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domingo, 2 de junho de 2013

Mahler e Freud. Alma Mahler. 2ª Parte. «Eu tive muitas oportunidades de admirar a capacidade de compreensão psicológica deste compositor tão genial. A princípio, nenhum raio de luz conseguiu iluminar a fachada que ocultava sua neurose obsessiva. Numa exploração pela sua história pessoal descobrimos condições pessoais para o amor, o complexo materno»


Viena
(1879-1964)
Cortesia de wikipedia

Não sei se amo o Director da Ópera de Viena, o dirigente famoso ou o homem chamado Gustav Mahler. In diário de Alma Schindler.

«Além de não apreciar a música de Mahler, Alma recebeu uma lista de restrições, assim que se casou com Gustav, em1902. A que mais lhe fez sofrer foi a proibição categórica de continuar a compor. Para entendermos o efeito desta medida, Alma vinha compondo há alguns anos, e muitas de suas canções não caíram no esquecimento até os dias de hoje. Mahler tinha um péssimo conceito da arte de sua nova esposa. Ao voltarem da lua de mel, foram viver numa casa de campo em Maiernigg, frente ao lago Wörth. Lá o compositor tinha a paz necessária para compor suas sinfonias. Para Alma restavam a solidão e os afazeres domésticos. Seu diário revela: Eu perdi todos meus amigos e amigas e hoje tenho um marido que não me compreende.
No Outono de 1909 Mahler viajou para Nova Iorque pela terceira vez, para cumprir mais uma temporada no Metropolitan Opera House. Ao retornar à Viena, seguindo orientação médica, Mahler mandou sua jovem esposa para uma temporada no SPA de Tobel. Neste local Alma foi encontrar a calma e a cura de suas aflições, não nas fontes termais, mas na figura de um belo e jovem arquitecto, Walter Gropius. Anos mais tarde ele se tornaria famoso ao fundar a Bauhaus, uma das mais conceituadas academias de arte do mundo.


Enquanto Alma passava as noites nos braços de Gropius, Mahler preocupava-se com o estado emocional e os tormentos enfrentados por sua esposa. Recentemente eles tinham perdido a filha mais velha, Maria Anna, morta após um surto de difteria. Alma lhe mandava notícias do SPA. Suas mensagens eram curtas e com o passar dos dias começaram a escassear. Preocupado, Mahler escreveu: Você está ocultando algo? Acredito estar sempre lendo algo diferente nas entrelinhas.
Alma terminou seu período de tratamento e retornou para a casa do marido. Recebia inúmeras cartas de Gropius, onde ele pedia que abandonasse tudo para viverem juntos. E de repente, aconteceu algo inesperado. Mais uma vez ele assinou uma apaixonada carta, pedindo que sua amada tomasse uma posição firme e deixasse Mahler. Ao invés de dirigir a correspondência para Alma, ele colocou como destinatário o Herr Direktor Gustav Mahler. Muitos apontam essa troca de nomes como um acto falho, mas na realidade a intenção de Gropius era a de acelerar o rompimento do casal e assim obter uma decisão a seu favor. Ao ler a carta, Mahler chegou à conclusão de que este era o resultado de anos de repressão aos impulsos e sentimentos de sua esposa, sempre tratada como uma dona de casa. O compositor havia anulado toda a individualidade de uma mulher que vivia subjugada. Mahler era cego a tudo que se passava ao seu redor, pois havia se entregue de corpo e alma a sua arte. Alma, gradualmente foi entrando em desespero, devido à maneira como o marido a tratava. Ela definiu sua situação com as seguintes palavras: Eu estou casada com uma abstração, não com um ser humano.
Após meditar sobre o conteúdo da carta e suas implicações, Mahler agiu conforme seu caráter que demonstrava ser um homem de total transparência, directo, sem rodeios. Foi procurar Gropius e manteve com ele uma longa conversa. Logo após, reuniu-se com Alma e colocou-a a par dos acontecimentos. Ele sempre manteve a calma, apesar de internamente estar sofrendo com a iminência de perder sua bela e jovem esposa. No final do encontro dirigiu para ela estas palavras: O que você resolver fazer, faça-o da maneira mais correta possível. Você decide. Alma rompeu com Gropius e ficou com Mahler. Este procurou dar um novo rumo ao seu comportamento tirânico. Antes ele tomava as decisões. A partir desse evento ele passou a consultar e decidir em conjunto com a esposa. Começou a interessar-se pelas composições de Alma, as quais ele havia totalmente ignorado no início de sua vida matrimonial.

Sigmund Freud

Mesmo assim, Mahler entrou em profunda depressão ante a perspectiva de ser abandonado por sua mulher a quem ele voltara a amar com toda a intensidade. Foi nesta ocasião que ele decidiu procurar Sigmund Freud, na ocasião em férias na Holanda. Existem três diferentes versões a respeito deste memorável encontro entre estes dois gênios. A primeira se encontra nos apontamentos de Ernest Jones, biógrafo de Freud. A segunda está numa carta que Freud escreveu ao psicanalista Theodor Reik. A terceira é um resumo do encontro, escrito por Marie Bonaparte, aluna do Professor Freud. Como o texto de Jones é quase semelhante ao conteúdo da carta recebida por Reik e os apontamentos da estudante giram mais em torno da música e não tem muita consistência, deixaremos para os leitores o texto da carta de Freud:
Eu analisei Mahler durante uma tarde no ano de 1910, em Leyden. Baseado em seu relato, creio termos chegado a muitas conclusões naquele momento. A visita pareceu-me necessária, pois sua mulher, naquela época, estava revoltada. Seu esposo não tinha mais libido por ela. Numa interessante exploração pela história de sua vida nós descobrimos suas condições pessoais para o amor, especialmente seu complexo de Santa Maria (fixação materna).
Eu tive muitas oportunidades de admirar a capacidade de compreensão psicológica deste compositor tão genial. A princípio, nenhum raio de luz conseguiu iluminar a fachada que ocultava sua neurose obsessiva. Seria como tentar cavar com uma vara, uma passagem através dos alicerces de um misterioso edifício.
Depois de horas de conversação, Freud obteve êxito em acalmar Mahler. Este se preocupava com a grande diferença de idade entre os dois, mas sob o ponto de vista do analista, esta característica o fazia muito atrativo para uma jovem, bela e culta mulher.


Alma amava o pai, logo só poderia ligar-se a um homem que oferecesse a ela a figura do pai substituto. Por sua vez, Mahler estava procurando uma mulher com a imagem de sua amargurada e sofrida mãe. O encontro de Freud com Mahler trouxe alívio ao compositor e permitiu que ele levasse uma vida próxima do normal. As mudanças de Gustav em relação à Alma foram radicais. Constantemente ele demonstrava a ela provas de seu amor.
Uma das anotações em seu diário: Estou experimentando momentos de alegria que jamais considerei possíveis. Apesar de tudo que aconteceu, Gustav me proporciona um amor sem fronteiras. Eu sou a vida para ele, e me transformarei em sua morte, se partir.
Alma Mahler permaneceu fiel companheira do esposo, até morte do mesmo. Decorrido o período convencional de luto, ela casou-se com Walter Gropius».

In Wikipédia, Mahler e Freud, Adágio, 2012



JDACT

Alma Mahler-Werfel. Gustav Mahler. 1ª Parte. «… era uma dotada pianista. Estudou composição com Alexander Zemlinsky em 1897. Por vezes é descrita como muito ambiciosa e sedenta de poder. A sua música ainda se interpreta na actualidade…»

Viena
(1879-1964) 
Cortesia de wikipedia

«Alma Mahler-Werfel, nascida com o apelido de Schindler, foi uma famosa femme fatale e musa de muitos génios da sua época, mulher do compositor Gustav Mahler, casada depois com o arquitecto Walter Gropius e com o poeta Franz Werfel. Também teve fervorosos casos de amor com os pintores Kokoschka e Klimt, e vários outros, juntando alguns dos espíritos mais criativos do século XX.

Alma cresceu num meio privilegiado, e Klimt costumava frequentar a casa dos pais de Alma, conseguindo assim roubar-lhe o primeiro beijo. O compositor Zemlinsky foi seu tutor de composição musical e o seu primeiro amante. Alma deu um passo decisivo e que causou sensação no dia em que casou com Mahler. Este dirigia na altura a Ópera Real de Viena. Contudo, o preço que Alma teve que pagar por esta relação foi alto: teve de desistir das suas próprias aspirações artísticas e de prescindir do seu sonho de vir a ser compositora.
Em 1910 Alma encontrou consolo nos braços do jovem arquitecto alemão, Gropius, que veio a ter um grande impacto na história da arquitectura moderna com o movimento Bauhaus. Os dois estavam totalmente absorvidos pelas desenfreadas noites de amor que passavam juntos. O resultado disso foi um encontro entre Mahler e Sigmund Freud, pois Mahler quis consultar Freud depois de ter tomado conhecimento da relação entre Alma e Walter Gropius. Gustav Mahler morreu pouco tempo depois em 1911.
Em 1912 Alma começou um relacionamento apaixonante com o enfant terrible da arte vienense Oskar Kokoschka. Oskar mandou fazer uma deslumbrante boneca em tamanho real, que reproduzia fielmente a sua amada até aos mais íntimos detalhes. Esta possibilitou que Kokoschka se encontrasse depois da perda do seu grande amor.
Alma casou-se mais uma vez, desta com Walter Gropius. Mesmo assim esta relação não tinha futuro. Logo depois de Alma dar à luz uma linda filha, Manon, que morreu ainda bebé, o casamento acabou em agonia e alienação. Com cinquenta anos Alma casou-se pela terceira vez com um poeta judeu, Franz Werfel, autor de romances como A Cantiga de Bernardette e Os 40 Dias da Musa Dagh. Quando a Áustria caiu nas mãos do exército alemão, os Werfels deixaram Viena (1938). Em Lisboa, Alma Mahler passou os meses mais desafiadores da sua vida. Queriam deixar a Europa e partir para os  Estados Unidos, por isso embarcaram no barco Nea Hellas.
Em 1952 Alma Mahler-Werfel retirou-se para Nova Iorque, onde passou os últimos anos da sua vida. Foi aí que expôs todos os seus troféus, que recebeu pela sua vida fora: pinturas de Kokoschka, composições de Mahler, manuscritos de Werfel e ardentes cartas de amor de Gropius.

O túmulo. Cemitério Gringinger, Viena


A música de Alma
A fama de Alma Mahler deve-se em primeiro lugar aos seus casamentos e casos amorosos com os maiores artistas da sua época, o mais notável deles Gustav Mahler, de quem conservou o apelido. Como compositora, escreveu muito pouco para poder ser considerada mais que uma figura menor. Ainda jovem, Alma era una dotada pianista; estudou composição com Alexander Zemlinsky em 1897. Por vezes é descrita como muito ambiciosa e sedenta de poder. A sua música ainda se interpreta na actualidade.

Alma, uma peça do escritor israelita Joshua Sobol com Simone de Oliveira, é a história de Alma Mahler-Werfel, 2003, no Convento dos Inglesinhos no Bairro Alto, em Lisboa. A originalidade da peça é que não é representada no palco de um teatro mas sim num edifício completo, totalmente equipado com mobiliário e adereços que são semelhantes ao local da cena de um filme. Vários episódios da vida de Alma são representados em simultâneo, em todas as salas e pisos do edifício. Cada um tem de escolher os acontecimentos, o caminho e a pessoa que deseja conhecer, construindo a própria versão de um polidrama. Convida-se os visitantes a abandonar a posição imóvel do espectador num drama convencional, e a substituí-la pelo papel activo de um viajante. Serão espectadores de uma viagem encenada.
Quando Gustav Mahler morre a meio da peça, o banquete do seu funeral pode ser interactivamente seguido pela música e os espectadores são em seguida convidados para um jantar-buffet, durante o intervalo. A produção alemã da peça para a Semana do Festival de Viena esteve em cena em Viena durante seis semanas e foi um sucesso tão estrondoso que a ideia surgiu de a levar a outra cidade e, no Verão passado, a produção foi para Veneza, onde Alma passou vinte anos da sua vida. O sucesso internacional de Alma a Venezia encorajou-nos a trazê-la a Lisboa, o lugar onde Alma teve uma curta estada em 1940, juntamente com o seu terceiro marido, o escritor judeu Franz Werfel, quando a França se rendeu ao exército alemão.
Os Werfel fugiram de Viena em 1938 para França, quando a Áustria caiu sob o exército alemão. Em 1940, os Werfel, escaparam a pé pelos acidentados Pirenéus até Espanha, saindo finalmente da Europa em direção aos Estados Unidos, a bordo do Nea Hellas, o último navio de carreira que saiu de Lisboa. Lisboa significou a salvação para eles. Não houve país que tenha ajudado mais refugiados do que Portugal naqueles dias dramáticos Na sua autobiografia Alma escreveu: Nunca esquecerei aqueles dias de paz paradisíaca num país paradisíaco, depois do tormento dos meses anteriores!
Uma parte importante desta história foi atribuída ao cônsul-geral  Aristides de Sousa Mendes, encarregado do Consulado Português em Bordéus em 1940, que passou vistos de trânsito para entrada em Portugal a um número surpreendente de cerca de 30000 refugiados, e abriu uma rota de fuga a refugiados para quem mais nada existia». In Wikipédia.



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