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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia. Zulmira C. Santos. «a Exa condeça d’Atouguia inteiramente innocente, e sem a menor mácula de culpa de inconfidência, por não haver prova alguma, da qual resultasse indicio de culpada»

Cortesia de wikipedia e jdact

Para o retrato de uma senhora nobre no século XVIII. A natureza do texto
«(…) Tanto quanto se pode concluir das informações proporcionadas pelo padre Valério Cordeiro, e porque ainda não foi possível consultar directamente qualquer cópia, o título Memorias da última condessa de Atouguia. Manuscrito autobiographico inédito, que ocorre na primeira edição de 1916, e que foi substituído por A última condessa de Atouguia. Memorias autobiographicas, na segunda, de Braga, 1917, não pertence ao texto e releva da directa responsabilidade de quem preparou a edição. Em todo o caso, as palavras iniciais da presumível autora inscrevem o discurso no registo autobiográfico ou memoríalistico, na impossibilidade de traçar fronteiras precisas, no sentido da enunciação na primeira pessoa: o reverendo padre Frei Adriano, meu director, me manda por Santa Obediência escrever o seguinte que são os primeiros toques da minha conversão e a direcção do padre Gabriel Malagrida. […]. Tendo a edade de quinze anos, no anno 1737, estando eu nesse tempo ainda em casa de meus paes, que assistiam na cidade de Elvas, por meu pae ser sargento-mór do regimento daquella praça, vieram a ella missionários do Varatojo, por cuja razão disse minha mãe, que queria ir ouvi-los, e eu, que costumava ir com ella fora, sempre que ella sahia, disse-lhe que eu ficaria nesse dia em casa, porque me aborrecia muito ouvir sermões. Ella me respondeu que por isso mesmo queria que eu fosse a elle, e, como eu a amava infinito e em tudo desejava dar-lhe gosto, logo perdi a violencia que tinha em ir; de sorte que fui com indifferença, sem apetite nem com violência. O missionário era excellente, muito douto e muito bom pregador; chamava-se frei Lourenço, que hoje é bispo do Algarve( a partir de 1452, tendo falecido em 1783).
Do ponto de vista cronológico, há pelo menos três momentos fundamentais na enunciação do relato: a data da redacção, que várias indicações intratextuais, analisadas por Valério Cordeiro, fazem remontar de forma bastante segura a 1783, ou pelo menos ao intervalo temporal entre 1777 e 1783 (são várias as ocasiões em que dona Mariana projecta o passado no presente, criando assim uma relação entre o momento em que escreve e o tempo ao qual se reporta. Tal acontece na alusão anterior a frei Lourenço de Santa Maria, mas outras existem: quando fala de uma ida ao paço de seu pai, refere que achou de serviço o visconde de Ponte de Lima pai do visconde hoje secretario de Estado; ora como a nomeação de Tomás Xavier Lima, para secretário, foi feita depois da queda do marquês de Pombal, em 1777, o texto só pode ter sido escrito depois. Ao argumentar em favor desta hipótese, o padre Valério comete algumas incorrecções cronológicas, pois pensa que Tomás Xavier Lima se tornou secretário apenas depois da morte do marquês de Angeja, Pedro José Noronha Camões [1716-1788], registando como data de falecimento deste 1778, o que em termos de quadro argumentativo colhia. Todavia, o 3º marquês de Angeja não morreu em 1778, mas sim em 1788, de acordo com todas as fontes consultadas. Tal não invalida, no entanto, a primeira hipótese, porque Tomás Xavier Lima foi nomeado secretário de estado em 1777, depois secretário de Estado da Guerra, do Interior, do Tesouro, e só mais tarde substitui Angeja, nas funções de direcção do Ministério, onde o marquês havia, por sua vez, substituído Pombal. Em todo o caso, a partir de 1783, o marquês de Angeja abandonou parcialmente o cargo, por razões de saúde. As palavras da condessa poderiam, eventualmente, aludir a esta circunstância, o que contribuiria para fixar a data de composição por 1783. Porém, a referência mais pertinente parece ser precisamente a de frei Lourenço que a condessa diz ser bispo do Algarve e que faleceu justamente em 1783. Sobre o período em que frei Lourenço, arcebispo de Goa entre 1743 e 1750, foi bispo do Algarve, de 1751 a 1783, com uma interrupção entre 1773 e 1777, por ter sido obrigado a renunciar por Pombal que procedeu ao reordenamento espacial das dioceses do reino, resignação essa que não foi aceite pelo papa, tendo frei Lourenço regressado depois da queda do marquês), o momento de início do escrito, 1737, e o lapso de tempo que merece maior atenção por parte da narradora, entre 1756 e 1759, e que contempla mais directamente a direcção espiritual de Malagrida.
A ligação e relações entre estes momentos fundamentais na economia da narrativa parecem demasiado óbvias para não serem intencionais: em 1783, dona Mariana já tinha recebido a sentença que a declarava inocente [(decreto de 30 de Junho de 1780) (a Gazeta de Lisboa de 25 de Julho de 1780 (nº XXX) regista: a Rainha N. Senhora, por Decreto de 30 de Junho, houve por bem declarar que na sua Real presença se tinha plenamente mostrado achar-se a Excellentissima condeça d’Atouguia inteiramente innocente, e sem a menor mácula de culpa de inconfidência, por não haver prova alguma, da qual resultasse indicio de culpada, podendo ser restituída ás honras, e liberdade, que por direito, e pelo seu nascimento, e qualidade lhe competem], mas, de acordo com as palavras de Bombelles acima citadas, vivia modestamente de uma pensão da coroa sem que os seus filhos pudessem usar o nome de família. Centrando o relato na experiência de direcção do jesuíta, entre 1756 e 1759, a condessa narrava justamente os anos cruciais, depois do terramoto, que envolveram o atentado contra o rei José I, em Setembro de 1758, e presenciaram o desenvolvimento do processo dos Távoras. As recordações escritas de dona Mariana terminam justamente com a dolorosa entrada no convento de Sacavém, acompanhada pelas lágrimas da filha, donaLeonor, que tinha seis anos, procurando manter uma aparente serenidade, embora se visse preza […] como traidora sem o ser. O texto era, assim, não apenas o relato de uma experiência de direcção espiritual, mas um sentido e veemente manifesto de inocência». In Zulmira C. Santos, Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia, Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 2, 2005, 401-416, Universidade do Porto.

Cortesia UPorto/Península/JDACT

sábado, 31 de outubro de 2015

Entre Malagrida e Pombal no 31. As Memórias da última condessa de Atouguia. Zulmira C. Santos. «… o códice de “As prisões da Junqueira” teria tido com penultimo possuidor […] Miguel Bragança, a cuja leituras se deve talvez o restabelecimento dos jesuítas, […] na Hespanha, Bélgica, Inglaterra, Áustria, e sobre tudo nos Estados Unidos da América»

Cortesia de wikipedia

O tempo da publicação
«(…) A partir de 1910 e da legislação coeva, a questão religiosa agudizou-se (de entre uma ampla bibliografia, refiro apenas os títulos mais recentes: A Guerra Religiosa na Primeira República; Crenças e mitos num tempo de utopias; A Igreja perante a lei da separação; Jesuítas e Antijesuítas no Portugal Republicano; 6. O antijesuitismo republicano e o seu contexto;7. Revolução na continuidade»; Entre antijesuitismo e jesuitismo; O Estado e a Igreja no tempo de Manuel de Arriaga; O Tempo e Manuel de Arriaga; Actas do colóquio organizado pelo Centro de Histária da Universidade de Lisboa e pela Associação dos antigos alunos do Liceu da Horta). E se nem sempre esta se fundia e confundia com o problema particular dos jesuítas, envolvidos no apoio ao Partido Nacionalista, era por vezes muito difícil separar as respectivas áreas (o conde de Bertiandos, por exemplo, a quem o padre Valério Cordeiro recorre como fonte de informações sobre o paradeiro do autógrafo, mantinha fortes ligações ao Partido Nacionalista, Jesuítas e Antijesuítas no Portugal Republicano,). De resto, a partir de 1910, a Galiza, onde em 1916 estava o padre Valério Cordeiro, tornou-se lugar de refúgio para os inacianos expulsos e, segundo algumas interpretações, também lugar de resistência (a Igreja e a I República, A reacção católica em Portugal às leis persecutórias de 1910-1911, Didaskalia, Revista da Faculdade de Teologia de Lisboa).
Por outro lado, na primeira edição, de Pontevedra, onde também se editaram, durante os tempos mais difíceis do exílio, a Brotéria e o Mensageiro do Coração de Jesus (depois de passagens temporárias pela Holanda e pela Bélgica, os jesuítas portugueses, dirigidos pelo padre Luís Gonzaga Cabral, estabeleceram algumas casas em Espanha em Santa Maria de Oya, noviciado, juniorado e filosofia, La Guardia, colégio, S. Martinho de Trebejo, escola apostólica). Cordeiro agradecia aos bemfeitores e bemfeitoras dos Círculos Catholicos Portugueses da Bélgica, numa clara alusão ao envolvimento nos movimentos católicos do tempo (a Bélgica era, sobretudo antes da guerra, um dos países para onde se transferiram colégios portugueses directamente ligados à Igreja; de acordo com os dados fornecidos por Maria Moura, A guerra religiosa, a Bélgica tinha, pelo menos, dois colégios masculinos, administrados por portugueses; um deles prosseguia a acção do Colégio-Liceu figueirense, que fora obrigado a encerrar a sua actividade em Portugal; uma carta com data de 13 de Março de 1912, remetida da legação portuguesa na Bélgica, dava informações sobre este colégio liceu português; situava-se na pequena cidade de Huy e tinha vinte e quatro alunos, todos portugueses; a mesma carta informava da existência do colégio Saint Michel modernamente instalado em Bruxelas que contava, entre os seus estudantes, bastantes portugueses, antigos alunos do colégio de Campolide; como este também o de Saint-Michel estava sob orientação dos jesuítas; a guerra forçará estas escolas a abandonar o seu asilo na Bélgica; o colégio figueirense regressará a Portugal). e terminava a introdução desejando que a divulgação das Memorias da Condessa [contribuisse] para reparar uma das mais flagrantes e monstruosas injustiças archivadas na Historia da Nação Portuguesa: a sentença que condemnou os Tavoras e famílias com elles relacionadas, votos que recordam as palavras do padre José Sousa Amado na edição de As prisões da Junqueira durante o Ministério do Marquês de Pombal escriptas alli mesmo pelo Marquez de Alorna, uma das suas victimas, publicadas pela primeira vez em 1857 e, pela segunda, em 1882, em pleno centenário de comemorações pombalinas: por este meio tão solemne e decoroso [decreto de libertação de 17 de Maio de 1777] foi comprovada a innocencia do illustre preso da Junqueira, o que ao mesmo tempo importa a condemnação mais formal das medidas arbitrarias de Sebastião José, que com tanta crueldade se arvorou em perseguidor dos que lhe levavam vantagem em saber, virtudes e nobreza. João Almeida Portugal [1726-1802], 4º conde Assumar e 2º marquês de Alorna, que se presume ter sido o autor de As prisões da Junqueira, era casado com dona Leonor de Lorena e Távora [1729-1790], irmã da condessa de Atouguia.
Não deixa também de ser curioso, embora não baste para duvidar da genuinidade dos dois manuscritos, o comum percurso atribulado das diferentes cópias e a dificuldade em encontrar os autógrafos. O padre Sousa Amado afirma ter visto o original só por pouco tempo, e em casa de um dos descendentes das victimas de Pombal, a quem foi confiado com todo o resguardo, podendo, assim, proceder à comparação com a versão que possuía, aventando até que o códice de As prisões da Junqueira teria tido com penultimo possuidor […] Miguel Bragança, a cuja leituras se deve talvez o restabelecimento dos jesuítas, que hoje tantos serviços estão fazendo á religião sob governos monarchicos e republicanos como na Hespanha, Bélgica, Inglaterra, Áustria, e sobre tudo nos Estados Unidos da América. Produzidos em contextos idênticos, As prisões entre 1759 e 1777, As Memorias por 1783, orientando-se para um mesmo objectivo, a reabilitação dos Távoras e seus familiares, pois que o marquês de Alorna (João de Almeida Portugal [1726-1802], 4º conde e Assumar e 2º marquês de Alorna, casou a 2 de Dezembro de 1747 com dona Leonor Lorena Távora [1729-1790], irmã da condessa de Atouguia e mãe da futura Alcipe) era genro de dona Leonor e Francisco Assis e cunhado da Condessa de Atouguia, publicados em momentos de forte tensão em que se procuravam definir, num quadro de menor hostilidade, as relações entre a Igreja e o Estado, a década de 50 do século XIX e os anos de 1916-17 que presenciaram o principio de algum equilíbrio nas negociações, os dois manuscritos não obliteram, antes propiciam e quase forçam, a inscrição no quadro problemático e sempre presente da expulsão da Companhia por Sebastião José». In Zulmira C. Santos, Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia, Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 2, 2005, 401-416, Universidade do Porto.

Cortesia UPorto/Península/JDACT

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia. Zulmira C. Santos. «Como Valério Cordeiro manifestasse interesse pelo texto, a madre ofereceu-lhe e começou, assim, a pesquisa de outras cópias ou, se possível, do original, já que o manuscrito…»

Cortesia de wikipedia

O tempo da publicação
«(…) Em 1916, o padre Cordeiro, autor de um conjunto considerável de escritos espirituais de orientação filojesuítica, vivia na Galiza depois de ter estado durante algum tempo em Inglaterra, em exercício do ministério sacerdotal em Coalville (Leicestershire). Na introdução às Memórias, conta que, no decurso dessa estada, um dia, a superiora do colégio do Sagrado Coração de Jesus, a madre Virgínia Roque, aludiu a um manuscrito, oferta do pároco da freguesia, o reverendo Joseph Degen, que tinha estudado em Lisboa nos Inglesinhos e o tinha trazido para Inglaterra juntamente com outros livros e papéis. As palavras iniciais, atribuídas à condessa de Atouguia, revelavam a natureza do texto: Bemdito e louvado seja o Santíssimo Sacramento e a Puríssima Conceição da Virgem Maria, Senhora Nossa. O Reverendo padre frei Adriano, meu director, me manda por Santa Obediência escrever o seguinte que são os primeiros toques da minha conversão e a direcção do padre Gabriel Malagrida. Como Valério Cordeiro manifestasse interesse pelo texto, a madre ofereceu-lhe e começou, assim, a pesquisa de outras cópias ou, se possível, do original, já que o manuscrito ido para Inglaterra nunca poderia ser, pela marca de água Bath, 1828, anterior a esta data e, por estes anos, já a condessa tinha falecido há muito (o códice que o padre Cordeiro possuía apresentava-se escrito com letra bastante legível, embora um tanto apagada, em um caderno in 4º, de papel almaço, sem linhas, numerado em cada página, desde 3 até 74, Memorias, XII). Informações enviadas para Inglaterra pelo conde de Bertiandos, Gonçalo Pereira Silva Sousa Menezes (1855-1929), confirmaram que a cópia detida por Valério Cordeiro deveria ter sido efectuada a partir de uma versão pertencente a Manuel Bento Sousa que, por sua vez, a tinha recebido da marquesa de Abrantes, dona Maria Joana Xavier Lima (1755-1834), não havendo a absoluta certeza de que o manuscrito em causa fosse ou não o original. Em todo o caso, esta última lição continha as duas primeiras páginas que faltavam na cópia de Valério Cordeiro que procedeu ao estabelecimento do texto sobre estas duas versões.
Não temos elementos nem informações que permitam pôr em dúvida a genuinidade do documento ou suspeitar da sua atribuição a dona Mariana Távora. De resto, o itinerário do códice acima enunciado, cujo original parece ter pertencido à condessa de Murça, dona Helena Maria Piedade Lencastre (1818-1889), torna credível que um relato que fazia apologia dos Távoras, vincando a crueldade de Sebastião José, e louvava os jesuítas, através da narrativa da direcção espiritual de Malagrida, fizesse o seu percurso, pelo menos nos primeiros anos do século XIX, nos círculos da nobreza partidários de Miguel Bragança. Porém, se procedermos à identificação rigorosa das famílias a que o padre Cordeiro brevemente alude e não identifica, seguindo as pistas apenas indiciadas, poderemos obter dados propiciadores de conclusões mais consistentes que em muito podem contribuir para explicar o roteiro seguido pelo códice. De facto, a condessa de Murça, dona Helena Maria Piedade Lencastre (1818-1889), que parece ter possuído o autógrafo, era filha dos 4ºs marqueses de Abrantes, José Maria Piedade Lencastre (1784-1827) e de dona Helena Santíssimo Sacramento Vasconcelos Sousa (1786-1846). Como se sabe, o marquês, que foi um grande apoiante do infante Miguel, era neto dos marqueses de Ponte de Lima, Pedro e dona Eugénia Maria Josefa Bragança (1725-1795), por sua mãe, dona Maria Joana Xavier Lima, 3ª marquesa de Abrantes. Tomás Xavier Lima Nogueira (1727-1800), 1º marquês de Ponte de Lima, tinha sido ministro de dona Maria I e pertencia ao círculo de relações dos Távoras (foi secretário de estado desde 1777; seu pai, Tomás Silva Teles mandado prender por Sebastião José em 1760, tinha falecido no cárcere de S. João da Foz). Mas, mais importante do que essa eventual relação, se afigura o facto de o 3º marquês de Abrantes, Pedro Lencastre Silveira Castelo Branco Sá Menezes, ser filho de José Maria Lencastre Távora (1742-1771), 6º conde de Vila Nova de Portimão que, por sua vez, descendia de Manuel Rafael Távora (1715-1789) que era irmão de Francisco Assis, o pai de dona Mariana e, logo, tio desta.
No contexto em causa, não parece arriscado aceitar que o manuscrito tenha passado para um ramo directamente aparentado com os Távoras, antes ou depois da morte de dona Mariana, que deve ter ocorrido por 1802, e sobretudo depois da extinção da casa dos Atouguias, cuja representação passou para os condes da Ribeira, através de uma tia de Jerónimo Ataíde, dona Leonor Teresa Maria Ataíde Menezes, irmã do pai, Luís Peregrino, e casada com Luís Câmara, 3º conde da Ribeira Grande (a pista dos filhos de dona Mariana revela-se muito difícil de seguir; Memorias Históricas e Genealógicas dos Grandes de Portugal regista o nome dos seis: Luís, Francisco, Leonor, Rosa, Clara, António; neste aspecto não conseguimos ir mais longe que as informações enviadas pelo conde de Bertiandos, em 20 de Janeiro de 1917, ao padre Cordeiro: As suas duas filhas, Leonor e Clara foram freiras no convento de Sacavém, onde estiveram presas com a mãe e com seu irmão António; além destes deixaram os condes os seguintes filhos: Luiz, que logo depois da desgraça da família foi mandado entregar aos congregados da missão de S. Vicente da Trindade, de Lisboa, onde o obrigaram a professar; mas elle depois da morte de El-Rei, annulou os votos e passando a França em 1807, casou anos depois e teve dois filhos, um dos quaes casou e não sei se teve descendência, que em todo o caso deve ter acabado […]; este Luiz veio a morrer em Lisboa em 1828, pouco mais ou menos. Francisco Atayde e António Atayde morreram em Lisboa; não sei a data; mas sei que o último dos homens que morreu foi Luiz, Clara, freira, morreu depois de 1834; dona Leonor morreu antes, segundo me parece, Memorias, XXV-XXVI). Não surpreende também que, em 1916, em plena questão religiosa, o padre Valério Cordeiro, defensor da Companhia de Jesus em variados escritos, tivesse optado por publicar um códice que simultaneamente reabilitava os Távoras, denegria Sebastião José e louvava os jesuítas, fazendo de Gabriel Malagrida uma espécie de mártir». In Zulmira C. Santos, Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia, Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 2, 2005, 401-416, Universidade do Porto.

Cortesia UPorto/Península/JDACT

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia. Zulmira C. Santos. «Avec ce revenu excessivement modique pour le pays, elle vit, dit-on, décemment dans une campagne entre Sacavem et Lisbonne. Deux de ses filles sont religieuses dans une maison de Sacavem dont la règle est extrêmement austère»

Cortesia de wikipedia

«Dona Mariana Bernarda Távora, condessa de Atouguia pelo casamento com Jerónimo Ataíde (1721-1759), que viria a ser o 11º titular desta casa, nasceu em 1722. Era filha de dona Leonor Távora (1700-1759) e de Francisco de Assis, terceiros marqueses de Távora, ambos supliciados em 13 de Janeiro de 1759, acusados de envolvimento no atentado contra o rei José I, em Setembro do ano anterior. O mesmo aconteceu, como é sabido, com seu marido e ainda com os irmãos Luís Bernardo (1723-1759) e José Maria (1736-1759). Nascida em Lisboa, no seio de uma das famílias mais poderosas do reino, dona Mariana foi prometida ao primo, Jerónimo, quando tinha sete anos, e depois de algumas hesitações e alterações à primeira combinação, veio a desposá-lo em 2 de Dezembro de 1747, aos vinte e cinco anos de idade. Residiu no palácio dos condes de Atouguia, situado na parte ocidental da rua dos Cabides e na oriental da Boa Viagem, na esquina da rua Nova do Almada com o Chiado e, na sequência do terramoto de 1 de Novembro de 1755, passou a viver, juntamente com os pais, numas barracas na quinta da condessa da Ribeira, dona Margarida Francisca Lorena (1707-?), [era casada com José Câmara (1712-1757), 4º conde da Ribeira Grande; era tia da condessa de Atouguia, por ser irmã de Francisco Assis; eram ambos filhos de Bernardo António Filipe Távora, 2º conde do Alvor, e de dona Joana Lorena; para o estabelecimento das redes familiares foram consultadas, cruzando muitas vezes as informações, as fontes impressas seguintes; Memórias Históricas e Genealógicas dos Grandes de Portugal, Lisboa, 1933; História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Coimbra, Atlântida, 1946-1955; Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal, Lisboa, Empresa ed. de Francisco Arthur Silva, 1991; Nobreza de Portugal, bibliografia, biografia, cronologia, filatelia, genealogia, heráldica, história, nobiliarquia, numismática, Lisboa, Enciclopédia, 1960]. Teve seis filhos: Luís, Francisco, dona Leonor, dona Rosa, dona Clara e António. Em Janeiro de 1759, Luís tinha dez anos e António dezasseis meses. A sentença que condenou pais, irmãos, tio e marido de dona Mariana Bernarda conduziu-a ao encarceramento por vinte e dois anos no convento das Capuchinhas de Sacavém, juntamente com as duas filhas, dona Leonor e dona Clara, a dona Rosa já tinha falecido, e com António, o mais novo. Luís e Francisco passaram para a Casa da Missão de Rilhafoles dos Padres de S. Vicente de Paula e daí para o convento da Trindade, onde permaneceram até que a inocência de donaMariana foi reconhecida pela sentença de 30 de Junho de 1780.
Referindo-se a 23 de Agosto de 1787, Bombelles recorda, no seu diário: […] la comtesse d’Atouguia, veuve d’un des suppliciés, qui avec sa soeur la marquise d’ Alorna, a perdu sur le même échafaud son père, sa mère, ses deux frères et son oncle le duc d’Aveiro [.et que..] n’a pour vivre qu’une pension de 600.000 reis que lui paye la cour depuis la confiscation des biens de sa maison. Avec ce revenu excessivement modique pour le pays, elle vit, dit-on, décemment dans une campagne entre Sacavem et Lisbonne. Deux de ses filles sont religieuses dans une maison de Sacavem dont la règle est extrêmement austère. Elle ne sait que faire de ses fils qui ont de la reine une pension égale à la sienne mais qui depuis le supplice de leur père ne peuvent ni porter leur nom ni être employés dans aucune partie du service portugais. Cette fatalité pour des enfants innocents est affreuse (Journal d’ un ambassadeur de France au Portugal 1786-1788, Paris, 1979; note-se que, depois de manifestar a pena que lhe causava a situação da condessa e de seus filhos, Bombelles regista as dúvidas que corriam sobre a eventual culpabilidade dos condenados: Longtemps j’ai cru leur père, Jerónimo de Ataíde, et les autres condamnés, excepté le duc d’Aveiro, sans qu’ils aiente été coupables, mais aujourd’hui je suis bien embarrasse de trouver l’évidence que leurs partisans veulente donner à tout ce qui rend leur sentence injuste; des gens raisonnables et qui ne tiennent à aucun parti prétendent être sûrs que la Reine a dans les mains les lettres de la jeune marquise de Távora qui avant l’assassinat du roi l’avertissait du danger qu’il courait et de la fureur des siens).
Não saberíamos muito mais sobre donaMariana do que acima se disse, se o padre Valério Cordeiro não tivesse publicado em 1916, em Pontevedra, e a data e o lugar merecerão posteriores reflexões, um manuscrito, que acompanhou de uma introdução prévia, intitulado Memorias da ultima Condessa de Atouguia, Manuscrito autobiographico inédito. Reeditado em 1917, em Braga, na sequência do interesse despertado, de que a imprensa católica da época se fez eco (o padre Cordeiro confere um conjunto de referências de que dá conta na nota da segunda edição; a maioria das notícias data de Outubro, Novembro e Dezembro de 1916; são, portanto, imediatamente sequenciais à primeira edição de Pontevedra de 1916, circunstância que pode traduzir o empenhamento dos círculos ligados aos jesuítas na divulgação e circulação da obra), o texto relata o lapso de tempo, entre 1756 e 1759, em que dona Mariana Bernarda foi dirigida espiritual do jesuíta Gabriel Malagrida (1689-1761) que, como se sabe, viria a morrer estrangulado e queimado em 1761, num auto de fé. Embora o escrito de dona Mariana recorra muitas vezes a recordações do passado anterior a 1756, que aliás muito pesa na economia narrativa do texto, o seu núcleo fundamental parece, num primeiro momento, prender-se às orientações da direcção espiritual conduzida pelo padre jesuíta.
Se tivermos em conta que os anos dessa orientação são os anos subsequentes ao terramoto e justamente anteriores aos trágicos acontecimentos que se abateram sobre a família da condessa em 13 de Janeiro de 1759, não parece arriscado concluir que estamos perante um texto mais a juntar ao complexo processo dos Távoras e ao não menos espinhoso problema da expulsão dos jesuítas e, obviamente, a mais uma tentativa de interpretação das acções e opções de Sebastião José Carvalho Melo. Desse ponto de vista, procurarei aduzir algumas reflexões sobre as datas de publicação do manuscrito pelo padre Valério Cordeiro, sobre o percurso seguido pelas cópias conhecidas e, finalmente, sobre a sua eventual natureza autobiográfica, orientações e objectivos, procurando demonstrar que o texto se encontra travejado por um conjunto de estratégias de re-orientação da memória não apenas dos Távoras, como família, mas também da Companhia de Jesus». In Zulmira C. Santos, Entre Malagrida e Pombal. As Memórias da última condessa de Atouguia, Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 2, 2005, 401-416, Universidade do Porto.

Cortesia UPorto/Península/JDACT