Mostrar mensagens com a etiqueta Gualdim Pais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gualdim Pais. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? A Comenta Secreta. Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «Dizem que o castelo é uma das cem portas do reino de “Agharta”, reino subterrâneo, composto por cidades míticas, ligadas através de túneis, cuja capital é Shambalah, símbolo do centro do mundo onde, segundo a tradição oriental, vive o rei do mundo»

jdact

«Ao chegarem ao Paço, cedido pelo rei para residência de Gualdim Pais, moços de estrebaria agarraram os cavalos para que se apeassem. - Acompanhai-me então, para que falemos sobre essa missiva. Gualdim notava no ar algum gosto de mistério. Conhecia perfeitamente o rei e sabia que aquela visita não poderia ser um acaso. Algo de novo começava a soar! Era agora no antigo Alcáçar Walli que Gualdim Pais vivia. Subiram a escada e dirigiram-se para a sala de refeições. À frente da lareira crepitante estava uma robusta mesa de madeira e algumas cadeiras de permeio. Pendurados sobre a lareira, encontravam-se dois estandartes brancos com cruz de Cristo em azul; era o pavilhão do Senhor Afonso e ao seu lado, a balsa (bandeira) templária. Distinguia-se claramente a insígnia rectangular, dividida em dois campos horizontais, sendo o inferior preto e o superior branco, tendo no meio a cruz templária, salientada a vermelho.
No salão existiam duas filas de janelas, uma de onde se podia ver o castelo e outra, com vista desafogada até à várzea. Gualdim estava de pé e, de olhos postos no infinito, olhava o castelo, pensativo. - Que mistérios nos contemplam, amigo Lopo? Que mistérios???...
 - Senhor, o que está em cima também está em baixo. Dizem que o castelo é uma das cem portas do reino de Agharta (reino subterrâneo, composto por cidades míticas, ligadas através de túneis, cuja capital é Shambalah, símbolo do centro do mundo onde, segundo a tradição oriental, vive o rei do mundo) - Eu sei Lopo, eu sei... Falta-nos a palavra certa para acedermos ao império da sabedoria subterrânea... mas vinde sentar-vos, assim falaremos sobre essa missiva de que sois portador. Aqui estaremos em segurança - disse Gualdim Pais, enquanto ordenava a Renato que fechasse a porta. Os dois homens sentaram-se junto à lareira, ficando Renato de pé, a uma distância respeitosa. Aquilo que o Mestre tinha dito ecoava-lhe na cabeça.
Lopo Fernandes lançou um olhar ao jovem e, enquanto se dirigia a Gualdim, buscava sinais de confiança que lhe permitissem realizar a sua missão. - Mestre... O assunto que aqui me traz reveste-se de algum secretismo, tenho orientações precisas para o comungar apenas convosco, senhor. - Renato... - disse Gualdim, com voz calma - ... aviva o lume e senta-te connosco. Sabes amigo… afirmou para o mensageiro - ... O pai de Renato era Mestre de Armas d'El-Rei Afonso e encarregou-me da sua educação antes de morrer. Deus o guarde era um bom homem! Não vos preocupeis com ele... podeis falar, estimo-o como a um filho.
 - Pois bem meu bom Mestre, como sabeis o nosso Rei tem a preocupação de consolidar o território. Depois das vossas campanhas no Egipto e na Síria, El-Rei Afonso necessita de vós para algo grandioso! - Os olhos de Lopo Fernandes brilhavam e, ao fitar o Mestre, aumentava a imensa curiosidade deste. - E o que espera o Rei de mim?... Falai homem de Deus! - Tomai - proferiu o mensageiro. - E entregou-lhe um rolo de pele de porco, no qual se via claramente o emblema real, com um manuscrito dentro. Gualdim pegou no canudo de pele desenrolou-o, olhando surpreso para Lopo Fernandes. Em silêncio leu o documento... e estacou.
Renato estava curioso. Não podia conter o visível entusiasmo... durante o tempo que passara com o Mestre, desde que o pai falecera quando contava catorze anos, nunca tinha sido assistido a nada semelhante. Gualdim Pais nunca lhe permitira participar assim em assuntos da máxima importância, muito menos em matéria que envolvesse Sua Majestade. Quando vivia com o pai tornara-se perspicaz o suficiente para compreender a natureza dos acontecimentos, mas daí a deixarem-no participar deles... era um homem feito, é certo... fazia dezoito anos nesse mesmo ano. .. talvez tivesse chegado a sua hora, também, de provar a devoção que mantinha por aquele Mestre que tanto já lhe dera. Talvez... – Pensava». In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Que Segredos Guardam Afonso Henriques e o Mestre Templário Gualdim Pais? A Comenta Secreta. Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «Gualdim Pais surgiu à porta da igreja, do lado direito do parte-luz. Era um homem alto e impunha respeito. Sobre a cota de malha tinha uma túnica branca, com uma cruz vermelha»

jdact

«É curioso voltarmos a encontrar-nos! Olha, este é o meu tio Abraão, que também estava comigo... Como te chamas tu? Renato ergueu o sobrolho numa expressão de curiosidade e, soltando uma gargalhada, levantou a perna esquerda, passando-a por cima do pescoço do cavalo, e deu um salto para o chão ficando mesmo em frente de Abel. Cumprimentou o homem mais velho com uma vénia respeitosa e dirigiu-se ao jovem:
 - Renato... Chamo-me Renato Moniz... e tu? O que fazes aqui? - Sabes senhor a minha família chegou cá quando a Torah (livro sagrado dos judeus, corresponde aos cinco primeiros livros do Antigo Testamento, onde são narrados a história do mundo, a história dos homens, os mandamentos divinos e as relações entre o homem e o divino) era livro único entre nós, os Judeus. Depois, alguns mercadores da minha parentela seguiram a mensagem do profeta (Maomé), mas não deixaram de ser a minha estirpe.
Os dois jovens cumprimentaram-se num abraço fraterno e ficaram a conversar por longos minutos. - Chamo-me Abel... Ainda bem que nos encontramos de novo, Renato. Com dois cobertores debaixo do braço, o monge cisterciense afastou-se. Tinha dado por bem empregue o uso de duas moedas. Renato e Abel continuaram a conversar. - Para onde vais? - Perguntou Abel. - Vou lá acima ao castro de Santa Eufémia, tenho saudades de ver Lixbuna. Nunca lá foste? - Não!!! Não conheço! - Então monta comigo no meu cavalo e subimos os dois. As nuvens estão a desaparecer e como paira no ar uma bruma húmida, a paisagem é bem bonita.
E assim iniciaram uma longa e bonita amizade, marcada por inúmeros encontros e desencontros, que durariam toda a vida.

O Mensageiro
Naquele dia de Todos os Santos tinha-se celebrado um Te Deum na Igreja de Santa Maria de Cintra e o cheiro a incenso ainda pairava no ar. Tal era a frequência de pessoas nas celebrações litúrgicas que muitas vezes, o incenso tinha a função de purificador do ar. Gualdim Pais, sexto Mestre dos Templários portugueses (os templários estabeleceram-se no Condado Portucalense por volta de 1124 e até fr. Pedro Arnaldo, os Mestres foram franceses e borgonheses), tinha dedicado uns momentos de silêncio e oração à memória do seu antecessor fr. Pedro Arnaldo. Este falecera um ano antes, no dia de São João, em combate contra os muçulmanos, aquando da primeira tentativa de conquista de Alcácer do Sal, durante a escalada às muralhas. Gualdim estivera com ele nesse dia fatídico, tendo lutado juntos ao lado d'El-Rei Afonso Henriques.
Lá fora, o mensageiro aguardava, enquanto apreciava o magnífico trabalho de escultura do pórtico da igreja. Era lindíssimo; todo ele em pedra, com um frontão triangular, onde se inscrevia um arco contra-curvado, suportado por cinco colunas, duas de cada um dos lados da entrada e ao centro da porta, um mainel, imediatamente abaixo da intercepção dos dois tramos dos arcos; quase a construção de um triângulo apoiado por cinco colunas. Renato e Abel detiveram-se junto do pequeno adro. O jovem escudeiro ouviu o barulho das esporas nas lajes de pedra da igreja e ficou atento: - O Mestre aproxima-se! - pensou.
Quase de imediato, em passo cadenciado, Gualdim Pais surgiu à porta da igreja, do lado direito do parte-luz. Era um homem alto e a sua pose impunha respeito. Sobre a cota de malha tinha uma túnica branca, com uma cruz vermelha arredondada sobre o peito. Exactamente o mesmo tipo de cruz que o mensageiro trazia no seu escudo. Ajeitou a capa branca de lã cardada e colocou-a sobre os ombros. - Senhor, é este o mensageiro - disse-lhe Renato, segurando as rédeas do cavalo.
Gualdim cumprimentou-o com um forte aperto de mão e subiu para o animal. O outro homem acompanhou-o. Renato, não identificando o mensageiro, notou alguma familiaridade entre ambos. Quem seria o misterioso homem? - pensava. Os dois cavaleiros seguiam par a par. Renato e Abel, ligeiramente mais atrás. Tomaram o caminho que levava à fontinha da Sabuga e desceram uma alameda com plátanos frondosos. - Que novas trazeis d'El-Rei, meu bom Lopo? - perguntou o Mestre, com visível entusiasmo. - Trago uma missiva e saudações corteses. E vós, como tendes passado fr. Gualdim Pais? - perguntou Lopo Fernandes, com respeito e reverência.
 - Recomendo-me!


A neblina tinha acalmado e o sol parecia querer surgir a medo. Os cavaleiros prosseguiam caminho e Lopo Fernandes continuava a conversa com Gualdim Pais. - A lápide que ordenastes que fosse colocada em Santa Maria da Alcáçova (em Santarém, sede dos templários, logo a seguir à conquista da cidade), onde repousa fr. Pedro Arnaldo, está concluída senhor. Tal como determinastes, assim se colocaram os dizeres:

No ano do Senhor de 1154, e havendo sete anos
Que esta cidade se ganhara, reinando El-Rei Dom Afonso,
filho do conde Dom Henrique e sua murher a rainha
Dona Mafalda, foi fundada esta igreja em honra de
Santa Maria Virgem Mãe de Cristo, pelos cavaleiros
do Templo de Jerusalém, mandando o Mestre Hugo,
e tendo dirigido a construção Pedro Arnaldo.
Suas almas descansem em paz. Ámen.

 - Folgo em sabê-lo. Paz à alma do nosso Mestre e irmão! - disse Gualdim, benzendo-se e baixando a cabeça em sinal de pesar, gesto que Lopo Fernandes acompanhou. - Mas dizei-me bom Lopo, o que vos trás a estas paragens? - inquiriu o Mestre». In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «As pessoas eram as mesmas, as crianças de cara suja de terra brincavam à volta dos cestos, as mais pequenas dormiam envoltas em cobertores. Olhou em volta, mantendo-se em cima do cavalo enquanto acompanhava serenamente o seu passo cadenciado…»


jdact

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal, nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!
Fernando Pessoa, in ‘Mensagem

O Reencontro
«Depois do cerco à vila de Cintra, os habitantes fizeram a entrega da cidade a Afonso Henriques, juntamente com a guarnição, sem derramamento de sangue. Agora, a viver no topo daquela serra que tinha a forma de uma bola, como um coelho, altar de vários cultos, sentia que podia tocar no ar na terra e no mar Ao conviver com tanta gente diferente, o seu coração sentia-se cheio!
Certo dia, numa manhã de neblina em que tudo parecia imerso num fino véu de mistério, uma vontade súbita atravessou-o. Ao acordar dirigiu-se à janela do seu quarto e viu dois pássaros chilreando num galho solto que se amontoava junto à lenha no pátio; sorriu. Passou a cara e o pescoço por água e vestiu-se rapidamente, saindo de rompante, quase tropeçando no banco em madeira que se encontrava junto à cama. Era quase um homem feito. Tinha-se transformado num belo e promissor jovem.
Sentindo-se sereno e em paz com o mundo, sentiu um forte apelo de sair e cavalgar nesse dia. Desceu a encosta do castelo, passou pela gafaria e dirigiu-se ao castro de Santa Eufémia, descendo pelo caminho da ermida de S. Lázaro. Acalmou o passo, puxando as rédeas do cavalo e encostando os calcanhares ao animal, deteve-se um pouco, reparando no movimento de pessoas do campo, logo voltando a retomar o caminho, galopando em sua direcção. Os pregões anunciavam dia de feira.
O cheiro húmido da bruma, agora maís dissipada, misturava-se com o aroma das frutas, e distinguia-se na profusão de vozes que ressoavam do mercado, o riso inocente dos catraios.
A sua presença junto do comendador da vila, bem como a sua maneira de ser tinham-no tornado numa figura popular junto dos vicus (associação de vilões que tinham deveres civis e militares para com o rei).
As pessoas eram as mesmas, as crianças de cara suja de terra brincavam à volta dos cestos, as mais pequenas dormiam envoltas em cobertores. Olhou em volta, mantendo-se em cima do cavalo enquanto acompanhava serenamente o seu passo cadenciado e notou sim que havia uma coisa diferente, uma tenda árabe com tecidos. Aproximou-se e reparou numa coberta semelhante a outra que vira sua mãe bordar para acompanhar o seu pai nas campanhas. Eram cores diferentes, alegres. Mais uma vez a sua curiosidade impeliu-o para a descoberta.
Um monge de branco (alguns monges de Cister foram o apoio espiritual das cruzadas e dos templários) negociava tecidos. Reconheceu-o de imediato. - Irmão Antunes Duval, por aqui? Também hoje descestes ao povoado? - Perguntou Renato, com um sorriso, apoiando os pulsos na cela do cavalo. - Oh... jovem Renato... bons olhos te vejam rapaz! Sabes, o frio assim me obriga. As esteiras de palha não são suficientes e gostava de tapar as frinchas das portadas da janela. O meu amigo Abel tem uns preços óptimos!
Mantendo-se em cima do seu cavalo, com os punhos sobre a cela e a expressão curiosa, Renato aproximou-se de Abel, abordando-o com um certo ar de familiaridade.
 - Conheço-te? O teu olhar não me é estranho! Parece-me que já nos cruzamos! - Jovem senhor, se bem me recordo, numa noite de sábado entraste-me pela porta adentro. Não te lembras? Já foi há uns tempos... Mas a minha gratidão para contigo é maior! - Respondeu-lhe Abel, olhando-o directamente nos olhos, com uma simpática expressão de agradecimento.
 - Para comigo? Gratidão? Como assim? - inquiriu Renato, com espanto. - Senhor foi em Lixbuna. Salvaste-me das mãos de um cruzado... não te lembras? Nessa mesma noite eu e a minha família cumpríamos o preceito do Sábado. Nunca cheguei a ter uma oportunidade para te agradecer... É curioso voltarmos a encontrar-nos! Olha, este é o meu tio Abraão, que também estava comigo... Como te chamas tu?»

In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 17 de novembro de 2012

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «Os dias eram cada vez mais curtos e sentia-se a humidade da chuva que caíra miudinha durante quase toda a tarde, deixando as estreitas ruas cheias de lama. Estava uma noite de lua cheia. Com o cair da penumbra, a comitiva real tinha-se instalado no Alcáçar»


jdact e cortesia de wikipedia

O Reencontro
«Abertas as portas da cidade formou-se o cortejo solene. À frente ia João Peculiar Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas, amigo e conselheiro de Afonso Henriques, seguido do restante clero, com o estandarte da Cruz do Senhor. Compunham a comitiva real os que, estando com o rei, tinham sido escolhidos para o acompanhar; entre eles estava Fernão Afonso, de sete anos, filho primogénito do rei, nascido da união com D. Flâmula Gomes, viúva de Paio Soares, irmão de Pêro Pais, Alferes-mor do reino, antes de casar com a rainha Mafalda de Sabóia e Gualdim Pais, cavaleiro templário.
Celebrada a missa no terreiro da Alcáçova, o estandarte da cruz foi colocado no topo da mais alta torre da barbacã, para que, de toda a parte, fosse visto como símbolo do domínio da cidade. O rei passeou a pé pelas muralhas da cidadela. Renato, sempre junto de seu pai, Mestre de armas, seguiu com a comitiva. Durante o percurso, qual não é o espanto d'El-Rei Afonso Henriques ao verificar que alguns cruzados saciaram os apetites, saqueando o que foi possível, arrombando portas e entrando no interior das casas, destruindo roupas e utensílios, violando mulheres e tratando as virgens vergonhosamente, contra o juramento que antes haviam prestado junto da sua pessoa.
 - De quem foi mister este trabalho? - Perguntou Sua Majestade. Raimundo Moniz, o pai de Renato, chegou-se junto do rei e afirmou:
 - Senhor, contra o que vós determinastes e contra o direito divino e humano, os colonienses e os flamengos agiram desta forma, abandonaram a cidade e regressaram às suas terras. Afonso Henriques olhou consternado à sua volta, e verificou que os cruzados normandos e ingleses permaneciam firmes nos seus postos, conforme determinado, preferindo manter as mãos limpas. Tomou então a palavra e disse:
 - Aqueles que quiserem ficar podem fazê-lo extramuros, na encosta de Poente. Montai guarda aos celeiros desta praça-forte! – e continuou, logo estabelecendo a forma como a guarnição árabe deveria deixar o castelo.
Os dias eram cada vez mais curtos e sentia-se ainda a humidade da chuva que caíra miudinha durante quase toda a tarde, deixando as estreitas ruas cheias de lama até à altura dos tornozelos. Estava uma noite de lua cheia. Com o cair da penumbra, a comitiva real tinha-se instalado no Alcáçar (residência do governador muçulmano), tendo ficado na guarda da cidade uma guarnição de companheiros de armas chefiados por Raimundo Moniz.
No acampamento tudo estava silencioso. Distinguiam-se apenas os contornos das tendas de campanha, iluminadas pela luz ténue das candeias e os vultos das sentinelas que guardavam a tenda real, agora desabitada. Renato teve curiosidade de verificar a degradação da cidade. O seu dever a isso o obrigava, ajudar os mais fracos. Do alto do Monte da Graça observava o castelo que tinha por fundo o Tejo. A noite estava chuvosa, mas o céu achava-se limpo (?), iluminado pelo grande astro branco.
Cobriu-se com a capa que a mãe lhe oferecera antes de morrer e com o calor da sua respiração, tentou aquecer as mãos que lhe congelavam. Um suspiro brotou-lhe do pensamento, sentia saudades dela agora que estava sozinho com seu pai. Faltava-lhe a alegria daquele sorriso jovial, que conservava em memória no seu coração. Tinham já passado dois anos, e parecia ainda sentir o cheiro do pão quente acabado de cozinhar no forno a lenha e dos petiscos que inundavam a casa de satisfação... mas quis o destino que assim fosse... e contra isso ele nada podia fazer.
Entrou pela porta oriental e nas ruas da Al-hama (o topónimo Alfama é frequentemente atribuído à evolução do árabe Al-hama, que significa fonte termal, embora não haja consenso quanto à origem etimológica), viam-se aqueles a quem a sorte não sorriu; homens e mulheres pobres, velhos moribundos e algumas famílias desalojadas, buscando o consolo de uma noite aquecida. Alguns conseguiram salvar parte dos seus haveres, outros haviam perdido tudo e olhavam, desolados, as chamas que lhes consumiam as casas. Choros, tristezas e mágoas conjugavam-se num cenário de desespero.
Ao passar por uma rua junto à mesquita, onde estavam os feridos, doentes e mortos, ouviu um canto de lamento, em tom monocórdico, dentro de uma casa pequena situada junto à muralha. Atraído pelo som, aproximou-se da porta e reparou no umbral que tinha um desenho em forma de estrela, com seis pontas. Abriu a porta de madeira lentamente e viu uma família em volta de uma mesa, frente a uma lareira. O lume crepitante trouxe-lhe boas recordações. Podia ver um homem mais velho, a quem os rugas carregadas faziam transparecer algumas mágoas, mas também sabedoria. Junto dele reconheceu o jovem de pele clara e cabelo escuro, que tinha salvo das mãos do coloniense nesse mesmo dia. Entreolharam-se e num gesto automático, Renato fechou a porta lentamente procurando não fazer barulho.
Desceu a encosta mais um pouco e sentiu o calor da fonte de água quente nas alcaçarias. Aproximou-se, pôs as mãos na água e colocou-as, quentes, debaixo dos sovacos. Ouviu um barulho... os patrulheiros faziam a ronda. Acompanhou-os até ao acampamento e deitou-se.


Uns anos depois encontrava-se em Cintra com seu pai, que tinha passado ao serviço de Gualdim País, por recomendação d'El-Rei. Depois do cerco à vila de Cintra, os habitantes fizeram a entrega da cidade a Afonso Henriques, juntamente com a guarnição, sem derramamento de sangue». In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 27 de outubro de 2012

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «… crianças descalças que corriam de um lado para o outro soltando gargalhadas, belas damas que exibiam os seus dotes femininos, que apesar de cobertos atraíam os olhares dos homens que passavam»

jdact

O Reencontro
«Dois anos depois, corria o ano da graça de 1159 e Gualdim Pais era o Mestre da Ordem do Templo no reino de Portugal. Nesse Domingo de Outono, tinha terminado a missa na Igreja de Santa Maria, nas encostas da serra e o mestre que tutelava Cintra (Sintra, já fazia parte dos mapas de Ptolomeu e era referenciada como ‘Montanha da Lua’; ‘Sin’ é um termo mesopotâmeo, que significa Lua) orava em silêncio, quando Renato Moniz, seu escudeiro, o interrompeu:
 - Senhor, perdoai-me... Curvou-se respeitosamente e continuou… Mas chegou um emissário do rei. Aguarda lá fora e deseja falar-vos.
Gualdim, quase imóvel, sem mexer a cabeça, ergueu a mão em silêncio, num gesto de recolhimento. Por hora, não queria ser interrompido. - Digo-lhe que aguarde Mestre? - Perguntou Renato em voz baixa.
Gualdim moveu novamente a mão, continuando as suas preces em silêncio. Renato curvou-se perante o altar, fez o sinal da cruz e saiu. Dirigiu-se ao emissário que se encontrava junto ao adro e disse-lhe:
 - Perdoai-me senhor, o Mestre pede que o espereis aqui fora. O misterioso homem assentiu e Renato retirou-se silenciosamente. Já tinham praticamente saído todas as pessoas da igreja. Apenas alguns grupos conversavam tranquilamente no exterior, entre vendedores ambulantes, crianças descalças que corriam de um lado para o outro soltando gargalhadas, belas damas que exibiam os seus dotes femininos, que apesar de cobertos atraíam os olhares dos homens que passavam. Todo o movimento caracterizava o ambiente daquela manhã solarenga de domingo.
O jovem escudeiro colocou-se novamente junto da montada do seu senhor e continuou a conversar com Abel. Os dois amigos tinham travado conhecimento doze anos antes, em Lixbuna (Olisipo; Felicitas Júlia; Lissabona foram os nomes atribuídos à cidade de Lisboa ao longo dos tempos) e sempre que se reencontravam, partilhavam a mesma história, recordando o curto, mas fraterno, passado que os unia:
  • ‘Depois da conquista de Santarém, El-Rei Afonso Henriques dirigiu-se para Lixbuna, em Abril de 1147, e iniciou um longo cerco à cidade. Não a tratou como a Santarém, a ferro e fogo, teve antes o cuidado de preservar bens e pessoas. Este precioso posto comercial tinha de ser mantido com as suas características. Renato, juntamente com seu pai, acompanhava o rei na conquista. Contava apenas seis anos, apesar de aparentar mais idade do que na realidade tinha, era ainda uma criança e a seu conselho, tinha posto de parte o alaúde e pegado na espada. Era um jovem alto e franzino na sua constituição, sensível e meigo, com uns enormes olhos castanhos amendoados, que não escondiam o que de mais nobre lhe ia na alma. Revelava já um espírito forte e uma coragem rara, que o tornavam capaz de se bater pelos valores em que acreditava. Sua Majestade El-Rei Afonso Henriques estabeleceu o seu posto de comando no Monte da Graça. Eram de tal forma violentas as incursões e tamanho o número de mortos, que mandou edificar duas zonas para cemitérios, nas quais mandou erigir duas igrejas: dedicadas, uma a S. Vicente e outra aos Mártires. Pediu apoio a vários cruzados que estavam estacionados no Porto e se dirigiam para a Terra Santa. Em menos de um mês estavam em Lixbuna colonienses, escoceses, flamengos, normandos e ingleses. Todos ao serviço d'El-Rei. Tinha superado os 15.000 homens de armas que se encontravam na Almedina. As forças eram de tal ordem, que iniciou um período de negociações. Durante os sucessivos tratos de tréguas e combates, os muçulmanos, comandados por Abu Mafamede trouxeram reféns. Entre os homens, mulheres e crianças que foram entregues estava Abel, um jovem judeu sefardita, que vivia na judiaria do local que viria a ser a capital. Renato ainda não tinha convertido o jeito de dedilhar o alaúde em manejo de armas. Tinha no peito mais coração que couraça. Foi-lhe incumbida a vigilância dos reféns. Era necessário protegê-los das intenções, por vezes duvidosas, dos cruzados. O cerco já durava há seis meses, os colonienses amotinaram-se e queriam levar reféns para seu uso pessoal. Renato ao ver um possante coloniense agarrar, pelo pescoço, um rapaz que aparentava ter a sua idade largou a correr na sua direcção e, concentrando em si toda a revolta que conseguiu, interpôs-se entre os dois e disse-lhe: - Para onde levais o refém d' El-Rei? Se lhe tocais trespasso-vos... juro que o faço! - disse com bravura e valentia, mal conseguindo suster o peso da lança que empunhava em tão tenra idade. Os seus olhos chamejavam, mas as mãos tremiam-lhe! O homenzarrão ainda avançou na sua direcção... mas Renato não vergou com a investida. Retirando as mãos de cima do rapaz, disse qualquer coisa que este não percebeu e retirou-se, balbuciando alguns palavrões. Os dois jovens trocaram um olhar e Renato, nervoso, correu para um canto e chorou de raiva. Não estava habituado aquelas lides... era ainda muito jovem e encarava o seu primeiro confronto. Foi a primeira vez que se cruzou com Abel. Mal sabia por esta altura que ainda haviam de se voltar a encontrar. Recomposto, contou o sucedido a seu pai, que posteriormente informou o rei. - Senhor meu Rei, alguns dos cruzados começam a perder o controlo, tendes de tomar uma atitude! O meu filho conta que maltratam mulheres e crianças sem olhar à sua condição... ainda agora um jovem da sua idade foi agarrado pelo pescoço e arrancado à família... sabe-se lá com que destino... não fosse o meu filho interpor-se... e... só Deus sabe senhor! El – Rei  mandou chamar os chefes dos cruzados e num tom áspero, disse-lhes: - Bons homens, vos afirmo por Nosso Senhor Jesus Cristo que antes prefiro retirar o cerco a combater nestas condições! A palavra aqui é minha. Soltem os reféns, preparem as torres e comecemos o assalto. Quem me desobedecer será tratado de pior forma que os sarracenos! Depois de conquistada Lixbuna a 2l de Outubro, uma terça-feira, estabeleceu-se o acordo de rendição e os termos da entrega deste novo território conquistado, o que veio a acontecer no dia 25 de Outubro de 1147».
In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

continua
Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «As duas portas do salão abriram-se de par em par. Um homem alto, esguio, de barba rala, ar frio e distante entrou na sala. Ao ver aquele padre vestido de negro, o rei teve um sobressalto»

jdact

«Já se fazia tarde e El-Rei Afonso convidou-os para manjarem. Sobre a mesa estavam grossas fatias de pão que iriam comer com vitela assada. Os hábitos rudes faziam com que utilizassem as mãos no manjar da iguaria. Regaram-na com vinho. O cheiro a cão sobrepunha-se ao da carne assada. Os animais, com as patas, tentavam tirar os restos de comida do soalho. Como estava frio tinha sido colocada palha no chão, mas esta estava impregnada de diferentes cheiros.
- Então digam lá, suas cabeças buenas... o que vão fazer? - perguntava Afonso, enquanto atirava um grande osso aos cães, que guerreavam entre si rosnando e soltando alguns latidos. Bernardo de Trava suscou os dentes com a língua, limpou a boca à manga do gibão, bebeu um trago de vinho, alrotou, e disse:
 - Bom, vamos organizar uma peregrinação a S. Vicente de Lixbuna, passando pelo mosteiro de Cister em Al-Cobaxa, e vamos saber o que se passa ... a única maneira de sermos discretos é passarmos por gente do povo.
 - Preocupem-se mas é com o que se passa à volta dos monges de Cister!!!... Nós também os cá temos e ouço muitas coisas! - disse El-Rei. Subitamente um criado entrou na sala e segredou algo a Fernandizi.
 - Que se passa hombre??? - perguntou Sua Majestade, El-Rei Afonso, a Ponce Fernandizi. Senhor meu Alfonso... chegou um emissário de Roma respondeu-lhe o anfitrião.
As duas portas do salão abriram-se de par em par. Um homem alto, esguio, de barba rala, ar frio e distante entrou na sala. Ao ver aquele padre vestido de negro, o rei teve um sobressalto. As botas negras ressoavam no chão de madeira. - Senhor meu Alfonso - saudou o eclesiástico, baixando ligeiramente a cabeça, em tom de reverência. - Um só reino e uma só religião!... Posso tomar lugar à vossa mesa? - perguntou.
O rei levantou-se e os restantes ficaram mudos de susto. - Senhor frei Raimundo, tomai assento - disse o monarca.
O homem sentou-se e descalçou as luvas negras, que colocou em cima da mesa. Enquanto comia frugalmente ninguém dizia palavra. Todos se olhavam com desconfiança, sorrindo entre dentes. De repente o silêncio foi interrompido:
 - Que novas me contais desde a última visita? – perguntou frei Raimundo, enquanto estalava os dedos das mãos. - Bom, Senhor Raimundo. O rei não se mostrou muito seguro. - Não sabeis, Vossa Majestade?... Digo-vos eu. O herético do vosso primo anda a fazer pactos com as trevas. Há vinte anos que nomeou um Bispo Negro, um moçárabe e obrigou, à força da espada, o legado do papa a retirar-lhe a excomunhão. Em vez de esmagar os culpados da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo dá-lhes prerrogativas. Até tem um que lhe trata das finanças. A Santa Igreja não está contente! - subitamente, deu um murro na mesa, fazendo estremecer todos os presentes.
 - E os vossos druidas galegos estão bons? - perguntou. - Não tenho conhecimento que haja druidas e bruxas no meu reino... atreveis-vos a duvidar de mim?!!! - exclamou El-Rei Afonso. - Claro que não, Majestade! - disse Raimundo, enquanto cofiava o queixo. - Não vos esqueçais que faz frio e as fogueiras aquecem. É preciso proteger os pescoços, podeis constipar-vos! - ameaçou, em tom irónico.
 - Mas ao que vindes?... Deixai-vos de histórias... – O monarca Afonso começava a ficar perturbado com aquela visita.
- Venho avisar-vos, pessoalmente, para que cuideis bem de Compostela, Majestade. É um lugar da igreja romana!... Tende cuidado convosco. Podeis ser excomungado!... Não vos esqueceis que sem religião, não tendes reino, Vossa Alteza.
 - Mas, Senhor Raimundo, continuamos a praticar o Ordálio (julgamento de hereges, técnica de execução pela água e pelo fogo) - ripostou o rei. - Bem sei, D.Majestade, bem sei Vossa Majestade... mas os portucalenses têm documentos que devem ser destruídos! Lembrai-vos que antes de Roma existiram mais três impérios, que se digladiaram, e o cristianismo ainda não é, a religião universal, Vossa Alteza! Os Templários sonham com um novo império... o quinto... Começais a perceber-me Majestade? - o seu tom maquiavélico soava de forma inequívoca.
El-Rei Afonso levantou-se lívido e disse: - Senhores, vou retirar-me... Tenho de ir para Zamora, portanto... boas noites a todos! Senhor Ponce com a vossa licença... meus senhores...
 - Acompanho-vos aos vossos aposentos, Majestade… afirmou Ponce Fernandizi, o anfitrião. Os nobres soergueram-se e quando o rei saiu, voltaram a sentar-se. Os irmãos Trava aproveitaram o momento:
 - Nós também saímos. Já se faz tarde! - disseram. Fernão virou-se para Bernardo e disse-lhe em sussurro:
 - A nossa Galiza vai morrer às mãos dos Castelhanos ! Começo a ter inveja dos homens de Afonso Henriques!» In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.


Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Comenta Secreta. Que segredos guardam Afonso Henriques e o mestre templário Gualdim Pais? Maria João Pardal e Ezequiel Marinho. «O Inverno em Sanabria cobria tudo de branco. Desde Tui a Puebla de Sanabria os irmãos Trava tinham percorrido, numa semana, algumas léguas. Iriam encontrar-se com o Imperador de Leão e Castela na barbacã de Sanabria, junto ao rio…»


jdact

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
nem o que é mal, nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!
Fernando Pessoa, in ‘Mensagem

«O conde Henrique ao morrer, pediu a Afonso Henriques que não perdesse sequer um palmo da terra que ele lhe dera. A lenda de Ourique consagra a vocação do império espiritual português. O mesmo império que ganha novo fôlego com a Rainha Santa Isabel e que se estende depois em direcção ao Mar. Mas o que é feito desse império que se vê imerso nas brumas de há uns séculos para cá? Está perdido nas memórias de visionários que alimentam, com palavras, um sonho de nobreza extrema. O sonho de um Portugal livre, respeitador das suas mais profundas raízes e tradições, de um Portugal rico em passados gloriosos e esquecidos, de um Portugal tão à frente e tão dentro do seu tempo! Será que perdemos o rumo, ou andamos apenas desviados de um caminho, para novamente o retomarmos?

Puebla de Sanabria
- Quase quinze anos! Quinze anos! - pensava Afonso VII de Castela, com as mãos entre a cabeça. - A minha família é a minha desgraça... ainda por cima o arcebispo de Braga é o Primaz das Espanhas!...
Decorria o ano de 1157. Afonso VII, filho de Afonso VI e primo d'el-rei Afonso Henriques, naquele dia estava de mau humor.
Depois das batalhas de Cerneja e Arcos de Valdevez, Guido de Vico, legado do papa, tinha convocado uma reunião tripartida no dia 5 de Outubro de 1143, em Zamora. Afonso VII fora obrigado a aceitar a independência do Condado Portucalense. O seu primo Afonso arvorara-se de censual e estragara-lhe os sonhos de um império maior.
 - O Papa ainda não lhe respondeu a reconhecê-lo!... Talvez ainda seja possível tramar algo!... pensava, enquanto a sua mão, pejada de anéis, agarrava, de forma rude, um cálice de vinho.
O Inverno em Sanabria cobria tudo de branco. Desde Tui a Puebla de Sanabria os irmãos Trava tinham percorrido, numa semana, algumas léguas. Iriam encontrar-se com o Imperador de Leão e Castela na barbacã de Sanabria, junto ao rio e sobre uma ligeira colina, que tinha por detrás a serra da Culebra, coberta de branco. Entraram pela porta de armas e dirigiram-se para o macho (torre de menagem). Ponce Fernandizi, conde de Sanabria e Carvaleda, tinha cedido o seu castelo ao Rei de Leão e Castela. Já os tinha observado de longe e esperava-os.
- Senhor conde Ponce... - cumprimentaram-no, respeitosamente, os dois irmãos.
 - Senhor Fernan... e Senhor Bernardo... o Rei espera-vos e, cá para nós, não está muito bem-humorado! - disse, em género de segredo gracejado. Os três homens subiram a escada de pedra, acompanhados de um criado e, no salão do trono estava Afonso VII, impaciente e irritado; as notícias foram mais ligeiras que eles.
- Imbecis!!!... Incompetentes!!!... Tenho tudo perdido! O meu primo prepara qualquer coisa, não sei o que é... e vocês… seus estúpidos... não percebem nada!... Nada! Deixam fugir tudo... imbecis!!!
 - Mas... senhor el-rei Alfonso... - tentaram argumentar Fernão e Bernardo Peres de Trava.
 - Qual mas... seus ignorantes... existe a certeza de terras além-mar e vocês só pensam na minha tia Teresa. Primeiro casaste tu com ela, de seguida o teu irmão põe-te os c….. e deixam-me fugir um império pela cama abaixo! ... Coño, tudo corre mal!!!... Mas isto não fica assim... quero informações precisas sobre o que se vai passar! - senhor... - disse Fernão, baixando a cabeça - … podemos saber informações através de Joaquim Muñoz, que já enviámos para Portucale. Elevai manter-nos informados. Temos tudo controlado, estai descansado!
- Tenham cuidado! Quem traiu uma vez pode trair segunda. Não confio nesse Joaquim Muñoz! - disse Afonso de Castela e Leão. – o mestre Pedro Robera (mestre da Ordem do Templo em Castela-Leão, entre os anos de 1152-1177) tem-me colocado ao corrente... arranjem maneira de saber que passos dá esse... pulha. afirmou, balbuciando alguns palavrões, enquanto cerrava os punhos e espumava de raiva.
O conde de Sanabria tomou a palavra:
 - Senhor meu Alfonso, se me permitis... Vossa Majestade... - disse, gaguejando.
 - Falai, hombre! - ordenou-lhe o rei.
 - Vós sabeis que Afonso Henriques, para vos irritar, quis ter em Lisboa um santo que rivalizasse com o nosso Santiago, assim aparece o S. Vicente. Podíamos arranjar uns peregrinos que nos trouxessem informações, Majestade... - disse, com um sorriso maquiavélico.
- Tu também rasas a estupidez, Ponce! Não é em Lixbuna, é noutro lugar e não sei onde... os Templários sabem-no de certeza... Mexam-se seus imbecis... mexam-se!» In Maria João Martins Pardal e Ezequiel Passos Marinho, A Comenda Secreta, Ésquilo, Lisboa, 2005, ISBN 972-8605-58-7.

Cortesia de Ésquilo/JDACT