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sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «… mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) Das praias do Algarve, onde passou amiúde a residir, o Navegador perscrutava as notícias da Berberia, o comportamento dos defensores de Ceuta e a eficiência dos meios afectos à ponte naval entre Lisboa, o Algarve e Ceuta. No cerco de 1418, ele próprio e o infante João embarcaram em auxílio dos sitiados. Um dos barcos ocupados no serviço de Ceuta, no regresso ao Reino, chegou à ilha do Porto Santo. A dimensão atlântica somava-se então à empresa marroquina. Os recursos afectos à manutenção de Ceuta eram muito elevados. Entre eles figuravam parte dos consignados às Ordens Militares e aos bispados do Reino. Em 1419, a pedido de João I, o papa Martinho V decidiu que todos os arcebispos, bispos, demais prelados e pessoas eclesiásticas, seculares e regulares, contribuíssem com 9000 florins anuais, durante três anos, para ajuda à nova cidade cristã. A dificuldade em manter uma colónia europeia em África começou a recortar-se com nitidez: pagamento da guarnição, abastecimento em armas e víveres, manutenção da armada no Estreito, dificuldade no recrutamento de fronteiros e moradores, estabelecimento de uma administração permanente em Ceuta e no Reino, enfim, todo o lançamento da estrutura necessária aos territórios de além-mar. João I procurou suscitar o apoio de outros monarcas cristãos para a guerra contra os Mouros e, para isso, escreveu a Afonso V, rei de Aragão e da Sicília; a resposta, dada em 1420, adiava o auxílio para ocasião favorável. O abastecimento de cereais a Ceuta foi, frequentemente, dado a contratadores portugueses e estrangeiros que iam buscar o trigo a Castela, Sicília e outros lugares. Foi o caso do contrato, feito em 1423, com Luís Eanes, outros portugueses e dois genoveses, Bartholomeu Lomellim e Bartholomeu Baraboto, de 2000 moios de trigo para Ceuta. Surgiu então em Portugal um debate complexo a que podemos chamar a questão de Ceuta, que seria alargado mais tarde à escolha dos diferentes rumos que a expansão poderia assumir. Os dirigentes portugueses preocupavam-se com as despesas permanentes que a manutenção de Ceuta exigia, procuravam soluções expeditas e menos onerosas e questionavam-se sobre o futuro da colónia. Assistiu-se à internacionalização do problema, em que foram parte interessada os países ibéricos, o Papado e os meios financeiros europeus, atentos aos projectos carenciados de avultados recursos. De tudo isto nos dá conta a famosa carta que o infante Pedro escreveu de Bruges, em 1426, a seu irmão Duarte: Do que sentya dos feitos de Cepta per algua vez, senhor, vo-lo razoey; mas a conclusão é que, emquanto asy estiver ordenada como agora está, que é muy bom sumydoiro de gente de vossa terra e d'armas e de dinheiro. E, segundo eu senty d'alguns bons homens de Inglaterra de autoridade e daquy, deixam já de falar na honrra e boa fama que é em a asy terem, e falam na grande indiscrição que é em a manterem com tam grande perda e destruyçom da terra, do que a mym parece que eles hão muyto peor informação do que ainda é. O remedio desto, senhor, per muytas vezes o falastes e o sabeis melhor do que vos eu poderia escrever; parece-me, senhor, que farieis serviço de Deus e voso ordena-lo sem delonga. A solução proposta pelo infante  Pedro não está expressa na carta, mas já fora discutida com o herdeiro da coroa. O infante das Sete partidas beneficiava das viagens pela Europa para colher ensinamentos sobre a forma como ali se considerava a conquista de Ceuta; mostra-se um crítico da situação, mas não podemos julgar, em termos definitivos, se era contra a guerra de África e pelo abandono de Ceuta se, pelo contrário, propunha a conquista de novos e mais extensos territórios. Podemos mesmo supor que se trataria de alguma crítica ao modo como o infante Henrique tinha ordenada a cidade». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos, 

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon»

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Interesse pelo Norte de África

«(…) O novo florão nobilitário, situado em solo africano, fazia tornar menos pobre a comparação com o título dos émulos castelhanos dos reis portugueses... Depois da conquista, João I reuniu o Conselho para decidir se deveria manter a posse de Ceuta. A questão figura na Crónica da Tomada de Ceuta, escrita por Gomes Eanes Zurara cerca de 1450, e parece ter sido uma mera formalidade. Como seria possível o abandono de Ceuta depois do enorme esforço militar e financeiro a que o Reino se submetera? A justificação da pergunta parece ser outra. A empresa era muito arriscada; concebida com muita fé e persistência durante vários anos, não deixava de ser um acto de grande temeridade embarcar o rei, os três filhos mais velhos e a grande nobreza do Reino ao mesmo tempo. A situação de insegurança em que Portugal se encontraria em caso de derrota ou de tempestade em que a frota soçobrasse, a incerteza sobre o desenlace da viagem e da batalha e a necessidade de segredo, são razões que explicam a ausência de planeamento para depois da vitória e a questão levantada por João I no Conselho. A resposta, defendida pelo Rei, era óbvia: manter Ceuta portuguesa.

A escolha do capitão suscitou algumas dificuldades porque os principais nobres não estavam dispostos a permanecer em local tão perigoso depois da retirada da frota. O oferecimento que de si próprio fez Pedro Meneses e a subsequente valorização da sua casa oferecem um exemplo da nova situação social portuguesa: a ascensão na escala hierárquica da nobreza através dos serviços prestados no exército e no funcionalismo ultramarino. O monarca João I permaneceu em Ceuta durante alguns dias para prover a cidade de meios de defesa adequados aos ataques que os Mouros não deixariam de fazer. Distribuiu benesses pelos companheiros mais arrojados, como a confirmação do couto de Leomil e a doação de Numão ao marechal Gonçalo Vasques Coutinho. Ao regressar ao Reino, desembarcou em Tavira, cidade onde fez os dois filhos, Pedro e Henrique, respectivamente duques de Coimbra e de Viseu. Ceuta iniciou então a vida que viria a ser habitual nas cidades portuguesas do Norte de África, sujeitas a incursões mouras feitas de surpresa ou a assédios mais ou menos prolongados. Tratava-se de uma ocupação restrita à cidade murada, sendo os arredores aproveitados para recolher lenha, fazer pastar o gado ou entrar em território inimigo. Apesar das dificuldades, o campo vizinho da fortaleza era cultivado, embora as colheitas fossem incertas, porque podiam ser roubadas ou destruídas pelos Mouros. Alguns locais, em particular junto da costa, foram doados pelo rei a particulares, como Bolhões e o Castelo de Larotona. A dinastia merínida, então no poder em Marrocos, atravessava um período de acentuado declínio, pelo que a reacção ao ataque português demorou alguns anos; neste período consolidaram-se as defesas da cidade e a guarnição portuguesa habituou-se à guerra em África, com entradas profundas em Marrocos, e à actividade de corso a partir do porto de Ceuta. A ocupação da cidade magrebina granjeou fama internacional ao monarca português; findavam também os cuidados que a preparação da frota e o segredo sobre o seu objectivo ocasionaram nos países que se consideravam alvos potenciais. Nos meios eclesiásticos saudava-se o facto de poder ser ocupada, efectivamente, uma sé na Berberia. O Dr. Gil Martins, em 1416, no final do discurso que proferiu no Concílio de Constança, sublinhava a importância de Ceuta para a conquista futura da África: portus et clavis est totius Africae [...]. No início de 1416, o Rei confiou ao infante Henrique todallas cousas que conprem pera a dicta nossa cidade de Ceuta e pera sua defensoon. Depois da intervenção que tivera na preparação da frota e no ataque a Ceuta, eis o Infante investido na direcção da empresa ultramarina, então confinada àquela cidade de Marrocos. O trabalho maior a desenvolver era o da mobilização dos recursos necessários à guarnição da praça e o seu transporte». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 O Interesse pelo Norte de África

«(…) A primeira conquista no além-mar obrigou à preparação de uma frota capaz de transportar numeroso exército equipado com armas e abastecimentos. Foi necessário mandar construir, comprar e alugar muitos navios. As notícias da época registam galés, galeões, naus, barcas, fustas, cocas e barinéis, entre outros, cuja variedade revela a inexperiência neste género de combate, a insuficiência dos recursos e a dispersão dos seus locais de origem. Sabemos que alguns vieram do estrangeiro, pelo menos da Galiza, Biscaia, Bretanha, Inglaterra e Flandres. Parte do exército era constituído pelos portugueses que participaram nas guerras com Castela; esse treino militar deveria ser sensível, sobretudo, ao nível dos comandos, como o demonstra a presença do próprio rei João I, do condestável Nuno Álvares Pereira e homens encanecidos cuja memória perdurou no parecer de João Gomes Silva, alferes do Reino: Ruços, além! É conhecida a presença de estrangeiros na expedição, entre os quais ingleses, alemães, polacos e franceses, que, tal como o exército português, ignoraram, até à passagem por Lagos, qual o destino final da empresa a que prestavam colaboração. A frota foi reunida em duas cidades, Lisboa e Porto, que desta forma assumiam simultaneamente o papel de centros mais importantes do País. A expansão obrigava os Portugueses a acantonarem-se próximo do mar, gerava os seus pólos mais dinâmicos e iniciava o virar de costas a Castela, que perdurou até aos nossos dias. O infante Pedro, filho segundo, ocupou-se dos preparativos em Lisboa e o infante Henrique, filho terceiro, no Porto; o Rei e o herdeiro do trono assumiram a direcção da empresa.

Depois de reunida a frota em Lisboa, um infausto acontecimento poderia ter alterado o plano da expedição: em 18 de Julho faleceu de peste a rainha Filipa de Lencastre, que, antes de morrer, abençoara a expedição. A vontade política era tão determinada que apenas cinco dias mais tarde foi dada ordem de partida; no dia 25 de Julho os navios deixaram a barra do Tejo. Em 27 de Julho, em Lagos, pela voz do capelão real frei João de Xira, foi anunciado o destino da frota: Ceuta. A cidade africana foi presa fácil dos Portugueses, bem preparados para a sua conquista. O Rei e o infante Pedro foram cruzar o mar em frente da cidade, em manobra de diversão; o infante Henrique comandou as forças que desembarcaram no lado do morro de Almina e entrou na cidade. Era o dia 21 de Agosto de 1415, verdadeiro acto do nascimento da expansão portuguesa. Os vencedores, senhores da cidade, saquearam as casas, quintais e terrenos, à procura de riquezas; parece que a colheita foi rendosa porque o assédio não fora esperado pelos Mouros e estes pouco tempo tiveram para fugir. A mesquita foi limpa e consagrada a Nossa Senhora da Assunção. No minarete colocaram-se dois sinos encontrados na cidade e outrora roubados em Lagos pelos corsários. Seguiu-se a cerimónia de armar cavaleiros os infantes e muitos outros nobres: feliz ocasião de honrar a nova geração do poder e os altos infantes que asseguravam o futuro da dinastia iniciada por João I, a cujo título de rei de Portugal e do Algarve era agora acrescentado o do senhor de Ceuta». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

 JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos,

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

O Interesse pelo Norte de África

«(…) A conquista das cidades e as incursões nos campos e aldeias eram aproveitadas para recolher o produto do saque de tudo o que tinha valor: alfaias, gado, cereais. Cada um dos contendores procurava fazer cativos, a fim de obter o dinheiro dos resgates. As praças serviam de base a uma importante actividade de corso feita ao serviço do rei ou dos nobres. Barcos pesqueiros ocupavam-se na exploração dos ricos bancos da orla marítima marroquina. Os períodos de paz eram aproveitados para as trocas comerciais com os diferentes produtos do país, os importados do Sudão, como o ouro e os escravos, ou as especiarias do Oriente. A indústria de tecidos, em particular os destinados ao vestuário e utilizados também para a cobertura durante a noite, assumiu uma importância decisiva depois da instalação dos portugueses em Arguim (cerca de 1448) e na Mina (depois de 1481) porque os Negros estavam habituados a utilizá-los. Ficaram célebres os lambéis como referiu Duarte Pacheco Pereira no Esmeraldo: uma roupa feita como mantas do Alentejo, que tem uma banda vermelha e outra verde e outra azul e utra branca, as quais bandas são de largura de dois e três dedos (...) E esta é a principal mercadoria por que se em Axem resgata o dito ouro, além de outras de menos valia que também praticamos. A obtenção de cereais em Marrocos foi muito aleatória porque estava dependente das colheitas, que nem sempre eram abundantes, e da situação de guerra ou de paz com as diferentes praças. Em 1414, um ano antes da conquista de Ceuta, os Portugueses venderam trigo no reino de Fez. Durante a maior parte do século XV assistimos ao abastecimento das praças lusitanas a partir da Europa. A paz de 1471, o protectorado na região de Azamor, Safim e Meça e o período dos mouros de pazes trouxeram tributos em cereais e outros produtos, além do incremento das compras e do comércio em geral. A reacção xarifina comprometeu quase definitivamente essa época promissora. Os diferentes estratos sociais tinham vantagens económicas com a colonização das praças da África do Norte. A exploração das terras era fonte de rendimentos. Afonso V procedeu a generosas doações no território que lhe pertencia nos termos da paz de Os cargos militares e civis eram asperamente disputados. Os reis favoreciam com moradias, comendas e outras benesses os que se dispunham a servir em África. Os burgueses interessavam-se pelos contratos de abastecimento das diferentes praças, associando-se, se necessário, a comerciantes estrangeiros. Devemos insistir neste aspecto: o interesse pela África do Norte não se restringia à Coroa, aos grandes nobres ou à alta burguesia. Grande número de particulares, pequenos comerciantes, pescadores e artesãos mantinham relações privilegiadas com Marrocos. Eram homens comprometidos com o abastecimento em víveres, armas, materiais de construção e outros produtos necessários à vida naquelas fronteiras e ao provimento das armadas que ali se dirigiam. Os pescadores algarvios habituaram-se a frequentar os ricos mares das costas marroquinas. O contrabando de todo o género de mercadorias, incluindo as proibidas, como as armas florescia nos portos portugueses, em especial do Algarve. Procuravam obter produtos diversos, como as especiarias, que, embora em quantidades diminutas, afluíam aos mercados norte-africanos. Este comércio fomentava o gosto pelos produtos exóticos que se desenvolvia em Portugal e em toda a Europa». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

 Cortesia de Instituto Camões/JDACT

JDACT, D. João I, Ceuta, António Dias Farinha, Marrocos

quarta-feira, 8 de abril de 2020

D. João I. Um retrato épico. Luís Miguel M Ventura. «Como consequência do progresso científico e técnico, desenvolve-se em determinados grupos sociais uma confiança optimista nas possibilidades do Homem, visto não já como uma criatura degradada pelo pecado original…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender,

Teu nome, eleito em sua fama
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna».
Fernando Pessoa, in Mensagem

Considerações iniciais
«(…) Procedendo a uma análise crítica do poema em causa, centrada em critérios claros e objectivos, pretendemos fundamentalmente com esta investigação dar a conhecer uma obra literária até este momento praticamente ignorada e que, do que nos foi possível apurar, é o único poema épico conhecido que se debruça inteiramente sobre a crise de 1383-1385 e sobre a figura de D. João I.

O Século XVIII: um olhar sobre a História e a Literatura de Setecentos
Num mundo em que a preocupação dos países residia sobretudo no controlo dos mercados, no tráfego internacional e na segurança das rotas comerciais, os estados setecentistas, mais do que proteger as suas próprias fronteiras continentais, procuraram fundamentalmente defender as suas possessões ultramarinas, incentivar as trocas comerciais e controlar com rigor as rotas marítimas. Tal situação fez com que as relações políticas entre os estados europeus se pautassem durante o século XVIII por uma certa tensão e instabilidade, de que foi exemplo a Guerra dos Sete Anos (entre 1756 e 1763), que opôs a França à Grã-Bretanha. No plano técnico/científico, o século XVIII fica marcado, entre outros acontecimentos, pelos progressos técnicos que culminaram na primeira Revolução Industrial. Sobretudo a partir de 1750, a Revolução Agrícola na Grã-Bretanha levou à implementação gradual de inovações nos processos de fabrico e de produção, sendo a partir de 1769, com a invenção da máquina de fiar e com a patente, por James Watt, do motor a vapor, que o mundo económico sofreu provavelmente a sua maior alteração: com a mecanização da indústria, passava-se de uma produção artesanal, feita manualmente, com um reduzido volume de produção e um tipo de fabrico mais individualizado para uma produção fabril marcada pelo fabrico em série e com um volume de produção mais elevado. O Homem compreendia então que pela investigação e pela materialização das suas ideias era possível melhorar as sociedades, modernizá-las, dotando-as dos mecanismos e dos instrumentos necessários para que as mesmas evoluíssem.
Mas todas estas transformações foram igualmente o resultado de relevantes alterações ideológicas que então se começavam a materializar, nomeadamente no seio das duas superpotências setecentistas: a Grã-Bretanha e a França. No plano ideológico, o século XVIII ficou fundamentalmente marcado pelo conflito entre a fé e a razão. Com a expansão da Inquisição (maldita) a partir do século XVI em diversos estados europeus, deixou de existir um pouco por toda a Europa um ambiente favorável e estimulante ao desenvolvimento intelectual e à eclosão de novas ideias. O Clero, fundamentalmente por motivos de ordem religiosa, criara uma rede de censura, procurando reprimir todas as tendências que pusessem em causa a pureza da fé e os bons costumes.
Com o decorrer dos séculos, e sobretudo no século XVIII, as ideias lançadas por ilustres pensadores como Locke, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, entre muitos outros, contribuíram para a reivindicação de novos valores, opostos aos que haviam sido defendidos pelas concepções religiosas. Fruto das contribuições destes e de muitos outros pensadores, o século XVIII fica assim indelevelmente marcado pela propagação em todas as sociedades europeias de uma certa fé optimista da capacidade do Homem para o progresso: as doutrinas racionalistas ganhavam preponderância, defendendo que o Universo era regido por leis físicas rigorosas e as descobertas científicas que dia-a-dia se concretizavam levavam os homens de então a crer que muitos dos males de que o ser humano padecia, mais do que castigos divinos, eram certamente fruto dos erros ou falhas dos próprios homens. Crescia assim a crença numa nova Idade, a Idade da Razão, um tempo em que o Homem, ganhando uma maior confiança em si e nas suas capacidades, se encontrava mais determinado em descobrir as causas e os efeitos do que se passava à sua volta. Como nos dizem Óscar Lopes e António José Saraiva:

Como consequência do progresso científico e técnico, desenvolve-se em determinados grupos sociais uma confiança optimista nas possibilidades do Homem, visto não já como uma criatura degradada pelo pecado original, mas como senhor da Natureza e suas leis, que ele abrangia pelo conhecimento e podia modificar pela técnica. Viu-se a possibilidade de aumentar a riqueza, de diminuir o esforço humano, de tornar a vida mais confortável e até de transformar a sociedade, abolindo os hábitos irracionais, as desigualdades cuja legitimidade a razão não reconhecia. Acreditou-se que a divulgação da ciência, isto é, das luzes, bastaria para dissipar a escuridão das superstições, consideradas como a principal causa dos sofrimentos do Homem. É a esta confiança no poder da ciência para modificar a condição humana que se chama iluminismo. (Lopes e Saraiva, 2000).

In Luís Miguel M Ventura, D João I, Um retrato épico, Tese de Mestrado em Estudos Portugueses Interdisciplinares, Universidade Aberta, 2009.

Cortesia de UAberta/JDACT

terça-feira, 7 de abril de 2020

D João I. Um retrato épico. Luís Miguel M Ventura. «Clarificar o conceito de poema épico, evidenciando a sua preponderância ao longo dos tempos, em particular em Portugal…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender,

Teu nome, eleito em sua fama
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna».
Fernando Pessoa, in Mensagem

Considerações iniciais
«João I, décimo rei de Portugal e o primeiro da segunda dinastia, foi uma figura de relevo na História de Portugal. A sua vida, mas sobretudo a época conturbada em que viveu foram, ao longo dos séculos, alvo de diversos estudos e investigações que procuraram, tendo em conta os seus propósitos, clarificar o papel que o monarca desempenhou nesse período da nossa História. A Crónica de D. João I, escrita pelo cronista Fernão Lopes no século XV poucas décadas após a morte do Rei, desde cedo se tornou o texto de referência sobre essa época e os seus intervenientes, apresentando um relato organizado e consistente dos acontecimentos históricos em torno da figura histórica de João I (antes e depois de se ter tornado rei). Precisamente por se ter tornado uma obra de referência, os estudos posteriores que se debruçaram sobre a figura de João I (ou, mais genericamente, que tiveram como preocupação desenvolver temáticas como a crise política de 1383-1385 ou a Batalha de Aljubarrota, entre outras) acabaram inevitavelmente por partir sempre do ponto de vista histórico presente nas crónicas lopesianas, não conferindo a merecida atenção a textos de outra índole que igualmente se centram na figura do monarca.
Deste modo, julgamos ser pertinente no momento actual debruçarmo-nos sobre o modo como a figura de João I acaba por ser retratada, não somente nos registos historiográficos desde FL, mas fundamentalmente num género literário muito específico, o poema épico, e particularmente numa epopeia até agora praticamente
desconhecida: a Joanneida ou a liberdade de Portugal defendida pelo senhor rey D.
João I da autoria de José Correia Melo e Brito Alvim Pinto, publicada em 1782. Assim, com esta investigação, pretendemos, em concreto:

Clarificar o conceito de poema épico, evidenciando a sua preponderância ao longo dos tempos, em particular em Portugal;
Compreender as razões que levaram um autor da 2ª metade do século XVIII a elaborar um poema épico, escolhendo como assuntos do mesmo a figura de João I;
a crise de 1383-1385 e o tópico da Liberdade, procurando compreender igualmente a pertinência destes assuntos na contemporaneidade do autor; no fundo, compreender quais foram as motivações que estiveram na base da escrita da Joanneida;
Compreender de que forma é que este texto épico se apropriou (ou não) dos relatos cronísticos que se centram na figura de João I, nomeadamente as crónicas de FL como fonte histórica predominante, de forma a evidenciar o contributo das mesmas para a escrita do Poema;
Compreender o modo como o autor se apropriou de inúmeros registos historiográficos posteriores a FL e a forma como incorporou no seu Poema elementos presentes nessas obras;
Verificar a existência no Poema de elementos que o autor criou per si e questionar a razão da sua criação e inserção no Poema;
Analisar objectivamente a estrutura do texto em causa, comparando-o com a de outros poemas épicos e assinalando os aspectos em que a Joanneida se aproxima ou se afasta do género épico;
Analisar o tratamento que o texto épico faz da figura de João I (que aspectos da figura do monarca são aproveitados em detrimento de outros e que justificações existem para esse emprego) e constatar em que é que isso se aproxima ou se afasta dos relatos historiográficos;
Demonstrar o contributo deste texto para a construção de um retrato mítico da figura de João I, nomeadamente enquanto rei (re)fundador». In Luís Miguel M Ventura, D João I, Um retrato épico, Tese de Mestrado em Estudos Portugueses Interdisciplinares, Universidade Aberta, 2009.

Cortesia de UAberta/JDACT

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A política matrimonial de D. João I. Um instrumento de afirmação dinástica. Portugal, 1387-1430. Douglas Xavier M. Lima. «Os primeiros casórios ocorreram num período de busca de afirmação e legitimação dinástica, para a qual a aliança do rei com os Lancaster (1387)…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ascensão dinástica e alianças matrimoniais
Os casamentos da Ínclita Geração
«(…) Dentre os membros da Ínclita Geração, o primeiro a se casar foi o penúltimo filho, o infante João, em Novembro de 1424 (Sousa, 1949). Matrimónio endogâmico, uniu o infante, que desde finais de 1418 estava à frente da Ordem Militar de Santiago, à sua sobrinha, única filha do conde de Barcelos, dona Isabel. João recebeu de Nuno Álvares o castelo de Loulé e, após a morte deste, o cargo de Condestável, e do rei a vila de Serpa com seus direitos e rendas; Isabel recebeu do irmão, conde de Ourém, o reguengo e o lugar de Colares com todas as rendas, foros, direitos e jurisdições (Sousa, 1949). De acordo com Mafalda Cunha, o casamento alienou bens importantes do conde de Barcelos e de Nuno Álvares, permitindo tanto o fortalecimento régio quanto a ascensão hierárquica do pai da noiva (Cunha, 1990).
Tal matrimónio, somado ao do infanteAfonso com a filha do Condestável, representa uma tendência secundária das uniões estabelecidas pelos filhos de João I, visto que de seis filhos que casaram, quatro homens e duas mulheres quatro casaram fora de Portugal. A partir da escassez de fontes acerca das negociações matrimoniais de dom Afonso, dona Beatriz e do infante João, pode-se entrever que estas transacções não conheceram delongas, sendo o casamento da infanta com o conde de Arundel o que mais se protelou. A constatação reitera-se na observação das negociações que envolveram os matrimónios de Duarte, Pedro e Isabel, pois este segundo conjunto de casamentos reafirma a tendência de que a procura de um marido ou de uma esposa por um filho de rei era um processo longo, complexo, ao curso do qual intervinham diferentes agentes e projectos matrimoniais concorrentes.
O estabelecimento de dois conjuntos de casamentos, sendo o primeiro representado por Afonso, Beatriz e João, e o segundo por Duarte, Pedro e Isabel, permite ainda que se delimitem distinções entre as consequências de cada um dos grupos de matrimónios para a dinastia de Avis. Acredita-se que ambos reforçaram os laços avisinos dentro e fora de Portugal, contudo também reflectem momentos diferentes do reinado de João I. Os primeiros casórios ocorreram num período de busca de afirmação e legitimação dinástica, para a qual a aliança do rei com os Lancaster (1387) já tinha contribuído, com os problemas internos apresentando-se como difíceis obstáculos; já o segundo conjunto de consórcios se deu num contexto de consolidação e ampliação das alianças externas existentes até aquele momento.
Portanto, acreditamos que os casamentos dos anos 20 são reflexos de uma nova etapa da diplomacia portuguesa. A posição interna de Avis já estava estabilizada, e a aliança inglesa estruturada e reafirmada com o consórcio de Beatriz. Acrescenta-se que a conquista de Ceuta (1415) tinha permitido a construção de uma imagem do reino e da dinastia reinante articulada aos valores cristãos e à defesa da Cristandade, elementos que favoreciam a honra da família real avisina no cenário das casas principescas. Por fim, os casamentos a serem analisados demonstram o esforço do rei de Portugal em consolidar-se no cenário político ibérico, mormente através da aliança com Aragão, e, ultrapassando este quadro diplomático tradicional, enrijecer os laços com o mar do Norte, por meio do enlace com o ducado da Borgonha.
Os casamentos dos outros três infantes portugueses foram concretizados num período muito curto, entre Setembro de 1428 (Duarte I e dona Leonor de Aragão) e Janeiro de 1430 (dona Isabel e Filipe o Bom), o que oculta o facto de que pelo menos desde 1409 se discutisse possíveis matrimónios para o príncipe herdeiro e para o infante Pedro. Assim, reforçamos que a construção de um casamento levava em consideração diversos elementos, entre eles: os contactos estabelecidos com as demais casas reais e poderes estrangeiros; o confronto com projectos matrimoniais concorrentes; a existência de impedimentos de consanguinidade ou de outros impedimentos canónicos, os quais só poderiam ser resolvidos com dispensas papais; e a beleza e o dote da noiva. Dados dinâmicos que eram profundamente influenciados por mudanças dinásticas, mortes e novas alianças diplomáticas». In Douglas Xavier M. Lima, A política matrimonial de D. João I, Um instrumento de afirmação dinástica, Portugal, 1387-1430, Roda da Fortuna, Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2014, Volume 3, Número 2, ISSN 2014-7430.

Cortesia de REsAeMedievo/Academia/JDACT

A política matrimonial de D. João I. Um instrumento de afirmação dinástica. Portugal, 1387-1430. Douglas Xavier M. Lima. «Antes de avançar com os consórcios matrimoniais dos filhos legítimos de João I e dona Filipa, cabe salientar que as negociações…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Ascensão dinástica e alianças matrimoniais
«(…) Ao mencionar a geração de uma prole legítima, recupera-se que o rei João I, ainda na posição de Mestre de Avis, fora pai por duas vezes, primeiro de Afonso (c. 1380), e depois de Beatriz (c. 1382), sendo essa descendência ilegítima usada como base para o alargamento da política matrimonial de Avis. Observa-se que os bastardos régios também foram utilizados em negociações matrimoniais, e nesses anos de afirmação dinástica, ainda sem contar com filhos da rainha dona Filipa em idade nubente, os filhos ilegítimos aparecem como instrumento para o fortalecimento interno, casamento de Afonso, e para a ampliação das relações externas, consórcio de Beatriz. Do processo da ascensão do Mestre de Avis, formou-se uma nova nobreza, que teve em Nuno Álvares Pereira, um expoente. Filho do Prior do Hospital, Nuno Álvares foi feito condestável do reino e recebeu os condados de Ourém, Barcelos, Arraiolos e Neiva, uma acumulação de património extraordinária em Portugal.
Toda essa base territorial fez do condestável um alvo das medidas de João I visando reaver, ou comprar, parte das terras da coroa cedidas à nobreza até ao momento. Tal facto gerou um grande descontentamento, que teve como consequência o exílio de nobres portugueses em Castela. Nuno Álvares, segundo Baquero Moreno, foi um dos principais opositores da medida régia, manifestando também o interesse de abandonar Portugal (Moreno, 1990; Lopes, 1983). Frente a tais problemas internos que movimentaram o reino em finais da década de 90 e, consequentemente, dificultavam a relação entre o rei e o seu condestável, em 1401 estabeleceu-se uma via de acordo: o casamento da única filha de Nuno Álvares, dona Beatriz, e, portanto, meio exclusivo de assegurar a reprodução da casa senhorial recém formada, com o filho bastardo de dom João (Sousa, 1949). Esta união polarizava interesses, tanto de Nuno Álvares quanto do rei. Pelo contrato estabelecido, Afonso recebeu a totalidade dos bens que o condestável detinha no Entre Douro e Minho e em Trás-os-Montes, Montalegre e terra de Barroso, Montenegro e Chaves, também com todas as rendas, direitos, foros, padroados e jurisdições e mero e misto império.
Passa-se, assim, para o casamento de dona Beatriz. A movimentação em prol do enlace da infanta com Thomas Fitzalan, conde de Arundel e aparentado da família real inglesa, iniciou-se, segundo Manuela Santos Silva e Peter Russell, por volta de 1405 sob a condução da rainha dona Filipa (Silva, 2007; Russell, 2000). As negociações se estenderam e, em 26 de Novembro do mesmo ano, dona Beatriz casou-se com o conde de Arundel.
Acrescenta-se que antes da investida de Portugal contra Ceuta, a qual foi articulada sem que a finalidade do ataque fosse sabida pelos demais reinos da Cristandade, tinha-se o temor de que o conde de Arundel viesse em auxílio de João com as suas tropas, o que demonstra que a aliança conseguida pelo casamento de Beatriz ainda repercutia no cenário ibérico quase uma década depois. Por fim, sabe-se que após a morte do conde (1415), a infanta portuguesa casou-se com John Holland, duque de Exeter, permanecendo no reino inglês até falecer em 1439 (Russell, 2000).
Antes de avançar com os consórcios matrimoniais dos filhos legítimos de João I e dona Filipa, cabe salientar que as negociações até então apresentadas mostram que as correspondências entre as casas reais eram constantes, sendo conhecida a influência da rainha de Portugal na preparação do casamento de dona Beatriz, e a manutenção do contacto desta infanta com a corte portuguesa (Silva, 2007). Desta forma, percebe-se a importância dos vínculos de parentesco para além do acto da celebração da união, pois se criava um circuito de informações, de deslocamento sócio-político e cultural, que aproximava as cortes ligadas a cada participante do enlace matrimonial.

Os casamentos da Ínclita Geração
Dito isso, retoma-se o desenvolvimento da política matrimonial desenvolvida pelo rei de Portugal observando que em 1405, com os dois filhos naturais bem casados, João I e dona Filipa somavam oito filhos legítimos, dos quais apenas dois tinham falecido, a pequenina Branca, que nascera em 1388 e morreu sem completar o primeiro ano de vida, e o infante Afonso, que nascera em 30 de Julho de 1390, falecendo com dez anos. Seis foram os filhos que ultrapassaram as altas taxas de mortalidade que afectavam os recém-nascidos na Baixa Idade Média, destes apenas uma mulher restou, a infanta dona Isabel, nascida em 1397. Desses infantes, apenas dois não casaram, o infante Henrique e o infante Fernando, mesmo tendo existido oportunidades nesse sentido». In Douglas Xavier M. Lima, A política matrimonial de D. João I, Um instrumento de afirmação dinástica, Portugal, 1387-1430, Roda da Fortuna, Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2014, Volume 3, Número 2, ISSN 2014-7430.

Cortesia de REsAeMedievo/Academia/JDACT

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A política matrimonial de D. João I. Um instrumento de afirmação dinástica. Portugal, 1387-1430. Douglas Xavier M. Lima. «… o processo de afirmação dinástica, compreendendo, em especial, como os casamentos analisados se envolveram no quadro diplomático da nova dinastia portuguesa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O presente artigo tem como objectivo analisar o papel da política matrimonial no processo de afirmação da dinastia de Avis. Fragilizada pela bastardia do novo rei, pela permanência da guerra contra Castela e pelas divisões internas, entre outros factores, a nova dinastia empreendeu um amplo movimento de legitimação, e para esse o matrimónio do próprio monarca e dos descendentes régios foi de suma importância. Observando as escolhas matrimoniais de João I busca-se notar o processo de afirmação dinástica, compreendendo, em especial, como os casamentos analisados se envolveram no quadro diplomático da nova dinastia portuguesa». In Resumo

«Nos últimos anos o quadro geral das nossas pesquisas tem sido o processo de legitimação e afirmação da dinastia de Avis entre finais do século XIV e o século XV. A partir dessa escolha de investigação a nossa atenção tem-se fixado no papel da diplomacia nesse processo, visando tanto compreender a importância das alianças externas e das relações diplomáticas para a o fortalecimento do poder régio português como analisar a diplomacia como expressão do processo de génese do Estado moderno em Portugal, notando a consolidação institucional e do pessoal em torno das missões diplomáticas, por exemplo. Essa via de pesquisa nos fez observar a centralidade das relações de parentesco em finais da Idade Média, seja estruturando as relações sócio-políticas em torno da realeza, seja através das redes de solidariedade dinásticas que articulavam a Cristandade numa grande família de príncipes.
Nesse quadro, as discussões que apresentaremos no presente artigo se inserem nos problemas mais amplos que analisamos na dissertação O Infante D. Pedro e as Alianças Externas de Portugal (1425-1449) defendida em 2012. Ao estudar a viagem do infante Pedro pudemos constatar que para além da troca de embaixadas e da assinatura de tratados e outros acordos, as relações diplomáticas do período se estruturavam em torno de relações pessoais, solidariedades dinásticas, relações parentesco carnais e artificiais que, inseridas em categorias cristãs, expressavam uma dinâmica política por vezes despercebida em leituras modernizantes. Para compreender a diplomacia quatrocentista e as relações diplomáticas do período mostrou-se fundamental considerar uma lógica do parentesco que orientava as práticas políticas e institucionais.
Dito isso, entre outras acções significativas que contribuíram no processo de afirmação e legitimação da dinastia de Avis, as quais têm sido pesquisadas no âmbito do Scriptorium, Laboratório de Estudos Medievais e Ibéricos e sintetizam-se na noção de Discurso do Paço proposta pela historiadora Vânia Fróes, escolhemos tratar do papel da política matrimonial joanina nesse contexto. Nossas considerações concentram-se na problematização dos casamentos do monarca, dos filhos bastardos e dos Ínclitos Infantes, seguindo uma perspectiva diacrónica a fim de observar a variação da política matrimonial ao longo do reinado de João I.

Ascensão dinástica e alianças matrimoniais
Eleito nas Cortes de Coimbra (1385), impulsionado pelo apoio citadino e enfrentando uma dura guerra contra Castela, João I buscou na Inglaterra o aliado que pudesse oferecer retornos militares, económicos e políticos. Após longos contactos, a assinatura do Tratado de Windsor (1386) expressa claramente tais objectivos, porém se a aliança inglesa era o caminho político-diplomático optado pela nova dinastia, a aliança de sangue era premente (Coelho, 2008). Nesse quadro, na sequência do tratado se desenvolveram os preparativos para o consórcio matrimonial entre João I e dona Filipa de Lancaster, filha de John Gaunt. Este rumava para Portugal a fim de iniciar uma investida contra Castela, reino que o nobre inglês pleiteava. O encontro entre o duque e João I se deu em Novembro de 1386, definindo-se nesse momento o referido matrimónio, assim como uma aliança entre ambos. Mesmo sem as bulas papais de dispensa do rei português dos votos feitos em virtude do mestrado de Avis, o casamento com dona Filipa foi concretizado em Fevereiro de 1387 (Lopes, 1983).
Através desta união João I teve a possibilidade de ilibar a  sua linhagem, marcada pela bastardia. Concebendo descendentes legítimos, nascidos da linhagem Lancaster, ramo da dinastia real inglesa Plantageneta, criava bases para a manutenção dinástica, possibilitada com herdeiros para assumir a coroa portuguesa. Reafirmava ainda os vínculos políticos e econômicos com o reino inglês, aliado tão importante no contexto de guerra peninsular e destino privilegiado do comércio externo lusitano. Não obstante, a constituição do enlace entre Avis e Lancaster ultrapassa as relações político-diplomáticas advindas do casamento, contribuindo também para a circulação de pessoas, ideias e informações. A partir de 1387, a Inglaterra passaria a ser um ponto de interlocução e apoio político, de busca de novos matrimónios e local de paragem de viagens da nobreza lusitana, mantendo-se como um polo do comércio externo. Logo após o casamento régio os descendentes legítimos começaram a nascer. A primeira chamou-se Branca e não ultrapassou o primeiro ano de vida, mas, em 1390, veio ao mundo o pequeno varão baptizado de Afonso. Eis o tão esperado rebento de dom João, o qual garantia a sucessão régia. Daí em diante nasceram mais seis filhos, os quais viriam a contribuir para a afirmação da nova dinastia». In Douglas Xavier M. Lima, A política matrimonial de D. João I, Um instrumento de afirmação dinástica, Portugal, 1387-1430, Roda da Fortuna, Revista Eletrónica sobre Antiguidade e Medievo, 2014, Volume 3, Número 2, ISSN 2014-7430.

Cortesia de REsAeMedievo/Academia/JDACT

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «… constatava-se cada vez mais que a mão do rei se escondia atrás das acções dos bandos de esfoladores (écorcheurs) comandados por Rodrigue Villandrando…»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) Estes acordos puseram fim à crise que ameaçava os Países Baixos flamengos depois das destruições e das pilhagens das tropas do duque de Gloucester, provocando a suspensão do comércio com a Inglaterra, de onde provinha a lã que alimentava a poderosa indústria dos panos nestas cidades. O comércio e a actividade dos portos de Bruges e de Antuérpia temiam pelo futuro. As manufacturas do pano, em que os artesãos flamengos haviam adquirido uma notável mestria, estendiam-se ao campo e abasteciam todas as regiões da Europa. Os portos em causa estabeleciam trocas comerciais muito apreciadas pelos congéneres do Norte, reagrupados nas Hansas, através do transporte de mercadorias para os portos nórdicos e até aos da Rússia.

A libertação de Carlos Orleães e as negociações com Carlos VII
Carlos Orleães, sobrinho de Carlos VI, prisioneiro dos ingleses depois de Azincourt (1415), dedicou-se à poesia durante o seu longo cativeiro. Dado o impasse dos acordos de paz, a duquesa negociou a sua libertação separadamente. Ao seu irmão Duarte I, rei de Portugal, tinha já solicitado que interviesse junto dos ingleses. Dona Isabel havia obtido do cardeal de Winchester a garantia de que seria ele a encarregar-se do caso. O cardeal havia experimentado algumas dificuldades em obter esta libertação. Os ingleses exigiam 80 000 escudos para libertar o refém e o dobro desta soma ao cabo dos seis meses seguintes. A duquesa apelou um pouco por todo o lado, aos nobres como aos burgueses, para reunir a importante soma, ajuntando a essas mais de um terço provenientes das suas próprias economias. No fim de Outubro, os 80 000 escudos foram remetidos aos interessados. O duque Orleães foi então conduzido a Calais acompanhado por muitos senhores e depois a Gravelines, onde foi recebido em 11 de Novembro de 1440 pela duquesa e pelos embaixadores de França. O duque juntar-se-lhes-ia mais tarde. Dona Isabel mostrou-se de uma particular amabilidade para com o recém-libertado e, depois de uma primeira entrevista, jantaram no interior da tenda do cardeal Beaufort. Antes de deixar a Inglaterra, onde passou 25 anos, o príncipe prometeu sob juramento trabalhar para restabelecer a paz entre as duas Coroas e deixou a sua marca nas negociações. Para festejar a libertação de Carlos e o seu casamento com Marie de Clèves, que pertencia à família do duque, foram organizados encontros jubilatórios com grande pompa duas semanas depois. Ao inaugurar as cerimónias, o duque de Borgonha ordenou a leitura do tratado de Arras, que o duque de Orleães jurou observar, de mão sobre o Evangelho, diante do arcebispo de Reims; o conde de Dunois, seu irmão, fez o mesmo juramento.
Filipe, o Bom, celebrou o regresso do primo com magnificência, dispensando grande cortesia aos senhores estrangeiros presentes. Lorde Cornwalis e outros senhores ingleses foram convidados a ficar para as festas. Belas justas disputaram-se diante das damas incumbidas da entrega dos prémios. Das cidades vizinhas chegaram grandes quantidades de provisões destinadas ao sustento de grupo tão extenso de convidados. A 30 de Novembro, o duque Filipe fez reunir em Saint-André o sexto capítulo do Tosão de Ouro e impôs ao duque de Orleães o colar de cavaleiro, bem como a João II, duque de Alençon, João V, duque da Bretanha, e Mathieu Foix, conde de Comminges. As festividades, aquando da entrada em Bruges de Carlos e da duquesa de Orleães, permitiram ao duque reconciliar-se com os notáveis de Bruges que tinham vindo convidá-lo a Saint-Omer. Filipe pensava que no futuro Carlos se apoderaria do reino e por isso lhe prodigalizou dinheiro e permitiu que os gentis-homens dos seus Estados o servissem. Mas o rei fazia uma apreciação diferente do facto de os duques terem estado na origem da libertação do duque de Orleães e de assim terem estreitado os seus laços com os borgonheses.
Na sequência do envolvimento de dona Isabel como mediadora, a duquesa voltou a encontrar-se em Laon com Charles VII, mas a pressa do rei na obtenção da paz não era a mesma. A paz na Flandres e a liberdade de comércio negociada com os ingleses, a estabilidade e o reforço do poder real, apareciam como uma ameaça para a Borgonha. No fundo, constatava-se cada vez mais que a mão do rei se escondia atrás das acções dos bandos de esfoladores (écorcheurs) comandados por Rodrigue Villandrando que, depois de 1437, foram autores de violências no Hainaut e na Picardia. Na Sabóia e em Estrasburgo, os Armanacs semeavam o terror atravessando o Reno por Frankfurt. Mas as comunas da Suíça evitaram que eles perturbassem o Concílio de Basileia onde o rei de França conseguiu fazer aprovar a Pragmática-sanção retirando aos papas o poder de colação de bispos e arcebispos, que ficavam sob eleição dos capítulos. Filipe, o Bom, opondo-se, apoiou o papa no conflito que o opunha aos padres reunidos em Basileia tendo mandado embaixadores ao Concílio de Florença». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «Os ingleses cobiçavam toda a França até, ao Loire, mais a Guyenne e o Poitou. E os franceses não queriam ceder mais do que a Normandia e a Guyenne. As duas forças enfrentaram-se em Meaux»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) Nesta primeira conferência de Gravelines não se chegou mais longe que a um compromisso de realizar outras em Calais sob mediação do duque Carlos Orleães. As Conferências tiveram lugar em Oye, no limite das terras borgonhesas e da Marche de Calais, e chegaram ao fim, em Julho, com o restabelecimento da paz entre a Inglaterra e a França e também com um acordo comercial com os flamengos. Dona Isabel foi o coração da organização e da negociação ao conseguir por frente a frente os embaixadores dos dois reis, salvaguardando os interesses da Borgonha e dos flamengos, que lhe ficaram gratos. O duque Filipe veio juntar-se-lhe em princípios de 1440 e instalaram a corte em Saint-Omer, de onde a duquesa se deslocava a Gravelines para participar nas negociações, acompanhada do chanceler Nicolas Rolin e de outros conselheiros, no papel de mediadora do rei de França, Carlos VII, enquanto o cardeal Henri Beaufort representava Henrique VI de Inglaterra. O duque não participou, mas dona Isabel consultava-o amiúde.
No intervalo das conferências efectuou-se o casamento de Carlos, conde de Charolais, com Catarina de França, que tinha então dez anos. O rei de França fê-la acompanhar de um ilustre séquito, conduzido pelos condes de Vendôme e de Tonnerre, pelos arcebispos de Reims e de Narbonne, que viajaram com outros embaixadores franceses agregados às negociações. Depois de uma recepção em Cambrai dada pelos condes de Nevers e de Étampes, o chanceler da Borgonha e substancial número de senhores, a condessa de Namur e outras grandes damas acolheram-nos e acompanharam-nos até Saint-Omer, onde se encontrava o duque. Mal o casamento foi celebrado, a 11 de Junho, as festividades tiveram imediatamente lugar, começando por uma justa em que o senhor de Créqui foi o paladino (Catarina viria a falecer em Bruxelas, em 1446, com a idade de 18 anos, sem deixar descendência).
Logo depois, a duquesa de Borgonha dirigiu-se a Gravelines com os seus conselheiros, o bispo de Cambrai e os senhores de Crèvecoeur e de Santes. O rei fez-se representar pelos senhores que haviam acompanhado Catarina. A delegação inglesa, dirigida pelo cardeal de Winchester, era completada pelo duque de Norfolk e o conde de Essex. Estavam presentes igualmente delegados do concílio de Basileia, que o rei apoiava, e do conde de Armagnac. As negociações desenrolaram-se em tendas, ricamente decoradas com tapeçarias, que a duquesa havia ordenado que fossem armadas em Oye, próximo de Calais. Mal-grado a cumplicidade existente entre os dois parentes, dona Isabel e o cardeal, seu tio, que desenvolviam, finalmente, uma actividade para lá, da simples mediação, as negociações entre as duas Coroas prolongaram-se sem que para elas fosse encontrada uma saída. Os ingleses cobiçavam toda a França até, ao Loire, mais a Guyenne e o Poitou. E os franceses não queriam ceder mais do que a Normandia e a Guyenne. As duas forças enfrentaram-se em Meaux, e os ingleses, em número superior, quase chegaram a ameaçar Paris. Os franceses acabaram por arrebatar aquilo de que as conversações de Gravelines os haviam despojado. A duquesa e o cardeal Beaufort despediram-se, todavia, de boas relações.
Mais fácil foi o restabelecimento, a partir de 29 de Setembro, da liberdade comercial entre a Inglaterra, a Flandres, o Brabante e Malines. A pedido da duquesa, os embaixadores conseguiram que os direitos de pesca fossem alargados a outros portos da costa até junto do rio Somme. Ao longo dos anos seguintes, a duquesa interveio para pedir aos ingleses respeito pela liberdade de pesca a favor dos pescadores das margens da Mancha. Um novo tratado foi assinado em Dijon, a 23 de Abril de 1443, pelo seu representante João Luxemburgo, senhor de Haubourdin, estando dona Isabel de Portugal então na posse de delegação de poderes do duque Filipe». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

Cortesia de Presença/JDACT

Uma Mulher de Poder no Coração da Europa Medieval. Isabel de Portugal. Daniel Lacerda. «Mas, mais do que isso, pela sua natureza generosa, exerceu uma função insubstituível enquanto elo de ligação e de reconciliação entre o duque, os seus vassalos e os administradores»

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Duquesa de Borgonha. O caso de Calais
«(…) A sublevação estendeu-se a Bruxelas, Lovaina e Malines. Piratas vindos da Holanda e da Zelândia unindo-se aos insurrectos de Calais, que continuava sob controlo inglês, arruinaram o comércio que se fazia por via marítima e desceram à Flandres para pilhar. O duque procurava, mas em vão, que estas acções não deteriorassem o comércio com os portos germânicos de Hamburgo, Lubeque e Bremen. Em Maio de 1437, uma nova insurreição, que vitimou dezenas de soldados ducais bem como o capitão Jean Villiers, senhor de Isle-Adam, pôs Filipe em dificuldade. As terras da Flandres atravessavam um período de penúria, miséria e fome, enquanto em Paris uma epidemia provocava mais de 50 mil mortos. Na sequência destes acontecimentos a duquesa foi solicitada a intervir junto do duque por deputações de magistrados e donatários dos ofícios enviados pela cidade de Bruges, que ela recebeu em Hesdin e Arras. Nesta cidade da Picardia fora concluído um tratado de paz que humilhava os habitantes de Bruges. Estes tiveram de aceitar uma dezena de execuções capitais, consumadas a 30 de Abril de 1438, uma pesada multa de 200 000 ridders e foi ainda acordado indemnizar a duquesa com várias somas em ouro por terem-na prendido e pelo seu papel de intermediária no tratado. Tocada na sua sensibilidade por este excesso, a duquesa prescindiu da última recompensa e, reconciliante, tornou a Bruges depois das decapitações, enquanto Filipe lá não voltaria senão em 1440.
Dona Isabel foi expressamente coagida pelo duque a aceitar a reparação de desobediência da parte das autoridades de Bruges, que pediram para vê-la, e comportou-se como uma mensageira de paz entre aqueles e Filipe. Implicada de novo nos meandros da violência guerreira, que regulava os conflitos de poder da época, a duquesa, com os dons da sua própria natureza, conseguia forjar novos equilíbrios que excluíam o excesso absoluto. As responsabilidades executivas de dona Isabel no seio da administração do ducado revestiam-se de vários aspectos segundo as circunstâncias, dadas as suas capacidades e qualidades. Em tempo normal, ocupava-se da gestão da economia; e dos assuntos da defesa, em que chegou a tomar decisões, por ocasião dos constantes afrontamentos guerreiros. Mas, mais do que isso, pela sua natureza generosa, exerceu uma função insubstituível enquanto elo de ligação e de reconciliação entre o duque, os seus vassalos e os administradores.
Os cronistas perguntaram-se durante muito tempo qual o modelo que a duquesa teria seguido nas múltiplas escolhas que alargaram consideravelmente o círculo de relações do ducado. Os estudos levados a cabo sobre sua mãe, a rainha dona Filipa, que abandonou a corte do duque de Lencastre em 1387 para se tornar mulher de João I de Portugal, esclarecem-nos em muitos pontos. Com efeito, ela notabilizou-se por ter impelido o rei a acções decisivas, em particular o seu envolvimento na expansão transatlântica e na perseguição aos mouros infiéis. Apoiando-se nos religiosos cristãos, fez adoptar pela força costumes litúrgicos ingleses. E, mantendo continuadamente relações com o seu país, conservou junto de si, em Portugal, um pessoal britânico numeroso, como dona Isabel fez com os portugueses.

O regresso às relações com os ingleses
Razões económicas estiveram na origem do rápido restabelecimento das trocas comerciais com os ingleses e dona Isabel, dada a sua posição privilegiada, desempenhou aí o seu papel. Enviou de facto vários mensageiros (Sanche Lalaing e, secretamente, o seu mordomo Louis Chantemerle), ao outro lado da Mancha para tomar contacto com o seu tio Henri de Beaufort, bispo de Winchester, onde foram encetadas as conversações de Gravelines. A duquesa negociou igualmente com as cidades têxteis flamengas o pagamento de um imposto sobre a lã importada de Inglaterra. Dona Isabel começou por ir ao encontro da embaixada de Beaufort, perto de Gravelines, no fim de Janeiro de 1439. Os ingleses mostraram-se conciliadores e prontos a libertar Carlos Orleães, feito prisioneiro com outros nobres na desgraçada batalha de Azincourt, em 1415, face ao desejo por ela manifestado de discutir as condições do restabelecimento de uma paz estável. A duquesa partiu acompanhada de sábios, conselheiros eclesiásticos e seculares; o duque preferiu a reserva. Ele acabava de obter uma reaproximação com França ao negociar o casamento do seu filho Carlos, conde de Charolais, com Catarina, filha do rei, acordo que foi assinado por Crèvecoeur, embaixador do duque, em Setembro de 1439, em Blois». In Daniel Lacerda, Isabelle de Portugal – duchesse de Bourgogne, Éditions Lanore, 2008, Isabel de Portugal, Duquesa de Borgonha, Uma Mulher de Poder no coração da Europa Medieval, tradução de Júlio Conrado, Editorial Presença, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-23-4374-9.

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quinta-feira, 12 de março de 2015

Os Portugueses em Marrocos. António Dias Farinha. «… o seu declínio, aliado a razões conjunturais de forte poder político, permitiu ao marquês de Pombal, em 1769, o abandono da Mazagão, última praça que os portugueses mantiveram em Marrocos»

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O Interesse pelo Norte de África
«(…) O interesse pelas praças norte-africanas evoluiu durante os séculos XV e XVI; as motivações políticas e económicas persistiram como determinantes em diversas fases desse longo domínio. As razões políticas confundem-se com a própria formulação e dinâmica da expansão portuguesa, que postulava a conquista dos reinos de Fez e de Marrocos, considerada legítima porque se tratava de reconquista para a fé cristã os territórios usurpados pelos muçulmanos. A hierarquia religiosa abençoava este projecto, concedia-lhe importantes rendas eclesiásticas, a tal ponto que o valor destas parece ter determinado algumas atitudes do poder, e a referência à cruzada permitia apoios internacionais, em particular do papado, que condicionavam fortemente as opções portuguesas.
As praças marroquinas constituíam um dos lados do triângulo estratégico do Atlântico português, completado pela costa europeia e pelas ilhas. O monarca Manuel I planeou mesmo centrar na Madeira as acções a desenvolver, não só nesse espaço, mas ainda em regiões servidas pelas rotas marítimas que o atravessam. As praças do estreito de Gibraltar asseguravam a defesa contra os piratas e a segurança das rotas marítimas entre o Mediterrâneo e o Atlântico. Esta ordem de factores, de índole essencialmente política, pressupunha numerosos compromissos pessoais ou de grupo. A nobreza, por exemplo, mostrava-se cada vez mais enredada na teia dos proveitos das empresas ultramarinas, em particular na ascensão social, bem ilustrada na família Meneses, e nas benesses repartidas entre os fronteiros de África, como os que foram concedidas aos capitães e povoadores das Ilhas em paga de serviço em Marrocos.
A força dos argumentos de carácter politico em favor da permanência em África alcançou todo o seu sentido quando a crise ocasionada pela perda de Agadir, em 1541. Foram abandonadas todas as praças que os portugueses ali detinham, com excepção de Ceuta, Tânger e Mazagão. As primeiras mantinham o controlo do Estreito e seriam a porta destinada a um possível ataque ao reino de Fez. Guardavam também a magia do símbolo, a evocação da empresa pioneira da gesta marroquina e do martírio do infante Fernando. Por aquela zona (por Arzila, de novo e de forma efémera nas mãos dos portugueses) passou o rei Sebastião a Alcácer Quibir para testemunhar perante a História um dos sentidos básicos da colonização portuguesa dos séculos XV e XVI. No sul de Marrocos, o rei João III decidiu manter Mazagão, onde mandou erigir poderosas fortificações para apontar a Marraquexe, capital dos xarifes, a ameaça de uma rápida invasão. O repto foi aceite e os mouros cercaram, sem êxito, a praça em 1562. Ali mandou Sebastião I, em 1578, uma armada destinada a iludir Mulei Maluco quanto ao local de desembarque do exército português apoiante de seu sobrinho, o sultão deposto, Mulei Mahamet.
Os interesses económicos ligados à presença portuguesa nas praças de Marrocos são de índole muito diversa, como seria de esperar da ocupação, por um período de mais de três séculos, de um espaço marítimo vasto, da existência de terras muito ricas e de um povo habituado a um comércio de longa distância. Essas motivações foram determinantes em vários períodos, como quando se tratou de adquirir tecidos e outros produtos para os negros da zona da Mina, no princípio do século XVI, o seu declínio, aliado a razões conjunturais de forte poder político, permitiu ao marquês de Pombal, em 1769, o abandono da Mazagão, última praça que os portugueses mantiveram em Marrocos». In António Dias Farinha, Os Portugueses em Marrocos, Instituto Camões, Colecção Lazúli, IAG, Artes Gráficas, ISBN 972-566-206-7.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT