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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «Aproveitando o sentimento antibritânico tão vivo em Portugal depois do Ultimatum, a Alemanha lançava a sua ofensiva de penetração dos seus produtos no mercado português»

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O interesse alemão no Atlântico português
«(…) Bülow demonstrava uma certa preocupação que o Governo alemão fosse criticado quanto à sua política inglesa, depois das negociações em torno das ilhas de Samoa (na primavera de 1899 surgiu um desentendimento entre a Alemanha e a Grã-Bretanha em torno das ilhas Samoa que afectou muito as relações diplomáticas entre as duas potências) e no contexto de simpatia que os Boers suscitavam na opinião pública alemã, durante o conflito sul-africano. Interessante parece ser o facto de que, paralelamente à questão da divisão das colónias portuguesas, decorriam as negociações anglo-alemãs sobre Marrocos. Precisamente a 20 de Janeiro de 1901, o Kaiser alemão, de viagem a Londres por motivo da enfermidade da sua avó, a rainha Vitória (que morre a 21 de Janeiro), referia, num telegrama a Bülow, que Chamberlain, por intermédio do barão de Eckardstein, teria demonstrado grande interesse num entendimento sobre Marrocos. Já referimos atrás que, com grande probabilidade, a questão marroquina e a de Portugal fariam parte do mesmo projecto alemão, fracassado, em parte, pela contra-acção de Salisbury aos esforços de Chamberlain de entender-se com a Alemanha. Chamberlain via num acordo anglo-alemão sobre Marrocos, o primeiro passo para uma futura aliança com a Alemanha. A política externa inglesa revelava aliás, nesta época, uma grande ambiguidade, ao querer conciliar a aliança com Portugal e o Acordo secreto Anglo-Alemão sobre as Colónias Portuguesas. Mas a hegemonia naval britânica era preocupação prioritária do Governo inglês, sendo assim impossível um acordo com uma nação, como a Alemanha, que visava pôr em jogo essa hegemonia.
Neste período histórico, dominava na Europa a ideia de que o poder naval fazia parte integral da ideia imperial. Tirpitz, o responsável pela grande política naval alemã, referia já em 1894:

A marinha nunca me pareceu um fim em si mesmo mas sempre função dos seus interesses marítimos. Sem poder naval, a posição da Alemanha no mundo é semelhante à de um molusco sem concha.

Em relação com o poder naval estava a ideia de que os interesses económicos, nomeadamente o comércio, só poderiam ser bem defendidos com o desenvolvimento naval. Os dirigentes políticos alemães defendiam a ideia de que a Alemanha só poderia competir comercialmente com a Inglaterra se houvesse uma frota naval forte. Sem esta, a Alemanha não poderia dar o suficiente apoio às carreiras marítimas comerciais. A rivalidade comercial alemã começou a ser temida desde cedo na Grã Bretanha. Já em 1896, o famoso livro de Edwin Williams, Made in Germany, salientava a concorrência alemã. Muitos eram já os que, nos meios industriais ingleses, eram a favor de um retorno à protecção aduaneira. Tanto mais que os mais sérios adversários dos britânicos eram países proteccionistas como os E.U.A, a França e a Alemanha. O próprio Joseph Chamberlain defendia a preferência imperial, em que os países membros do Império britânico concederiam uns aos outros vantagens comerciais em forma de reduções das tarifas alfandegárias. Por outro lado, em 1897, o Governo inglês tinha denunciado o antigo tratado comercial de 1865 com a então Zollverein. Segundo este tratado, as exportações alemãs para as colónias inglesas não pagavam tarifas mais altas do que as inglesas para as suas colónias. A denúncia deste tratado tinha a ver com a nova política chamberliana da preferência imperial. Tal estimulou ainda mais a rivalidade comercial anglo-alemã. Em 1897, num artigo do Saturday review afirmava-se:

(...) na Europa há duas grandes forças irreconciliáveis, duas grandes nações que fariam do mundo, no seu todo, uma sua província e que imporiam nesta o tributo do comércio. A Inglaterra (...) e a Alemanha (...) competem em cada canto do globo.

Do lado alemão, havia também uma reacção a esta rivalidade, nomeadamente da Sociedade Colonial Germânica e da Liga Pangermânica. Esta rivalidade comercial que se juntava à rivalidade naval e colonial, e com elas estava relacionada, fazia-se sentir também em Portugal. Aproveitando o sentimento antibritânico tão vivo em Portugal depois do Ultimatum, a Alemanha lançava a sua ofensiva de penetração dos seus produtos no mercado português». In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «As recentes demonstrações (das relações) anglo-portuguesas são utilizadas na Alemanha contra a política do Governo alemão…»

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O interesse alemão no Atlântico português
«(…) A política externa portuguesa tende, a partir de 1901, a aproximar-se de novo da Inglaterra, assente desta vez na defesa do atlântico português. Em 1901, o rei português, Carlos I, fazia uma visita formal à Madeira e aos Açores, revelando o quanto as ilhas atlânticas passavam a significar para a Coroa portuguesa, já que essa visita se fazia acompanhar de uma grande parte da Marinha nacional. Esta visita era, aliás, atentamente observada pela Marinha alemã, que tinha as ilhas continuamente vigiadas. Num relatório da Marinha germânica, de Outubro de 1901, relata-se que a visita do rei à ilha da Madeira reforçara, na população e no governador da Madeira, o sentimento de segurança, numa época tão conturbada da história do País, em que a propaganda republicana antimonárquica obtinha já os seus frutos:

(...) O cruzador Adamastor foi então posto à disposição do governador civil da Madeira, o qual visitou em terra e por mar as povoações da Madeira e as ilhas adjacentes para promover no povo uma disposição pró-governamental. Esta acção deve ter aliviado o governador, já que a visita à Madeira de Sua Majestade o rei de Portugal, em Julho deste ano, muito fortalecera e entusiasmara o sentimento monárquico e pró-governamental.

Tudo o que dissesse respeito às ilhas atlânticas interessava muito aos Alemães, já que, em 1901, a Alemanha, assim como os E.U.A., pediam ao Governo português a concessão de depósitos de carvão nestas, o que levava a Inglaterra a reagir e a solicitar ao Governo português a confirmação das garantias de que nenhuma outra potência teria possibilidade de aí constituir depósitos de carvão. A visita do rei às ilhas tinha o intuito de reassegurar a soberania da Coroa portuguesa sobre estas, na conjunctura da rivalidade anglo-alemã e no contexto interno de agitação republicana contra a Monarquia.
A Marinha alemã observava atentamente, não só as ilhas atlânticas como a capital do País, Lisboa. É com desagrado que os Alemães vêem, em Dezembro de 1900, a esquadra britânica, a Channel Fleet, visitar Lisboa. Trata-se, na realidade, de um primeiro sinal de reconciliação anglo-lusa depois do Ultimatum. De facto, as relações diplomáticas entre os dois países tendiam a melhorar, sendo a aliança anglo-lusa já renovada em 1899, na Declaração de Windsor, reafirmada por Carlos I, em 1900, aquando de um banquete em honra da vinda da esquadra inglesa. O que parece preocupar o rei é, entre outros, a segurança do espaço marítimo português no quadro da rivalidade anglo-alemã e a manutenção do território colonial, o que refere MacDonell:

Em todo o caso pode supôr-se com segurança que, à parte de outra consideração política e da pressão a que é sujeito o rei, o objectivo do Governo português em desejar que viesse a público o reafirmar de antigos compromissos de tratados entre os dois países, foi de salvaguardar a integridade das possessões portuguesas na Africa do sul oriental (...).

O receio português de perder as colónias suplanta, temporariamente, o enraizado sentimento antibritânico. Do lado alemão, surgiam apreensões face a esta aproximação luso-inglesa e receava-se que o Tratado secreto Anglo-Alemão sobre as Colónias Portuguesas não fosse cumprido, como revela uma carta do marquês de Lansdowne ao visconde Gough:

(...) o barão de Eckardstein (depois de uma curta activiclade em Madrid, entrou, em 1891, para a Embaixada alemã em Londres. Em 1898, participou nas negociações sobre as colónias portuguesas e, em 1899, nas sobre as ilhas de Samoa. Desde 1899, foi secretário da missão diplomática alemã em Londres, tendo participado activamente nas negociações anglo-alemãs de 1900-1901. Nestas, procedeu, aliás, contra instruções dadas, dando origem a alguma confusão nas conversações então tidas com os ingleses. Durante a primeira crise de Marrocos esforçou-se para que a Alemanha chegasse a um entendimento com a França. Morreu em Haia, em 1933) chamou-me hoje e perguntou-me se o Governo alemão teria a liberdade de dizer que as demonstrações recentes em Lisboa não afectavam de forma nenhuma o Acordo secreto entre este país e a Alemanha assim como o das possessões portuguesas na África do Sul (...)

A esta sondagem Lansdowne respondia a Eckardstein que nada mudara no Acordo Anglo-Alemão. Apesar do Governo inglês assegurar, repetidas vezes, ao barão de Eckardstein e ao conde de Hatzfeldt que nada mudara quanto ao Acordo secreto, mesmo se a esquadra inglesa visitara Lisboa a 8 de Dezembro, a verdade é que, em Berlim, os homens políticos se inquietavam, como reflecte o telegrama de Bülow a Hatzfeldt:

As recentes demonstrações (das relações) anglo-portuguesas são utilizadas na Alemanha contra a política do Governo alemão, como sendo um sintoma de que a Inglaterra renuncia ao nosso acordo sul--africano.

In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «Berlim estava já em 1914 em contacto directo, por telegrafia sem fios, com o Togo, onde haviam construído a importante estação emissora de Camina»

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O interesse alemão no Atlântico português
«(…) Na realidade, já no Inverno de 1897 - 1898, os meios navais americanos tinham estudado a hipótese de uma manobra de diversão da frota dos E.U.A. em águas espanholas, próximo de Cádiz e das Canárias, para pressionar a Espanha a desistir de defender os seus interesses nas águas das Caraíbas. Com o desastre de 1898, circularam boatos de todo o tipo, difundidos pela imprensa e opinião pública, sobre um eventual arrendamento das ilhas Baleares e das Canárias. O aviso britânico era entendido pelo Governo português, que acedia em Dezembro de 1898, a troco de contrapartidas respeitantes nomeadamente à salvaguarda da independência do país em retirar os rendimentos das ilhas adjacentes das garantias a um crédito externo. A partir de 1898, os Britânicos não deixaram de preocupar-se em pedir garantias aos sucessivos governos portugueses, para que não fosse concedido a mais nenhuma outra potência facilidades nas ilhas atlânticas. Essas garantias transformar-se-ão mais tarde, com a intensificação da corrida naval anglo-alemã, no pedido de direito exclusivo, por parte britânica, de constituição de depósitos de carvão, telégrafos e cabos submarinos.
Os Açores, a Madeira, as Canárias e a costa marroquina detinham uma posição estratégica no controlo das rotas do atlântico e do mediterrâneo e a Inglaterra, potência marítima tradicional, não pretendia de forma nenhuma que principalmente a Alemanha, que lhe começava a disputar a hegemonia naval, obtivesse influência nestes pontos. Por isso, lord Salisbury informa o conde de Hatzfeldt que a Inglaterra vê com grande aversão qualquer facilidade concedida pelo Governo português que venha a colocar as ilhas atlânticas portuguesas sob a influência de uma terceira potência. Hatzfeldt não teria, no entanto, reagido bem à informação de Salisbury. Em Novembro de 1899, sir H. MacDonellao, escrevendo a Salisbury, revelava-lhe as suas apreensões sobre a corrente de hostilidade anti-inglesa em Portugal, tanto na opinião pública, como na classe política:

No meu n.º 77 do dia 8 deste mês queixei-me do tom violento da imprensa portuguesa a respeito da campanha da África. (...) O mal-estar causado no país pelos acontecimentos de 1891 deixou um sentimento de hostilidade que o republicano e a imprensa réptil aproveitaram a seu favor, em todas as ocasiões. Enquanto as classes intelectual e política partilham, no íntimo, a antipatia do homem do povo. (...). Tudo isto não escapou à atenção do meu colega alemão, que imbuído das suas simpatias pessoais pelos Boers assim como incentivado pelo seu governo, tem estado activo em criticar e distorcer os acontecimentos na África do Sul contra nós. A noção geralmente aceite de que o imperador Guilherme pode ter decidido apoiar mais eficazmente os Boers influenciou claramente as opiniões deste governo e foi sem dúvida um poderoso factor para orientar a opinião pública e a representada pela imprensa.

MacDonell revelava bem como a corrente anti-inglesa em Portugal era aproveitada, a nível interno, pelos republicanos, para fazerem propaganda antimonárquica e a nível externo, pelos Alemães, para influenciar o Governo Português. Mas a velha aliança luso-inglesa, que fora renovada secretamente na Declaração de Windsor de 1899 (esta declaração anglo-lusa deveu muito aos esforços do marquês de Soveral e à influência do rei Carlos I), seria reafirmada em 1901. Os ingleses necessitavam da neutralidade colaborante portuguesa na Guerra da África do Sul e a continuação da sua influência nas ilhas atlânticas, Açores e Madeira. Para isso aceitavam assegurar ao Governo português que o Império Colonial não seria dividido. Era de importância vital para os Britânicos, que o Governo português reafirmasse ao Governo britânico as garantias sobre as ilhas atlânticas, para impedir que os Alemães obtivessem bases navais no espaço atlântico.
Esta política era acompanhada, do lado inglês, sobretudo da parte de Salisbury, por uma recusa em ceder portos na costa marroquina atlântica. Salisbury evitara, como já vimos, comprometer-se com qualquer promessa nesta questão, apesar dos repetidos pedidos alemães nesse sentido. Note-se que é o mesmo Salisbury que estará por detrás do fracasso de um empréstimo alemão a Portugal, aconselhando Soveral a entender-se antes com os credores franceses na questão da dívida portuguesa. Um outro factor importante que fazia com que as ilhas atlânticas portuguesas se revestissem de grande valor para os Ingleses era, a contribuição que estas poderiam dar no estabelecimento de um sistema de comunicações por cabos submarinos. A partir de 1870, os Britânicos visavam criar um sistema internacional de cabos submarinos que lhes iria dar vantagens estratégicas e económicas imprescindíveis, e de que pretendiam ter o monopólio. Como não podiam confiar muito na rede de comunicação pelo Mediterrâneo, que não dominavam, era-lhes indispensável a construção de linhas atlânticas. Por isso, em 1901, estabeleceram uma linha de comunicação de cabos para a África do Sul que passava pela Madeira, São Vicente (Cabo Verde), Ascensão, Sta. Helena e Cabo. Como linha suplementar, assentaram outra que partia da Madeira para as colónias inglesas da África ocidental, Gambia, Serra Leoa, Costa do Ouro, Nigéria até à África do Sul. Assim, nesta rede de comunicação, a ilha da Madeira desempenhava um papel de destaque. Os Alemães tentaram quebrar o monopólio britânico sobre os cabos submarinos mas este manteve-se até 1914. Com a invenção da telegrafia sem fios esperavam libertar-se da dependência face ao sistema britânico. Berlim estava já em 1914 em contacto directo, por telegrafia sem fios, com o Togo, onde haviam construído a importante estação emissora de Camina». In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

domingo, 3 de novembro de 2013

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «A 11 de Janeiro de 1890, o ministro da Inglaterra em Lisboa, apresentou ao MNE português uma intimidação do seu governo para a saída imediata das forças militares portuguesas do Chire e das regiões habitadas pelos Macocolos e Machonas»

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O interesse alemão no Atlântico português
«(…) Este pedido inglês revelava até que ponto as ilhas atlânticas começavam a ter papel decisivo no contexto da corrida anglo-alemã e no interesse demonstrado pelos alemães em obter bases na costa atlântica marroquina. Com este pedido, os britânicos mostravam o quanto receavam uma eventual influência alemã ou francesa nas ilhas atlânticas, já que um empréstimo a Portugal, garantido pelos rendimentos das ilhas Atlânticas, poderia abrir as portas a estes para um domínio, mesmo se indirecto, nas ditas ilhas, pondo em perigo, segundo alguns círculos navais britânicos, as rotas navais inglesas. Os britânicos tinham razões para temer a influência germânica em Portugal já, que a opinião pública portuguesa vivia ainda marcada pela corrente antibritânica causada pelo Ultimatum inglês de 1890. O Ultimatum tinha levado ao descrédito da Monarquia, com o consequente aumento do número de apoiantes dos republicanos, que utilizavam o ideal de uma missão lusa-ultramarina para fazer propaganda contra a Monarquia. Assim, aquando da Guerra dos Boers (1899-1902), os jornais portugueses expressaram geralmente opiniões antibritânicas, o que tinha largo eco no povo português. Só o rei e alguns dirigentes portugueses não pareciam compartilhar de tal sentimento. Difundira-se largamente no País, a ideia que era necessário libertar Portugal da tutela inglesa, sendo alguns da opinião que isso se poderia realizar com uma aproximação do Império Alemão. Segundo a historiadora portuguesa, Sacuntala Miranda: (...) existe em Portugal por todo o século XX, um corpo de opinião importante, cuja extensão e influência é difícil de avaliar, que nutre em relação à Alemanha uma admiração crescente.
Mercê da sua posição geográfica privilegiada, Portugal era encruzilhada de duas rotas atlânticas, a da África e a das Américas, e da rotas mediterrânicas. Lisboa, centro de comércio colonial, abria-se à penetração de várias influências, como a alemã. A importância de Portugal e das suas ilhas atlânticas e colónias não era de desprezar e o seu valor estratégico mostrava-se crucial no quadro da rivalidade naval anglo-alemã.

NOTA: A 11 de Janeiro de 1890, Georges Glynn Petre, ministro da Inglaterra em Lisboa, apresentou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português uma intimidação do seu governo para a saída imediata das forças militares portuguesas do Chire e das regiões habitadas pelos Macocolos e Machonas. Tratava-se de um Ultimatum ao Governo português. A esquadra inglesa que estava em Gibraltar preparava-se para seguir para a África Austral se o Governo português não recuasse. Perante a cedência à ameaça inglesa, a opinião pública culpou o rei de ser subserviente aos interesses britânicos.

A preocupação britânica de que os rendimentos das ilhas atlânticas portuguesas não fossem tidos como uma das garantias a um crédito para um empréstimo estrangeiro a Portugal levava, já em 1898, Salisbury a pedir ao marquês de Soveral, o ministro plenipotenciário português em Londres, para que o Governo português retirasse os rendimentos das ilhas adjacentes das negociações sobre um crédito externo. Nesta época, o que mais interessava aos britânicos era salvaguardar as ilhas atlânticas da influência de uma outra potência estrangeira. Num telegrama de Soveral ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Novembro de 1898, este relatava a conversa que tivera com Salisbury a este propósito: … nestas circunstâncias [do empréstimo externo a Portugal] parece-lhe [a Lord Salisbury] perigoso conferir a uma qualquer terceira potência um direito de ingerência que necessariamente derivaria dos rendimentos das alfândegas dessas ilhas.
Ora a terceira potência temida por Salisbury não podia ser senão a Alemanha, a França ou os E.U.A. Se uma destas potências conseguisse influência nas ilhas atlânticas portuguesas ou espanholas, como os Açores, a Madeira ou as Canárias, as rotas britânicas de acesso ao Mediterrâneo ocidental pelo Atlântico poderiam vir a ser ameaçadas. Não é pois por acaso que, no mesmo telegrama, o arguto diplomata desse importância ao facto de o Governo espanhol ter aceitado as exigências americanas do pós guerra, sob ameaça de que, se estas não fossem cumpridas, as ilhas Canárias ficariam em perigo». In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «Esta questão incluir-se-ia num vasto projecto germânico de domínio da costa atlântica portuguesa, que já vinha desde 1898, e que incluiria também o importante eixo das Canárias, costa marroquina, Gibraltar e Baleares»

Almirante von Tirpitz, 1849-1930
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Portugal e a nova relação de forças no Atlântico. Um plano estratégico naval conjunto, Portugal e Marrocos?
«(…) Em Abril de 1901, o diplomata austríaco, conde de Hohenwart, escrevia de Tânger referindo a influência crescente do ministro alemão, barão de Mentzingen, junto do sultão, a fim de obter influência germânica sobre pontos da costa atlântica marroquina, Mogador e Malabata: … desde que o barão de Mentzingen tomou a cargo os interesses alemães em Marrocos, o consulado alemão constitui o centro da política europeia em Marrocos. (...) Durante a sua curta estada o ano passado na côrte, o representante alemão não só obteve resposta satisfatória para todas as suas reclamações, como também conseguiu que o sultão aceitasse exigências de há anos, de interesse geral. Permita que saliente a este respeito, tendo em conta o relatório anterior, os seguintes assuntos: as questões de saneamento em Mogador e Malabata, a apresentação dos respectivos custos, a questão de cabo Espartel e a da ponte (...). Hohenwart salientava ainda os interesses comerciais alemães, concluindo que, em caso de que as potências europeias tivessem que tomar decisões sobre o futuro de Marrocos, a Alemanha teria tantos direitos como a Inglaterra e a França a pedir compensações: (...) Se um dia o destino de Marrocos vier a ser decidido e vier a constituir um factor de igualdade com a Inglaterra e a França, [a Alemanha] imporá os seus interesses, rápido e bem adquiridos, assim como a sua poderosa palavra.
Significativamente, já em 1900, Bülow revelava muito interesse em que o Acordo Anglo-Alemão sobre a Baía de Delagoa, sob controlo português, na província de Lourenço Marques, (actualmente Maputo) em Moçambique, fosse incluída a questão marroquina. As duas questões aparecem aqui nitidamente juntas no mesmo plano alemão de compensações: … não me admiraria se as novas configurações [políticas] ocasionadas pela guerra na África do Sul estimulassem a ideia de Chamberlain de chegar a um acordo concreto com a Alemanha sobre a Baía de Delagoa, em bases já antes acordadas, em que possivelmente Marrocos fosse então introduzido. A estratégia alemã parece clara: obter pontos navais no Atlântico, nomeadamente em Marrocos, utilizando a conjuntura desfavorável à Inglaterra da Guerra dos Boers. Assim a questão da Baía de Delagoa, porto e caminho de ferro, que para os Britânicos era uma questão prioritária, já que por aí pretendiam cortar a passagem de armas para o Transvaal, é utilizada por Berlim para levar os Ingleses a fazerem-lhe concessões. Note-se que as negociações anglo-portuguesas sobre o controle da Baía de Delagoa e sobre o caminho de ferro de Lourenço Marques, tinham já sido dificultadas pela Alemanha, que apresentara um protesto segundo o qual estas negociações não podiam ser concluídas sem ter em conta os interesses alemães. Chegados tarde ao scramble for Africa (corrida colonial) os Alemães optaram por uma estratégia de intervir em toda questiúncula colonial para depois pedir compensações, principalmente no que dissesse respeito a boas bases marítimas, portos e baías.
As negociações anglo-alemãs sobre as colónias portuguesas, que tinham sempre subjacente a questão da dívida portuguesa, serviam não só interesses alemães em Angola (Baía dos Tigres) e Minas de Otávi, mas também nas ilhas atlânticas assim como na questão marroquina (pontos navais na costa Atlântica de Marrocos). Se os Ingleses tinham a ilusão de satisfazer modestamente os Alemães na compra da sua neutralidade na questão boer, a verdade é que os Alemães só estavam dispostos a deixar os Boers à sua sorte e permitir que os Portugueses facilitassem os Ingleses o terem influência na região da Baía de Delagoa, se lhes fossem concedidos pontos estratégicos na costa atlântica africana como a Baía dos Tigres, no sul de Angola, e Walfisch Bay, na África ocidental alemã, assim como na costa marroquina. Mas as negociações anglo-alemãs tornam-se difíceis sob o lema salisburiano: Pede demasiado em troca da sua amizade.

O interesse alemão no Atlântico português
A política inglesa tinha sido, durante séculos, a de manter a dualidade peninsular, impedindo qualquer tentativa que pudesse pôr em causa a integridade de Portugal continental ou ultramarino, afim de assegurar para si a influência no Atlântico. Assim, na sua ambiguidade diplomática, a Inglaterra renovava a sua aliança com Portugal, em 1899, na Declaração de Windsor, que contudo mantinha secreta. Mas no que diz directamente respeito, no âmbito deste estudo, à questão das ilhas atlânticas, e mais concretamente da Madeira, o facto relevante é a exigência inglesa, a partir de 1898, de retirar das negociações da dívida portuguesa com os credores externos (que se prolongam até 1902) os rendimentos das ilhas atlânticas. Assim o pagamento da dívida era garantido exclusivamente pelos rendimentos das alfândegas do Continente». In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «A questão “inocente” dos sanatórios da Madeira servirá de pretexto para permitir aos Alemães tentar lograr o domínio do Atlântico. Em finais do século XIX, o Império alemão desempenha um papel nos destinos do país e da política externa»

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Portugal e a nova relação de forças no Atlântico. Um plano estratégico naval conjunto, Portugal e Marrocos?
«(…) No caso das colónias portuguesas, os Britânicos (ao contrário dos Alemães) não estavam muito interessados em ver estas divididas, já que a Grã-Bretanha tinha grande influência no Império colonial português, sem que para isso tivesse que reparti-lo. Uma das formas de exercer essa influência era pela aquisição do direito de preferência, segundo o qual a Inglaterra tinha, acima de qualquer nação, o direito sobre determinados territórios no caso de repartição destes. Assim, os Britânicos, conduzidos por Salisbury, tudo farão para impedir um empréstimo anglo-alemão a Portugal. As negociações com os credores externos arrastar-se-ão até, 1902, quando finalmente se acorda que o pagamento da dívida portuguesa será garantido exclusivamente pelos rendimentos das alfândegas de Portugal continental. A política inglesa, no entanto, caracterizar-se-á sempre por uma grande ambiguidade, sendo ainda de salientar as divergências de opinião no Gabinete inglês sobre a política externa. O pedido alemão de 1898, tem de ser visto no contexto do perigo que para a Grã- Bretanha seria a Alemanha apoiar o Transvaal e na aproximação França / Alemanha durante a crise de Fachoda. Um ofício de Bülow, então secretário de Estado do Auswärtiges Amt (Ministério dos Negócios Estrangeiros alemães) ao embaixador em Londres, Hatzfeldt, de 8 de Junho de 1898, pouco depois de Soveral ter sido enviado a Londres para pedir um empréstimo, revela bem que a prioridade dos dirigentes alemães é negociar com os Ingleses a aquisição de bases estratégicas navais, mais do que obter extensos territórios africanos: (...) Das notas do Kaiser ao relatório n.º 440 de S. E. poderá S. E. deduzir que, segundo a suprema vontade de S. M., os nossos objectos de compensações para uma eventual expansão territorial britânica em África não têm que ser necessariamente em África.

Aliás, Bülow precisava bem na folha anexa, o que queria que Hatzfeldt pedisse aos Britânicos como compensação, entre outros referia: Na África ocidental: l. Uma estação naval nas Canárias ou nas ilhas de Cabo Verde; 2. Fernando Pó; 3. Como fronteira entre o Togo e a colónia da Costa de Ouro, do Volta até à foz; 4. Angola, nomeadamente as partes do sul de Mossamedes e Benguela; 5. Walfisch Bay. A Madeira ou os Açores não aparecem ainda aqui referidas, mas os relatórios da Marinha alemã, de 1901, demonstram já um grande interesse pela ilha da Madeira. Bülow referia ainda outras possibilidades de compensações na África oriental, no Timor português, nas ilhas de Samoa e nas Filipinas. Parece-nos provável que as negociações anglo-alemãs sobre as colónias portuguesas tivessem como objectivo prioritário levar a Inglaterra a ceder bases marítimas, sendo de importância mais secundária a obtenção de grandes extensões de territórios coloniais portugueses em Africa, já que Bülow salientava que as compensações alemãs não tinham que ser necessariamente em África. Obtidas bases navais no Atlântico e no Pacífico, a Alemanha poderia, então, erigir um vasto império colonial. Do lado alemão, o Acordo sobre as Colónias Portuguesas seria utilizado, em 1899 e 1900, sobretudo como meio de pressão sobre os Ingleses. Isso pode deduzir-se do que Hatzfeldt conversara com Salisbury sobre Marrocos. Tal não significa, no entanto, que os Alemães não estariam interessados nas colónias portuguesas, mas nestas, era fundamental, o domínio ou influência nos portos ou baías portuguesas em África, já que as colónias alemãs não tinham bons embarcadouros. Na realidade, em 1900, os Alemães demonstravam um vivo interesse na Baía dos Tigres, no sul de Angola, já que pretendiam explorar as minas de cobre de Otávi, e transportá-lo por caminho de ferro até à Baía dos Tigres. Quando, anos antes, Londres reconhecera o direito de cedência à Alemanha de toda a costa atlântica entre o Orange e a fronteira do sul de Angola, oferecera um presente envenenado. Os únicos bons portos naturais desta área geográfica eram Walfisch Bay, dominado pelo Cabo, e a Baía dos Tigres, no sul de Angola, sob domínio dos Portugueses. Um telegrama de Pindela a Veiga Beirão, ministro dos Negócios Estrangeiros, de Julho de 1900, explicita bem as dificuldades das relações luso-alemãs desse tempo: (...).A dificuldade das nossas relações com a Alemanha está em não termos interesses comuns e em possuirmos pontos na África, como a Baía dos Tigres, de que a Alemanha carece». In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «Desde meados do século XIX, Portugal tinha contraído vultuosos empréstimos, devido à precariedade da sua situação financeira e económica. A dívida pública atingia, em 1898, valores exorbitantes que obrigavam o Governo português a recorrer a medidas extremas»

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Portugal e a nova relação de forças no Atlântico. Um plano estratégico naval conjunto, Portugal e Marrocos?
«(…) Tratava-se de advertir a Inglaterra que, de futuro, a Alemanha não deixaria que os seus interesses fossem menosprezados. É claro que nesta época, os alemães podiam utilizar sempre o meio de pressão de que, no caso de os seus pedidos não serem tidos em conta, apoiariam as repúblicas boers contra a Inglaterra, o que era muito receado do lado britânico. E após deixar claro o seu advertimento, Hatzfeldt aborda o que é realmente importante para os alemães, a obtenção de bases na costa atlântica, nomeadamente em Marrocos. Mas só recebe, de novo, uma resposta evasiva de Salisbury:

Quando eu finalmente fiz ainda uma tentativa para levar lord Salisbury a esclarecer confidencialmente quais os pontos da costa marroquina, excluída Tânger, a que a Inglaterra dava especial valor, ele respondeu-me que os seus conhecimentos de geografia a respeito daquela costa não eram suficientes para se pronunciar sobre isso hoje.

Se numa Espanha humilhada, que se virava agora para o Mediterrâneo a fim de sarar as suas sequelas da guerra, se recebia com agrado as ideias alemãs, já em Inglaterra o mesmo não se passava. O gabinete inglês estava muito dividido quanto a um acordo com a Alemanha sobre Marrocos, assim como sobre a nação moribunda, Portugal, segundo a terminologia de Salisbury. As duas questões, aparentemente separadas uma da outra, são curiosamente referidas muitas vezes pelos diplomatas alemães em conjunto, e ao longo dos anos. Tal levou-nos gradualmente a concluir tratar-se mais do que uma coincidência, pois tal poderia talvez significar que, na mente dos dirigentes alemães, as duas questões se incluiriam no mesmo plano de exercer uma influência na costa atlântica. Assim o acordo secreto anglo-alemão sobre a divisão das Colónias Portuguesas aparece com novas facetas.
Não sendo objectivo do nosso estudo a análise aprofundada deste acordo, parece-nos no entanto importante lembrar os seus traços principais e integrá-lo no contexto de grave crise económica e financeira portuguesa. Desde meados do século XIX, Portugal tinha contraído vultuosos empréstimos, devido à precariedade da sua situação financeira e económica. A dívida pública atingia, em 1898, valores exorbitantes que obrigavam o Governo português a recorrer a medidas extremas. Os principais credores estrangeiros eram ingleses, franceses e alemães. Iniciavam-se assim negociações difíceis com os credores externos, que iriam durar anos. O escolho principal era a relutância portuguesa em garantir os empréstimos externos com os rendimentos coloniais, pois tal significaria pôr em causa a integridade das colónias portuguesas, o que para a mentalidade portuguesa era impensável. Em meados de 1899, o Governo português prefere não efectuar alguns pagamentos aos credores externos do que tocar nas reservas do País e, em 1900, circulam boatos de que se o Governo não pagasse a dívida se concretizaria um acordo secreto entre a Inglaterra e a Alemanha sobre as colónias portuguesas.
Em Junho de 1898, o ministro plenipotenciário alemão em Lisboa, conde de Tattenbach, advertira Berlim que o marquês de Soveral, ministro de Portugal em Londres, se dirigia a Londres para pedir um vultuoso crédito. Este seria garantido pelos rendimentos das alfândegas das colónias portuguesas. A 14 de Junho de 1898, Hatzfeldt avisava lord Salisbury, que um crédito britânico directo a Portugal não seria bem visto em Berlim. Soveral pretendia o apoio inglês para a situação de colapso financeiro, mas parte do Governo português e a opinião pública, claramente anti-inglesa, reagiram de forma violenta a um empréstimo que punha em perigo as colónias.

NOTA: Luís Augusto Pinto, primeiro marquês de Soveral (1853-1922), fidalgo da casa real, conselheiro de Estado e do Ministério dos Negócios Estrangeiros, além de embaixador extraordinário. Aspirante de marinha, estudou depois ciências políticas, ingressando na carreira diplomática como adido à legação portuguesa em Madrid. Seguidamente esteve em Viena de Áustria (1877) e em Berlim, voltando para Espanha em 1881. Seguiu para Roma (1884) e por fim, em 1890, para Londres, como chefe da missão diplomática lusa. Na Grã-Bretanha assistiu à crise do Ultimatum, esforçando-se em melhorar as combalidas relações luso-britânicas. Foi promovido a 13. 1. 1891 a ministro plenipotenciário em Londres, onde ficou até 1910, com excepção dos anos de 1895-1897, em que exerceu o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Tornou-se entretanto amigo do príncipe de Gales, o futuro Eduardo VII, sendo o único diplomata que usufruía da intimidade da família real inglesa. Tinha a alcunha de macaco azul (blue monkey). Em 1898, recebeu o pariato e o título de marquês. Em 1922 morre em Paris.

Este pedido de empréstimo foi encarado, em Berlim, como uma oportunidade para protestar contra um acordo unilateral luso-inglês sobre um empréstimo a fim de propor, como alternativa, um crédito conjunto anglo-alemão a Portugal. A 30 de Agosto, era assinado o Acordo secreto Anglo-Alemão sobre a divisão das Colónias Portuguesas e, em Setembro de 1898, os ministros alemão e inglês, separadamente, informavam o Governo português que tinha sido assinado um Convénio entre os dois países para dar um crédito conjunto a Portugal. Segundo o Acordo secreto, estipulava-se que, se Portugal não conseguisse cumprir as condições do empréstimo, as colónias portuguesas seriam divididas entre a Alemanha e a Inglaterra. Nas negociações anglo-alemãs, Hatzfeldt pedia para compensação do controlo inglês de Delagoabay, Walfishbay, a boa baía da colónia do sudoeste alemã, em mãos do Cabo, Samoa, e Timor. Era prioritário para os Alemães a aquisição de bases navais que fornecessem carvão, os fulcra marítimos, como lhes chamava o imperador, e para obtê-las, era estratégia da política alemã provocar dificuldades aos britânicos, sem no entanto pôr em causa as posições vitais inglesas, a fim de obter compensações. Assim, na questão vital do Transvaal, o arguto Hatzfeldt aconselhava o seu governo a não intervir mas, antes, em chegar a um acordo com os ingleses com base em compensações. Esta política repetir-se-á ao longo dos anos seguintes». In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial. Gisela Medina Guevara. «… numa audiência com o Kaiser, de visita a Inglaterra, sugerira um acordo com a Alemanha sobre Marrocos, em que Tânger ficaria para a Inglaterra e a costa atlântica marroquina para a Alemanha»

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Portugal e a nova relação de forças no Atlântico. Um plano estratégico naval conjunto, Portugal e Marrocos?
«Nos inícios do século XX a Inglaterra vê dois países, a Alemanha e os E.U.A. disputarem-lhe a supremacia naval. A Alemanha só poderá ser um sério competidor se obtiver bases navais ou bons portos fora do Mar do Norte, no Atlântico. A sua política vai pois ser a de tentar obter concessões em zonas estrategicamente importantes. Os Açores, a Madeira, as Canárias, Marrocos, Fernando Pó, Cabo Verde e a Baía do tigres, a sul de Angola, assumem assim grande valor. As ilhas portuguesas, Açores e Madeira, são boas bases de reabastecimento para os navios a carvão que seguem as rotas entre a América latina e a Europa, a América e o Mediterrâneo ou mesmo entre a África e a Europa. Para compreender o interesse alemão nas ilhas atlânticas portuguesas e o papel do desafio do imperialismo germânico na relação de Portugal com o exterior. Vejamos as linhas de força de estratégia naval e política no contexto da rivalidade naval anglo-alemã. A 24 de Novembro de 1899, Joseph Chamberlain, numa audiência com o Kaiser, de visita a Inglaterra, sugerira um acordo com a Alemanha sobre Marrocos, em que Tânger ficaria para a Inglaterra e a costa atlântica marroquina para a Alemanha.

NOTA: Guilherme II, imperador alemão (1359-1941) imperador da Alemanha e rei da Prússia desde 15. 6. 1888, filho do imperador Frederico III e da princesa inglesa Vitória, coroada imperatriz Frederica. Entrou em conflito com Bismarck devido a divergências face à política alemã. O velho chanceler apresentou a sua demissão em Março de 1890. Em política interna, Bismarck levava, desde 1879, uma luta contra o socialismo e o sindicalismo. O imperador temia que a luta contra o operariado viesse a provocar grande instabilidade social e política. Em política externa, o imperador era muito influenciado pelos meios militares que criticavam a política russa de Bismarck, acusando-o até de russofilia. Após a demissão do chanceler, o Governo alemão renunciou a manter um acordo secreto com a Rússia. Além disso, o imperador, ambicioso, queria fazer da Alemanha uma potência naval que viesse a estar em pé de igualdade com a Inglaterra. Em 1896, Guilherme II anunciava, num discurso feito na Sociedade Colonial Alemã, que a Alemanha ia realizar uma política mundial (Weltpolitik), apoiada pelo desenvolvimento da frota mercante e da de guerra. Em 1898, realizava uma viagem ao Médio Oriente e em 1905, desembarcava em Tânger. Renunciou ao trono em 1918, exilando-se na Holanda.

Este plano não tinha aparentemente a ver com Portugal, mas a 8 de Fevereiro de 1899, alguns meses antes da audiência de Chamberlain com o Kaiser, Hatzfelt, (foi ministro plenipotenciário em Madrid, onde assistiu às guerras carlistas. Era designado por o melhor cavalo da cavalariça) em conversa com Salisbury, fizera referência a boatos em que a Espanha, depois da guerra com os E.U.A., buscaria uma recompensa em Portugal ou em Marrocos. Hatzfeldt trata a questão marroquina e a portuguesa como se estas fossem paralelas, já que tanto refere Marrocos como Portugal e salienta por fim a forma dúbia como Salisbury responde às perguntas que lhe faz, evitando comprometer-se tanto com uma eventual divisão das colónias portuguesas como com a partilha da costa marroquina. O propósito de Hatzfeldt parece ser, o de utilizar a questão do Acordo sobre as Colónias Portuguesas para levar Salisbury a ceder na questão vital para a Alemanha das bases na costa atlântica marroquina:

Saliento a este propósito, que o Primeiro Ministro utilizou esta palavra [divisons, divisons] acerca das negociações portuguesas, em oposição à palavra partageons, para com isso deixar claro que não reconhecia o dever de ter de dividir connosco, em metades iguais, as colónias portuguesas.

Logo após referir a questão das colónias portuguesas, Hatzfeldt faz uma ameaça velada a Salisbury:

Respondi-lhe, em virtude da sua afirmação de hoje, que a Inglaterra ficava também com a melhor parte no Acordo português, sem que nós tivéssemos feito grande objecção. Em casos futuros, o nosso comportamento, ia depender também da Inglaterra ter em consideração os nossos interesses».

In Gisela Medina Guevara, As Relações Luso-Alemãs antes da I Guerra Mundial, A Questão da Concessão dos Sanatórios da ilha da Madeira, Faculdade de Letras de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997, ISBN 972-8288-70-0.

Cortesia Colibri/JDACT

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Prémio Afonso X, O Sábio. Leituras. A Última Muralha. O Maior Exército na Península Ibérica. Jesús Sánchez Alalid. «”É uma injustiça! Não podemos pagar! De onde é que vamos tirar o dinheiro? Como vamos dar de comer aos nossos filhos? Como vamos viver? Alá nos defenda! Justiça! Justiça e honestidade” em nome de Alá!»

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«- Nada! Nada me resta deste casamento! Nem marido, nem filhos, nem casa! Maldita! Maldita cegonha! - Maldita cegonha! Maldita cegonha! Maldita cegonha!... – repetia Judit. Após a oração da tarde, o wali de Mérida, Mahmud al-Meridi, deparou-se na porta da mesquita Aljama com uma multidão violenta e vociferante. Não o esperava e perdeu a sua compostura. Estava acompanhado pelo seu secretário privado, pelo mufti e por um grupo de notáveis. Ficaram todos surpreendidos e trocaram olhares cheios de preocupação.
O chefe da guarda adiantou-se e, em plena rua, gritou para a multidão enfurecida: - O que se passa? Porque protestam desta maneira? Fez-se silêncio. Raios de luz enérgica enfrentavam as nuvens escuras que pressagiavam chuva. O ar estava fresco, mas os ânimos estavam acalorados. - Abram alas! Afastem-se imediatamente! - rugiu o chefe da guarda. - Deixem passar o governador!
Ninguém se mexeu. O wali Mahmud al-Meridi permanecia inescrutável, determinado a não permitir que percebessem o seu desconcerto. Vestia uma túnica berbere, sapatos de gazela africana e turbante de damasco; os seus olhos negros brilhavam num rosto de pele escura e a sua barba ampla espalhava-se, ondulada e entremeada de branco, pela parte superior do peito. O secretário particular sugeriu-lhe ao ouvido, com toda a humildade, que perguntasse pelo cádi dos muladis. O wali perscrutou a multidão com um olhar duro e perguntou finalmente: - Está entre vocês Sulayman Aben Martin?
Ouviu-se um murmúrio denso, que foi crescendo até se converter, de novo, em gritaria. De seguida, vários homens abriram caminho, avançando até à porta da mesquita. Entre eles destacava-se um, alto, de constituição delgada e com uma barba ruiva cuidada que, fazendo-se ouvir acima dos demais, disse: - Aqui estou!

As línguas emudeceram-se e todos os olhos se fixaram nele, antes de se voltarem, curiosos, para ver a reacção do wali. Este, olhando com condescendência para o homem alto de barba ruiva, disse: - Sulayman Aben Martin, meu amigo, hoje é sexta-feira e acabámos de colocar os nossos corações nas mãos do criador. O que pode perturbar as vossas almas ao ponto de se reunirem aqui, armando esta confusão?
A multidão exaltou-se e irrompeu de novo um murmúrio ensurdecedor e confuso. Até que o chefe da guarda gritou com severidade: - Silêncio! Deixem que o cádi dos muladis responda!
As vozes silenciaram-se. O tal de Sulayman endireitou-se e, com uma expressão angustiada, falou do seguinte modo: - Wali Mahmud al-Meridi, governador e juiz supremo de Mérida, nenhum dos que aqui estão deseja estragar-lhe a sexta-feira, nem trazer à sua alma preocupações maiores do que aquelas próprias da dignidade do seu cargo. Deus é o Criador e o Senhor, que dispõe segundo os seus desejos. Ele diz "" e existimos; ‘não sejas’ e não existimos. E quem entre nós pode acrescentar ou retirar algo àquilo que decidiu sobre as nossas vidas? Nem eu, que o Todo-Poderoso me livre, acrescentarei nada esta manhã àquilo que o mafti disse, com toda a sabedoria, no sermão, no minbar da mesquita de Aljama. Mas bem o sabem todos os fiéis aqui reunidos que pregou sobre a purificação, a base da fidelidade dos crentes para com Deus único e o Seu Profeta Maomé e o cerne da honestidade que um homem deve a si mesmo e aos outros.
Sulayman teve de interromper o seu discurso, já que todos à sua volta tinham começado a aplaudir. Então o wali ergueu nervosamente as mãos e exclamou: - Deixem-no terminar! Como posso saber o que vos traz, aqui, se não param com este escândalo? O cádi dos muladis elevou de novo a voz e disse: - A nossa cidade não está feliz! Foi um ano muito mau para todos. Não parou de chover desde o fim do jejum e as colheitas ficaram arruinadas, as estradas estão intransitáveis e não há, forma de se tirar nada das hortas. É verdade que há erva com fartura, mas as ovelhas têm os cascos doentes por causa de tanta água... O Todo-Poderoso assim o quis! Bendita seja a sua vontade! Pois Ele dá e tira e ninguém ousará questionar os seus desígnios.


Mas, apesar de ter sido tão desfavorável o tempo e tão grandes as perdas, nem por isso diminuíram os impostos, sendo sim cada vez maiores. As pessoas estão desesperadas!
As vozes intensificaram-se. Alguns gritavam furiosos: - É uma injustiça! Não podemos pagar! De onde é que vamos tirar o dinheiro? Como vamos dar de comer aos nossos filhos? Como vamos viver? Alá nos defenda! Justiça! Justiça e honestidade em nome de Alá!
Embora o wali Mahmud se esforçasse por aparentar calma, o seu rosto começava a deixar transparecer a inquietação que o dominava. Em gesto de aviso, o secretário particular aproximou-se dele e aconselhou-o entre dentes: - Será melhor ir para o palácio. Isto pode tornar-se complicado... O chefe da guarda ordenou aos guardas que se pusessem diante do cortejo. As pessoas afastaram-se com grande relutância e continuaram a gritar bastante alto: - Alá é Grande! Justiça em seu nome! Misericórdia! Baixem os impostos!...
Por seu lado, o cádi dos muladis e os seus companheiros tentavam recuperar a ordem para continuar a conversa, mas a turba não estava disposta a ouvir ninguém, apenas querendo manifestar a sua raiva». In Jesús Sánchez Alalid, Alcazaba, Ediciones Planeta, 2012, A Última Muralha, Mouros, Cristãos e Judeus unidos pelo Direito à Liberdade, Marcador Editora, 2012, ISBN -978-989-8470-57-7.

Cortesia de Marcador/JDACT

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Problematizar a Sociedade. A desconhecida sociedade em que vivemos, que caminhos para a compreendermos? «Acreditar que, agentes económicos, são norteados pela busca da utilidade máxima, e disposição a um esforço mínimo não passa de construção artificial com base na ‘racionalidade’»

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«Apresenta-se-nos como constelação de estruturas, entidade colectiva que transcende a soma das partes de que se compõe. Assim sendo, fica definido o tema de uma ciência da sociedade, a sociologia. Esse tema é a apreensão da realidade social na sua totalidade, é o estudo cientificamente conduzido do que Marcel Mauss denominou de facto social total. Coloquemo-nos numa situação concreta. Ao mercado acorre um camponês que pretende adquirir trigo e tem leite para vender. Outros dos presentes pretendem igualmente adquirir trigo, mas dispõem de dinheiro, uns, outros vendem diferentes artigos. A análise económica abstrai-se das pessoas, considera de um lado as ofertas - leite, trigo, ovos, panos, por exemplo, e de outro lado a procura de cada um dos bens; joga com as quantidades oferecidas e pretendidas, com as disponibilidades monetárias de compradores e vendedores. Com base nestes dados, traçam-se as curvas de indiferença, pelas quais se determinam os preços das mercadorias. Dir-se-ia estarmos numa esfera ou área estritamente demarcada, a esfera do económico. Na realidade não é bem assim. Compradores de trigo, vendedores de leite não são autómatos, cuja conduta se carrila exclusivamente para estes actos, são seres humanos de vida complexa, cada qual habituado a um sistema alimentar, com as suas preferências e necessidades, com família a sustentar, ou que exercem a mercancia e vêm de longes terras. No seu comportamento podem até interferir tabus religiosos ou pressões das circunstâncias. Acreditar que, agentes económicos, são norteados pela busca da utilidade máxima, e disposição a um esforço mínimo não passa de construção artificial com base na racionalidade da conduta (entendida essa racionalidade num sentido específico); ora as condutas podem ser, são frequentemente, irracionais, se medidas por esse critério. Se queremos compreender a fundo esse desenrolar de actos, na aparência estritamente económicos, temos de não nos contentar com o guignol de marionetes que encarnam abstracções e de animar a cena com homens de carne e osso, moldados desde a infância por tradições, executando ritos segundo um sistema de crenças, acreditando em valores, marcados por símbolos, ritmados por hábitos, abalados por emoções, conformando-se com padrões de atitudes colectivas. Há a posição social, com o fausto dos de mor condição no vestuário e na mesa, ostentando as carruagens, nomeados pelas esplendorosas recepções; ou os burgueses de trajes escuros e despesas contadas.
Mas também está em jogo o regime jurídico da propriedade, as normas a que obedecem as trocas, eventualmente a organização de empresas e a mentalidade empresarial. Porque não são actos sempre individuais, podem interferir organizações, por exemplo, cooperativas de consumo ou cartéis de vendedores. Nos simples actos de compra e venda está implicada toda a complexidade da vida psíquica e da vida social. Cada facto remete-nos para uma teia de circunstâncias, determinações, consequências cuja avaliação retrocede a orientar a escolha e os cálculos de que se rodeia. É pois de factos sociais totais, com a sua multiplicidade de facetas, tal como os entendia Marcel Mauss, que se trata». In Vitorino Magalhães Godinho, Problematizar a Sociedade, Quetzal Editores, 2011, ISBN 978-972-564-946-6.

