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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

História Alegre de Portugal. Pinheiro Chagas. «… que foram seus pais nem os seus avós, nem o que fizeram, nem como eles viveram, nem o que sucedeu nesta boa terra de Portugal, que nós todos regamos com o nosso suor, que hoje nada vale, mas que deu brado no mundo pelas façanhas que os nossos praticaram?»

jdact e wikipedia

«O João Martins, mais conhecido pelo nome de João da Agualva, porque morava na pequena aldeia deste nome, que fica entre Belas e o Cacém num sítio árido e feio, fora mestre de instrução primária numa das freguesias do concelho de Sintra. Conseguira a sua aposentação, e viera para a sua aldeia natal amanhar umas terras que ali possuía, e cujo rendimento o impedira já de morrer de fome nos tempos, em que o Estado lhe pagava munificentemente os noventa mil réis anuais, com que remunerava nessa época os primeiros guias do homem nos ásperos caminhos da instrução. Mas o João da Agualva era homem de uma ilustração excepcional. Convivera muito tempo com o prior de Montelavar, padre instruído que emprestara ao bom do professor os livros da sua limitada biblioteca; em Belas também se relacionara com um engenheiro francês, empregado nas obras de água de Vale de Lobos, de Broco e de Vale de Figueira, o qual tomara gosto em desenvolver o espirito inteligente e ávido de saber do velho professor. Apesar disto vivia modestamente na sua pobre casa, lidando com os saloios que o tratavam com verdadeiro respeito, e tinham por ele um afecto em que entrava um pouco de veneração. Era no Inverno, e o João da Agualva estava passando a noite em casa de uma boa velha, a tia Margarida, viúva de um caseiro do marquês de Belas, e mãe do Francisco Artilheiro, que, depois de ter servido cinco anos em artilharia, como indicava o seu sobrenome, viera para Belas ajudar a mãe a cuidar de umas leiras de terra, que a velhinha herdara do marido. Um grupo de saloios de Belas e das aldeias próximas, sabendo que o João da Agualva viera para ali seroar, tinham vindo também, desejosos de ouvir algumas das histórias que o velho às vezes contava e que entretinham agradavelmente a noite. Nessa ocasião, porém, o professor estava macambúzio, e, quando o velho Bartolomeu, irmão da tia Margarida, que era dos que mais gostavam de o ouvir, lhe pediu que contasse alguma das suas histórias, o bom do João da Agualva abanou negativamente a cabeça. Não estou hoje com disposição para histórias da carochinha, disse ele, e sabem vocês? Tenho andado a matutar numa coisa. Não é uma vergonha que vocês saibam de cor as alteadas histórias de coisas que nunca sucederam, nem podiam suceder, e não saibam ao mesmo tempo nem o que foram seus pais nem os seus avós, nem o que fizeram, nem como eles viveram, nem o que sucedeu nesta boa terra de Portugal, que nós todos regamos com o nosso suor, que hoje nada vale, mas que deu brado no mundo pelas façanhas que os nossos praticaram? Tomara eu saber tudo isso, João da Agualva, disse o Manuel Idanha, rapazote de cara esperta, moço de lavoura de Garignan, o antigo dono de colégio, que hoje reside na aldeia da Idanha, a coisa de quinhentos metros de Belas, tomara eu saber tudo isso, mas como há de ser!? É verdade que, graças a Deus, sei ler e escrever, e lá o patrão emprestou-me uma vez uns livros de história que eu lhe pedi, mas, mal os comecei a ler, deu-me o sono. Diziam à gente os nomes dos reis e os filhos que tinham tido, e as batalhas que tinham ganho, e mais umas lenga-lengas de que não percebi patavina. Ora, João da Agualva, eu, para dormir, graças a Deus, ainda não preciso de ler história. Mas que diriam vocês, tornou