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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Universidade de Coimbra e a Europa, 1537-1937. Manuel A. Rodrigues: «O peso e a importância de Francisco Suárez foram tão grandes que o seu pensamento sobre o Estado e o Direito Internacional tem sido objecto, ainda no nosso século, de muitos estudos em países…»

jdact

1615, Julho, 23
«Assento do último acto público a que presidiu o Doutor Francisco Suárez e do último grau académico por ele conferido. (Actos e Graus, 1613-1616, t. 24, liv. 2, fl. 6)

Francisco Suárez, teólogo, jurista e filósofo, nasceu em Granada em 1548 e faleceu em Lisboa em 1619. Foi um dos lustres mais exímios da Companhia de Jesus, merecendo o cognome de “doutor exímio”. Tendo adquirido uma formação deveras sólida, veio a ensinar depois nas cidades de Salamanca, Segóvia, Valladolid e Ávih. Em 1580 dirigiu-se a Roma, onde leccionou no Colégio Romano. A seguir vamos encontrá-lo em Alcalá, exercendo igualmente aí o magistério.
Mas havia de ser em Coimbra que o saber e a cultura muitos vastos de Suárez haviam de projectar-se com maior vigor e poder de irradiação ao longo de vinte anos de fecundo magistério teológico até se jubilar em 1616. A Universidade de Coimbra teve em Francisco Suárez um dos seus maiores sábios de sempre, ao mesmo tempo que em Évora brilhava o espírito de Luís de Molina.
A partir de 1617 dedica-se fundamentalmente à edição da sua vastíssima obra que foi publicada em várias edições em diversas cidades europeias, como Salamanca, Madrid, Mogúncia, Veneza, Bérgamo, Génova, Colónia, Paris, Genebra, Antuérpia, Londres, Nápoles e Lião, e, evidentemente, nas portuguesas, como Évora e Coimbra.
O peso e a importância de Francisco Suárez foram tão grandes que o seu pensamento sobre o Estado e o Direito Internacional tem sido objecto, ainda no nosso século, de muitos estudos em países como a Alemanha, a Argentina, o Brasil, a Espanha, a Finlândia, a Inglaterra, a Itália e o Japão.
Os centenários da incorporação de Suárez no claustro dos professores de Coimbra, em 1897; da sua morte, com um congresso realizado em Granada; e do 4º centenário do seu nascimento com um congresso efectuado em Madrid, Segóvia, Valladolid e Salamanca, e sua conclusão em Coimbra; revestiram-se de grande brilho. António de Vasconcelos escreveu um notável trabalho sobre Suárez, intituladoFrancisco Sudrez (Doctor Exinrius)”.

1807, Julho, 30
Acta do conselho da Faculdade de Teologia em que são escolhidas algumas obras de autores estrangeiros, como Gerbert, Dannemayer, Reineccius e Cocceius, para leitura obrigatória dos alunos. (Actas das Congregações de Teologia, 1799-1828, t. 2, fl.43 v.)

Martin Gerbert, O.S.B., barão de Hornan, nasceu em 1720 em Hoeb (Würtemberg) e notabilizou-se pela sua acção de renovador dos estudos na abadia de St. Blasien (Floresta Negra), da qual foi abade. Tendo-se aplicado com grande fervor à investigação histórica, tornou-se um dos escritores alemães mais cultos do seu tempo. Deslocou-se em 1760 a França, à Itália, e à Alemanha a fim de recolher material que lhe permitisse escrever uma história da Música sacra, obra que concluiu em 1784. Mas os seus escritos sobre Teologia revelaram-se igualmente muito notáveis, sendo alguns deles adoptados em muitos centros culturais, como sucedeu com a Universidade de Coimbra.
Mathias Dannemayer, nasceu em Öpinfgen (Alemanha) em 1741 e morreu em 1805. Ensinou História Eclesiástica na Universidade de Friburgo, de que foi reitor, e Teologia em Viena. Foi um dos autores mais seguidos nas Universidades e Seminários da Europa pelo valor dos seus livros sobre História da Igreja, que foram também adoptados em Coimbra.
Cristiano Reineck (Reineccius), natural de Grossmühlingen (Alemanha), notabilizou-se como teólogo e filósofo insigne. Ensinou Línguas e Filosofia em Leipzig. A sua obra sobre filologia hebraica foi seguida em Coimbra.
Johannes Cocceius, teólogo protestante, nasceu em Bremen e faleceu em Leiden. Foi um dos peritos de Hebraico mais célebres do séc. XVII. Leccionou Teologia e Hebraico em Francker e Leiden. Em Coimbra foi adoptado o seu Dicionário de Hebraico». In Manuel Augusto Rodrigues, A Universidade de Coimbra e a Europa, 1537-1937, Exposição Documental organizada pelo Arquivo da Universidade de Coimbra, 1987, Congresso Nacional de Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas.

Cortesia do Arquivo da U. de Coimbra/JDACT

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A Universidade de Coimbra e a Europa, 1537-1937. Manuel A. Rodrigues: «Com a transferência definitiva da Universidade para Coimbra, em 1537, assistiu-se ao início de uma fase muito rica da sua existência, em que os contactos com a Europa ocuparam um lugar privilegiado. Para as quatro Faculdades foram chamados Mestres de fora»

Cortesia do arquivodauniversidadedecoimbra 

«Duas reformas assinalaram decisivamente a vida da "Alma Mater" durante esse tempo :
  • a de D. João III no século XVI,
  • a Pombalina de 1772.
A primeira incidiu essencialmente na introdução dos esquemas e conteúdos humanísticos nas suas diversas componentes na docência universitária, a que se seguiu a adopção do ideário católico da Contra-Reforma definido em Trento. A Reforma de 1772 caracterizou-se pela renovação dos estudos de acordo com as novas directrizes emanadas do movimento das Luzes e do experimentalismo.
Às quatro Faculdades existentes (Teologia, Cânones, Leis e Medicina) foram acrescentadas as de Matemática e de Filosofia, sendo criados ainda vários Estabelecimentos Anexos:
  • O Hospital, o Teatro Anatómico e o Dispensatório Farmacêutico - da Faculdade de Medicina;
  • O Observatório Astronómico da Faculdade de Matemática;
  • Os Gabinetes de História Natural e de Física Experimental, o Laboratório Químico e o Jardim Botânico - da Faculdade de Filosofia.
Pela leitura dos diversos Estatutos aprovados ao longo da história da Universidade, vários do séc. XVI, os de 1654 e os de 1772, podemos acompanhar de perto a organização da «Alma Mater» nos sectores pedagógico, religioso e administrativo. Mas para uma melhor compreensão da vida da Escola há que recorrer a outra documentação como, por exemplo, a legislação régia e as Actas das Faculdades.

Primeira Acta do Conselho da Universidade após a transferência definitiva para Coimbra
2 de Maio de 1537
Cortesia do arquivodauniversidadedecoimbra

Com a transferência definitiva da Universidade para Coimbra, em 1537, assistiu-se ao início de uma fase muito rica da sua existência, em que os contactos com a Europa ocuparam um lugar privilegiado. Para as quatro Faculdades foram chamados Mestres de fora. Alguns professores de Coimbra leccionaram em Universidades estrangeiras; muitos escolares portugueses ocorreram a importantes centros de estudo dispersos pelo continente europeu; e imprimiram-se obras de lentes da Universidade um pouco por toda a parte.
Para tal desenvolvimento muito contribuiu a acção de alguns reitores, como Fr. Diogo de Murça, O. S. Jer., que se doutorara em Teologia em Lovaina e foi juntamente com Fr. Brás de Barros, O. S. Jer., reformador do Mosteiro de Santa Cruz e também formado por Lovaina, um dos grandes impulsionadores da renovação dos estudos em Coimbra.
E já que se fala desta instituição dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho, oportuno é lembrar a fundação de colégios universitários, quase todos eles dependentes de ordens religiosas, que se tornaram autênticos viveiros de ciência e cultura no meio conimbricense até 1834, data da sua extinção, e onde existiam valiosas bibliotecas. Eles tornaram-se veículos importantes de relacionamento com outros países europeus,

Cortesia do arquivodauniversidadedecoimbra

Vejamos alguns exemplos de intercâmbio com o estrangeiro. Para a Faculdade de Teologia vieram os lentes espanhóis Afonso do Prado, Francisco de Monçon e João Pedraza logo no começo das actividades escolares em 1537. Depois chegaram ainda Fr. Martinho de Ledesma, O. P., Paulo do Palácio e Salazar e o grande Francisco Suárez, S. J., que tanto prestigiaria a universidade pelo seu saber e pelo valor das suas obras. Os estudos teológicos e bíblicos conheceram um período de enorme florescimento. Professores portugueses houve que, antes de leccionarem em Coimbra, estudaram lá fora. Foi o caso de Fr. António da Fonseca O. P., de Paio Rodrigues de Vilarinho e de Marcos Romeiro que estiveram em Paris; de Fr. Luís de Sotomaior, O. P., que frequentou a Universidade de Lovaina e leccionou em Oxford e Cambridge, Londres, na Flandres e Alemanha.
Por seu turno, Fr. Agostinho do Trindade, O. E. S. A., exonerado da sua cátedra por ser partidário de D. António, pretendente à coroa, foi para Bordéus e Toulouse, onde viria a exercer a docência.
A edição de obras de alguns destes professores em tipografias estrangeiras, como em Salamanca, Paris, Antuérpia, Colónia, Veneza, Leiden, etc., testemunha à sociedade a admiração granjeada além fronteiras e o enorme prestígio de que desfrutava a cultura portuguesa». In Manuel Augusto Rodrigues, A Universidade de Coimbra e a Europa, 1537-1937, Exposição Documental organizada pelo Arquivo da Universidade de Coimbra, 1987, Congresso Nacional de Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas.

Cortesia do Arquivo da Universidade de Coimbra/JDACT