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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Poesia. Chovendo na Roseira. «A frescura das gotas húmidas que é de Luisa, que é de Paulinho, que é de João, que é de ninguém»

Cortesia de wikipedia e jdact

Chovendo na Roseira

«Olha, está chovendo na roseira

Que só dá rosa, mas não cheira

A frescura das gotas húmidas

Que é de Luisa

Que é de Paulinho

Que é de João

Que é de ninguém

Pétalas de rosa carregadas pelo vento

Um amor tão puro carregou meu pensamento

Olha, um tico-tico mora ao lado

E passeando no molhado

Adivinhou a Primavera

Olha que chuva boa prazenteira

Que vem molhar minha roseira

Chuva boa criadeira

Que molha a terra

Que enche o rio

Que limpa o céu

Que traz o azul

Olha o jasmineiro está florido

E o riachinho de água esperta

Se lança em vasto rio de águas calmas

Ah, você é de ninguém

Ah, você é de ninguém»

Poema de António Carlos Jobim

 

Cortesia de wikipedia

 

JDACT, António Carlos Jobim, Poesia,

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Brasil em Quinta. Bossa Nova. «Deixei o sol na praia de Quissico. De bruços sobre o verão eu deixei o sol na extensão do tempo. Molhado, quase líquido, o dia afundava nas fundas águas do Índico. A terra se via nua lembrando, distante, seu parto de carne e lua. Não o pássaro: era o céu que voava»

jdact

«Pára, sangue, de correr,
de ressaltar aos borbotões,
de me inundar como torrente,
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força,
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurrando nas artérias,
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos»


«Quando eu a cinjo e ela me abre os braços,
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.
Desço o rio numa barca,
ao ritmo dos remadores.
Com um feixe de canas ao ombro,
vou para Mênfis,
e direi a Ptah, senhor da verdade:
Dá-me esta noite a minha amada.
Este deus é como um rio de vinho,
com seus maciços de canas.
E a deusa Sekhmet é como se fosse a sua moita de
flores.

E a deusa Earit, seu lótus em botão.
E o seu lótus aberto, o deus Nefertum.
E a minha amada será feliz.
Levanta-se a aurora através da sua beleza.
Mênfis é um cesto de tomates
posto frente ao deus de rosto puro.
Bom é mergulhar, bom,
ó deus meu amigo,
é banhar-me diante de ti.
Adivinhas-me quando se molha
minha túnica de fino linho real.
E juntos entramos nas águas,
e à tua frente eu saio das águas,
agarrando entre os dedos
um estupendo peixe encarnado.
Olha para mim.

Tanto se alvoroça meu coração, de puro amor,
que metade da minha cabeleira se desfaz,
quando corro ao teu encontro.
Para que me vejas sempre igual e bela
diante de ti,
eu componho os meus cabelos».
Poemas de Herberto Helder, in ‘Bebedor Nocturno’

JDACT

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vinícius de Morais. Casa Fernando Pessoa. «… ao Nordeste do Brasil acompanhando o escritor americano Waldo Frank, e durante a qual muda radicalmente a sua visão política, tornando-se um antifascista convicto»

Cortesia de antena2

No pf dia 18 de Outubro. Emissão especial das 16h00 às 17h00
Maratona Vinícius a propósito do centenário do nascimento do poeta e cantor.

«Poeta, dramaturgo, jornalista, diplomata e compositor, Vinícius de Moraes viveu a vida intensamente. O poetinha como lhe chamava Tom Jobim, casou nove vezes e deixou uma obra vasta. Vinícius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro no dia 19 de Outubro de 1913.
 
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
 
Na década de 1940 as obras literárias de Vinícius foram marcadas por versos em linguagem mais simples, sensual e excitante, por vezes, carregados de temas sociais. Publicou os livros Cinco Elegias, que marcou uma nova fase, e Poemas, Sonetos e Baladas, obra ilustrada com 22 desenhos de Carlos Leão. Como jornalista e crítico de cinema em diversos jornais, Vinícius lançou em 1947, com Alex Vianny, a revista Filme. Dois anos depois, publicou em Barcelona o livro Pátria Minha.
Os anos de 1940 ficaram também marcados por uma viagem ao Nordeste do Brasil acompanhando o escritor americano Waldo Frank, e durante a qual muda radicalmente a sua visão política, tornando-se um antifascista convicto.
Em 1954, Vinícius publica a sua colectânea de poemas, Antologia Poética, o mesmo ano em que é publicado Orfeu da Conceição, uma dramaturgia premiada no concurso do IV Centenário de São Paulo, e que consagrou definitivamente o seu nome. Quando Vinícius procurava alguém para musicar a sua peça, aceitou a sugestão do seu amigo Lúcio Rangel para trabalhar com um jovem que vendia músicas em Copacabana, esse jovem chamava-se António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Do encontro entre Vinícius e Jobim nasceu uma das mais fecundas parcerias da música brasileira». In Antena 2.

Cortesia de Antena 2/JDACT