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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «Enfim, valeu-lhes fundamentalmente, Deus, mas também o muito tento e a prudência e cautela de Vasco da Gama (segundo a imagem transmitida por Couto), apesar de, por vezes se mostrar homem colerico e apressado nas resoluções»

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Introdução
«(…) Do ponto de vista do proveito, é sabido que a viagem inaugural de Vasco da Gama não suscitou logo grandes efeitos directos. Foram embarcados em 1497 (e estamos a apoiar-nos no Tratado) panos, barretes vermelhos, gorras, cascavéis, facas e outras coisas de pouca monta (mais próprias para as trocas directas da Costa Ocidental Africana, acrescentamos nós), pelo que com tão vulgares e desvalorizadas para-moedas não seria possível intervir comercialmente nas já fortemente monetarizadas economias do Índico. Limitou-se, pois, a primeira expedição do Gama a trazer amostras das especiarias asiáticas, tal como, aliás, à partida, lhe fora solicitado. Apesar de tudo, em Moçambique terá oportunidade de tomar conhecimento do trato do ouro de Sofala, ou antes, do Monomotapa e os mercadores portugueses terão ensejo de, além dos perigos, se aperceberem de como funcionavam os mercados orientais. Assim, conforme alguns diplomas régios registam, o proveito cobyçado de tamtas gentes rrecreçeo a nós [rei] e aos ditos nosos rreinos, a partir da primeira viagem de Vasco da Gama, acrescentando outros que também toda a Cristandade afinal beneficiou. O bem que adveio para o Reino e para o serviço de Deus com a descoberta da Índia e o largo contributo que ela deu para o conhecimento do orbe e dos homens teve, porém, um ónus elevado, quer se considerarmos os enormes gastos suportados pela Coroa/Estado, quer os elevados riscos/perigos inerentes a tal aventura. Dos gastos não falaremos (nem Couto parece preocupar-se muito com eles, pelo menos, no seu Tratado), mas dos perigos procuraremos dar alguns exemplos, até porque será a circunstância de se pôr a vida a risco que, nos séculos XV e XVI, se confirmará como uma das vias que mais concorriam para se obter honra, ou para galardoar quem se dispunha a servir bem o rei e a comunidade. Ora, à nobreza natural (própria do homem que já nasce nobre) Vasco da Gama acrescentou a nobreza civel e politica que os seus feitos (arriscados e conseguidos) lhe granjearam e os reis portugueses reconheceram. Concretamente (e voltamos a seguir o Tratado): durante a primeira viagem, Vasco da Gama e os companheiros foram atacados, às azagaiadas, no rio S. Tiago, tendo o capitão-mor ficado ferido num pé; o piloto que tomaram em Moçambique pretendeu meter as embarcações no saco de Quíloa e deu com a nau S. Rafael em cima de uns baixos; os mouros de Calecute pretenderam incendiar os navios portugueses; a expedição correu o risco de ficar retida na Índia, com a monção desfavorável; no rio de Onor, já no regresso, o corsário Timoja armou um perigoso ardil aos portugueses. De todas estas fortes ameaças para a vida humana os nossos se livraram sob o comando competente e heróico de Vasco da Gama, com o auxílio de Deus Nosso Senhor. Enfim, valeu-lhes fundamentalmente, Deus, mas também o muito tento e a prudência e cautela de Vasco da Gama (segundo a imagem transmitida por Couto), apesar de, por vezes se mostrar homem colerico e apressado nas resoluções. Porém, esta característica, aparentemente desfavorável do valerozo capitão, não sairá depreciada à luz do juízo de Couto, já que, como era rezulluto ao concelho, assim trabalhou sempre pello ser na ezecussaõ.
Era (é) na guerra que as virtudes humanas (valentia, prudência, justiça, temperança...) mais tinham oportunidade de se afirmarem. Por tal e como se explicita noutros Tratados quinhentistas sobre a nobreza civil e cristã, o ofício das armas era o mais nobre/honrado do Mundo, uma vez que por ele era conservada a liberdade, acrescentada a dignidade e multiplicados os reinos e senhorios. Ora, deste ponto de vista, a imagem que Couto nos dá de Vasco da Gama, sobretudo da sua actuação na Índia durante a segunda e a terceira permanências, é não só a de um bom combatente e exigente comandante militar, como a de um empenhado administrador do futuro Estado da Índia». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da UCoimbra/JDACT

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «Ora, deste ponto de vista, conforme Couto registou na Oração / discurso que estava feita para o dia, que se alevantasse [em Goa] a estatua do conde [Vasco da Gama], que não veio a efeito»

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Introdução
«(…) Enfim, por estas e outras razões explícitas, Vasco da Gama, para Couto, fora um predestinado, bem como o monarca que lhe facultou a viagem da descoberta da India, ou seja, Manuel I. Lendo, com efeito, O Soldado Prático, encontramos na parte final da obra, em jeito de resumo, a seguinte proclamação: cotejando os favores que Deus fez aos israelitas e a nós, portugueses, ficámos sem dúvida beneficiados. Porquê ou para quê? Nos os Portugueses não assim [não fomos desfavorecidos], porque como Deus Nosso Senhor tinha determinado mandar dilatar e pregar a sua santa lei por autores de cousa tamanha, que foi o mor mimo e mercê de todos os que fez aos filhos de Israel, abriu-lhe[s] caminho por meio desse Oceano por distância de seis mil léguas e em seis meses de jornada, sem risco, nem perigo; porque as três naus que a isso foram, todas tornaram a este reino. E no Tratado de todas as cousas... volta a afirmar que o negócio da descoberta da Índia foi tamanho ou cousa grande, pelos gastos exigidos, pelo risco de aventura e, sobretudo, por ser serviço de Deus e bem do Reino. Pois, ao dispor-se Vasco da Gama a ser padrinho de baptismo do judeu polaco, emissário do sabaio de Goa, não deu ele continuidade à acção evangélica de um apóstolo? E assim podemos dizer que Vasco da Gama foi o primeiro depois do appostolo S. Thomé que nestas partes [...] comesou a ezercitar este santo salvamento e que abrio esta fonte donde depois manou a amplissima christandade que por todo o Oriente se estende - comentará, Couto.
Enfim, o autor do Tratado é um acérrimo defensor da ideologia que, desde 1415 (leia-se, particularmente o Livro de Arautos, publicado em 1416 ou a Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal, iniciada em 1419), tradicionalmente ou de uma forma estrutural, sustenta a Expansão Portuguesa e de que uma das linhas de força será a aliança estabelecida entre Deus e os portugueses: eles difundiriam a sua religião e Ele combateria a seu lado. Ora, deste ponto de vista, conforme Couto registou na Oração / discurso que estava feita para o dia, que se alevantasse [em Goa] a estatua do conde [Vasco da Gama], que não veio a efeito, designadamente, se o valeroso capitão não tivesse descoberto o Estado da Índia, não fora a Virgem Maria ali tão venerada. Com efeito, ela andava associada, pelos portugueses, à empresa da Expansão, juntamente com alguns santos (S. Tiago, S. Tomé...) e se, por sua intercessão, (é esta a interpretação de Diogo do Couto), os nossos alcançavam do Céu favores, também eles lhos prestavam. Concretamente, a Virgem tinha particular obrigação para com Vasco da Gama.
A par do proveito espiritual, deveria ser considerado, igualmente, por ser necessário e legítimo (segundo as mentalidades e ideologias da época do Gama) valor material. Ora, do ponto de vista do último destes valores, segundo Couto (e estamos a citar, novamente, a oração referida), Vasco da Gama não descobrio nesta jornada [a primeira] o horto das Espheridas, onde fabullarão haver maçans d'ouro, mas descobrio-nos montes d'ouro, serras de prata, descobrio-nos minas de diamantes, e rubis, pedras d'esmeraldas, e çafiras, descobrio mares, e pescarias de perolas serenissimas, deo noticia ao mundo de todas as especiarias aromatecas com que oje se emrequesse, descobrio-nos emfïm todas as louçainhas lindezas, e riquezas deste Oriente [...]. Em suma, no contexto da economia e da sociedade portuguesa, a descoberta da Índia permitiu aumentar o número e a abastança das casas senhoriais, a ponto de algumas delas suplantarem em majestade as antigas casas reais. Concorreu, enfim, e decididamente, para o crescimento e o desenvolvimento do nosso pequeno Reino». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da UCoimbra/JDACT

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «… a finalidade do Tratado com o objecto do mesmo, pensamos poder afirmar que o registo dos feitos dos filhos de Vasco da Gama na Índia apenas amplia ou robustece as maravilhosas couzas…»

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Introdução
«(…) O manuscrito que agora se publica coloca, pelo seu mau estado, sérias dificuldades e manifestas impossibilidades de leitura, particularmente quanto aos primeiros 14 capítulos da Segunda Parte. Na transcrição, aproximámo-nos dos critérios apontados por Vitorino Magalhães Godinho para as edições diplomático-críticas (Revista de História Económica e Social). Esclareça-se, contudo, que, na medida do possível, procurámos colmatar essas lacunas com o texto dos capítulos das Décadas. Trabalhámos sobre cópia obtida a partir do microfilme, mas cotejámos as dúvidas que nos surgiram com o próprio microfilme. Procurando favorecer a leitura, sem retirar ao texto o seu sentido cultural e o seu sabor arcaico, adoptaram-se as seguintes opções: desdobraram-se as abreviaturas; suprimiram-se as iniciais maiúsculas nos nomes comuns e em simples elementos, de ligação gramatical, mas mantiveram-se, ou tomaram-se em todos os nomes próprios.
Quanto ao conteúdo, o autor define concretamente no longo título, o objectivo que a si mesmo se propôs tratar os feitos de Vasco da Gama e de seus filhos no Oriente. A primeira parre da obra constitui uma crónica dos sucessos obtidos por Vasco da Gama nas três vezes que passou à Índia e em especial durante a primeira. É que, segundo Couto, talvez pela grandeza e temeridade da viagem do descobrimento, tal feito passou a figurar mais como couza que passou la na outra vida e não tanto como empreendimento realizado há relativamente pouco tempo sob o comando de um mortal, precisamente o bisavô de Francisco Gama. Logo, se louva a diligência deste, não deixa de, frontalmente, como era faceta característica da sua personalidade (leia-se, também, o relato biográfico de couto, da autoria de Manuel Severim Faria) criticar a incúria dos outros descendentes do primeiro conde da Vidigueira e almirante do Mar Indico, por não perpetuarem convenientemente a sua memória. Enfim, sem confundirmos a finalidade do Tratado com o objecto do mesmo, pensamos poder afirmar que o registo dos feitos dos filhos de Vasco da Gama na Índia apenas amplia ou robustece as maravilhosas couzas, e os raros e espantosos socessos que o valeroso capitão realizou.
Repare-se, com efeito, como o espaço da actuação do herói (por ser para os ocidentais, designadamente para os portugueses, um espaço incógnito e tão distante, a última das terras) é elemento decisivo na avaliação dos feitos que realiza no âmbito das descobertas e das conquistas, a ponto de, por sugestão de João de Barros, Diogo do Couto insistir que ao nome de Vasco da Gama se deveria associar o epíteto de o Índico, à semelhança de Cornélio Cipião, o Africano, ou Jacob, o Ismaelita. Justificá-lo-ia a proeza de ter alcançado a incógnita e distante Índia, mas sobretudo o facto de ela não ter ficado isolada no pensamento real e imaginário dos ocidentais, nem o seu interesse por ela se ter circunscrito a uma mera fruição à escala local e regional. O que a indústria e o esforço dos homens (europeus) sobremaneira proporcionaram, através do feito extraordinário da descoberta do Gama, foi tornar comonicaveis o Gange com o Tejo, o Eufrates cõ o Minho, o Nilo cõ o Douro, o Tigre cõ o Gadiana, ajuntando o primeyro ponto do naçimto do sol, cõ o uhimo fin de seu ponte. Eis, pois, o Oriente ligado, por interesses vários e com carácter sistemático, ao Ocidente, precisamente através do pequeno Portugal, situado na parte mais ocidental e, por isso mesmo, no dizer de Camões, cabeça da Europa.
Que sabia esta Europa de matéria de cosmografia? Que (além do mais) a terra não era plana, mas esférica; que havia antípodas, apesar de parecer ser anti-natural; que estas e outras desmitificações se vinham processando graças ao esforço teórico e experimental dos europeus, mas também (e é esta a nota forte do discurso de Couto), porque no-las manifestou [e voltamos a citar a sua epístola a Francisco da Gama] aclarou e descobrio o nosso valerozo capirão dom Vasco da Gama». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da UCoimbra/JDACT

sábado, 30 de março de 2013

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «… o “Tratado” é sobre o Gama e os seus filhos que passaram à Índia. Exclui, portanto, os netos e os bisnetos. Aliás, António Coimbra Martins, noutro artigo publicado em 1985 desfaz todas as dúvidas a este respeito»

Nau do primeiro quartel do séc. XVI, pormenor do painel do retábulo de Vida e Martírio de Santa Auta
josepessoa e jdact

«Não pode ele ser confundido de modo algum, portanto, por exemplo, com a Vida e feitos de D. Vasco da Gama, descobridor da Índia, e dos mais, fidalgos daquela família que militaram na Índia, da autoria de Francisco de Andrade, embora, como lembrava António Coimbra Martins, em artigo publicado em 1981 (Paris, Fundação Calouste Gulbenkian), nos ‘Arquivos do Centro Cultural Português’, XVI, pp. 283-85, sob o título ‘Quem Na Estirpe Seu Se Chama…’ ‘l'un et l'autre demeurent inédits’. Não integram, igualmente, o plano do Tratado os cinco Livros da Década XII, aparecidos em Paris em 1645, e alusivos ao primeiro governo de Francisco da Gama, como se disse bisneto de Vasco da Gama e vice-rei da Índia por duas vezes (1597-1600 e 1622-28). Insistimos: o Tratado é sobre o Gama e os seus filhos que passaram à Índia. Exclui, portanto, os netos e os bisnetos. Aliás, António Coimbra Martins, noutro artigo publicado em 1985 desfaz todas as dúvidas a este respeito, quando afirma:
  • Em 1601, já Diogo do Couto reserva para si mesmo, ao contrário do que afirmara em 1599, a elaboração e redacção da história do governo de Francisco. Não em crónica à parte, nem como apêndice ao Tratado dos Gama, mas no quadro da sua história da India Portuguesa, melhor ou pior repartida em Décadas.
Haverá uma outra cópia do Tratado ou até o original? Nos vários autores que consultámos não encontrámos qualquer alusão à sua existência. E, na prossecução dessa eventualidade, realizámos aturadas pesquisas na Secção de Reserva dos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, no catálogo dos Manuscritos da Biblioteca Pública de Évora e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Nada encontrámos a este respeito, o que mais valoriza o códice da Biblioteca Nacional de Lisboa e mais justifica a sua publicação, uma vez que o seu estado de deterioração e de legibilidade tende a agravar-se. Constatámos, isso sim, que Diogo do Couto utilizou, na elaboração da Segunda Parte do Tratado que ora se publica, alguns capítulos das suas Décadas IV, V e V, nalguns casos de forma bastante aproximada entre os dois textos, noutros procedendo a elaborações originais, a alterações, ajustamentos, cortes, junções ou acrescentos.
O cap. 1.º da Segunda Parte do Tratado afigura-se não ter equivalência nas Décadas, de Diogo do Couto, pelo que deve ter sido composto propositadamente para a primeira destas obras.
O cap. 2.º corresponde em parte ao cap. XI do Liv. VIII da Déc. IV (Parte II). Foi estabelecido o cotejo usando a edição Da Asia de Diogo de Couto, Lisboa, Na Regia Officina Typografica, Anno MDCCLXXVIII. A Primeira Parte deste capítulo coincide muito pouco e até o próprio título tem alterações maiores do que é comum.
O cap. 3.º tem pontos de contacto com o cap. XII do Liv. VIII da Déc. IV (Parte II). Só cerca de metade do título corresponde, sendo mais extenso na Década. A primeira parte apenas apresenta alterações de forma, terminando no Tratado com a referência às viagens de Banda. Na Década, Couto dá notícia das Ilhas de Banda, pelo que no Tratado foi suprimido quase metade do texto.
[…]

