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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

O Amor Venceu. Zibia Gasparetto. «Traziam dois clarins e postando-se erectos, desceram as cortinas, tocando em seguida, como era da praxe, o sinal para anunciar o soberano»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Naquela tarde, o povo rumava para o pátio externo do palácio, conhecedor da chegada, pela manhã, da caravana de Pecos. Viam-se criaturas de todos os tipos: lavradores vestidos com suas túnicas de pano vermelho ou de listado preto e amarelo, mulheres carregando os filhos pequeninos às costas, jovens alegres, sacudindo os brincos reluzentes, deslizando como felinos pelas ruas poeirentas, com suas túnicas colantes, deixando a nu seus ombros morenos e parte do colo exuberante, calçando finas sandálias de couro de cabra e trazendo os véus cobertos de pedrarias que tilintavam e luziam aos reflexos solares. No palácio, a actividade ia em meio. Escravos cruzavam os vastos salões enfeitados de brocado e púrpura, numa azáfama constante, dispondo objectos e flores em cochichos e risinhos abafados.

Dali a poucos instantes começaria o festim. Décios, escravo que gozava de singulares regalias perante Pecos, e consequentemente perante o Faraó e seus sacerdotes, dirigia os outros escravos, nem sempre deixando-se levar pela benevolência e compreensão. Ostentava naquele dia uma túnica cor de vinho, com uma insígnia de pedras no peito, presa ao pescoço por um cordão azul. Fora um régio presente do Faraó por um serviço prestado, que ele orgulhosamente ostentava nas ocasiões festivas. Décios, pressurosamente, dirigiu-se à sala do banquete, examinando mais uma vez se tudo estava como determinara. Sorriu embevecido: na sala havia magníficas flores, frutos, nozes, tâmaras, uvas, pães, carne e muitos outros apetitosos manjares daqueles dias: tudo disposto sobre maravilhosos coxins de púrpura e ouro ao redor das paredes cobertas por finos tecidos da Pérsia e da Macedónia. No centro, a pista onde as dançarinas deveriam efectuar seus bailados, tendo em cada canto, piras, donde saíam constantes línguas de fogo que os escravos reavivavam amiúde, ajuntando-lhes finos extractos de ervas aromáticas que balsamizavam a sala agradavelmente. Os archotes já estavam preparados para serem utilizados assim que o sol se escondesse no crepúsculo róseo do céu de Tebas. O barulho lá fora já principiara, demonstrando que o povo aguardava o início da festa com impaciência. As liteiras e os cavaleiros já começavam a chegar ao palácio e os salões receptivos regurgitavam. Súbito, dois pajens, vestindo a túnica da antecâmara do soberano, saíram pelas cortinas que circundavam o coxim do Faraó. Traziam dois clarins e postando-se erectos, desceram as cortinas, tocando em seguida, como era da praxe, o sinal para anunciar o soberano. Imediatamente o silêncio se estabeleceu. Um homem magro, calvo, moreno, envergando túnica de alvo linho, coberta de pedrarias rutilantes, carregando ao peito a Grã-pedra, penetrou majestosamente no salão. Era o Faraó. Todos se curvaram em reverência. Meus amigos, disse ele, saúdo-vos e como anfitrião, espero que todos façam jus à minha hospitalidade. Desejo saudar em particular o emissário que valorosamente cumpriu mais uma vez a sua missão em terras distantes. Do outro lado da sala, entrando garborosamente, fazendo reluzir seus atavios, surgiu um homem, seguido por mais seis outros, com suas lanças e escudos, em fila dupla.

Pecos, que caminhava à frente, adiantou-se e postado aos pés do Faraó o adorou, saudando-o gentilmente. Levanta-te, Pecos. Estou satisfeito com o cumprimento da tua missão e quero agraciar-te com a Grã-pedra opalina, para premiar o teu desvelo e tua perícia. Acercou-se então dele, já em pé, e colocou-lhe ao pescoço a grande e maravilhosa pedra rutilante, presa por um cordão luzidio. Pecos agradeceu reverente e ia retirar-se quando o Faraó continuou: hoje és o homenageado, portanto, participarás da minha ceia, ao meu lado. Antes quero aparecer à janela contigo e com Potiar, pois o povo quer aplaudir-te.

Pecos, altaneiro, na exuberante beleza de seus 30 anos, simpático e forte, surgiu à plataforma que dava para o pátio externo. O povo aclamou freneticamente, satisfeito pelo início da cerimónia, ansioso por começar a divertir-se. O Faraó, que aguardava um pouco atrás, adiantou-se por sua vez e disse: meu povo! Eis o nosso herói, que mais uma vez retorna de uma missão rendosa para o nosso país. Trouxe-nos muitas conquistas e, portanto, ordeno que seja iniciada a distribuição de vinho, trigo e frutos a todos os presentes e que seja também iniciada a música para o vosso divertimento!» In Zibia Gasparetto, O Amor Venceu, 1958, Edição Vida e Consciência, 2005, ISBN 978-858-587-201-4.

Cortesia de EVeConsciência/JDACT

JDACT, Zibia Gasparetto, Literatura,

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Nada é por Acaso. Zibia Gasparetto. «Ele costuma ir a esse clube. Não estou interessada. Ele é um pedaço! Se fosse comigo, não ia perder a vez…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Vendo-a assoberbada de trabalho, Bete meneava a cabeça contrariada: estão abusando de si. Além de ficar lá até tarde todos os dias, ainda traz trabalho para o fim de semana? Não acha que é demais? Preciso adquirir experiência. A vantagem é minha. Enquanto isso eles lhe pagam pouco e ganham dinheiro à sua custa. Não seja mercenária! Eu gosto de trabalhar. Faço isso por mim, não por eles. Um dia ainda terei tudo quanto desejo. Se não acabar antes. Hoje tem um baile no clube em que o Carlos é sócio. Ele nos convidou. Vamos? Vá. Prefiro ficar aqui. Você não tem jeito mesmo. O Marcelo está louco por você. Ele costuma ir a esse clube. Não estou interessada. Ele é um pedaço! Se fosse comigo, não ia perder a vez. Fique com ele. Não a entendo. Não namora, não sai, só trabalha. Desse jeito vai ficar para tia.

Pouco me importa. Casamento não está nos meus planos. Que horror! Não diga isso nem brincando. Eu, quando aparecer alguém de quem eu goste, caso mesmo. Não vejo a hora de ter família, de ser feliz. Pois eu não. Casamento não dá futuro. Eu quero mais é cuidar da minha vida. Marina chegou ao banco e olhou desanimada para a imensa fila do caixa. Foi falar com o gerente. Sorriu, conversou, contou uma história que inventou na hora e conseguiu que ele a atendesse rapidamente. Estava habituada a essas gentilezas. Sabia que era bonita, elegante e bem-feita. Seus cabelos castanho-dourados, seus olhos verdes e profundos, sua pele morena e delicada, seus dentes alvos e bem distribuídos, as duas covinhas que se formavam quando sorria e principalmente seu irresistível magnetismo garantiam-lhe bom atendimento onde aparecesse.

Fez o outro banco e foi ao escritório do dr. Moura. Ele não estava e ela não queria entregar aquele documento à secretária. Era um contrato muito importante. Fora por insistência dela que o dr. Olavo começara a atender casos na área empresarial. Marina pensava que os grandes negócios aconteciam a todo o momento nas empresas. Participar deles era obter mais lucro em menos tempo. Espólios, heranças e problemas familiares, além de serem causas muito demoradas e trabalhosas, eram menos rentáveis. A princípio Olavo não se interessara muito, mas depois acabou aceitando algumas causas nessa área. Sentada no sofá macio na penumbra da tarde que ia se findando, Marina sentiu o prazer de usufruir daqueles momentos de descanso. Olhava satisfeita para os magníficos quadros nas paredes, para o vaso de cristal cheio de flores frescas, perfumadas e arrumadas artisticamente, para os móveis finos, de bom gosto, e podia sentir a maciez do tapete sob seus pés. O dr. Moura vai demorar. Tem certeza de que é só com ele? A secretária estava em pé na sua frente. Tenho. Foi um pedido do dr. Olavo. Ele vai vir? Vai. Mas não tem hora. Se ele vem, vou esperar. Aceita um café ou um refrigerante? Um café, obrigada. Marina tomou o café e colocou a xícara de porcelana revestida de prata na bandeja sobre a mesinha. Dispondo algumas revistas ao alcance dela, a secretária disse: fique à vontade, e retirou-se para a outra sala». In Zibia Gasparetto, Nada é por Acaso, 2005, Edição 11, Editor Nascente, 2012, ISBN 978-989-668-172-2.

Cortesia E11/ENascente/JDACT

 Zibia Gasparetto, Literatura, JDACT,

sábado, 17 de outubro de 2020

Nada é por Acaso. Zibia Gasparetto. «Eu quero progredir na vida, mãe. Ser alguém. Não quero ficar atrás de um balcão a vida inteira. Vou continuar os estudos e me formar»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Adele, uma empresária de sucesso, precisa de um neto para manter o controlo das suas empresas. Mas a sua filha, Maria Eugénia, é estéril. Adele contrata, então, Marina para ser mãe de aluguer. Marina terá de engravidar de Henrique, genro de Adele, e em troca receberá 1 milhão de dólares. Inicialmente constrangida pela insólita proposta, Marina acaba por aceitar, aliciada pela súbita prosperidade financeira que lhe permitirá ajudar a sua própria família. É nesse momento que se inicia um processo que mudará a vida de todos os envolvidos, mulher estéril, mãe de aluguer, pai biológico e empresária dominadora, convergindo para um emocionante final, absolutamente surpreendente. A vida tem leis perfeitas que condicionam o equilíbrio do Universo. Ela criou o homem com destino à felicidade, mas determinou que essa conquista fosse feita com esforço próprio, para que o homem valorizasse as suas vitórias». In Sinopse

«Marina estugou o passo, esbarrando nos transeuntes para abrir passagem. Estava atrasada. Ainda tinha de passar em dois bancos antes que fechassem e entregar aqueles documentos no escritório do dr. Moura. Eram sigilosos e fora-lhe recomendado o máximo cuidado com eles, devendo ser entregues directamente a ele. Consultou o relógio de pulso e suspirou cansada. Porque tinha de ser tudo ela? No escritório de advocacia em que trabalhava, havia outros funcionários, mas o dr. Olavo, seu chefe, parecia só ter olhos para ela. Sempre que havia algum documento importante ou transacção mais complicada no banco, era ela quem ia. Você vai, determinava ele. Sei que fará tudo certo. Ela ia. Começara a trabalhar naquele escritório logo que entrara na faculdade de Direito. Havia lutado muito para pagar seus estudos. Sua família morava em Sorocaba, interior de São Paulo. Ofélia, sua mãe, era costureira, e seu irmão menor, Cícero, estava cursando o primário. Seu pai deixara a família quando Ofélia ainda estava grávida de Cícero, e nunca mais os procurara. Quando Marina decidiu fazer faculdade em São Paulo, Ofélia foi contra: somos apenas nós três, disse, triste. O que faremos se também for embora? Eu não vou embora, respondera Marina com voz firme. Estou precisando ganhar mais para pagar os estudos. podia continuar trabalhando na farmácia do sr José e estudar outra coisa.

Eu quero progredir na vida, mãe. Ser alguém. Não quero ficar atrás de um balcão a vida inteira. Vou continuar os estudos e me formar. Disparate! Já está com vinte anos. Logo vai casar-se e deixar os estudos de lado. Marina apertou os lábios e disse com raiva: não eu! Vou cuidar de minha vida e não vou arranjar ninguém que venha atrapalhar. Pense bem, mãe: vou fazer carreira, ganhar muito dinheiro e levar-vos para São Paulo. O Cícero também vai precisar continuar os estudos. Eu ganho o suficiente para viver. Para que mais? A mãe faz o que pode. Mas tem-nos sustentado toda a vida. Chegou a hora em que eu posso ajudar a manter a casa. Ofélia sorriu. Boa intenção. Mas, até que possa colaborar com as despesas, vai demorar. Quanto acha que pode ganhar em São Paulo? Depois, terá que se sustentar. Não vai ser fácil. Eu me arranjo. A Bete me escreveu. Ela está morando numa pensão, e não é cara. Vou trabalhar na farmácia até receber o pagamento e depois irei para a pensão. As aulas só vão começar no mês que vem. Enquanto isso, procuro um bom emprego. Não me agrada que fique lá sozinha. Não conhece ninguém. Posso tomar conta de mim. Não houve argumentos que a fizessem mudar de ideia. Recebeu o salário e instalou-se na mesma pensão onde vivia a sua amiga Bete.

Interessada em fazer carreira na advocacia, procurou emprego e conseguiu ser contratada pelo escritório do dr. Olavo Augusto Resende. Ele liderava um grupo de advogados que trabalhavam na área civil. Marina começara modestamente como auxiliar. Desejando progredir, esforçava-se procurando aprender o que podia, interessando-se pelos negócios do grupo e fazendo mais do que lhe pediam. Educada, inteligente e, principalmente, arguta, Marina sabia como lidar com as pessoas. Os advogados do escritório logo perceberam que podiam contar com ela e a encarregavam dos mais complicados assuntos, felizes por se livrarem de atendê-los pessoalmente e seguros de que ela agiria a contento. À medida que Marina ia avançando nos estudos, suas despesas iam aumentando, tornando sua situação difícil. Esse problema, porém, era amenizado pelos aumentos salariais que ela recebia como incentivo para completar o curso.

Fazia seis meses que Marina se havia bacharelado, e ela desejava mais. Olavo prometera-lhe algumas pequenas causas, para que ela pudesse ir conquistando a confiança dos clientes. Dissera-lhe: na nossa profissão, é preciso paciência. O nome é importante. Você é boa, tem aprendido muito nestes anos aqui, mas ninguém a conhece. Precisa fazer nome. Ela continuava trabalhando como antes, e as causas não apareciam. No escritório, era ela quem tomava a maior parte das providências jurídicas, redigindo petições, acompanhando o andamento dos processos, analisando-os, sugerindo providências, comparecendo às audiências, conversando com os advogados da parte contrária ou com os clientes e seus adversários. Trabalhava agora mais do que antes. Havendo terminado os estudos, ficava até mais tarde. Muitas vezes levava processos para ler nos fins de semana». In Zibia Gasparetto, Nada é por Acaso, 2005, Edição 11, Editor Nascente, 2012, ISBN 978-989-668-172-2.

Cortesia E11/ENascente/JDACT

Zibia Gasparetto, Literatura, JDACT,

sábado, 25 de julho de 2020

O Advogado de Deus. Zibia Gasparetto. «Eram amigos há vários anos. Ele era um engenheiro especializado em construção naval. Sua empresa construía navios não só para companhias mercantes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Você vive rodeado de pessoas conhecidas nas quais não confia e critica pelas costas. Amigo, para mim, é outra coisa. Agora você está sendo radical. Claro que tenho amigos! Mas sei até onde posso ir com cada um deles. São seres humanos, não é, pai? Isso mesmo. Um dia verá que tenho razão. Daniel sorria e não argumentava. De que adiantaria? Ele não era ingénuo como seu pai dizia. Tinha perspicácia para perceber as fraquezas e os limites de cada um, mas por causa disso não era insensível a ponto de ignorar as suas qualidades. Pensava que era mais produtivo incentivar essas qualidades do que ficar criticando e mostrando as falhas. Na adolescência, sempre que alguém criticava uma falha sua, sentia revolta e rancor. Não errava de propósito, mas por não saber fazer melhor. Sentia que as críticas não o ajudavam em nada, davam-lhe apenas uma visão de incapacidade que se ele aceitasse acabaria por incapacitá-lo ainda mais. Maria Alice preocupava-se com as ideias do filho, ao que António respondia: ele é jovem. Isso passa. Vai amadurecer com o tempo. Não sei, não. Às vezes ele me parece tão ingénuo... Não enxerga a maldade. Relaciona-se com qualquer um. Não valoriza nossa classe social. Tem a boa-fé dos moços. O que acha que ele vai encontrar relacionando-se com gente sem cultura ou boa educação? É inteligente. Vai descobrir que o nível de cada um é muito importante. Então, mudará, chegará onde nós estamos. Não se deve preocupar. Maria Alice dirigiu-se à porta principal. Um importante empresário acabava de chegar com a esposa. Ostentando o seu melhor sorriso, foi recebê-los.
Eram amigos há vários anos. Ele era um engenheiro especializado em construção naval. Sua empresa construía navios não só para companhias mercantes como para a marinha brasileira. Muito rico, casara-se com a filha de um ilustre fazendeiro de Minas Gerais, juntando os nomes importantes e as fortunas. Dos três filhos, o mais velho formara-se engenheiro e trabalhava com o pai. O segundo preferira advocacia e o mais novo não se decidira quanto à carreira. Mimado pela mãe, que lhe fazia todas as vontades, gastava o seu tempo desfilando com seu carro último modelo pelas praias da cidade, empenhando-se em gastar o dinheiro da família. Várias vezes o pai o advertira a que se moderasse, mas ele sorria e continuava. Ernesto, inconformado, pressionava a esposa: Angelina, precisa parar de dar tanto dinheiro a Betinho. Esse menino está abusando! Não estuda, não faz nada! Está errado! Ao que ela respondia sorrindo: não seja dramático! Ele é muito jovem. Tem tempo para arcar com as responsabilidades da vida! Maria Alice abraçou Angelina: como vai, querida? Bem. Que festa linda! Obrigada. E você, Ernesto, tudo bem? Tudo. Maria Alice passou o braço pelo de Angelina dizendo: passemos para o salão. António espera-o com ansiedade. Deixando Ernesto em companhia do marido, Maria Alice conduziu a amiga para um recanto agradável, convidando-a a sentar-se. Vendo-a acomodada com um copo de vinho entre os dedos e um pratinho de canapés sobre a mesinha lateral, perguntou: seus filhos virão, Angelina? Uma festa sem a alegria dos moços não tem brilho. Depois, sei de algumas meninas que os estão esperando com ansiedade. Angelina sorriu com satisfação. Ver os filhos serem admirados era a sua melhor recompensa onde quer que fosse. Andrezinho tinha um compromisso, mas ficou de vir mais tarde. Rubinho estava se preparando quando saímos, logo estará aqui. Quanto a Betinho, tem a agenda lotada. Não sei como arranja tantos compromissos. Há sempre alguém esperando por ele em algum lugar. Ficou de vir, mas sabe Deus a que horas.
Maria Alice via com prazer a presença dos dois filhos mais velhos de Angelina. Acariciava a ideia de um dia poder casar a filha com um deles. Quando falava nisso com Lanira, esta invariavelmente respondia: não penso em casar-me, mãe. Mas, se um dia resolver, será com um homem de verdade. André é engenheiro e já trabalha. Além do nome ilustre e de sua grande fortuna, é um moço bonito, fino, elegante. Qualquer moça desta cidade ficaria feliz com um partido desses! Pois que aproveitem! Ele não é o meu tipo. E Rubens? Também é formado. Embora esteja no início da carreira, a sua fortuna e seu nome bastam para que todas as portas lhe sejam abertas. Não tenho dúvida quanto a seu sucesso! É um moreno atraente, elegante! Não me interessa, mãe. Quando eu quiser namorar, posso arranjar eu mesma um pretendente. Não precisa dar-se a esse trabalho. Apesar das evasivas da filha, Maria Alice não desanimava. Os moços eram atraentes e ela acreditava que um dia, quando Lanira estivesse mais amadurecida, perceberia isso. — A qualquer hora serão bem-vindos, respondeu Maria Alice educadamente. E Daniel? Não o estou vendo. Deve estar com os amigos no jardim. Adora conversar. Já os meus preferem dançar. Já notei. Aliás eles dançam divinamente. Na outra sala, distanciados do ruído da festa, António e Ernesto conversavam animadamente. Precisamos unir nossos esforços, dizia António com entusiasmo. As eleições se aproximam. Você pode fazer muito pelo nosso partido». In Zibia Gasparetto, O Advogado de Deus, 1999, Edições Dinalivro, 2005, ISBN 978-858-587-257-1.

Cortesia de EDinalivro/JDACT

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O Advogado de Deus. Zibia Gasparetto. «Quando seus pais reclamavam porque ele não participava das conversas familiares, ele explicava: vocês criticam todos! Enxergam somente os defeitos. E as qualidades?»


Cortesia de wikipedia e jdact

«O salão estava cheio e a festa, animada. Os pares dançavam alegremente ao som da música agradável. Tudo estava impecável. Maria Alice olhava satisfeita, atenta aos convidados, observando todos os detalhes para que nada faltasse. Com classe e finura, deslizava entre eles, dando uma palavra aqui, um sorriso ali, segura de seu charme, certa de sua beleza. Mulher habituada ao brilho dos salões, sabia como receber com luxo e distinção. Seu marido, António Almeida Resende, rico e de importante família do Rio de Janeiro, militava activamente na política, tendo sido eleito deputado federal. Costumava reunir na sua casa pessoas famosas, artistas no ápice da fama, políticos, empresários, a classe A. Os convites das suas recepções eram muito disputados e todos consideravam uma honra comparecer a uma das suas festas. Tanto Maria Alice quanto o marido e seus dois filhos, Lanira e Daniel, apareciam constantemente nas colunas sociais das revistas da moda. Lanira, dezanove anos, corpo bem feito, tez morena, cabelos castanhos, olhos negros grandes e brilhantes, sempre elegante e vestida na última moda, chamava atenção por onde passava. Voluntariosa, habituada a ser servida e valorizada, não se relacionava com facilidade. Educada, tinha muitos conhecidos, mas seria difícil encontrar alguém que privasse de sua intimidade.
Daniel, vinte e dois anos, alto, mais claro do que a irmã, cabelos castanhos e ondulados que o sol descoloria ainda mais colocando neles reflexos dourados. Elegante, afável e cordato, tinha muitos amigos, acabara de se doutorar em Direito. O pai sonhava introduzi-lo na política. Daniel tinha todas as qualidades para isso. Simpático, amável, aparência bondosa e principalmente uma perspicácia que muitas vezes o surpreendia. Mas, apesar de sua insistência, Daniel não se decidira. Tenho outros planos, dizia quando o pai tocava no assunto. Nada pode ser melhor do que servir ao país!, argumentava ele convicto. Terá o apoio do nosso partido e obterá vitória fácil. Ê uma profissão honrosa e rendosa. Não pode haver caminho melhor! Não penso assim. Vive preso a compromissos com os homens do partido, com o povo, com o governo, com as organizações. Não pretendo escravizar-me dessa forma. Sou livre e quero fazer o que gosto. Neste mundo não se pode fazer só o que se gosta! Cedo descobrirá que está errado. Para progredir terá que transigir. Não há outra maneira de vencer. Daniel olhou-o pensativo e nos seus olhos havia uma expressão indefinível ao dizer: a vida não é só o que parece estabelecido. Há diferentes caminhos para se chegar ao que se quer. Pretendo encontrar o mais curto. António meneou a cabeça negativamente: arroubos da mocidade, meu filho! Escute o que eu digo. Tenho experiência. Se quer o caminho mais curto, entre para a política. Terá fama, respeito, dinheiro, tudo. Ele riu e não respondeu. Seu pai era um vencedor, respeitado, rico, bem-visto na sociedade, mas ele não concordava com suas ideias. Desde muito jovem observava a vida familiar e embora se relacionasse bem com o resto da família, respeitando seus pontos de vista, sentia que seus valores eram diferentes.
Quando os comentários em casa corriam soltos sobre as últimas fofocas sociais, quem aparecera mais em sociedade, quem estava decadente ou quem liderava neste ou naquele sector, Daniel entediava-se. Não sentia nenhum interesse por essas futilidades. Não dava nenhuma importância aos sobrenomes, às posições ou aos poderes das pessoas. Gostava da espontaneidade, olhava as pessoas apreciando os seus aspectos de personalidade, valorizando-as pelas qualidades que descobria ou pelo brilho da sua inteligência. Quando seus pais reclamavam porque ele não participava das conversas familiares, ele explicava: vocês criticam todos! Enxergam somente os defeitos. E as qualidades? Que qualidades?, dizia Maria Alice irónica. Todas as pessoas têm qualidades, mãe. Nem sempre estão à vista. É preciso descobri-las. António não concordava: isso é loucura. É ingénuo. Se continuar pensando assim, vai dar-se mal. As pessoas são cheias de defeitos e fraquezas. Pobre de quem confiar no ser humano! Ninguém é perfeito, sabe disso. E preciso estar prevenido para se precaver contra a maldade dos outros. Pensando assim nunca vai encontrar pessoas que poderiam ser seus verdadeiros amigos. Tenho muitos amigos». In Zibia Gasparetto, O Advogado de Deus, 1999, Edições Dinalivro, 2005, ISBN 978-858-587-257-1.

Cortesia de EDinalivro/JDACT