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sexta-feira, 26 de junho de 2020

A Batalha de Toro. António F. Barata. «Porque o filho sublime e soberano, gentil, forte, animoso cavaleiro, nos contrários fazendo imenso dano todo um dia ficou no campo inteiro»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A Batalha de Toro foi ganha pelas forças de Castela contra as de Afonso V, por uma dessas eventualidades da guerra, que nem seus cabos explicam, muitas vezes, e a que as crenças religiosas chamam: a influência do Deus das vitórias. Não nego que o mesmo se possa dizer da de Aljubarrota; possível seria que São Jorge vencesse nela a Sant'Iago. Mas a batalha de Toro foi ganha pelas forças do Príncipe João de Portugal e do Bispo de Évora, Garcia Menezes, contra as seis alas do exército de Castela, que fugiram acossadas e desfeitas.
Em Aljubarrota não ficara um castelhano no campo, que não fosse ou morto, ou prisioneiro. Em Zamora ficou senhor do campo em que se colocara depois da luta com os seus vencedores, o Príncipe de Portugal, João. Será, pois, isto um desquite de Aljubarrota?
Entendo que não.
Se escreverem que o fora por ter posto fim à guerra desgraçada do ambicioso africano, entendo que sim. Mas, não basta esta síntese de leitura feita, que tem ares dogmáticos:

preciso é o mostrar como tanto portugueses, como castelhanos, como franceses, como alemães criticaram o combate de Toro. Começarei pelos de casa, como é natural:
1 E porém o Príncipe despois do desbarato que fez, ali onde acabou de recolher sua jente, esteve no campo em hum corpo çarrado sem nunca mover atrás sua bandeira... (in Ruy de Pina: Crónica de Afonso V)
2 El Principe al tiempo del fracaso padecido de su Padre iva seguindo el alcance de las seis alas ia rotas, pero quando entendió lo que pasava (a derrota do pae) aun que non pudo revocar a todos de la corriente que levavam apiñose con los que pudo i otros que de otra parte de su padre vencida se le acercaron, en una elevacion...
3 Fué vencida esta parte; (a de Afonso) confesamoslo; sin que lo doremos. Pero el huir una del campo i quedar otra vitoriosa en el varrido de los contrarios, digan los doctos en los estudios militares que nombre há de tener, mientras io que no los professo no sé como le hé de lamar, pues halo quien no quiere que le lamemos vitoria... (Faria Sousa: Europa Port. 2º)
4 ...a nosso Senhor aprouve que nos deixassem o campo, adonde com gloriosa vitória permanecemos vencedores... (Carta de João II fazendo mercê a Lourenço Faria, seu alferes. Torre do Tombo, L. 2º da Extremadura)

Porém depois, tocado de ambição
E glória de mandar, amara e bela,
Vai cometer Fernando de Aragão,
Sobre o potente reino de Castela.
Ajunta-se a inimiga multidão
Das soberbas e várias gentes dela,
Desde Cadix ao alto Pireneu,
Que tudo ao rei Fernando obedeceu.

Não quis ficar nos reinos ocioso
O mancebo Joanne; e logo ordena
De ir ajudar ao pai ambicioso,
Que então lhe foi ajuda não pequena.
Saiu-se enfim do trance perigoso
Com fronte não turvada, mas serena,
Desbaratado o pai sanguinolento;
Mas ficou duvidoso o vencimento;

Porque o filho sublime e soberano,
Gentil, forte, animoso cavaleiro,
Nos contrários fazendo imenso dano
Todo um dia ficou no campo inteiro
(Camões: Lusíadas C. IV est. 77-78 e 79).

... em que cada um dos exércitos ficou meio vencedor, meio vencido...
O Príncipe João depois de seguir & de perseguir por largo espaço aos que vencera, & lhe fugião, voltando a soccorer seu pay, e achando-o vencido, se manteve no campo, senhor d'elle, como vencedor... (F. de S. Maria: Ano Histórico, tom. 1º).

Derrotado D. Affonso fugiu de noite para Castro Nuño. D. Fernando fugiu tambem para Zamora. O Príncipe vencedor ficou no campo, onde esteve tres dias (Damião de Gões: Crónica do Príncipe D. João).
[…]

Basta; mais citações de boas autoridades poderia lembrar, se me não tornara fastidioso. Vê-se de portugueses, castelhanos, de franceses e de outros que a afirmativa do Moguel foi patriótica em demasia. Bem disse Fernão Álvares Oriente:
As coisas todas a aparência têm
Conforme os olhos são com que se vêm.
O Moguel viu a batalha de Toro com olhos de castelhano (não de espanhol, como a todos nos considera os habitantes da Península) eu vejo-a com os de português; porque força é dizê-lo as duas nações existem autónomas, apesar da natureza ter formado para ambas dos Pirinéus ao extremo ocidente da Europa este trato de terra fertílimo da Península, que a política e a história retalharam, não direi para sempre; mas para enquanto Portugal for cobiçado, e se poder equilibrar na balança dos interesses europeus. Para muito escrever é o assunto, se aqui fora lugar para isso. Em vista do que aí fica escrito e transcrito, para mim, nascido em Portugal, sem animadversão nenhuma, a Batalha do Toro não foi a desforra da de Aljubarrota. Não a tem mesmo na história. Foi um combate indeciso. Rocio d'apar, S. Braz d'Évora, 24 de Dezembro de 1895».

In António F. Barata, (1836-1910), A Batalha de Toro, 1896, Projecto Livro Livre, Iba Mendes, História, LD nº 661, 2019, www.poeteiro.com.

Cortesia de IMendes/JDACT

quinta-feira, 25 de junho de 2020

A Batalha de Toro. António F. Barata. «Ninguém contesta a derrota total, formalíssima dos castelhanos em menos de meia hora! Em Toro, ou Zamora, empenharam-se forças que não se estudaram ainda bem…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Por muitas vezes hei escrito, e mais uma ainda aqui o faço, embora com isso se possam morder uns tantos mal sofridos, a quem a cega Fortuna tem dispensado inúmeros favores mais devidos a seus inexplicáveis caprichos, dela, do que ao mérito próprio, deles, e invejosos, apesar dos benefícios com que injustificadamente colmados, do valor real de outros a quem a mesma Fortuna tem sido sempre adversa; mais uma vez sobre tantas outras direi que é António Francisco Barata, da Biblioteca de Évora, um dos mais talentosos, dos mais sabedores, dos mais conspícuos e benemerentes homens de letras do nosso país, e daqueles a quem devidos são mais respeitos e considerações; muito mais que tudo, e o muitíssimo que é e vale, bem documentado em todos os ramos, bem o posso dizer, da literatura, a si só e ao seu incansado e fadigoso labutar o deve, desajudado de todo o auxílio e protecção; e muito mais que a seu luminoso espírito, vasta erudição, e superior manusear da opulenta língua pátria, predicado hoje tão raro até entre os nossos escritores de primeira plana, reúne uma acendrada probidade literária, um indiscutível amor das coisas Portuguesas, e de suas glórias, um carácter levantado e austero, e uma hombridade respeitável e digna, não bandeados às conveniências ordinárias da vida.
Irresistivelmente me acodem estas palavras aos bicos da pena, ao lançar, em reduzida e modesta edição, ao nosso mundo literário, o breve trabalho por António Barata escrito ao correr da pena e de momento, a propósito do que nas Reparaciones Históricas escreveu sobre a Batalha de Toro, o sábio académico espanhol o sr. A. Sanchez Moguel. Esta é que é uma verdadeira reparação histórica, muito para agradecer e louvar a quem a traçou.

1º de Março de 1476
Desde que, há um ano, li o notável livro do Académico Madrileno, o Antonio Sanchez Moguel: Reparaciones Históricas, impresso em Madrid em 1894, me ficaram desejos de revistar os conhecimentos que eu tinha, havia muito, acerca da Batalha de Toro, ou de Zamora, pois que o livro a isso me convidava nesta afirmativa: Toro es, en efecto, el desquite de Aljubarrota, que se lê à página 292. Permeando-se a meus desejos a feitura de um livro de história pátria: Monja de Císter, terminado e em via de publicidade, só agora vou mostrar ao ilustre amigo, sábio e catedrático o resultado da revista e confirmação do que eu tinha aprendido, em leituras antigas.
Primeiramente: para que Toro seja desquite (desforra) de Aljubarrota, importa estudar as circunstâncias, os pormenores dos dois combates. Em poucas palavras direi o que se colhe dos livros, tanto portugueses como castelhanos. Ambas as batalhas se feriram em campina plana, ou levemente ondulada. Combateram em Aljubarrota trinta mil castelhanos contra dez mil portugueses, números redondos. O rei de Portugal batalhou a pé, como qualquer cavaleiro; os castelhanos traziam cavalaria, que os portugueses não tinham; traziam a rudimentar artilharia, os trons; logo: tinham por si o número, três vezes maior, artilharia e cavalaria.
Ninguém contesta a derrota total, formalíssima dos castelhanos em menos de meia hora! Em Toro, ou Zamora, empenharam-se forças que não se estudaram ainda bem; uns dão maior número aos castelhanos (o que é natural) outros lhe concedem forças iguais ou quase iguais.
O rei de Castela não combateu na batalha de Toro; colocou-se a uma légua de distância (certamente lembrando Aljubarrota) e desatou a fugir mal viu volver costas a seis alas do seu exército, ante as forças esforçadas do filho de D. Afonso V; os portugueses levavam artilharia; o combate prolongou-se por três horas, com muita valentia de parte a parte; Afonso V não venceu; mas venceu o filho; logo:

A Batalha de Toro não foi a desforra da de Aljubarrota, porque para o ser, forçoso seria haver igualdade nos elementos constitutivos dos dois exércitos. Para uma coisa ser antítese de outra, preciso é que o seja em todas as suas particularidades.

In António F. Barata, (1836-1910), A Batalha de Toro, 1896, Projecto Livro Livre, Iba Mendes, História, LD nº 661, 2019, www.poeteiro.com.

Cortesia de IMendes/JDACT

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Poesia. Heinrich Heine. «Jazem por terra as bandeiras dos que há pouco ali folgavam e ao som das marchas…»


Cortesia de wikipedia

O campo da batalha

«Brilhava a lua impassível
sobre o campo da batalha,
envolto da luta horrível
na ensanguentada mortalha.

Jazem por terra as bandeiras
dos que há pouco ali folgavam
e ao som das marchas guerreiras
em mil tropéis se cruzavam.

Passaram do sono à morte
em fero, nocturno assalto,
e a vencedora corte
seguiu de pendões ao alto.

Centenas de moribundos
vasquejam de espaço a espaço,
enviando aos sidéreos mundos
o olhar merencório e baço.

E a lua brilha impassível
sobre o campo da batalha,
envolta da luta horrível
na ensanguentada mortalha...»

In Heinrich Heine, poema ‘O campo da batalha’
Tradução de Freitas Costa

JDACT

Poesia. Lord Byron. «Muitas vezes o riso é do hipócrita um meio, com que o ódio mascara ou o temor; antes quero um conciso ai de trémulo seio, que uma lágrima orvalha, qual flor»

Cortesia de wikipedia 

A Lágrima

«Se há em nós simpatia,
que nos mova amizade
ou amor, soe dizê-lo um olhar;
mas o olhar nos mentia!
Diz o riso a verdade?
Só uma lágrima a pode expressar.

II
Muitas vezes o riso
é do hipócrita um meio,
com que o ódio mascara ou o temor;
antes quero um conciso
ai de trémulo seio,
que uma lágrima orvalha, qual flor.

III
Bom sinal é ter n'alma
compaixão, caridade;
é o mais belo louvor dos mortais!
E alcançais essa palma,
só á viuvez, à orfandade,
à desgraça uma lágrima dais.

IV
O que aos mares se afoita,
se em montões vendo as vagas
sob alguma receia ficar,
ao tufão que o açoita
depõe n'asa mil pragas,
porém manda uma lágrima ao mar.

V
Corre ao campo o soldado,
Corre, a glória por norte,
sobre o imigo a colher um laurel;
mas o imigo prostrado
ei-lo abraça, e da morte
co'uma lágrima adoça-lhe o fel!

VI
E se a justa ufania
para ao pé de sua amada
tão romântico assim o conduz,
então bem se extasia
de colher na rosada
face a lágrima que alva aí reluz.

VII
Sítio em que eu vivi moço!
Da amizade e franqueza
mansão doce, mansão d'áureo amor!
Sabes d'alma o alvoroço
quando disse-te, presa
a uma lágrima, o adeus de sua dor?

VIII
Bem que agora um só voto
não mais vá de meu peito
ao daquela a quem já tanto amei,
sempre lembro-me e noto
que os que outrora lhe hei feito
co'uma lágrima dela os c'roei.

IX
De outro embora, ditosa
viva a ingrata Maria;
sei-lhe ainda a lembrança adorar:
bem que foi-me enganosa,
sei chorá-la; e em vão ria,
co’uma lágrima a sei perdoar.

X
Meus amigos queridos,
dentre vós me apartando,
uma esp’rança me anima, e me diz:
sereis inda reunidos!
Vosso adeus é chorando?
Dai a lágrima ao encontro feliz!

XI
Quando houver meu esp’ríto
voado às plagas da noite,
e o meu corpo na cova jazer,
oh! Ter-me-ei por bendito
sê no pó, que o Euro açoite,
quem derrame uma lágrima houver.

XII
Não me erijam moimento
pela mão da vaidade!
Não carece o meu nome asas tais
para ao teu firmamento
voar, Celebridade!
Uma lágrima eleva-me assaz».

In Lord Byron, in poema ‘A lágrima’
Tradução de Fontenelle

JDACT

sábado, 22 de abril de 2017

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Quando Francisco, bêbado espantoso, que em copo, frasco, taça é eminente, se ajuntou…»

Cortesia de wikipedia e jdact

[…]

Festas bacanais. Argumento

«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.



XVII

De Castela se veem nessa morada

águas de duas cores deleitosas,

quando a nossa cidade está esgotada,

inda que o gesso as faz menos gostosas;

c’o licor novo espera ser tirada

a reima das entranhas sequiosas,

porque esse é o que aquenta a velha idade

desterrando a água-pé desta cidade.



XVIII

Mas em quanto com novo não me alento,

reparti com os pobres que o desejam;

ide largando dele, com intento

que seus poucos reales vossos sejam.

assim recolhereis o nosso argento,

e de todos aqueles que festejam

por tal ordem a Baco celebrado,

que costumam beber cada bocado.



XIX

Já de lá d’Alcochete caminhavam,

as formosas borrachas apertando,

e depois de vazias as largavam,

outras doutro licor melhor tomando,

de branca escuma os copos se mostravam

cobertos ao beber não lhe assoprando;

mas as águas nem doces, nem salgadas

delas vistas não foram nem provadas.



XX

Quando Francisco, bêbado espantoso,

que em copo, frasco, taça é eminente,

se ajuntou em conselho, desejoso

de dar favor a toda aquela gente.

Pisando esse caminho tão famoso

da rua das adegas prestemente,

convocados da parte do entornante

por um já n’outro tempo bom tocante».

[…]


In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.


Cortesia de IbaMendes/JDACT

segunda-feira, 27 de março de 2017

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Começarão a fugir d'água do poço os que em vê-la somente tem espanto, que em pagodes, merendas e jantares empinar querem só de Baco os mares»

Cortesia de wikipedia e jdact

Festas bacanais. Argumento 
«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,

opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.


XI

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas

fantásticas, fingidas, mentirosas,

louvar os vossos, como nas estranhas

musas, de engrandecer-se desejosas:

bebedices dos vossos são tamanhas,

que excedem as sonhadas fabulosas,

que excedem ao primeiro vinhateiro,

e a Baco inda que fora verdadeiro.


XII

Por estes vos darei um Claudio fero,

que fez a Peramanca tal serviço,

um fulano Coutinho, que de mero

b borracha para ele só cobiço.

Pois pelos doze Pares dar-vos quero

uns doze que sobre um pobre chouriço

entornaram tão rijo que de cama

um monte lhes serviu de esterco e lama.


XIII

E se a troco de Nun'alvres e Barbança

ou do Luna quereis igual memória,

vede primeiro a Pedro, cuja lança

no beber escurece qualquer glória;

e aquele que do enxame a segurança

no copo só quis ter, por ter vitória;

aquele Diogo, invicto cavaleiro,

que em quatro não é quarto, mas primeiro.


XIV

Nem deixarão meus versos esquecidos

aqueles que na sede gastadora

se fizeram no copo tão subidos,

de Lieo a bandeira vencedora:

um Daniel fortíssimo e os temidos

lacaios, por quem sei que sempre chora

da Chamusca e Louredo o vinho forte,

e outros a quem Tétis causa a morte.


XV

Em quanto a estes canto, e a vós não posso,

bom Fernando, que não me atrevo a tanto,

essa mão alargai ao vinho vosso,

dareis matéria a nunca ouvido canto.


os que em vê-la somente tem espanto,

que em pagodes, merendas e jantares

empinar querem só de Baco os mares.


XVI

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

frio, que usar de vós lhe não é dado;

pelo contrário o bárbaro gentio

com desejo de ver-vos 'stá squentado;

Peramanca o vermelho senhorio

vos tem s'enviuvais aparelhado;

que pois em dar seus bens sois brando e tenro,

deseja de comprar-vos para genro».

[…]



In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT

domingo, 26 de março de 2017

Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões. Quatro Estudantes de Évora. 1589. Décio Carneiro. «Vós só tendes o ramo florescente da árvore de Cibele mais amada, que nenhuma nascida em Benavente ou pelo rio abaixo até Almada»

Cortesia de wikipedia e jdact

Festas bacanais. Argumento
«(…) Fazem concílio os bêbados de porte,
opõe-se aos Bagulhentos Pedro ingente;

favorece-os o Catigela forte,

no Lamarosa tem seu lava-dente.

De inveja Lieo lhes busca a morte,

descendo a Monte-mor contra esta gente,

que vê em rio Mourinho a acção traidora,

e a Peramanca chega venceora.



I

Borrachas, borrachões assinalados,

que de Alcochete junto a Vila Franca,

por mares nunca dantes navegados

passaram inda além de Peramanca:

em pagodes, e ceias esforçados,

mais do que se permite a gente branca,

em Évora cidade se alojaram,

onde pipas e quartos despejaram:



II

também as bebedices mui famosas

daqueles que andaram esgotando

o império de Baco, e as saborosas

águas do bom Louredo devastando;

e os que por bebedices valerosas

se vão das leis do reino libertando;

cantando espalharei por toda a parte,

se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.



III

Cessem do Novelão, do gran Barbança

as grandes bebedices que fizeram;

cale-se do Rangel e do Carrança

a multidão dos vinhos que beberam,

que eu canto d'outra gente e doutra lança,

a quem frascos de vinho obedeceram:

cesse tudo o que a musa antiga canta,

que outro beber mais alto se alevanta.



IV

E vós, bacanais ninfas, pois criado

em mim tendes a sede tão ardente,

se sempre em largo copo espraiado

festejei vosso vinho alegremente,

dai-me agora um bom papo despejado

para beber à perda co'esta gente,

porque de vossas águas Baco ordene

um rio para bêbados perene.



V

Dai-me uma vasilha mui cheirosa,

seja de bom licor, não saiba a arruda,

de Peramanca seja que é gostosa,

o peito esforça, a cor ao gesto muda;

dai-me igual nome às taças da famosa

gente vossa que Baco tanto ajuda;

que se espalhe, e se cante no universo,

se tanta bebedice cabe em verso.



VI

E vós, Fernan Gonçalves, segurança

das festas de Lieo em esta idade,

podeis atravessar com confiança

quantas adegas há nesta cidade:

vós, mano, nosso amor, nossa esperança,

a quem só prometemos lealdade,

pois Baco a nós vos deu por cousa grande,

seja a medida assim de quem a mande.



VII


da árvore de Cibele mais amada,

que nenhuma nascida em Benavente

ou pelo rio abaixo até Almada.

Vede-o nas toalhas, que presente

vos mostra a bebedice já passada,

nas quais vivas lembranças vos deixou

o que de vinho mais se carregou.



VIII

Vós, alto taverneiro, cujo império

o bêbado em se erguendo vê primeiro,

ou beba neste nosso hemisfério,

ou beba lá nesse outro derradeiro:

e nem por isso sente vitupério

o fidalgo, o estudante, o cavaleiro,

antes o Turco, o Mouro, e o Gentio

lhes pesa não beber do vosso rio:



IX

inclinai por um pouco a majestade,

que no azamboado rosto vos contemplo,

quando fordes c'os mais desta cidade

ofertar-vos a Baco no seu templo:

os olhos da real bebecidade

ponde no borrachão, vereis exemplo

de amor de vossos vinhos saborosos

por bêbados louvados espantosos.



X

Então vereis se sois bem conhecido

de todos os amigos de Falerno;

que não é pouco ser obedecido

no estio, primavera, outono, inverno:

ouvi, vereis o nome engrandecido

daqueles de quem sois senhor superno;

e julgareis qual é mais excelente

se ser do mundo rei, se de tal gente».

[…]



In Décio Carneiro, Paródia ao Primeiro Canto dos Lusíadas de Camões, Quatro Estudantes de Évora, 1589, 1880, autoria anónima, Projecto Livro Livre, livro 660, 2015, Poeteiro Editor Digital, Iba Mendes.

Cortesia de IbaMendes/JDACT