Mostrar mensagens com a etiqueta História da Sexualidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História da Sexualidade. Mostrar todas as mensagens

sábado, 5 de maio de 2018

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «Apesar do seu propósito procriador, o casamento romano existe juridicamente mesmo que não seja consumado. A realização do acto sexual não é necessária à sua existência…»

jdact

A finalidade da procriação
«(…) O matrimonium romano é uma instituição que implica uma mãe (mater). Devemos a Benveniste o ter mostrado a singularidade do nome latino do casamento (matrimonium), que significa condição legal de mater: O casamento é o estado de mãe ao qual se destina a rapariga. A ideia que está implícita na palavra é a de que um homem se casa com uma mulher, in matrimonium ducere, para dela obter filhos, segundo a formulação legal. Ele pode ser dissolvido quer pela morte de um dos esposos, quer por separação (repudiação, divórcio). Uma das causas mais frequentes de repudiação de uma esposa pelo marido, a partir do século III a.C., é a sua esterilidade ou uma insuficiente fertilidade.
A mulher é, portanto, considerada pelos homens na sua capacidade para ser mãe. A antropóloga Françoise Héritier estima que todos somos submetidos a um mesmo modelo de representação que vem da nossa pré-história e ao qual chamo modelo arcaico dominante. Os homens têm necessidade de se apropriarem das mulheres para terem descendência e, sobretudo, uma descendência semelhante a eles, isto é, filhos homens. Portanto, elas foram tidas como um recurso. Neste ponto, nada distingue Roma das outras sociedades antigas, nem, de forma mais geral, da quase totalidade das sociedades humanas antes da emancipação das mulheres no mundo industrial contemporâneo. O que mais merece atenção, para além de todas as generalidades sociológicas que podem ser inspiradas pelo tema da mulher-mãe, é um facto de ordem institucional que, ele sim,. é original: o acontecimento que faz uma mulher aceder ao estatuto reconhecido pela sociedade de materfamilias já não é o parto, mas sim o casamento. Yan Thomas sublinha igualmente que o direito, forjando, para designar a esposa legítima, o nome materfamilias, constrói a maternidade da mulher como um estatuto que se realiza no único facto de estar unida a um paterfamilias: o código das dignidades institucionais desnaturaliza a maternidade para a absorver, ideal e ficticiamente, no estado de esposa de um cidadão maior. É a razão pela qual se diz mãe de família até mesmo de uma esposa que ainda não teve filhos.
Os romanos consideram convencionalmente o casamento como uma instituição necessária para o nascimento de filhos legítimos. Uma mulher é dada a um homem com o único intuito de procriar, de continuar a linhagem do esposo com descendentes legítimos. É este objectivo que define a mulher como uma esposa legal e a união como um casamento. No enunciado deste objectivo, é o ponto de vista masculino que predomina, claro e pragmático. A cidade e a sua sobrevivência precisam que os cidadãos se casem e produzam novos cidadãos. A satisfação do instinto sexual não é, portanto, a razão de ser do casamento, porque os homens podem licitamente satisfazer os seus desejos físicos sem recorrer ao casamento. A sexualidade conjugal tem como única finalidade a procriação. No século primeiro da nossa era, uma mulher a que se costuma chamar Túria, mas cujo nome é na verdade desconhecido, ilustra bastante bem a importância deste modelo tradicional do casamento nas mentalidades romanas.
No elogio fúnebre que lhe dirige o esposo, este recorda que ela lhe propôs o divórcio dado o casal ser estéril, mas que a isso ele opôs uma recusa veemente, em nome da fidelidade conjugal que os ligava indefectivelmente. Se um casal falha na tarefa de produzir filhos, a esterilidade é, em geral, imputada à esposa, e o marido pode unilateralmente divorciar-se. Quando Apuleio se casa com a rica viúva Pudentila em Oea, em meados do século segundo da nossa era, a finalidade do casamento ainda não mudou. O casal comporta-se plenamente de acordo com as normas romanas tradicionais, casando-se não ad lubidinem, não por sensualidade, mas com o intuito de ter filhos. Procurando justificar o facto de se ter casado com Pudentila no campo, ele lembra o valor simbólico de um casamento realizado no campo, num solo fértil, enquanto a cidade representa um lugar estéril.

Que aquela que deve ser mãe (mater futura) se case no próprio regaço maternal, por entre o trigo maduro, na gleba fértil [...].

A sexualidade conjugal está, assim, indissociavelmente ligada à procriação. Todavia, se não pode rimar com paixão, mas com razão e dever, ela pode ocupar um lugar importante em Roma. Com efeito, a actividade sexual no interior do casamento é natural, necessária e casta; possui um carácter sagrado. As esposas respeitáveis devem aceitá-la. Os maridos devem cumpri-la para perpetuar a raça, mesmo que lhe ofereça poucos atractivos.
Apesar do seu propósito procriador, o casamento romano existe juridicamente mesmo que não seja consumado. A realização do acto sexual não é necessária à sua existência, como Ulpiano e muitos outros juristas confirmam: não é o facto de se dormir em conjunto que faz o casamento, mas sim o consentimento. Uma outra razão, de ordem médica, pode justificar a necessidade de casamento. Por vezes, as relações sexuais permitem a recuperação da saúde. Pudentila, mulher de Apuleio, é disso um exemplo típico. No seguimento de um período de viuvez de catorze anos, Pudentila tornou-se, nas palavras de Apuleio, letárgica, devido a uma falta demasiado longa de relações sexuais, às quais ela estava bastante acostumada aquando do seu primeiro casamento. Pudentila sofre visivelmente de histeria, ainda que Apuleio não nomeie a doença exacta da esposa. O seu casamento com Apuleio é, portanto, um antídoto para os seus problemas de saúde femininos. Os médicos antigos pensam, de facto, que a abstinência sexual involuntária de uma mulher, se for prolongada, pode acarretar complicações físicas e, em casos extremos, uma sufocação histérica, à qual os latinos chamam doença da vulva (uuluae morbus),para não esquecer a epilepsias». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «O casamento romano é ele próprio baseado na noção de societas, comunidade de património e de vida entre duas pessoas de sexo oposto»

jdact

Um fundamento filosófico
«(…) Cícero, na sua obra filosófica Dos Deveres, concordando com os peripatéticos e com os estóicos, considera o casal como o grupo animal original do qual derivam todos os grupos maiores: a sociedade reside primeiro na união conjugal, e depois nas crianças. O casal e os seus filhos formam a unidade de base que serve para fazer nascer a cidade e o Estado. O casamento é, por assim dizer, o viveiro do Estado, e o seu objectivo é gerar crianças, liberorum creandorum causa, de acordo com a fórmula ritual. No princípio de De inuentione, Cicero, interrogando-se acerca da origem da eloquência, descreve o estado natural antes da civilização, quando os homens erravam ao acaso pelos campos à maneira dos animais e quando ninguém vira ainda casamentos legítimos: estes são um critério decisivo de civilização, e Cícero liga todo o desenvolvimento social à união dos dois sexos no seio da instituição do casamento.
Esse tema é igualmente tratado por Lucrécio num texto poético que mostra que o surgimento da civilização humana põe fim ao reino das pulsões sexuais cegas e incontroladas, canalizando-as pela instituição do casamento. Vénus juntava os corpos dos amantes nos bosques; com efeito, cada mulher cedia quer a um desejo recíproco, quer à força violenta do homem e à sua paixão imperiosa [...]. Antes da civilização, os seres humanos eram governados pelas suas pulsões (cupido et libido); conheciam apenas copulações fortuitas, à semelhança dos animais. A civilização traz consigo a vida em comum: a mulher, pelos laços do casamento, torna-se propriedade de um único esposo. Este fundamento filosófico do casamento é ridicularizado, com humor, mas também com uma certa provocação, pelo poeta elegíaco Ovídio, que apresenta, pelo contrário, o primeiro acto sexual como o meio de civilizar os homens primitivos selvagens e que insiste no prazer sentido pelos animais fêmeas ao copularem: no início havia uma massa confusa de coisas, sem qualquer ordem [...]. O género humano errava, solitário, pelos campos [...] e durante muito tempo os homens ignoravam-se uns aos outros. Diz-se que foi a voluptuosidade fagueira que lhes suavizou as almas bravias; um homem e uma mulher encontraram-se num mesmo lugar; o que ambos fizeram aprenderam por si mesmos, sem qualquer mestre; Vénus realizou o seu doce ofício sem qualquer manual.
Não é o casamento que traz a civilização aos olhos de Ovídio, mas sim a paixão sexual, o que Lucrécio, por seu turno, associa ao estado primitivo do homem selvagem. Esta passagem de Ovídio contém algumas evidentes reminiscências do poema de Lucrécio, mas sustentando deliberadamente o oposto da demonstração epicurista a propósito da natureza do amor. Lucrécio pinta a paixão sexual como uma força destrutiva que é preciso evitar a qualquer preço, porque impede o homem de atingir a ataraxia; ele aceita o acto sexual unicamente quando este é necessário para a reprodução. Virgílio, igualmente, mostra no conjunto da sua obra poética que o desejo sexual conduz a um comportamento irracional, violento, que leva à loucura furiosa (furor) e à raiva (rabies). A Vénus ovidiana, pelo contrário, tem o apanágio da doçura e constitui-se como o agente da concórdia entre os amantes. O acto sexual é o melhor meio de apaziguar uma amante ciumenta e irritada. Não são as palavras que podem dissipar uma querela de apaixonados, mas os prazeres de Vénus, gaudia Veneris. Ovídio parece apresentar aqui, de maneira séria, uma doutrina científica segundo a qual o acto sexual é eficaz para trazer a paz aos dois parceiros, mas, na realidade, o jogo intertextual com Lucrécio e Virgílio, que demonstram o contrário, ilustra o carácter incongruente e discrepante das suas afirmações, característica da sua escrita poética.
Apesar deste jogo poético subversivo, o casamento surge habitualmente como uma instituição fundamental sobre a qual assenta o equilíbrio da sociedade romana. O casamento romano é ele próprio baseado na noção de societas, comunidade de património e de vida entre duas pessoas de sexo oposto. Esta parceria entre o homem e a mulher exclui a poligamia, que parece recolher um julgamento negativo, ainda que raros sejam os autores que a ela façam alusão. A poligamia é uma instituição própria dos bárbaros. É Salústio quem exprime mais claramente o seu desprezo pelas sociedades poligâmicas dos númidas e dos mouros, nas quais nenhuma esposa ocupa a posição de parceira igual: [...] cada um, de acordo com os seus recursos, tem o maior número de esposas possível, uns dez, outros mais, e os reis mais ainda. Assim, o espírito é assediado pela quantidade; nenhuma obtém o estatuto de associada, todas são igualmente sem valor. Já Tácito faz o elogio dos casamentos dos germanos, porque estes últimos, quase únicos entre os bárbaros, se contentam em ter apenas uma esposa, com a excepção de alguns que, não por sensualidade (libido), mas devido à sua nobreza, são invadidos por numerosas propostas de casamento». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A Paixão segundo Constança H.. Maria Teresa Horta. «Tenta adormecer. Morrer seria um bálsamo? Revê-se em cada linha que lê»

jdact

«(…) O silêncio morre fora dali. Daquele enclausuramento de paixões e inquietação, o suor a escorrer entre os seios, a subir na pele das virilhas gretadas. Dos lábios gretados da boca e da vagina. Tenta adormecer. Morrer seria um bálsamo? Revê-se em cada linha que lê. Reconhece-se em cada parágrafo: na mudez de Maina ou na insanidade apaixonada de Lola Valérie Stein, na imponderabilidade de Mariana Alcoforado... E permanece acordada, madrugada dentro, rememorando as cartas que lhe traziam o seu nome de volta e o de Henrique, como se ao longo dos séculos se tivessem encontrado, ciclicamente amado e morto. Dilaceradamente. Quando começa a gemer alto, a enfermeira aparece com a seringa na mão e injecta-a, enquanto ela pede em vão que o não faça. Não quer conhecer de novo aquele espaço negro onde se afunda a caminho do nada. (A lama pardacenta, que continua dentro de mim).

Senhor meu Marido
Escrevo esta missiva para vos comunicar que cheguei sem novidade e encontrei todos de boa saúde e muito contentes com a minha vinda. Sobretudo a prima Dora que, segundo já me deu a entender, se aborrece bastante por cá, sozinha com as tias. Na verdade a viagem foi penosa para mim, Nunca sabereis com que sacrifício cumpri as vossas ordens, vindo. Afinal afastar-me de casa para quê e porquê? Falais de desobediência..., mas eu acato sempre as vossas ordens e os vossos desejos! E a verdade é que não percebo o que será mais triste, se esta minha obediência, se o vosso mando. Sei que ireis ficar zangado com o que vos escrevo, mas aqui longe, por escrito, tenho mais coragem para dizer o que penso, torna-se mais fácil enfrentar certas coisas que por hábito calo. Por certo que até já me haveríeis batido se me tivesse atrevido a dizer-vos tudo isto antes de partir. Vou pedir à prima que me deite estas linhas no posto, pois hoje fiquei na cama com febre e dores de cabeça. Como costumais dizer, ah!, as tuas dores de cabeça!
Podeis crer que não desejaria de modo algum ser um fardo, como já mo foi claramente dito... Então não me restam dúvidas sobre o que o senhor meu marido pensa a meu respeito. Mas um casamento é para toda a vida, ensinou-me minha mãe. E assim será connosco. Sem mais, sou atentamente vossa.
Constança H.» In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

terça-feira, 27 de junho de 2017

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «… a sociedade reside primeiro na união conjugal, e depois nas crianças…»

jdact

O dever cívico do casamento
«(…) Não sabemos quais seriam os hábitos matrimoniais nos primeiros tempos de Roma. Este período, perdido nas brumas de um longínquo passado sem rasto escrito, só nos é acessível através do prisma de alguns mitos relatados por Tito Lívio no início da sua História de Roma. O relato mitológico do rapto das sabinas funciona como um dos mitos vitais da cidade. Os companheiros de Rómulo, instalados no Lácio, não têm mulheres. Ora, o futuro da cidade que estão a edificar depende da posteridade desses primeiros colonos. Precisam de mulheres para conceber. Porém, os povos vizinhos, nomeadamente os sabinos, opõem-se a dar as suas filhas em casamento àqueles aventureiros, que decidem então conseguir companheiras por meio de um estratagema e de violência. Rómulo convida os vizinhos para um espectáculo de jogos; os sabinos aceitam o convite e vão com as mulheres e os filhos. A um sinal previamente acordado, os romanos precipitam-se para raptar as jovens sabinas e, posteriormente, casar com elas. Este relato lendário oculta, talvez, factos verdadeiros. Os ataques maciços de aldeia em aldeia para conquistar mulheres não são desconhecidos nas sociedades primitivas, e é possível que os primeiros habitantes de Roma tenham recorrido a tais práticas.
Pode ser também uma lenda que perpetua apenas a lembrança de um rito muito antigo. Este relato foi alvo de múltiplas interpretações. Enquanto Plutarco indica que, na época de Rómulo, as práticas são estritamente endógamas no quadro gentilício, outros houve que viram nele um rito de exogamia. Georges Dumézil analisa-o como um mito funcional indo-europeu. Os sabinos e o seu rei Tácio representam a função de fecundidade, a terceira função social face às duas mais importantes, a função religiosa e a função bélica assumidas por Rómulo e pelos seus companheiros. A aliança entre Rómulo e Tácio dá origem à criação de uma sociedade completa onde estão reunidas as três funções indo-europeias. O casamento e a mulher que se torna mãe de família são o meio e o órgão da fecundidade regulamentada.
No século V a.C., a proibição do casamento entre patrícios e plebeus teria figurado em uma das XII Tábuas. O tribuno C. Canuleio reclama em440 a.C. para os plebeus o direito ao casamento com patrícios, provocando o protesto destes, que se escandalizam com a abolição de todas as distinções sociais. Porém, o tribuno leva a melhor; a Lei Canuleia, que autoriza os casamentos entre patrícios e plebeus, é votada. A vitória dá origem, no plano social, a um resultado muito importante: por meio dos casamentos mistos, a elite das famílias plebeias pode começar a aceder à direcção do Estado. Na época republicana, podem, portanto, recorrer à instituição cívica do casamento todos aqueles que são cidadãos, homens e mulheres adultos de condição livre, bastardos de mãe cidadã e, a partir do final da República, os antigos escravos libertos, que doravante podem casar-se legalmente com uma pessoa de nascimento livre, com a condição de não pertencer aos graus de parentesco proibidos. A lei é clara quanto a este ponto: os cidadãos romanos contraem matrimónio (conubium) com cidadãos romanos; com latinos e estrangeiros, se tal for permitido; com escravos não existe qualquer casamento (são o resumo de um manual atribuído a Ulpiano, compilado no final do século III ou no princípio do século IV da nossa era por um jurista desconhecido, a partir de obras de Ulpiano e, talvez, de outros juristas clássicos; ainda que de redacção tardia, estes Tituli apresentam a doutrina dos juristas e dos administradores do final do século II e do principio do século III d.C., assim como a sua visão retrospectiva do sistema legal romano). A partir do principado de Augusto, este quadro geral sofre algumas proibições que dizem respeito aos senadores, aos seus filhos e aos seus netos, os quais não podem casar-se com libertas, actrizes ou prostitutas. Pelo contrário, um cavaleiro pode casar com uma liberta. O casamento com uma prostituta continua a ser proibido a todos os cidadãos de condição livre. Um governador de província apenas pode casar com uma habitante da província por si administrada após o fim do seu mandato. Todas as classes sociais devem evitar a disparidade de nascimento entre marido e mulher.

Um fundamento filosófico
Cícero, na sua obra filosófica Dos Deveres, concordando com os peripatéticos e com os estóicos, considera o casal como o grupo animal original do qual derivam todos os grupos maiores: a sociedade reside primeiro na união conjugal, e depois nas crianças. O casal e os seus filhos formam a unidade de base que serve para fazer nascer a cidade e o Estado. O casamento é, por assim dizer, o viveiro do Estado, e o seu objectivo é gerar crianças, liberorum creandorum causa, de acordo com a fórmula ritual. No princípio de De inuentione, Cícero, interrogando-se acerca da origem da eloquência, descreve o estado natural antes da civilização, quando os homens erravam ao acaso pelos campos à maneira dos animais e quando ninguém vira ainda casamentos legítimos: estes são um critério decisivo de civilização, e Cícero liga todo o desenvolvimento social à união dos dois sexos no seio da instituição do casamento». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, tradução de Tiago Marques, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A Paixão segundo Constança H. Maria Teresa Horta. «Ouve o arrastar dos passos das doentes do lado de fora do quarto, ao longo do corredor»


jdact



«(…) «É aqui, que a febre da loucura aumenta Que o grito se contém mas nunca se contenta»

«Encontrara, entre os papéis da avó que o pai lhe passara, rascunhos de poemas e aquelas estranhas cartas, com letras diferentes, mas todas com a mesma assinatura: Constança H. Cartas como se tivessem sido escritas em épocas diferentes, mas para um mesmo homem: Henrique. Cartas curtas e amareladas, no seu papel quase amarrotado, numa tinta desbotada, como que a dissimular as emoções das palavras.
Guarda-as consigo, sem tentar sequer desvendar o mistério. Inquieta, lê-as vezes sem conta, procurando uma qualquer razão para a coincidência.
Mostra-as a Henrique, que lhe pergunta se foi ela que as escreveu; olha-o, curiosa, vendo-o um pouco pálido; fazendo por disfarçar o tremor das mãos onde as cartas da avó parecem querer esvoaçar. Tira-lhas e vai guardá-las, fechadas na gaveta da escrivaninha do quarto, para logo as voltar a tirar, relendo-as como se quisesse decorar o que lá está escrito. Dito.
Agora pensa nessas cartas e acha-as diferentes, com um sentido novo e maléfico. Como se com elas tivesse herdado um destino que vinha de trás: muito antes mesmo de ter nascido?
Mesmo quando não se lembra de mais nada rememora-as, mas cala-se sobre elas, porque as sente como um segredo guardado entre ela e a avó. Um elo. Não eram cartas só de amor: eram sobretudo de medo. De um temor avassalador pela paixão, ou por aquilo a que a paixão poderá obrigar. Uma insubordinação submersa? Sim, em todas elas, mesmo naquela que podia ser considerada cronologicamente a primeira e onde a submissão parece todo o tempo latente e mortal.
Ouve o arrastar dos passos das doentes do lado de fora do quarto, ao longo do corredor. Os gritos são logo abafados quando alguém os solta. Treme de frio sob os cobertores demasiado finos que não defendem do gelo que a madrugada assume durante o Inverno. Por isso sabe que é Inverno, pelo enregelamento que a faz soluçar baixinho. Desde que Henrique morreu que ninguém a vem visitar. Lê e relê os livros que ele lhe trouxera a seu pedido: Duras, Sylvia Plath, Clarice Lispector... Vidas femininas que se alinham ali, à sua beira, que vai desfolhando, quem sabe se pela loucura... Emma Santos, Florbela Espanca, Zelda Fitzgerald...» In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sexta-feira, 31 de março de 2017

No 31. A Paixão segundo Constança H. Maria Teresa Horta. «Talvez um dia me internem. Uma mulher para ser amada tem de ser amável, diz-se. Alguma vez serei eu amável? Viável... Viável?

jdact

«(…) Que loucura? Que excesso? Tenho a sensação de que me impelem, me empurram até ao fim do caminho que tenho atrás das minhas costas. Ao fim-fundo desse caminho encontra-se o abismo. O suicídio? Há uns séculos queimavam-nos..., depois passaram a internar-nos. Foi o que fizeram à minha mãe. Provavelmente será o que me farão um dia a mim. Caminho, pois, para a minha própria execução? Talvez morra do meu próprio excesso. E do ódio, que se agacha no meu peito desde criança. Só assim consegui sobreviver. Os animais foram, então, o único calor, o único afecto. Cheiro ainda a palha quente da urina dos estábulos dos cavalos. O ligeiríssimo vapor que se escapava, quase noite, dos seus corpos, das suas narinas, da sua boca enquanto mastigavam. Muitas vezes dormia; adormecia, entorpecida, a tentar esquecer o mundo que lá fora me esperava.
Foi quando quis deixar de me lavar. Lambia a cal das paredes e dos muros e pela tarde fora mastigava terra que engolia quando ficava uma pasta, misturada a terra com a saliva, a fazer arder os olhos de tão amarga. Talvez mora do meu próprio excesso. Andava pela casa de mãos atrás das costas para não fazer tombar nada, para me portar bem, com o fito de me amarem. Mas isso foi antes. Antes de a mãe ter saído de casa e de a avó ter morrido quase logo depois, a fazerem as duas, este buraco na minha vida.
Penteava os cabelos da minha irmã, a fingir que eram os meus: enriçados, endurecidos, que não deixava tocar. Um dia disseram-me: a tua mãe deixou-te por um homem, deixou o teu pai por outro homem, é uma pu… a tua mãe. E eu caí para o chão, a gritar.
As mãos a taparem os ouvidos, tentando não ouvir os gritos que soltava, rebolando-me pelo chão encerado da sala. O pai veio à correr levantar-me do chão e levou-me nos braços para o quarto, mas eu não me lembro de nada. De mais nada. Talvez um dia me internem. Uma mulher para ser amada tem de ser amável, diz-se. Alguma vez serei eu amável? Viável... Viável? Schelling escreveu: como avaliar a viabilidade? Por que razão ser viável é um bem? Por que razão durar é melhor que arder? Da última sessão da análise, saí com este gosto a cinza na boca... Sei que é difícil o trato com os meus medos, os meus fantasmas, as minhas obsessões. Com o meu imaginário?
Sim, olhei a raiva nos olhos da minha mãe. Quantas vezes? Nem ela se lembra quantas... Tantas! A ultima vez que os enfermeiros a levaram, tinha uma camisa-de-forças vestida, os braços cruzados sobre os seios, achatados pelo pano repuxado por atilhos nas costas. Tinham-lhe dado uma injecção, mas, quando a levaram, gritou. Olhou para mim, ali parada, as tranças escorridas sobre as alças largas do bibe, e gritou. Será isto olhar a loucura nos próprios olhos? Os dela pareciam ainda mais azuis quando me fitou, fixamente. O olhar fixo e branco, como se branqueasse os afectos, o fogo que pertencia a nós duas; que eu levara até ela através do meu nascimento. Um mal congénito? Talvez um dia me internem». In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A Paixão segundo Constança H. Maria Teresa Horta. «O cão apareceu uma tarde vindo não se sabe de onde. Estava simplesmente ali como se ali sempre tivesse estado. Começou a seguir Constança até à porta de casa»

jdact

«(…) E voltava a ver, então, a imagem da mãe, na tarde em que esta fora ao colégio de freiras, no dia seguinte a ter abandonado a família, os cabelos de um louro difuso e surdo, o vulto flexível, o corpo magro e frágil no saia e casaco preto, justo, a saia travada como então se usava. As freiras chamaram Constança da porta da sala de aula num gesto hirto. Envergonhada porque todas a olhavam, levantou-se hesitante, acabando por tropeçar no pé que uma colega esticara para a fazer cair. Não correra para os braços da mãe, mas ficara com o coração a bater desordenado enquanto tentava escutar o que ela lhe explicava e não compreendia. Não se lembrava de nada do que a mãe lhe dissera. De nada. Constança foi ate à borda de água, a coberto do escuro da noite, a sentir as ondas frias, a areia mole e suspeita na escuridão, as farpas agudas dos búzios e das conchas partidas a enterrarem-se-lhe nos pés. Ali podia gritar à vontade, sem que ninguém a ouvisse. Voltava para casa já de madrugada, quando a luz começava a cobrear o céu, e sentava-se na cozinha à espera que o café aquecesse. Naqueles dias não conhecia outros prazeres para além do travo do café pela manhã, ou à noite depois do jantar. Havia ainda o sabor do sai que lambia nos braços, nas pernas e que bebia com o mar, o calor do sol e o gelo das ondas no corpo, o gosto da gordura no pão azedo e duro da véspera.
O cão apareceu uma tarde vindo não se sabe de onde. Estava simplesmente ali como se ali sempre tivesse estado. Começou a seguir Constança até à porta de casa e quando esta ia à aldeia comprar a manteiga, o pão, a carne, o leite, a fruta. Um dia deixou-o entrar. Era tímido e triste. Lavou-o debaixo da torneira do pátio e riu pela primeira vez desde que chegara, ao vê-lo sacudir-se assustado e sem respiração. À noite passou a ir dormir aos pés da cama dela e metia-se no mar quando Constança demorava a regressar; depois voltava para a areia e ficava à sua espera: as patas traseiras recolhidas e as da frente assentes na toalha molhada, as orelhas esticadas e tensas, tremendo um pouco. Constança nunca o viu cansado, ofegante, mesmo depois de horas a seu lado, expostos à impiedade de um sol extenuante. Não brincava nem corria com as crianças, era como se apenas ela existisse e os outros para ele fossem invisíveis.
Descrevê-lo-iam mais tarde nos jornais como sendo um cão grande, possante, quase negro, com uns olhos avermelhados e uns dentes certos e fortes. Era um cão sólido não obstante a sua extrema magreza. Constança dava-lhe os restos de comida que ele devorava esfomeado, mas apenas comendo das suas mãos ao lado do banco meio desconjuntado onde ela se equilibrava enquanto fumava, lia e bebia café à mesa depois do jantar, as sombras projectadas pela luz móve1 e insegura das velas e do candeeiro de petróleo trepando nos seus cabelos, nas paredes esboroadas. Às vezes as crianças adormeciam de cansaço ali mesmo, a cabeça entre os braços estendidos sobre a mesa. Pegava-lhes ao colo e ia deitá-las, os pés nus deslizando sem ruído no soalho irregular e até esburacado: aqui e ali uma ou duas tábuas soltas que estalavam baixo. Estendia-as sobre as cobertas grossas e ásperas ou nos lençóis das camas desmanchadas. Depois ia ver as estrelas lá fora, sentada no primeiro degrau da pequena escada estreita. O cão deitava-se aos seus pés no segundo degrau de pedra rachada pelo tempo e provavelmente pelo sol e pelo sal que os ventos arrastavam e deixavam tombar ali. O sal, primeiro como um vestígio apenas suspenso no ar invisível e em seguida caindo sobre as coisas, agarrando-se a elas tenaz, corroendo-as por dentro. Sem piedade». In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «A diferença sexual estabelece uma linha divisória no comportamento que a sociedade romana permite ou não ao adolescente, de acordo com o seu sexo. Apenas os rapazes possuem o direito de fazer a sua iniciação sexual…»

jdact

«(…) A nossa noção moderna de heterossexualidade não tem, portanto, sentido. O interesse exclusivo de um homem pelo sexo feminino não define uma categoria antropológica, mas sim uma idiossincrasia pessoal. Assim, o imperador Cláudio parece, segundo Suetónio, ser o único homem de toda a história romana a ser possuído por um desejo ilimitado pelas mulheres, nunca tendo feito de todo a experiência de homens. Suetónio não tem à sua disposição qualquer instrumento linguístico ou conceptual para indicar esse comportamento estritamente heterossexual, no sentido moderno, pelo que tem de explicitar aos seus leitores a peculiar característica do imperador por meio de uma perífrase. A necessidade de especificar que Cláudio nunca teve qualquer relação sexual com um homem mostra bem a ausência de um conceito como o da heterossexualidade na mentalidade romana. De acordo com a análise de Michel Foucault, as relações sexuais dos romanos organizam-se segundo um esquema de dominação/submissão que redobra e confirma a superioridade social de uns e a inferioridade social de outros. A verdadeira masculinidade de um homem de condição livre é atingida apenas na idade adulta e traduz-se, sexualmente, pela postura do homem dominante, activo, aquele que penetra, após ter passado pelo estádio da passividade erótica durante a adolescência. O estatuto de cidadão varonil, adquirido no momento da passagem da adolescência para a idade adulta, baseia-se no controlo, controlo da esposa e dos filhos, dos escravos e, sobretudo, de si mesmo, o qual pode, a qualquer momento, ser colocado em perigo. A manutenção desse estatuto viril não pode ficar sem vigilância, tanto de ordem física quanto psíquica. Qualquer perda de vigor físico, qualquer complacência para com um prazer excessivo ou qualquer fraqueza moral ameaça a integridade dessa masculinidade e pode fazê-la cair num estado de efeminação passiva, no estado de infâmia social.

Adolescência e iniciação sexual
A diferença sexual estabelece uma linha divisória no comportamento que a sociedade romana permite ou não ao adolescente, de acordo com o seu sexo. Apenas os rapazes possuem o direito de fazer a sua iniciação sexual fora da instituição do casamento. Os seus primeiros desejos sexuais e as suas primeiras ejaculações espontâneas, aquando da puberdade, nunca são referidos, com a excepção do que escreve Lucrécio no canto da sua obra poética dedicada à análise do amor: submetidos à ilusão de ver os simulacros» de pessoas atraentes e de fazer amor com elas, os adolescentes, durante o sono, difundem as torrentes de um imenso rio e acabam por manchar as roupas. A entrada na puberdade e, portanto, na vida sexual é acompanhada, no que aos rapazes diz respeito, por uma tolerância indulgente da parte dos mais velhos. Até os moralistas mais severos admitem que o jovem púbere vive, até à altura do casamento, alguns anos de liberdade sexual junto de criadas, cortesãs, prostitutas, e frequenta o bairro mal-afamado de Suburra em Roma, a não ser que uma senhora da alta sociedade ponha o olho nele, como atesta a relação da célebre Clódia com o jovem aristocrata Célio. Assim, os jovens iniciam-se no amor junto de uma ou de várias amantes. São inúmeros os testemunhos literários da época republicana a defender a indulgência face aos desvarios da juventude. Na comédia de Plauto as duas Báquides, o velho Filoxeno defende perante um pai o filho deste, que está apaixonado por uma prostituta, e recorre a um argumento pessoal: ele próprio, na sua juventude, passou pelo mesmo... Os jovens podem bem divertir-se um pouco, porque acabarão por se desgostar consigo mesmos e casar. Pede então ao pai que deixe o filho satisfazer o seu capricho. Recorda que, na idade do filho, ele mantinha uma amante, bebia com ela e lhe dava dinheiro e presentes!» In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, tradução de Tiago Marques, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «Para retomar a fórmula choque de Paul Veyne, ser activo é ser macho, qualquer que seja o sexo do parceiro passivo. O esquema sexual romano é falocêntrico»

jdact

«(…) O escravo Palinuro, numa comédia de Plauto, explica muito bem ao seu jovem amo Fedromo a estrita divisão que existe entre relações lícitas e ilícitas: desde que te abstenhas de mulher casada, de viúva, de virgem, de rapaz e de crianças de condição livre, ama tudo aquilo que te aprouver.
Estas primeiras obras literárias que são para nós as comédias de Plauto apresentam personagens de condição livre, jovens ou amos mais velhos, que têm simultaneamente relações sexuais com homens escravos e com mulheres. Assim, Lisidamo é casado, deseja Cásina, supostamente uma escrava, e tem relações com Olímpio, o seu escravo favorito. Lucrécio, no final da época republicana, afirma que o sexo do objecto de desejo é indiferente: assim, aquele que tiver sido atraído pelos traços de Vénus, seja que um rapaz de membros femininos o atraia, ou que uma mulher irradie amor com todo o seu corpo, volta-se para a fonte da atracção e deseja ardentemente unir-se a ela. Horácio confirma esta ideologia quanto à época augustiana e mostra que se pode arder de desejo quer pelos ternos rapazes, quer pelas jovens raparigas. O jovem Marato, que aparece nas Elegias escritas por Tibulo, ama uma jovem chamada Folo, ao mesmo tempo que é o preferido de um homem rico mais velho. Na época imperial, Quintiliano lembra que, em qualquer família abastada, as crianças vêem as nossas amantes, os nossos favoritos (nostros concubinos), e faz da posse de escravos alexandrinos, que servem de delícias ao amo, um fenómeno geral.
Recorrendo a uma categoria inapropriada, a bissexualidade é, portanto, o comportamento sexual mais comum do cidadão livre, com a reserva de que, na relação com outro homem, ele deve deter o papel activo, como na relação sexual com uma mulher. Para retomar a fórmula choque de Paul Veyne, ser activo é ser macho, qualquer que seja o sexo do parceiro passivo. O esquema sexual romano é falocêntrico. A acção normativa é a penetração de um orifício do corpo por um pénis. Os romanos têm um modelo de identificação que os gregos não tiveram: o deus Príapo, itifálico, cujo sexo desmesurado está sempre pronto a penetrar quem quer que seja, rapazes, mulheres e até homens adultos. Príapo, cujo lugar de culto primitivo se encontrava em Lâmpsaco, foi adoptado na religião romana tardiamente mas com facilidade, porque existia já uma divindade itálica antiga do falo, Mutunus Tutunus, à qual pôde facilmente substituir-se. O falo ocupa um lugar essencial na cultura romana como símbolo da autoridade masculina, como instrumento de penetração e de dominação, como garantia de fertilidade, de fecundidade, de energia vital, ou como meio apotropaico de protecção. O cidadão romano pode, assim, ter relações sexuais com a sua esposa, com os seus escravos e com prostitutas e prostitutos de qualquer idade. E teremos oportunidade de ver que nem todas estas diferentes configurações provêm de tradições gregas.
O vocabulário designa três locais susceptíveis de serem penetrados e mostra que o homem livre tem três actividades sexuais possíveis de ordem fálica: futuere indica um acto de penetração vaginal; pedicare, um acto de penetração anal; e irrumare, um acto de penetração oral. Ele obtém prazer penetrando quem quer que seja, com certos limites, como já vimos, e através de qualquer orifício. Assim, um pedicator não é um homossexual no sentido em que entendemos actualmente: é, sim, alguém que sodomiza uma outra pessoa, independentemente do seu sexo. Um irrumator não tem equivalente na nossa língua: ele beija tanto os homens quanto as mulheres na boca. Da mesma forma, um fututor não é propriamente o que entendemos por heterossexual: claro que a sua parceira é uma mulher e que o acto é uma penetração vaginal, mas ele pode paralelamente ter relações sexuais com um ou vários parceiros do seu próprio sexo e entregar-se a outros tipos de penetração. O próprio facto de ter relações com outros homens pode ser a prova da sua masculinidade, como mostra a resposta de Valério Asiático a Suílio Rufo, que o acusava de ter hábitos efeminados: interroga os teus filhos, Suílio. Eles confirmarão que sou homem. A função dos rapazes e das mulheres é a de ser simultaneamente estimulante do desejo masculino, objecto de desejo e receptáculo». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, tradução de Tiago Marques, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «A cidade romana não espera o mesmo comportamento sexual de um homem livre, de uma matrona, de um(a) prostituto(a), de uma vestal, de um(a) liberto(a) ou de um(a) escravo(a)»

jdact

«(…) A sociedade romana é feita para e pelo cidadão livre. Assim, a noção de masculinidade é central. Veremos que esta noção faz referência a um conjunto de valores e de ideais que corresponde a uma tradição cultural, e não a um dado biológico. Paul Veyne revolucionou os estudos sobre a sexualidade antiga ao analisar o comportamento sexual do cidadão livre como uma bissexualidade activa que supõe a valorização de uma sexualidade viril e conquistadora. Formulou também a hipótese de uma homossexualidade dividida entre passividade (sexualidade censurada) e actividade (sexualidade valorizada). Esta análise foi recentemente colocada em causa pelos trabalhos de Thierry Éloi e Florence Dupont, para quem tal hipótese parece demasiado moderna. Veremos em que medida essa análise continua válida, numa primeira parte dedicada ao modelo fálico da masculinidade social do cidadão livre. A identidade masculina assenta numa oposição binária: por um lado, os homens, os machos (uiri), aqueles que em Roma detêm o poder, os que penetram; por outro, todos os outros, aqueles que não possuem o poder, os que são penetrados, as mulheres, os rapazes, os escravos.
Roma não possui um modelo igualitário no domínio das relações sexuais. Os parceiros dos homens são sempre marcados como diferentes de forma significativa, ainda que pertençam ao mesmo sexo biológico. Esta estrutura hierárquica mostra que as práticas sexuais reflectem claramente as relações de poder entre as diferentes camadas da sociedade. Os grupos subordinados à elite masculina romana dominante, os plebeus, as mulheres, as crianças, os libertos, os escravos, são marginalizados e, praticamente excluídos do olhar dela. Além disso, as mulheres não deixaram, por assim dizer, fontes escritas. É através de um olhar masculino que podemos entrever uma prática que diz respeito tanto ao homem como à mulher. Quando uma mulher fala sobre um assunto tão íntimo, é um homem que a faz falar. A voz e o olhar dominantes, em literatura e em arte, não só são masculinos, como também pertencem globalmente, com algumas excepções, a um cidadão romano que faz parte da elite social, italiano e de meia idade. É essa voz e esse olhar que tentaremos apreender.

O modelo do cidadão viril
A sociedade romana está construída sobre uma hierarquia estrita que assenta na diferença dos sexos biológicos e dos estatutos sociais e que dá origem a uma divisão dos papéis sexuais de cada pessoa. O acto sexual não é, em si mesmo, bom ou mau. O seu valor moral depende do objecto escolhido como parceiro e do papel desempenhado no interior da relação sexual. O estatuto sexual de cada indivíduo está ligado ao seu estatuto social. A cidade romana não espera o mesmo comportamento sexual de um homem livre, de uma matrona, de um(a) prostituto(a), de uma vestal, de um(a) liberto(a) ou de um(a) escravo(a). A ausência de castidade, ou seja, a prática de relações sexuais antes do casamento ou fora do casamento, é tolerada relativamente a um homem, mas, para uma mulher, trata-se de algo extremamente grave. A sociedade permite e até encoraja os adolescentes a adquirir uma experiência sexual, ao mesmo tempo que exige que as raparigas casadoiras preservem a sua virgindade. As relações extraconjugais são aceites para os homens casados, ao passo que as esposas adúlteras são condenadas. Esta dupla exigência de continência para as mulheres e de conquista viril para os homens é resolvida graças à existência de um grupo de mulheres que pertencem a uma outra classe social que não a do homem ou que são prostitutas. O homem pode ter relações sexuais com as suas próprias escravas, com prostitutas, com mulheres respeitáveis e não casadas de uma classe social inferior, com as quais pode manter uma ligação durável. Por outro lado, deve abster-se das esposas e das mulheres da sua própria classe; caso se verifique o contrário, tal situação constitui a maior transgressão social. É ilícito ter relações sexuais com uma matrona quando não se é o seu esposo legítimo, com uma virgem ou com um rapaz de condição livre, ao passo que com prostitutas, escravos e libertos, tanto homens como mulheres, isso já é permitido e tolerado». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, tradução de Tiago Marques, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «Em Roma, a diferença baseia-se não no sexo biológico, mas sim nos estatutos sociais e nas classes etárias…»

jdact

«(…) Finalmente, uma reflexão sobre Roma não pode excluir a questão das suas relações com a Grécia em matéria de sexualidade. Como escreveu Paul Veyne na introdução à sua Histoire de la vie privée (História da Vida Privada), os gregos estão em Roma, são o essencial de Roma; o Império Romano e a civilização helenística, uma civilização universal que se estende das Colunas de Hércules (Gibraltar) ao rio Indo. Os romanos, ao conquistar esta área cultural, helenizam-se e integram sem grandes dificuldades a cultura grega, que eles não sentem como estrangeira mas como sendo a cultura por excelência. Porém, nesse compromisso, os romanos conseguem a proeza de criar uma identidade genérica própria. Uma tendência da crítica actual vai no sentido de querer demonstrar que a grecicidade está no coração de todas as coisas romanas e que a cultura romana, a romanicidade, arriscava-se sempre a ser confundida com o Outro. Contudo, esta questão das relações entre Grécia e Roma não nos parece ser assim tão simples de resolver quando se trata dos papéis sexuais. Contrariamente a outros domínios onde pudemos constatar a ausência de resguardos contra a mistura entre nós e eles, a moral sexual tradicional erige-se de maneira diferente relativamente à que estava em vigor em Atenas. Ao mesmo tempo, os sonhos eróticos gregos povoam o imaginário de certas obras, como se a identidade sexual do cidadão romano se constituísse em torno de duas componentes: uma, latina; a outra, grega.
A nossa leitura será uma viagem até outro mundo para nos lembrar a relatividade dos nossos valores actuais, porque encontraremos mais diferenças com as normas da nossa sociedade do que continuidades. Na sociedade ocidental actual, com efeito, baseamos as nossas categorias sexuais na oposição dos sexos biológicos e nas categorias de um e do outro. E dividimos os indivíduos em três categorias: os heterossexuais, que têm relações com um parceiro do sexo oposto, os homossexuais, cujo parceiro sexual é do mesmo sexo, e os bissexuais, que têm parceiros de ambos os sexos. Estas categorias sexuais não são utilizadas em Roma e não formam uma grelha de análise pertinente. Em Roma, a diferença baseia-se não no sexo biológico, mas sim nos estatutos sociais e nas classes etárias, que implicam um papel sexual a adoptar, activo ou passivo. Desse modo, as nossas categorias modernas de análise não são adequadas para descrever o comportamento sexual dos romanos: portanto, evitá-las-emos tanto quanto possível. Os romanos recorrem a termos que dificilmente são traduzíveis por meio de uma única palavra equivalente. As noções de stuprum, pudor, pudicitia, impudicitia, cinaedus, irrumator ou fellator não têm equivalentes no nosso sistema axiológico. Ser-nos-á necessário descrever uma cultura e a sua ideologia numa outra linguagem, testemunho de outro sistema de pensamento. É certo que as fontes antigas mostram uma consciência das diferenças sexuais e comparam por vezes as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo e entre pessoas de sexo oposto, mas não as considerando como essencialmente diferentes. Não atribuem aos indivíduos uma identidade baseada na sua orientação sexual, como o desenvolvimento da psicologia, no final do século XIX, incitará a que se faça. o que prevalece é o respeito ou não pelo papel social a desempenhar na vida sexual do indivíduo.
A história da sexualidade varia de acordo com as diferentes camadas da sociedade. A moral sexual é relativizada ao extremo em função da pertença social de cada indivíduo. Na corte imperial e nas famílias mais abastadas, os costumes sexuais parecem ser mais livres do que os dos notáveis de Roma ou dos habitantes das províncias. A acreditar em certos autores, os habitantes das cidades de província e das municipalidades italianas preservavam uma probidade ancestral, perdida na capital corrompida. Plínio, o Jovem, afirma que a Itália mantém e conserva ainda muita da moderação, da frugalidade e da rusticidade antigas. Tácito, de forma semelhante, assinala que a Itália permaneceu austera e ligada até hoje aos costumes antigos e que aqueles que vivem nas províncias longínquas não conhecem a devassidão; os homens novos, chamados dos municípios, das colónias e das províncias para entrar no Senado, trouxeram para Roma a sua parcimónia doméstica. Porém, não saberemos mais do que isso. Os documentos que temos dizem respeito essencialmente à classe abastada e cultivada dos romanos e à corte imperial, ou seja, uma ínfima parte da população, e não se interessam por todos aqueles que se encontram excluídos do poder». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, tradução de Tiago Marques, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A Paixão segundo Constança H.. Maria Teresa Horta. «As crianças não interferiam na sua altivez. Pelo contrário, de outra maneira eram igualmente ávidas e sôfregas, saboreando todos os minutos daquele tempo ali passado com ela. Só voltavam para casa perto da noite»

 jdact

«(…) Quando chegaram as férias, Constança foi com os filhos para uma praia perto de uma pequena aldeia no Alentejo. Grandes areais vazios, arruivados. Dias inteiros ao sol, o sal a riscar-lhe de branco a pele enegrecida. Deitava-se à borda de água a sentir as pequenas ondas irem e virem sobre o seu corpo, os cabelos a flutuarem na espuma que depois deixava secar no começo dos ombros. Às crianças davam gritos de satisfação enquanto mergulhavam ou corriam atrás umas das outras. Comiam de vez em quando os frutos e o pão que levavam no cesto de verga que ela comprzira na aldeia. Constança só bebia água, porque o estômago se recusava a receber alimentos enquanto estava na praia. Era como se tivesse deixado de existir: não tinha mais pensamentos, as ideias, os gostos apagavam-se. Nadava, durante muito tempo, para longe da margem e ficava a boiar olhando a luz irisada e intensa que descia sobre o mar, acendendo-o. Era tudo.
Voltava a nadar até onde os filhos brincavam nas ondas e misturava-se com eles por momentos, logo correndo para a areia escaldante, o corpo frio, ainda frio, mas a ganhar já o calor intenso que o secara num sopro. Deitava-se depressa a tentar gozar o prazer que lhe trazia sempre o sol a absorver as pequenas gotas na pele, durante apenas uns breves segundos, que saboreava gulosa e sôfrega. As crianças não interferiam na sua altivez. Pelo contrário, de outra maneira eram igualmente ávidas e sôfregas, saboreando todos os minutos daquele tempo ali passado com ela. Só voltavam para casa perto da noite. Acendiam então as velas que havia e comiam à mesa da cozinha, à volta do tampo de madeira ve1ha, lascada, marcada, cheia de cicatrizes e falhas. Manchas. Constança nem sempre cozinhava, as crianças sabiam fazer ovos e fritar carne nas frigideiras de ferro, velhas e negras; frigideiras de ferro pesado que haviam descoberto no dia em que chegaram, arrumadas em armários empenados, de portas à rangerem nos pequenos gonzos enferrujados. Cortavam grandes nacos de pão com as facas rombas e davam-nos à mãe, depois de os molharem nas gorduras que chiavam no lume do fogão aceso com as achas que haviam apanhado logo de manhã enquanto ela ainda dormia. Depois tomavam duche com a mangueira que havia no pequeno pátio à frente de casa, debaixo de uma árvore ressequida e gasta.
Bebiam leite pelas canecas rachadas, esboroadas nas bordas, e ela às vezes dizia tenham cuidado, para não se cortarem. Constança preferia os restos do café amargo que ficara da véspera na cafeteira sem tampa, que cobria com um pires por causa das moscas e da areia que persistentemente parecia tentar corroer tudo o que estivesse na casa, desde os seus alicerces frágeis, enterrados nas dunas, carcomidos pela humidade salgada. Sentava-se à noite nos degraus de pedra roída pelos passos dos anos ou na cadeira de verga debaixo da árvore, a fumar cigarro após cigarro antes de ir para a cama. Sem sono. Tentando apagar tudo da memória. Estava ali para esquecer. Nunca deixando, no entanto, de sentir aquela dor dilacerante no peito. Aquele ódio como uma febre no sangue. Era a traição que a mordia no sítio do coração, os pulsos tensos, a garganta apertada, a boca e a língua secas. Como um beijo envenenado». In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A Paixão segundo Constança H.. Maria Teresa Horta. «Só que desta vez nenhum deles se atrevia a fazer o primeiro gesto de fuga. A pele de Henrique H., mantinha um tom vivo, róseo, devido à temperatura da água que o cobria»

jdact

«(…) Não se entregavam mais. E a dor continuava, tumefacta. A sensação de perda envenenando-a, espalhando a morte dentro de si. O ódio. O começo do ódio a engrossar, sem remédio, no seu peito, tentacular, repetitivo e por isso mesmo com uma incidência única em todos os momentos da vida a partir desse momento: quando Henrique falou. Quando Henrique falou da sua traição. É o amor que me perde, pensa Constança. O ódio, pelo contrário, alimenta-a. O amor queima-a, desguarnece-a. O amor reduz a cinzas, é a porta do caos e do desassossego. Quebra-a. Quebra-a.
O ódio, pelo contrário, fortalece-a. Pertinaz, forra-lhe as emoções, nunca a entrega. E a odiar, as mulheres são melhores que os homens. Como diz Françoise Giroud, elas podem ser duras e frias como pedras, com arame farpado no coração. Constança sabe, sente-o crescer no seu peito, como se fosse uma planta, tomando conta de todo o seu imaginário, de todos os seus sentimentos, de todos os seus pensamentos: o arame farpado. No seu coração palpitante e incandescente.
Conturbado, turvo. O ódio centrado. Quase visto, quase tocado. Tocado. Henrique H. matou-se um ano depois da prisão de Constança. Cortou os pulsos dentro do banho. Foram os filhos, quando chegaram do colégio, que deram com ele na banheira, a cabeça inclinada, encostada a nuca no rebordo de mármore cor-de-rosa pálido. Parecia dormir. As pestanas pretas e grandes sombreando os olhos verde-musgo, apenas entreabertos. A boca fechada num ricto duro. E toda aquela água de um vermelho diluído â escorrer para o chão de azulejos pretos até à alcatifa do corredor, que começava a ficar empapada ao pé da porta onde eles permaneciam muito quietos e mudos a olharem o pai morto na banheira, um dos pulsos aberto pendente sobre o lençol turco caído no chão e o outro pulso debaixo de água, como que a descansar em cima do peito. A ferida do pulso que caía para fora da banheira fez-lhes lembrar a do pescoço de Adele, os bordos abertos um pouco afastados, o sangue a coagular já, num simulacro grosseiro de uma cicatriz. O ruído da água que continuava a correr, fumegante, submergindo quase o corpo imóvel do pai, recordou-lhes igualmente o barulho molhado das ondas, quando eles começaram a correr para casa depois de o imenso grito ter varado as areias geladas da manhã para ir perder-se, estrangulado, de súbito, numa espécie de soluço, num gorgolhar rasgado. Só que desta vez nenhum deles se atrevia a fazer o primeiro gesto de fuga. A pele de Henrique H., mantinha um tom vivo, róseo, devido à temperatura da água que o cobria.
O mar. Sempre ao fundo da paisagem. A marcar o horizonte. Sonhava que corria sozinha na praia de areia molhada. Nunca sonhava com os filhos. Ela não sabia que tinha filhos. Não se lembrava? O teu corpo, a febre acesa da tua língua, meu amor! ... a partir do clítoris De bruços De borco... o teu pénis As mãos subindo, trepando pelo avesso do corpo Constança H. Como se tacteasse na escuridão de uma gruta húmida; na penumbra encoberta de um confessionário; na cela nua de uma prisão de mulheres; na enfermaria de um hospital psiquiátrico». In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 17 de janeiro de 2016

Roma Antiga. A vida sexual. Géraldine Puccini-Delbey. «A representação da vida sexual está estreitamente ligada ao género literário em que se inscreve e que obedece a convenções e a códigos precisos que determinam em grande parte a sua orientação, o seu tratamento…»

jdact

«(…) Os escritos de juristas que chegaram até nós datam essencialmente dos segundo e terceiro séculos. E lançam muitas vezes luz sobre a legislação anterior, nomeadamente acerca das reformas empreendidas por Augusto. Após o final do século segundo, com a morte do jurista Ulpiano em 228 e do último imperador da dinastia dos Severos em 235, os textos jurídicos e as fontes literárias tornam-se muito pobres. Depois de Diocleciano, das perseguições e das guerras civis da primeira metade do século terceiro, o imperador Constantino reina numa sociedade muito diferente, onde os ideais cristãos se desenvolvem. As inscrições funerárias são, por vezes, úteis para esclarecer alguns aspectos dos costumes romanos. Porém, também aqui se coloca o problema da relação entre realidade e ficção, na medida em que as inscrições obedecem a códigos convencionais que põem em causa a sinceridade das palavras. A história da arte e os dados oferecidos pela arqueologia permitir-nos-ão completar o nosso estudo. Todavia, os testemunhos dados pelas obras de arte, também eles, nunca são o reflexo exacto da realidade. Todos os testemunhos que temos, literários, jurídicos ou artísticos, colocam o problema da adequação das palavras ou das imagens à realidade e exigem, consequentemente, uma interpretação prudente. A representação da vida sexual está estreitamente ligada ao género literário em que se inscreve e que obedece a convenções e a códigos precisos que determinam em grande parte a sua orientação, o seu tratamento e as suas lacunas. A expressão literária do sentimento amoroso e dos prazeres venéreos é, definitivamente, menos o resultado de uma experiência pessoal do que um fenómeno de imitação para o escritor latino, que retoma frequentemente os códigos de um género literário herdado da Grécia. Desejamos, por isso, ver nos corpos mostrados uma construção cultural e nas diferentes sexualidades evocadas tipos de discursos que mais exprimem uma ideologia do que fornecem informações, mesmo quando se trata de personagens históricas, e que antes indicam quais foram provavelmente as construções culturais das normas, dos ideais e das fantasias da elite masculina romana. É evidente que, desde a fundação lendária de Roma até ao apogeu do Império no século segundo da nossa era, os comportamentos e as mentalidades dos romanos evoluíram. No entanto, a partir da República, a sociedade romana permanece essencialmente estruturada em torno de alguns valores fundamentais. Uma das grandes forças de Roma é a de ter sido capaz de evoluir integrando princípios estrangeiros sem negar os seus próprios valores tradicionais fundamentais, o que lhe permitiu estender o seu poder à volta de toda a bacia mediterrânica e manter a sua identidade ao longo de cinco séculos ao mesmo tempo que a enriquecia.
Alguns historiadores pensam que houve mudanças significativas nas tradições romanas, particularmente aquando da passagem da República para o Império. Sem negar que este período marca uma viragem na evolução dos costumes, tentaremos, todavia, mostrar que os códigos tradicionais que regem os comportamentos sexuais em Roma se mantiveram da República ao Império sem sofrer alterações particulares. Jean-Noel Robert esquematiza, por exemplo, na sua obra Éros romain, a história da moralidade sexual romana, destacando uma progressão que vai da virtude no início da época republicana à fruição no final da República, à paixão nos primeiros séculos do Império e, enfim, à temperança na época tardia. Claro está que puderam produzir-se flutuações nas práticas; o crescimento das fortunas e o desenvolvimento do luxo na classe dominante acarretam comportamentos desaprovados pela moral pública; certos períodos são marcados por uma vontade estatal de conter tais excessos. Porém, o que não muda é a ideologia, são as normas em vigor, ou seja, o objecto principal do nosso trabalho.
Quando se torna necessário percorrer todo o Império, ir das províncias situadas nos limites do deserto africano à Caledónia (Escócia), ao Reno, ao Danúbio, é impossível levar a cabo um estudo que tenha em conta a especificidade de cada uma dessas regiões romanizadas. O nosso enquadramento geográfico será o de Roma; poderá, por vezes, estender-se a toda a Itália e, em particular, a Pompeia e redondezas, sepultadas sob as cinzas do Vesúvio a 24 de Agosto de 79 da nossa era. As individualidades que surgem nas fontes literárias pertencem aos grupos dominantes da sociedade (corte imperial, meios senatorial e equestre) e ao mundo da prostituição. Essas fontes colocam atónica em Roma, a Urbs, no Direito romano, na religião romana, nas tradições do mos maiorum. Como este trabalho procura abarcar cinco séculos de vida sexual íntima, as lacunas serão inevitáveis e, ocasionalmente, até mesmo voluntárias: um levantamento exaustivo de todos os textos relacionados com a sexualidade constituiria seguramente uma leitura fastidiosa». In Géraldine Puccini-Delbey, A vida sexual na Roma Antiga, 2007, Edições Texto e Grafia, tradução de Tiago Marques, 2010, Lisboa, ISBN 978-989-828-515-7.

Cortesia de TGrafia/JDACT

sábado, 10 de outubro de 2015

A Paixão segundo Constança H.. Maria Teresa Horta. «Nada disto tem importância, nada disto tem importância para mim. E soluçara baixinho, os dedos compridos a procurarem os dela que fugiam»

jdact

«(…) Primeiro foram as injecções. Os comprimidos. Atara o cabelo no cimo da cabeça, com as farripas húmidas de suor coladas ao pescoço. Era mais prático. E não lho cortavam. Talvez. Organizava as coisas. Sempre. Com o destino. Entendia do desuno. Sabia. Puxara a saia até à cintura quando não ouvia passos no corredor de pedra e mexia os dedos para cima e para baixo entre as pernas. Era bom. Um dia apanharam-na e ataram-lhe as mãos atrás das costas. Não, isso foi no colégio de freiras ainda era muito pequena, lembrava-se. Começava a misturar tudo?
Subitamente pensa: isto é um pesadelo. Como se me morresse por dentro de mim; os passos feitos, elaborados em câmara lenta, as pernas pesadas, que tento, que vou arrastando. Entende, finalmente, que parte dela se expõe e se torna exterior, mas que outra parte se mantém oculta, aparentemente adormecida e inerte, embora pulsante. Numa espécie de hibernação, à espera. Como vai ela aguentar os desequilíbrios, os ventos raivosos, as chamas ateadas da paixão? Tudo dentro dela está a ficar remexido: o que há séculos dormia, enterrado, está a vir ao de cima. Em carne viva.
O que esquecera ficará provavelmente lembrado, o que escondera, irá encontrar-se brevemente à mostra na sua enormidade. E naquele momento, só com tudo isso (esse vulcão em erupção) desguarnecido, sente-se vulnerável, aterrada com a violência do que se apercebe sentir e pergunta a si mesma: como? Como irá poder aguentar sozinha a resposta dos outros a tanta violência? E o medo suspenso ganha terreno no seu peito. No berço, Constança limitava-se a olhar e a temer o escuro da ausência da mãe. Mas o perigo, sabe agora, encontra-se na claridade: a claridade desvenda, acende, incendeia, queima. Vê ainda o tom de sol que um dia, bruscamente furou a bruma da ilha e foi poisar directo no cimo da ilha em frente, um vulto esguio e azulado, cortado a meio por nuvens tão brancas que faziam doer os olhos. Constança sentiu que o sol exorcizava as feiticeiras, as bruxas, que sempre pensara estarem ali acatadas. Os anjos. Voando de noite.
E as asas luziam tanto que e1a começou a chorar baixinho de as ver queimadas. Ninguém deu por isso, só ela que, apoiada na amurada do jardim espraiado sobre o mar ouvia as ondas lá em baixo, a bater nas rochas cinzentas e frias. A avó, que a viu a chorar, fez-lhe uma festa demorada na cabeça, sem lhe perguntar nada. Era assim que ambas gostavam, demoradas naquele silêncio conivente entre elas. Ou será que inventa? Isto é um pesadelo, pensa. Um pesadelo. E adormece de bruços na cama, a meio da tarde, exausta das noites passadas em claro, com aquela dor a revolver-se dentro do coração. Aquela perda.
E voltava a ouvir Henrique a contar-lhe da aventura com a outra, palavra por palavra, como se ele estivesse ali a repetir, repetir tudo, enquanto ela se movia sobressaltada dentro desse pesadelo, dessa queda, desse medo. Gritou, antes de acordar, os cabelos pegados ao pescoço pelo suor que a inundava toda. Encostou a testa aos joelhos mudos e soerguidos, trémulos, e deixou-se ficar a tentar controlar a respiração ofegante. A rememorar o que Henrique lhe dissera depois, a voz mansa, os olhos fugindo à tentativa de ela os encontrar para tentar ver mais fundo. Mais dentro: eu amo-te, sabes, eu amo-te. Não posso viver sem ti, bem sabes. Nada disto tem importância, nada disto tem importância para mim. E soluçara baixinho, os dedos compridos a procurarem os dela que fugiam». In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 4 de outubro de 2015

A Paixão segundo Constança H.. Maria Teresa Horta. «À noite na cama Constança aproximava-se, colava-se rente ao corpo quente de Henrique, tocava-lhe no peito liso, nas ancas magras, no púbis grande e largo, até o acordar e rebolarem juntos nos lençóis…»

jdact

«Estendia a mão e tocava aquele corpo quase púbere, de seios apesar de tudo cheios e subidos, de mamilos praticamente lilases, sempre prontos a arrepiarem-se, a endurecerem e apertarem-se como certas flores. O púbis era quase inexistente, de pêlos encarapinhados mas raros, a deixarem perceber a pele por baixo, a deixarem ver mais do que a adivinhar os lábios carnudos mas curtos e muito fechados, como os de uma menina. Era como uma menina quando fechava os olhos e encostava a cabeça ao seu ombro magro. Repeli-a. Repeli-a sempre numa espécie de repugnância. E nunca tirara nenhum prazer do seu corpo, mas antes aquela náusea e aquele vómito contido. Ela calava-se, esquecia tudo isso, inventava doenças terríveis para a comover e demover da distância. Da indiferença.
Passava-lhe as mãos pelo cabelo liso à força de óleos desfrisantes e, às vezes, lamentava aquela distância que não podia nem queria quebrar. Ela olhava-a, fixamente, com aquele reparar líquido nos olhos castanhos. Com aquela ardência que evitava entender. E tornava a inventar males, médicos, análises, tragédias inevitáveis com prazos imediatos de morte. Beijava-lhe então os lábios escuros, levemente arroxeados por dentro, perto das gengivas. Sentia-lhe o gosto a fruto, a erva seca, e recuava a língua, a fugir já, a pôr fim àquele envolvimento que lhe repugnava. Do qual não tirava nenhum gosto: apenas um incómodo entornado no coração. Será preferível matar-me, ouvira-a dizer uma vez e rira-se sem susto, não só porque não acreditava, na ameaça, mas também porque não teria desgosto algum caso ela se matasse. Então, Adele, chamava-se Adele porque a mãe admirava a filha de Victot Hugo e adorava Truffaut, contava-lhe que se deitava com homens que agarrava sem escolher e a quem se entregava com prazer e gozo. O que importava isso a Constança?
À noite na cama Constança aproximava-se, colava-se rente ao corpo quente de Henrique, tocava-lhe no peito liso, nas ancas magras, no púbis grande e largo, até o acordar e rebolarem juntos nos lençóis revolvidos pelo sono. Era o lugar de que esteio? As ancas estreitas e duras, aquele olhar sem piedade nem remédio que o escuro do quarto devorava mas ela conhecia tão bem; tão perto da maldade. Às vezes acordava de madrugada e ficava horas debruçada sobre ele, a respirar-lhe o cheiro. A beber-lhe o hálito. A lamber-lhe os ombros até ele acordar e a abraçar, entrar nela e se virem os dois ao mesmo tempo. Numa pressa. Num desatino. Encharcados em suor. Em seguida adormecia de um golpe, como morta; quando acordava, não se lembrava nada do que sonhara. Ainda de olhos fechados, tacteando, procurava-lhe o sítio para ir aninhar o corpo lá, no espaço que ele deixara vazio.
E quando manhã alta os filhos entravam pelo quarto, olhava-os com estranheza. Constança pensava neles sempre admirada de os ter gerado e parido. Logo de seguida abraçava-os, arrependida desses pensamentos. Arrebatada, empurrava-os para a colo e tentava fazê-los esquecer as suas ausências, mesmo quando estava em casa. Parecia-lhe então que nada mais importava…, ali tão perfeitos, à sua beira. Constança ainda não entendera como conseguira fazer filhos perfeitos. Quando eles eram bebés, ficara muito tempo a contar-lhes os pequenos dedos, um por um, rejubilando perante a evidência de nenhum faltar. Durante a gravidez do primeiro, sonhara que ele nascera sem nariz e que o pai, de bata branca, se aproximara e dissera apenas: … já estava à espera. Acordara num grito». In Maria Teresa Horta, A Paixão segundo Constança H., 1994, Bertrand Editora, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-252-242-7.

Cortesia de BertrandE/JDACT