Cortesia de Quetzal Editores/JDACT

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Prémio Afonso X, O Sábio. Leituras. A Última Muralha. O Maior Exército na Península Ibérica. Jesús Sánchez Alalid. «Tivera uma premonição, uma espécie de sinal, no dia em que uma cegonha lhe c…. na cabeça, quando passava em frente à porta do seu futuro genro, e este se ofereceu gentilmente para lhe limpar a sujidade…»


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‘Uma reflexão penetrante acerca das relações humanas, da liberdade, do amor e da procura pela verdade’.
«No dia a seguir ao funeral, de manhã, Judit estava sentada à sombra, debaixo da frondosa figueira que espalhava os seus ramos retorcidos em frente da casa. Ninguém tinha vindo vê-la desde que o cortejo fúnebre se dispersara no cemitério na tarde anterior e, talvez por isso, permanecia na expectativa e, de certo modo, escondida por entre as folhas verdes. O aroma suave e doce dos figos maduros parecia aumentar a sua tristeza.
Tinha colocado um belo vestido novo, branco, que se não fosse pela dor lhe daria um ar festivo. Lembrou-se do motivo pelo qual o fizera, cumprindo o pedido de Aben Ahmad, e o desgosto que sentiu por ter pago tanto pelo tecido de seda. O gasto obrigara o marido a desfazer-se do escravo robusto que o levava todos os dias aos banhos, o colocava na água, lavava, vestia e voltava a meter na cama. ‘Já não vou precisar dele’, previra o defunto duas semanas antes de entrar em agonia, adivinhando que o seu fim estava próximo. Depois de vender o escravo, ordenou à Formosíssima que comprasse o tecido e fizesse o vestido. ‘Ser-te-á necessário para encontrares um novo marido’, dissera-lhe.
Nessa altura, ela não retorquira. Sabia bem que era inútil discutir com Aben Ahmad, embora tivesse decidido que se ele morresse nunca mais voltaria a casar. Estas memórias causavam-lhe desgosto e raiva. Pensou, então, ir passear pelo mercado, como fazia sempre todas as manhãs de sábado. O seu desespero e a raiva incitavam-na a sair e a ir até lá, mas reteve-a o temor de que pudessem pensar mal dela e talvez sussurrar: “Olhem, ali vai a Formosíssima com um vestido novo, enquanto o aleijado Aben Ahmad ainda está quente no túmulo”. Isto parecia-lhe assustador e desmesurado, especialmente porque ninguém sabia que tinha jurado ao seu marido, no leito de morte, que colocaria o vestido novo no dia a seguir ao funeral.
Judit também se sentia angustiada por descobrir que, sob o manto do seu desgosto, se escondia um lampejo brilhante de esperança e um incipiente toque de alegria. Tentava evitá-los, mas um prazer reluzente, impercetível e ambíguo misturava-se com os sentimentos de injustiça e de solidão. Então, pensou que a culpa era do vestido e, deste modo, sentiu um certo alívio. ‘Foi um capricho seu, disse a si mesma. Nunca quis comprar o tecido nem fazê-lo. Não teria sido melhor, perdoai-me, meu Deus, vestir roupas velhas e cobrir a cabeça com cinzas?’, Mas as promessas feitas na hora da morte são sagradas e, embora isso seja do conhecimento geral, neste caso, esta promessa era desconhecida das pessoas. Não havia uma única testemunha que pudesse afirmar que o vestido não era um desejo seu, mas sim do defunto.
Enredada nestes pensamentos, Judit sentia-se prisioneira, como tantas vezes ao longo da sua vida. Como se tinha sentido desde o momento em que o seu pai, Abdias ben Maimun, metera na cabeça que ela se deveria casar com Aben Ahmad e mais nenhum outro, porque estava convencido de que ele era o único que poderia fazê-la feliz. Tivera uma premonição, uma espécie de sinal, no dia em que uma cegonha lhe c.... na cabeça, quando passava em frente à porta do seu futuro genro, e este se ofereceu gentilmente para lhe limpar a sujidade, ao mesmo tempo que aproveitava para lhe pedir a filha em casamento. ‘Nada neste mundo acontece por acaso, declarou Abdias. Um sinal dos Céus não deve ser ignorado’. E ninguém foi capaz de o convencer que era uma loucura casar uma rapariga de dezasseis anos, virgem, tão bela que podia aspirar a um pretendente melhor, com um homem tão comum e banal como Aben Ahmad, que ganhava avida a colocar telhas; um pedreiro maduro, fraco e calado, que caiu do beiral de um telhado pouco depois do casamento, ficando inútil para tudo, até mesmo para os esforços que o amor exige.
Judit quase não tinha dormido durante a noite, dando voltas a estas memórias na sua cabeça, e agora, embora o seu cotação palpitasse de tristeza, começava a sentir a fadiga a vencê-la e cerravam-se-lhe os olhos na frescura e no silêncio debaixo da figueira.
Os sonhos arrebataram-na por um momento e a sua mente pareceu dissolver-se, feliz, no nada, mas uma voz estridente e desagradável depressa a acordou:
 - Judit! Onde estás, rapariga?
Olhou para a rua poeirenta e viu a sua velha cunhada, Tova, que se aproximava, caminhando com dificuldade apoiada num bastão de castanheiro.
 -Judit! – continuava a gritar. – Vem depressa, que estou à porta! A Formosíssima abandonou o seu agradável refúgio com desagrado, mas não o demonstrou. - Não grite, Tova. Estou aqui, junto à figueira.
[…]
 - Não se preocupe com esta viúva - respondeu irritada. – Deus cuidará de mim.
 - E sem casa! Sem ter sequer casa! - exclamou Tova, fingindo enxugar com o véu as lágrimas que não parava de deitar. - Hã?... Sem casa?... Perguntou Judit completamente confusa. - Sim, minha irmã, sem casa, sussurrou a cunhada com voz fraca. - O que diz?! Esta é a minha casa! Tova levantou-se e pôs-se diante dela. A sua expressão de aflição tornara-se agora dura e arrogante. Disse: - Nada disso! Não sabes que esta casa era do meu pai? Deixou-o bem claro perante o cádi: o meu falecido irmão recebia-a apenas a título de empréstimo, enquanto vivesse.
[…]
 - Nada! Nada me resta deste casamento! Nem marido, nem filhos, nem casa! Maldita! Maldita cegonha! Maldita cegonha! Maldita cegonha! Maldita cegonha!... – repetia Judit». In Jesús Sánchez Alalid, Alcazaba, Ediciones Planeta, 2012, A Última Muralha, Mouros, Cristãos e Judeus unidos pelo Direito à Liberdade, Marcador Editora, 2012, ISBN -978-989-8470-57-7.

Cortesia de Marcador/JDACT

sábado, 15 de janeiro de 2011

António Barreto: Portugal, um Retrato Social. Parte VI. Igualdade e conflito. As relações sociais

Cortesia de ionline

O autor António Barreto, Sociólogo, produziu uma série televisiva com função científica, onde tentou encontrar respostas às perguntas mais simples sobre o Portugal do século XXI.
  • Quem somos?
  • Onde vivemos?
  • Como trabalhamos?
  • Que saúde, que educação e que justiça temos?
António Barreto recorreu à comparação com o que éramos há três ou quatro décadas e sublinhou as grandes mudanças ocorridas desde então.

«É o mesmo país, mas os portugueses já não são os mesmos. Mudámos muito, em pouco tempo. Podemos viver melhor ou não, mas vivemos de modo diferente».

Igualdade e conflito. As relações sociais
As famílias portuguesas têm hoje mais rendimentos e mais conforto. Em vinte ou trinta anos, o bem-estar melhorou mais que nos cem anteriores. Cresceram as classes médias. Desenvolveu-se a sociedade de consumo de massas. O comércio, as modas, a escola, a televisão e a cultura fazem uma sociedade onde todos parecem iguais. Mas subsistem diferenças muito importantes de classes, de poder económico, de geração, de sexo e de região.



Cortesia de António Barreto/wikipédia/RTP/JDACT