, pouco mais ou menos, que praticando ele testemunha com Bastião de Macedo, veador da Casa do Cardeal Infante Nosso Senhor, no termo de Alenquer, sobre as coisas de Damião de Goes, o dito Bastião de Macedo lhe disse que indo um dia dona Briolanja, sua irmã, a jantar a casa do dito Damião de Goes, em um dia de sexta-feira, segundo sua lembrança, e estando jantando a dita Briolanja disse que desejava carne de porco. E logo lhe foram buscar um pedaço de lombo de porco, e lho assaram, e trouxeram à mesa; e lho cortaram e lhe deitaram sumo de laranja. E ela começou de comer dele. E que o dito Damião de Goes começou também a comer do dito lombo. E dizendo-lhe a dita dona Briolanja: - Também vós desejais? E o dito Damião de Goes lhe respondeu e disse: - Sobrinha, o que entra pela boca não faz nojo.
E não lhe disse mais o dito Bastião de Macedo. Somente eles dois ficaram mordendo este negócio, dizendo agora, depois de o ver preso, que lhe não parecera bem aquela linguagem. E não é lembrado dizer a mais pessoas que a um seu irmão e a Henrique de Castro; e bem pode ser que o dissesse a outras pessoas. E não é lembrado se lhe disse o dito Bastião de Macedo que se achara presente a estas práticas, nem quem estava presente. E al não disse. E do costume: que o conhece e não lhe quer mal. E lhe foi mandado por segredo no caso; e ele o prometeu. E assinou com eles Senhores, e eu João Velho, notário apostólico, o escrevi. - Manuel Correia de Martins Baarem - Jorge Gonçalves Ribeiro - Simão de Sá Pereira.

Em Alenquer
Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante Nosso Senhor e secretário do Conselho Geral da Santa Inquisição (maldito), para que vá à vila e termo de Alenquer, como inquiridor, com Pedro Álvares de Soto Maior, notário deste Santo Ofício (maldito), pergunte as testemunhas que leva em rol sobre a causa processo de Damião de Goes, preso no cárcere deste Santo Ofício (maldito), as quais perguntará, com todas as mais que forem inquiridas, pelo conteúdo nos autos e processo da dita causa e pela mais informação que leva do caso. E serão presentes duas pessoas religiosas para logo serem ratificadas conforme ao estilo deste Santo Ofício (maldito). E para todo o sobredito lhe damos nosso inteiro poder e cometemos nossas vezes e autoridade apostólica. Dada em Lisboa, sob nossos sinais e selo do dito Santo Ofício (maldito), ao primeiro de Junho - João Velho, notário do Santo Ofício (maldito) a fez de 1571. - Simão de Sá PereiraJorge Gonçalves Ribeiro.

Testemunho de Dona Briolanja
Aos vinte e nove dias do mês de Junho de mil quinhentos setenta e um anos, na vila de Alenquer na igreja de Nossa Senhora da Conceição, mosteiro das freiras da dita vila, estando aí Domingos Simões, conteúdo em a comissão atrás dos senhores Inquisidores, logo aí pareceu dona Briolanja, mulher de António Gomes de Carvalho, testemunha referida, que para isso teve recado, e por virtude da dita comissão lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, prometendo de dizer verdade.
E lhe fez pergunta, se era lembrada ver, ou ouvir dizer, ou fazer, a alguma pessoa alguma coisa que lhe parecesse contra nossa santa fé católica e contra o que tem e ensina a Santa Madre Igreja, ou de que se escandalizasse». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

O Processo de Damião de Goes na Inquisição. Raul Rêgo. «Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante»

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Testemunho de Manuel Correia
«Aos vinte e cinco dias do mês de Maio de mil quinhentos e setenta e um anos, em Lisboa, nos Estaus, na Casa do Despacho da Santa Inquisição (maldita), estando aí os senhores Inquisidores, perante eles pareceu, sendo chamado, o senhor Manuel Correia, fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor, e lhe deram juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, e prometeu dizer verdade. E, perguntado pelo referimento nele feito, disse que há vinte dias, pouco mais ou menos, que praticando ele testemunha com Bastião de Macedo, veador da Casa do Cardeal Infante Nosso Senhor, no termo de Alenquer, sobre as coisas de Damião de Goes, o dito Bastião de Macedo lhe disse que indo um dia dona Briolanja, sua irmã, a jantar a casa do dito Damião de Goes, em um dia de sexta-feira, segundo sua lembrança, e estando jantando a dita Briolanja disse que desejava carne de porco. E logo lhe foram buscar um pedaço de lombo de porco, e lho assaram, e trouxeram à mesa; e lho cortaram e lhe deitaram sumo de laranja. E ela começou de comer dele. E que o dito Damião de Goes começou também a comer do dito lombo. E dizendo-lhe a dita dona Briolanja: - Também vós desejais? E o dito Damião de Goes lhe respondeu e disse: - Sobrinha, o que entra pela boca não faz nojo.
E não lhe disse mais o dito Bastião de Macedo. Somente eles dois ficaram mordendo este negócio, dizendo agora, depois de o ver preso, que lhe não parecera bem aquela linguagem. E não é lembrado dizer a mais pessoas que a um seu irmão e a Henrique de Castro; e bem pode ser que o dissesse a outras pessoas. E não é lembrado se lhe disse o dito Bastião de Macedo que se achara presente a estas práticas, nem quem estava presente. E al não disse. E do costume: que o conhece e não lhe quer mal. E lhe foi mandado por segredo no caso; e ele o prometeu. E assinou com eles Senhores, e eu João Velho, notário apostólico, o escrevi. - Manuel Correia de Martins Baarem - Jorge Gonçalves Ribeiro - Simão de Sá Pereira.

Em Alenquer
Os Inquisidores apostólicos contra a herética pravidade e apostasia em este arcebispado de Lisboa e sua comarca, etc. Pelo teor da presente, cometemos nossas vezes ao muito reverendo senhor Domingos Simões, capelão do Cardeal Infante Nosso Senhor e secretário do Conselho Geral da Santa Inquisição (maldito), para que vá à vila e termo de Alenquer, como inquiridor, com Pedro Álvares de Soto Maior, notário deste Santo Ofício (maldito), pergunte as testemunhas que leva em rol sobre a causa processo de Damião de Goes, preso no cárcere deste Santo Ofício (maldito), as quais perguntará, com todas as mais que forem inquiridas, pelo conteúdo nos autos e processo da dita causa e pela mais informação que leva do caso. E serão presentes duas pessoas religiosas para logo serem ratificadas conforme ao estilo deste Santo Ofício (maldito). E para todo o sobredito lhe damos nosso inteiro poder e cometemos nossas vezes e autoridade apostólica. Dada em Lisboa, sob nossos sinais e selo do dito Santo Ofício (maldito), ao primeiro de Junho - João Velho, notário do Santo Ofício (maldito) a fez de 1571. - Simão de Sá PereiraJorge Gonçalves Ribeiro.

Testemunho de Dona Briolanja
Aos vinte e nove dias do mês de Junho de mil quinhentos setenta e um anos, na vila de Alenquer na igreja de Nossa Senhora da Conceição, mosteiro das freiras da dita vila, estando aí Domingos Simões, conteúdo em a comissão atrás dos senhores Inquisidores, logo aí pareceu dona Briolanja, mulher de António Gomes de Carvalho, testemunha referida, que para isso teve recado, e por virtude da dita comissão lhe deu juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, prometendo de dizer verdade.
E lhe fez pergunta, se era lembrada ver, ou ouvir dizer, ou fazer, a alguma pessoa alguma coisa que lhe parecesse contra nossa santa fé católica e contra o que tem e ensina a Santa Madre Igreja, ou de que se escandalizasse». In Raul Rêgo, O Processo de Damião de Goes na Inquisição, Assírio & Alvim, 2007, ISBN978-972-37-0769-4, Peninsulares/57.

continua
Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT