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sábado, 30 de março de 2019

Wolf Hall. Hilary Mantel. «Mas é verdade!, exclama Morgan. Tim-tim por tim-tim. Não é? Excepto a história do padre. E que ele ainda não morreu»

Cortesia de wikipedia e jdact

Cruzando o Mar Estreito. Putney, 1500
«(…) Ah, diz Kat, eles vivem brigando. Garotos. Na margem do rio. Certo, deixe-me ver se entendi bem, começa Morgan. O garoto chegou em casa ontem com as roupas rasgadas e os nós dos dedos esfolados e o velho disse: o que é isso, andou brigando? Então Walter esperou até ao dia seguinte e atacou o garoto com uma garrafa. Em seguida, derrubou-o no pátio, cobriu-o de pontapés, espancou o menino com uma tábua de madeira que estava ali perto... Ele fez isso? Toda a paróquia já sabe! Tinha gente fazendo fila no cais para me contar, eles já gritavam a história para mim antes mesmo que o barco atracasse. Morgan Williams, escute isso, seu sogro espancou Thomas e o garoto foi rastejando à beira da morte para a casa da irmã, eles chamaram o padre... Chamou o padre? Ai, essa família Williams!, reclama Kat. Vocês se acham tão importantes por aqui... As pessoas fazem fila para lhe contar coisas... E porquê? Porque você acredita em qualquer história. Mas é verdade!, exclama Morgan. Tim-tim por tim-tim. Não é? Excepto a história do padre. E que ele ainda não morreu. Com esse minucioso estudo da diferença entre um cadáver e meu irmão, sem dúvida vai acabar na bancada dos magistrados.
Quando eu for magistrado, vou atirar o seu pai nas galés. Multá-lo? Não tem multa que chegue para ele. De que adianta multar uma pessoa que simplesmente vai roubar ou extorquir o mesmo valor de algum inocente que cruzar o seu caminho? O garoto geme: mas tenta fazê-lo sem interromper a conversa. Calma, calma..., murmura Kat. Eu diria que os magistrados já tiveram o bastante, diz Morgan. Quando ele não está aguando a cerveja que produz, está criando animais ilegalmente em território público; quando não está explorando áreas públicas, está atacando um juiz de paz; quando não está bêbado, está desmaiado de bêbado; e se ele não for morto antes do seu tempo, não existe justiça neste mundo. Já acabou?, pergunta Kat. Ela dá as costas ao marido. Tom, é melhor ficar connosco por enquanto. Morgan Williams, o que me diz? Quando ficar bom, ele será útil no trabalho pesado. Tom pode fazer as contas, ele sabe somar e..., qual era a outra coisa? Ora, vamos, não riam de mim, quanto tempo acham que eu tive para aprender números, com um pai daqueles? Se sei escrever o meu nome, é porque o Tom aqui me ensinou. Ele não vai..., diz o rapaz, gostar disso.
Ele só consegue articular frases curtas, simples e declarativas. Gostar? Ele deveria envergonhar-se, declara Morgan. Kat comenta: quando Deus fez meu pai, deixou a vergonha de fora. O garoto diz: porque..., pouco mais de um quilómetro. Ele pode, fácil..., vir atrás de si? Ele que experimente! Morgan exibe o punho novamente: seu nervoso soquinho galês. Após Kat terminar de limpá-lo e Morgan Williams deixar de se gabar e de tentar reconstituir o ataque, o garoto dormiu por uma ou duas horas para se recuperar. Durante esse tempo, Walter chegou à casa com algum conhecido e houve certa gritaria e pontapés nas portas, mas o barulho chegou ao garoto de modo abafado e ele pensou que talvez fosse um sonho. Agora, a questão na sua mente é o que vou fazer?, não posso ficar em Putney. Em parte porque as lembranças de anteontem e da primeira briga estão retornando, e ele acha que talvez uma faca tenha aparecido em algum momento, que fora enterrada em alguém, e que esse alguém não era ele; resta saber se teria sido por ele. Nada disso está claro na sua mente. Apenas a sua decisão sobre Walter: Para mim, chega. Se ele vier atrás de mim novamente, eu vou matá-lo, e se eu o matar, vão-me enforcar, e se vão enforcar-me, quero que seja por um motivo melhor». In Hilary Mantel, Wolf Hall, 2009, Editora Record, tradução de Heloisa Mourão, 2011, ISBN 978-850-109-768-2.

Cortesia ERecord/JDACT

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Estes homens, os velhos e os novos, estão com o rei desde os seus levantares até aos seus deitares e em todas as suas horas privadas entre os dois. Estão com ele na casa de banho e quando lava os dentes…»

jdact

Londres e Kimbolton. Outono de 1535
«(…) Não, diz ele ao embaixador, não é Anne quem me preocupa; são os homens que colecciona à volta dela. A sua família: o pai, o conde de Wiltshire, que gosta de ser conhecido por monsenhor e o irmão George, lorde Rochford, que Henry nomeou para o rol da sua Câmara Privada. George é um dos membros mais recentes, porque Henry gosta de se restringir a homens a que está habituado, que eranl seus amigos quando era novo; de tempos a tempos o cardeal varria-os para fora, mas voltavam a infiltrar-se como água suja. Em tempos foram jovens de espírito, jovens cheios de élan. Passou um quarto de século e estão cinzentos ou a ficar carecas, flácidos ou pançudos, fracos das pernas ou com falta de alguns dedos, mas ainda arrogantes como sátrapas e com o requinte mental de um poste de portão. E agora há uma nova ninhada de cachorros, Weston e Rochford e outros da sua laia, que Henry foi buscar porque pensa que o mantêm jovem. Estes homens, os velhos e os novos, estão com o rei desde os seus levantares até aos seus deitares e em todas as suas horas privadas entre os dois. Estão com ele na casa de banho e quando lava os dentes e cospe para uma bacia de prata; esfregam-no com toalhas e apertam-lhe os cordões do gibão e dos calções; conhecem a sua pessoa, cada um dos seus sinais ou sardas, cada um dos pelos da sua barba e fazem o mapa das ilhas do seu suor quando vem do campo de ténis e arranca a sua camisa. Sabem mais do que deviam, tanto como a sua lavadeira e o seu médico e falam do que sabem; sabem quando visita a rainha para tentar enfiar um filho nela ou quando, numa sexta-feira (o dia em que nenhum cristão copula) sonha com uma mulher fantasma e mancha os lençóis. Vendem o seu conhecimento por um alto preço: querem que lhes façam favores, querem os seus desmandos ignorados, acham-se especiais e querem que todos tenhamos consciência disso. Desde que ascendeu no serviço de Henry, ele, Cromwell, tem tentado aplacá-los, lisonjeando-os, procurando sempre uma maneira agradável de trabalhar, um compromisso; mas às vezes, quando por uma hora lhe bloqueiam o acesso ao seu rei não conseguem disfarçar os seus largos sorrisos. Já fui provavelmente, pensa ele, tão longe como posso para os acomodar. Agora, têm de me acomodar a mim ou ser removidos.
As manhãs agora são gélidas e nuvens barrigudas flutuam atrás da comitiva real enquanto vagueiam através do Hampshire, o pó das estradas tornado lama em poucos dias. Henry está relutante em se apressar de volta ao trabalho; quem me dera que fosse sempre Agosto, diz. Estão a caminho de Farnham, um pequeno grupo de caçadores, quando chega a galope pela estrada um relatório: apareceram casos de peste na cidade. Henry, corajoso no campo de batalha, empalidece visivelmente e torce para trás a cabeça do seu cavalo: para onde? Qualquer sítio serve a não ser Farnham. Ele inclina-se para a frente na sela, tirando o chapéu ao mesmo tempo que fala ao rei. Podemos seguir antes do previsto para Basing House, deixai-me enviar um homem rápido para prevenir Paulet. Depois, para não o sobrecarregar, para Elvetham por um dia? Seymour está em casa e eu posso caçar provisões se ele não estiver fornecido». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

domingo, 26 de julho de 2015

Wolf Hall. Hilary Mantel. «Kat, eu ainda tenho um olho aqui em baixo, não tenho? Porque não vejo nada com ele. Sim, sim, sim, ela responde, enquanto Morgan Williams continua sua investigação dos factos; ele conclui que foi usado um objecto duro…»

Cortesia de wikipedia

Cruzando o Mar Estreito. Putney, 1500
«(…) Sente-se. Não fale, pede Kat. Quando chega a bacia, ela se inclina sobre ele e põe mãos à obra, limpando o olho fechado, fazendo pequenos círculos ininterruptos pela linha dos cabelos. Sua respiração é entrecortada e a mão livre repousa sobre o ombro do irmão. Kat pragueja entre dentes, às vezes chora e afaga a nuca do irmão, sussurrando Calma, quietinho, calma, como se fosse ele quem estivesse chorando, o que não é o caso. É como se estivesse flutuando e Kat o prendesse à terra; ele gostaria de jogar os braços em torno da irmã, enterrar o rosto em seu avental e ali descansar, ouvindo as batidas do coração dela. Mas não quer sujá-la, espalhar sangue por toda a roupa. Morgan Williams chega, usando seu elegante casaco de passeio. Ele tem uma aparência galesa e combativa; fica claro que já ouviu o que aconteceu. Vai para junto de Kat, olhos baixos, temporariamente sem palavras, até que diz: Está vendo? Ele fecha a mão e levanta o punho três vezes no ar. Isso aqui!, exclama. Isso é o que ele levaria. Walter. Isso é o que ele levaria. De mim. Chegue para trás, Kat adverte. Você não vai querer pedacinhos de Thomas no seu paletó de Londres.
Não mesmo; Morgan recua. Eu não me daria ao trabalho, mas olhe para você, rapaz! Numa luta justa, você poderia aleijar aquele animal. Nunca é uma luta justa, explica Kat. Ele chega pelas costas, não é, Thomas? Com algo na mão. Desta vez, parece que foi uma garrafa de vidro, diz Morgan Williams. Foi uma garrafa? Ele balança a cabeça, negando. O nariz sangra novamente. Não faça isso, irmão, diz Kat, com sangue cobrindo sua mão. Ela limpa os coágulos na própria roupa. Que sujeira no avental dela; no fim das contas, ele poderia, sim, ter descansado a cabeça ali. Você não chegou a ver, não é?, diz Morgan. O que exactamente ele usou? Mas que grande fiasco você é para a bancada dos magistrados... Essa é a vantagem de um ataque pelas costas!, comenta Kat. Escute, Morgan, você quer que eu diga como é meu pai? Ele pega qualquer coisa que tenha à mão. E, claro, às vezes é uma garrafa. Eu via quando ele fazia isso com a minha mãe. Até nossa pequena Bet, já vi meu pai acertando a cabeça dela. E quando não o via começar uma agressão, o que é pior, significava que quem estava prestes a ser derrubada era eu. Não sei que família é essa em que me meti quando me casei..., pondera Morgan Williams. O que na verdade é algo que Morgan diz apenas da boca para fora; tem homens que cospem o tempo todo, tem mulheres que vivem com dor de cabeça: Morgan faz essas indagações. O garoto não o escuta. Ele pensa: se meu pai fazia isso com minha mãe, morta há tanto tempo, quem sabe se não foi ele quem a matou? Não, Walter certamente seria preso por isso; Putney é uma terra sem lei, mas aqui não se escapa incólume de um assassinato. Kat é a mãe que ele tem: é quem chora por ele, quem lhe afaga a nuca. Ele fecha os olhos, para igualar o olho esquerdo ao direito; e tenta abrir os dois.
Kat, eu ainda tenho um olho aqui em baixo, não tenho? Porque não vejo nada com ele. Sim, sim, sim, ela responde, enquanto Morgan Williams continua sua investigação dos factos; ele conclui que foi usado um objecto duro, moderadamente pesado, cortante, mas talvez não uma garrafa quebrada, senão Thomas teria visto as bordas lascadas antes que Walter rasgasse sua sobrancelha e tentasse cegá-lo. O menino ouve Morgan elaborando sua teoria e gostaria de explicar sobre a bota, o nó, o nó no fio de cadarço, mas o esforço de mover a boca parece desproporcional à recompensa. No geral, ele concorda com a conclusão de Morgan; ele tenta dar de ombros, mas dói demais, e ele se sente tão esmagado e torcido que teme ter quebrado o pescoço. De todo modo, pergunta Kat, o que você estava fazendo, Tom, para irritá-lo? Geralmente, quando não tem motivo, Walter só começa depois que anoitece. Sim, concorda Morgan Williams, houve um motivo? Ontem. Eu estive brigando. Você brigou ontem? Em nome de Deus, com quem você andou brigando? Não sei. O nome e o motivo fugiram de sua cabeça; mas é como se, ao sair, tivessem levado consigo uma lasca de osso do crânio. Ele toca o couro cabeludo, cuidadosamente. Garrafa? É possível». In Hilary Mantel, Wolf Hall, 2009, Editora Record, tradução de Heloisa Mourão, 2011, ISBN 978-850-109-768-2.

Cortesia ERecord/JDACT

terça-feira, 9 de junho de 2015

Wolf Hall. Hilary Mantel. «Ele tem uma sensação de movimento, como se o chão sujo se convertesse no Tamisa. O solo cede e oscila sob seu corpo; ele exala o ar, a última grande expiração…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Três são as espécies de cenas: uma se chama trágica, a segunda, cómica, e a terceira, satírica. Os cenários são diferentes e diversos entre si em esquema. Cenas trágicas dispõem-se com colunas, frontispícios, estátuas e outros artefactos régios; cenas cómicas apresentam-se em ambientes privados, com sacadas e vistas para diversas janelas, à maneira das habitações populares; cenas satíricas são decoradas com bosques, grutas, montanhas e outras locações campestres ao estilo de paisagem». In Vitrúvio, De Architectura, sobre o teatro, 27 a.C.

Cruzando o Mar Estreito. Putney, 1500
«Agora levante-se daí. Rendido, zonzo, ele jaz em silêncio; estatelado nas pedras do pátio. Girando a cabeça para o lado, os seus olhos buscam o portão, como se alguém fosse chegar para ajudá-lo. Bastaria um só golpe, bem dado, para matá-lo. O sangue do corte na cabeça, resultado do primeiro ataque de seu pai, escorre pelo rosto. Para piorar, está cego do olho esquerdo; mas, se forçar a vista, consegue ver as costuras desfeitas da bota do pai com o canto do olho direito. A grossa linha desprendeu-se totalmente do couro e um nó duro atingiu a sua sobrancelha, abrindo mais um corte. Agora levante-se daí! Walter urra para o filho no chão, escolhendo onde chutá-lo da próxima vez. O rapaz ergue a cabeça 4 ou 5 centímetros do chão e rasteja para a frente, tentando avançar sem deixar expostas as mãos, pois Walter gosta de as pontapear. O que é isso, uma enguia, é o que tu és?, pergunta o pai, que recua, toma impulso e acerta mais um pontapé. Ele sente o seu último fôlego ser arrancado; pensa ser este, talvez, o seu último suspiro. A testa volta para o chão; ele espera, deitado, que o pai se lance sobre seu corpo. A cadelinha Bella ladra, trancada num quarto. Vou sentir saudades da minha cadelinha, pensa o garoto. O pátio cheira a cerveja e a sangue. Alguém grita, lá pelas margens do rio. Não sente dor alguma, ou talvez na verdade tudo esteja doendo, tornando impossível concentrar-se numa dor específica. Mas sente frio, sente-o num só lugar: somente nos ossos do rosto, que estão colados às pedras. Olhe só isso aqui, olha só!, urra Walter. Ele pula num pé só, como se estivesse dançando. Vê o que eu fiz. Arrebentei a minha bota chutando a tua cara. Centímetro a centímetro, adiante. Não importa se Walter o chama de enguia ou verme ou cobra. Cabeça baixa, não o provoque. O garoto tem o nariz entupido de sangue e precisa abrir a boca para respirar. A distracção momentânea do pai com a bota boa que acaba de perder dá ao menino a chance de vomitar. Muito bem, grita Walter. Podes cuspir à vontade por todo o lado. Pode cuspir no meu pátio limpo. Vamos, garoto, de pé. Vamos ver se tu consegues levantar-te. Pelo sangue do maldito Cristo, levante-se daí agora!
O garoto pensa: maldito Cristo? O que ele quer dizer com isso? Ele vira a cabeça de lado, os cabelos chafurdando no próprio vómito; a cadela ladra, Walter berra e os sinos badalam do outro lado do rio. Ele tem uma sensação de movimento, como se o chão sujo se convertesse no Tamisa. O solo cede e oscila sob seu corpo; ele exala o ar, a última grande expiração. Desta vez tu conseguiste,  uma voz diz a Walter. Mas o garoto cerra os ouvidos, ou é Deus quem os cerra. Ele é arrastado pela corrente, uma grande maré negra. Já é quase meio-dia quando recobra a consciência, e ele ampara-se na parede da entrada da taberna Pégaso, o Cavalo Alado. A sua irmã Kat vem da cozinha com uma bandeja de tortas quentes nas mãos. Quando ela o vê, quase  derruba a comida toda. Escancara a boca de espanto. Olhe só para ti! Kat, não grites, isso dói. Ela berra para o marido: Morgan Williams! Kat dá meia-volta, os olhos em pânico, o rosto avermelhado pelo calor do forno. Levem essa bandeja, pelo corpo de Cristo, onde estão todos? Ele treme da cabeça aos pés, exactamente como Bella tremia quando caiu do barco naquela vez. Uma menina aparece de súbito. O patrão foi para a cidade. Eu sei disso, idiota. Ver o irmão naquele estado apagou a lembrança da mente de Kat. Ela enfia a bandeja nas mãos da menina. Se deixares isso ao alcance dos gatos, vais levar bofetadas nas orelhas até ver estrelas. Tendo se livrado da bandeja, ela une as mãos vazias num momento de ardente oração. Brigando de novo, ou foi o pai? Sim, ele indica, sacudindo a cabeça vigorosamente, o que faz caírem coágulos de sangue do nariz; sim, e aponta para si mesmo, como se dissesse: Walter andou por aqui. Kat pede uma bacia, pede água, pede uma bacia com água, um pano, pede que o diabo se levante agora mesmo e leve embora o seu lacaio Walter. Senta-te, antes que desmaies. Ele tenta explicar que acabou de se levantar. Estava no pátio. Pode ter acontecido há uma hora, ou mesmo há um dia inteiro, e, pelo que ele sabe, hoje talvez seja amanhã; mas não, pois se tivesse ficado no chão um dia inteiro, certamente Walter teria aparecido para matá-lo por estar no meio do caminho, ou então as feridas teriam coagulado um pouco e ele agora estaria sentindo dor por todo o corpo e quase não conseguiria se mexer; ele sabe, por sua vasta experiência com os punhos e botas de Walter, que o segundo dia pode ser pior que o primeiro». In Hilary Mantel, Wolf Hall, 2009, Editora Record, tradução de Heloisa Mourão, 2011, ISBN 978-850-109-768-2.

Cortesia ERecord/JDACT

domingo, 7 de junho de 2015

O Livro Negro. Hilary Mantel. «A gerir a política da corte, Cromwell tem de encontrar uma solução que satisfaça Henry VIII, salvaguarde e assegure a sua própria carreira. Mas nem ele nem o próprio rei sairão ilesos…»

