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segunda-feira, 21 de março de 2016

Os Cavaleiros da Cruz Vermelha. Ademir L. Silva. «A miscelânea de cenários incluíam desde acidentes geográficos a núcleos urbanos. Ia das margens do Mar da Galileia e do rio Jordão, do alto do Morro da Tentação, às cidades como Belém, Nazaré…»

Cortesia de mariaantoniasiza

O signo da peregrinação
«(…) Foi percorrendo esta rota que, segundo a tradição, no século IX, um eremita de nome Pelayo, seguindo uma chuva de estrelas até um campo, o campo de la estrella, daí a origem da palavra Compostela, teria encontrado o túmulo onde estaria depositado o corpo do apóstolo Tiago, mandado decapitar pelo rei judeu Herodes Agripa I, em Jerusalém, no ano 44 da era cristã. Acreditavam que antes de ser martirizado São Tiago teria pregado o evangelho na Península Ibérica, sendo este o motivo de ter sido conduzido por anjos, numa barca, para ali ser enterrado. Fosse como fosse, em 1078, Afonso VI, então rei de Leão e Castela, mandou construir uma basílica sobre o túmulo para receber o número cada vez maior de viajantes que viam visitá-lo. O símbolo de quem percorria o Caminho de Santiago era uma concha e o seu caminhante era chamado de peregrino. O primeiro peregrino registrado foi um clérigo chamado Gotescale, bispo de Puy, em 951. Depois dele incontáveis personagens, anónimos e célebres, dos três extractos sociais do medievo, religiosos, nobres e camponeses, de Francisco de Assis à Isabel de Castela, percorreram a rota, alcunhada de Via-láctea.
Em 1139 foi redigido, provavelmente por um monge francês chamado Aimery Picaud, o Guia do Peregrino de Santiago de Compostela. Neste pequeno livro eram indicados os melhores itinerários através da França, de acordo com o ponto de partida do crente, com referências importantes sobre onde e como conseguir alojamento e alimentação nos mosteiros e vilas que povoavam o percurso dos Pirenéus à Galícia. A partir do século XIV passou a ser entregue um certificado de peregrinação aqueles que concluíam o caminho com êxito. Documento que constituía motivo de orgulho para o seu portador. Na Galícia, uma das mais verdes regiões espanholas, a luta entre mouros e cristãos foi extremamente violenta. Principalmente nos primeiros séculos da Reconquista. O valor de seus prados férteis, ainda que montanhosos, não podia ser desprezado pelos invasores islâmicos. Ao mesmo tempo a devoção popular em torno das peregrinações a Santiago de Compostela tornou-se muito intensa. A tal ponto que passou a ser capitalizada pela Igreja e pela nobreza espanhola, já nos tempos do rei asturiano Afonso II, chamado o Casto, que reinou de 791 a 842, como forma de unir os cristãos do norte da Península Ibérica em torno de um símbolo de resistência comum.
O fomento da fé no Caminho de Santiago alimentou um bem sucedido esforço de pacificação da região galega. Mas a importância-culto foi muito além, alcançando o ápice da popularidade no século XII. Num documento de 834, catalogado no Tombo A do arquivo da Catedral de Santiago, o apóstolo é designado de Patronum et Dominum de totius Hispaniae, ou seja: Patrono e Senhor de Toda Espanha. São Tiago tornou-se o patrono da luta contra o avanço muçulmano. A iconografia medieval luso-hispânica é prolifera em representações de São Tiago, com a cabeça miraculosamente colada ao pescoço, combatendo mouros de traços raciais exagerados ao ponto da deformidade, montando um fogoso garanhão, com uma espada ensanguentada na mão e uma concha presa ao chapéu. A disseminação desta imagem de guerreiro cristão incansável fez com que o apóstolo se tornasse conhecido popularmente como Sant’ago Matamouros.
A defesa do Caminho de Santiago inspirou a acção de algumas das ordens militares surgidas com as cruzadas e a Reconquista. Entre as mais relevantes estavam a Ordem da Calatrava, a Ordem de Alcântara e especialmente, como o nome indica, a Ordem de Santiago da Espada, confraria monástica / militar de origem leonesa, criada por Fernando II, em Leão no ano de 1170 e aprovada pelo papa em 1175. Todas as confrarias citadas surgiram em grande medida sob a influencia do sucesso do Templo nos reinos espanhóis. Imitavam-na, inclusive na sua função original. As suas propriedades, de hospícios à praças fortes, podiam ser encontradas ao longo de toda a Via-láctea. Serviam como abrigo e defesa aos peregrinos que cruzavam a Península Ibérica rumo ao santuário de Compostela. Contudo, a mais longa, árdua e custosa da trindade das grandes peregrinações medievais não tinha o seu destino final dentro das fronteiras geográficas da Europa e sim no perigoso e distante além mar: no Oriente, na árida Palestina. Era a rota até à Terra Santa. Região sem uma definição territorial precisa, mas que, em termos gerais, compreendia os lugares por onde, segundo a tradição, Jesus de Nazaré transitou em vida. Os relatos dos quatro evangelhos canónicos eram o guia, de inquestionável autoridade. A miscelânea de cenários incluíam desde acidentes geográficos a núcleos urbanos. Ia das margens do Mar da Galileia e do rio Jordão, do alto do Morro da Tentação, às cidades como Belém, Nazaré e, acima de todas, Jerusalém. Se para o homem medieval o respeito por Roma advinha do facto dela ser a cidade onde residia o papa, Jerusalém por outro lado era a cidade eleita pelo próprio Deus. Era tida como a sancta civitate, a cidade santa, a cidade perfeita, contraponto a sujidade da Babilónia, manifestação terrena do modelo de cidade celeste da filosofia agostiniana. Diversos mapas medievais localizavam-na simbolicamente no centro do mundo. Cenário da epifania do Cristo, não eram poucos os que abandonavam as suas vidas mundanas na Europa para não mais voltar, acreditando que a morte na Jerusalém terrestre era o caminho mais seguro para a Jerusalém celeste». In Ademir L. Silva, Os Cavaleiros da Cruz Vermelha, Séculos XII e XIII, Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Goiás, Faculdade de CHeFilosofia, Goiãnia, 2003.

Cortesia de FdeCHeFilosofia/UniversidadeFGoiás/JDACT

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Os Cavaleiros da Cruz Vermelha. Ademir L. Silva. «… entre a França e a Espanha, com os Pirenéus ao fundo, onde se tornam uno os quatro principais itinerários franceses, no chamado Caminho Francês: conhecido também como O Estranho Caminho de Santiago»

Cortesia de wikipedia

O signo da peregrinação
«(…) Ainda que os motivos da eclosão do movimento cruzado pela libertação da Terra Santa consistam em uma complexa teia de relações políticas, económicas, culturais, étnicas e religiosas, cuja explicação meramente satisfatória demandaria centenas de páginas, pode-se afirmar, grosso modo, que um signo em especial serviu de inspiração para os esforços dos guerreiros cristãos: o signo da peregrinação. Não é por acaso que sendo a palavra cruzada derivada do latim cruciata, do espanhol cruzada e do italiano cruzeta, uma designação criada a posteriori, só surgindo em francês no século XVII, a expedição era chamado por seuscontemporâneos, dentre outras formas, de peregrinatio contra paganos, ou seja: peregrinação contra pagãos. Sendo um equivoco imaginar as populações europeias medievais como estáticas, presas às suas regiões de origem, a peregrinação de penitência era o primeiro e mais nobre dos motivos para se por o pé na estrada. Semelhantemente ao profeta Maomé, que colocou entre os princípios fundamentais do islamismo a obrigação impreterível do seu crente visitar a cidade de Meca ao menos uma vez na vida, alguns teólogos cristãos afirmavam ser justo que o seguidor de Jesus de Nazaré também se dispusesse a gastar a sola de sua sandália em nome de sua fé; também ao menos uma vez na vida. Estando claro que não se tratava de uma obrigação dogmática, ao contrário do caso muçulmano, e sim de uma sugestão, parece não existir dúvidas de que os cristãos acatavam-na com alegria e fé. Apesar da caminhada do peregrino remeter-se directamente à Via Sacra, com tudo o que ela simboliza em sofrimento e provação, para tornar-se agradável aos olhos de Deus através da dor, não se pode afirmar que a remissão dos pecados fosse o único motivo da existência das peregrinações. Peregrinava-se pelos mais diferentes motivos. Para pedir por prosperidade material, implorar pela realização de milagres de cura, pagar promessas por graças alcançadas, meramente orar desinteressado, ou ainda, suponho não ser contraditório, pelo simples prazer de conhecer outras paragens, outras paisagens.
Definitivamente a peregrinação fazia parte do quotidiano do medievo. Além de possuir o seu peso religioso, constituía-se num ritual social importante. Mesmo aqueles indivíduos que se encontravam doentes ou ocupados demais para irem por si mesmos, pagavam assalariados para fazerem o trajecto por substituição. Estes suplentes caminhariam, orariam e, algumas vezes, se flagelariam em nome dos contratantes. Os santuários de peregrinação espalhavam-se por toda cristandade. Na França os mais visitados eram os dedicados ao culto da Virgem, mas de modo geral os peregrinos preferiam aqueles que ofereciam a visão de alguma relíquia rara ou o túmulo de um santo ou mártir prestigiado. Elementos palpáveis, por assim dizer, e portanto mais atraentes do que verdades dogmáticas. As freguesias que possuíssem um bom chamariz progrediam rapidamente. Se já na Idade Média o dinheiro era o sangue da cidade, o seu fluido vital, os peregrinos representavam uma rendosa fonte de receita. Em vista disto as igrejas e abadias concorriam ferozmente entre si pela atenção dos viajantes. Para atender este mercado incipiente formou-se na Europa medieval uma verdadeira indústria de comércio e falsificação de relíquias, com intrincadas relações comerciais que iam desde Roma à Jerusalém, passando por Constantinopla e Alexandria. Pelo que se sabe não parecia existir muito bom senso no ramo de compra e venda de relíquias sacras. Quanto mais extravagantes fossem as peças, melhor. Fragmentos da cruz de Cristo, fios de cabelos do Nazareno, sudários santos, o crânio de João Baptista, a Arca da Aliança ou o cobiçado Santo Graal das lendas arturianas eram artigos correntes. Não era raro que mais de uma diocese afirmasse possuir a mesma peça. O anedotário sobre este assunto é inesgotável. E quanto mais distante se ia, maior a penitência e por conseguinte maior o valor do sacrifício junto à contabilidade divina. Por isto, em contrapartida as numerosas jornadas de curta distância, feitas em pouco tempo e sem grandes esforços ou gastos, existiam as grandes peregrinações. Viagens cuja realização eram considerados feitos extraordinários. Dentre estas, três se destacavam: o Caminho de Roma, o Caminho de Santiago de Compostela e o Caminho de Jerusalém.
Em Roma a grande atracção era rezar sobre os túmulos do apóstolo Pedro, a Pedra, de Paulo de Tarso e dos primeiros mártires assassinados durante a perseguição romana ao cristianismo primitivo.
O viajante que se dirigia a Cidade Eterna era conhecido como romeiro e o seu símbolo de identificação era a cruz, para lembrar tanto o suplício de Jesus de Nazaré quanto a crucificação de cabeça para baixo de Pedro, na colina do Vaticano. Porém, apesar de ser a sede da Igreja, a rota até Roma não era a mais popular da Europa. Em função do seu alto grau de organização, em grande parte a cargo da poderosa abadia de Cluny, o mais procurado era o que levava até Santiago de Compostela, na região espanhola da Galiza. Na verdade os seus itinerários eram os mais diversos: iam da chamada Via Francígena, o caminho italiano, às rotas marítimas, seguidas pelos flamengos, britânicos e escandinavos, que percorriam em terra o Caminho Inglês, de Farol e A Corunha até Santiago. Existia também o Caminho Português, que ia de Lisboa a Compostela cortando de sul a norte as terras lusitanas, passando por Porto até Barcelos, Ponte de Lima e Valença do Minho, onde se cruzava o rio Minho, entrando em domínios galegos. Mas a mais importante das rotas começa na fronteira entre a França e a Espanha, com os Pirenéus ao fundo, onde se tornam uno os quatro principais itinerários franceses, no chamado Caminho Francês: conhecido também como O Estranho Caminho de Santiago». In Ademir L. Silva, Os Cavaleiros da Cruz Vermelha, Séculos XII e XIII, Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Goiás, Faculdade de CHeFilosofia, Goiãnia, 2003.

Cortesia de FdeCHeFilosofia/UniversidadeFGoiás/JDACT

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Os Cavaleiros da Cruz Vermelha. Ademir L. Silva. «Provavelmente Hugo e os primeiros oito eram idealistas, devotos da mística da cruzada. Mas em seguida agirão como cadetes em busca de aventuras. O novo reino de Jerusalém é um pouco a Califórnia daqueles tempos, pode-se fazer fortuna»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«O objectivo deste trabalho é analisar o papel desempenhado pela Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Salomão, ou simplesmente os Templários, na Reconquista e no processo de expansão urbana portuguesa, ocorrido ao longo dos séculos XII e XIII. O Templo foi uma confraria monástica / militar, fundada em Jerusalém no rastro do êxito da Primeira Grande Cruzada. Tinha como função primordial proteger os peregrinos cristãos de ataques muçulmanos ao longo do perigoso caminho para o Santo Sepulcro e outros lugares com simbologia mística cristã, na chamada Terra Santa. A Ordem dos Templários prosperou rapidamente e, com o apadrinhamento e orientação intelectual do célebre abade cisterciense Bernardo de Claraval, logo espalhou-se por toda a Europa, assumindo importantes papeis na história política, religiosa e económica do medievo. Foram fundamentais, por exemplo, nas guerras de Reconquista da Península Ibérica. No então nascente reino português, os Templários assumiram a cabeça da defesa da capital afonsina, Coimbra, e foram os principais protectores da linha do rio Tejo, então fronteira portucalense natural com os domínios muçulmanos. Em pagamento por estes serviços militares a Ordem recebeu, em doações régias, o controle sobre vastas regiões, nas quais ergueram fortificações que serviram como base para a fundação de inúmeros núcleos urbanos. Povoados que viviam literalmente sob a sombra dos muros dos castelos templários, ao mesmo tempo em que serviam como principal fonte de sustento material e portanto sustento institucional para a confraria».

«E o amigo o que faz?, me havia perguntado, agora o sei, com simpatia. Na vida ou no teatro?, disse, acenando para o palco do Pílades. Na vida. Estudo. Frequenta a universidade ou estuda? Não lhe parecerá verdade mas as duas coisas não se contradizem. Estou terminando uma tese sobre os Templários. Que coisa horrível, disse. Isso não é coisa de doidos? Provavelmente Hugo e os primeiros oito eram idealistas, devotos da mística da cruzada. Mas em seguida agirão como cadetes em busca de aventuras. O novo reino de Jerusalém é um pouco a Califórnia daqueles tempos, pode-se fazer fortuna». In Umberto Eco

O signo da peregrinação
A Ordem dos Templários, ou simplesmente o Templo, ou ainda, como se designava nos seus documentos oficiais, Frates militiae Templi ou Pauperes commilitones Christi Templique Salomonis, Irmãos Guerreiros do Templo e Pobres Cavaleiros de Cristo do Templo de Salomão, confraria monástico / militar criada em meados do século XII, na chamada Terra Santa, para proteger pelas armas os peregrinos que percorriam a rota rumo ao Santo Sepulcro de Jerusalém, foi um subproduto da febre das cruzadas. As diversas expedições militares ao Próximo Oriente organizadas pela cristandade europeia entre 1096 e 1270, representaram o ponto culminante de uma vasta rede de relações históricas abrangendo o Ocidente Medieval, o Império Bizantino e o avanço imperialista muçulmano, alicerçadas no ambíguo conceito de guerra santa: a expansão territorial fomentada pela expansão religiosa, seja sobre o ponto de vista do djihâd islâmico ou no de reconquista cristão. Sendo um intrinsecamente oposto ao outro, por definição, a ideia de cruzada pode ser entendida como equivalente ao djihâd e mesmo como uma contra-djihâd. A Primeira Grande Cruzada foi sem sombra de dúvidas um dos mais extraordinários acontecimentos da Idade Média. Da colossal movimentação bélica de muitos milhares de crentes abastados e humildes, instigada pela pregação de Urbano II, em 1095, seguida da extenuante marcha forçada de anos e anos rumo aos desertos da Palestina, até o espantoso genocídio final dentro dos muros da cidade que era o prémio maior da vasta empresa, a velha Jerusalém, o que se viu foi uma epopeia real, de dimensões homéricas, como nenhuma outra nos dez séculos que se convencionaram chamar de medievais. Prova do heroísmo, grandeza de espírito e fé inquebrantável do povo cristão europeu ou mera pirataria em larga escala, contra uma civilização culturalmente superior, o facto é que o sucesso da Primeira Grande Cruzada provocou espanto e deslumbramento ímpar no seu tempo. Nem sequer as conquistas de Carlos Magno igualaram-se à aventura cruzada. Mesmo a tragédia da Cruzada dos Pobres, longe de manchar a magnitude do evento principal, não fez mais do que aumentar sua dramaticidade». In Ademir L. Silva, Os Cavaleiros da Cruz Vermelha, Séculos XII e XIII, Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Goiás, Faculdade de CHeFilosofia, Goiãnia, 2003.

Cortesia de FdeCHeFilosofia/UniversidadeFGoiás/JDACT