o velho professor, se eu, nestes nossos serões, lhes contasse, em vez de contos de fadas, e de histórias de Carlos Magno, a história do que sucedeu em Portugal? Talvez vocês me entendessem, quer-me parecer que se não aborreceriam muito, e, em todo o caso, se se enfastiassem, diziam-mo francamente, e eu não continuava, porque lá para maçador é que não sirvo. Ah! João, exclamou o Manuel Idanha, isso é que era um regalo! Os outros não disseram palavra, e o João, que os percebeu, riu-se para dentro, e fingiu-se desentendido. Pois então, vá feito, eu hoje estou cansado, porque já fui a pé ao Sabugo tratar da compra de um boi, mas amanhã é domingo. Venham vocês à noite aqui para casa da tia Margarida, e eu começarei a minha história. No domingo á noite ninguém faltou; mas, se vieram, foi pelo respeito que tinham ao João da Agualva, não porque esperassem divertir-se muito. O Bartolomeu já abria a boca ainda antes do João da Agualva começar. Mas o João chegou-se mais para o lume, porque a noite estava fria a valer, sorriu-se…
Meus amigos, começou o João da Agualva, é de saber que esta terra em que nós vivemos nem sempre foi Portugal, e, se alguém se lembrasse de falar, aqui há coisa de uns três ou quatro mil anos ou mesmo só de mil anos, em Portugal e em portugueses, havia de ver como todos ficavam embasbacados sem perceber patavina. Isto lá para os antigos era tudo Espanha, desde os cocurutos dos Pirenéus, que são uns montes que separam a Espanha da França, até essas águas do mar que cercam por todos os lados a nossa terra, mais a dos espanhóis, e até por estar este pedação de terra cercado de água por toda a parte, menos pela banda dos Pirenéus, é que se chama a isto península, que quer dizer uma coisa que é quase uma ilha, mas que o não vem a ser de todo. Bem sei, bem sei! Península é onde houve uma guerra em que entrou meu avô!, exclamou o falador do Manuel Idanha. Mete a viola no saco, Manuel, quem muito fala pouco acerta. Lá chegaremos à guerra da península. Roma e Pavia não se fez num dia.
Pois então, vá lá vossemecê contando a sua história. Como eu ia dizendo, esta península, a que se chama Espanha e Portugal, era então só Espanha. Espanhóis éramos nós todos... Menos eu!, acudiu o Bartolomeu, levantando-se todo furioso, espanhol é que nunca fui, nem sou, nem serei. Vai aqui tudo raso, se... Espera, homem de Deus! Que tem que tudo isto fosse espanhol se nunca mais o há de ser? Também a Espanha, e a França, e a Inglaterra, e a Itália, e a Grécia, e o Egipto foi tudo império romano, e vai lá dizer agora a essas nações todas que se sujeitem ao mesmo governo! Também a França dantes se chamava Gália e estendia-se pela Bélgica fora, e mais pela Suíça, e, se o Gambeta, ou quem é que governa lá na França, quisesse por isso empolgar a Suíça e a Bélgica, ia aí em toda a Europa uma berraria de seiscentos demónios. Pois sim, resmungou o Bartolomeu sentando-se de mau humor, mas não me digam a mim que eu fui espanhol. Ora, meus amigos, quem foram os que primeiro moraram cá neste canto de terra é que ninguém sabe. Seriam uns iberos, que falavam uma língua arrevesada, assim a modo semelhante á que falam hoje os espanhóis das Vascongadas que nem o demo entende? Isso é que lhes não posso dizer. O que sei é que, quando a Espanha começou a ser conhecida, havia aqui uma sucia de povos que era uma coisa por demais, turdetanos para um lado, celtiberos para outro, ilergetes para aqui, bastetanos para acolá. Estava até amanhã a dizer-lhes nomes estrambóticos, se não preferisse falar-lhes só nos nossos avós, cá nos que moraram na nossa terra». In Manuel Pinheiro Chagas, História Alegre de Portugal, Wikipédia, Luso Livros, Nova Forma de Ler.

Cortesia LLivros/JDACT

segunda-feira, 2 de junho de 2014

História Alegre de Portugal. Pinheiro Chagas. «Melhor para elas, ouviu!, redarguiu a velha. Que pena que não vivesses nesse tempo para atares os cabelos com uma fita, quando fosses para a guerra! Como o Zé Caneira era calvo, uma gargalhada geral acolheu a observação da tia Margarida»

jdact e elenakukanova

Primeiro Serão
«Meus amigos, começou o João da Agualva, é de saber que esta terra em que nós vivemos nem sempre foi Portugal, e, se alguém se lembrasse de falar, aqui há coisa de uns três ou quatro mil anos ou mesmo só de mil anos, em Portugal e em portugueses, havia de ver como todos ficavam embasbacados sem perceber patavina. Isto lá para os antigos era tudo Espanha, desde os cocurutos dos Pirenéus, que são uns montes que separam a Espanha da França, até essas águas do mar que cercam por todos os lados a nossa terra, mais a dos espanhóis, e até por estar este pedação de terra cercado de água por toda a parte, menos pela banda dos Pirenéus, é que se chama a isto península, que quer dizer uma coisa que é quase uma ilha, mas que o não vem a ser de todo. - Bem sei, bem sei!, península é onde houve uma guerra em que entrou meu avô!, exclamou o falador do Manuel da Idanha. - Mete a viola no saco, Manuel, quem muito fala pouco acerta. Lá chegaremos á guerra da península. Roma e Pavia não se fez num dia. Pois então, vá lá vossemecê contando a sua história. Como eu ia dizendo, esta península, a que se chama Espanha e Portugal, era então só Espanha. Espanhóis éramos nós todos... - Menos eu!, acudiu o Bartolomeu, levantando-se todo furioso, espanhol é que nunca fui, nem sou, nem serei, vai aqui tudo raso, se... Espera, homem de Deus! Que tem que tudo isto fosse espanhol se nunca mais o há de ser? Também a Espanha, e a França, e a Inglaterra, e a Itália, e a Grécia, e o Egipto foi tudo império romano, e vai lá dizer agora a essas nações todas que se sujeitem ao mesmo governo! Também a França dantes se chamava Gália e estendia-se pela Bélgica fora, e mais pela Suíça, e, se o Gambeta, ou quem é que governa lá na França, quisesse por isso empolgar a Suíça e a Bélgica, ia aí em toda a Europa uma berraria de seiscentos demónios.
Pois sim, resmungou o Bartolomeu sentando-se de mau humor, mas não me digam a mim que eu fui espanhol. Ora, meus amigos, quem foram os que primeiro moraram cá neste canto de terra é que ninguém sabe. Seriam uns iberos, que falavam uma língua arrevesada, assim a modo semelhante á que falam hoje os espanhóis das Vascongadas que nem o demo entende? Isso é que lhes não posso dizer. O que sei é que, quando a Espanha começou a ser conhecida, havia aqui uma sucia de povos que era uma coisa por demais, turdetanos para um lado, celtiberos para outro, ilergetes para aqui, bastetanos para acolá. Estava até amanhã a dizer-lhes nomes estrambóticos, se não preferisse falar-lhes só nos nossos avós, cá nos que moraram na nossa terra. Isso é que é!, bradaram todos em côro. Pois muito bem! Saibam vocês que não era um povo só. No Algarve e num pedaço do Alentejo havia os cuneenses, no resto do Alentejo, na Estremadura e na Beira moravam os lusitanos, e lá para cima para o Douro, para o Minho e mais para Trás-os-Montes moravam os galegos. Os galegos!, exclamou o irritável Bartolomeu, veja lá como fala, João da Agualva, olhe que o pai da minha mulher veio de Trás-os-Montes, e os meus sogro não era nenhum galego, ouviu?
Valha-te Deus, Bartolomeu, então tu pensas que os galegos andam todos com o barril ás costas, e são todos uns grosseirões como os aguadeiros dos chafarizes de Lisboa? Pois digo-te, e depois to mostrarei, que de todos os povos lá das Espanhas foram os galegos os que mais depressa se poliram. Mas, cala-te boca, não vá o carro adiante dos bois, e, como tu não queres ser genro de um galego, sempre te direi que os que moravam para cá do Minho não eram da mesma casta que os de lá. Os nossos chamavam-se Brácaros e os galegos da Galiza chamavam-se Lucenses. Ainda bem!, murmurou o Bartolomeu, isso de Brácaros até parece que dá ideia de Braga. E é verdade que dá, Bartolomeu, lavre lá dois tentos. Todos se riram, e o João da Agualva continuou: Mas não imaginem que os nossos antepassados eram assim como nós, que viviam em cidades, vilas e aldeias, que andavam vestidos dos pés até á cabeça, que tinham espingardas para a caça e para a guerra. Qual carapuça! Eram uns selvagens, uns lapuzes. As armas eram lanças de cobre, e o amante pedregulho, mais uns dardos e uma espécie de escudo para se defenderem; fato pouco havia, cabelo comprido como o das mulheres, que atavam com uma fita quando tinham de ir para a guerra. As mulheres é que tinham os seus enfeites e os seus bordados, os seus vestidos compridos, etc. Pois já se vê que lá as meninas nunca podem passar sem arrebiques!, disse o Zé Caneira, relanceando um olhar malicioso para a boa tia Margarida que fiava na sua roca ao pé da lareira. Melhor para elas, ouviu!, redarguiu a velha. Que pena que não vivesses nesse tempo para atares os cabelos com uma fita, quando fosses para a guerra! Como o Zé Caneira era calvo, uma gargalhada geral acolheu a observação da tia Margarida». In Manuel Pinheiro Chagas, História Alegre de Portugal.

JDACT

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Pinheiro Chagas: O «fiel inimigo» de Eça de Queirós, o qual o crismou de «brigadeiro Chagas». Apesar das suas obras oscilarem entre um estilo rigoroso e uma atmosfera de afectação, a popularidade de Chagas foi grande, sendo durante muito tempo considerado como um dos mais populares escritores portugueses

(1842-1895)
Lisboa
Diário Ilustrado, Junho de 1873
Cortesia de wikipédia 

Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, um prolífico escritor, jornalista e político português. Destacou-se como romancista, historiador e dramaturgo, tendo escrito inúmeros romances históricos e diversas peças de teatro, algumas das quais se mantiveram em cena por mais de um século.
Foi director de vários periódicos de Lisboa. Exerceu as funções de deputado e par do Reino e foi Ministro da Marinha e Ultramar na fase decisiva das movimentações da potências europeias em torno da partilha de África. Foi um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Aluno brilhante, começou desde cedo a demonstrar grande interesse pela escrita. A sua primeira obra publicada foi Anjo do Lar (1863), uma colectânea de poemas, a que se seguiu Poema da Mocidade (1865), outra colectânea poética.

Fotografia de Alfred Fillon, in O Contemporâneo, Lisboa 1875
Cortesia de wikipédia

Foi o prefácio de Castilho àquela obra de poesia juvenil, que levou à eclosão da Questão Coimbrã, polémica onde o grupo de Pinheiro Chagas, Júlio de Castilho, Brito Aranha, Camilo Castelo Branco e Ramalho Ortigão enfrentou Teófilo Braga e Antero de Quental, num epifenómeno literário das tensões entre conservadorismo e reformismo que atravessavam a sociedade portuguesa de então.

A partir daí passa a colaborar intensamente na imprensa e a manter uma actividade literária a que cedo associou uma não menos intensa actividade política. Passou a publicar textos de ficção, sendo um dos introdutores do romance de aventuras em Portugal. Também se interessou pela História, tendo produzido trabalhos, que embora operosos, não seguem as preocupações de rigor e de erudição dos mais conceituados historiadores da época.
Apesar das suas obras oscilarem entre um estilo rigoroso e uma atmosfera de afectação, a popularidade de Pinheiro Chagas foi grande, sendo durante muito tempo considerado como um dos mais populares escritores portugueses. A prová-lo esta que o plebiscito literário realizado em 1884 pelo jornal O Imparcial de Coimbra, que tendo feita uma sondagem sobre quem seriam os 3 escritores portugueses mais notáveis nessa época, obteve dos seus leitores a seguinte classificação:
  • 1.º Camilo Castelo Branco;
  • 2.º Manuel Pinheiro Chagas;
  • 3.º José Maria Latino Coelho.
O seu zoilo Eça de Queiroz, que, fazendo referência ao seu passado como militar, o apodava de brigadeiro Chagas, aparecia apenas no 4.º lugar, seguido de Ramalho Ortigão, Teófilo Braga, Oliveira Martins e Guerra Junqueiro, numa ordenação que pouco diz sobre a popularidade futura dos escritores.

Cortesia de emule

Apesar dessa opinião dos leitores e das suas obras terem gozado de êxito imediato e grande divulgação, tal não se repercutiu após a morte do autor, sendo este praticamente esquecido. Para isso muito contribuíram as polémicas que manteve com Eça de Queirós, que o fizeram pouco querido da geração de intelectuais que se lhe seguiu. Hoje algumas das suas obras têm vindo a ser reeditadas, com razoável êxito. A peça A Morgadinha de Valflor (1869) teve assinalável êxito e manteve-se popular, sendo encenada, particularmente por grupos amadores, durante todo o último século.

Numa nomeação controversa, foi feito professor de Literatura Clássica do Curso Superior de Letras, conjugando também nessa função a sua actividade literária com os seus ideais políticos. Entrou em choque com muitos dos principais protagonistas da vida literária portuguesa de então, do que resultaram inúmeras polémicas, das quais a mais azeda e prolongada, durando mais de 20 anos, foi mantida com Eça de Queirós.

«Último nome maior da primeira geração de críticos literários que Portugal conheceu, Pinheiro Chagas foi também, e mais celebremente, o «fiel inimigo» de Eça de Queirós, o qual o crismou de «brigadeiro Chagas», reprovando-lhe o seu patrioteirismo agarrado ao passado. Com efeito, muito do sucesso do trabalho de Chagas junto do público deveu-se à sua capacidade para, no teatro, na historiografia, na política, na novela, na poesia, tocar com sucesso as cordas mais patéticas da sentimentalidade portuguesa do seu tempo. Isso mesmo torna-o uma leitura um pouco frustrante, hoje, devido ao sucesso posterior do estilo e da atitude de Eça junto do mundo literário e da cultura em geral de Portugal. Mas o seu trabalho inicial, no jornalismo literário, merece consideração por aí se encontrar já tudo o que depois viria a celebrizá-lo, mas ainda numa forma muito primitiva e ingénua». In Carlos Leone
Obras poéticas:
  • Anjo do Lar (1863)
  • Poema da Mocidade (1865), prefaciado por António Feliciano de Castilho
Obras de ficção:
  • Tristezas à Beira-Mar (1866)
  • A Flor Seca (1866)
  • Os Guerrilheiros da Morte (1872)
  • A Corte de D. João V (1873)
  • Astucias de Namorada e Um melodrama em Santo Tirso (1873)
  • O terramoto de Lisboa (1874)
  • A Lenda da Meia Noite (1874)
  • As Duas Flores de Sangue (1875)
  • A Mantilha de Beatriz (1878)
  • A Jóia do Vice-Rei (1890)
Obras dramáticas:
  • A Morgadinha de Valflor (1869)
  • Deputado de Venhanós (1869)
  • A Judia (1869)
  • À Volta do Teatro (1868)
  • Madalena e Helena (1875)
  • Quem Desdenha (1875)
Obras de história e de crítica:
  • Ensaios Críticos (1866)
  • Novos Ensaios (1867)
  • Portugueses Ilustres (1869)
  • História de Portugal (8 volumes, 1869-1874)
  • História Alegre de Portugal (1880)
  • Brasileiros Ilustres (1881)
  • As negociações com a Inglaterra (1890)
  • As colónias portuguesas no século XIX (1891)
  • Os descobrimentos portugueses e os de Colombo (1892)
  • Migalhas da História de Portugal (1893)

Na Avenida da Liberdade, Lisboa
Cortesia de jmgs

«Só desde o momento que essa História, da Literatura e da Crítica, começou a ser feita sistematicamente dentro da Universidade, desde meados do século XX, é que se operou a dupla mutação face à crítica «impressionista» (termo ainda aplicável, aliás, a quase tudo o que um David Mourão-Ferreira cometeu na crítica, como o próprio admitia) em que Chagas se exercitou nos seus ensaios:
  • a constituição de um público no sentido moderno do termo, falta tantas vezes lamentada tanto por Chagas como por outros depois dele (como ainda no caso do Inquérito Literário de Boavida Portugal, em 1915);
  • a criação de um establishment universitário em contacto regular com aquela Europa moderna que a geração de Chagas e Eça, e mesmo antes dela, tomava por ideal normativo.
Sem estas duas mudanças, e a mudança social que se produziu com elas no último quartel do século XX, o mundo literário e social de Chagas permaneceria sendo o nosso. Nesse mundo, a prosa tendia à solenidade e o número de caracteres ainda não era a ultima ratio da escrita, nem mesmo da jornalística. Quem conhecer as longas aberturas dos textos do início do século XX sentir-se-á à vontade entre a prosa dos novos de meados do século XIX, com as suas extensas divagações sobrecarregadas de erudição clássica e moderna.
Como Chagas explica nas suas «Duas palavras d’Introducção», Ensaios Críticos reúne alguns dos textos do «primeiro ano do meu noviciado jornalístico». Nele, e em tudo o que mais se propunha fazer, «a missão da crítica era elevadíssima», mesmo se a adulação colhe sempre mais adeptos, tanto entre os maiores como entre os menores: «Perante a vaidade todos somos iguais». E a modéstia do aspirante a critico, a homem de letras naquela acepção que hoje desapareceu, só torna a leitura dos ensaios mais esmagadora: aquela ideia de cultura já não existe, aquela língua portuguesa já não existe, aquela Pátria já não existe». In Carlos Leone.

Cortesia de arpose

Cortesia do Instituto Camões/wikipédia/JDACT