jdact

Londres e Kimbolton. Outono de 1535
«(…) Estão a voltar para Londres vagarosamente, de modo que na altura em que o rei chegue à cidade esta esteja livre de qualquer suspeita de peste. Em frias capelas votivas, sob o olhar de virgens estrábicas, o rei reza sozinho. Não gosta de rezar sozinho. Quer saber o que está a pedir; o seu velho mestre, cardeal Wolsey, teria sabido. As suas relações com a rainha, enquanto o verão avança e se aproxima do seu termo oficial, são cautelosas, incertas e carregadas de desconfiança. Anne Boleyn tem agora trinta e quatro anos de idade, uma mulher elegante, com um refinamento que faz parecer redundante a simples beleza. Em tempos sinuosa, tornou-se angular. Conserva o seu sombrio resplandor, agora um pouco gasto, a lascar nalguns pontos. Usa com belo efeito os seus olhos escuros proeminentes, desta maneira: olha de relance o rosto de um homem, depois o seu olhar desvia-se, como despreocupado, indiferente. Há uma pausa: como quem diz, um respiro. Depois lentamente, como compelida, volta de novo o olhar para ele. Os seus olhos repousam no rosto dele. Examina esse homem. Examina-o como se fosse o único homem do mundo. Parece que o está a ver pela primeira vez e a considerar toda a espécie de usos que lhe pode dar, toda a espécie de possibilidades em que ele próprio nem sequer pensou. Para a sua vítima, o momento parece durar uma eternidade, durante a qual lhe correm arrepios pela espinha acima. Embora, na verdade, o truque seja rápido, barato, eficaz e repetível, parece ao pobre homem que se distingue agora entre todos os homens. Sorri satisfeito. Enfeita-se. Fica um pouco mais alto. Fica um pouco mais tolo. Ele já viu Anne aplicar o seu truque a lordes e vilões, ao próprio rei. Vemos como o homem um pouco boquiaberto se torna criatura sua. Funciona quase sempre; nunca funcionou com ele. Ele não é indiferente às mulheres, sabe Deus, apenas indiferente a Anne Boleyn. Isso irrita-a; ele devia ter feito de conta. Ele fê-la rainha, ela fê-lo ministro; mas agora estão desconfortáveis, ambos vigilantes, a observarem-se um ao outro à espera de um deslize que traia um sentimento verdadeiro e assim dê vantagem a um ou ao outro: como se apenas a dissimulação os mantenha em segurança. Mas Anne não tem jeito para esconder os seus sentimentos; é a querida mercurial do rei, escorregando e deslizando da cólera ao riso. Houve alturas este verão em que ela lhe sorria secretamente por trás das costas do rei, ou lhe fazia caretas para o prevenir de que Henry estava destemperado. Noutras alturas ignorava-o, virava-lhe as costas, os seus olhos negros a varrer a sala e a descansar alhures.
Para compreender isto, se é susceptível de compreensão, temos de voltar atrás à última primavera, quando Thomas More ainda estava vivo. Anne tinha-o convocado para falar de diplomacia: o tema era um contrato de casamento, um príncipe francês para a sua filha criança Elizabeth. Mas os franceses revelavam-se ariscos na negociação. A verdade é que, mesmo agora, não concedem totalmente que Anne seja rainha, não estão convencidos de que a sua filha seja legítima. Anne sabe o que está por trás da relutância deles e de alguma maneira é culpa dele, de Thomas Cromwell. Tinha-o acusado de a estar a sabotar abertamente. Ele não gostava dos franceses e não queria a aliança, pretendia ela. Não evitara ele uma oportunidade de cruzar o mar para conversações cara a cara? Os franceses estavam totalmente dispostos a negociar, diz ela. E estavam à vossa espera, senhor secretário. E dissestes que estáveis doente e teve de ir o senhor meu irmão. E fracassou, tinha suspirado ele. Muito infelizmente. Conheço-vos, disse Anne. Nunca estais doente, pois não, a menos que seja vosso desejo? E além disso apercebo-me de como as coisas estão em relação a vós. Pensais que quando estais na cidade e não na corte não estais debaixo do nosso olho. Mas eu sei que sois amistoso de mais com o homem do imperador. Estou ciente de que Chapuys é vosso vizinho. Mas é isso razão para que os vossos criados estejam sempre a entrar e a sair da casa um do outro?
Anne vestia, nesse dia, de cor-de-rosa-claro e cinzento-pomba. As cores deviam ter tido um fresco encanto juvenil mas não conseguiu pensar senão em entranhas estendidas, miúdos e tripas, intestinos de um rosa acinzentado a sair em rolos de um corpo vivo; tinha um segundo carregamento de frades recalcitrantes a despachar para Tyburn, para serem abertos e esventrados pelo carrasco. Eram traidores e mereciam a morte, mas é uma morte que excede a maioria em crueldade. As pérolas à volta do pescoço dela pareciam-lhe pequenas contas de gordura e enquanto ela argumentava ia levando lá a mão e puxando por elas; ele mantinha os olhos nas pontas dos seus dedos, as unhas faiscando como pequenos punhais. No entanto, como ele diz a Chapuys, enquanto estiver no favor do rei, duvido que a rainha me possa fazer algum mal. Tem os seus despeitos, tem as suas raivinhas; é volátil e Henry sabe-o. Foi o que fascinou o rei, encontrar alguém tão diferente daquelas loiras suaves, amáveis, que vagam através da vida dos homens e lá não deixam qualquer marca. Mas agora quando Anne aparece ele parece incomodado. Vê-se o seu olhar tornar-se distante quando ela começa um dos seus arrazoados e se ele não fosse tão cortês enterraria o chapéu por cima das orelhas». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Ou mesmo um pai, um pai de um género ideal: como estás? Não estás a trabalhar de mais? Jantaste? O que é que sonhaste ontem? O perigo de um caminho destes é o de que um rei que se senta em mesas vulgares, numa cadeira vulgar»

jdact

Londres e Kimbolton. Outono de 1535
«(…) Os italianos pensam que não. Dizem que a estrada entre Inglaterra e o Inferno está gasta de todos os pés que a pisam e é toda a descer. Todos os dias pondera o mistério dos seus compatriotas. Viu assassinos, sim; mas viu um soldado faminto dar um pão a uma mulher, uma mulher que não lhe é nada, e voltar-lhe as costas com um encolher de ombros. O melhor é não pôr as pessoas à prova, não as forçar à desesperação. Fazê-las prosperar; tendo o supérfluo, serão generosos. As barrigas cheias criam brandos costumes. A beliscadura da fome, monstros. Quando, alguns dias depois do seu encontro com Stephen Gardiner, a corte itinerante alcançara Winchester, tinham sido sagrados novos bispos na catedral. Os meus bispos" chamava-lhes Anne: evangelistas, reformadores, homens que viam em Anne uma oportunidade. Quem poderia ter pensado que Hugh Latimer seria bispo? Seria mais de prever que acabasse queimado, encarquilhado em Smithfield com o evangelho na boca. Mas também quem poderia ter pensado que Thomas Cromwell havia de ser alguém? Quando Wolsey caiu, podia ter-se pensado que sendo servidor de Wolsey estava arruinado. Quando a mulher e as filhas morreram podia ter-se pensado que a sua perda o mataria. Mas Henry voltou-se para ele; Henry ajuramentou-o; Henry pôs o seu tempo à disposição dele e disse, vinde, senhor Cromwell, dai-me o braço: através dos pátios e das salas de trono, a senda da sua vida está agora plana e desobstruída. Em novo teve sempre de abrir caminho com os ombros através das multidões, furando até à frente para ver o espectáculo. Mas agora abrem-se as multidões quando caminha através de Westminster ou dos recintos de qualquer dos palácios do Rei. Desde que foi jurado conselheiro, as bancas, os caixotes e os cães soltos são varridos do seu caminho. As mulheres silenciam o seu murmúrio e puxam as mangas para baixo e ajustam os anéis nos dedos, desde que foi nomeado chanceler-mor. Os detritos das cozinhas, a tralha dos escrivães e os bancos da gente baixa são atirados para os cantos e para fora da vista, agora que é o secretário-mor do Rei. E ninguém, salvo Stephen Gardiner, corrige o seu grego; não agora, que é reitor da Universidade de Cambridge.
O verão de Henry correu, em geral, muito bem: através do Berkshire, do Wiltshire e de Somerset mostrou-se ao povo nas estradas e (quando não chovia a cântaros) o povo juntou-se ao longo das estradas e aclamou-o. Porque não haviam de o fazer? É impossível ver Henry sem se ficar deslumbrado. Cada vez que o vemos impressiona-nos de novo, como se fosse a primeira vez: um homem maciço, com um pescoço de touro, com o cabelo a recuar, a cara a engordar, olhos azuis e uma boca pequena que é quase feminina. Mede quase um metro e noventa de altura e cada centímetro exprime poder. O seu porte, a sua pessoa são magnificentes; as suas fúrias metem medo, os seus votos e pragas, a suas lágrimas de lava. Mas há momentos em que o seu grande corpo se espreguiça e relaxa, o seu semblante se desanuvia; deixa-se cair a nosso lado num banco e fala connosco como se fosse nosso irmão. Como poderia falar um nosso irmão, se o tivéssemos. Ou mesmo um pai, um pai de um género ideal: como estás? Não estás a trabalhar de mais? Jantaste? O que é que sonhaste ontem? O perigo de um caminho destes é o de que um rei que se senta em mesas vulgares, numa cadeira vulgar, pode ser tomado por um homem vulgar. Mas Henry não é vulgar. Que importa se o seu cabelo está a recuar e a sua barriga a avançar? O Imperador Carlos, quando se olha ao espelho, daria uma província para ver as feições do Tudor em lugar do seu próprio semblante torto, o nariz de gancho quase a tocar o queixo. O rei François, um pau de vassoura, empenharia o seu delfim para ter uns ombros como os do rei de Inglaterra. Quaisquer qualidades que tenham lhas devolve Henry, em dobro. Se são cultos, ele é duas vezes mais culto. Se misericordiosos, ele é o próprio exemplo da misericórdia. Se galantes, ele é o padrão da cavalaria andante, do maior livro de cavalaria que se possa imaginar. Seja como for: em cervejarias de aldeia por toda a Inglaterra culpa-se o rei e dona Anne Boleyn pelo tempo: a concubina, a grande meretriz. Se o rei aceitasse de volta a sua mulher legítima, Catarina, a chuva pararia. E, na verdade, quem duvida de que bastaria para que tudo fosse diferente e melhor que a Inglaterra fosse governada pelos idiotas de aldeia e os seus amigos ébriosIn Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Portanto já vedes, diz Jane aos irmãos, nós, senhoras, não passamos o nosso tempo em calúnias e escândalos vãos. Embora Deus saiba que temos mexericos que chegavam para uma cidade inteira de mulheres. Falamos sobre quem está apaixonado pela rainha»

Cortesia de wikipedia e jdact

Falcões. Wiltshire, Setembro de 1535
«(…) Ele olha para Jane Seymour, como o pai dela indica. Conhece-a bem da corte, dado que ela era dama de companhia de Catarina, a anterior rainha, e de Anne, a que é rainha agora; é uma rapariga recatada com uma palidez de prata, o hábito do silêncio e uma maneira peculiar de olhar para os homens como se representassem uma surpresa desagradável. Está a usar pérolas e um vestido de brocado branco bordado com raminhos de cravos muito tesos. Ele reconhece uma despesa considerável sem contar com as pérolas, ninguém se apresenta assim por muito menos de trinta libras. Não admira que se mexa com uma preocupação cautelosa, como uma criança a quem foi recomendado que não entorne nada em cima de si. - Jane, agora que te encontramos em casa com a tua gente, estais menos tímida?, pergunta o rei, tomando-lhe a mão pequenina na sua ampla mão. - Na corte nunca lhe ouvimos uma palavra. Jane levanta os olhos para ele, corando do pescoço à raiz dos cabelos. – Alguma vez viram um rubor assim?, pergunta Henry. - Nunca, só numa miúda de doze anos. - Não posso pretender ter doze anos - diz Jane.
À ceia, o rei senta-se ao lado de Lady Margery, a anfitriã. No seu tempo, foi uma beldade e, pela requintada atenção do rei, pensar-se-ia que ainda o é agora; teve dez filhos e seis deles ainda são vivos e três estão nesta sala. Edward Seymour, o herdeiro, tem uma cabeça comprida, uma expressão séria, um fero perfil bem definido: um belo homem. Tem instrução, embora não seja um estudioso, aplica-se com sabedoria em qualquer cargo que lhe seja atribuído; esteve na guerra e, enquanto espera por tornar a combater, desempenha bem o seu papel na caça e nos torneios. O cardeal, no seu tempo, marcara-o como acima do normal na linhagem dos Seymour; e ele próprio, Thomas Cromwell, sondou-o e achou-o um homem do rei em todos os aspectos. Tom Seymour, o irmão mais novo de Edward, é ruidoso e turbulento e de mais interesse para as mulheres; quando entra numa sala há risinhos nas virgens e as jovens matronas baixam as cabeças e examinam-no por debaixo das pestanas. O velho Sir John é um homem com um espírito de família duvidoso. Dois, três anos antes, só se falava na corte de como tinha montado a mulher do filho, não uma vez no calor da paixão mas repetidamente, desde que era noiva. A rainha e as suas confidentes tinham espalhado a história pela corte. Calculámos que umas 120 vezes, tinha dito Anne num frouxo de riso. Bem, quem calculou foi Thomas Cromwell e ele tem boa cabeça para os números. Supomos que se abstiveram um domingo em nome do pudor e abrandaram na Páscoa.
A mulher traidora deu à luz dois rapazes e, quando a conduta dela veio a lume, Edward declarou que não os aceitaria como seus herdeiros visto não poder ter a certeza se eram seus filhos ou seus meios-irmãos. A adúltera foi fechada num convento e depressa lhe fez o favor de morrer; tem agora uma nova mulher, que cultiva uns modos altaneiros e traz no bolso um estilete para o caso de o sogro se chegar perto de mais. Mas está perdoado, está perdoado. A carne é frágil. Esta visita real sela o perdão do velho. John Seymour possui 525 hectares, incluindo o seu parque de veados, a maior parte do resto para ovelhas e valendo dois xelins por hectare por ano, proporcionando-lhe um rendimento de uns vinte e cinco por cento apenas do que a mesma área lhe daria sob o arado. As ovelhas são animais de focinho escuro cruzados com casta galesa da montanha, má carne mas lã bastante boa. Quando, à chegada, o rei (na sua veia bucólica) pergunta: - Cromwell, quanto pesará aquele animal? - Onze quilos, Senhor - responde ele, sem o sopesar. - O senhor Cromwell já foi tosquiador. Não deve estar enganado, comenta Francis Weston, um jovem cortesão, com ar trocista.
- Aqui em Wolf Hall somos todos grandes caçadores, gaba-se Sir John, incluindo as minhas filhas, Jane parece-vos tímida mas é pô-la em cima de um cavalo e garanto-vos, senhores, que é a deusa Diana em pessoa. Nunca incomodei as minhas raparigas com aulas, sabem. Aqui Sir James ensinou-lhes tudo o que precisavam. O padre ao fundo da mesa assente, satisfeito: um velho parvo com cabelos brancos, olhos turvos. Não é incomum que as filhas de uma família da cidade aprendam as suas letras e um pouco mais além disso, diz Edward Seymour. Podíeis tê-las querido num escritório de contabilidade. Já se ouviu falar. Ajudava-as a arranjar bons maridos, uma família de mercadores apreciaria essa preparação. - Imaginem as filhas do senhor Cromwell, diz Weston. – Eu nem me atrevo. Duvido que um escritório de contabilidade as pudesse conter. É de calcular que teriam uma mão certa para o machado. Bastaria deitar-lhes um olhar para qualquer homem sentir o chão fugir-lhe debaixo dos pés. E não quero dizer com isto que fossem fulminados pelo amor.
Portanto já vedes, diz Jane aos irmãos, nós, senhoras, não passamos o nosso tempo em calúnias e escândalos vãos. Embora Deus saiba que temos mexericos que chegavam para uma cidade inteira de mulheres. - Ah tendes?, diz ele. Falamos sobre quem está apaixonado pela rainha. Quem lhe escreve versos. - Baixa os olhos. - Quero dizer, quem está apaixonado por todas nós. Este ou aquele fidalgo. Conhecemos todos os nossos pretendentes e fazemos o seu inventário dos pés à cabeça, corariam se soubessem. Dizemos que terras têm e quanto recebem por ano e depois decidimos se os deixaremos escrever-nos um soneto. Se pensamos que não nos podem manter em grande estilo desdenharemos das suas rimas. É cruel, já vos digo. Ele diz, com certo desconforto, que não há mal em escrever versos a senhoras, mesmo às casadas, na corte é habitual». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Livro Negro. Hilary Mantel. «… o rei diz-lhes, aqui o Cromwell é o vosso homem; Cromwell, sim, ele viu como se fazem as coisas em Itália e o que é bom para eles também será bom para o Wiltshire»

Cortesia de wikipedia e jdact

Falcões. Wiltshire, Setembro de 1535
«(…) Lá em Londres, o embaixador do Imperador, Eustache Chapuys, todos os dias espera a notícia de que as gentes de Inglaterra se levantaram contra o seu rei cruel e ímpio. É uma notícia que anseia fervorosamente ouvir e não olharia a esforços e dinheiro para a tornar realidade. O seu amo, o imperador Carlos, é senhor dos Países Baixos bem como de Espanha e das suas terras de além-mar; Carlos é rico e, de tempos a tempos, enfurece-o que Henry Tudor se tenha atrevido a pôr de lado a tia dele, Catarina, para casar com uma mulher a que as pessoas nas ruas chamam rameira de olhos arregalados. Em mensagens prementes, Chapuys exorta o seu amo a invadir Inglaterra, a juntar-se aos rebeldes do reino, pretendentes e descontentes, e a conquistar esta ilha ímpia onde o rei decretou o seu próprio divórcio por lei do Parlamento e se proclamou a si mesmo Deus. O papa não leva isto muito a bem, que se riam dele em Inglaterra e o considerem mero bispo de Roma, que os seus rendimentos lhe tenham sido cortados e canalizados para os cofres de Henry. Paira sobre Henry a ameaça de uma bula de excomunhão, já preparada mas ainda não promulgada, que o torna um pária entre os reis cristãos da Europa: que são convidados, mais, encorajados, a atravessar o Mar Estreito ou a fronteira da Escócia e a apropriarem-se de tudo o que lhe pertença. Talvez o Imperador venha. Talvez o rei de França venha. Talvez venham juntos. Seria agradável dizer que estamos prontos para eles, mas a realidade é diferente.
No caso de uma incursão armada podemos ter de tirar do chão os ossos dos gigantes para lhes dar com eles nas cabeças, posto que estamos curtos em munições, curtos em pólvora, curtos em aço. Isto não é culpa de Thomas Cromwell; como diz Chapuys, com um esgar, o reino de Henry estaria em melhor ordem se tivesse sido posto a cargo de Cromwell cinco anos antes. Quem quiser defender Inglaterra, e ele decerto quereria, pois ele próprio sairia a terreiro, de espada na mão, tem de saber o que Inglaterra é. No calor de Agosto, esteve de cabeça descoberta à beira dos túmulos esculpidos dos antepassados, homens couraçados dos pés à cabeça em malha de metal, as mãos enluvadas juntas e rigidamente pousadas nas túnicas, os pés de malha descansando em leões, grifos, galgos de pedra: homens de pedra, homens de aço, as suas doces esposas encastradas a seu lado como caracóis nas suas conchas. Pensamos que o tempo não pode tocar os mortos, mas toca os seus monumentos, deixando-lhes os narizes e os dedos cortados pelos acidentes e a atrição do tempo. Um minúsculo pé desmembrado (como se fosse de um querubim ajoelhado) emerge de um pedaço de tapeçaria; a ponta de um polegar deceptado jaz num coxim esculpido. Para o ano temos de reparar os nossos antepassados, dizem os senhores dos condados ocidentais: mas os seus escudos e apoiantes, as suas realizações e feitos têm sempre a tinta fresca e em conversa embelezam os feitos dos seus avós, quem eram e o que tinham: as armas que o meu avô empunhou em Agincourt, a taça que pela sua própria mão John de Gaunt deu ao meu avô. Se nas passadas guerras de York e Lancaster os seus pais e avós escolheram o lado errado, não dizem uma palavra. Uma geração depois, os erros devem ser perdoados, as reputações refeitas; de outro modo Inglaterra não pode avançar, recairá sempre numa espiral que a levará para trás até ao tenebroso passado. Ele não tem antepassados, é claro: não daquela espécie de que nos gabamos. Houve em tempos uma família nobre de nome Cromwell e quando ele ascendeu no serviço do rei os heraldos instaram-no a adoptar a sua cota de armas a bem das aparências; mas não lhes sou nada, tinha ele dito cortesmente, e não quero os feitos deles. Fugira dos punhos do pai quando não tinha mais de quinze anos; atravessou o Canal, tomou serviço no exército do rei de França.
Tinha lutado desde que aprendera a andar; e se havemos de lutar, porque não ser pagos por isso? Há mesteres mais lucrativos do que o de soldado e descobriu quais eram. De modo que decidiu não se apressar a voltar para casa. E agora, quando os seus anfitriões titulados querem conselhos sobre a colocação de uma fonte, ou de um grupo das Três Graças a dançarem, o rei diz-lhes, aqui o Cromwell é o vosso homem; Cromwell, sim, ele viu como se fazem as coisas em Itália e o que é bom para eles também será bom para o Wiltshire. Às vezes, o rei deixa um lugar acompanhado só do pessoal de montaria, a rainha com as suas damas e músicos ficam para trás, enquanto o rei e os seus poucos favoritos atravessam a região caçando com afinco. E é assim como chegam a Wolf Hall, onde John Seymour está à espera para lhes dar as boas-vindas, rodeado da sua florescente família.
- Não sei, Cromwell, diz o velho John Seymour. Toma-o pelo braço, cordial. - Todos esses falcões com nomes de mulheres mortas... não vos desalentam? Nunca estou desalentado, Sir John. O mundo é bom de mais comigo. - Devíeis casar outra vez e ter outra família. Talvez encontreis uma noiva enquanto estiverdes connosco. Nas florestas de Savernake há muitas mulheres novas e frescas. - Ainda tenho Gregory, diz, olhando por cima do ombro à procura do seu filho; está sempre um tanto ansioso a respeito de Gregory. - Ah - diz Seymour, está muito bem ter rapazes, mas um homem precisa também de filhas, as filhas são um consolo. Olhai para Jane. Uma rapariga tão boa». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

domingo, 12 de janeiro de 2014

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Todos nós, homens e mulheres de Inglaterra, temos ainda nas nossas veias algumas gotas de sangue de gigante. Nesses tempos antigos, numa terra não profanada pelas ovelhas ou pelo arado, caçavam o javali e o alce. A floresta estendia-se à frente deles por muitos dias»

Cortesia de wikipedia e jdact

Falcões. Wiltshire, Setembro de 1535
«(…) Na casa que tem na cidade, em Austin Friars, o seu retrato sobressai na parede; está envolto em lã e peles, a mão enclavinhada em volta de um documento como se o estivesse a estrangular. Hans empurrara uma mesa para trás para o encurralar e dissera Thomas, não podes rir; e tinham prosseguido nessa base, Hans cantarolando enquanto trabalhava e ele de olhar ferozmente fixo na média distância. Quando viu o retrato acabado, exclamou: Deus me valha, pareço um assassino; e o seu filho Gregory disse não sabíeis? Estão a ser feitas cópias para os amigos e para os seus admiradores entre os evangélicos da Alemanha. Não quer separar-se do original, agora não, que já me habituei a ele, costuma dizer, e assim, quando entra em sua casa, encontra versões de si próprio em vários estádios de evolução: um esboço provisório, parcialmente passado a tinta. Com Cromwell, por onde começar? Há quem comece pelos seus pequenos olhos argutos, há quem comece pelo chapéu. Há quem eluda a questão e pinte o seu selo e tesoura, outros escolhem o anel de turquesa, oferecido pelo cardeal. Por onde quer que comecem, o impacto final é o mesmo: se tivesse qualquer agravo contra nós, não gostaríamos de o encontrar na escuridão da Lua. Walter, o pai dele, costumava dizer: O meu rapaz Thomas, ele é assim, olhai mal para ele e vaza-vos o olho. Passem-lhe uma rasteira e corta-vos a perna. Mas se não se atravessarem no seu caminho é um verdadeiro cavalheiro. E paga um copo a qualquer pessoa.
Hans retratou o rei, benévolo nas suas sedas de verão, sentado com os seus anfitriões depois de cear, as portadas abertas ao trinado tardio dos pássaros, as primeiras velas a entrarem com as frutas cristalizadas. Em cada etapa da sua progressão, Henry detém-se na casa principal, com a rainha Anne; a sua comitiva pernoita com os fidalgos locais. É costume os anfitriões do rei, pelo menos quando o rei está de visita, receberem esses anfitriões periféricos em jeito de agradecimento, o que sobrecarrega os arranjos domésticos. Ele contou os carros de provisões que entraram; viu as cozinhas postas em alvoroço e ele próprio foi lá abaixo àquela hora verde-cinza antes do amanhecer, quando os fornos de tijolo são esfregados para estarem a postos para a primeira fornada de pães, enquanto as carcaças dos animais são postas no espeto, as panelas colocadas nos tripés, as aves depenadas e desmanchadas. O seu tio foi cozinheiro de um arcebispo, e, em criança, ele frequentava as cozinhas do palácio de Lambeth; conhece a matéria de trás para a frente e nada do que diz respeito ao conforto do rei deve ser deixado ao acaso.
São dias perfeitos. A luz clara e desanuviada destaca cada um dos bagos que cintilam nas sebes. Cada folha de árvore, com o sol por trás, pende como um fruto doirado. Viajando para oeste no pino do verão embrenhámo-nos em cavalgadas silvestres e subimos à crista das colinas, emergindo naquelas terras onde, de condado para condado, se pode sentir a presença ondulante do oceano. Nesta parte de Inglaterra, os nossos antepassados, os gigantes, deixaram as suas fortificações, os seus túmulos e os seus monumentos de pedra. Todos nós, homens e mulheres de Inglaterra, temos ainda nas nossas veias algumas gotas de sangue de gigante. Nesses tempos antigos, numa terra não profanada pelas ovelhas ou pelo arado, caçavam o javali e o alce. A floresta estendia-se à frente deles por muitos dias. Às vezes, são desenterradas armas antigas: machados que empunhados com as duas mãos podiam cortar ao meio cavalo e cavaleiro. Pense-se nos grandes membros desses homens mortos, que estremecem debaixo de terra. A guerra era a sua natureza e a guerra está sempre desejosa de voltar outra vez. Não é só no passado que se pensa enquanto se cavalga através desses campos. É no que está latente na terra, o que está a nascer; são os dias que virão, as guerras por travar, os ferimentos e mortes que, como sementes, o solo de Inglaterra mantém quentes. Pensaríamos, ao ver Henry rir, ao ver Henry rezar, ao vê-lo conduzir os seus homens pelos trilhos da floresta, que está tão seguro no trono em que se senta como no cavalo que monta. À noite, jaz acordado; observa as traves do tecto trabalhado; conta os seus dias. Diz Cromwell, Cromwell, que hei-de fazer?" Cromwell, salva-me do Imperador. Cromwell, salva-me do Papa. Chama depois o seu arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer, e quer saber: A minha alma está condenada?» In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Livro Negro. Hilary Mantel. «Há quem diga que foi tudo graças ao falecido cardeal Wolsey, seu patrono; ‘Cromwell’ gozava da sua confiança e fê-lo ganhar dinheiro e conhecia os seus segredos. Outros dizem que cultiva a companhia de feiticeiros»

Cortesia de wikipedia e jdact

Falcões. Wiltshire, Setembro de 1535
«(…) O Rei deixara Whitehall na semana da morte de Thomas More, uma lúgubre e chuvosa semana de Julho, as pegadas dos cascos da comitiva real marcadas bem fundo na lama do caminho que percorriam na travessia para Windsor. Desde então, a progressão incluiu um bom troço dos condados ocidentais; os ajudantes de Cromwell, tendo concluído os assuntos da Coroa a tratar em Londres, encontraram-se com o séquito real em meados de Agosto. O rei e os seus companheiros dormem o sono dos justos em casas novas de tijolo rosado, em casas velhas cujas fortificações ruíram com o tempo ou foram demolidas e em castelos de fantasia que parecem brinquedos, castelos nunca susceptíveis de fortificação, com paredes que uma bala de canhão meteria dentro como se fossem de papel. A Inglaterra vem desfrutando cinquenta anos de paz. É este o pacto dos Tudor; a paz é o que eles oferecem. Todas as famílias se esforçam por apresentar ao Rei as suas melhores galas e, nestas últimas semanas, temos assistido a algumas operações de reboco acometidas em pânico, a alguns urgentes trabalhos de alvenaria, pois os seus anfitriões afadigam-se para exibir a rosa dos Tudor ao lado das suas próprias insígnias. Procuram e obliteram qualquer rasto de Catarina, rainha que foi, esmigalhando com martelos as romãs de Aragão, os seus fragmentos rachados e as suas sementes esmagadas que voam. Em seu lugar, se não há tempo para esculpir, o falcão de Anne Boleyn é pintado grosseiramente em painéis improvisados.
Hans juntou-se a eles no caminho e fez um retrato da rainha Anne, mas não lhe agradou; como se lhe agrada por estes dias? Desenhou também Rafe Sadler, com a sua barbicha bem aparada e a sua boca determinada, de chapéu à última moda, um disco de plumas precariamente equilibrado na sua cabeça rapada. - Fez-me o nariz muito achatado, mestre Holbein – reclama Rafe. - E terei eu poderes, senhor, para consertar o vosso nariz? - retorque Hans. - Partiu-o quando era pequeno – diz, a correr na pista. Eu próprio o tirei de baixo das patas do cavalo e era um bem triste espectáculo, a chorar pela mãe. - Apertou o ombro do rapaz. -Vá lá, Rafe, animai-vos. Acho que ficastes muito bonito. Lembrai-vos do que Hans me fez.
Thomas Cromwell tem agora perto de cinquenta anos. Tem um corpo de trabalhador, entroncado, útil, começa a engordar. Tem cabelo preto, que está agora a ficar grisalho, e por causa da sua pele pálida impermeável, que parece feita para resistir tanto à chuva como ao sol, as pessoas regougam que o pai era irlandês, embora na realidade fosse um cervejeiro e ferreiro de Putney, um tosquiador também, um homem dos sete ofícios, belicoso e arruaceiro, um bêbado e um abusador, um homem muitas vezes levado perante os juízes por espancar alguém, por vigarizar alguém. Como o filho de um tal homem alcançou a sua presente eminência é uma pergunta que toda a Europa faz. Dizem uns que subiu com os Boleyn, a família da rainha. Há quem diga que foi tudo graças ao falecido cardeal Wolsey, seu patrono; Cromwell gozava da sua confiança e fê-lo ganhar dinheiro e conhecia os seus segredos. Outros dizem que cultiva a companhia de feiticeiros. Esteve fora do Reino desde rapaz, mercenário, comerciante de lã, banqueiro. Ninguém sabe ao certo onde esteve e quem conheceu e ele não tem pressa em contar a história.
Nunca se poupa ao serviço do Rei, tem consciência do seu valor e dos seus méritos e assegura-se de que são recompensados: lugares, privilégios e títulos de propriedade, casas senhoriais e quintas. Tem um modo de conseguir o que quer, tem um método; é capaz de seduzir os homens ou suborná-los, persuadi-los ou ameaçá-los, capaz de lhes explicar onde residem os seus verdadeiros interesses e revelará a esses mesmos homens aspectos deles próprios que desconheciam. Todos os dias, o secretário-mor lida com nobres que, se pudessem, o destruiriam com uma palmada vingativa, como se fosse uma mosca. Sabendo isto, distingue-se pela sua cortesia, a sua calma e a sua infatigável atenção aos negócios de Inglaterra. Não tem o hábito de se explicar. Não tem o hábito de falar dos seus êxitos. Mas sempre que a sorte lhe bateu à porta, lá estava, plantado na ombreira, pronto a abrir a porta de par em par ao mais tímido raspar na madeira». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT

O Livro Negro. Hilary Mantel. « Embora o dia tenha acabado, Henry parece pouco inclinado a ir para dentro. Está de pé, olhando em volta, inalando o suor de cavalo, a testa atravessada por uma queimadura do sol cor de tijolo»

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Não sou eu um homem como os outros homens? Não sou? Não sou? In Henry VIII a um embaixador.

Falcões. Wiltshire, Setembro de 1535
«As filhas dele vêm a cair dos céus. Observa-as do alto do cavalo; atrás dele estende-se a vastidão de Inglaterra; caem, aladas de ouro, o olhar de cada uma raiado de sangue. Grace Cromwell paira no ar ténue. É em silêncio que toma a presa, em silêncio plana até ao punho dele. Mas os sons que produz então, o roçagar de penas, e o guincho, o suspiro e sussurro da ponta das asas, o pequeno gluglu que lhe sai da garganta, são sons de reconhecimento, sons íntimos, de filha, quase desaprovadores. Tem o peito estriado de sangue e há fiapos de carne nas suas garras. Mais tarde, Henry dirá: As tuas raparigas voaram bem hoje. O gavião Anne Cromwell saltita na luva de Rafe Sadler, que cavalga ao lado do Rei em amena conversa. Estão cansados; o Sol declina e estão a cavalgar de volta a Wolf Hall, as rédeas lassas sobre os pescoços das suas montadas. Amanhã a mulher e as duas filhas sairão outra vez. Essas mulheres mortas, ossos há muito tragados pela argila de Londres, já transmigraram. Sem peso, planam nas correntes de ar mais altas. Não têm compaixão por ninguém. Não respondem perante ninguém. Têm vidas simples. Quando olham para baixo não vêm nada senão a sua presa e as plumas emprestadas dos caçadores: veem um universo tremulante, temeroso, um universo repleto do seu jantar.
Todo o Verão tem sido assim, uma orgia de desmembramento, pelo e penas a voar, os cães batidos e chicoteados, os afagos aos cavalos cansados, os cuidados dos senhores com as suas contusões, distensões e bolhas. E por alguns dias, pelo menos, o sol tem brilhado sobre Henry. Um pouco antes do meio-dia acorreram do ocidente umas nuvens rápidas e caiu chuva em grandes gotas perfumadas mas o Sol reapareceu com um calor escaldante e agora o ar está tão claro que se pode ver o céu e espreitar o que estão a fazer os santos. Enquanto desmontam, entregando os cavalos aos moços e atendendo o Rei, já tem no pensamento a papelada que o espera: as mensagens de Whitehall, trazidas a galope pelas rotas postais que são estabelecidas sempre que a corte se desloca. À ceia, com os Seymour, ouvirá deferente quaisquer histórias que os seus anfitriões desejem contar: qualquer coisa que o rei queira aventurar, desenvolto, feliz e amável como parece esta noite. Quando o Rei se for deitar, começará a sua noite de trabalho.
Embora o dia tenha acabado, Henry parece pouco inclinado a ir para dentro. Está de pé, olhando em volta, inalando o suor de cavalo, a testa atravessada por uma queimadura do sol cor de tijolo. Perdeu o chapéu no princípio do dia e assim, como impõe o costume, todos os caçadores do grupo foram obrigados a tirar os seus. O Rei recusou todas as ofertas de chapéus substitutos. À medida que o crepúsculo se insinua sobre os bosques e campos, os criados andarão atentos a qualquer movimento da pluma negra sobre o fundo da relva que escurece ou ao lampejo da sua insígnia de caçador, um Santo Humberto de ouro com olhos de safira. Já se sente o Outono. Sabe-se que não haverá muitos mais dias como estes; por isso deixemo-nos estar, os palafreneiros de Wolf Hall enxameando à nossa volta, o Wiltshire e os condados ocidentais espraiando-se numa bruma azul; deixemo-nos estar, a mão do Rei no ombro dele, o rosto de Henry concentrado enquanto vai rememorando o panorama do dia, os pequenos bosques verdes e os rios revoltos, os amieiros à borda de água, a bruma matinal que às nove horas já levantou; o breve chuvisco, o vento leve que morreu e amainou; a calmaria, o calor da tarde. - Senhor, como não estais queimado? - inquire Rafe Sadler. Ruivo como o Rei, ficou de um cor-de-rosa com manchas e com sardas, e até os seus olhos parecem doridos.
Ele, Thomas Cromwell, encolhe os ombros; deixa cair um braço em volta dos ombros de Rafe enquanto se dirigem para dentro de casa. Atravessou toda a Itália, tanto os campos de batalha como a arena sombreada do escritório de contabilidade, sem perder a sua palidez londrina. A sua infância celerada, os dias no rio, os dias nos campos: deixaram-no tão branco como Deus o fez. - Cromwell tem uma pele de lírio - pronuncia o Rei. - É o único particular em que se parece com essa ou com qualquer outra flor. - Vai-se metendo com ele enquanto se encaminham vagarosamente para a ceia». In Hilary Mantel, Bring Up the Bodies, 2012, O Livro Negro, Civilização Editora, Porto, 2013, ISBN 978-972-26-3594-3.

Cortesia de Civilização/JDACT