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domingo, 29 de julho de 2012

As Navegações e a sua Projecção na Ciência e na Cultura. Luís Albuquerque. «Enquanto os Aragoneses e os Castelhanos asseguravam o seu poder sobre aquelas ilhas, (Canárias) os Portugueses empreendiam viagens em direcção ao sul, ao longo da costa africana, até então desconhecida»


jdact

A descoberta do mundo pelos Ibéricos
«O grande surto do descobrimento de novas terras desconhecidas na Idade Média começou no século XIV. Italianos, maiorquinos, aragoneses e talvez mesmo portugueses visitaram várias vezes as ilhas Canárias, onde, segundo algumas lendas muito antigas, reinava uma felicidade quase absoluta. No entanto, o objectivo dos primeiros navegadores que alcançaram as Canárias estava bem longe de ser a conquista da felicidade, nessas ilhas que se pensava serem tranquilas, com um clima ameno e ricas de flores e de frutos. A realidade era bem diferente; encontravam-se terras muito pobres e habitadas por gente miserável. Apesar disso, insistiu-se em visitar as Canárias porque:
  • Aí se podiam, pelo menos, adquirir alguns vegetais utilizados na indústria têxtil do Norte da Europa;
  • Era muitas vezes possível, através de uma luta desigual, fazer prisioneiros entre os autóctones, depois vendidos como escravos na Europa, onde eram sobretudo utilizados nos trabalhos agrícolas;
  • E, por último, pensava-se na possibilidade de ocupar algumas das ilhas, a fim de serem colonizadas.
No que respeita ao projecto de cristianização, chegou-se, no caso das Canárias, até à indicação dos bispos; e a ocupação foi pela primeira vez projectada por Luís de la Cerda; duas tentativas sem qualquer sucesso, deve ser desde já dito. Aos padres deparou-se uma forte resistência por parte dos indígenas; o mesmo sucedeu com la Cerda, que se proclamava rei das Canárias, mas não recebeu, para tornar efectivo o reinado, qualquer ajuda dos reis da Península, em particular do rei de Portugal.
No início do século XV, a tentativa de ocupação levada a cabo pelo normando Jean Béthencourt teve melhor sorte; o expedicionário instalou-se numa das ilhas e conseguiu exercer um fraco domínio sob uma parte do arquipélago. Esta aventura deu origem à primeira crónica que possuímos sobre as Canárias; o célebre texto, denominado ‘Le Canarien’, fornece-nos, com efeito, algumas indicações preciosas sobre a vida das ilhas nessa época tão remota.
Nas Canárias deparam-se-nos, pela primeira vez, casos de rivalidade existente entre Portugal e Castela, ou Aragão, então ainda separado de Castela. Esta rivalidade veio a aumentar e terminou com um tratado de circunstância, satisfazendo ambos os países. Para uma melhor compreensão do assunto, convém salientar que as Canárias representavam diferentes objectivos para os Portugueses e os Aragoneses:
  • Para estes últimos, o fim era a ocupação e exploração económica das ilhas;
  • Para os Portugueses, elas deveriam sobretudo constituir pontos de apoio das viagens ao longo da costa africana ao sul do cabo Bojador.
Quando esta estratégia portuguesa se começou a delinear, os Castelhanos e os Aragoneses estavam já instalados no arquipélago das Canárias; todas as tentativas dos Portugueses para ocupar uma das ilhas fracassaram (de uma delas há notícia concreta: deu-se durante a vida de Henrique-o-Navegador, em 1425).
Os Portugueses apelaram para as leis reconhecidas pelos países nessa época, defendendo o seu direito à ocupação das ilhas sob pretexto da sua proximidade geográfica com Portugal, mas tais argumentos não foram aceites no Concílio de Basileia, em 1435.
Por outro lado, é forçoso reconhecer que os direitos dos Aragoneses se viram ameaçados pela presença de Béthencourt.
Passemos agora um pouco adiante para relembrar apenas as fases mais significativas dos Descobrimentos. Enquanto os Aragoneses e os Castelhanos asseguravam o seu poder sobre aquelas ilhas, os Portugueses empreendiam viagens em direcção ao sul, ao longo da costa africana, até então desconhecida.
Por outro lado, tem de se reconhecer que por então só se aventuravam ao longo da linha costeira, e apenas à luz do dia, como relata Cadamosto. Só em 1446, aproximadamente, se iniciaram as tentativas de empreender a viagem de regresso pelo mar largo, com grande economia de tempo. Este facto representa um primeiro passo no conhecimento, ou, talvez melhor, na descoberta da geografia física». In Luís Albuquerque, As Navegações e a sua Projecção na Ciência e na Cultura, Gradiva, 1987.

continua
Cortesia de Gradiva/JDACT

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Navegações Portuguesas: Parte XIV. As Navegações e o Humanismo. «..possibilitando um conhecimento concreto e directo de uma nova flora, de uma nova fauna, de um novo céu e de novas populações, não é menos verdade que o Humanismo teve um papel determinante na divulgação dos Descobrimentos»

Cortesia de ucm 

As Navegações e o Humanismo
«O historiador suíço Jacob Burckard, na sua monumental obra «Die Kultur der Renaissance in Italien», defendia em 1860 que com o Renascimento Clássico nas cidades italianas, entre os séculos XV e XVI, se abrira uma nova Idade na História das sociedades humanas. Aquele historiador associava ao Renascimento uma autêntica revolução nas formas de sociabilidade, de pensar, de conceber a arte, de agir e de ser, acrescentando que o pano de fundo dessa transformação era o «regresso» à Antiguidade Clássica, cujo brilhantismo fora ofuscado pela «noite» da Idade Média. As ideias de Burckard rapidamente ganharam defensores. Muitos dos seus seguidores começaram, então, a estudar o movimento cultural que, em traços largos, acompanhou o renascer da cultura clássica: o Humanismo.

 Contudo, na discussão que se seguiu, não foi possível estabelecer de forma consensual um conceito de «Humanismo» e «humanista», na sua dimensão sociológica, cronológica e cultural. De certa forma compreendem-se as razões de tais dificuldades, pois é necessário ter presente que, afinal, a Idade Média nunca perdeu em definitivo o contacto com a cultura clássica, tendo inclusive assistido a dois «Renascimentos»:
  • entre os séculos VIII-IX (Renascimento «carolíngio»);
  • e outro de contornos mais vastos, nos séculos XII-XIII (acompanhando o renascimento urbano, o aparecimento das universidades, a tradução de inúmeras obras clássicas a partir de Toledo).
No entanto, nos séculos XV e XVI, vai assistir-se a um redobrado interesse pela cultura clássica, com entusiasmo acentuado nas ricas cidades mercantis italianas. De facto, o Humanismo Renascentista foi operando uma viragem mental, muitas vezes em oposição declarada ao período que lhe antecedeu (Idade Média), apresentando como alternativa o exemplo do mundo grego-latino. Assim, enquanto copiavam e davam a conhecer os autores antigos, os humanistas aplicavam novas técnicas filológicas, apuravam o seu vocabulário clássico e desenvolviam disciplinas doutas como a gramática, a retórica, a poesia, a filosofia moral ou a história.

Cortesia de institutocamoes 
As viagens marítimas dos séculos XV e XVI precipitavam, dessa forma, um choque profundo entre os defensores do «Renascimento» da cultura clássica e aqueles que, diante das novidades trazidas pelos marinheiros, começaram a duvidar da superioridade do saber «antigo». Do prelo das modernas tipografias brotavam as primeiras edições impressas da Bíblia e dos autores mais procurados: Aristóteles, Platão, Estrabão, Euclides, Arquimedes, Plínio, Ptolomeu, Discórides, Sto. Agostinho, Galeno ...; adquirindo muitas destas obras uma divulgação extraordinária.
Digno de registo é o caso de Ptolomeu. Entre a primeira edição da sua Geografia em 1475 e o final do século XV seguiram-se 7 edições, aumentando esse número para 36 durante o século imediato. A obra de Ptolomeu também nos pode ajudar a compreender o embate brutal entre a novidade, que soprava dos meios náuticos, e a transmissão da cultura clássica, essencialmente nos centros eruditos. Essa confrontação está patente na forma como é interrompida a edição da Geografia do alexandrino em 1490; a nova imagem do Mundo imposta pelas navegações na viragem do século XV foi implicando alterações no quadro mental europeu que são traduzidas nas «tabulae novae» (cartas geográficas actualizadas) que acompanham a reedição da Geografia ptolomaica em 1507, depois de dezassete anos ausente das editoras.

Cortesia de rebobinandomemoria
Uma nova mentalidade irrompia com base na explosão informativa que as navegações ofereciam. A «experiência» dos navegadores, abalando o prestígio dos autores clássicos mostrava que a existência de uma zona tórrida no Equador era uma falsa ideia, que afinal existiam antípodas e imensas variedades de estrelas e de povos desconhecidos e que a terra formava um único globo com os oceanos.

Em Portugal o Humanismo foi introduzido por mestres italianos:
  • Mateus Pisano,
  • Estevão de Nápoles, 
  • Cataldo Parísio Sículo.
 Este Humanismo é de início essencialmente literário, aparecendo relacionado com o poder político e cultural do rei/Estado. Importa, no entanto, referir que esta cultura humanista vai estabelecendo pontos de contacto com os Descobrimentos e o seu meio envolvente.
Uma atitude mais céptica em relação às navegações e a crença na absoluta necessidade do conhecimento antigo sobrevive em humanistas fortemente influenciados pela realidade italiana: António Ferreira, Sá de Miranda, Francisco de Holanda e o estrangeiro George Buchanan.  a elevação dos feitos dos «Modernos» a par da defesa da «ciência» herdada dos antigos, que possibilitara a empresa descobridora, era uma opinião defendida intransigentemente por homens com formação humanista, mas que estavam em contacto com o meio náutico e mercantil - marítimo:
  • D. João de Castro (navegador e Vice-rei da Índia),
  • João de Barros (feitor da Casa da Índia),
  • Fernando Oliveira (piloto e tratadista naval),
  • Pedro Nunes (Cosmógrafo–mor);
Uma terceira posição, mais radical, que se regozijava com os feitos das navegações foi apanágio de Garcia da Orta (farmacêutico) e Duarte Pacheco Pereira (navegador). 

Cortesia de historiativanetwordpress
Os centros de cultura humanista multiplicam-se um pouco por todo o país, Braga, Évora, Vila Viçosa, mosteiros, colégios, Universidade, na própria corte: círculos de D. Leonor, da Infanta D. Maria e do Infante D. Luís. Se os Descobrimentos se opuseram, de certa forma, ao Humanismo pelo facto de mostrarem os erros de que muitas obras clássicas estavam eivadas, possibilitando um conhecimento concreto e directo de uma nova flora, de uma nova fauna, de um novo céu e de novas populações, não é menos verdade que o Humanismo teve um papel determinante na divulgação dos Descobrimentos
Um pouco por toda a Europa, os humanistas seguem com atenção e curiosidade o desenrolar da viagens oceânicas. Alguns deslocam-se aos portos ibéricos em busca de notícias. Em Portugal estiveram Martin Behaim e Hieronymus Münzer, dois alemães que ligam as navegações portuguesas aos centros de Humanismo na Europa Central.

Cortesia de 2crbucp
Outros casos houve em que foram humanistas portugueses a levar as notícias aos círculos eruditos (Pedro Margalho, o cosmopolita Damião de Góis, os bolseiros que estudavam nas várias universidades europeias tiveram essa papel) ou a verem as suas obras traduzidas (João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, Garcia da Orta). A Europa culta dos Séculos XV e XVI tomava conhecimento, desta forma, do importante papel das navegações no despontar de um novo mundo científico». In Carlos Manuel Valentim, Instituto Camões.

Bibliografia:
ALBUQUERQUE, Luís, As Navegações e a sua Projecção Na Ciência e na Cultura, Lisboa, Gradiva, 1987.
ALMEIDA, Onésimo Teotónio de, "Portugal and the dawn of modern science" in Portugal – the Pathfinder. Journeys from the Medieval towards the Modern World. 1300-ca.1600, ed. George Winius, [S.l.], Madison, 1995, pp. 341-361. BARRETO, Luís Filipe, "Humanismo em Portugal" in Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, Vol.2, Lisboa- S. Paulo, Editorial Verbo, 1990, pp. 1217-1222.
GRAFTON, Anthony, New Worlds Ancient Texts, The Power of Tradition and the Shock of Discovery, Cambridge, Massachusetts, London, Harvard University Press, 1995.
HIRSCH, Elisabeth, "The Discoveries and The Humanists" in Merchants & Scholars- Essays in the History of Exploration and Trade, Ed. John Parker, Minneapolis, The University of Minnesota Press, 1965, pp.33-46.
HOOYKAAS, Reyer, "The Portuguese Discoveries and the Rise of Modern Science" in Boletim da Academia Internacional da Cultura Portuguesa, nº 2, 1966, pp. 88-107.
IDEM, O Humanismo e os Descobrimentos na Ciência e nas Letras Portuguesas, Lisboa, Gradiva, 1983.
MARTINS, Joaquim Pina, "Descobrimentos Portugueses e Renascimento Europeu" in Revista Española de Teologia, Vol. 44, fasc.2, 1984, pp. 383-392.
RAMALHO, Américo da Costa, Para a História do Humanismo em Portugal (III), Lisboa, I.N.–C.M., 1998.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT