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domingo, 29 de setembro de 2024

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «Apelidados de cristãos-novos, foram-lhes dados vinte anos para abandonarem os usos judaicos tradicionais, promessa essa que se veio a revelar falsa ao longo das duas décadas de intolerância e perseguições que se seguiram»

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A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco

«(…) O último Cabalista de Lisboa é, em si, um pouco um enigma. Porque terá sido escondido na cave de Ayaz Lugo? Porque será que não é referido pelos manuscritos judaicos seus contemporâneos? Nunca terá sido publicado? Dado o seu objectivo de alertar os cristãos-novos e os judeus para o permanente perigo que corriam na Europa, Berequias devia ter tentado seguramente dar-lhe a maior divulgação possível. Várias explicações me foram propostas por Ruth Pimentel, da Universidade de Paris, que mais tarde foram seguidas pela maior parte dos demais especialistas no campo da literatura sefardita medieval que consultei. Antes de mais nada, a depreciativa caracterização que Berequias faz dos cristãos-novos e o seu declarado apelo aos judeus e aos cristãos-novos para que abandonem a Europa haveria certamente de enfurecer os reis europeus e as autoridades religiosas, em particular os inquisidores de Portugal e de Espanha. Se ele levasse a sua obra para a Europa cristã, as cópias que fossem descobertas haveriam de ser eliminadas e queimadas. É também provável que a sua ardente defesa da imigração judaica haveria de irritar os dirigentes das enfraquecidas comunidades judaicas da região, tanto os agrupamentos secretos sefarditas em Portugal e em Espanha como as comunidades mais abertas dos asquenazins nos países do Norte da Europa. Estes judeus ou cristãos-novos, que tinham um interesse espiritual, emocional ou monetário para permanecer na Europa, poderiam igualmente suprimir os seus escritos. Para mais, o modo como Berequias trata questões como o sexo e o cisma entre cabalistas e autoridades rabínicas poderia ser considerado demasiado directo para que certos leitores o pudessem apreciar. Os seus escritos seriam certamente considerados tabu por muitos dirigentes judaicos conservadores que procuravam resistir à era do judeu secular que se aproximava. Apesar de me suscitar dúvidas, não posso deixar de referir uma outra teoria: é possível que o próprio Berequias tivesse suprimido os seus escritos; não só por não ter querido expor a perseguições os judeus secretos mencionados no texto, como também porque a excomunhão por alegada heresia não era nada de desconhecido. Apesar da veemente necessidade de avisar os judeus da Europa do destino que seu tio pressagiava, pode ter receado ver-se cortado da sua comunidade, como o foi outro judeu de origem portuguesa um século mais tarde, Baruch Espinosa. Talvez tenha feito circular em segredo cópias do seu livro, pedindo aos seus leitores que não revelassem o conteúdo nem mencionassem sequer a sua existência. Será talvez essa a razão por que não tem título. Outra razão, bem mais desencorajante: quem sabe se não o mataram ao tentar reentrar em Portugal e salvar a sua prima Reza? As cópias das suas obras que tivesse escrito e levado para a Ibéria teriam assim certamente perecido com ele. Apenas as que tinham ficado escondidas em Constantinopla teriam sobrevivido. Quanto ao esconderijo, o mais provável é que os manuscritos tivessem sido ocultados para os proteger durante o período nazi; a cobertura de cimento data desse tempo. Lembremo-nos que os cristãos-novos portugueses emigraram em massa ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, sobretudo para a Turquia, Grécia, Norte de África, Holanda e Itália, regiões que mais tarde se veriam ameaçadas ou ocupadas pelo Reich alemão. Por exemplo, nos finais do século XVI, como resultado da emigração dos cristãos-novos, só Constantinopla contava com uma comunidade judaica de 30 000 pessoas e 54 sinagogas, a maior da Europa. Durante a II Guerra Mundial, a maior parte dos judeus ibéricos que viviam na Grécia, Bulgária e Jugoslávia, 200 000 ou mais, foram presos e morreram nas câmaras de gás. Se considerarmos o apelo de Berequias para que os judeus e cristãos-novos deixassem os países cristãos, é interessante notar que a comunidade judaica na Turquia muçulmana contava com a protecção do Governo e escapou inteiramente à destruição. Apesar disso, o proprietário ou proprietários dos manuscritos de Berequias, talvez os pais de Lugo, teriam justamente receado o alastramento das perseguições à Turquia, tal como Berequias temera o alastramento da Inquisição (maldita) de Castela a Portugal quatro séculos antes. A Inquisição (maldita) foi definitivamente estabelecida em Portugal em 1536, cerca de 50 anos depois de ter sido criada em Espanha e apenas seis anos depois de Berequias ter completado o último dos seus manuscritos. Teria Ayaz Lugo sabido da existência dos manuscritos? No seu testamento não lhes faz referência. Possivelmente tinham sido escondidos pelos seus pais, sem que ele o tivesse sabido. Cabe-me agradecer, antes de mais, a Abraham Vital, que me ofereceu generosamente a sua casa e, posteriormente, me permitiu utilizar os textos de Berequias Zarco. Gostaria igualmente de manifestar o meu apreço à sua mulher, Miriam Rosencrantz Vital, que muitas vezes me valeu durante os meus tardios serões com um copo de vinho do Porto e os seus cuscuz caseiros. Este livro é publicado em memória de Berequias Zarco, família e amigos.

 

Nota histórica

Em Dezembro de 1496, quatro anos depois de expulsarem do seu reino todos os judeus, os soberanos de Espanha, Fernando e dona Isabel, convenceram o rei de Portugal, Manuel I, a fazer o mesmo. Em troca, os monarcas espanhóis concediam-lhe em casamento a mão de sua filha. Pouco antes de a ordem de expulsão ser aplicada, Manuel I, que não queria perder tão preciosos súbditos, decidiu converter os judeus portugueses. Em Março de 1497, mandou encerrar todos os portos de embarque e ordenou que se reunissem todos os judeus e os conduzissem à força à pia baptismal. Embora os relatos que chegaram até aos nossos dias refiram judeus que preferiram dar-se à morte e matar os filhos a converterem-se, a maior parte deles acabaram por se ver forçados a aceitar Jesus como o Messias. Apelidados de cristãos-novos, foram-lhes dados vinte anos para abandonarem os usos judaicos tradicionais, promessa essa que se veio a revelar falsa ao longo das duas décadas de intolerância e perseguições que se seguiram. Mesmo assim, muitos dos novos cristãos persistiram nas suas crenças. Em segredo e ao preço de riscos enormes, continuaram a recitar as suas orações hebraicas e a praticar os seus rituais, sobretudo os do Sabbat e das festas judaicas. Um desses judeus clandestinos era Berequias Zarco, o narrador d’O último Cabalista de Lisboa. As circunstâncias que rodearam a descoberta do manuscrito de Zarco em Istambul, em 1990, constam de uma Nota do Autor. Dessa mesma nota constam igualmente algumas observações quanto ao estilo adoptado na transcrição do texto original. No entanto, os leitores deverão desde já ter presente que, ao preparar o trabalho para publicação, esforcei-me por preservar o tom extremamente natural e directo do autor». In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, Richard Zimler, Judeus, História Local, Conhecimentos

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «Berequias não é sempre coerente na grafia do português, talvez devido à dificuldade de transcrever a língua da sua terra em caracteres hebraicos»

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A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco

«(…) Infelizmente, numerosas secções e mesmo simples páginas dos manuscritos de Berequias tinham sido reunidos fora da ordem por alguém manifestamente incapaz de ler o judeu-português. Era de enlouquecer. Levei dois meses para voltar a pôr tudo por ordem. Mas uma vez isso feito, o livro de Berequias Zarco lia-se perfeitamente. Os três manuscritos históricos no seu conjunto formam uma obra única, narrando a odisseia da família de Berequias durante os trágicos acontecimentos de Abril de 1506. Contam, em particular, a perseguição que Berequias moveu ao assassino do seu amado tio Abraão, um famoso cabalista provavelmente responsável por algumas das obras da Escola de Lisboa, até hoje consideradas anónimas, incluindo, por razões que a narrativa torna claras, Batendo às Portas e o Livro do Fruto Divino. São vários os breves relatos da matança que chegaram até nós, incluindo um de Salomão Ben Verga referido por Berequias, e não pode haver dúvidas quanto à veracidade da crónica de Berequias. Todos os principais acontecimentos aí relatados foram confirmados por escritos contemporâneos. Muitas das pessoas mencionadas, como Didi Molcho, João de Mascarenhas e Isaac Ben Farraj são nossos conhecidos através das suas obras assim como através de documentos da Igreja e da Coroa portuguesa. Alguns leitores menos familiarizados com a literatura sefardita e novo-cristã do século XVI poderão estranhar a minha reprodução da história de Berequias sob a forma de um mistério e o uso da linguagem coloquial. Berequias Zarco é, porém, como tantos dos seus contemporâneos, um autor moderno tanto na visão como no estilo. O segundo manuscrito, em especial, manifesta uma técnica directa que se assemelha à da novela picaresca espanhola, que começava a aparecer aproximadamente na mesma época dos manuscritos de Berequias. Curiosamente, muitos dos autores picarescos espanhóis eram também judeus convertidos. Berequias Zarco estava inegavelmente familiarizado com esses contemporâneos castelhanos.

Ao contrário das novelas picarescas, porém, o tom de Berequias quase nunca é irónico e nunca burlesco. Além disso, o seu personagem principal, ele próprio, não é nem um vilão nem um herói. É simplesmente aquilo que Berequias deve ter sido: um jovem inteligente e confuso, que fazia iluminuras, que vendia fruta e era cabalista; um jovem destroçado pela morte de seu tio. A linguagem franca de Berequias recorre a palavrões, afirmações claramente blasfemas e mesmo calão, que tentei manter na íntegra. Parece-me evidente que se a intenção de Berequias tivesse sido a de escrever mais um documento místico ou mesmo um texto histórico mais circunspecto, tê-lo-ia feito. Tinha talento e conhecimentos para tanto. A verdade é que não o fez. Escreveu um mistério em três partes, a última das quais poderia ser considerada pelos críticos contemporâneos como um epílogo. Tendo em atenção o leitor moderno, dividi essas três partes em vinte capítulos. Os capítulos I a VIII correspondem ao primeiro dos manuscritos de Berequias; do IX ao XX, ao segundo manuscrito; e o XXI ao terceiro. Apesar de O último Cabalista de Lisboa ser mais que uma tradução, mantive-me rigorosamente fiel ao conteúdo do escrito de Berequias, a não ser em dois casos: quando ele inclui extensas recitações de orações e de cânticos; e quando faz digressões sobre pontos espirituais associados aos arcanos essenciais relacionados com a Cabala. Apesar de se revestirem de interesse académico, seriam provavelmente dificultosos e aborrecidos para o leitor, e excluí-os por isso da minha transcrição. Do mesmo modo, várias secções foram reordenadas segundo a ordem cronológica, quando antes estavam ligadas segundo a tese espiritual que Berequias procurava demonstrar. Creio que também este facto não altera de modo substancial a obra de Berequias, e a estrutura que adoptei fará certamente mais sentido para o leitor moderno.

De um modo geral, procurei estabelecer um equilíbrio entre a linguagem contemporânea e o uso ocasional de uma ou outra palavra ou frase mais antiga. No seu conjunto, a obra permanece, assim o espero, fiel ao espírito do autor. Berequias não é sempre coerente na grafia do português, talvez devido à dificuldade de transcrever a língua da sua terra em caracteres hebraicos. Por isso mesmo, as transcrições do português são feitas de acordo com as convenções actuais. Sempre que se transcrevem palavras hebraicas, recorre-se aos caracteres latinos, de modo a poderem ser pronunciados pelos leitores americanos e europeus. Os manuscritos de Berequias levantam algumas questões importantes sobre a história dos livros hebraicos na Ibéria. Será a Tora ilustrada que ele descobre na geniza de seu tio a chamada Bíblia de Kennicott, que hoje pertence à Biblioteca Bodleian da Universidade de Oxford? A referência às letras em forma de animal e a Isaac Bracarense (indubitavelmente Isaac de Braga, por quem o manuscrito foi ilustrado) parece indicar nessa direcção. Nada se sabe da história da Bíblia desde a data do seu acabamento em 1476 até à sua aquisição em 1771 por Oxford, a conselho do bibliotecário, Kennicott. Talvez tenha de facto sido salva por Abraão e Berequias Zarco. Quanto à versão hebraica e árabe da Fonte da Vida detida por frei Carlos: teria sido realmente passada para Salónica? Que lhe terá, então, acontecido? Nunca foi encontrado nenhum original árabe, apenas traduções latinas». In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, Richard Zimler, Judeus, História Local, Conhecimentos,

domingo, 14 de janeiro de 2024

Arrancados da Terra. Lira Neto. «Os vestígios do antissemitismo na Península são tão antigos quanto tais artefactos. No início do século IV, pouco antes de o cristianismo vir a se tornar a religião oficial do Império Romano, um total de dezanove bispos católicos da antiga Hispânia já se reunia no Concílio de Elvira…»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Todo herege e cismático há de ser lançado ao fogo eterno, na companhia do Diabo e dos seus anjos, a não ser que, antes da morte, seja incorporado e reintegrado à Igreja, dispunha o Directorium inquisitorum.

A presença judaica na Península Ibérica remonta à noite dos tempos. Entre os diversos mitos de origem, fala-se de um neto do bíblico Noé, de nome Tubal, que teria chegado ao lugar dois séculos após o presumido dilúvio universal, para então povoar o território a partir da fundação da cidade de Setúbal. Mas há relatos históricos que creditam o advento do judaísmo aos mercadores embarcados nos navios fenícios que alcançaram a região por volta de 1200 a.C., na escala de rotas comerciais rumo às ilhas da Grã-Bretanha. Outras narrativas míticas atribuem o momento da chegada em torno do ano 900 a.C., a bordo das embarcações de longo curso construídas pelo rei Salomão, supostamente originárias do porto de Társis, cidade aludida no Antigo Testamento, da qual se desconhece a localização exacta.

Existem também versões que dão conta de os hebreus lusitanos serem os descendentes de alguma das dez tribos de Israel dispersas e perdidas para sempre quando da invasão dos assírios à cidade de Samaria, em 722 a.C. Em outra variante, poderiam vir a ser os sucedâneos da grande diáspora provocada pela primeira destruição de Jerusalém pelo imperador babilónico Nabucodonosor II, em 587 a.C. Ou, ainda, procedentes da segunda destruição, em 70 a.C., depois da ocupação da cidade pelas tropas do comandante Tito, filho do imperador romano Vespasiano, a quem aquele sucederia no trono.

Malgrado tantas controvérsias e especulações, é certo afirmar que os judeus já estavam instalados na Península desde o período no qual esta viveu sob o domínio do Império Romano e era conhecida pelo nome comum de Hispânia. Achados arqueológicos mais remotos indicam a ocorrência de lápides funerárias judaicas na actual Espanha datadas dos séculos II e III d.C. Na Lusitânia, província a oeste, no território que é hoje Portugal, foi desenterrada das ruínas de uma antiga vila romana, nas imediações da cidade de Silves, no Algarve, uma plaqueta de mármore, provavelmente do final do século IV d.C., onde se lê, em hebraico, o nome próprio Yehiel. Mais categórica ainda é a chamada Pedra de Mértola, fragmento de uma inscrição tumular encontrada na região do Alentejo e no qual se pode observar o desenho de uma menorá, o candelabro judeu de sete braços, símbolo máximo do judaísmo na Antiguidade, antes de a estrela de David ser adoptada como tal, em tempos modernos, encimado por caracteres e números que indicam uma datação exacta do calendário latino, equivalente ao ano de 482 d.C.

Os vestígios do antissemitismo na Península são tão antigos quanto tais artefactos. No início do século IV, pouco antes de o cristianismo vir a se tornar a religião oficial do Império Romano, um total de dezanove bispos católicos da antiga Hispânia já se reunia no Concílio de Elvira para firmar 81 cânones, a serem seguidos como preceitos obrigatórios da vida devota. Além de legislar sobre temas como a castidade e o celibato clericais, o documento disciplinava a coexistência, ou melhor, o isolamento, entre cristãos e judeus. Um judeu ficava proibido de casar e de manter relações sexuais com uma cristã. O mesmo valia para uma judia em relação a um cristão. O indivíduo de uma religião não poderia sequer comer à mesma mesa com o adepto da outra.

Ao longo dos séculos, a política ibérica em relação aos judeus alternou instantes de tolerância com momentos de perseguição extrema. Com a derrocada do Império Romano do Ocidente e a ocupação da Península pelos bárbaros visigodos, povo de origem germânica que a dominou por três séculos, entre 418 e 711 d.C., os judeus locais conseguiram viver em relativa tranquilidade. Pelo menos até que o reino visigótico também aderisse ao cristianismo e o rei Sisebuto ensaiasse, em 613 d.C., a primeira tentativa de conversão em massa, punindo os mais obstinados com o degredo e o correctivo de cem chibatadas. Centenas foram deportados, outros tantos morreram espancados, mas a maior parte passou a praticar o judaísmo em segredo.

A instabilidade interna e a crescente ameaça de ocupação dos territórios ibéricos por parte dos muçulmanos, a partir de cidades situadas no Norte da África, desestabilizaram o poderio visigodo. Nos estertores do reinado cristão de ascendência germânica, sucessivos concílios realizados em Toledo elegeram os judeus como bodes expiatórios, acusando-os de conspirar a favor da entrada dos islâmicos na Península. A cada conclave da Igreja, a intolerância mostrava-se mais aguda. De início, determinou-se que os filhos de criptojudeus deveriam ser retirados dos pais e entregues a um mosteiro. Em seguida, deliberou-se que os falsos conversos receberiam como castigo a morte por apedrejamento. Por fim, decidiu-se que os judeus renitentes deveriam ser conservados vivos, mas mantidos como escravos de senhores cristãos». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.


Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT


JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Religião, Conhecimento,

sábado, 13 de janeiro de 2024

Arrancados da Terra. Lira Neto. «Os sambenitos dos que deviam escapar ao fogo vinham assinalados com a cruz de santo André, em diagonal, na forma de x, de cor vermelha. As vestes dos condenados à pena máxima apresentavam imagens de labaredas desenhadas e coloridas à mão»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Lá em baixo, cabia aos eclesiásticos de maior hierarquia ocupar os assentos principais do tablado armado na praça. Reservava-se ao inquisidor-geral uma espécie de trono acolchoado e de madeira torneada, instalado em local altivo, decorado por alcatifas e dosséis de cetins, damascos e veludos, nas cores vermelha e dourada. Os penitentes eram acomodados à frente deles, em área do estrado mais despojada, adornado por simples tecido negro. Ficavam dispostos conforme a gravidade das respectivas acusações: os sujeitos a penas tidas como mais brandas, penitências espirituais, prisões, desterros, galés, exílios ou açoites, ocupavam as filas inferiores da arquibancada; os destinados a penas de maior severidade, o que em suma significava a morte pela fogueira, as superiores.

Os sambenitos dos que deviam escapar ao fogo vinham assinalados com a cruz de santo André, em diagonal, na forma de x, de cor vermelha. As vestes dos condenados à pena máxima apresentavam imagens de labaredas desenhadas e coloridas à mão. Se as chamas se mostrassem voltadas para baixo, entendia-se que uma providencial confissão de ter praticado o judaísmo em segredo, depois da condenação, resultara na clemência por parte dos inquisidores. Se as flamas estivessem direcionadas para cima, rodeadas por figuras de cães, serpentes, grifos, demónios e de uma estampa representando o rosto do próprio penitente, o destino inexorável seria a fogueira, purgatorius ignis, a entrega do herege ao fogo purificador. Nesse caso, para maior vexame, o sambenito era complementado pela carocha, chapéu alto e pontudo, feito de papel, ilustrado com motivos idênticos aos das vestes.

Tais sortes, contudo, podiam ser alteradas ao longo da cerimónia, a depender das atitudes e do comportamento do penitente. Um súbito pedido de confissão íntima aos inquisidores, mesmo à última hora, poderia provocar a interrupção momentânea do auto e a revisão da sentença prévia. Quando menos, uma declaração de arrependimento considerada sincera resultaria na caridade de se mandar estrangular o réu por meio do garrote antes de atirá-lo ao fogo. Estabelecia-se assim um círculo de incertezas que provocava suspense e mantinha inflamado o interesse da plateia.

Rezado o introito da Santa Missa, coube naquela manhã ao padre Francisco Ferreira, sacerdote da Companhia de Jesus, pregar o sermão aos presentes, em nome da redenção dos pecados humanos. As prédicas dos autos de fé em Portugal tinham como mote a censura à lei mosaica, a Lei de Moisés, o judaísmo, a exortação à Paixão de Cristo, a alusão ao Juízo Final e a referência aos castigos eternos prognosticados para os que se desvirtuassem dos mandamentos da Igreja, abraçando falsas doutrinas.

Seguia-se ao sermão a leitura do édito de fé, no qual todos os moradores locais eram advertidos a confessar as próprias culpas e a dar notícia, nos dias subsequentes, de quaisquer outras pessoas conhecidas incursas em delitos passíveis de investigação por parte dos inquisidores. Chegava-se, enfim, ao momento pelo qual a multidão mais ansiava: a leitura das sentenças dos acusados, feita por clérigos de voz altissonante, previamente escolhidos para a função. Um a um, ao ouvirem os respectivos nomes, os prisioneiros deviam levantar-se de seu lugar e caminhar para o centro do cadafalso, à vista de todos, a fim de ouvirem a súmula de seu processo e o consequente veredicto. Como eram muitos os réus, a cerimónia podia prolongar-se por horas e, às vezes, mesmo alguns dias. Mas a atenção da plateia jamais arrefecia.

O público acompanhava, com sádico regozijo, as reacções dos penitentes. Alguns deles choravam, baixavam a cabeça, tentavam esconder o rosto com as mãos. Outros, impetuosos, gritavam impropérios e atiravam pragas aos juízes, sendo de pronto amordaçados pelos guardas. Havia ainda os que se ajoelhavam, em desespero, implorando por misericórdia. Mas também os que permaneciam impassíveis diante da hora final, o que podia ser interpretado como gesto de derradeira arrogância.

Quando Gaspar Rodrigues foi chamado ao meio do tablado, o clérigo encarregado de ler a súmula de seu processo passou em revista todas as circunstâncias que o haviam levado a ser arrancado de casa, diante dos filhos pequenos, havia três anos e quatro meses, pelo meirinho e pelos guardas do Santo Ofício. A acusação: praticar o judaísmo em segredo, mesmo sendo baptizado na fé de Cristo. Era tido e havido na conta de herege. Vivia como católico em público, mas prestaria culto, na intimidade do lar, à Lei de Moisés. Tinha sido denunciado, portanto, como criptojudeu». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

 

Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT

 

JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Religião, Conhecimento,

Arrancados da Terra. Lira Neto. «O vozerio do populacho era entrecortado pelo repicar dos sinos das igrejas, pelo estrépito das matracas e pelo entoar contínuo de cânticos religiosos, a exemplo do Te Deum laudamus (Nós te louvamos, Senhor) e o Veni Creator Spiritus (Vem, espírito criador)…»

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Que o Medo os Retraia do delito (1492-1594)

«Aos 23 dias de Fevereiro do ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1597, o quinto dia do mês de Adarde 5357, no calendário judaico, um friorento domingo de Inverno, Gaspar Rodrigues Nunes, 39 anos, comerciante com negócio instalado próximo ao Arco dos Pregos, pórtico de pedra da antiga muralha medieval de Lisboa, constava do grupo de noventa penitentes obrigados a envergar o traje da infâmia, a marca da desonra. A túnica de linho tingido de amarelo sem golas ou mangas, com meras aberturas para a cabeça e os braços, o chamado sambenito (corruptela provável de saccus benedictus, saco bendito) era o sinal imposto pela Inquisição (maldita) para identificar os hereges, os blasfemos, os apóstatas, os bígamos, os devassos, os sodomitas e, sobretudo, os que haviam atentado contra a fé em Cristo ao professar o judaísmo.

Uma forma de distinguir e apartar os perversos, as almas desviadas do rebanho de Deus, do convívio com os ditos bons cristãos e homens de bem do reino. Separar, a partir daquele momento e para todo o sempre, os que andam nas trevas dos que caminham na luz. Pela exibição ostensiva de suas culpas, os infiéis seriam expostos ao escárnio e ao desprezo dos considerados puros de coração. Quid enim magis persequitu vitam bonorum quam vita iniquinorum? Que coisa persegue mais a vida dos bons que a maldade dos maus?, indagava, em sermões, Afonso de Castelo Branco, bispo de Coimbra.

Na penumbra, antes dos primeiros raios da manhã, Gaspar e os demais sentenciados foram postos a caminhar em fila, pés descalços e velas amarelas nas mãos, cada um deles ladeado por dois servidores do Tribunal do Santo Ofício. À frente do grupo iam os frades dominicanos com seus hábitos brancos e negros, trazendo o estandarte da Inquisição (maldita), no qual constavam a cruz de madeira, símbolo da cristandade; a espada, distintivo do castigo contra os ímpios; e o ramo de oliveira, insígnia da benevolência com os pecadores arrependidos. Misericórdia e justiça, lia-se, a propósito, na divisa bordada às margens da flâmula.

Num cortejo subsequente à procissão dos condenados, planeado para sublinhar a autodeclarada dignidade de seus componentes, seguia a tropa de comissários do Santo Ofício, alguns à sela de cavalos ornamentados com penachos e arreios solenes. Abriam passagem para os mais altos dignitários da instituição, bem como para os juízes dos tribunais seculares e, por fim, para o inquisidor-geral, António Matos Noronha, por mercê de Deus e da Santa Igreja de Roma, bispo de Elvas,, gorro negro à cabeça, escoltado à luz de tochas empunhadas por nobres de destacada linhagem.

A fileira humana na qual marchava o inditoso Gaspar Rodrigues tinha início na saída dos cárceres do Tribunal, no Palácio dos Estaus, prédio mandado erguer em 1449 para albergar membros e convidados da corte, mas que desde 1571 servia de sede à Inquisição. Da praça do Rossio, a malta atravessou ruas e esplanadas centrais da cidade, sob os apupos e chacotas dirigidos pelos populares, até chegar ao Terreiro do Paço, defronte ao palácio real, junto ao Tejo. Ali, havia sido armado um cadafalso de madeira, estrutura em forma de palco flanqueada por um conjunto de arquibancadas, reservadas aos sentenciados. À margem do quadrilátero, espalhada por toda a redondeza, uma multidão aguardava, excitada, a chegada do préstito ao lugar no qual seria celebrada a sequência do auto de fé, ritual maior da Inquisição, evento carregado de simbologias encenadas de modo minucioso para despertar sentimentos de respeito, admiração e temor. Parece muito aceitado celebrar essa solenidade nos dias festivos, sendo proveitoso que muita gente presencie o suplício e o tormento dos réus para que o medo os retraia do delito, previa o Directorium inquisitorum, o Manual dos inquisidores.

O vozerio do populacho era entrecortado pelo repicar dos sinos das igrejas, pelo estrépito das matracas e pelo entoar contínuo de cânticos religiosos, a exemplo do Te Deum laudamus (Nós te louvamos, Senhor) e o Veni Creator Spiritus (Vem, espírito criador), sobreposição de sons que conferia uma atmosfera ainda mais fragorosa ao espectáculo, a essa altura já iluminado pelo lusco-fusco do alvorecer.

Era costume o próprio rei, sentado ao lado da rainha e dos filhos, assistir à cerimónia do alto das janelas do palácio, convertidas em camarotes. Porém, havia dezasseis anos isso não ocorria, pois desde 1581 Portugal passara a ser governado pelo monarca espanhol, Filipe II, decorrência da União Ibérica, instituída após a crise dinástica provocada pelo trágico desaparecimento do jovem Sebastião na batalha contra os mouros nas areias do Marrocos. Com Filipe II governando a partir de Madrid, os lugares da sacada real, durante os autos de fé realizados em Lisboa, passaram a ser honrados pela assistência do Conselho de Governadores do Reino». In Lira Neto, Arrancados da Terra, Penguin Random, chancela Objectiva, 2021, ISBN 978-989-784-257-3.

 

Cortesia de PenguinRandom/Objectiva/JDACT

 

JDACT, Lira Neto, Literatura, Judeus, Religião, Conhecimento,  

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Em Busca da Arca da Aliança. Graham Hancock. «Ouvi dizer que, segundo uma tradição etíope, a Arca da Aliança está aqui guardada... nesta capela. Também ouvi dizer que o senhor é o seu guardião»

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Etiópia. 1983. Lenda

Inicio: 1983

«Começava a escurecer e a arrefecer nas montanhas da Etiópia quando o monge apareceu. Curvado sobre o seu bordão de orante, saiu pela porta da capela do santuário, arrastando-se na minha direcção, e escutou atentamente as apresentações. Falando em tigrina, a língua local, procurou esclarecimentos acerca da minha pessoa e dos meus motivos junto do meu intérprete, de que país eu vinha. de que me ocupava,  se era cristão, o que queria dele?

Eu respondi pormenorizadamente a estas perguntas, procurando vislumbrar os detalhes do rosto do meu inquisidor, ao mesmo tempo que falava. Os seus olhos cavados estavam velados por cataratas leitosas c a sua pele negra sulcada de linhas profundas. Tinha barba e. provavelmente. era desdentado, já que a sua voz, apesar de ser clara, sibilava de urna forma estranha. No entanto, eu podia estar certo de algumas coisas, ele era um ancião, talvez tão velho como o século, mas lúcido. e cujo interesse por mim não constituía mera curiosidade. Só condescendeu em apertar-me a mão quando satisfez completamente a sua necessidade de informação a meu respeito. A sua pele era seca e delicada como papiro e do seu manto grosso, desprendia-se, ténue mas distinto. o odor sagrado do incenso.

Depois de cumpridas todas as formalidades, fui direito ao assunto. Apontando na dirccção do edifício que se distinguia no horizonte enevoado por trás de nós. eu disse: Ouvi dizer que, segundo uma tradição etíope, a Arca da Aliança está aqui guardada... nesta capela.  Também ouvi dizer que o senhor é o seu guardião. É verdade? É verdade. Mas. no estrangeiro, ninguém acredita nisso. Aliás, são poucos os que conhecem as vossas tradições. Mas, aqueles que as conhecem. Dizem que não é verdade.

As pessoas podem acreditar naquilo que quiserem. Podem dizer o que quiserem. Mas, a verdade é que nós possuímos a Tabot sagrada, quer dizer, a Arca da Aliança, e que eu sou o seu guardião... Deixe-me ver se percebo bem, disse eu. O senhor está a referir-se à Arca da Aliança original, à arca de madeira e ouro na qual Moisés depositou os Dez Mandamentos?

Sim. Foi o próprio Deus que escreveu as dez palavras da lei em duas tábuas de pedra. Depois, Moisés colocou essas tábuas na Arca da Aliança que acompanhou os israelitas ao longo da travessia do deserto e durante a conquista da Terra Prometida. Ela deu-lhes sempre a vitória e fez deles um grande povo. Por fim, depois de ter acabado a sua obra, o rei Salomão depositou-a no Santo dos Santos do Templo que tinha construído em Jerusalém. E foi daí que, pouco depois, ela foi removida e trazida para a Etiópia. ..» In Graham Hancock, Em Busca da Arca da Aliança, 1992, Editorial Presença, 1998, ISBN 972-232-364-4.

Cortesia de EPresença/JDACT

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terça-feira, 6 de junho de 2023

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «Ele franziu o sobrolho e dirigiu-se para o seu quarto. Uma semana mais tarde, descobri a resposta ao paradoxo de meu tio. Tivesse eu compreendido mais cedo, teria podido mudar em ouro o nosso destino de chumbo?»

 

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A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco

«(…) Ao lado da jovem estava um mastim, vestido com uma indumentária de trovador azul e amarela. No fundo vermelho da carruagem repousava um cofre de prata. Mas só me apercebi destes últimos pormenores quando o castelhano ordenou ao cocheiro para seguir. Afastei-me a observar a cena, como muitas vezes faço para a imprimir vividamente no que meu tio chama a minha memória de Tora. Quando a porta se fechou, o fidalgo inclinou-se para mim através da janela e murmurou numa voz com cheiro a vinho:

Não tenhas medo. O teu amigo não morre durante as festas. E para os cocheiros gritou: - Toca a andar! Temos aqui um ferido! No meu coração a curiosidade e a apreensão disputavam-se enquanto os cocheiros chicoteavam os cavalos. Quem seriam aqueles castelhanos? Saberiam que éramos judeus secretos?! Estaria o fidalgo a troçar de mim ou antes a revelar-me a sua afinidade? Por instantes, ainda vi uns dedos tão delicados como os de uma criança agarrados à janela da carruagem até ela desaparecer ao fundo da rua. Correram então uma cortina que silenciou as minhas questões.

Encontrei meu tio no pátio, a jogar xadrês  com Farid. Tinha no regaço o xaile cuidadosamente dobrado, com os tefelins por cima. Antes que as minhas forças sejam dizimadas por este pagão, vamos ao hospital ver se Diego está a ser bem tratado, disse-me, mal me avistou. Farid, lendo-lhe os lábios, riu-se. Como queríamos vestir roupas para sair, dirigimo-nos a casa e, ao entrar na cozinha, perguntei-lhe porque dissera que o ataque a Diego podia ter sido planeado.

O que é que vive durante séculos, mas que pode morrer ainda antes de nascer?, perguntou, à laia de resposta. Nada de enigmas, queria era que me respondesse, disse eu, rolando os olhos.

Ele franziu o sobrolho e dirigiu-se para o seu quarto. Uma semana mais tarde, descobri a resposta ao paradoxo de meu tio. Tivesse eu compreendido mais cedo, teria podido mudar em ouro o nosso destino de chumbo? Escolhemos um caminho que bordejava o rio, pois a inconstância do vento atormentava-nos agora com o cheiro de uma das esterqueiras da cidade fora das muralhas. Os cemitérios estavam a abarrotar e ultimamente os escravos africanos que morriam eram atirados para cima dos montes de esterco. Tudo o que os abutres e os lobos não conseguiam apanhar a tempo entrava em putrefacção, o que, misturado aos excrementos, produzia um fedor de pesadelo que nos causticava a pele e os ossos como algum ácido desconhecido.

Ao passarmos na Porta do Chafariz dos Cavalos, ocorreu-me ao espírito o arrepio metálico que os portões da judiaria Pequena provocavam quando encerravam os judeus durante a noite. Um brado vindo de cima fez-nos voltar. Do cimo dos degraus da Sinagoga, o nosso antigo rabino, Fernando Losa, fazia-nos sinal para esperarmos. Depois da sua conversão, tinha-se tornado num mercador de alfaias do culto cristão, sendo mesmo o fornecedor do bispo de Lisboa, maldito seja. Só nos faltava mais este, resmunguei  Que terrível pecado estaremos a expiar?» In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

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segunda-feira, 5 de junho de 2023

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «Senhoria, o novo Hospital de Todos-os-Santos fica já ali no Rossio, disse eu A menos de cem jardas do vosso destino. Diego tinha uma compleição de urso, com mais de seis pés de altura…»

 

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A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco

«(…)  Há levitas sem barba, observei, mas Diego limitou-se a gemer. Dirigindo-me a meu tio, sussurrei: Um ataque em pleno dia. É mau sinal. Mais umas semanas de seca e...  Como podes ter a certeza que não foi planeado?, disse meu tio num tom irado. Ia a perguntar o que queria dizer, mas uma sombra projectando-se sobre nós suspendeu as minhas palavras. Dois homens a cavalo conduzindo uma carruagem branca e dourada fitavam-nos do alto. Os capacetes prateados e as grevas cintilavam com os raios do sol. Pendões escarlates e verdes decorados com as armas do rei drapejavam na brisa seca.

Que desordem vem a ser esta?, perguntou asperamente um deles. Foi só nesse momento que reparei que meu mestre envergava ainda as suas vestes rituais, com um xaile azul e branco por cima dos ombros, o braço esquerdo envolvido nas fitas dos seus tefelins e uma caixinha de orações em couro colocada na fronte por cima do seu olho espiritual. Tal infracção podia valer-lhe o exílio como escravo na África portuguesa. Através de gestos nas costas, fiz sinal a Farid para o levar dali.

Feriram este homem’ disse eu. És cristão-novo?!, perguntou o cavaleiro. O meu coração deu um salto, quase me forçando a negar. Pelo canto do olho, avistei Farid arrastando consigo meu tio através da multidão. Perguntei-te se eras cristão-novo!, repetiu o cavaleiro num tom ameaçador. Atrás dele, a porta da carruagem abriu-se. Um silêncio cobriu a multidão. Vimos sair um homem magro, delicado, com uma túnica violeta e calças soladas de duas cores, preta e branca. A gola franzida de seda dourada parecia oferecer a sua face descarnada e maléfica como se fosse uma bandeja. Os seus olhos negros vigiavam a multidão como à procura de um inocente para o punir.

Levamo-lo connosco. Deve haver um hospital perto dos Estaus, disse num castelhano imperioso, agitando a mão onde se viam dois anéis de cabuchão de esmeralda do tamanho de amêndoas. O  Palácio dos Estaus, uma construção torreada de pedra cintilante, servia de pousada aos nobres em visita oficial a Lisboa.

Senhoria, o novo Hospital de Todos-os-Santos fica já ali no Rossio, disse eu A menos de cem jardas do vosso destino. Diego tinha uma compleição de urso, com mais de seis pés de altura, e foi preciso um guarda e um dos cocheiros de ar mourisco para o conseguir levantar. No interior da carruagem, face ao fidalgo castelhano, sentava-se uma dama jovem com uma trança arranjada em bico e com um vestido de seda cor-de-rosa. Era loira, de tez clara e face redonda. Inclinou-se para Diego com uma expressão de genuína inquietação e o seu olhar inteligente fitou-me à procura de uma explicação.

Assaltado por marinheiros estrangeiros, menti. Impressionou-me o seu súbito olhar de surpresa, a impotência do seu desespero, e a familiaridade do seu rosto baniu a noção de tempo, tal uma intuição penetrante, uma shefa, um influxo da graça de Deus. Semelhava um versículo da Tora que subitamente se tivesse despojado das suas roupagens e se nos revelasse num rasgo de nu entendimento». In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

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terça-feira, 23 de maio de 2023

O Último Cabalista de Lisboa. Richard Zimler. «É esta maldita barba!, resmungou meu tio. Não consigo chegar à ferida. O Doutor Montesinhos vai ter de te cortar a barba, disse ele para o ferido. Diego, que pertencia à casta sacerdotal de Levi, ao ouvir isto, deu-nos um empurrão…»

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A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco

«(…) O impressor Diego foi o primeiro a contribuir para o rio de sangue que durante os dias que se seguiram haveria de nos conduzir à paisagem de um deserto apenas rodeado de mágoa. Mas por enquanto essa geografia de morte era ainda um segredo para nós. Pela sua fronte corriam torrentes de suor e as faces estavam sujas das marcas da eterna poeira da cidade. O sangue do corte no queixo fluía pelo pescoço. Por entre ataques de tosse, procurava recuperar o fôlego. Andava a passear por aqui... só um passeio, disse ele em português. Parei perto do rio, no Chafariz d’El-Rei a lavar as mãos.

Tia Ester desapertou-lhe a gola do gibão enodoado e limpou-lhe o peito com um farrapo que rasgou da sua blusa. Reparei no traço escuro de uma cicatriz antiga que tinha no peito, por baixo da clavícula, que parecia ter sido escavada por algum bicho. Em torno a nós, começaram a juntar-se vizinhos, a bisbilhotar entre si. Dois rapazes..., continuou Diego. Começaram aos berros que eu estava a envenenar o poço com essência de peste. Desataram a correr atrás de mim. Caí. Atiraram-me pedras. Apanhem o rabino de rabicho! Apanhem o rabino... Quem me salvou foi um homem moreno com um gorro azul. Era alto, forte... No seu desespero, as últimas palavras procuravam o socorro do hebraico. Fala português, murmurei-lhe, enquanto o deitávamos no empedrado da rua.

O turbante de Diego tombou e reparei então pela primeira vez, por entre os tufos de cabelo que lhe cobriam as orelhas e que começava a rarear e a ficar grisalho, os sinais que cobriam a sua cabeça. Tinha-lhe caído um papel dobrado. Pensando que podia ser alguma mensagem ou alguma fórmula de orações que o poderiam incriminar como judeu praticante, apanhei-o e enfiei-o na grande bolsa que sempre trazia pendurada ao pescoço e me servia como uma espécie de bornal. Judas encostava-se a mim, gelado de medo, e tive de o sacudir para que fosse chamar o Doutor Montesinhos. Meu tio reuniu-se a nós e, depois de uma breve oração, disse: Vou lá dentro ver se posso arranjar algum remédio.

Ainda tentei manter fechado o lanho, com os dedos apertados em torno da ligadura improvisada de minha tia, mas o tecido depressa ficou tinto de sangue. Tia Ester foi a correr buscar água limpa, enquanto eu rasgava tiras da minha camisa para substituir as ligaduras. Meu tio chegou com Farid. Traziam extractos de consolda, bagas de loureiro, gerânio, goma e argila, goma arábica e água sulfurosa. Mas apesar de todas estas substâncias adstringentes, o sangue não coagulava.

É esta maldita barba!, resmungou meu tio. Não consigo chegar à ferida. O Doutor Montesinhos vai ter de te cortar a barba, disse ele para o ferido. Diego, que pertencia à casta sacerdotal de Levi, ao ouvir isto, deu-nos um empurrão. Não o permitirei!, gritou em hebraico. Tenho de ter barba. É proibido...» In Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa, 1996, Quetzal Editores, Lisboa, ISBN 978-972-004-491-4.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

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domingo, 15 de janeiro de 2023

Os Anagramas de Varsóvia. Richard Zimler. «Para dizer a verdade, Gloria tinha ares de quem precisava de um banho quente seguido de uns bons goles de uísque, mas, por outro lado, o mesmo se podia dizer de quase todo mundo que eu conhecia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O dia 17 de Fevereiro de 1941 foi uma segunda-feira. De manhã fazia um frio horrível, 14 graus abaixo de zero. Stefa estava com dor de garganta, febre e uma irritação na pele do peito que mais parecia acne. Finalmente, concordou que Adam podia ficar em casa e faltar à escola. Mas não estava disposta a juntar-se a nós e tirar o dia de folga. Tomou umas aspirinas e, apesar das minhas ameaças de amarrá-la à cama, empurrou-me para o lado e esgueirou-se para o trabalho. Embrulhei Adam numa pilha de cobertores e, por insistência dele, pus a gaiola de Gloria mais perto do aquecedor, aos pés de nossa cama. Depois da sopa de couve que fiz para o almoço, que ele e eu comemos ainda de luvas, Adam pôs na cabeça o cocar que a mãe fizera para ele com penas de galinha e anunciou que ia sair. Uma ova!, desiludi-o. Mas estou entediado! E eu, com uma periquita aleijada e um garotinho atrevido de 9 anos como única companhia, acha que não estou? Lançou-me o seu habitual olhar assassino. Bela tentativa, Winnetou, disse eu, usando o seu nome índio, mas o mau-olhado dos Cohen não funciona com outros membros da tribo. Vá ler um livro.

Estou farto de ler! Lágrimas de chantagem brilharam-lhe nos olhos. Ouça, Adam, disse eu, mais suavemente, quando conseguirmos arranjar um pouco de carvão, você poderá sair outra vez. Para tentá-lo, acrescentei: Posso começar a ensinar-lhe álgebra hoje, se quiser. Álgebra é para estúpidos! Então dê alguma comida à Gloria. Ela pareceu estar com fome, da última vez que a vi. E tenho certeza de que está ainda mais entediada do que você. Para dizer a verdade, Gloria tinha ares de quem precisava de um banho quente seguido de uns bons goles de uísque, mas, por outro lado, o mesmo se podia dizer de quase todo mundo que eu conhecia.

O menino me fez uma careta e me virou as costas; segurei-o pelo braço. Quando se libertou, se debatendo, senti a fúria invadir-me como metal derretido e dei-lhe uma palmada no traseiro com mais força do que pretendia, atirando-o contra as estantes. O cocar caiu, e uma pena da frente soltou-se. Ficamos olhando um para o outro, paralisados, como se um meteoro tivesse caído entre nós dois. Deixei-me cair no chão como um enorme trapo amarrotado. Minhas lágrimas o assustaram. Veio sentar-se de mansinho no meu colo, pedindo desculpa. Murmurei que a culpa não era dele e apanhei o cocar. Disse-lhe que podia ir brincar lá fora se se vestisse o mais quente possível. Quando foi buscar o gorro de lã e eu o enfiei em sua cabeça, obriguei-o a prometer que não sairia da nossa rua nem que os marcianos aterrassem na Grande Sinagoga e o chamassem pelo nome para negociarem um tratado de paz.

Quando percebi que o sol já se tinha posto, pousei o livro e olhei para o relógio: eram exatamente 16h27. Nunca me esquecerei dessa hora. Adam já tinha saído havia mais de duas horas. Deixei um bilhete em cima da cama de Stefa dizendo que tinha ido à procura dele e preguei outro na porta da entrada, avisando a Adam que fosse pedir a outra chave a Ewa, na padaria, se chegasse em casa antes de mim. O menino não estava na nossa rua, e não consegui encontrá-lo em nenhum dos terrenos cobertos de ervas em que costumava brincar, por isso fui ao apartamento dos pais de Wolfi, mas quando bati à porta ninguém respondeu. Consegui localizar Feivel e outros dois amigos de Adam, mas não o tinham visto. Quanto aos lojistas da zona, todos menearam a cabeça. No caminho para casa, comecei a imaginar que ia encontrar Adam esquentando as mãos junto ao nosso aquecedor, com Gloria pousada na cabeça. Eu lhe diria que nunca mais o deixaria se perder de vista, o que, na minha opinião, era a moral da história.

Mas o apartamento estava vazio. Para me acalmar, tomei os meus últimos comprimidos de Veronal. Teria continuado a tentar contactar os pais de Wolfi, mas a essa altura os nazis já tinham cortado nossos telefones. Quando Stefa chegou, ficou furiosa comigo por ter deixado o menino sair do apartamento. Apesar da sua febre e das minhas súplicas, saiu porta afora à procura dele. As roupas de Adam estavam sempre espalhadas pelo nosso quarto, por isso comecei a recolhê-las. Quando estava dobrando o pijama, ergui o casaco de flanela e enterrei a cabeça nele, inspirando o seu perfume de lavanda. O pânico que apertava minhas entranhas me dava a sensação de estar me afogando. Arrumei as roupas na cômoda dele e fiz uma sopa de cebola para o jantar. Quando ficou pronta e a mesa, posta, sentei-me com seu livro de esboços à frente e passei os dedos sobre os desenhos que ele fizera de Gloria até ficar com as pontas dos dedos todas manchadas de azul e amarelo.

Num dos esboços, ele desenhara Gloria com um longo cachimbo castanho no bico e um tufo de cabelo grisalho e espetado no topo da cabeça. Fiquei olhando fixamente para aquela página, tentando em vão afastar os pesadelos que minha mente ia inventando: Adam espancado por um guarda nazista, atropelado por uma carroça… Stefa voltou para casa sozinha, pouco depois da meia-noite. Tinha inchaços em volta dos olhos, de pura aflição. Desapareceu, disse-me, deixando-se cair sentada ao meu lado na cama. O pânico pairava à volta dela como uma bruma fria». In Richard Zimler, Os Anagramas de Varsóvia, 2009, Editora Record, 2010, isbn 978-850-109-966-2, Porto Editora, Porto, 2015, ISBN 978-972-004-728-1.

Cortesia de ERecord/Porto Editora/JDACT

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Os Anagramas de Varsóvia. Richard Zimler. «Oito moças e quatro rapazes subiram em fila as escadas laterais do palco, irrequietos e aos empurrões, o que me fez recear uma descida aos infernos da música»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A essa altura, Adam já estava apaixonado. O repertório de Gloria consistia em comer, trinar, defecar e arrancar as penas do peito num frenesi neurótico, mas meu sobrinho colocava-a no ombro e ia passear com ela, como se fosse uma princesa encantada transformada em pássaro. Quando Stefa não estava em casa, chegava a pô-la em cima da cabeça. Gloria parecia gostar de viajar num poleiro saltitante feito de cabelo louro cheirando ao nosso último sabonete de lavanda, mas será que alguém sabe o que pensa de facto uma periquita nos intervalos entre as refeições? Para Adam, a alegria tinha penas. E depois de algum tempo, percebi que havia alguma coisa de tocante e encorajador em Gloria, talvez porque sua inutilidade total e irremediável fosse a prova de que ainda podíamos ter pelo menos um luxo.

O coro de Adam fez a sua primeira apresentação em 28 de Janeiro, na escola de dança Weisman, situada na rua Pańska. Estourara um cano nessa manhã, e apesar de os organizadores terem secado a água freneticamente com panos de chão, ainda havia umas poças espalhadas pela sala. No público estavam alguns amigos e conhecidos, incluindo o famoso pianista de jazz Noel Anbaum e Ewa, a quem Stefa, eterna casamenteira, arranjara um caso com Rowy, depois de estudar o rapaz num ensaio do coro. Segundo minha sobrinha, os dois já tinham saído juntos três vezes com imenso sucesso, e o olhar entendido que me lançou ao pronunciar esse veredicto revelou até que ponto eles já tinham se aventurado juntos.

Logo as luzes começaram a acender e a apagar, sinal para o público se dirigir aos seus lugares. Oito moças e quatro rapazes subiram em fila as escadas laterais do palco, irrequietos e aos empurrões, o que me fez recear uma descida aos infernos da música. Contudo, sob a batuta erguida de Rowy, os rostos dos meninos ficaram sérios, e cantaram as várias vozes dos corais de Bach como se fossem todos irmãos. Fechando os olhos, senti que, pela primeira vez em meses, tinha parado de me atirar como um louco contra as paredes da minha angústia de desalojado; estava exactamente onde queria estar. Tinha aterrado.

O primeiro bis foi El Male Rachamim, no solene arranjo feito pelo próprio Rowy, que deixou em lágrimas os mais religiosos do público. O segundo foi Don’t Fence Me In, sugestão de Adam. Ao fazer as vénias de agradecimento, meu sobrinho olhou para mim com uma seriedade tão adulta que me senti invadido pela admiração. Pela primeira vez, tive a sensação de que ele ia conseguir coisas magníficas na vida, e soube então que, ao protegê-lo, estava cumprindo a tarefa mais importante que me poderia ter sido atribuída durante o meu tempo no gueto.

No dia seguinte, a cidade foi varrida por uma frente de frio cortante. Adam perambulava pela casa em passo trôpego, de braços duros dentro das duas blusas e do casaco forrado de pele, membro militante de um corpo de pinguins judeus marchando através do gueto em direcção às suas escolas clandestinas. Comprei dois fogões de serragem; a essa altura o carvão já desaparecera, levado pelos alemães. Contudo, os novos fogões revelaram-se criminosamente ineficazes, e durante várias noites seguidas a temperatura no nosso apartamento só conseguiu subir até os 7 graus. Nessa época, uma doença insidiosa aviária deixara o olho esquerdo de Gloria de um branco leitoso, e Adam tinha certeza de que a culpa era da frente fria. Ficava arrasado sempre que pensava nela sendo chamada para o paraíso dos periquitos, e nada que fizéssemos era capaz de alegrá-lo.

Comecei a ir para a cama com um cachecol enrolado em volta da cabeça, como um turbante das Mil e Uma Noites. Os lençóis eram autênticas grutas de gelo, por isso, a fim de aquecê-los para o meu sobrinho, eu me deitava ao lado dele na cama durante 15 minutos e depois deslizava para o meu lado, chamando-o de sob os cobertores. Ele atirava-se para os meus braços batendo os dentes, e eu passava a noite com ele bem encaixado contra mim». In Richard Zimler, Os Anagramas de Varsóvia, 2009, Editora Record, 2010, isbn 978-850-109-966-2, Porto Editora, Porto, 2015, ISBN 978-972-004-728-1.

Cortesia de ERecord/Porto Editora/JDACT

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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Arrancados da Terra. Lira Neto. «O cemitério judaico de St. James Place é um dos poucos vestígios dessa aventura ainda envolta em brumas. Uma saga que, caso seja considerada, permite estabelecer uma ligação directa entre as fogueiras da Inquisição (maldita) na Península Ibérica…»

 

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«(…) Na Peter Minuit Plaza, que recebeu esse nome, aliás, em homenagem a um dos directores da comunidade holandesa em Manhattan, encontra-se outro portal do tempo para a história de que trata este livro. Logo à entrada da praça, na base do mastro onde luzem as estrelas e listas da bandeira dos Estados Unidos, uma placa inaugurada em 1954, no tricentenário de um episódio quase mítico ocorrido em Nova Amesterdão, apresenta a imagem de dois leões ladeando a estrela de David, símbolos do judaísmo. Logo abaixo deles, lê-se a inscrição:

EDIFICADO PELO

ESTADO DE NOVA IORQUE

PARA HONRAR A MEMORIA

DOS VINTE E TRÊS HOMENS, MULHERES E CRIANÇAS

QUE DESEMBARCARAM EM SETEMBRO DE 1654

E FUNDARAM A PRIMEIRA COMUNIDADE JUDAICA

NA AMÉRICA DO NORTE

Quem eram, afinal de contas, as tais 23 pessoas que aportaram em Manhattan no longínquo ano de 1654? Em que navio chegaram? De onde vinham? Seriam procedentes do Brasil, como muitos querem crer? Deixaram esses homens, mulheres e crianças evidências concretas, marcas incontestáveis da sua existência? É possível estabelecer, com solidez de fontes, as suas identidades e reconstituir as suas respectivas trajectórias? Ou não passará tudo de uma epopeia tão heróica quanto falsa, contrafacção histórica, mito de origem, como afirmam os investigadores mais cépticos?

É preciso procurar meticulosamente os fragmentos de um intrincado quebra-cabeça, para recompor as possíveis circunstâncias do episódio celebrado em bronze. Há peças desse enigma que não parecem encaixar, outras talvez permaneçam perdidas para sempre. Os documentos são esparsos, fugidios, exigindo múltiplos esforços de interpretação para produzir uma narrativa consistente, um relato que faça o mínimo sentido.

O cemitério judaico de St. James Place é um dos poucos vestígios dessa aventura ainda envolta em brumas. Uma saga que, caso seja considerada, permite estabelecer uma ligação directa entre as fogueiras da Inquisição (maldita) na Península Ibérica, a opulência da época de ouro dos Países Baixos, as guerras sangrentas do chamado Brasil holandês, e os primórdios da cosmopolita Nova Iorque. Como pano de fundo de toda essa trama, sobressai a vida eternamente à deriva dos que, para fugir à morte, se lançavam para os confins de outras terras e o desconhecido de novos mundos». In lira Neto, Arrancados da Terra, 2021, Penguin Random-House Grupo Editorial, 2021, chancela Objectiva, ISBN 978-989-784-257-3.

Cortesia de PRHGEditorial/JDACT

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quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Arrancados da Terra. Lira Neto. «… os nativos chamavam Manna-hata ouMan-a-ha-tonh (lugar onde se colhe madeira para fazer arcos [de flechas], segundo alguns; ilha de muitas colinas, para outros)…»

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«(…) Wall Street, a Rua da Muralha, recebeu esse nome devido à paliçada de madeira que existia na rectaguarda da povoação, para servir de protecção contra o ataque de índios, corsários, piratas e demais invasores. Constituído por estacas sólidas de pontas afiadas, com três metros de altura e cravado a mais de um metro de profundidade, o paredão tinha cerca de 700 metros de extensão. Atravessava a ilha de ponta a ponta no sentido longitudinal, do limite do East River às imediações da actual Trinity Church, a tradicional igreja anglicana na esquina de Wall Street com a Broadway, faixa de território então banhada pelas águas do rio Hudson (tudo a oeste dessa parte da ilha também é fruto de aterros posteriores).

No local em que havia a tosca amurada, os oito quarteirões da moderna Wall Street tornaram-se o símbolo máximo do poder financeiro. A exemplo do que ocorre nos demais cruzamentos da rua, a intersecção com Water Street é assinalada pela presença de executivos e trabalhadores de fatos sóbrios que se misturam com turistas de máquina fotográfica a tiracolo. A cada instante, do alto dos autocarros de dois andares apinhados de turistas, câmaras de telemóveis apontam em todas as direcções. Cinco cruzamentos adiante, deixando para trás os engravatados de ar impaciente e os forasteiros que caminham, abismados, de pescoço erguido, alcança-se a Peter Minuit Plaza, no ponto mais meridional da ilha.

Basta olhar em redor para constatar que quase ninguém se detém, por um minuto sequer, diante de um pequeno bloco de granito bruto a um dos cantos da praça. Nele está afixada a maquete em bronze de uma velha cidade colonial chamada Nova Amesterdão,- o nome com o qual os holandeses, primeiros colonizadores de uma região a que os nativos chamavam Manna-hata ouMan-a-ha-tonh (lugar onde se colhe madeira para fazer arcos [de flechas], segundo alguns; ilha de muitas colinas, para outros), baptizaram o que viria a ser Nova Iorque.

Embora seja detalhado, retratando casas de padrão holandês com telhados inclinados, sistemas de canais navegáveis, uma fortaleza à beira da água e até um típico moinho de vento, o mapa tridimensional em bronze não parece despertar a atenção dos passantes. Estes mostram-se mais interessados em seguir céleres para a esquerda, para apanhar o próximo ferry com destino a Staten Island, passeio com direito à visão das skyline de Manhattan sobre as águas; ou sobretudo à direita, a fim de enfrentar a fila quilométrica da bilheteira dos barcos que levam à Estátua da Liberdade. Mesmo entre os nova-iorquinos, a história de Nova Amesterdão ainda está rodeada por uma aura de mistério e desconhecimento. É provável que muitos dos cidadãos da ilha não associem as cores branca, azul e laranja da actual bandeira de Nova Iorque ao pavilhão tricolor da Holanda no século XVII, as mesmas que estão estampadas no escudo de uma das principais equipas de basebol da cidade, os New York Mets, assim como no emblema dos New York Knicks, a marca mais valiosa da NBA (National Basketball Association), segundo a revista Forbes». In lira Neto, Arrancados da Terra, 2021, Penguin Random-House Grupo Editorial, 2021, chancela Objectiva, ISBN 978-989-784-257-3.

Cortesia de PRHGEditorial/JDACT

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