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sexta-feira, 13 de março de 2020

Fazes-me Falta. Inês Pedrosa. «A política retirou-te o estilo e afastou-te de mim. Os políticos não precisam de amigos, precisam de uma corte, vem nos livros. Tu foste simplesmente à tua vida e eu fui à minha»

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«Só o teu riso dura. Mostrei-te o mar.
Mostrei-to antes e depois de morreres»

«(…) Estou sozinho. Sozinho com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata. Alguma vez o quis? Alguma vez o quiseste? Dava-me agora jeito um deus qualquer para moço de recados. Um deus que te afagasse os cabelos e me recordasse como eram macios. Um deus que me libertasse desta imagem fixa do teu corpo encaixotado. Logo tu, que tantas vezes te rias daquilo a que chamavas o meu encaixotamento compulsivo: um dia chego cá e encontro-te no meio dessa papelada, morto de cansaço, pronto a encaixotar. Olha, eu é que não te empacoto, ganhei medo a mortos. Sempre te disse que o medo atrai a desgraça, podes rir-te. Ri agora tudo que ninguém te ouve. Isso; se o teu Deus existe, solta uma gargalhada forte para que eu acredite. Mas não, é melhor que não te incomodes: essa gargalhada póstuma destoaria do meu belo arquivo de gargalhadas tuas. Estragava-lhe a estética, entendes? E a estética, para falarmos com franqueza, nunca foi o teu forte. Não suportavas as meias-tintas. Odiavas a renúncia engatilhada sobre os paradoxos da vida.
Não podias ter morrido de uma coisa menos esdrúxula, por exemplo? Não podias aguardar a dignidade das primeiras rugas? Que tendência para o kitsch, minha querida, mas Deus sai-se sempre em kitsch, não é verdade? Descansa em paz. Fizeste uma morta bonita, mais bonita e serena do que alguma vez foste, cachopa. Compuseram-te a imagem. Disso vivem as figuras públicas, mesmo na morte. Viva a imagem. Talvez fosse melhor não te ter visto, não ter beijado a tua testa. Agarrei-me a essa derradeira nota do teu calor. Ficaste-me com um travo a incenso e flores mortas. O cheiro do amor vedado que abandonáramos pela paisagem na nossa pré-história. Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim, que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar. O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus.
Dentro da História onde já não estou, da História que percorri como um carrossel, da História que nos serve sempre de morada provisória, as pessoas perguntam. Que sentido faz a morte de uma rapariga de 37 anos, catano, roída pela própria posteridade? Tinhas deixado de fumar para não morreres de cancro. Não era a morte que te incomodava, dizias, mas o vagar dela, a tortura da doença. A História. Creio que nunca te vi doente, a não ser de amor. Cultivavas o vício da paixão com um método implacável. Corrias em contrarrelógio. Procuravas a imobilidade de um tempo-pedra que já era o teu. O nosso, mas como podíamos dizê-lo, se tínhamos de continuar vivos? Nos breves dias em que vivias desapaixonada, tornavas-te impossível. Nada te entusiasmava. Depois iniciaste uma carreira de Poder e perdeste esse gosto profundo pelo romance extático. Entraste na narrativa, no burburinho tranquilizante das intrigas. Até a tua carroçaria se modificou; das últimas vezes que te vi, usavas uns saia-e-casaco pavorosos, umas coisas de mau corte e mau tecido a imitar Armani, nuns cinzentos berrantes. Disse-te: ena! Disfarçada de executiva!, e tu explicaste que se tratava apenas de uma farda de trabalho. Que aos fins-de-semana mantinhas o estilo de sempre. Mas o estilo é uma maneira de ser, não uma farda de fim-de-semana. A política retirou-te o estilo e afastou-te de mim. Os políticos não precisam de amigos, precisam de uma corte, vem nos livros. Tu foste simplesmente à tua vida e eu fui à minha. Como sabes, eu vivo por relâmpagos; contigo partilhei uma trovoada um pouco mais longa do que o habitual. Foi apenas isso. De qualquer modo, a morte espreita sobre todos os prazeres dessa cronologia a que nos agarramos para escapar ao tempo. O que somos para além do que vamos sendo? O meu além eras tu, ímã da minha íntima, impessoal temporalidade. Redenção dos males que me amputaram. Tu. Agora puro vapor do universo. Serves-me de Deus, quem diria? Serves-me no que não sei ser, e é a verdade. Olho para o mar do Guincho, para essas ondas frias e violentas em que tanto gostavas de mergulhar, e sinto-me também eu meio morto, meio frio. Feliz por estar ao teu lado outra vez. Ao lado dessa que já estava morta um bom par de anos antes de tu morreres. Fazes-me falta. Mas a vida não é mais do que essa sucessão de faltas que nos animam. A tua morte alivia-me do medo de morrer. Contigo fora de jogo, diminui o interesse da parada. E se tu morreste, também eu serei capaz de morrer, sem que as ondas nem o céu nem o silêncio se transtornem. Cair em ti, cada vez mais longe da mísera ficção de mim». In Inês Pedrosa, Fazes-me Falta, LeYa, 2016, ISBN 978-989-660-402-8.

Cortesia de LeYa/JDACT

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Fazes-me Falta. Inês Pedrosa. «E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez»

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«Não basta morrer para conhecer o sorriso de Deus, mesmo que, como foi o meu caso, se tenha vivido abismada nele uma vida inteira. Quando o pior acontecia, aquele sorriso descia às minhas trevas com um soluço de baloiço, um gingar de gonzos arrancado às cordas da infância. Eu sentava-me nele e subia, balouçando, até à luz. O pior aconteceu-me cedo, tive sorte. Deus procura primeiro os que sofrem antes do conhecimento específico da dor, talvez porque os outros sabem demasiado para poderem ser salvos. Tu dizias que era ao contrário: que Deus nasce da ignorância própria dos sofrimentos prematuros. Mas tu, meu aluno dilecto, cedo te deixaste povoar pelo excesso do saber. Deus não sabia nada do Universo quando o criou. Imagino que se sentiria só. Imagino que num momento impreciso essa solidão se terá tornado maior do que Ele próprio, estourando numa gigantesca flor de luz. E imagino-O, depois, tentando dar um sentido particular a cada uma das pétalas dessa luz dispersa. Agora que saí do corpo que fui, para me tornar pólen, poeira nos teus olhos, pura imaginação de mim, imagino-o melhor ainda, ébrio de luz, lúcido, encandeado por um Lúcifer oculto e criador incrustado no seu próprio ser, em estado de paixão com a história desencadeada pela sua omnipotente solidão. E balouço no Seu sorriso outra vez, a vez definitiva porque o meu corpo está lá em baixo, num caixão, contemplado e lembrado e chorado pela última vez.
Não me levantarei da cama amanhã depois de Lhe pedir em surdina que dê um impulso maior ao balouço, que o empurre com força até que os pés me voem para fora do calor aterrado dos lençóis. Ninguém mais vai estar à minha espera, não terei de me disfarçar de desculpas, não voltarei a iludir ou desiludir ninguém. Não voltarei a morrer no corpo do único homem que me abriu no corpo a passagem secreta para a morte. Não voltarei à desilusão do renascimento. Sobretudo não voltarei a desiludir-te a ti, o descrente que me ensinou a crer melhor, o meu pequeno e velho Deus de algibeira, o meu amigo.
Despojada de corpo é-me mais fácil transformar-me no próprio balouço, na luz dançante de que ele é feito. Num murmúrio de vento peço-Lhe que não me empurre tão depressa para esse lugar iluminado que é a Sua Carne, peço-Lhe que me deixe matar saudades desse mundo que deixei tão de repente. Matar saudades de ti. Ou matar-te, como fazem as crianças, para recomeçar uma outra história, no balouço quotidiano do teu sorriso». In Inês Pedrosa, Fazes-me Falta, LeYa, 2016, ISBN 978-989-660-402-8.

Cortesia de LeYa/JDACT

domingo, 26 de janeiro de 2020

A Eternidade e o Desejo. Inês Pedrosa. «Explicas-me que levantas a patilha do relógio e lês as horas com as pontas dos dedos. Perguntas-me se nunca tinha visto um relógio para invisuais»

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«(…) Lindo menino. Antes a tolerância do que as fogueiras da Inquisição (maldita), dizes tu. Bem sei que as comparações acalmam, também para isso me fazem falta os olhos. Mas se reparares, bom Sebastião, o cadáver da Inquisição (maldita) ainda revolve a terra em que pretendemos tê-lo enterrado. As vezes cansa-me falar contigo, Sebastião, tens as ideias demasiado arrumadinhas, como numa vitrine, proibido tocar. Portugal está cheio de gente assim, parece um museu de frases consensuais pronunciadas por gente de olhar escorregadio. Porque será assim inclinado o olhar dos portugueses? Vício de guerreiros, ardil de resistência aos cercos, excesso da imaginação? Tu que ainda tens olhos, Sebastião, repararás que os brasileiros, em geral, te olham nos olhos quando falam contigo. Esse olhar franco poupa muitas palavras, para o melhor e para o pior. Existe uma empatia imediata, que até da antipatia faz uma questão de lealdade. António Vieira olhava assim, com uma frontalidade bruta, de precipício. Olhava para o futuro e não tremia, lançava o pensamento sobre as muralhas do mundo, fixado no azul do céu. Era um pensamento irrequieto, incessante, incontrolável, o seu. Mas foi a arte que o safou. Safou-o de quê?
Do esquecimento. A Inquisição (maldita) bem tentou, e a dada altura conseguiu amordaçá-lo, mas não conseguiu queimar-lhe os escritos. Aí estão, até hoje, encandeando-nos com o seu esplendor ainda indecifrado. Exageras; o padre António Vieira é estudado nas escolas. Meia dúzia de textos, sim, sempre os mesmos, e os mais circunstanciais. Essa é a forma contemporânea de agrilhoar um autor: interpretar-lhe um pedaço da obra até à última letra, sugar-lhe a matéria temporal, estendê-la em cátedras
até lhe esgotar o sopro. Compará-lo, medi-lo, debitá-lo, e esquecê-lo. Tu não o esqueceste.
Não, Sebastião, não o esqueci, e também por isso não sei dizer-te quem ele é, digo-te que é belo, esperando que isso te perturbe e te irrite e te conduza até ele, se for esse o teu caminho. Sei que lhe devo a raiva, a constância, e, acima de tudo, o privilégio da alegria. Mais uma vez, respondes que me invejas. Estou cansada da tua inveja de cartolina, Sebastião; peço-te que não estragues com graças pequenas a Graça do que partilho contigo. Não sabes a Graça que há nas graças pequenas. Não sonhas como preciso dela. Dá-me a tua mão, e guarda nela agora o meu silêncio. Há-de servir o corpo ao próprio conhecimento, como o aço no espelho serve a vista: o aço serve a vista; porque rebate e lança de si as espécies de quem se vê ao espelho; de maneira que o mesmo que impede o conhecimento directo, serve ao conhecimento reflexo. Assim é no homem o conhecimento de si mesmo; separa no corpo, ignora-se; se reflecte sobre a alma, conhece-se; saia logo do corpo, e sacuda-se do pó, se quer conhecer-se: si ignoras te egredere.
E se alguém me perguntar a razão desta filosofia, porque o homem visto pela parte do corpo se ignora, e visto ou considerado pela parte da alma se conhece; a razão clara e fácil (posto que pareça injuriosa) é, porque quem vê o corpo, vê um animal; quem vê a alma, vê ao homem. Estamos já no avião, no avião onde me levas para um mundo que te recusas a desvendar-me. Os teus dedos agitam-se como nós de luz sobre o teu outro pulso. Folheio uma revista, para conter a tentação de agarrar cada um desses teus dedos pequenos, irrequietos, irresistivelmente pragmáticos. Pergunto-te o que fazes, respondes-me que vês as horas. Explicas-me que levantas a patilha do relógio e lês as horas com as pontas dos dedos. Perguntas-me se nunca tinha visto um relógio para invisuais». In Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-495-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sábado, 25 de janeiro de 2020

A Eternidade e o Desejo. Inês Pedrosa. «Som e sentido, continente e conteúdo dilacerando-se, hoje como sempre, até que nada reste sob a superfície hiperbólica da realidade. Dizes que aquilo a que eu chamo estatuto pode também chamar-se ânsia de eternidade»

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«(…) Vieira não precisava de nada nem de ninguém. No fundo, acho que lhe bastava a consciência de que tinha Deus dentro de si, ou a eternidade, ou o conhecimento, como preferires. Era um precursor; fervia-lhe no peito uma verdade e só com ela tinha ligação. Essa verdade libertava-o da dor comum, sentia as injustiças e ofensas, e não foram poucas as que lhe fizeram. Vingava-se, convertendo em palavras escritas a experiência da mesquinhez humana. Vingava-se, gritando do púlpito esses sermões irados, consciente de que não conseguiria reformar os costumes do seu tempo, mas ainda mais consciente de que esses textos, ateados por uma raiva íntima e incendiados pela lucidez genérica que consagra as paixões particulares, lhe sobreviveriam. Trabalhava como se vivesse no futuro, e por isso escreveu coisas que ainda hoje são arrumadas no altar dos prodígios, e adoradas pelo exterior do seu entendimento. Eu própria o adorava assim, pela pintura do texto e pela música da sintaxe, aquele amor reverente, escolar, cheio de presunção e desconhecimento, que se vota às ruínas do passado. Até que me apareceu outro António, o António que trouxe Vieira para dentro da minha vida, mas ainda é cedo para essa confidência. Como poderei falar-te, a ti, menino solene, mimado pelo aborrecimento do universo, desse olhar impermeável à ofuscação das lágrimas, no olhar de uma criança sem tédio?
O círculo do tempo pára numa nova idade barroca, trabalhamos o supérfluo, a ideia de arte vale mais do que a arte, a ideia de cultura separa-se da cultura possível e particular de cada um, em rendilhados infinitos, citação da citação da citação, fragmento do fragmento do fragmento, intermitências de luz cosidas em  brocados de sombra, a religião da ironia substituindo perfeitamente a religião dos deuses. Tornas a dizer que exagero, que há uma diferença essencial entre o livre arbítrio e a sujeição a livros sagrados, entre o ritual da irrisão e o ritual da oração, mas, talvez porque estou cega, ouço um mesmo rasgar de sedas, um mesmo uivar de andrajos, um mesmo pavor animal gemendo sob a aparência humana. Pois não sentes a irracionalidade que grita no desejo de dominação humano? Não sentes a sede de domínio atrofiando todas as possibilidades de prazer? Não sentes que temos a cabeça a prémio?
Não me entendes, caríssimo Sebastião; dizes que misturo tudo. Dizes que é incomparável a liberdade de que hoje dispomos para imaginar, escolher, criar, viver. Pelo menos na nossa civilização, dizes. E eu rio-me do que tu dizes, e tu zangas-te com o meu riso, cuidando, como tanto se cuida naquilo a que chamas a nossa civilização, que me rio de ti. Querido Sebastião, rio-me porque aquilo a que chamas a nossa civilização ainda nem sequer começou. Importa-me a liberdade, sim, mas vejo que a usamos ainda e apenas como uma outra espécie de grilhão. Vestimos a liberdade como outrora vestíamos a submissão; ela não é mais do que um traje de baile, com um carnet em que apontamos os nomes daqueles com quem dançaremos para brilhar diante dos outros. Democratizou-se o anseio de estatuto, mas não conseguimos ainda sair dele. É isso que vejo, Sebastião.
Som e sentido, continente e conteúdo dilacerando-se, hoje como sempre, até que nada reste sob a superfície hiperbólica da realidade. Dizes que aquilo a que eu chamo estatuto pode também chamar-se ânsia de eternidade. Mas eu vejo tão pouca eternidade nos sonhos das pessoas, Sebastião. A eternidade que somos conduzidos a aspirar é a da juventude, o lugar mais rápido, inseguro e variável da existência humana. O lugar do querer ser. Não vês o contra-senso que isto representa? A violência? A prisão? Não, não vês, como eu não via. Pertencer a um país que de antigo se tornou velho também não ajuda a ver. Só através dos olhos desse António que veio do Brasil eu comecei a ver. Nos olhos dele aprendi a ler Vieira, como no seu corpo aprendi a saborear o desejo infinito, o desejo como experiência da eternidade. Para essa experiência não tenho palavras. Nem sequer silêncio. Dessa experiência, sobrou-me o que sou. A tudo o que te vou dizendo sobre a superfície lisa do Barroco e a superfície barroca do nosso tempo aparentemente liso respondes-me com o discurso contemporâneo do progresso relativo, a música electrónica do humanismo de salão. Tolerância, dizes, tudo passa pela educação para a tolerância. Sim, Sebastião, és um homem de bem, de esquerda, um guardador de valores perdidos e de amanhãs desvirtuados». In Inês Pedrosa, A Eternidade e o Desejo, Publicações dom Quixote, 2007, ISBN 978-972-203-495-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Jurara a si própria que o corpo de Filipe nunca retiraria do seu um perfume parecido. Desinteressou-se do sexo antes mesmo de o conhecer, por causa de um cheiro a água-de-colónia barata…»

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«(…) Nessa mesma noite, voltaram a brincar às escondidas por entre os túmulos, no cemitério. Quando saltavam o muro do território sagrado já não eram senão um feixe de corações estereofónicos; chegavam a temer que os mortos acordassem a rir às gargalhadas daquela orquestra cardiológica. Faziam-se muito heróicos. Os rapazes içavam as pequenas que ainda cheiravam ao quente da cama onde se tinham enfiado todas vestidas. Eram exímias em abrir a porta da rua sem o mínimo ruído. Treinavam-se a olear dobradiças como a pintar os olhos, nas horas desertas das casas. Faziam ginástica pelos corredores para se tornarem leves nesse momento em que eles as tomavam nos braços, sobre o muro. Teresa às vezes sonhava que estava excessivamente pesada e que o seu par a abandonava do lado de cá, no chão. Salta, Comanecci!, ordenava-lhe agora o seu príncipe João, e ela fechou os olhos e voou para o colo dele tonta de alegria, a acreditar que ele via mesmo nela a aura da estrela romena. Salta, Comanecci!, repetiu ele, como numa canção, mas Teresa olhou para trás e viu o corpo de Cláudia ascendendo, radioso, às mãos de João. Teresa decidiu então que os rapazes se repetem para melhor se ocultarem. João recordara-se de Nadia Comanecci em honra dela. A frase transbordara da sua viril timidez, e ele apressara-se a banalizá-la para que ninguém entendesse o que ela queria dizer. E evidentemente, o que a frase queria dizer era que João amava Teresa. Cláudia nunca atribuiria àquela frase outro significado que não o literal. Literalmente, o que a frase dizia era: vá lá, não tenhas medo, sobe!. Eventualmente, em post-scriptum, poderia também querer dizer: sou tão engraçado, não sou? Mas era só isso. Mesmo que estivesse apaixonada por João, Cláudia não levaria mais longe aquelas palavras. Mas nunca lhe passaria pela cabeça apaixonar-se por João. Nem sequer se apaixonara por Ricardo. Traio-te enquanto te atraio, era o seu lema secreto. Não por uma especial resolução de infidelidade, mas porque lera nos olhos tristes da mãe que os homens têm em geral a fatalidade de se prenderem ao desapego. Cláudia não era capaz de inventar romances e torná-los reais. Não tenho imaginação, confessava ela, com uma inveja simpática, quando lia os poemas de Teresa. Onde é que tu vais buscar estas coisas? Depois ria-se: que grande romântica que tu me saíste! O rosto de Teresa iluminava-se, e começava a pensar na grande tragédia amorosa que ia criar para si. Cláudia era tão bonita e tão prática que estava definitivamente arredada desse grandioso destino.
O jogo tinha regras precisas: sorteava-se a vítima, que contava até trinta para que os fantasmas corressem a esconder-se atrás das campas. De olhos vendados, a vítima tinha que procurar, agarrar e nomear o fantasma, sem falar com ele. Todas as partes do corpo serviam para o jogo; e, uma vez agarrado, o fantasma tinha que ficar quieto a deixar-se identificar. Se a vítima errasse o nome, continuaria a sua peregrinação de morto-vivo até ao reconhecimento. Então, o fantasma revelado tornar-se-ia a próxima vítima humana. Tratava-se de um jogo muito simples. Ricardo Luz estava atrasado, e os outros hesitavam em jogar sem ele. Diziam que era chato, que não tinha graça, mas na verdade tinham sobretudo medo de provocar a ira do deus, porque Cláudia estava ali. Viam-no já atroando os ares de insultos e acusações temíveis, bramando que o que eles queriam era pôr as mãos no corpo da rainha, entre outras coisas. As raras zangas de Ricardo Luz desencadeavam tremores de terra. Sem ele, punham-se a andar à toa, a irritar-se uns com os outros, a deixar de ter ideias divertidas, a pensar no mundo. Filipe sussurrava agora meiguices pueris ao ouvido de Isabel. Beijava-a muito e com muito aparato, como sempre que os outros estavam por perto. Isabel fechava os olhos e encolhia-se-lhe nos braços para fingir que estavam sozinhos e que ele continuaria a ser assim extremoso se não houvesse ali mais ninguém. Mas sentia-lhe nos ombros um perfume horrivelmente alheio. Durante muito tempo Isabel não percebera que odor era aquele. Até que um dia a criada entrou no quarto e ajoelhou-se ao seu lado a arrumar as camisas na gaveta. Desde então, Isabel recusava-se a ir a casa de Filipe quando a criada estava lá. Não suportava a memória do sorriso maternal que a mulher lhe lançara, acariciando devagar as camisas do namorado dela. Estava tudo dito, e Isabel calara-se uma vez mais.
Jurara a si própria que o corpo de Filipe nunca retiraria do seu um perfume parecido. Desinteressou-se do sexo antes mesmo de o conhecer, por causa de um cheiro a água-de-colónia barata misturada de suores. A intimidade não podia compadecer-se da desordem dos sentidos. Para Isabel, o amor pertencia ao reino da absoluta inacção. Filipe podia fazer tudo o que quisesse, desde que continuasse a preferi-la num só olhar. O resto, os beijos, as prendas, os chocolates que ele lhe dava, eram legitimações exteriores, apetites momentâneos, que não tinham mais significado do que os gritos, os amuos e o tal perfume de criada. Se alguém ousava defendê-la da ocasional brutalidade do amado, revelava-se feroz: Não te metas. Ninguém tem nada a ver com isto. Depois fazia-se um grande silêncio. Isabel sabia tornar-se invisível como ninguém. Teresa passava horas a olhar para ela, meditando no desperdício de tamanha beleza». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Cláudia aparecia com uma fita métrica no bolso, para medir a cintura e as ancas das outras, por vingança. Teresa invejava-a…»

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«(…) E depois tinha ficado de boca aberta à espera que ela pusesse lá a fatia do bolo. Duas palavras bastaram para disparar nela esse passatempo terrível. Teresa fazia de qualquer obstáculo um pretexto para o mistério, uma ponte de glória para a solidão. Apaixonara-se já por quase todos os rapazes do grupo, um a um e para a eternidade. Estavam muito encostados uns aos outros, magicando em alternativas confortáveis ao gelo da tarde, quando se ouviu aquele ruído seco, e depois o grito da senhora que vinha do café. Foi no dia seguinte, no funeral de Mariana, que Cláudia se tornou outra. Dinis parou junto dela em frente da campa aberta e ela quase desmaiou. Era um odor de terra húmida e de sal e de chuva e de rosas queimadas em álcool. Pareceu-lhe que era a morte, aquilo que assim a entontecia. Nem sequer lhe viu o rosto. A morte é a única testemunha da paixão. Tem ciúmes dos corpos e queima-os devagar. Quando os corpos se entregam ao império dos seus lumes é a morte que os ilumina. Depois rouba-os, como se perpetrasse um crime perfeito, esquecendo-se de que os corpos deixam traços. Escusado será dizer que nenhum destes pensamentos turvou, por um momento que fosse, a cabeça de Cláudia. Mais tarde houve quem comentasse que lhe faltava naquela época idade e experiência. A própria Cláudia gosta de repetir que nessa altura era demasiado jovem e irreflectida, como se a vida nos concedesse um prémio de serenidade em troca dos nossos perdidos quinze anos. O que faltou a Cláudia naquele instante parado no tempo foi o que sempre lhe faltaria: esse elementar instinto de defesa que disfarçamos sob o nome de razão. Há seres assim, irremediavelmente unos, incapazes de isolar partes dentro do seu próprio corpo e de as estruturar como castelos autónomos e armados.
O comum dos mortais reage à queda de uma das suas praças-fortes redobrando o armamento da outra. Os monumentos espalhados pelas cidades evocam os que levaram esta técnica aos limites da perfeição humana. Em menor ou maior grau, quase todos recebemos no sangue uma capacidade de separação interna que nos habilita para as obras da sobrevivência. Cláudia não sabia dessa distinção nem de distinção nenhuma. Deixava correr os dias e precisava do espelho para se entender como peça solta. As inquietações da literatura faziam-na rir porque lhe pareciam artificiais. A beleza e a ausência de imaginação punham-lhe laivos de mulher fatal. Desde que Ricardo Luz a elegera rainha ela convencera-se simplesmente disso mesmo: sou uma mulher fatal. O seu corpo era a tradução perfeita das linhas ideais. Nos dias em que o pai lhe batia, Cláudia aparecia com uma fita métrica no bolso, para medir a cintura e as ancas das outras, por vingança. Teresa invejava-a, Isabel admirava-a, e a fusão destes dois sentimentos criara-lhe uma aura que a tornava segura do mundo. Todos os rapazes sonhavam, obviamente, com ela. Cláudia via nesse excesso de sonho a prova física da sua inteira realidade. O cérebro de Cláudia pensava tanto como os seus braços, o seu estômago ou o seu coração. Formava uma unidade resplandecente. Nada a podia proteger da fissura sem centro que a mudou de uma só vez, como um abalo sísmico. Nem lhe viu o rosto. Aliás, Dinis não tinha propriamente o tipo de semblante que se recordasse. Vira-o já centenas de vezes, de passagem, e não saberia dizer de que cor eram os olhos do irmão de Isabel Marta. Havia fotografias de James Dean nas paredes do quarto dele, mas Isabel dizia que o Dinis nascera velho, porque passava a vida a ir à Gulbenkian ver filmes a preto e branco, muito antigos. Ou então fechava-se no quarto a ouvir música clássica. O grupo via-o passar, muito sério, com uma pasta de cabedal na mão, e só não o hostilizava abertamente por respeito para com Isabel.
Nessa mesma noite, depois do funeral, Cláudia adormeceu a tentar lembrar-se de um qualquer pormenor visual que a sossegasse, e não conseguiu mais do que a memória daquele cheiro pesado e quente. Decidiu que a culpa era do corpo da morta, da chuva sobre a terra, do cansaço dela, e entrou pelo sono a sonhar com perfumes num rapaz que tinha a cara do namorado dela e que a beijava doidamente sobre a relva molhada. Mas, reparando melhor, ao fundo do sonho havia o cemitério, e um ser, lá muito ao longe, agarrado a uma enorme pedra tumular em forma de ursinho de peluche. Não se percebia se aquela figura parda metida numa capa de plástico era homem ou mulher. O ser permanecia imóvel e curvo como um fantoche esquecido sobre o tempo, e olhava». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Mas daquela vez, há exactamente cinco meses e seis dias, o João fizera-lhe uma festa no queixo e dissera: tão querida…»

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«(…) O teu pai só pensa nele, Filipe Manuel, vê se te convences disso. Ele nem os teus estudos paga, filho. Sou eu que me mato para tu andares a chumbar anos a fio, e tu só pensas no homem, que Deus Nosso Senhor me valha! O homem, o homem. Até parece que não foi ele que me fez. O que é que tu estás a insinuar, Filipe Manuel? Nada, mãe. Só me espanta que tu, que até és bruxa, não consigas ganhar a lotaria. Neste ponto da conversa a mãe de Filipe Manuel atirava-se para o sofá a gemer, ameaçando desmaios transcendentes, e o filho abraçava-a, com pedidos de perdão e juras de eterno amor. Desde que o marido saíra de casa, a mãe de Filipe dedicara-se à causa espírita e aos espoliados do Ultramar. Afirmava-se eternamente devedora do espírito do bisavô Anselmo, que lhe aparecera em sonhos, seis meses antes do reviralho, exortando-a a sair de Lourenço Marques, porque os turras iam ganhar. O bisavô Anselmo só não lhe contara, talvez por falta de intimidade com a bisneta, que o marido havia de mandar vir, com o resto das bagagens, uma mulata vinte anos mais nova do que ela, e grávida dele. Filipe nunca quis conhecer a meia-irmã e ficava com os cabelos em pé só de ouvir falar em esquerdas ou liberdades. Almoçava com o pai no primeiro e no último sábado de cada mês, se tudo corresse bem. A maior parte das vezes, não corria: os negócios estavam difíceis, o trabalho no Partido era muito, o país mudava devagar.
Compreendes, não é, meu filho? Filipe fazia voz grossa e dizia que sim. Pensava que com o tempo se habituaria à indisponibilidade do pai, mas não conseguia, e o ódio às liberdades crescia-lhe na proporção directa da saudade. Um senhor. Filipe insistia: à uma em ponto, pai. Não te atrases, por favor. Mas ele atrasava-se sempre. Uma e meia, desastre completo: os outros já estavam todos a almoçar, não o viam chegar no Mercedes prateado. Se ele ao menos lhe desse a mota. Filipe estava farto de andar com o capacete debaixo do braço. Dizia que era para as boleias, mas ninguém acreditava. Até no comboio para o liceu, usava o capacete em vez de livros: gastam-me o músculo, que foi feito para outras matérias. Mas precisava de grandes audiências e muita companhia para dar aplicação aos famosos bíceps. Quando o provocavam a solo, fazia que não ouvia, e estugava o seu passo largo de forcado imaginário. Contava mil e cem vezes a pega que fizera a um touro bravio, numa festa ribatejana. Esquecia-se invariavelmente de contar que o touro em questão era uma vaca escura, e sentada. Ricardo Luz era pouco dado a narrativas, e menos ainda a relatórios de feitos. Escondia o tronco rijo em camisas largas. Tinha uma vulgaríssima Honda 50. A Kawasaki 750 era do João Brito, que dormia numa cama de dossel. Os outros escarneciam-lhe a casa barroca e o dinheiro da família.
Não tens vergonha de ser novo-rico, ó Jonas? Novo-rico, com um pai que podia ser avô dele? E, calhando, é mesmo! João batia duas vezes as longas pestanas, lançava-se em voo picado sobre os difamadores e restaurava em meia dúzia de safanões a fachada da honra. Depois sacudia a poeira do blusão e compunha os caracóis acetinados numa olhadela discreta ao espelho retrovisor. Os setenta e cinco anos do pai não o incomodavam; a mãe ainda não atingira os quarenta e ofuscava qualquer garota de vinte. Adoravam-se: João e a mãe faziam um belo par. O velhote, era como se não existisse; falava sozinho, não se sabia de quê. Só se calava enquanto preenchia cheques, e a família fazia por multiplicar estes agradáveis momentos de silêncio. Então, o que é que se faz hoje? Era Radar, o anão, a pôr a voz nos bicos dos pés. Nutria uma paixão funda por Cláudia, a partir daquele primeiro instante, já lá iam dois anos. No entanto, estaria disposto a alimentar paixões igualmente fundas por qualquer outra rapariga, desde que fosse um bocadinho correspondido. E desde que a garota tivesse pelo menos treze anos. Infelizmente, a única apaixonada que recenseara festejara há pouco o décimo aniversário, usava aparelho nos dentes e era sua prima direita. Então, pessoal? O que é que se faz?, repetia o mal amado.
Ainda por cima, as pastilhas elásticas tinham-se acabado, e ninguém se sentia com paciência para ir lá abaixo ao Kuanza comprar mais. João tirou o último pedaço da boca e ofereceu-o, num gesto magnânimo. Teresa corou e aceitou. Gostava dele há cinco meses inteirinhos, com uma constância desesperada. Lembrava-se do momento exacto em que ele lhe tinha feito aquela festa no queixo. O sol transbordava os contornos do céu. João estava sentado na mota e as luvas ampliavam-lhe a forma das mãos. A luz reflectia-se nos metais da máquina, fulgia-lhe nos olhos verdes, mergulhava-o numa ilusão de celulóide. Ela roubara de casa metade de um pão-de-ló para distribuir pelo grupo. Como de costume, toda a gente devorou o bolo a troçar dela: Olha a Santa Teresa, protectora dos famintos, e coisas assim. Teresa ficava triste. Parecia-lhe que o cabelo e os olhos acompanhavam, num progressivo embaciamento, a invasão daquela tristeza. Pedia a Deus milagres cada vez mais pequenos e profanos: cinco centímetros a mais de altura, dez centímetros a menos de largura, um ondeado, por ligeiro que fosse, no cabelo. Dava prendas para se tornar famosa no coração dos outros, mas os outros eram rapidíssimos a desmontar-lhe o engenho, numa gargalhada. Queria alcançar a sublime vulgaridade de Cláudia, que ganhava sempre. Mas daquela vez, há exactamente cinco meses e seis dias, o João fizera-lhe uma festa no queixo e dissera: tão querida». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Um golo extra tem um gosto de presente. Não gostam de ver bons golos, é? Não estão habituados, os vermelhinhos…»

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«(…) Finge que não ouve o nosso praguejar, escolhe por nós as entradas e o vinho. Tinha onze anos quando começámos a vir para a tasca, mas trata-nos como filhos malcomportados. Aos onze anos já nos tratava assim. Pouco falamos de mulheres, pelo menos das nossas. Comentamos as que aparecem na televisão, as actrizes, as ministras, as jornalistas. Comentamo-las basicamente para dizer que o que lhes falta é uma …da fenomenal. Somos todos fenomenais, à volta desta mesa, picando queijos, enchidos, pataniscas, chamuças e torresmos. Vai uma saladinha? Achas-nos com cara de grilos, Celinha? Queres matar-nos? Fazia-vos bem. Célia, querida, morrer quase nunca faz bem. Célia ri-se. Não se intimida com a nossa aparatosa boçalidade. Não nos dá muita importância. É uma de nós. O jogo arrasta-se, enfadonho. Só as injustiças lhe dão alguma animação: um penálti não marcado, a favor do Benfica. O Guilherme agarra-se ao seu amuleto: um urso de peluche com cachecol do Benfica, no qual tem fé porque lhe foi oferecido por um sportinguista. Há uma nítida falta de entrosamento da equipa, que joga à distância, espalhada. O tempo da bola está sistematicamente atrasado, com lançamentos longos de mais, ou passes curtos e atrasados. Não há contra-ataque, nem movimentação. O Porto também parece desarrumado, mas tem uma velocidade muito maior. Vocês têm de aprender a correr, rapazes. O futebol é para quem tem pernas para isso. Cala-te, o árbitro está comprado, aquele penálti até um cego via. Desculpas, pá. Desculpas. Só justifica quem perde. Aliás, depois de terem ganho a taça ao Sporting através da vergonhosa anulação de um golo, vocês deviam abster-se de falar da seriedade dos árbitros durante um ano inteiro. Pelo menos. Gooooooolo!
Só eu me levanto em êxtase. Gosto destes êxtases solitários que me oferecem alegria, vitória e vingança num só gesto. No estádio, este prazer torna-se perigoso, isto é, ainda mais vibrante. Gritar, Chega-lhes, Porto! Num estádio cheio de benfiquistas é um acto de bravura sujeito a consequências imprevisíveis. Em certa ocasião, levei uma tareia à saída. Agora começo a ser demasiado famoso para levar tareias. As pessoas não estão dispostas a respeitar muitas coisas além da fama. O que, em Portugal, representa uma fartura de respeitinho. Qualquer pessoa que apareça na televisão de vez em quando é famosa, e qualquer pessoa pode aparecer na televisão de vez em quando. Chama-se-lhe politólogo e pronto. O restaurante está cheio de benfiquistas ferrenhos que desatam a resmungar contra o tempo de jogo, dizendo que o árbitro prolongou o desafio para lá do devido, de modo a que o Porto pudesse completar a jogada do golo. Como se o Porto não estivesse já a ganhar. Um golo extra tem um gosto de presente. Não gostam de ver bons golos, é? Não estão habituados, os vermelhinhos… Pronto. Ganhou o Porto, a próxima rodada é minha. Augusto tem bom perder. É um homem fácil. Gaba-se de ser um homem fácil. Vê qualidades em todas as mulheres. É administrador de uma empresa discográfica, sabe defender os méritos da música mais manhosa. Perdeu uma riqueza infinita com a independência de Angola, pelo menos é o que ele diz. Não se cala com os encantos da ilha do Mussulo da sua adolescência, mas não é, de modo algum, um ressentido. Chegou a ser militante do Partido Comunista. Durante a juventude, encontrou na luta uma espécie de acelerador da sua identidade, ou superador das frustrações, o que vem a ser o mesmo. Com a idade tornou-se socialista, ou julga que se tornou. Mantém todavia o farfalhudo bigode da era estalinista, conjugado agora com uma volumosa cabeleira cor de prata fosca. Deve gastar uma pipa de latas de laca para manter o penteado. Não há vento nem humidade que lhe abata um só fio da moldura. Quando Pedro começa a criticar o governo, Augusto enfuna-se: o que é que vale a opinião sobre Portugal daqueles que nunca de cá saíram? Tu és descendente do velho do Restelo, meu filho. Um menino da mamã com uma visão de quintal. Pedro vitupera o arrivismo dos retornados e acusa Augusto de ser um novo-rico do neoliberalismo. Augusto põe-se de pé e puxa pela sua medalha costumeira: os-sete-dias-sete-em-que-foi-sujeito-à-tortura-do-sono-e-resistiu». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.
                                                                                                                     
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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Augusto chama-me sacana presunçoso, rouba-me um charuto, lembra-me que ainda faltam vinte e cinco minutos, tempo para a desforra»

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«(…) Hoje já posso evocar estes factos sem naufragar neles. Como se tivessem acontecido a outra pessoa, noutra vida. Tudo se tornou muito mais simples, desde então. O hábito dos jantares mensais na tasca vem dessa época. Mês a mês, no dia da morte de Leonor. Ainda hoje os jantares são sempre no dia da morte de Leonor. Nenhum de nós menciona a data, ou o nome dela. Nem sei de quem foi a ideia – lembro-me que da primeira vez o Augusto me telefonou dizendo que estava combinado um jantar com a malta para daí a três dias no sítio tal, onde se comia uma dobrada quase melhor do que as do Porto, e informou-me que passaria pela minha casa às oito para me ir buscar. Calas o bico e vens. Nem penses em pôr-te com mer… A última coisa em que eu poderia pensar, naquela época, era em pôr-me com mer… Calei o bico e fui. Por sorte, é um dos poucos restaurantes de Lisboa onde continuamos a poder fumar. Numa esquina discreta, perto do Largo do Carmo. Paro no largo deserto, iluminado. Estou dentro de um cenário de cinema. Como se as casas fossem de cartão prensado, e a vida se suspendesse para poder ser inventada, debaixo das luzes que vacilam na noite por causa da chuva, uma chuva miudinha, falsa, melodiosa, regulada como banda sonora. A tasca tem mesas corridas, louça desemparelhada, cinzeiros matarruanos de vidro grosso e toalhas de papel. Nada de design, como gostam as mulheres e os gajos que não gostam de mulheres. Deixei de almoçar com o meu velho amigo Jacinto por causa das toalhas de mesa. Mal chegou à direcção do jornal, Jacinto começou a recusar-se a almoçar em restaurantes com toalhas de papel. Dizia que não podia ser visto em pardieiros. Que não lhe ficava bem. E que não havia privacidade. Um director sem privacidade não é ninguém. Eu, pelo contrário, só me sinto bem em tascas. Gosto particularmente dessas toalhas onde se pode tomar notas ou fazer desenhos. Os restaurantes elegantes deprimem-me: são lugares onde uma trivial sopa de cenoura adquire um nome sonante que lhe rouba o sabor. Em geral as doses são curtas e os silêncios demasiado indiscretos. Gosto do espaço acanhado da casa de pasto A Claque. Gosto desta sala atulhada de quinquilharia e de vozes. As vozes das pessoas, oitenta por cento de homens, o que também me é agradável, a voz do relato na televisão. Um plasma gigante, para que nenhum passe ou drible nos escape. O calor humano embacia os vidros. Lá fora chove cada vez com mais força. Nos últimos meses, parece que Deus decidiu lixar o cartaz turístico do país: a canalização celeste estoirou precisamente em cima de Portugal, o país da cortiça. O pessoal flutua, não há problema. Gosto desta sensação de viver num aquário onde toda a gente bóia. Vivos e mortos, tudo a boiar, uma enchente de corpos flutuantes. No estádio também chove, o que neste momento é uma vantagem, os bravos Dragões do Norte não se deixam intimidar com a força da água, ao contrário das águias de sequeiro. Dois a zero, e os minutos a avançar. Mais uma vitória à vista. O único defeito dos dragões é esse: ganham demasiado depressa. A meio do jogo já não há adrenalina. Neste lugar, durante estas horas, não preciso de ser inteligente. Nem sedutor. Nem mandão. Nada do que se espera de mim, lá fora. Tantas expectativas, lá fora. Vou fazer cinquenta e cinco anos, é tempo de me libertar destas mer… Quem é que eu estou a enganar? Sei que nunca me libertarei destas mer…
Augusto chama-me sacana presunçoso, rouba-me um charuto, lembra-me que ainda faltam vinte e cinco minutos, tempo para a desforra. Pobre rapaz, toma outro charuto, para não chorares. O que é que eu não sei destes gajos? O meio campo. Os minutos de empate. Os ziguezagues. Fora isso, conheço-os melhor do que a mim mesmo. Somos um grupo. Uma coisa sem ego. Uma comunidade. Gostamos de estar juntos, de sofrer juntos por causa do futebol, de nos insultarmos uns aos outros por causa do futebol. Então esse cabrito assado, sai ou não sai, princesa? Portem-se bem, meninos. Já vos dou mais uma dosezinha de pataniscas e torresmos. O cabrito está quase no ponto. Não é como tu, querida, que já nasceste no ponto. Ainda agora chegaram e já estão tão engraçadinhos… Ao fim da noite não há-de haver quem vos ature. Enganas-te, Celinha, há resmas de mulheres desejosas de nos aturar. Mas nós só gostamos de ti. E uma sopinha, entretanto, ninguém quer? Vade retro. Eu até acho que me casei só para deixar de ter de comer sopa. Passa-me o queijo, cab… Não é todo para ti. Como a Célia, também não é toda para ti. A Célia é a filha do dono da tasca, uma miúda lindíssima, mãe de duas crianças, que está sempre a fazer pouco de nós». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Um oncologista está protegido pelo fantasma da própria doença; é muito difícil acusá-lo de negligência médica. Mesmo que ela exista»

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«(…) País menstruado, diz antes. Feito do sangue e dos humores das mulheres, que atordoam e excitam os homens. Isto dizia Leonor, que mantém comigo uma conversa ininterrupta. Era lúcida, a Leonor. Sonhadora e lúcida, uma combinação invulgar. Não se prestava à redução ao interdito que é tão fácil neste país. Não tinha vergonha do que sabia, nem medo, por muito tumultuoso que fosse esse saber. Haveria de se rir com a esperteza neoliberal dos revolucionários de ontem, vestida com togas gregas de costureiros da Roma pós-moderna. É também por isso que preciso destes amigos. Como uma espécie de conspiração contra o individualismo imperial, que brada aos valores com o único fito de valorizar os interesses económicos dos seus pregoeiros. Essa pregação esbarra na couraça da nossa inteligência gregária, que se contenta em existir sem o exibicionismo de cabaret das letras em que se transformaram todas as discussões do nosso tempo. Às vezes vem mais alguém, um extra variável seleccionado entre os nossos conhecidos. Podemos olhar nos olhos uns dos outros sem experimentar o cansaço que nos provocam os olhares convencionais: o olhar das mulheres, turvo de expectativas de mudança; o olhar dos colegas de serviço, carregado de jogos de poder; o olhar avaliador dos recém-conhecidos; o olhar ausente do comum dos mortais, obcecado com a velocidade da sua própria corrida. Nós olhamo-nos como se nos víssemos ao espelho. Ritual espontâneo de reconhecimento. Olhamo-nos com a alegria de estarmos vivos e inteiros. A calvície que avança, o vinco que se acentua entre as sobrancelhas, a barriga que cresce e amolece. Envelhecemos juntos, barafustando e rindo à volta de uma mesa. Não esperamos nada de especial de cada um de nós. Não há decepções nascidas de ilusões desproporcionadas. Não há ilusões. Nem sombra dessa maçada incomensurável que se chama análise da relação. Não existe a contabilidade do deve e do haver em que as mulheres são educadas. Dar para receber. Dar racionadamente. Sofrer quando a ração recebida é menor do que a ração dada. Que vida triste, a dessa metade da humanidade educada assim. Sempre à procura da culpa. Detectives em défice permanente. Eu não sofro por amor, parece-me um paradoxo. Deixei-me disso depois da bendita traição de Elisa. O amor é um estímulo para a imaginação, uma droga sem efeitos secundários. Não é por não ser correspondido que deixa de me dar alento. Pelo contrário: a nega aumenta a tusa. A dificuldade atiça o engenho. O amor é um sucedâneo da arte. Ou a própria arte, agora que tudo é sucedâneo. Freud argumentaria que esta forma de pensar é própria de um narcísico que nunca foi capaz de ultrapassar a fase primária. Talvez Freud tivesse sido mais feliz se experimentasse as virtudes do narcisismo, em vez de se fixar nos mistérios da infância, que é apenas a época mais chata da vida. As crianças que o digam.
Um oncologista está protegido pelo fantasma da própria doença; é muito difícil acusá-lo de negligência médica. Mesmo que ela exista. Matei três pessoas por negligência. Uma delas a minha própria mulher. Das três vezes, a minha negligência foi baptizada como excesso de empenhamento. Uma aposta radical: ou extirpava o sacana do tumor e o doente ressuscitava para uma vida nova, ou o doente finava-se. Nesses três casos, os doentes foram-se. Um deles era a Leonor. Sem essa operação, teria vivido mais um ano. Um ano de miséria, ela própria o sabia. Mas a nossa filha teria tido tempo de se adaptar ao desaparecimento da mãe. Teria dez anos, em vez de nove. E talvez ainda hoje estivesse viva, faria agora vinte e cinco anos, a Mariana. Caiu de uma ribanceira, na Escócia, nove meses depois da morte da mãe. Aconselharam-me a inscrever a miúda num curso de Verão, bem longe, com muito ar puro e muito divertimento, para que ela esquecesse e ganhasse apetite. Mariana não queria, mas os avós e os meus colegas achavam que era o melhor para ela. E eu deixei-me ir na conversa. Soube-me bem. Queria um tempo só para mim». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Nessa noite os rapazes descobriram duas coisas: que a Cravo e Canela afinal se chamava Cláudia, e que Ricardo Luz passava a ser o chefe do grupo»

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«(…) Alimentaram-na e protegeram-na (do frio, do calor, das correrias, do mundo) como se ela não fosse mais do que uma boneca de porcelana ou um monstruoso bibelot. Mariana foi demasiado mimada para poder suportar o mundo. Sofreu a infância com a terrível maturidade de um adolescente e decifrou a adolescência com a impiedosa infantilidade de um adulto. O pai amou-a com o amor absoluto, sufocante, que era a memória do seu próprio desamor. Encontrou-se assim precocemente confrontada com o desajuste dos espelhos e com a sôfrega cegueira dos olhares. Mariana soubera escolher o seu destino, despojara-se do grosso véu de invisibilidade, era agora um deles. Estavam todos no patamar do 45-A quando se ouviu aquele baque seco. Foi ao princípio de uma tarde de domingo. O frio era tanto que não havia maneira de arranjar uma casa livre. As famílias estavam coladas aos aquecedores e à televisão. Para piorar a situação, a diva do chefe tinha voltado a levar com o cinto do pai, e estava incapaz de subir para a mota. Ninguém ousaria propor uma volta sem Cláudia e despertar a fúria de Ricardo Luz. As iras do chefe eram raras e definitivas. Ganhara o lugar de comando com um pontapé e dois murros: a Cravo e Canela estrebuchava debaixo do bruto corpo do Traficâncias, que tentava violá-la ali mesmo, em cima da mota, à entrada da garagem do 41. Eles estavam no costumeiro poiso do 45-A, e espreitavam, muito calados, encolhidos contra a porta. A rapariga desatou a gritar, o Traficâncias tapou-lhe a boca, e Ricardo irritou-se: embora. Vamos mostrar-lhe quem é que é homem, pessoal.
Deixa estar, que a miúda já vai descobrir o que é um homem, bichanou o Radar, num tremor de excitação. E se ela não ficar satisfeita, a malta vai lá depois dar-lhe o resto, acrescentou o João, com um sorriso meigo, acendendo um cigarro. Cambada de cães cobardes, é o que vocês são. Então vem mafioso de fora abusar das miúdas da nossa quinta, e vocês ficam a rir-se, borrados de medo, é, seus tarados? Oh Luz, tangareasy, pá! O Traficâncias não é para brincadeiras, sabes bem, recordava o Linhos, em voz de falsete. Tu nem conheces a miúda. Vamos que ela seja amiga do homem, hem?, aventava o Filipe, a dar lustro ao capacete da mota. Bem. Já vi que convosco não me governo. Até já, galinholas. Vou ali e já venho.
Nessa noite os rapazes descobriram duas coisas: que a Cravo e Canela afinal se chamava Cláudia, e que Ricardo Luz passava a ser o chefe do grupo. Aperceberam-se desta mudança de vida no breve minuto que mediou entre a saída de cena do Traficâncias, praguejando agarrado à braguilha, e a entrada fulgurante de Ricardo, com a beleza do bairro ao colo, desfeita em lágrimas. Pronto, boneca, já passou. O Lobo Mau não volta mais. E se voltar, estamos cá nós para lhe limpar o sebo, beldade, avisou o Radar, adejando em redor do casal. Xô! Vê se ganhas vergonha na cara, maricôncio, rosnou Ricardo, enquanto secava as lágrimas à sua protegida. Muito prazer em conhecê-la, apesar das circunstâncias infelizes. Filipe, para as amigas Marlon Brando. Como é que a menina se chama? Chama-se Cláudia, e não está para aturar os vossos desmandos imbecis. Não percebem que a rapariga não está bem, seus broncos? Calma, ó chefe! A gente só quer animar a pequena, com sua licença, explicou o João, lançando um dos seus sorrisos de encantador desprotegido. Obrigada pelos cuidados, chefe, disse Cláudia, com uma gargalhadinha nervosa. A partir daquele instante, a liderança de Ricardo Luz tornou-se inquestionável. Não era o mais forte: os músculos mais evidentes pertenciam a Filipe do Carmo, autoproclamado Brando das Avenidas, às vezes chamavam-lhe o Apertos, por causa da roupa, que escolhia sempre um número abaixo, para uma melhor exposição das saliências. O maior desgosto de Filipe era andar a pé; quando o vinha visitar, o pai prometia-lhe uma mota, mas acabava sempre por trocar de carro e ficar sem dinheiro». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A Instrução dos Amantes. Inês Pedrosa. «Eles não tinham senão a sabedoria pura dos afectos brutos. Surripiavam os espelhos dos elevadores só pelo prazer de os esmigalhar pelas escadas…»

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«Se Cláudia fosse uma rapariga dada aos delírios românticos próprios da sua idade, teria escolhido um outro cenário para princípio de paixão. Mas Cláudia trazia os ânimos desprevenidos, e deu-lhe para entontecer por Dinis no funeral de Mariana. Tratava-se, aliás, de uma bela cerimónia. O pai da morta explicou que a pequena se tinha desequilibrado da varanda, e o padre lá fez de conta que o Senhor escreve direito por linhas tortas. Assim, a pobre alma passou oficialmente ao convívio dos anjos com um visto de vertigem involuntária. Os suicídios são excelentes estimulantes da solidariedade humana. Viva, Mariana não despertara maior entusiasmo que o das chalaças de circunstância. Nunca ninguém cuidou de averiguar quem ela era, porque ela trazia sobre o corpo o único antídoto de curiosidade eficaz numa mulher de dezasseis anos: a gordura. Mariana era realmente tão gorda que podia permitir-se passear pelas ruas do bairro às três da madrugada sem despertar o dente certeiro das porteiras ou o álcool fogoso dos rapazes. Nunca, ninguém disse mal dela, como normalmente ali se dizia das pessoas a quem se queria bem. Agora, pela primeira vez, Mariana tinha a importância da culpa. Mas nem aquela gloriosa culpa parecia pertencer-lhe por inteiro; os vizinhos culpavam o pai, a família culpava a morte precoce da mãe, os velhos culpavam os novos.
Só os novos, liderados pelo namorado de Cláudia, faziam a devida vénia à defunta: ela matou-se porque quis, disseram. Ela tinha ousado enfrentar a morte, e isso lhes bastava. Era por isso que estavam todos ali, aperaltadíssimos. Os rapazes puseram gravata e pentearam os cabelos. As meninas prenderam com ganchos as franjas enormes e rezaram convictamente as orações esquecidas. Até Luísa e Laura, as gémeas escandalosas, apareceram de saia pelos joelhos, com olheiras de martírio. Como os grandes santos e os grandes criminosos, eles preferiam as vaidades profundas às verdades aparentes. Teresa, a lírica, viria a escrever um poema intitulado Lágrimas por Mariana, combinando a chuva daquele enterro com os gritos da senhora do 34 que vinha do café e descobriu o corpo desfeito no cimento. Mas o grupo havia de ler o poema em voz alta e no meio de grande galhofa, para que Teresa percebesse que aqueles floreados piedosos eram de um despudor indigno.
Eles não tinham senão a sabedoria pura dos afectos brutos. Surripiavam os espelhos dos elevadores só pelo prazer de os esmigalhar pelas escadas, de se observarem multiplicados neles, e de esperar que algum estranho acabasse por se ferir. Estragar os adereços do mundo trabalhador e roubar-lhe pequenas utilidades, como carros e dinheiro, era cumprir uma missão de rigor e limpeza. Nunca eram descobertos e toda a gente sabia que eram eles. Esta impunidade provava-lhes que eram temidos, e que o mundo adulto era feito do palavroso convívio com o medo. Ouviam sermões imensos, pasmavam de ver a quantidade de palavras que os velhos eram capazes de arranjar para embrulhar os caminhos que não tinham tido coragem de seguir. Era só por isso que odiavam as escolas e faziam questão de prescindir das palavras. Para proteger essa pureza radical a que se tem chamado, consoante os tempos e as conveniências, loucura ou lucidez.
A tragédia de Mariana foi corriqueira e morna como todas as grandes tragédias: amaram-na tanto que se esqueceram de reparar nela. A mãe morrera-lhe ao primeiro ano de vida. O único facto que com ela partilhara, para além do parto, foi a febre tifóide que pouco depois a mataria. As mães têm normalmente uma vantagem sobre os pais: precisam menos dos filhos do que do exercício do amor que os filhos lhes proporcionam. Dedicam-se às crianças como os marinheiros antigos se dedicavam ao mar: com susto, surpresa e doidice. Privada de mãe, Mariana foi condenada a ser, desde a infância, adolescente. Uma estátua parada no tempo para proteger do envelhecimento o pai, os avós, a família». In Inês Pedrosa, A Instrução dos Amantes, Publicações dom Quixote, 1997, ISBN 978-972-200-972-0.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Respondeu-me que não tem outros sonhos. Disse-lhe que tinha agora a oportunidade de aprender a sonhar. Disse-lhe que viajasse»

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«(…) Ou mesmo antes: lia para ela através da barriga da mãe. Leio-lhe os livros de que ela mais gostava: A Sereiazinha, A Rainha das Nevese, A Menina dos Fósforos, de Andersen. Ou O Jardim Misterioso e A Princesinha de Frances Burnett. Ou A Menina do Mar e O Rapaz de Bronze de Sophia de Mello Breyner. Tantas vezes adormeceu antes que eu terminasse. Dou-me bem com as palavras, porque lhes conheço o antídoto: a música. Componho. Sei pôr a música na letra. É isso que me invejam: a melodia. Canto enquanto caminho debaixo da chuva. Gosto da chuva morna de Lisboa, do modo como ela se alia ao vento para combater os seus infiéis, virando guarda-chuvas, fazendo com que as pessoas sejam obrigadas a dançar. Os portugueses, de um modo geral, não gostam de dançar. Mesmo os que dançam, não chegam a desconcentrar-se o suficiente do corpo para poderem levitar. Temem o ridículo. Olham demasiado uns para os outros. O vento de Lisboa ri-se da compostura dos humanos. O vento de Lisboa ri-se no meio do choro da chuva. Foi com ele que aprendi a rir; rio-me porque as minhas mãos salvam, rio-me porque nunca sou eu quem morre, rio-me porque nunca tenho a culpa da morte dos que me morrem nas mãos, já que o cancro pertence ainda à categoria do incurável. O riso brilha mais rodeado pelo seu reverso, o riso brilha ainda mais quando é secreto, como o meu. Digam o que disserem, a luz de Lisboa só é especial quando chove. Com sol, qualquer cidade é bonita, é como a juventude nas mulheres. Difícil é manter o halo da beleza quando a cinza cobre tudo. É esta a dificuldade que Lisboa ultrapassa, como se nada fosse. Canto a sensação do dever cumprido. Canto porque a música não tem segredos para mim. Se tivesse uma grande voz, teria sido só mais um grande cantor. Um canário adestrado, às ordens da populaça. Demorei décadas a construir a minha voz. Um fio de voz, que sabe substituir a amplitude pela densidade. As mulheres dizem-me que a minha voz vem melhorando com a idade. É verdade, mas finjo que não acredito, digo-lhes que é uma ilusão simpática dos seus ouvidos. As mulheres gostam que tudo se relacione com elas. As mulheres gostam que tudo se relacione. Como se não pudessem existir sem relações. Lisboa é muito mulher nesse aspecto: nunca existe sol ou chuva sem vento, nunca existe a beleza pura, sem uma prega humana, um pedaço de lixo a voar, nunca existe uma rua perfeita sem uma casa apodrecida cintilando algures no meio dela como um fio de sangue. É também por isso que gosto tanto de ser homem. Os cabelos brancos favorecem-me. A capacidade de separar a doença da pessoa que a possui joga a meu favor. Ajuda-me a ser melhor médico. Hoje consegui salvar um burlão milionário, coleccionador de relógios de luxo, falências fraudulentas e cargos públicos. Hoje vinguei-me generosamente da rapariga que matou o meu coração de rapazinho tonto. Hoje consegui convencer uma jovem nadadora de que não vale a pena sacrificar-se a tentar melhorar os tempos, porque não lhe resta mais do que um ano de vida. Disse-lhe que aproveitasse para realizar outros sonhos.
Respondeu-me que não tem outros sonhos. Disse-lhe que tinha agora a oportunidade de aprender a sonhar. Disse-lhe que viajasse. Que namorasse. Que cantasse. Disse-lhe que tem uma voz bonita. Cantei com ela. A canção resultou. Resulta sempre. As mulheres gostam de canções. Música e letra. Relação. O barulho das vozes dos amigos sossega-me. Não o que eles dizem. Às vezes nem os ouço. Não é para nos ouvirmos que nos encontramos, apenas para estarmos juntos. Cada um de nós é uma trave mestra da casa que somos todos juntos. Augusto, Guilherme, Filipe, Pedro e eu. Bichos iguais a mim, familiares e contraditórios. Conhecemo-nos há décadas. Nunca entendemos o futuro como uma viagem marcada a um lugar conhecido. É nisso que somos iguais. Repudiamos a filosofia turística que se foi tornando esmagadora neste início de milénio. Gostamos muito de mulheres, o que faz de nós uns bárbaros, agora que as mulheres não podem ser admiradas como enigma e maravilha conjunta. Cada um por si e um minuto de televisão para todos. Somos libertários e conservadores, cavalheiros e carroceiros, apreciamos um sentido de tribo que já não se usa nem se defende, a não ser forrado de penas e cercado por cubatas. Sabemos destrinçar o bem do mal, separar as espinhas de uma cabeça de peixe, dizer se um vinho presta só pela cor e pelo cheiro, chegar ao osso de um leitão. Guiamo-nos por saberes arcaicos sem nos rendermos ao engodo do arcaísmo que encandeia a era em que nos coube nascer. Gozamos o privilégio de existir num país amestrado pela liberdade, embora cerimonioso e parco com ela». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Gosto de simplificar. Os tumores têm essa característica: são simples. Benignos ou malignos. Matamo-los ou matam-nos»

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«(…) Porque detém o privilégio da razão, e não o usa como deve, é o que dizem. Racionalidade é o que demonstra um leão quando mata um veado para se alimentar, a si e à sua família. Trata dos seus interesses e da sua preservação. Um homem que se lança para dentro de um prédio em chamas para salvar desconhecidos, incluindo animais, se os houver, não age racionalmente. Observo mais razão do que sentimentos na acção de um gato. O social é incompatível com o racional, e a sociabilidade dos homens tem aumentado pelo menos tanto quanto o buraco do ozono. Os seres humanos são dependentes uns dos outros. Cada vez mais dependentes. Incluindo os melancólicos ensimesmados, como o meu amigo Pedro, que exibe uma armadura de desdém por qualquer multidão constituída por duas pessoas. Estende a idade pueril sobre as escarpas da sua biografia e pedala na sua bicicleta de rodinhas, imune às desventuras que cobrem as bermas do seu percurso absorto. Desde que se oficializou como fenómeno psicológico, a infância tornou-se duradoura. Substitui-se aos casamentos, que vêm com um arsenal de regras que já ninguém tem paciência para cumprir. É muito mais fácil sermos responsáveis pela qualidade da água e do ar e do solo e não sei mais o quê do que por um juramento de fidelidade. Criámos a era das responsabilidades impossíveis. Da bondade abstracta. As abstracções provocam-me um tédio avassalador.
Gosto de simplificar. Os tumores têm essa característica: são simples. Benignos ou malignos. Matamo-los ou matam-nos. Quanto mais jovem é a vítima, mais veloz é a propagação das células cancerosas. Os tumores mostram-nos as vantagens do envelhecimento. São praticamente a única coisa viva que respeita a idade e desacelera por causa dela. Nos organismos velhos, as células malignas são mais lentas. Essa é uma das belezas da oncologia. A outra é a simplicidade. A heurística médica manda-nos seguir a lei da navalha de William of Occam: quando várias soluções são possíveis, devemos escolher a mais simples. Palavras, conceitos e suposições não devem ser usados mais do que o estritamente necessário. Só um cérebro disciplinado na clareza pode chegar ao diagnóstico exacto. Os erros existirão sempre. São compensados pela gratidão dos doentes que sobrevivem. A forma como se entregam nas nossas mãos. Já só os doentes se sabem entregar, pôr toda a sua esperança e desespero à mercê de alguém.
Por isso pouco me importa que me chamem vaidoso. A vaidade que me atribuem é uma espécie de antecâmara da admiração que os meus pares me dedicam. Custa-lhes admitir que sou de uma competência extrema quando se trata de anunciar a morte aos meus pacientes. Dou prelecções sobre o assunto. Pagam-me para ensinar o melhor método de dizer a uma pessoa que o seu futuro acabou. Tenho aquilo a que a Leonor, ao princípio, chamava o dom da consolação. Ou a habilidade de apontar caminho para a aceitação, que é mais ou menos a mesma coisa. Os calhamaços de medicina não servem para isto. Não é uma questão de palavras. As palavras são sempre pedras, pedaços de fronteiras. Servem para separar, para rasgar. Podem ser plagiadas, decalcadas como passaportes falsos. Nunca enganam por completo. Nunca revelam a verdade toda. Mudam com o sotaque, a voz, a ordem na frase, o esforço. Gosto de ler em voz alta. Leio todos os dias à minha filha um capítulo de um livro. Sei que ela não me ouve. Ouço-me eu, a ler para ela. Comecei a ler-lhe desde que nasceu». In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

Os Íntimos. Inês Pedrosa. «Curei-me por causa do que sofri por esta mulher. Horas infindáveis de solidão com as agulhas do ciúme moendo-me pele e vísceras e crânio e coração»

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«(…) As suas mãos estão a tremer, doutor. Passa-se alguma coisa? Passa-me o bisturi e cala-te. Passa-se que em vez de uma enfermeira experiente, serena, calada, que me ajude, tenho de dar aulas práticas a estagiários como tu, pesporrentes e palradores, ao mesmo tempo que tento livrar do mal a mama de uma mulher. Com cuidado. Com as mamas é preciso um cuidado particular. Não é só uma mama, lembra-te disso, por favor, Afonso. É a minha auto-estima. Por favor, Afonso. Uma das vantagens de se nascer homem é não centrar a auto-estima nas mamas, à mercê de qualquer azar do destino. Um homem não tem de pedir que, por favor, lhe poupem a auto-estima. Um homem ri-se da palavra auto-estima. Auto-estima nem sequer é uma palavra: é um adereço, um postiço de salvação. Um airbag. Em forma de mama. A cabra. A sonsa. A traidora. Agora em versão chorosa. Por favor, Afonso. Em nome do que vivemos. O que vivemos não é para aqui chamado. Se eu quisesse lembrar-me do que vivemos, teria de me lembrar do dia em que tu me disseste que precisavas de um tempo de pousio. E então lembrar-me-ia de que uma semana depois te encontrei pousada no colo de outro. Éramos garotos, Afonso. Foste o meu primeiro amor. Tanto desces por causa de uma mama, Elisa? Tentarei salvar-te a pele. Evitarei as cicatrizes. Sei que é injusto que as mulheres sejam discriminadas pelas cicatrizes. Sei também que é injusto que aos homens se exijam cicatrizes. Para mim, agora, és só uma doente. Mais uma. E isso é bom para ti, bom para a tua auto-estima mamária. Porque eu sou um profissional. Um bom profissional, como tu hoje sabes.
Só aos carniceiros não tremem as mãos, abécula. Olha para o que faço. Aprende alguma coisa. A destreza das mãos começa no cérebro. Que também treme. Pelo menos se estiver vivo. O primeiro amor, o tanas. Irrita-me esse arquivo organizado a que as mulheres chamam romantismo. Como se houvesse segundo, terceiro, quarto, quinto amor. Como se o amor fosse a escada de um prédio de apartamentos. O amor é uma coisa que começa velha, uma forma de demência que nos leva a concentrar os corpos e rostos que desejámos num só. O amor. Esta massa esponjosa, doente, que tanto me excitava. Curei-me por causa do que sofri por esta mulher. Horas infindáveis de solidão com as agulhas do ciúme moendo-me pele e vísceras e crânio e coração. Dias e noites triturando tudo o que eu era, com um rigor de tanque de guerra. Eu era tão pouco. Um garoto deslumbrado com a descoberta do corpo de uma mulher. Acreditava que aquela mulher era única, e que seria minha para sempre. Desculpa, tenho de cortar mais do que pensava, Elisa.
Desconfia dos médicos cujas mãos não tremam. São os que não sentem medo que matam. Tenho medo de deixar de ter medo. De deixar de me importar. De começar a pensar que o que eu faço não é importante, porque todos temos de morrer, um dia ou outro. Substituímos o tempo pelo espaço para não pensarmos na morte. Decretámos o fim da História para podermos trocar o rosto trágico que nos distingue por um rosto belo, sem marcas nem território. O rosto da minha filha, como seria hoje? Desenho-o incontáveis vezes. Acabo sempre por o apagar, porque não o reconheço. Não existe. Hoje é dia de jogo. Dia de jantar com os rapazes. Depois de salvar a mama de Elisa, a rapariga que me iniciou nos prazeres do sexo e na arte da traição. Gostava de não lhe deixar marcas. Um cavalheiro nunca deixa marcas. Mas eu não sou um cavalheiro. Fiz o melhor que podia, Elisa. Depois arranjo-te um excelente cirurgião plástico. Arranjo-te uma mama de silicone, perfeita como sempre gostaste de ser. Chamem-me vaidoso, se isso vos der prazer. O prazer de descobrir gente mais imprestável do que nós, isso que alimenta a literatura. Sou feito de papel e tinta, pelo menos neste momento em que os vossos olhos deslizam sobre esta página. Nem sequer ainda me vislumbraram os contornos, e já sabem que me dedico a aventuras sexuais pouco ortodoxas e que sou vaidoso. O conteúdo antes da forma. A moral de perna ao léu, correndo do fim da história para o seu início, poupando-vos a mariquice das entrelinhas. O caos em vez do corrimão do aforismo. Convém-vos? É-me indiferente o que vos convém, o modo como vos ensinaram a ler. Introdução, desenvolvimento, conclusão. Um enredo amorosamente bordado, capítulo a capítulo, com personagens espreguiçando-se nos lençóis da prosa, despindo-se da banalidade inaugural para nos desvendarem as suas almas repletas de cambiantes até ao clímax, de preferência trágico. A tragédia cai sempre bem, confere-nos umas sombras de sagacidade. Muita palha para criar ambiente, um celeiro cheio de crepúsculos dolentes e episódios marginais. Tralha, comboios de móveis e acessórios. Sou homem, não gosto de ler romances. Fiz de conta que gostava, durante uns anos, para caçar miúdas.
Pensava que aprenderia a caçá-las melhor se lesse o mesmo que elas, como se pudesse penetrar-lhes nos sonhos. Mas os sonhos das mulheres são em geral diferentes dos desejos que rugem dentro delas. Uma espécie de biombo contra a brutalidade que querem, porque ainda são animais. Como nós. Os romances têm princípio, meio e fim, regulação de tempos e temperatura. Fazem dos sentimentos pautas instrumentais convergindo para um concerto de orquestra. Eu não tenho sentimentos desses, que se possam dedilhar, analisar, apreciar e aplaudir. Tenho uma massa suja de nervos e sangue que me serve muito bem. Às vezes dói, às vezes dança. Uma caixa negra que será enterrada comigo, sem chatear ninguém. Não me importa o que pensem ou digam de mim. Estou habituado. Os homens chamam-me vaidoso, as mulheres, egoísta. Não há homem que não pareça egoísta diante do manancial de amor de uma mulher. Multiplicação milagrosa: quanto menos se lhes dá mais elas têm para dar. Gostam de se sentir superiores. Pelo menos as mulheres não têm preconceitos contra a vaidade. Poucas coisas dão tanto prazer à espécie humana como apontar os defeitos dos seus iguais. Para os maus hábitos de qualquer outra espécie arranja-se sempre desculpa. A Humanidade é a única culpada dos males do mundo: eis a grande descoberta da recta final do século XX. Porquê?» In Inês Pedrosa, Os Íntimos, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-047-1.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT