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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre. Maria Ferro Tavares. «Diogo Álvares Soriano, o embetilho, residia em Elvas. Tivera uma tenda de marçaria, antes de ser mercador de panos da Índia. Frequentava Lisboa e as feiras, sobretudo, a que se iniciava em Vila Viçosa a 2 de Fevereiro e durava três dias…»

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«O comércio levava-os a estabelecerem-se também, quer por conta própria, quer por conta de um familiar mais rico que permanecia em Portugal, como veremos, em Sevilha, Córdova, Granada, Málaga e até mais longe como Valença de Aragão e Múrcia. O Golfo, a Flandres e a Itália eram a possibilidade ansiada para alguns de abjurarem o cristianismo e abraçarem o judaísmo. O Golfo, ou seja a Turquia, foi o objectivo alcançado por Á1varo Abreu, de Portalegre. António Lopes, mercador desta cidade, partiria para França e Flandres e, no regresso, ao reino, fixar-se-ia em Lisboa. Amador Rodrigues trocaria Portalegre por Lisboa e aqui embarcaria para a Flandres. Nem todos tiveram sorte no salto para a abjuração ou para uma melhor situação económica fora do reino, numa fuga à carestia da vida que aqui se fazia sentir. Tal sucedeu com vários membros de uma família cristã nova de Fronteira que seriam presos pela Inquisição (maldita) de Lisboa quando já estavam embarcados na nau que os levaria à Flandres.
Outros tentavam a sorte em regiões mais distantes. Fernão Álvares, tendeiro de Elvas, filho de Lopo Vasques Saragocim, trocou a sua terra por Córdova. Daqui partiria para o Perú donde regressaria a Elvas, ao fim de alguns anos. Seria preso a pedido dos inquisidores de Évora, quando fugia para Estremoz. João Álvares optaria também pelas Índias espanholas.
Os cristãos novos procuravam agora e aqui identificar-se pela posse e trabalho da terra como os cristãos velhos. Vários intitular-se-iam lavradores, como Gaspar Fernandes, Duarte Gomes, morador na Carreira dos Cavalos, à porta de Olivença, Garcia Gomes, João Nunes, ou Diogo Pires, mercador e lavrador, todos residentes em Elvas. As suas herdades incidiam de preferência no cultivo da vinha e da oliveira, cujos produtos eles depois mercavam. A agricultura definia o cristão, tal como o comércio e o empréstimo a juro caracterizava o judeu e o seu ascendente baptizado, de facto, a sua preferência permanecia ligada às artes e ao comércio, agora declaradamente peninsular. A itinerância ligada à emigração definitiva ou temporária marcava-o, quer numa atitude de defesa perante os diversos tribunais inquisitoriais peninsulares, quer por razões de negócios. Não temos dúvidas que é junto dos cristãos novos, mesmo habitando concelhos do interior, que nós vamos encontrar os fundamentos do capitalismo comercial moderno português.
De facto alguns destes mercadores, residentes em Elvas e Portalegre possuíam livros de contas, emprestavam a crédito, usando-o quer nas vendas diárias, quer nos negócios das feiras que frequentavam. O seu raio de acção estendia-se a Penela, junto de Coimbra, famosa pela sua feira de Setembro, a Lisboa, ou às feiras da região alentejana, como Flor da Rosa, Vila Viçosa, Arraiolos, Elvas, etc., às feiras de Medina del Campo, Vi1lalón, junto de Córdova, de Ubeda ou ao comércio das cidades, como Málaga, Córdova, Toledo, Granada e Sevilha, no reino vizinho.
Tomemos alguns exemplos. Diogo Álvares Soriano, o embetilho, residia na Carreira dos Cavalos, em Elvas. Tivera inicialmente uma tenda de marçaria, antes de ser mercador de panos da Índia. Frequentava Lisboa e as feiras, sobretudo, a que se iniciava em Vila Viçosa a 2 de Fevereiro e durava três dias, a de Flor da Rosa, a de Elvas, vendendo fiado pelo que aí permanecia mais alguns dias à espera do pagamento. Badajoz e Toledo eram-lhe tão familiares como Elvas, o mesmo sucedendo com as feiras de Medina del Campo, onde se abastecia de lençarias, holandas, sarjas e outras mercadorias, e a de Villalón, perto de Córdova.


Despachava mercadorias para Málaga, onde se encontravam outros cristãos novos de Elvas, para Badajoz e Ubeda, onde tinha familiares, e em Córdova, noutros cristãos novos portugueses, seus conterrâneos, tinha especiarias no valor de 600 cruzados de ouro». In Maria Ferro Tavares, Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Acta do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.

Cortesia da FCSHUNL/JDACT

sábado, 15 de dezembro de 2012

Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre. Maria Ferro Tavares. «O porco raramente entrava na sua alimentação, só o comendo por receio diante dos cristãos velhos, quando não havia o pretexto de uma indisposição para o substituir por outro prato. Refogavam a cebola com azeite e não com o toucinho, como estes»

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«Atentemos neste exemplo de uma família, em lato sensu, elvense. Afonso Rodrigues e Catarina Álvares, casal de judeus baptizados em l497, natural de Elvas, viram chegar à idade adulta seis filhos, dois dos quais seriam relaxados, já velhos, um em Évora e outro em Llerena. Mor Rodrigues uma das suas filhas, entregue à justiça secular em Évora, com cerca de 75 anos, teve, do seu casamento com João Álvares, alfaiate, também seis filhos . Um deles, Álvaro Fernandes casaria com Isabel Rodrigues, filha de Maria Rodrigues, sua tia, provavelmente uma irmã de sua mãe.
O casal Afonso Fernandes e Isabel Rodrigues, irmã de João Álvares, marido de Mor Rodrigues, viria a ter dez filhos. Um deles, de nome Álvaro Fernandes , como seu primo, casaria com Leonor Alvares , filha de Simão Rodrigues, irmão da tia por afinidade, etc..
Nem sempre os casamentos eram feitos entre membros da mesma comunidade, mas também com os das comunidades vizinhas, como Badajoz, Alter do Chão, Cabeço de Vide, Portalegre, etc.. Em casa trabalhavam as filhas com a mãe e algumas escravas pretas e serviçais, nas famílias mais abastadas, Além da lida da casa, a mulher dobava, fiava, tecia; amassava o pão que cozia em forno próprio ou não; cozinhava a carne e o peixe e fazia bolos em alturas de festas, como os folares e as queijadas.
O porco raramente entrava na sua alimentação, só o comendo por receio diante dos cristãos velhos, quando não havia o pretexto de uma indisposição para o substituir por outro prato. Refogavam a cebola com azeite e não com o toucinho, como estes. Tirar o sebo à carne e dessangrá-la, salgando-a e lavando-a, eram tidos como costumes judaicos, assim como a degolação dos animais sem aproveitamento do sangue. À mulher caberia a transmissão do fabrico dos bolos ázimos pela Páscoa Judaica, assim como a permanência de certos pratos de guisado, como o designado adefina. Era ela também quem mudava, de motu proprio ou instigada por outrém, a roupa da casa às sextas feiras, limpava e acendia as candeias com azeite e torcidas novas por honra do sábado.
A família era o meio difusor ideal da transmissão e permanência da tradição e da Lei mosaica. Em casa de algumas mulheres viúvas de Elvas fazia-se sinagoga clandestina, como na de Mor Rodrigues. No entanto, as famílias cristãs-novas destes concelhos alentejanos encontravam-se em desagregação por força da Inquisição (maldita) e dos interesses económicos. Uns fixavam-se em Lisboa, como Luís Gonçalves Pache, mercador; outros em Santarém, como Manuel Rodrigues, tratante. Mas a maioria partia para Castela, Flandres, o Golfo, a Índia, o Perú.
O reino vizinho era o refúgio mais próximo mas nem sempre o mais feliz. A chegada de imigrantes tornava os inquisidores desconfiados e muitos dos cristãos-novos portugueses residentes em Badajoz, Montijo, Granada, Albuquerque, etc. acabariam por ser apanhados pela Inquisição (maldita) de Llerena, Uns seriam relaxados, como os pais de Diogo Álvares Soriano, mercador de Elvas, outros a maioria, sairia com hábito penitencial e cárcere, como Afonso Álvares e Mor Fernandes, irmãos de Beatriz Álvares, mulher de mestre Henrique de Elvas, Mécia Rodrigues e seu marido, Álvaro Rodrigues, também daqui naturais e a residirem no Montijo, Miguel Fernandes de Portalegre, etc..


Badajoz era de longe a comunidade do reino vizinho que, dada a sua proximidade e relacionamento familiar com Elvas, sobretudo, mais cristãos novos portugueses teria. Mas não era a única. O comércio levava-os a estabelecerem-se também, quer por conta própria , quer por conta de um familiar mais rico que permanecia em Portugal, como veremos, em Sevilha, Córdova, Granada, Málaga e até mais longe como Valença de Aragão e Múrcia». In Maria Ferro Tavares, Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Acta do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.

Cortesia da FCSHUNL/JDACT

sábado, 21 de julho de 2012

Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre. Maria Ferro Tavares. «Mas agora a antiga judiaria chamava-se Rua Nova. A sinagoga, esvaziada dos seus paramentos, livros e candelabros, transformava-se em casa de habitação aforada a um cristão velho e às vezes, por suprema ironia e ingenuidade, a um cristão-novo…»


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«A 6 de Dezembro de 1496, Manuel I ordenava a expulsão das minorias judaica e moura de Portugal. À semelhança do que ocorreria no resto do país, após os preparativos para a partida, dar-se-ia o regresso como cristãos, à sua casa, à sua rua... Mas agora a antiga judiaria chamava-se Rua Nova. A sinagoga, esvaziada dos seus paramentos, livros e candelabros, transformava-se em casa de habitação aforada a um cristão velho e às vezes, por suprema ironia e ingenuidade, a um cristão-novo; outras vezes, derrubada, dava lugar a uma igreja. O cemitério ou ‘adro’ dos judeus transformava-se em rossio ou campo para cultivo ou em chão de uma nova igreja, como teria ocorrido aqui em Portalegre.
Baptizados, os judeus permaneceram no reino. Manuel I iria tentar com eles uma política de integração na maioria cristã velha, outorgando-lhes mercês e privilégios, privilégios, distinguindo alguns com a nobilitação através de uma carta de limpeza de nascimento; proibindo os casamentos entre cristãos-novos. No entanto só una minoria se assimilaria pelo sangue à maioria cristã-velha.
Os cristãos-novos permaneciam herméticos às relações familiares com os cristãos-velhos, embora vivessem a seu lado e os utilizassem como serviçais nas suas casas, vinhas, herdades e oficinas. A ligação fazia-se numa posição de domínio e não de igualdade o que era dificilmente tolerado pelo povo que continuava a ver nos cristãos-novos os antigos judeus.
Convertidos passaram a ter acesso a todos os cargos administrativos eclesiásticos e universitários que anteriormente lhes eram vedados. O baptismo alcandorara a minoria que o povo aborrecia e desejava irradiar de Portugal, e viera agravar a instabilidade social que, desde a segunda metade do século XV, se fazia sentir nas principais cidades do reino, com levantamentos, aqui e além, contra os judeus e conversos castelhanos, como depois contra os cristãos-novos, acusados de heresia. Contra estes e visando uma integração e catequização, João III iria utilizar uma psicologia de choque e uma metodologia assente no medo, principais meios usados pelo tribunal da Inquisição (maldita).
Esta só depois do segundo perdão geral, melhor dizendo na década de sessenta faria a sua entrada em força em Elvas , Portalegre, Castelo de Vide, com excepção de Fronteira que teria alguns dos seus habitantes cristãos-novos presos pelo tribunal de Lisboa, quando se preparavam para partir para a Flandres.

Avizinhavam com os cristãos-velhos quer na Rua Nova, quer em ruas da anterior cristandade. Assim os cristãos-novos de Elvas continuavam a habitar a antiga judiaria, a Rua do Alcamim, mas também outras zonas nevrálgicas para o comércio, como podemos perceber pela própria toponímia:
  • rua da Feira,
  • a Carreira dos Cavalos à porta de Olivença,
  • a rua da porta de Évora,
  • a Praça, à porta da praça nova, etc…
A sua onomástica não se distinguia agora da do cristão, exceptuando, num ou noutro caso, a permanência como alcunha do antigo nome judaico. Convivem com os cristãos, tomando para padrinhos dos seus filhos, normalmente as pessoas mais honradas e fidalgas do concelho, ou utilizam-nos em suas casas, oficinas e herdades como assalariados. Raramente se cruzam pelo casamento.
O agregado familiar estrito manteve-se intacto na sua estrutura. Pais e filhos solteiros definiam o núcleo da família a que se juntava por vezes um dos progenitores viúvo de um dos cônjuges. Ao contrário do que se poderia supor, o baptismo forçado e depois a entrada da Inquisição (maldita) não o alteraram. A família continuava a afirmar-se pelo elevado número de filhos e pelo cruzamento entre parentes, o que por vezes originava denúncias que motivaram inquéritos por parte das autoridades eclesiásticas». In Maria Ferro Tavares, Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Acta do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.

  
Cortesia da FCSHUNL/JDACT

domingo, 24 de junho de 2012

Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre. Maria Ferro Tavares. «Em Castelo de Vide, estava levantado o acampamento para os que entravam pela fronteira alentejana. Segundo Velasco da Mota a quem cabia a sua vigilância, nele se encontravam entre 4000 e 5000 pessoas, guardadas de dia e de noite, para evitar os roubos e raptos feitos pelos castelhanos, nas suas sortidas em território português»


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«Desconhecemos o cômputo populacional dos judeus destes concelhos assim como o número de habitantes por fogo. É muito provável que, à exclusão de Elvas e Portalegre, a minoria residisse numa única rua, não chegando a extravasá-la, exceptuando com a vinda dos judeus castelhanos em 1492, altura em que muitos destes habitaram acampamentos de refugiados, como o de Castelo de Vide, ou em casas na cristandade.
À semelhança do que se passava no resto do reino e tal como depois ocorreria com a família cristã nova, o agregado estrito definia-se por um elevado número de filhos.
O casamento entre membros da mesma família era frequente, incluindo a união entre primos. A endogamia devia ser mais usual nas famílias mais ricas, evitando desse modo a dispersão do património familiar. O casamento era nestas precedido por um contrato nupcia1,a ‘kétubah’.
Economicamente, os judeus dedicavam-se ao comércio e às artes diversas. Os mesteres nobres eram seu apanágio, sendo por vezes o único oficial da sua arte no concelho em que residiam.
Tomemos alguns exemplos :

Castelo de Vide:
Mercador – 4,
Tecelões – 2,
Alfaiates – 2,
Sapateiros – 2.

Elvas:
Mercadores – 2,
Tecelões - l4,
Alfaiates – 17,
Gibiteiros – 2,
Sapateiros – 5,
Ourives – 2,
[…]

Fronteira:
Mercador – 1,
Tecelões – 3,
Alfaiates – 1,
Físicos – 2.

Portalegre:
Alfaiates – 8,
Tecelões – 7,
Gibiteiros – 3,
Sapateiros – 9,
Ferreiros – 2,
Ourives – 1,
Físicos e cirurgiões – 3,
[…]

Perante esta amostragem incompleta, devido à escassez documental, podemos concluir da importância do fabrico, transformação e comércio de tecidos, sendo certamente as mantas um desses artefactos. Seguiam-se-lhe o trabalho dos curtumes e do fabrico de sapatos e a arte do ferro.
A sua actividade desenvolvia-se nas lojas-oficinas, muitas vezes acesso único à própria habitação. Nelas trabalhava o mestre mas também o sobreiro e assalariados, assim como um ou outro aprendiz. Frequentavam as feiras da região alentejana, como a de Vera Cruz, Flor da Rosa, Elvas, Vila Viçosa, etc. Exemplo deste comércio era o pequeno mercador itinerante, o ‘algibebe’.
Vejamos para sintetizar, baseado na amostragem acima referida:

Alfaiates e gibiteiros – 33,
Tecelões – 22,
Mercadores – 7,
Tosadores – 3,
Sapateiros – 16,
Ferreiros e Armeiros – 13,
Físicos e cirurgiões – 14.

Mas nesta zona raiana o trato não era somente interno. Fazia-se igualmente um comércio intenso com a vizinha Castela, para onde se levava gado clandestinamente, como Abraão Alufo de Castelo de Vide ou dinheiro e donde se trazia panos de diversa qualidade, sedas, fustões, etc.
Igualmente importante deveria ser a presença de judeus castelhanos nestes concelhos, explicada por laços familiares e interesses comerciais, provenientes sobretudo de Badajoz, Valençia de Alcântara, etc.

Em 1492, os Reis Católicos decretavam a expulsão dos judeus de Castela, depois de, numa primeira fase, o terem sido da Andaluzia. Marvão e Elvas, segundo os cronistas castelhanos da época teriam sido dois dos portos, escolhidos para a entrada em Portugal. Em Castelo de Vide, estava levantado o acampamento para os que entravam pela fronteira alentejana. Segundo Velasco da Mota a quem cabia a sua vigilância, nele se encontravam entre 4000 e 5000 pessoas, guardadas de dia e de noite, para evitar os roubos e raptos feitos pelos castelhanos, nas suas sortidas em território português.
A maioria partiu para outras partes, no reino ou fora dele. Alguns regressariam a Castela depois de serem baptizados em finais de 1492. Outros ter-se-iam aqui radicado». In Maria Ferro Tavares, Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Acta do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.

Cortesia da FCSHUNL/JDACT

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre. Maria Ferro Tavares. «Manuel I comprometera-se no édito de expulsão das minorias judaica e moura a indemnizar os beneficiários destas rendas e direitos. Assim o fez utilizando para isso as sisas, dizimas e direitos dos almoxarifados»



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«Em 1458, Salomão Maçoude, ferreiro fazedor de armas, obtinha deste monarca a isenção de pagamento de direitos reais e de impostos à comuna, da prestação de serviços a esta, além da isenção de aposentadoria. Mestre Moisés Tobi, físico, Judas Tobi, discípulo nesta arte, mestre Vidal, cirurgião e Isaac Francês, também cirurgião recebiam autorização para se poderem deslocar em besta muar de sela e freio.
Elvas destacava-se sem dúvida na região, seguindo-se-lhe Castelo de Vide, Arronches, Fronteira, Crato e Portalegre apenas com um. Na sua generalidade eram físicos ou cirurgiões e mercadores. Mais raros eram os privilégios concedidos a artesãos.
Pelo que conhecemos, podemos dizer que eles se identificavam também com a oligarquia, como rabi Sad, rabi José Amigo, servidor de Afonso V, mestre Abraão, físico e cirurgião e rabi em 1475-78 ou Salomão Penço, físico e rabi em 1486, em Elvas.
Os judeus destas comunidades, à semelhança do seus correligionários, pagavam anualmente ao rei o serviço real. No final de trezentos e no início de quatrocentos, João I acrescentar-lhes-ia o serviço novo das 300 000 libras e a peita ferreira para os ferreiros de Ceuta. Além destes, contribuíam nos tributos extraordinários, como os pedidos e empréstimos ao rei.
Ignoramos a totalidade do valor do serviço real, velho e novo, e das rendas das judiarias da região em questão. Os cálculos conhecidos não são os totais, na sua generalidade, pois só sabemos a quantia dos direitos reais doada e não a sua soma o que leva a certos paradoxos como, por exemplo, a superioridade do total conhecido da comuna de Olivença, sobre a de Évora, sendo esta a segunda comunidade do reino.
O rei João I desenvolveria a prática já incipientemente iniciada por seu irmão da doação aos seus servidores dos direitos reais das comunas do reino. Em 1384, o serviço e cabeças dos judeus de Elvas eram concedidos a Gil Fernandes, escudeiro e, o serviço real de Avis a Rodrigo Afonso, criado do Mestre de Avis. Em 1390, as cabeças e serviços de Elvas passavam para Fernão Lopes de Abreu e as rendas da judiaria, em 1390, eram doadas a Álvaro Gonçalves, alcaide da vila. João Falcão, cavaleiro da casa do infante Pedro, recebia em 1433 o serviço novo das comunas de E1vas, Campo Maior e Juromenha o qual seria confirmado por Afonso V em 1450. O mesmo fidalgo obteria, em 1436, o direito do genesim de Elvas. O serviço real desta comuna era doado pelo rei Duarte I a Gonça1o Rodrigues de Abreu. Os direitos reais dos judeus do almoxarifado de Portalegre, com excepção do serviço novo que reverteria para o rei, caberia a Gonçalo de Sousa, fidalgo da casa do infante Henrique e alcaide do castelo de Marvão, etc. etc..
Desconhecemos o seu quantitativo global e até a sua evolução, ao longo do século XV. À data da expulsão, a comuna de Portalegre beneficiava dois fidalgos: Diogo da Silva de Meneses, usufruidor de 61.066 reais e 7 pretos das rendas da judiaria, e João Tavares, cavaleiro da casa real e recebedor de 25.256 reais do serviço novo desta comuna. Jaime, duque de Bragança e Afonso Vasques de Brito, conselheiro do rei e seu caçador mor, usufruíam as rendas da judiaria de Sousel, no valor de l5.660 reais. Àquele pertenciam ainda as rendas da judiaria de Alter, avaliadas em 6500 reais. As rendas da judiaria de Castelo de Vide pertenciam a Duarte de Me1o, alcaide-mor da vila e valiam 14.200 reais. Campo Maior rendia a Rui Gomes da Silva, fidalgo e seu alcaide-mor, a quantia de 11.493 reais. João Gomes tinha as rendas da judiaria de Alegrete, no valor de 8000 reais. O genesim dos judeus de Cabeço de Vide pertencia a Brianda do Carvalhal, ama da rainha Leonor. Rui de Abreu, alcaide-mor de Elvas, recebia as rendas das judiarias de Elvas, Juromenha e Vila Boim, ro valor de 113.333 reais.
Manuel I comprometera-se no édito de expulsão das minorias judaica e moura a indemnizar os beneficiários destas rendas e direitos. Assim o fez utilizando para isso as sisas, dizimas e direitos dos almoxarifados. O total gasto com as judiarias da actual região de Portalegre orçou os 275.013 reais aproximadamente». In Maria Ferro Tavares, Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Acta do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.


Cortesia da FCSHUNL/JDACT

sábado, 19 de maio de 2012

Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre. Maria Ferro Tavares. «Opunha-se a esta minoria de ricos, a maioria dos "pobres" da comuna, aqueles que por trabalho e ignorância estavam afastados do poder desta e que era constituída por mesteirais, tendeiros e assalariados»



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«Estavam, por direito canónico, confirmado a partir de meados de trezentos pela ordenação régia, coagidos ao apartamento, ou seja, ao encerramento e à abertura da judiaria ao pôr e ao nascer do so1, para obstar aos excessivos contactos entre judeus e cristãos e, assim, evitar a apostasia destes, devido à convivência perniciosa com aqueles. Se esta fora a principal preocupação das autoridades cristãs, ela não desagradou totalmente à minoria que assim igualmente se preserva melhor da abjuração dos seus membros.
A comuna possuía os seus magistrados eleitos, à frente dos quais se encontravam os dois rabis menores, a câmara de vereação, constituída pelos homens bons, e o tribunal. O local de reunião era a sinagoga. Por direito, cabia-lhe fazer as suas posturas e ordenações internas.
Os rabis menores julgavam em primeira instância todos os casos cíveis e crimes entre judeus ou entre judeus e cristãos, quando aqueles fossem réus. Apenas as comunas mais populosas teriam cadeia própria, mas os judeus eram julgados segundo o direito talmúdico, sempre que réus, podendo apelar da sentença quer para o rabi mor ou os seus ouvidores, quer para o rei. As penas eram diversas pois os judeus seguiam também a lei geral do reino, indo por isso, desde a excomunhão aos castigos corporais, ao degredo e ao enforcamento.
Os rabis eram eleitos por pelouros tal como os restantes oficiais da comuna. Coadjuvavam-no os vereadores que tinham assento na câmara de vereação, juntamente com os procuradores e os homens bons da comuna. A ratificação era feita pelo rabi mor em nome do soberano. Os cargos eram anuais e não reelegíveis no ano imediato ao do mandato, desde as cortes de Elvas de 1361, mas as excepções deviam ser a regra nestas pequenas comunidades onde não abundariam certamente muitos indivíduos letrados. Em Elvas, José Amigo, servidor de Afonso V, foi designado rabi da comuna a partir de 1455 e de novo em 1458, “ataa merçee d’el-rei”. Em 1475, mestre Abraão, físico e cirurgião, foi nomeado por três anos,  rabi desta comunidade.
À câmara de vereação cabia, juntamente com os procuradores e o tesoureiro, administrar os bens, as rendas e dinheiros da comunidade, orientando as verbas destinadas à assistência, ao ensino e à conservação dos edifícios públicos. Pertencia-lhe lançar peitas, fintas, talhas, pedidos e empréstimos sobre os seus habitantes, a fim de custear eventuais despesas da comuna ou pagar os tributos ao concelho e ao monarca. Não temos qualquer conhecimento se aos actos de repartição dos impostos e do prestar das contas anual estavam presentes os procuradores do povo miúdo, ou seja, dos mesteirais judeus, à semelhança do que ocorria em Lisboa e Évora.
Tal como o concelho, também a comuna conheceu uma oligarquia de poderosos, constituída por físicos, mercadores, ourives, tabeliães. Opunha-se a esta minoria de ricos, a maioria dos "pobres" da comuna, aqueles que por trabalho e ignorância estavam afastados do poder desta e que era constituída por mesteirais, tendeiros e assalariados. Não conhecemos as suas queixas contra os privilégios e isenções dos mais ricos e poderosos mas é provável que tal tenha ocorrido à semelhança do que sucedeu com a repartição da aposentadoria, sobretudo em Elvas, porventura a comunidade mais importante desta região.
Quem eram estes poderosos? A documentação não é abundante a este respeito, mas permite-nos distinguir três grupos:
  • os ricos, os ‘potentes’ economicamente falando;
  • os privilegiados, ou seja, os que temporária ou vitaliciamente estavam isentos do pagamento de parte ou da totalidade dos impostos ou serviços ao rei, à comuna e ao concelho;
  • os intelectuais, os poderosos pela detenção da sabedoria. Isto não quer dizer obviamente que a cultura e o privilégio estivessem dissociados do poder económico, antes pelo contrário.
 Mas o privilégio também podia ser permissão para viver entre os cristãos, para se deslocar em besta muar ou de dispensa do uso do sinal distintivo no exterior do vestuário.
Tomemos como exemplo a comuna de Elvas. Em 1444, José Verdugo, ficava isento de prestar serviços ao concelho. Rabi Sad e Ordonha, sua mulher, obtinham de Afonso V permissão para viver entre os cristãos, o mesmo sucedendo com Meir de Cuélar, Abraão Caldas, especieiro e boticário, Abel Alfarim e sua mulher Jamila, Samuel Monção, mercador e esposa». In Maria Ferro Tavares, Judeus e Cristãos Novos no distrito de Portalegre, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Acta do I Encontro da História Regional e Local, Setembro de 1987.

Cortesia da FCSHUNL/JDACT