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quarta-feira, 3 de abril de 2024

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «… durante a viagem de autocarro através da Turquia nem a verificou no trajecto de Ancara a Londres. E, no voo para os Estados Unidos, teria visto a fita se ela tivesse caído no chão da casa de banho do avião. Era a única que faltava... A cripta»

jdact e cortesia de wikipedia

A Fita

«O básico, retrucou Thornton. A maioria informações da ficha dele na comunicação social. Ele apoiou o lápis sobre a borracha da outra extremidade. É um industrial rico, novato na cena política e está conquistando um bom número de admiradores. A plataforma dele se baseia nos valores familiares e em um carácter moral elevado. Até agora, parece não ter defeitos..., o candidato perfeito. Thornton passou para a página seguinte do seu onipresente computador de mão. É um homem dedicado à família e generoso com a própria riqueza. Um dos seus projectos preferidos é uma organização nacional que patrocina acampamentos modelos para delinquentes juvenis urbanos. E não é só com jovens problemáticos que ele trabalha. Wingate tem sido da maior importância na manutenção de alguns capítulos da Ordem DeMolay em diversas regiões do país, especialmente na Flórida, o estado natal dele. Ele tem se pronunciado vivamente contra os maus-tratos infantis e...

Espere um pouco, interrompeu Casselman. O que é DeMolay? Thornton ergueu os olhos.

A versão da Maçonaria para jovens. É uma organização para garotos entre 12 e 21 anos. Mais alguma coisa?, indagou Casselman. Não consegui descobrir grande coisa sobre ele. Wingate apareceu de repente no cenário político, como se tivesse vindo do nada. Aparentemente, tem uma considerável máquina financeira que o apoia. Ted Casselman coçou o queixo.

Vamos descobrir o que torna Wingate tão perfeito. Separe um segmento sobre ele para o domingo à noite. Vou colocar o meu pessoal nisso, prometeu Thornton. Reuniu os seus apontamentos, levantou-se e deu a volta na mesa de reuniões até onde Cotten se encontrava. Se tiver um tempinho, dê uma passada na minha sala depois da sessão de edição. Vou ver, prometeu Cotten, levantando os olhos para ele. Como foram as filmagens?, quis saber Casselman depois que Thornton deixou a sala. Muito melhor do que eu esperava. Acredite em mim, Ted, as sanções e os embargos internacionais tiveram pesadas consequências sobre as crianças e os idosos iraquianos. Vai ser uma história emocionante. Mas não vou ganhar muitos pontos com o Departamento de Estado, agora que eles estão preparando uma outra guerra.

Bom, isso quase garante uma pontuação alta nas pesquisas de audiência. Ele se levantou. Vamos, vou acompanhá-la até a sua sessão de edição. Ele pôs o braço no ombro dela, conduzindo-a à porta. Você me deu muitas noites de insônia, mocinha. Mas também mostrou coragem. Uma ciscadora. Gosto disso. Agora, quero ver o que tenho em troca de mais alguns cabelos brancos. Não vai se arrepender, Ted. Cotten gostava de Casselman e o respeitava. Sentia muito por fazê-lo preocupar-se tanto com ela. E ele era alguém que podia ajudá-la a galgar rapidamente dois degraus de uma vez na escada hierárquica da carreira.

Entraram na sala B de edição. O ambiente estava às escuras, a não ser pelo brilho suave da parede de monitores e das luzes indicadoras nas bancadas dos controles eletrónicos. Fiz cópias do roteiro e dos meus apontamentos, informou ela, estendendo uma pasta para Casselman e outra para o editor. Por enquanto, podemos gravar uma fita de rascunho para editarmos e deixar para introduzir a locução mais tarde. Ela sorriu para o editor-assistente. Vamos precisar de algumas inserções da biblioteca de sonoplastia... temas dramáticos, sombrios. Ah, e algumas informações históricas sobre o povo. Médio Oriente. Em seguida, Cotten descarregou a sacola de filmes. Todos os vídeos estavam numerados e ela os empilhou em ordem.

Ah, droga!, exclamou. Desfez a pilha de filmes, verificando cada rótulo outra vez. O que foi?, Casselman desviou o olhar do roteiro. Eu... Ele deixou a pasta de lado. Cotten? Vocês terão de começar sem mim, disse ela.

Tyler

Cotten escancarou a porta do apartamento e correu para o quarto. Lembrava-se de ter ficado sentada na cama na noite anterior, esvaziando a sacola e tirando a caixa. Essa tinha sido a única ocasião em que o videocassete que faltava poderia ter caído. De gatinhas, ela levantou a colcha e examinou por baixo da cama. Nada ali.

Sentou-se e correu os dedos pelos cabelos, examinando o resto do tapete que cobria a maior parte do piso do dormitório. Ela não tinha aberto a sacola durante a viagem de autocarro através da Turquia nem a verificou no trajecto de Ancara a Londres. E, no voo para os Estados Unidos, teria visto a fita se ela tivesse caído no chão da casa de banho do avião. Era a única que faltava... A cripta». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia do CdoAutor/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, Médio Oriente, 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «Bem, você é uma moça de sorte, disse, levantando-se para beijá-la no rosto. Tente mais uma aventura arriscada dessas e vou providenciar para que o único trabalho que consiga seja o de garota do tempo…»

jdact e cortesia de wikipedia

A Fita

«Seguia-se uma entrevista com um arqueólogo da equipe do Museu de História Natural de Nova York. O homem sorria de modo condescendente, chamando Archer de um fanático pelas próprias teorias. Às vezes, afirmava, o entusiasmo leva a melhor sobre o doutor. Ele tem muitas ideias extravagantes. O arqueólogo deu crédito a Archer por muitas descobertas notáveis, incluindo uma obra sobre a busca da Arca de Noé, mas disse que as excentricidades dele diminuíam-lhe a credibilidade. Havia mais algumas entrevistas tratando de Archer. Uma, em especial, chamou a atenção de Cotten: o doutor John Tyler, um padre católico, historiador bíblico e arqueólogo, referia-se afavelmente a Archer. Tyler havia estudado com Gabriel Archer e dizia que o arqueólogo era dedicado ao trabalho, mencionando que muitas das descobertas dele haviam esclarecido muitos aspectos da história bíblica.

Tyler aparentava ter cerca de 35 anos, era alto, de cabelos escuros, e exibia o rosto enrugado de alguém acostumado a passar muito tempo ao ar livre. E que belos olhos, observou Cotten. Ela rebobinou a fita e repetiu a parte de Tyler. Ele falava macio, mas o seu tom era confiante, autoritário. Ele tem muitas aspirações, comentava Tyler sobre Archer. Gosto bastante dele. Cotten tomou nota do nome da faculdade onde Tyler leccionava. Como era em Nova York mesmo, poderia ser uma boa fonte de informações. Ela pensou sobre o que Archer lhe havia sussurrado na cripta e com que facilidade havia citado a Bíblia. Mateus 26, 27, 28. Ele devia estar se referindo a uma passagem da Bíblia. Consultou o relógio: faltavam quinze minutos para a reunião com Ted Casselman.

Concluindo as pesquisas nos arquivos, Cotten voltou para o saguão de entrada do andar, enfiando a cabeça em uma das salas de edição. Alguém tem uma Bíblia? Voltou religiosa do Médio Oriente, Cotten?, ironizou o editor de vídeo, fitando-a por sobre o ombro. Tente o criado-mudo de um quarto de hotel, acrescentou um assistente. Cotten sorriu com sarcasmo. Muito engraçadinhos. Vamos lá, gente. Verdade, alguém faz ideia de onde possa encontrar uma Bíblia?

Com o correspondente de Religião, informou o editor, e voltou aos seus monitores. Claro!, admitiu ela, imaginando por que não havia pensado nisso. Mas, então, religião não era algo em que passasse muito tempo pensando. Consultou o relógio de novo enquanto se encaminhava para a sala. Qual versão?, a secretária do correspondente perguntou. Não sei... não existe uma versão padrão? A secretária indicou a porta atrás de si e se levantou. Cotten a acompanhou. Em uma parede, erguia-se uma estante do chão ao tecto. A secretária retirou da prateleira a versão inglesa do rei Jaime. Por favor, guarde no mesmo lugar depois que consultar, declarou, antes de sair.

Obrigada, agradeceu Cotten, sem desviar o olhar. O que Archer dissera mesmo? Mateus? Mateus ficava no Novo Testamento, pelo menos isso ela sabia. Mateus, Marcos, Lucas e João. Até esse ponto chegara na escola de catecismo. Vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito..., ela disse, enquanto folheava as páginas. Correndo o dedo em cada página, ela parou no Evangelho de Mateus, capítulo 26, e leu os versículos 27 e 28 em voz alta: A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele, todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.

Jesus, ela sussurrou, e então compreendeu a charada. Será que tudo aquilo tinha a ver com o cálice da Última Ceia? Será que era isso o que havia na caixa dentro do fogão dela? Archer disse que estava procurando pelo maior tesouro dos céus. Ela deu um suspiro ao pensar que poderia estar envolvida com uma história da maior importância. Tirando o pedaço de papel do bolso, pegou o telefone da mesa e ligou para o serviço de informações da lista telefónica. Depois de obter o número da faculdade onde o doutor Tyler leccionava, discou-o.

Sim, estou tentando localizar um reverendo doutor John Tyler. Sei que ele lecciona aí. Escutou por alguns instantes e a sua expressão foi de espanto. Bem, e a senhora sabe para onde ele foi designado? Outra pausa e ela acrescentou: Vou lhe deixar o meu número. Cotten desligou, pegou as suas coisas e correu para a sala de Ted Casselman, o chefe de reportagem da SNN. Bateu na porta. Entre.

Casselman estava sentado à cabeceira de uma mesa de reuniões, um punhado de pastas espalhadas à frente. Duas cadeiras ao lado do chefe de reportagem já se achava sentado Thornton Graham. Thornton sorriu calorosamente quando Cotten atravessou a sala. Ted Casselman levantou os olhos. Era um negro de 42 anos de idade, com estatura mediana, unhas perfeitamente bem-cuidadas, alguns cabelos brancos que atenuavam o tom escuro da pele.

Bem, você é uma moça de sorte, disse, levantando-se para beijá-la no rosto. Tente mais uma aventura arriscada dessas e vou providenciar para que o único trabalho que consiga seja o de garota do tempo em uma cidadezinha do interior. Ele relanceou para o relógio de parede. E está atrasada.

Desculpe-me, Ted, falou Cotten, forçando o seu melhor sorriso juvenil. — Precisei fazer uma pequena incursão nos arquivos. Ah, é? Imagino que tenha concluído a sua pesquisa. Só tenho umas pontas soltas. Sente-se e relaxe. Estamos quase acabando aqui. Casselman voltou à cadeira e abriu uma das pastas. Depois de ler algumas linhas no alto, dirigiu-se a Thornton: E o que você sabe sobre Robert Wingate?» In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia do CdoAutor/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, Médio Oriente,

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «… tentam ver-nos de forma diferente. Mas julgam que ser judeu é algo mau..., atreveu-se a dizer Samuel, dizem que matámos o profeta Jesus. Jesus era judeu. E porque é que o matámos?»

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S. Petersburgo - Paris

«Após várias semanas de viagem, Isaac e Samuel chegaram a Paris; ali souberam as notícias dos distúrbios que estavam a acontecer por toda a Rússia. Assassinaram o czar. Ouvi dizer que há judeus implicados na conspiração, anunciou monsieur Elias. Não pode ser! O czar melhorou as condições de vida da nossa comunidade. O que é que nós, judeus, ganharíamos com o seu desaparecimento?, respondeu Isaac. Parece que alguns estão a fazer justiça com as suas próprias mãos e atacaram algumas aldeias judias das zonas de residência..., acrescentou monsieur Elias.

É a desculpa de que precisavam todos os que se opunham à política do czar para com os judeus! Espero que imperem a razão e a verdade. É terrível que na Rússia não permitam aos judeus saírem das zonas de residência, lamentou-se monsieur Elias. Pelo menos em França podemos viver nas cidades, e aqui mesmo, no coração de Paris. Devemos a maldita ideia das zonas de residência à czarina Catarina. Os conselheiros da Grande Catarina quiseram cortar as asas aos nossos artesãos e mercadores. Mas agora são muitos os judeus que vivem mesmo em São Petersburgo. São necessárias autorizações especiais, mas podem conseguir-se, explicou Isaac.

 Sim, mas não para todos, respondeu monsieur Elias. Ainda bem que a vossa casa não está longe de Varsóvia. Temeria por vocês se vivessem em Moscovo ou em São Petersburgo. Não podiam esconder a preocupação que os invadia. As notícias que chegavam da Rússia eram tão confusas que os faziam temer pelo destino da família. O Samuel e eu vamos regressar imediatamente. Não me acalmarei até ver a minha esposa e os meus filhos. Sei que a minha mãe cuida deles, mas não posso deixá-los sozinhos mais tempo. Eu também não ficarei descansado até saber que chegaste e receber notícias tuas a comunicar-me que estão todos bem. Deves partir assim que possível.

Dois dias depois receberam a visita de um velho amigo de monsieur Elias, um homem bem relacionado na corte. Não podem regressar. Estão a matar centenas de judeus. Os distúrbios começaram em Yelisavetgrad, mas espalharam-se por toda a Rússia, explicou o visitante. Monsieur Elias ficava magoado com a situação. Talvez seja perigoso regressarem..., disse sem muita convicção, porque no fundo do seu coração desejava saber o mais depressa possível que a sua querida filha Ester e os seus netos não corriam qualquer perigo. Não podemos ficar aqui, tenho de regressar. A minha mulher e os meus filhos podem precisar de mim, respondeu Isaac sem vacilar.

Talvez devesses deixar o Samuel comigo. Não para de tossir e há dias em que a febre o deixa prostrado na cama. Eu sei, mas não posso deixá-lo aqui. A Ester nunca mo perdoaria. Ama todos os nossos filhos da mesma forma, mas com o Samuel sofreu muito devido à sua saúde fraca. Se não regressarmos juntos vai pensar que lhe aconteceu alguma coisa. Conheço a minha filha, sei que iria preferir que o Samuel ficasse aqui a salvo. Monsieur Elias não conseguiu convencer o meu avô Isaac, que, assim que pôde, partiu. Viajou com o Samuel numa diligência, puxada por bons cavalos, com outros dois comerciantes que tinham como destino Varsóvia e que, alarmados como eles, regressavam às suas casas. Pai, a mãe está bem? E o Friede e a Anna? Não lhes aconteceu nada, pois não? Samuel não deixava de pedir ao seu pai notícias da sua mãe e dos seus irmãos.

A viagem pareceu-lhes eterna. Mal conseguiam dormir à noite naquelas pousadas, onde, por serem judeus, nem sempre eram bem recebidos. Em  várias ocasiões tiveram até de dormir ao relento, porque não lhes quiseram dar alojamento. Em que é que somos diferentes?, perguntou Samuel ao seu pai uma noite enquanto descansavam juntos numa estreita cama de um mísero hotel na Alemanha. Achas que somos diferentes?, respondeu o bondoso Isaac. Eu vejo-me igual a toda a gente, mas sei que os outros não nos veem iguais a eles e não sei porquê. Não percebo porque há rapazes que não querem brincar connosco, nem porque não vamos com frequência à cidade, e quando o fazemos tu e a mãe parecem ter medo. Caminhamos com a cabeça baixa, como se assim não nos vissem ou incomodássemos menos. É por isso que acho que somos diferentes; temos alguma coisa de que os outros não gostam, mas não sei o que é, por isso é que te pergunto. Não somos diferentes, Samuel, são os outros que tentam ver-nos de forma diferente. Mas julgam que ser judeu é algo mau..., atreveu-se a dizer Samuel, dizem que matámos o profeta Jesus. Jesus era judeu. E porque é que o matámos?» In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

 Cortesia de EBertrand/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Médio Oriente, Conhecimento,

sábado, 11 de novembro de 2023

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «Não te preocupes, o nosso Samuel já é quase um homem, consolou-a a sua sogra, Sofia, e o Isaac vai saber cuidar dele. Tenta sobretudo que não arrefeça…»

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Jerusalém, época actual

«Se na Europa Ocidental as nossas condições de vida mudaram, e muitos judeus se tornaram homens proeminentes e políticos importantes, na Rússia isso não aconteceu. Porquê? O czar e os seus governos eram profundamente reacionários e temerosos de tudo o que julgavam diferente. De tal forma que faziam os judeus viver nas chamadas zonas de residência, situadas nas cidades do sul da Rússia, Polónia, Lituânia, Ucrânia, que então faziam parte do Império Russo. A lealdade dos judeus, quando Napoleão invadiu o país, nem sequer teve influência no espírito da corte russa. Catarina não nos queria, na verdade era difícil encontrar um czar ou uma czarina que nos quisesse como súbditos. Refere-se a Catarina, a Grande. Sim, claro, fez o que estava ao seu alcance para nos expulsar. Mas não conseguiu... Não, não conseguiu; teve de se resignar a aprovar medidas que limitavam as actividades dos judeus. Não eram muitos os judeus que viviam dignamente naquele tempo: alguns comerciantes, alguns prestamistas, alguns médicos... Sim, alguns conseguiram autorizações especiais e foi-lhes permitido viver quase como cidadãos normais. Já ouviu falar dos pogroms?

Naturalmente, sei o que foram os pogroms. Em 1881, houve um atentado contra o czar Alexandre II e entre os participantes do complô havia uma mulher judia, Gesia Gelfman. Na verdade, a sua participação não foi relevante, mas serviu de desculpa para se desencadear uma selvajaria contra os judeus de todo o império. Aquele pogrom começou em Yelisavetgrad, e estendeu-se a Minsk, Odessa, Balti... Milhares de judeus foram assassinados. Um ano depois, muitos dos que sobreviveram tiveram de abandonar tudo o que tinham porque o novo czar, Alexandre III, assinou uma ordem de expulsão. A sua família sofreu aqueles pogroms? Está interessada em saber? Sim, murmurou ela. Precisava que o homem relaxasse. Ela também precisava disso.

Se tiver tempo para ouvir a história... Pode ser uma forma de entender melhor as coisas.

S. Petersburgo - Paris

O meu avô paterno era comerciante de peles, tal como o seu pai, Simão. Viajavam pela Europa a vender peles russas aos peleiros, que com elas cosiam sofisticados casacos para as suas clientes ricas. As suas melhores clientes encontravam-se em França. Em Paris, Simão tinha um amigo peleiro, Monsieur Elias. Quando Simão morreu, o meu avô Isaac continuou com o negócio e ampliou-o. O meu avô Isaac costumava trocar parte da sua mercadoria por esses casacos já confecionados que depois vendia na corte de São Petersburgo. As aristocratas russas gostavam de tudo o que chegava de Paris. A minha avó Ester era francesa, filha de Monsieur Elias, que não conseguiu evitar que o jovem Isaac levasse a sua menina, por mais que se opusesse.

Monsieur Elias tinha ficado viúvo e Ester era a sua única filha. Isaac e Ester casaram em Paris e dali viajaram até uma aldeia próxima de Varsóvia, para a casa onde Isaac vivia com a sua mãe viúva, Sofia. Tiveram três filhos, Samuel, Anna e Friede, o mais novo. Tinham todos um ano de diferença entre eles. Monsieur Elias lamentava-se sempre por ter a sua filha e os seus netos longe e, quando Samuel, o meu pai, fez dez anos, o meu avô Isaac decidiu levá-lo com ele para França para conhecer o seu avô. Samuel tinha problemas de saúde e a sua mãe separou-se dele muito apreensiva. Sabia que para Monsieur Elias seria uma dádiva conhecer o seu neto mais velho, mas perguntava-se se Samuel seria capaz de aguentar os inconvenientes de uma viagem tão longa.

Não te preocupes, o nosso Samuel já é quase um homem, consolou-a a sua sogra, Sofia, e o Isaac vai saber cuidar dele. Tenta sobretudo que não arrefeça e, se tiver febre, fiquem numa pousada e dá-lhe este xarope. Vai aliviá-lo, insistiu Ester. Vou saber cuidar do nosso filho; cuida tu dos outros, não os percas de vista, sobretudo o Friede, o menino é demasiado inquieto. Parto em paz sabendo que não estão sozinhos, que contas com o apoio da minha mãe. Para Isaac tinha sido um alívio que Ester se desse bem com a sua mãe. Sofia tinha uma personalidade forte, mas rendera-se à bondade de Ester. Nora e sogra pareciam mãe e filha». In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

Cortesia de EBertrand/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Médio Oriente, Conhecimento, 

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «E não vim de lado nenhum. Nasci aqui. Na Palestina? Sim, em Israel. Surpreende-a? Não... Na verdade, os meus pais eram russos e os meus antepassados polacos. Há muitos russos de origem polaca; já sabe que a Polónia sempre esteve na mira dos russos…»

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Jerusalém, época actual

« Se lhe parece bem, dar-lhe-ei o questionário que trago preparado e que servirá de base para o relatório que devo redigir. Imagino que vai falar com mais pessoas... Sim, tenho uma longa lista de entrevistas: funcionários, deputados, diplomatas, membros de outras ONG, organizações religiosas, jornalistas... E palestinianos. Imagino que vai falar com eles. Claro, já o fiz. Eles são o motivo do meu trabalho. Antes de vir para Israel estive na Jordânia e tive oportunidade de falar com muitos palestinianos que tiveram de fugir depois de cada conflito.

A senhora perguntava-me pelo sofrimento dos deslocados... Bem, eu poderia falar-lhe durante horas, dias, semanas inteiras sobre o sofrimento. Era difícil acreditar que aquele homem alto e forte, que, apesar da sua idade, emanava confiança em si próprio com aquele olhar cinzento de aço, que mostrava que tinha uma grande paz interior, soubesse verdadeiramente o que era o sofrimento alheio. Não lhe ia negar que tivesse sofrido, mas isso não implicava que fosse capaz de sentir a dor dos outros.

Como é que sabe que aqui houve uma aldeia árabe?, perguntou de repente captando o desconcerto dela. Na minha organização temos informação pormenorizada sobre todas as vilas e aldeias da Palestina, até das que já não existem desde a ocupação. Ocupação? Sim, desde que chegaram os primeiros emigrantes judeus até à proclamação do Estado de Israel, além de tudo o que aconteceu posteriormente. O que é que quer saber? Quero que me fale da política de ocupação dos assentamentos ilegais, das condições de vida dos palestinianos que veem as suas casas demolidas por acções de vingança... da razão por que continuam a levantar assentamentos em lugares que não vos pertencem... Pretendia falar sobre tudo isto com o seu filho. Sei que o Aaron Zucker é um dos mais firmes defensores da política de assentamentos.

Os seus artigos e conferências tornaram-no famoso. O meu filho é um homem honrado, um militar corajoso que serviu no exército, e sempre se destacou por dizer em voz alta o que pensa, sem se preocupar com as consequências. É mais simples lamentar-se pela política de assentamentos, até não dizer nada, do que apoiá-la intimamente. Na minha família preferimos dar a cara. É por isso que estou aqui, é por isso que o Ministério dos Negócios Estrangeiros me mandou falar com o seu filho. É um dos líderes sociais de Israel. A senhora acha que quem defende os assentamentos é quase um monstro...

Marian encolheu os ombros. Não lhe ia dizer que, de facto, era o que pensava. A entrevista não estava a correr como tinha previsto. Dir-lhe-ei o que penso: não sou partidário de que se construam novos assentamentos. Defendo o direito dos palestinianos a terem o seu próprio Estado. Pois, mas o seu filho Aaron pensa justamente o contrário. Mas é comigo que está a falar. E não olhe para mim como se eu fosse um velhinho, não sou nenhum ingénuo. A porta da sala abriu-se e apareceu um jovem alto, vestido de soldado, com uma pistola-metralhadora pendurada ao ombro. Marian assustou-se. É o meu neto Jonas. Com que então a senhora é a da ONG... Desculpe, mas não consegui deixar de ouvir as suas últimas palavras. Gostaria de lhe dar também a minha opinião, se o meu avô me permitir.

O Jonas é filho do Aaron, explicou Ezequiel Zucker a Marian. A política de assentamentos não se deve a um capricho, trata-se da nossa segurança. Olhe para o mapa de Israel, repare nas nossas fronteiras... Os assentamentos fazem parte da frente em que nos vemos obrigados a lutar, afirmou Jonas com tal convicção que Marian ficou incomodada e sentiu uma aversão instintiva face àquele jovem. Lutam contra mulheres e crianças? Que glória há em demolir as casas onde vivem de forma precária as famílias palestinianas?, perguntou Marian.

Por acaso devemos deixar-nos matar? As pedras ferem. E nessas aldeias onde parece que vivem pacíficas famílias também há terroristas. Terroristas? O senhor chama terrorista a quem defende o seu direito a viver na aldeia onde nasceu? Além disso, a política de assentamentos só procura ficar com um território que não vos pertence. As resoluções das Nações Unidas sobre as fronteiras de Israel são suficientemente claras. Mas o seu país tem uma política de factos consumados. Constroem um assentamento nas zonas onde os palestinianos vivem, encurralam-nos, fazem-lhes a vida impossível até conseguirem que se vão embora.

A senhora é uma mulher apaixonada, não sei porque é que se incomoda em vir aqui para redigir um relatório. É evidente que tem as ideias bem arrumadas, nada do que o meu avô ou o meu pai lhe possam dizer mudaria a sua forma de pensar. Estou enganado? Tenho a obrigação de ouvir todas as partes. Tenta cumprir uma formalidade, nada mais. Jonas, já chega, deixemos a senhora Miller fazer o seu trabalho. A voz de Ezequiel Zucker não dava lugar a uma nova resposta do seu neto. Está bem, já estava de saída. E o jovem saiu sem se despedir. Marian leu nos olhos cinzentos de Ezequiel Zucker que ia dar por terminada aquela conversa com a qual ela não tinha sabido lidar, mas não se podia ir embora. Ainda não. Acho que vou aceitar o chá que me ofereceu. Agora era ele quem parecia desconcertado. Não tinha vontade de continuar a conversar com aquela mulher, mas também não se queria mostrar grosseiro.

Quando regressou com o chá encontrou-a a olhar pela janela. Não era uma mulher bonita, mas sim atraente. De estatura média, magra, com o cabelo preto apanhado. Calculou que já há algum tempo deveria ter feito quarenta anos, que estava mais perto dos cinquenta. Sentia-a desassossegada e esse desassossego pareceu-lhe contagiante. Naquela direcção, está Jerusalém, disse ele enquanto colocava a bandeja com o chá numa mesinha baixa. Eu sei, respondeu Marian. Esforçava-se por mostrar um sorriso, mas ele já não parecia disposto a conversar. Antes disse que podia falar semanas inteiras sobre sofrimento... Sim, podia, respondeu ele de forma brusca.

De onde é, Ezequiel? Qual é o seu país de origem? Sou israelita. Esta é a minha pátria. Imagino que para um judeu o mais importante seja sentir que tem uma pátria, disse ela ignorando o tom distante do homem. A nossa pátria, sim. Não foi oferecida. Tínhamos direito a ela. E não vim de lado nenhum. Nasci aqui. Na Palestina? Sim, em Israel. Surpreende-a? Não... Na verdade, os meus pais eram russos e os meus antepassados polacos. Há muitos russos de origem polaca; já sabe que a Polónia sempre esteve na mira dos russos e, de cada vez que estes ficavam com um pedaço de terra polaca, os judeus polacos passavam a ser russos. A vida dos judeus não era fácil na Rússia, de facto não o era em nenhum lugar da Europa, embora a Revolução Francesa tenha dado uma reviravolta à nossa situação. As tropas de Napoleão exportavam a ideia da liberdade onde quer que fossem, mas essas ideias chocaram com a Rússia dos czares». In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

Cortesia de EBertrand/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Médio Oriente, Conhecimento, 

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «Aquele homem desconcertava-a. Não lhe queria dizer o seu nome, claro que não pensava tratá-lo pelo dele, mas se ele decidia dar por encerrada a conversa, então... então teria desperdiçado a melhor oportunidade…»

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Jerusalém, época actual

«Uns minutos mais tarde, saiu da via rápida e dirigiu-se a uma estrada que conduzia a um grupo de casas situadas sobre uma colina. Estacionou o carro em frente a um edifício de pedra de três andares, idêntico a outros que se erguiam sobre um terreno rochoso; dali, nos dias claros, conseguia-se ver as muralhas da Cidade Velha.

Apagou o cigarro no cinzeiro do carro e respirou fundo. Aquele lugar parecia uma urbanização burguesa, como tantas outras. Casas de vários andares, rodeadas de jardins ocupados por baloiços e escorregas para as crianças e carros alinhados junto a passeios impolutos. Respirava-se tranquilidade, segurança. Não lhe custava imaginar como eram as famílias que agora viviam dentro daquelas casas, embora soubesse como tinha sido esse lugar há décadas. Tinham-lho contado alguns velhos palestinianos, com o olhar perdido nas lembranças daqueles dias nos quais eram eles que viviam nesse pedaço de terra, porque ainda não tinham chegado os outros, os judeus.

Subiu as escadas. Mal tocou à campainha, a porta abriu-se. Uma mulher jovem, que nem sequer teria trinta anos, recebeu-a sorridente. Vestia-se informalmente, com calças de ganga, uma t-shirt larga e ténis. O seu aspecto era igual ao de tantas outras jovens, mas ter-se-ia destacado entre milhares pelo seu franco sorriso e o seu olhar carregado de bondade. Entre, estávamos à sua espera. É a senhora Miller, não é? Sim. Eu sou a Hanna, a filha do Aaron Zucker. Lamento que o meu pai esteja a viajar, mas, como insistiram tanto do ministério, o meu avô vai recebê-la. Da minúscula entrada passaram para uma sala espaçosa e luminosa. Sente-se, vou avisar o meu avô. Não é preciso, estou aqui. Sou o Ezequiel Zucker, disse uma voz procedente do interior da casa. Um momento depois apareceu um homem. A senhora Miller cravou o olhar nele. Era alto, tinha o cabelo grisalho e os olhos de cor cinzenta; apesar da idade, parecia ágil.

Apertou-lhe a mão com força e convidou-a a sentar-se. Então a senhora queria ver o meu filho... Na verdade queria conhecê-los aos dois, embora sobretudo ao seu filho, já que é um dos principais impulsionadores da política de assentamentos... Sim, e é tão convincente que o ministério lhe envia os visitantes mais críticos para ele lhes explicar a política de assentamentos. Bem, estou à sua disposição, senhora Miller.

Avô, interrompeu Hanna,se não te importas, vou andando. Tenho uma reunião na universidade. O Jonas também está prestes a sair. Não te preocupes, eu desenrasco-me sozinho. De quanto tempo precisa?, perguntou Hanna à senhora Miller. Tentarei não o cansar... Uma hora, talvez um pouco mais...,respondeu a mulher. Não há pressa, disse o ancião, na minha idade o tempo não conta. Ficaram sozinhos e ele reparou na sua tensão. Ofereceu-lhe chá, mas ela recusou. Então, a senhora trabalha para uma dessas ONG que recebem subsídios da União Europeia. Trabalho para a Refugiados, uma organização que estuda no terreno os problemas que as populações deslocadas sofrem devido a conflitos bélicos, catástrofes naturais... Tentamos avaliar o estado dos deslocados, e se as causas que provocaram o conflito estão em vias de solução, ou quanto pode durar a sua situação, e se julgarmos conveniente instamos os organismos internacionais a adoptarem medidas para atenuar o sofrimento dos deslocados. Os nossos estudos são rigorosos e por isso recebemos ajuda de instituições comunitárias.

Sim, conheço os relatórios da Refugiados sobre Israel. Sempre críticos. Não se trata de opiniões, mas sim de realidades, e a realidade é que, desde 1948, milhares de palestinianos tiveram de abandonar os seus lares, viram-se despojados das suas casas, das suas terras. O nosso trabalho é avaliar a política de assentamentos que aumenta o número de deslocados. Aqui onde nos encontramos, nesta colina, houve uma aldeia palestiniana da qual não resta nada. Sabe que destino tiveram os habitantes dessa aldeia? Onde estão agora? Como sobrevivem? Poderão algum dia recuperar o lugar onde nasceram? O que é que o senhor sabe sobre o seu sofrimento?

Arrependeu-se imediatamente das suas últimas palavras. Aquele não era o caminho. Não podia mostrar tão abertamente os seus sentimentos. Tinha de tentar manter uma atitude mais neutra. Nada de comprazimento, mas de aversão também não. Mordeu o lábio inferior enquanto esperava pela resposta do homem. Como se chama?, perguntou ele. Desculpe? Pergunto-lhe o seu nome. É muito impessoal tratá-la por senhora Miller. A senhora pode tratar-me por Ezequiel. Bem, não sei se é o mais correcto... Tentamos não confraternizar quando estamos a trabalhar. A minha intenção não é confraternizar consigo, mas sim que nos tratemos pelos nossos respectivos nomes. Quer dizer... não estamos no Palácio de Buckingham! A senhora está na minha casa, é minha convidada e peço-lhe que me chame Ezequiel.

Aquele homem desconcertava-a. Não lhe queria dizer o seu nome, claro que não pensava tratá-lo pelo dele, mas se ele decidia dar por encerrada a conversa, então... então teria desperdiçado a melhor oportunidade que alguma vez ia ter para levar a cabo aquilo que tanto a atormentava. Marian. Marian? Não me diga... É um nome comum. Não se desculpe por se chamar Marian. Sentiu raiva. Ele tinha razão, estava a desculpar-se pelo seu nome, e não tinha motivos para isso». In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

Cortesia de EBertrand/JDACT

JDACT, Julia Navarro, Literatura, Médio Oriente, Conhecimento,

Dispara, eu já estou morto. Julia Navarro. «Desde que a fora buscar ao aeroporto há quatro dias, tinha reparado na sua tensão, no seu desconforto. Ficava incomodado com a distância que ela colocava entre eles ao insistir que lhe chamasse senhora Miller»

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Jerusalém, época actual

«Há momentos na vida em que a única forma de nos salvarmos a nós próprios é matando ou morrendo. Aquela frase de Mohamed Ziad atormentava-a desde o momento em que a tinha ouvido dos lábios do seu filho Wadi Ziad. Não conseguia deixar de pensar naquelas palavras enquanto conduzia sob um sol implacável que dourava as pedras do caminho. A mesma cor dourada das casas que se amontoavam na nova cidade de Jerusalém, construídas com essas pedras enganosamente suaves, mas duras como as rochas das pedreiras de onde tinham sido arrancadas. Conduzia devagar deixando que o seu olhar vagueasse pelo horizonte onde as montanhas da Judeia lhe pareciam próximas.

Sim, ia devagar embora tivesse pressa; no entanto, precisava de saborear aqueles instantes de silêncio para evitar que as emoções a dominassem. Duas horas antes não sabia que ia dar início ao caminho que a levaria para o seu destino. Não é que não estivesse preparada. Estava. Mas ela, que gostava de planear até ao último detalhe da sua vida, tinha ficado surpreendida com a facilidade com que Joël tinha conseguido o encontro. Bastara uma dúzia de palavras. Já está, vai receber-te ao meio-dia. Tão cedo? São dez horas, tens tempo suficiente, não é muito longe. Eu indico-te no mapa, não é complicado chegar lá. Conheces bem o sítio? Sim, e também os conheço a eles. A última vez que lá estive foi há três semanas com o pessoal da Acção pela Paz.

Não sei como é que confiam em ti. E porque é que não haviam de confiar? Sou francês, tenho bons contactos, e as almas inocentes das ONG precisam de quem as oriente nas confusões burocráticas de Israel, alguém que lhes trate das autorizações para atravessar para Gaza e para a Cisjordânia, que consiga uma entrevista com algum ministro perante o qual protestar pelas condições em que os palestinianos vivem; proporciono-lhes camiões a bom preço para transferirem a ajuda humanitária de um lugar para outro... A minha organização faz um bom trabalho. Tu podes confirmá-lo. Sim, vives dos bons sentimentos do resto do mundo. Vivo de prestar um serviço a quem vive da má consciência dos outros.

Não te queixes, nem sequer há um mês que entraram em contacto connosco, e durante esse tempo consegui-te encontros com dois ministros, com parlamentares de todos os grupos, com o secretário da Histadrut, acesso facilitado para entrar nos Territórios, conseguiste entrevistar muitos palestinianos... Estás há quatro dias aqui e já cumpriste metade do programa que tinhas previsto. Joël olhou para a mulher, aborrecido. Não gostava dela. Desde que a fora buscar ao aeroporto há quatro dias, tinha reparado na sua tensão, no seu desconforto. Ficava incomodado com a distância que ela colocava entre eles ao insistir que lhe chamasse senhora Miller.

Ela fitou-o. Tinha razão. Tinha cumprido. Outras ONG utilizavam os seus serviços. Não havia nada que Joël não conseguisse desde esse escritório com vista para a Cidade Velha de Jerusalém ao longe. Com ele trabalhavam a sua mulher, que era israelita, e mais quatro jovens. Dirigia uma empresa de serviços muito apreciada pelas ONG. Vou dizer-te uma coisa sobre esse homem: é uma lenda, disse Joël. Teria preferido falar com o filho dele, foi isso que te pedi. Mas ele foi para os Estados Unidos a convite da Universidade de Columbia para participar num seminário e, quando regressar, tu já não estarás aqui. Não tens o filho, mas tens o pai; acredita em mim quando te digo que ficas a ganhar com a mudança. É um velho formidável. Tem uma história... Conhece-lo assim tão bem? Às vezes os tipos do ministério enviam-lhe pessoas como tu. É uma pomba, o contrário do filho. É precisamente por isso que me interessa falar com o Aaron Zucker, porque é um dos principais líderes da política de assentamentos. Sim, mas o pai é mais interessante, insistiu Joël.

Ficaram em silêncio para evitar uma dessas absurdas discussões em que se engalfinhavam. Não se tinham dado bem. Ele achava-a exigente; ela só via o seu cinismo. E agora já estava a caminho. Cada vez se sentia mais tensa. Tinha acendido um cigarro e aspirava o fumo com prazer enquanto fixava o olhar naquela terra ondulada onde dos dois lados da estrada pareciam trepar alguns edifícios modernos e funcionais. Não havia cabras, pensou deixando-se levar pela imagem bíblica, mas porque é que haveria de haver? Não restava sítio para as cabras junto àqueles enormes blocos de aço e vidro que eram a insígnia da prosperidade do moderno Israel». In Julia Navarro, Dispara, eu já estou morto, Editora Bertrand, 2014, ISBN 978-972-252-905-1.

Cortesia de EBertrand/JDACT

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «Dentro do departamento de arquivos de vídeo, Cotten sentou-se no terminal de computador, digitou a senha de segurança e deu início à função de busca»

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«O príncipe das trevas é um cavalheiro». In Shakespeare

A Fita

«(…) Adoro você, encerrou Vanessa e desligou. Cotten guardou o telemóvel no bolso do casaco e parou para ver o monitor ao vivo no alto, atrás da mesa do saguão de entrada, o presidente fazia declarações com frase de efeito e tiradas batidas. Ela passou pela entrada de segurança e prendeu o crachá de identificação. Os primeiros sete andares do prédio eram ocupados pelos estúdios, pela produção, pelo departamento de áudio, de duplicação, de comunicação e de transmissão por satélite. Cotten saltou no oitavo andar, onde a SNN mantinha as salas de edição de vídeo e os arquivos. Cotten. Era Thornton Graham. Ela forçou um sorriso e inclinou a cabeça como forma de cumprimento. Droga, por que precisava encontrá-lo logo na entrada? O dia está tão bom para..., ei, tudo bem com você?, indagou ele. Você não me parece... Estou óptima. Não encontrei o rímel, só isso. Thornton beijou-lhe o rosto e ela sentiu a fragrância da colónia que ele usava, o que lhe inundou os pensamentos com lembranças vividas. Me dá um minuto?, ele indicou a sala dele. Estou mesmo com pressa. A sua edição é só daqui a uma hora..., eu verifiquei. Antes preciso fazer umas pesquisas. Senti a sua falta, ele quase sussurrou, tocando-lhe o braço e se aproximando. Fez-se um pesado silêncio.

Thornton... Ela balançou a cabeça, sem querer fitá-lo nos olhos. Por favor, é demais. Não é, não, insistiu ele. Eu amo você. Aquilo não foi amor, sussurrou ela. Você sabe disso. Cotten, eu amo você de verdade. Preciso ir agora. Ela seguiu pelo corredor. Cotten!, ele a chamou, mas ela não se voltou. Ela não chorou dessa vez..., era um bom sinal. Havia tomado a decisão certa, pensou, e conseguiria passar por essa. Se ao menos não o tivesse visto..., tocado nele.

Dentro do departamento de arquivos de vídeo, Cotten sentou-se no terminal de computador, digitou a senha de segurança e deu início à função de busca. Então digitou Archer, Gabriel Em poucos segundos, duas referências eram exibidas na tela. Ela seleccionou as duas, digitou o comando de recuperação e virou-se para observar através da parede de vidro. Um dos enormes carrosséis cheios de videocassetes girou. Um braço robótico aproximou-se dele, scanear os códigos de barra, então pegou numa cassete, moveu-se para o lado de um dos aparelhos de execução e inseriu a fita. Uma janela de vídeo apareceu no terminal de Cotten e o som se projectou de cada conjunto de alto-falantes montados de cada lado da tela. As imagens passaram borradas pela velocidade elevada enquanto a máquina usava o código de tempo na fita para localizar o segmento correcto. Houve uma curta pausa e então a imagem e o som apareceram.

A primeira imagem era um letreiro eletrónico: busca da Arca, entrevista com Archer. Um breve artigo seguia-se a um programa de variedades mencionando Gabriel Archer, que Cotten descobriu tratar-se de um arqueólogo bíblico e integrante da equipa de busca dos vestígios da Arca de Noé. Não havia mais nada que parecesse importante. E nada lhe dava uma dica de como ele poderia saber falar com ela naquela língua. Afinal de contas, não se tratava de uma língua inventada..., na qual a mãe se admirava de ver as gémeas conversando?

Cotten cancelou a fita e solicitou a segunda. Essa era mais longa e nela Archer era o personagem principal. O foco era uma entrevista com ele em casa, em Oxford, na Inglaterra. Embora a fita fosse de apenas alguns anos antes, Archer parecia muito mais jovem, concluiu ela..., mais forte, saudável e animado. Ele segurava um pequeno prato redondo de ouro que acabara de descobrir numa escavação em Jerusalém, O prato estava recoberto de símbolos e ele alegava que datava da época das Cruzadas. O reino dos céus é como um tesouro escondido num campo, dizia Archer. Ele citou as escrituras muitas vezes durante a entrevista. Acariciando o prato como se fosse uma criança, ele declarou: este artefacto me levará ao maior tesouro dos céus». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

JDACT, Lynn Sholes, Joe Moore, Literatura, Mistério, Médio Oriente,

segunda-feira, 27 de julho de 2020

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «Quando voltasse para os Estados Unidos, passaria um bom período de folga na Flórida. Isso era uma promessa…»

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«O príncipe das trevas é um cavalheiro». In Shakespeare

Abandonada. Ninive, norte do Iraque
«(…) As coisas estão-se tornando imprevisíveis. Tire o seu lindo traseiro daí do jeito que puder. E quero conversar com você logo que chegar. Fui claro? Ela tentou discutir com ele e conseguir mais tempo, mas ele desligou antes que ela pudesse apresentar as suas razões. Quando voltasse, ele faria com que ela se cansasse de ouvir os seus eu bem que avisei, devia demiti-la, até não poder mais. Isso se conseguisse voltar. Cotten arrepiou-se. Estava encalhada, e congelando, no meio do deserto iraquiano.

Charles Sinclair olhou da janela do escritório para o campus que se descortinava ao redor dos laboratórios da BioGentec vizinho à University of New Orleans. O azul do lago Pontchartrain estendia-se à sua frente. Ele observou o pequeno exército de jardineiros com as suas ceifadeiras e os carrinhos de apoio dos jogadores de golfe que cruzavam o relvado entre os jardins, todos impecavelmente aparados e em perfeita ordem. Ele gostava de tudo em perfeita ordem. O telefone tocou sobre a escrivaninha e ele teve um sobressalto, espirrando algumas gotas do café descafeinado sobre o tapete persa. Sim? Doutor Sinclair, uma ligação internacional na linha oito para o senhor, informou a voz da secretária. Sinclair apertou o botão piscante. Não atenderia essa ligação no viva-voz. Fala Sinclair.  O ruído da ligação o aborreceu enquanto apertava o fone firmemente contra a orelha. Descobrimos a entrada da cripta anteontem, informou uma voz de homem do outro lado da linha. Hoje, no final da tarde, ela foi aberta. Os nós dos dedos de Sinclair ficaram lívidos de tanto que ele apertou o receptor do telefone. Ahmed, espero que tenha boas notícias. Fez uma pausa. Tenho, sim. Está tudo como o Archer previu. O que vocês encontraram? Muitos artefactos com os ossos, prosseguiu Ahmed. Uma armadura, quinquilharias religiosas, alguns rolos de pergaminho e uma caixa.
A adrenalina fluiu pelo corpo de Sinclair fazendo as pontas dos dedos latejarem. Como é essa caixa? Preta, sem inscrições, com uns quinze centímetros de cada lado. A transpiração humedecia o colarinho branco da camisa cara de Sinclair. O intervalo da conversa foi preenchido pela estática antes que voltasse a falar. E o que há dentro dela? Ainda não sei. Como assim? Você estava lá, não estava? Archer não a abriu. Ele e os outros estão fazendo as malas para ir embora neste exacto momento. Devemos sair daqui..., a área ficou perigosa demais. Todos estão muito nervosos. Não há tempo para examinar... Não! Sinclair apertou a base do nariz. Você vai lá agora mesmo e pega a caixa. Espero que Archer tenha mostrado como abri-la. Volte a me ligar assim que confirmar o que há dentro dela e estiver com ela em segurança nas suas mãos. Entendeu o que eu disse? Entendi. A voz de Ahmed sumiu em meio à estática. Ahmed, prosseguiu Sinclair, mantendo a voz baixa e controlada, é imprescindível que conclua a sua missão. Não preciso repetir isso outra vez. Entendi. Sinclair desligou o telefone e ficou olhando para o aparelho. O árabe não poderia nem sequer começar a entender.

A Cripta
De repente, o ruído de um veículo se aproximando chamou a atenção de Cotten. A luz dos faróis boiou à distância na estrada irregular. Até que enfim, ela pensou. Mas, e se fossem soldados iraquianos? Ela se virou sobre o ombro empoeirado e sentiu a palpitação na garganta. Finalmente, quando o veículo se aproximou o bastante, deduziu pelas luzes da cabine e da carroceria que se tratava de um caminhão-tanque. Adiantou-se alguns passos, acenando freneticamente com as mãos, mas o veículo não diminuiu a marcha. Protegendo os olhos da areia e do cascalho levantados quando o caminhão passou rugindo a toda velocidade, Cotten observou-o distanciar-se com a mesma rapidez com que havia surgido. Provavelmente, não era muito sensato ficar acenando na estrada para qualquer um que passasse. Sem falar do estado de espírito de qualquer iraquiano naquele momento. O mais seguro para ela seria ficar fora das vistas e manter a distância necessária até o dia amanhecer. Depois de uma hora de caminhada, Cotten deixou as bolsas caírem pesadamente no chão e sentou-se sobre uma delas. Os braços doíam com o peso da bagagem e o corpo tremia cada vez mais por causa do frio que se infiltrava pelo casaco. Quando voltasse para os Estados Unidos, passaria um bom período de folga na Flórida. Isso era uma promessa. Cotten esvaziou uma das sacolas, jogando fora tudo o que não lhe faria falta. Enquanto organizava os pertences, imaginou-se ir para o Iraque: tinha sido uma ideia inteligente. Talvez tivesse sido uma tolice. Não tinha pensado direito no assunto, e então, quando Casselman protestou, ela manifestou uma das suas atitudes triunfantes. Poderia ter assumido outras reportagens, de igual importância, que também a levariam para longe de Thornton.
Droga, droga, droga, gemeu, separando apenas o essencial: carteira, passaporte e credenciais de jornalista, juntamente com a câmera fotográfica, lentes, filmes e a embalagem plástica de filme com o dinheiro para uma emergência. Guardou tudo na outra sacola com as videocassetes. Depois de uma última olhada por sobre o ombro para a pilha de pertences deixados para trás, retomou a penosa caminhada. A Lua surgiu e clareou o deserto com luz suficiente para que continuasse enxergando a estrada. Ela desejou o conforto do sofá de casa, uma xícara de café quente ou, melhor ainda, uma dose de vodka com algumas pedras de gelo. De repente, parou e piscou várias vezes, para se certificar de que o que via não era uma miragem. Outras luzes faiscavam à distância. Não de veículos, mas de algum tipo de assentamento ou acampamento com electricidade. Deixando a sacola no chão, esfregou o ombro e o braço dolorido para reanimar a circulação. Pegou a câmera fotográfica, ajustou as lentes da teleobjetiva e focalizou as luzes. Se fosse um acampamento da Guarda Republicana ou até mesmo de soldados do Exército iraquiano, uma mulher americana viajando sozinha teria poucas chances. Alguns dos colegas dela em Bagdad contavam histórias de brutalidade, violação..., homens que se comportavam como animais, como cães ferozes». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Conspiração do Graal. Lynn Sholes e Joe Moore. «O sussurro ameno do vento do deserto prenunciava o frio da noite ao mesmo tempo que o céu de Janeiro passava de uma tonalidade rósea para o índigo. Sentindo o frio começar a insinuar-se pelo corpo»

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«O príncipe das trevas é um cavalheiro». In Shakespeare

Abandonada. Ninive, norte do Iraque
«Saia! A voz esganiçada do motorista iraquiano ecoou rispidamente no interior do carro. Uma nuvem de areia e pó se formou do lado de fora depois da travagem brusca. Rudemente acordada, Cotten Stone endireitou-se no banco. Mas o que foi isso!? Ela tentou enxergar alguma coisa no meio à poeira e a penumbra do anoitecer. Saia já! Não levo americanos. Do rádio jorrava um palavreado incompreensível na voz de um locutor iraquiano. O que aconteceu?, insistiu ela. O que está errado? O motorista saltou pela porta que tinha escancarado e correu para a parte de trás do carro. Cotten forçou a maçaneta da porta empoeirada até ouvir um estalido seco. Ei, o que você pensa que está fazendo?, gritou, saltando para fora. O motorista já abria o porta-malas, de onde tirou as duas sacolas dela, que jogou na beira da estrada. Você não pode deixar-me aqui, ela protestou, dando a volta no carro. Estamos no meio de um maldito deserto! Impassível, o motorista indicou com a cabeça o falatório do rádio. Cotten abaixou-se para pegar a sacola de lona em estilo militar que continha os seus videos e jogou-a de volta no porta-bagagem. Escute, eu já lhe dei todo o meu dinheiro. Não tenho mais nada. Virou do avesso os bolsos vazios da calça. Era uma mentira estratégica. Antes de embarcar, havia escondido os seus quase duzentos dólares dentro de uma embalagem de filme vazia. Era a sua reserva de emergência. Não está entendendo? Veja, não tenho mais dinheiro. Eu te paguei para me levar até a fronteira.  O motorista cutucou-a no ombro com o indicador. Fim da linha para americanos. Tornando a arrancar a sacola da bagageira, o motorista atirou-a com toda força no peito dela, quase derrubando-a, e obrigando-a a recuar cambaleando uns passos para trás. Em seguida, ele contornou o carro, reassumiu o posto à direcção, engatou a primeira velocidademarcha e saiu em disparada, com o velho Fiat derrapando na areia pedregosa.
Não acredito que isto esteja acontecendo, queixou-se ela. Desalentada, Cotten soltou a sacola ao lado da outra e, ajeitando uma mecha dos cabelos cor de chá atrás da orelha, acompanhou com o olhar as lanternas traseiras do táxi até que desapareceram na distância. O sussurro ameno do vento do deserto prenunciava o frio da noite ao mesmo tempo que o céu de Janeiro passava de uma tonalidade rósea para o índigo. Sentindo o frio começar a insinuar-se pelo corpo, Cotten abriu a outra sacola, tirou um casaco impermeável em estilo militar e vestiu-o. Para se aquecer, saltitou no lugar, as mãos enfiadas até ao fundo dos bolsos. A escuridão, brusca como o rude iraquiano, caía de repente sobre o deserto. Bem que alguém poderia aparecer..., precisava aparecer, ela pensou. Passaram-se dez minutos sem nenhum sinal de outro veículo. Finalmente, ela resolveu pegar as sacolas e começar a andar. Os pedregulhos e a areia rangiam como pedaços de vidro sob as suas botas de acampamento. Relanceou o olhar para trás, desejando ver o brilho de faróis, mas nada se destacava no deserto escuro e árido. Não sei o que me deu para confiar naquele sujeito, resmungou, a voz soando áspera no ar seco.
Alguma coisa o motorista devia ter escutado no rádio para ficar tão fora de si. Cotten sabia que as forças armadas americanas se preparavam para uma invasão. Havia uma semana que corriam rumores entre os jornalistas da comunicação social estrangeira de que ressoavam cada vez mais alto os tambores de guerra em Washington e Londres. Não era nenhum segredo que algumas equipas avançadas das forças americanas e britânicas tinham-se infiltrado no país. Podia ser que a invasão acontecesse meses depois, mas era difícil esconder a concentração de tropas nos países árabes que faziam fronteira com o sul do Iraque. O noticiário árabe local vivia coalhado de imagens das Forças Especiais e dos fuzileiros navais aparecendo e desaparecendo no meio da noite. Testemunhavam-se, até mesmo, sobrevôos estratégicos de caças, assim como a presença de aeronaves do tipo Predator, avião guiado por controle remoto que não leva tripulação, e de reconhecimento de alta altitude, para testar os graus de vulnerabilidade das instalações de mísseis e de radares iraquianos. Cotten acomodou a alça de uma das sacolas no ombro.
A culpa é toda sua, queixou-se. Quem mandou ser tão cabeça-dura? Algumas semanas antes, ela se encontrava na sala do chefe de reportagem da SNN, Ted Casselman, implorando que a designasse para cobrir os efeitos das sanções económicas sobre as mulheres e as crianças do Iraque. Seria uma história marcante, pensava, e não a incomodava a instabilidade crescente da região. Os americanos precisavam ser informados sobre as consequências das sanções económicas sobre os inocentes. Além disso, argumentou com Casselman, se os Estados Unidos tinham planos de atacar o Iraque, ela queria estar lá, pronta para registar os factos, no epicentro dos acontecimentos. Cotten também não mencionou que precisava ficar um tempo afastada de Thornton Graham. Não disse nada a Casselman porque sabia que não suportaria se tivesse de se explicar. A ferida emocional ainda estava aberta. O pedido para a viagem fazia sentido por si, vindo de uma repórter ávida e ansiosa, e ela queria uma missão que ganhasse as manchetes mundiais.
A Satellite News Network não enviava focas em missões em lugares tão instáveis, Casselman insistiu com ela várias vezes. Sim, ele admitia, ela possuía talento e prometia bastante. Sim, ele achava que conseguiria suportar a pressão. E sim, ele concordava que uma missão no Médio Oriente no momento era uma oportunidade perfeita para impulsionar uma carreira de sucesso. No entanto, ela não só era uma repórter iniciante, mas também era mulher, e uma mulher no Iraque na situação do momento estava fora de questão. Assim que a guerra começasse, os únicos jornalistas presentes seriam os escolhidos antecipadamente pelos militares e viajariam junto com as tropas. E eles deviam ser apenas do sexo masculino. As regras eram claras, a resposta era não. Ela ficou furiosa e iniciou um grande discurso sobre a injustiça de tudo. Casselman cortou-a com outro firme Não. Depois de se acalmar, Cotten finalmente conseguiu que ele concordasse que ela acompanhasse um grupo de repórteres até ao limite máximo da fronteira com a Turquia. De lá, ela cobriria a situação dos refugiados que estavam se dirigindo para o norte desde o início do conflito. Ele ficou furioso quando soube que ela tinha ido para Bagdad. Então ligou naquela manhã, ordenando que ela saísse de lá». In Lynn Sholes e Joe Moore, A Conspiração do Graal, 2005, Clube do Autor, 2020, ISBN 978-989-724-534-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 5 de janeiro de 2020

O Jogo do Leopardo. Nelson DeMille. «O Leopardo olhou para lá do complexo do templo, para a vegetação esparsa e para as poucas tamareiras. Sabia que em tempos antigos aquilo ali tinha sido muito mais verde e mais habitado»

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Marib. Iémen
«Um homem vestido com os trajos brancos de beduíno, Bulus ibn al-Darwish, conhecido também pelo nome de guerra da Al-Qaeda como Al-Numair, o Leopardo, estava ao pé do grupo de turistas belgas. Os belgas tinham chegado de Sana num minibus, quatro homens e cinco mulheres, com um motorista e o seu guia turístico iemenita, um homem chamado Wasim al-Rahib. O motorista ficara no minibus com ar condicionado, ao abrigo do sol quente de Agosto. O guia turístico, Wasim, não falava francês, mas o seu inglês era bom, e uma das belgas, Anette, uma rapariga com cerca de dezasseis anos, também falava inglês e ia traduzindo em francês para os seus compatriotas. Wasim disse para o seu grupo: este é o famoso Templo de Baran, também conhecido como Arsh Bilqis, o trono da rainha de Sabá. Anette traduziu e o grupo de turistas assentiu e começou a tirar fotografias.
Al-Numair, o Leopardo, observou as ruínas do complexo do templo, mais de quatro quilómetros quadrados de muros de arenito castanho, sobre colunas quadradas e pátios abertos, a crestar ao sol do deserto. Os arqueólogos americanos e europeus tinham passado muitos anos e gastado muito dinheiro a descobrir aquelas ruínas pagãs, e haviam partido por causa das desconfianças tribais e, mais recentemente, pela actividade da Al-Qaeda. Um enorme desperdício de tempo e de dinheiro, pensou o Leopardo. Ansiava pelo dia em que os turistas ocidentais deixariam de vir e em que aquele templo e as ruínas pagãs que o rodeavam regressariam às areias inconstantes do deserto.
O Leopardo olhou para lá do complexo do templo, para a vegetação esparsa e para as poucas tamareiras. Sabia que em tempos antigos aquilo ali tinha sido muito mais verde e mais habitado. Agora o deserto chegara, vindo do leste, do Hadhramawt, que significava O Lugar onde a Morte Chega. Wasim al-Rahib 1ançou uma olhadela ao beduíno alto e barbudo, e interrogou-se porque se teria ele juntado ao grupo dos turistas belgas. Wasim tratara das coisas com o xeque da tribo local, Musa, pagando-lhe cem dólares americanos pelo privilégio de visitar aquele sítio histórico nacional. Além disso, evidentemente, o dinheiro comprava a paz; a promessa de que os homens das tribos beduínas não iriam perturbar nem molestar de forma alguma o grupo de turistas. Por isso, interrogava-se Wasim, porque estava aquele beduíno ali?
O Leopardo reparou que o guia turístico olhava para ele e devolveu o olhar até Wasim se voltar novamente para o seu grupo. Não havia mais turistas no templo naquele dia; apenas um ou dois grupos por semana se aventuravam a sair da capital, duzentos quilómetros a oeste. O Leopardo recordava-se de quando estas ruínas famosas atraíam mais ocidentais, mas infelizmente, devido às notícias recentes sobre a actividade da Al-Qaeda nesta província do Marib, muitos turistas mantinham-se à distância. Sorriu». In Nelson DeMille, O Jogo do Leopardo, 2012, Marcador, Editorial Presença, 2013, 2019, ISBN 978-989-847-059-1.

Cortesia de Marcador/EPresença/JDACT

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

O Último Segredo do Templo. Paul Sussman. «Pois! E depois faria armadilhas; assim, se algum ladrão conseguisse entrar, seria capturado. E aí eu colocava todos eles na prisão»

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Vale dos Reis. Luxor, Egipto
«(…) Said ibn-Bassat, popularmente conhecido como Cabeça de Cenoura por causa dos seus cabelos claros em tons de cobre, era um velho amigo de Khalifa. Tinham-se conhecido anos antes, na Universidade do Cairo, onde ambos estudavam história antiga. Problemas financeiros forçaram Khalifa a abandonar os seus estudos e a aceitar o emprego na polícia. Said, por outro lado, terminou o curso, licenciando-se com distinção, e entrara para o Serviço de Antiguidades, onde foi promovido ao cargo de director-assistente do Vale dos Reis. Embora ele nunca tenha dito isso, essa era a vida que Khalifa teria escolhido para si, se a necessidade não o tivesse empurrado para outro caminho. Ele adorava antiguidades e teria feito qualquer coisa para trabalhar nas ruínas. Não que ele invejasse o seu amigo, é claro. Afinal o Cabeça de Cenoura não tinha uma família como ele, que representava algo que Khalifa jamais teria abandonado, nem por todos os monumentos do Egipto.
Os três partiram juntos para o vale, passando pelos túmulos de Ramsés III e Horemheb, antes de prosseguirem à direita e seguirem por um caminho que conduzia à entrada do túmulo de Amenófis II, que se encontrava aos pés de um conjunto de escadas e protegido por um pesado portão de ferro. Said começou a mexer no cadeado. Vai continuar fechado durante quanto tempo?, perguntou Khalifa. Apenas mais um mês ou dois. O A restauro está quase no fim. Ali abriu caminho entre os dois, andando na ponta dos pés, espiando o que poderia haver na escuridão mais adiante. Há ali algum tesouro? Creio que não, respondeu Said, tirando o menino do caminho e abrindo o portão. Foi tudo roubado em tempos antigos.
Apertou um interruptor, e as luzes acenderam-se, iluminando um longo e íngreme corredor talhado na rocha. As paredes e o tecto ainda guardavam algumas das decifrações das antigas marcas esculpidas. Ali tomou a dianteira e começou a descer. Sabem o que eu teria feito se tivesse sido rei do Egipto?, perguntou, com a voz a ecoar no espaço pelo estreito espaço do túmulo. Metia todos os meus tesouros numa câmara secreta bem escondida e tinha outra sala só com um bocadinho dos tesouros, para enganar os ladrões…, como aquele de que me falaste, pai, o Horror Ankamão. Hor-ankh-amun, corrigiu-o Khalifa, com um sorriso.
Pois! E depois faria armadilhas; assim, se algum ladrão conseguisse entrar, seria capturado. E aí eu colocava todos eles na prisão. Sorte deles então, disse Said, rindo. A punição habitual para assaltantes de túmulos, no Egipto antigo, era ter o nariz arrancado e ser enviado para as minas de sal da Líbia. Ou então eram empalados num ferro…
Piscou o olho para Khalifa, e, rindo, os dois homens saíram pelo corredor, atrás de Ali. Andaram apenas alguns metros e logo se ouviu o som de passos apressados atrás deles. Um homem de jilaba apareceu na entrada do túmulo, com a respiração pesada, fazendo sombra ao brilhante rectângulo do céu da tarde.
O inspetor Khalifa está aqui?, perguntou, ofegante. O detective olhou de relance para o amigo e então deu um passo em direcção à luz. Sou eu. Tem de vir depressa ao outro lado. Foi encontrado um... O homem fez uma pausa, tentando recuperar o fôlego. O quê?, perguntou Khalifa. O que foi encontrado? O homem olhou para ele, os olhos bem abertos. Um corpo! A voz de Ali chegou-lhes do fundo do corredor: fixe! Pai, também posso ir?» In Paul Sussman, O Último Segredo do Templo, 2005, Bertrand Editora, 2016, ISBN 978-972-253-056-9.

Cortesia de BEditora/JDACT