In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.

Cortesia da FL da U. de Coimbra/JDACT

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia. Diogo do Couto. «Não pode ele ser confundido de modo algum com a “Vida e feitos de D. Vasco da Gama, descobridor da Índia, e dos mais, fidalgos daquela família que militaram na Índia”, da autoria de Francisco de Andrade»

Nau do primeiro quartel do séc. XVI, pormenor de Vida e Martírio de Santa Auta
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«Uma introdução à leitura da obra inédita de Diogo do Couto sob o título, repare-se nos elementos principais que o compõem Tratado de todas as cousas socedidas ao valeroso capitão DomVasco da Gama primeiro Conde da Vidigueira: Almirante do mar da India: no descobrimento, e conquistas dos Mares e Terras do Oriente: e de todas as vezes que ha India passou, e das Cousas que Socederão nella a todos seus filhos aconselha que, antes do mais, a submetamos à crítica externa.
Assim, temos conhecimento da mesma haver sido referenciada por Diogo Barbosa Machado, pelo que decidimos inserir nesta publicação a Notícia dos Authores, que Escreveram de Diogo do Couto E Catalogo das Obras que Compos, extrahidas da Bibliottheca de Diogo Barbosa Machado, transcrita, aliás, na Parte Primeira, Década IV, da Asia, de Diogo do Couto, Lisboa, na Regia Officina Typografica, Anno MDCCLXXVIII, pp. XX-XXVI. Concretamente, quer o título, quer o plano da obra (duas Partes, a primeira com 28 capítulos e a segunda com 30), quer ainda a alusão a que o referido Tratado foi feito em Goa a 16 de Novembro de 1599, data de uma carta em que Couto o dirige ou dedica a Francisco da Gama, conde da Vidigueira, vice-rei e bisneto do descobridor da Índia, constituem indicadores, em nosso entender, suficientes para conferir identidade própria ao documento que agora divulgamos.
Por sua vez, Francisco Pereira, ao publicar em 1898 (Lisboa, Imprensa Nacional) o Tratado composto por Miguel de Castanhoso sob o título Dos Feitos de D. Christovam da Gama, uma das contribuições da Sociedade de Geografia de Lisboa para precisamente assinalar e Quarto Centenário do Descobrimento da India, escreve:
  • ‘No Manuscrito B-6-14 da Bibliotheca Nacional de Lisboa, attribuido a Diogo do Couto, referem-se os successos de D. Vasco da Gama e de seus filhos no Oriente. Este manuscripto é um livro de papel de 207 folhas de 0m, 29 x0,21m, encadernado, escripto com tres letras differentes do seculo XVIII. Tem por titulo: Tratado de todas as cousas socedidas ao valeroso capitião Dom Vasco da Gama primeiro conde da Vidigueira: Almirante do Mar da India no descobrimento, e conquistas dos Mares, e Terras do Oriente: e de todas as vezes que ha India passou, e das cousas que socederam nella a todos seus filhos. Dirigido a D. Francisco da Gama conde da Vidigueira Almirante do mar Indico, e visorrei da India. Por Diogo do Couto Cronista e Guarda mor da Torre do Tombo da India. A dedicatória é datada de Goa de 16 de Novembro de 1599. O tratado compõe-se de duas partes; na primeira contam-se os sucessos de D. Vasco da Gama nas suas três viagens á India; na segunda referem-se os feitos de seus filhos D. Estevam, D. Paulo, D. Christovam e D. Pedro da Silva no Oriente. A narração é idêntica á das Decadas da Asia de Barros e de Couto, umas vezes abreviada, e outras reproduzida verbalmente’.
Entre 1898 e 198O, data da publicação da 3.ª edição (Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora) de O Soldado Prático, de Diogo do Couto, com texto restituído, prefácio e notas por M. Rodrigues Lapa, o verbete do Tratado foi alterado e passou a andar deslocado. Mas, é melhor citarmos a Nota da página 13 da referida edição de O Soldado Prático:
  • ‘À última hora encontrámos na Biblioteca Nacional de Lisboa um manuscrito de Couto (nº 462), cujo verbere andava lamentavelmente deslocado do catálogo do Fundo Geral. É o Tratado de todas as cousas sucedidas ao valeroso capitão D. Vasco da Gama… no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente. É, em suma, a crónica dos feitos de Vasco da Gama e de seus filhos, encomendada a Couto pelo vice-rei Francisco da Gama e terminada em Goa, a 16 de Novembro de 1599’.
Aliás, na folha de rosto do manuscrito que transcrevemos estão insertas ambas as cotas: B-6-14 e n.º 462.
Não pode ele ser confundido de modo algum, portanto, por exemplo, com a Vida e feitos de D. Vasco da Gama, descobridor da Índia, e dos mais, fidalgos daquela família que militaram na Índia, da autoria de Francisco de Andrade, embora, como lembrava António Coimbra Martins, em artigo publicado em 1981 (Paris, Fundação Calouste Gulbenkian), nos ‘Arquivos do Centro Cultural Português’, XVI, pp. 283-85, sob o título ‘Quem Na Estirpe Seu Se Chama…’ ‘l'un et l'autre demeurent inédits’». In Diogo do Couto, Tratado dos Feitos de Vasco da Gama e de seus filhos na Índia, organização de José Azevedo Silva e João Marinho Santos, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Edições Cosmos, Porto, 1998, ISBN 972-762-081-7.


continua
Cortesia da FL da U. de Coimbra/JDACT

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «O teor do discurso constitui uma clara prova da sujeição do cronista aos desígnios próprios do ambicioso Vidigueira, desejoso de enraizar em Goa o culto dos Gama. Mais tarde, sempre por sua iniciativa, seria colocada, sobre a porta do cais dos vice-reis, da banda de fora, uma estátua do descobridor, que daria muito que falar»


Cortesia de foriente

Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto.
«Por meados deste período de trabalho encarniçado, a corte, que se mostrara tão favorável a Diogo do Couto, começou a interrogar-se sobre o homem. A breve prazo iria até pôr em questão a nomeação, comunicada em 1595. Conhecem-se duas causas para esta mudança de atitude:
  • a posição de Matias de Albuquerque relativamente aos papéis da Índia,
  • e informações prejudiciais, chegadas à mais alta esfera, sobre as capacidades de Diogo do Couto, e a sua «pureza de sangue».
Devido a esta mudança de atitude, o sucessor de Matias de Albuquerque, que foi D. Francisco da Gama, viria a ter nas mãos o destino do diligente e rápido cronista. Podia-lhe ter cortado a crónica. Não o fez. Era bisneto de Vasco da Gama, a quem Luís de Camões cantara. E tinha desígnios muito próprios sobre a Índia, que considerava domínio dos Vidigueira. Convinha-lhe um homem de letras, que não só cantasse os fastos do seu governo, como defendesse na praça, e fixasse em escritura, os direitos da sua família, tal como ele os entendia.


Cortesia de foriente

O rei escrevia-lhe que distinguisse entre os documentos que podiam ou não ser confiados a Diogo do Couto; que expusesse a sua opinião sobre o regimento do arquivo; que ponderasse se havia de ser Couto a passar as certidões; que lesse as Décadas que ele ia compondo, e desse sobre elas a sua sentença; que, de acordo com o arcebispo de Goa (frei Aleixo de Meneses), se pronunciasse sobre o homem, de quem era informado que tinha «falta em seu nascimento». Se Couto lhe parecesse a pessoa indicada para organizar o arquivo, e escrever a história da Ásia, que o ajudasse em tudo. Caso contrário, escolher-se-ia pessoa mais capaz.
Couto era tão hábil e dissimulado no seu trato com as altas personagens, como crítico e amargo no seu foro interior. D. Francisco deu boas informações dele ao rei. Em contrapartida, o «soldado-escritor» assumiu o compromisso, tácita ou explicitamente, de defender a causa dos Vidigueira, escrevendo a história de um ponto de vista compatível, e colaborando na promoção do culto dos Gama no Estado. Esta aliança fora rapidamente concluída antes mesmo de o vice-rei receber as instruções do rei, que mais decisivamente o faziam juiz da sorte do nosso autor.

Cortesia de foriente

A tomada de posse de D. Francisco em Goa teve lugar no dia 1 de Junho de 1597. Pelo Natal inaugurou-se nos Paços da cidade um retrato de Vasco da Gama em tamanho natural, e Couto foi o orador oficial da cerimónia. O teor do discurso constitui uma clara prova da sujeição do cronista aos desígnios próprios do ambicioso Vidigueira, desejoso de enraizar em Goa o culto dos Gama. Mais tarde, sempre por sua iniciativa, seria colocada, sobre a porta do cais dos vice-reis, da banda de fora, uma estátua do descobridor, que daria muito que falar.
Entretanto o cronista não esmorecia nas diligências em prol da sua própria obra. Nas naus de 1597, que deram à vela em 17 de Janeiro de 1598, iam o manuscrito da «Década 4», ou os manuscritos das «Décadas 4 e 5».
Couto referir-se-á mais tarde a um só, ou a ambos, quando evocar esta armada em diferentes ocasiões.

Em 1598 agrava-se o estado de Filipe II que morrerá nesse ano em 13 de Setembro; e multiplicam-se, relativamente à Índia, as medidas, que já vinham do ano anterior, favoráveis aos fidalgos dos quatro costados e aos cristãos velhos, e contrárias a judeus, cristãos-novos, gentios e mestiços.
Entretanto Couto continua a trabalhar na «Década 6», e nada faz crer que tenha sido incomodado por este rigor novo. Somente D. Francisco concebe um projecto que não lhe deve ter dado alegria. Não tinha um cronista à sua disposição? Pois que o cronista fizesse uma pausa nas suas Décadas, e, em vez de escrever a História da Ásia, consagrasse antes a sua pena a narrar as façanhas dos Gamas naquelas partes. E isto, desde o início, desde Vasco da Gama, desde a partida do seu bisavô, de Belém». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.

http://www.angelus-novus.com/admin/livros/uploads/soldado_pratico_E.pdf

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «A primeira de Couto, a mais «antiga», seria a quarta. Na sequência, caberia à que havia de começar em fanfarra pela proclamação do Filipe, o número dez. Para dar a conta certa, e começar e terminar cada uma com factos marcantes (início e termo de governos em Goa), havia que encolher nalguns casos o lapso de tempo abrangido»

Cortesia de foriente

Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto.
«Em fins de 1589, escreveu pessoalmente a Filipe II. Dizia ter quase pronta uma «Crónica geral da Índia», a partir do marco referido. E requeria que se criasse urgentemente um arquivo em Goa, onde se conservassem e organizassem todos os documentos relativos à história oriental dos Portugueses. Dessa futura Torre do Tombo, candidatava-se ele mesmo a guarda-mor.
Sabe-se como Diogo do Couto teve de escrever segunda vez (senão terceira ou quarta) muitos dos seus livros. Também teve de reescrever esta carta, que ficou sem efeito. Em fins de 1593 repetiu o seu duplo pedido. Em sucessivas instruções, datadas quase todas de 1595, Filipe II defere as pretensões do ex-soldado. Manda que o vice-rei entregue ao cronista todos os papéis de que este precise;
  • «que se faça uma casa» em Goa, «que sirva de Torre do Tombo»; e que o recém-nomeado cronista e guarda-mor tenha por ano trezentos pardaus de ordenado.

Cortesia de foriente

Em carta ao próprio Couto que viria a figurar como peça liminar da «Década 5», “encomenda”, que ele lhe envie o troço da crónica do seu tempo, que dizia ter concluído. Mas quer mais do que esse. Não devia consentir-se solução de continuidade na história. Couto devia preencher a lacuna, fazendo partir a obra, de que ficava encarregado, da data a que chegava a última Década de Barros.

Encartado cronista, o soldado não perdeu tempo. Planeou imediatamente, em décadas, a fim de continuar pelo cânone precedente, uma periodização da história, a partir do marco atingido por Barros, até à baliza inicial da sua crónica moderna. E encetou a redacção da primeira das seis, com as quais ficaria preenchida a lacuna. A última (impressa) de Barros era a terceira. A primeira de Couto, a mais «antiga», seria a quarta. Na sequência, caberia à que havia de começar em fanfarra pela proclamação do Filipe, o número dez. Para dar a conta certa, e começar e terminar cada uma com factos marcantes (início e termo de governos em Goa), havia que encolher nalguns casos o lapso de tempo abrangido.

Cortesia de foriente

O vice-rei, Matias de Albuquerque, não terá ficado tão feliz como Diogo do Couto com as reais decisões. As coisas da Ásia, do governo da Ásia, discutiam-se em papéis, as instruções da coroa vinham em papéis, que era impossível facultar a quem quer que fosse. Curiosamente, em maré de deferimento, o Prudente não tivera em conta o segredo de Estado.

Matias mandou começar os aposentos para o arquivo, facultou papéis a Diogo do Couto, mas com conta e medida, não se desviando de urna política de reserva, partilhada pelos vereadores da cidade. E explicou ao rei os fundamentos desta atitude, que contrariou o cronista, e da qual este se queixaria.
A «Década 4», correspondente ao período que vai de 1526, termo da terceira de Barros, a 1535, foi escrita de fins de 1595 a certa altura de 1596. A «Década 5», correspondente ao período que vai de 1536 a 1545, foi escrita em 1596 e 1597. A «Década 6», correspondente ao período que vai de 1545 a 1554, foi começada em 1597. Estas três Décadas constituem o fruto do labor inicial, com que Diogo do Couto correspondeu aos despachos favoráveis do rei espanhol». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7.


Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

domingo, 8 de maio de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Em Moçambique, teria encontrado Luís de Camões, "tão pobre que comia de amigos". Estava o poeta a aperfeiçoar os Lusíadas e a organizar uma colectânea de poesias líricas. ...Camões teria pedido a Couto, cujo conselho seguia muitas vezes, que escrevesse um comentário do poema a que Couto acedeu...»

jdact

Introdução à leitura da Década Quarta de Diogo do Couto.
«Pelo tempo em que D. Sebastião tomou posse do Governo, decidiu Couto, entendendo que a sua folha de serviço, era já bastante eloquente, tornar ao reino «a requerer o prémio dos seus trabalhos», como diz Severim. Para isso embarcou na Índia em princípios de 1569, na armada em que vinha de regresso o vice-rei D. Antão de Noronha. Todas as naus, excepto uma que não conseguiu tomar terra, e seguiu directamente para Lisboa onde chegou na força da peste negra, arribaram à ilha de Moçambique. Antes de chegarem às alturas de Angoche, falecera o .vice-rei, que Couto estimava, até porque era muito amigo de «dar mesas» e ele, Couto, achava isso muito bem, e nelas participava com frequência e gosto.

Cortesia de topatudo
Em Moçambique, teria encontrado Luís de Camões, «tão pobre que comia de amigos». Estava o poeta a aperfeiçoar os Lusíadas e a organizar uma colectânea de poesias líricas. Segundo Severim e a versão Porto/Madrid da Década 8, e outros que provavelmente bebem nestas fontes, Camões teria pedido a Couto, cujo conselho seguia muitas vezes, que escrevesse um comentário do poema. Couto teria acedido, e teria levado o seu trabalho até certa altura do canto V. «Outros impedimentos» tê-lo-iam impedido de ir mais longe. Porém, nem por isso deixavam de ser «muito estimados» aqueles «fragmentos». Severim precisa que, na altura em que escreve (por 1623), o «volume original» dos «fragmentos» se encontra em poder de D. Fernando de Castro, que o houvera de D. Fernando de Castro Pereira, a quem, por particular amizade, Diogo do Couto enviara o manuscrito inacabado.

Cortesia deinfopedia
Na versão primeiro impressa da Década 8 escreve Couto que chegou a Cascais em Abril de 1570, a bordo da nau Santa Clara. Desembarcou com o correio da Índia, estava a corte em Almeirim. Aqui aguardou audiência nada menos que do rei D. Sebastião. Por suas palavras: «em Almeirim o esperei, aonde veio ter daí a dois dias, e de mim soube tudo o que quis».
Dos seus próprios assuntos, escrevera Couto, enquanto cronista, que foi «bem despachado», mas sem especificar que despachos obteve. Não lhe abriram no reino as portas do futuro: logo na armada seguinte voltou a embarcar para a Índia. Este rápido regresso merece ser ponderado em função de certos passos e queixas amargas. De Camões traz a Década 8 que morreu «em pura pobreza». No segundo diálogo diz o Soldado Prático que quem conseguiu ir a Portugal a despacho, «ou será forçado morrer de fome neste reino, ou deixar tudo e tornar-se para a Índia, sem ser respondido». Não se aplicará a alternativa, respectivamente, ao próprio poeta e ao próprio Couto?» In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Fundação Oriente, 1999, ISBN 972-27-0876-7. 

http://www.angelus-novus.com/admin/livros/uploads/soldado_pratico_E.pdf
 
Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

terça-feira, 19 de abril de 2011

Diogo do Couto. Década Quarta da Ásia: «Tal sentimento está na origem da mais antiga obra de Couto, que nos chegou o Diálogo do Soldado prático português. Esta passa erradamente pela primeira versão da outra, posterior de uns bons quarenta anos, que é chamada o Diálogo do Soldado prático...Tendo invernado em Diu em 1560, levou Couto mais ou menos o lapso de tempo de uma década, a ganhar honra na Índia»

(c. 1542-616)
Lisboa
Cortesia dewikipedia

Introdução à Leitura da DÉCADA QUARTA de Diogo do Couto
«Da história do que se chamou a Ásia portuguesa o monumento fundamental que possuímos são as Décadas, perfeitas ou imperfeitas, cuja responsabilidade assumiram sucessivamente João de Barros, Diogo do Couto e António Bocarro. A imperfeição é manifesta no caso de Diogo do Couto, que deveria ter-nos deixado nove Décadas, da quarta à décima-segunda inclusivamente. Destas, chegaram-nos umas completas, outras em epítome; doutra chegou-nos apenas metade; outra deu-se por perdida; de algumas conhecem-se diferentes versões; de nenhuma tinha sido tentado, até há poucos anos, o estabelecimento ou restabelecimento do texto fidedigno.
A presente edição geral procura, mediante o regresso às fontes, impressas ou manuscritas, e o cotejo de testemunhos, quando há vários, oferecer o melhor texto possível de todas as Décadas de Couto. Começa pela quarta, que é a que corresponde aos mais recuados anos que o autor pôs em crónica, e que é também a sua primeira obra publicada.

jdact
Antes da obra, o autor. O próprio Couto afirma que invernou em Diu em 1560. Não se conhece a data exacta da sua chegada à Índia, mas, em qualquer caso, pouco antes terá sido. A Década 4 saiu em 1602.
Começaremos por dizer a nossa visão, num relance, do que foram quarenta anos da vida deste homem, na Índia, salvo um salto a Lisboa, e do seu tempo em Goa. A que se poderiam chamar as primícias difíceis e os labores aturados de um destino imprevisível de cronista.
Tendo, pois, invernado em Diu em 1560, levou Diogo do Couto mais ou menos o lapso de tempo de uma década, a ganhar honra na Índia. Muitos passos disseminados na sua obra permitem reconstituir o que foram o seu baptismo de fogo, e as acções em terra e mar, em que deu provas de soldado, rapidamente prático naquelas andanças e matanças.
Mas este soldado tinha habilitações literárias. Reflectia nas sem-razões que prejudicavam o Estado. Uma delas era que nele punham e dispunham, e até às vezes o governavam, fidalgos dos quatro costados, mas sem experiência suficiente daquelas partes, e às vezes sem experiência nenhuma. No caso de governadores e vice-reis, quando começavam a entender da Índia, é que os mandavam embora.

Cortesia de topatudo 
Tal sentimento está na origem da mais antiga obra de Couto, que nos chegou o Diálogo do Soldado prático português. Esta passa erradamente pela primeira versão da outra, posterior de uns bons quarenta anos, que é chamada o Diálogo do Soldado prático, ou apenas O Soldado prático. Águedo de Oliveira foi quem melhor viu a irredutível alteridade e mesmo a oposição entre as duas. Na mais antiga dialogam duas personagens, e na mais moderna três, e aquela é uma obra de esperanças, e esta de desengano. Distingui-las-emos especificando o primeiro Soldado prático e o segundo Soldado prático. Aquele terá sido composto por volta de 1565-1570. E o que é certo é que se apresenta como o fruto literário da primeira fase da vida do autor na Índia, digamos do seu longo serviço militar. Dialogando com um vice-rei, que acaba de ser nomeado, pretende o soldado fazê-lo beneficiar da sua experiência. E entende Couto, que alardeia assim a sua competência nos assuntos da Ásia, que ela merece ser reconhecida e aproveitada, com vantagem para a coroa e para o Estado, e proveito para ele. Infelizmente parece impossível averiguar qual tenham sido a sorte e o efeito, ao tempo, deste manuscrito, cujo original Severim pretende que foi roubado». In Diogo do Couto, Década Quarta da Ásia, volume I, coordenação de M. Augusta Lima Cruz, Fundação Oriente 1999, ISBN 972-27-0876-7.

Cortesia da Fundação Oriente/JDACT

domingo, 22 de agosto de 2010

Diogo do Couto: Foi um historiador português. Além das «Décadas», escreveu também o célebre Diálogo do Soldado Prático, que contém uma critica mordaz ao funcionalismo na Índia. Os escritos são marcados por uma visão mais realista da Hstória, em tom vivo e pitoresco

(1542-1616)
Lisboa
Cortesia de wikipédia
Diogo do Couto foi um historiador português. Estudou Latim e Retórica no Colégio de Santo Antão e Filosofia no Convento de Benfica. Em 1559 vai para a Índia, donde só regressaria uma década depois. Amigo íntimo de Luís Vaz de Camões, vai descobri-lo na Ilha de Moçambique em 1569, com dívidas e sem dinheiro para voltar. Diogo do Couto e outros amigos disponibilizam-se para ajudar o poeta, que deste modo poderá apresentar na capital a sua maior obra, os Lusíadas.
Chegam a Lisboa em Abril de 1570 na nau Santa Clara: «Em Cascais, as naus fundeadas esperavam que Diogo do Couto voltasse de Almeirim, onde fora solicitar de el-rei a sua entrada no Tejo, porque Lisboa estava fechada com a peste. Logo que a ordem veio, Santa Clara entrou a barra». In Oliveira Martins.
Cortesia de infopédia
No entanto voltou de novo ao Oriente, tendo recebido do Rei Filipe I a missão de prosseguir as «Décadas» de João de Barros. Escreveu as que vão da IV à XII, mas só publicou completas a IV, V e VII e um resumo da VIII e IX porque a VI ardeu na casa de imprensa, a VIII e IX foram roubadas. A XI perdeu-a.
Este historiador criticou os abusos, a corrupção e as violências correntes na Índia, protestando abertamente contra eles. Além das «Décadas», de orações congratulatórias e comemorativas que proferiu em solenidades no Oriente, e do relato do naufrágio da Nau S. Tomé, escrito na História trágico-marítima, escreveu também o célebre Diálogo do Soldado Prático, que contém uma critica mordaz ao funcionalismo na Índia, pondo a descoberto a ambição da riqueza, o amor ao luxo, a opressão aos pobres, a falta de dignidade e a deslealdade nas informações ao Rei.
Cortesia de wook

Cortesia de pedraformosa
Historiador de renome, Diogo do Couto ficou conhecido pelas obras que escreveu, sempre críticas da realidade que encontrou. Mas a «Ásia», do historiador João de Barros, obra sobre a história universal, que Diogo do Couto foi encarregue de continuar, também o notabiliza pela verdade sem restrições, pelo tom vivo e pitoresco, pela acutilância brutal. «Um escritor muito interessante», disse o historiador José Sarmento Matos.
Cortesia de infopédia
Depois de dez anos consecutivos na Índia, regressou à terra natal em 1569, mas apenas por dois anos. Na paragem em Moçambique, encontrou o amigo de longa data, Luís Vaz de Camões. Diz Diogo do Couto nas «Décadas VIII»:
  • Em Portugal morreo este excellente poeta em pura pobreza.
A contrastar com a narração épica de João de Barros, os escritos de Diogo do Couto são marcados por uma visão mais realista da história, em tom vivo e pitoresco. Para além destas obras, escreveu orações congratulatórias e comemorativas e um relato do naufrágio da nau S. Tomé, incluído na «História Trágico-Marítima».
Morreu em Goa em 1616.
Cortesia de wikipédia

Cortesia de wikipédia/RTP/JDACT