Mostrar mensagens com a etiqueta Narrativa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Narrativa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Maria Velho da Costa. Cravo.«De ferros, de burel, estamenha e lã cardada, de patas e pés nus só enrolados, traça da mão e cuspo em tudo e tudo, eu vi o punho cheio a pôr-se em terra, a inteirar-se»

jdact

Crónica dos idos

«E eu vi deles a primeira dinastia. Tinha-se muito recta pela madrugada e velava. Os céus estavam cerrados alto e os ginetes faziam outras pequenas nuvens pelas narinas, fora do horto da ermida, casqueando manso nos penedos seu sono de pé, enquanto eles lá dentro velavam seu sagrar-se à desmesura, a sempre nova guerra.

Virgens, o olho à escuta e raiado de sangue, os tão novos passavam a mão nos peitos luzidos de orvalho, ainda só disso, e esperavam, montariavam golpes lá no rosar das nuvens do clarear, estremeciam no dentro do dentro da sua novidão, Passavam a água em barros e pão ázimo, queriam suster e viam e ouviam, sua língua de argila, os sons de muco e chão. Vos digo claramente que não sabiam que nada, era só um mais ser, a princesia, ir descendo nas terras um coro de ser eu.

De ferros, de burel, estamenha e lã cardada, de patas e pés nus só enrolados, traça da mão e cuspo em tudo e tudo, eu vi o punho cheio a pôr-se em terra, a inteirar-se. Ninguém não era irmão e era cedo. Como do cru ao cru, todo o ar era tenro. Bestas e gente tinham cheiro, gemia um só vagido e era a língua, o rude afago dela. Cera silvestre neles, bosta quente, coalhado leite, dedos sem escrita, mãos de derramar. Todos eram primeiros, grossos, unos.

Mais vi: as casas, os caminhos e as fontes, o gado são, entrarem pelas barcas ao meio-dia. Vi os segundos como corvos e tudo tendo a medo, conservando. Tinham seus paços postos sobre estacas e em baixo eram o ouro fosco e a pimenta grumosa, restos de maresia, o agougar dos caranguejos. Vi-os de negro e chapelão maldizerem as águas e os ares, montados sobre as mais altas pontas de terra, espumando ao mar as suas próprias espumas. Vi as mulheres, a enegrecer de trapos o todo corpo delas, gementes e chorantes em nome de uns nomes ou de outros.

E vi-os engodar a própria morte, tecer vaidades dela. E' ouvi a antiga renegada faladando vozes de mando por cima desses brados altos. Até que se deitaram pelo chão, pelas terras todas e ficaram à escuta do seu ronco. Até que se deitaram para as águas cuspindo os dentes e mordendo as redes. Vi-os erguerem-se e só comerem estevas e roerem as mãos até aos punhos para de novo ter nome.

Mais vi as armas que empunhavam, os chuços e ancinhos para sempre. Vi-os ir de uma a outra casa, sempre sagradas santas, a demandar caminhos, sem ninguém que ficasse em nome deles. Puseram-se então a triturar o membro a todos os meninos, para que não fossem mais Por sobre a terra.» In Maria Velho da Costa, Cravo, 1976, Morais Editores, 2024, Porto Editora, Assírio & Alvim, ISBN 979-972-572-579-5.

Cortesia de A&Alvim/JDACT

JDACT, Maria Velho da Costa, Liberdade, 25 de Abril, Narrativa,

domingo, 24 de março de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «… ou em sussurros imperceptíveis, ainda que seja melhor eu não compreender e o que se diz não seja dito para que eu ouça, ou mesmo seja dito justamente para que eu não capte»

jdact

«Assim, o que vemos e ouvimos acaba se assemelhando e até se igualando ao que não vimos nem ouvimos, é apenas uma questão de tempo, ou de que desapareçamos. E apesar de tudo não podemos deixar de encaminhar nossas vidas para o ouvir e o ver e o presenciar e o saber, com a convicção de que essas nossas vidas dependem de estarmos juntos um dia

ou de atendermos um telefonema, ou de nos atrevermos, ou de cometermos um crime ou causarmos uma morte e sabermos que foi assim. Às vezes tenho a sensação de que nada do que acontece acontece, porque nada acontece sem interrupção, nada perdura nem persevera nem se recorda incessantemente, e até a mais monótona e rotineira das existências vai se anulando e negando a si mesma em sua aparente repetição até que nada seja nada e ninguém seja ninguém que tenham sido antes, e a frágil roda do mundo é empurrada por desmemoriados que ouvem e vêem e sabem o que não se diz nem sucede nem é cognoscível nem comprovável. O que ocorre é idêntico ao que não ocorre, o que descartamos ou deixamos passar idêntico ao que pegamos e agarramos, o que experimentamos idêntico ao que não provamos, e no entanto vai-nos a vida e vai-se-nos a vida em escolher, rejeitar e selecionar, em traçar uma linha que separe essas coisas que são idênticas e faça de nossa história uma história única que recordemos e possa ser contada. Dirigimos toda a nossa inteligência, os nossos sentidos e o nosso afã à tarefa de discernir o que será nivelado, ou já está, e por isso estamos cheios de arrependimentos e de ocasiões perdidas, de confirmações e reafirmações e ocasiões aproveitadas, quando o certo é que nada se afirma e tudo se vai perdendo. Ou talvez que nunca tenha havido nada.

Talvez não tenha havido uma só palavra entre Miriam e o homem durante todo o instante em que acreditei as estar perdendo. Talvez tenham apenas se olhado, ou se abraçado de pé, calados, ou se aproximado da cama para se despirem, ou talvez ela tenha se limitado a descalçar-se, mostrando ao homem seus pés que teria lavado tão conscienciosamente antes de sair de casa e agora estariam cansados e doloridos (a planta de um deles suja pelo calçamento da rua). Não devem ter-se esbofeteado nem se engalfinhado numa briga nem nada do género (quero dizer num corpo-a-corpo), porque depois se arqueja fortemente e se grita ao fazê-lo, ou então logo antes, senão depois. Talvez, como eu (mas eu o fazia por Luísa, e entrava e saía), Miriam tenha ido ao banheiro e se trancado nele durante aqueles minutos sem dizer nada, para se olhar no espelho, se arrumar e tentar apagar do rosto as expressões acumuladas de ira, cansaço, decepção e alívio, perguntando-se que outra seria mais adequada e benéfica para por fim encarar aquele homem canhoto de braços peludos que teria achado engraçado ou divertido ela ter esperado gratuitamente e ter me confundido com ele. Talvez o tenha feito esperar um pouco, a porta fechada do banheiro, ou talvez sua intenção não fosse essa, mas sim chorar às escondidas e contidamente sobre a tampa da privada ou sobre o rebordo da banheira com as lentes de contacto tiradas, se é que as usava, enxugando-se e ocultando-se a seus próprios olhos com uma toalha até conseguir se acalmar, lavar o rosto, pintar-se e estar em condições de sair de novo, dissimulando.

Eu tinha pressa de poder ouvir e, para tanto, necessitava que Luísa voltasse a dormir, que deixasse de ser corpórea e contínua para relegar-se e fazer-se distante, e necessitava estar quieto para escutar através da parede do espelho ou pela sacada aberta, ou estereofonicamente através de ambos. Falo, entendo e leio quatro línguas contando a minha, por isso, suponho, me dediquei parcialmente a ser tradutor e intérprete em congressos, reuniões e encontros, sobretudo políticos e às vezes o mais alto nível (em duas oportunidades servi de intérprete a chefes de Estado; bem, um só era chefe de governo). Suponho que por isso tenho a tendência (como tem Luísa, que se dedica à mesma coisa, só que não compartilhamos exatamente as mesmas línguas e ela está menos profissionalizada ou se dedica menos e, portanto, não a tem tão acentuada) de querer compreender tudo o que se diz e que chega a meus ouvidos, tanto no trabalho como fora dele, ainda que à distância, ainda que num dos inúmeros idiomas que desconheço, ainda que em murmúrios indistinguíveis ou em sussurros imperceptíveis, ainda que seja melhor eu não compreender e o que se diz não seja dito para que eu ouça, ou mesmo seja dito justamente para que eu não capte». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

 JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa, 

quinta-feira, 21 de março de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «O dia em que não estivemos juntos já não teremos estado juntos, ou o que nos iam dizer por telefone quando nos ligaram e não respondemos nunca será dito, nunca a mesma coisa nem com o mesmo espírito…»

jdact

«Com quem você estava falando antes?, perguntou-me outra vez. Não vi motivo para não lhe dizer a verdade, no entanto tive a sensação de não o fazer ao fazê-lo. Nesse momento eu tinha na mão uma toalha com a ponta húmida e me dispunha a refrescar-lhe o rosto, o pescoço, a nuca (seu cabelo comprido e em desalinho tinha se grudado, e alguns fios soltos lhe atravessavam a testa como se fossem finas rugas vindas do futuro para ensombrecê-la um instante).

Com ninguém, com uma mulher que me confundiu. Confundiu nossa sacada com a do lado. Devia ter vista ruim, só quando chegou bem perto viu que eu não era o homem com quem marcara encontro. Ali. E apontei para a parede que agora nos separava de Miriam e do homem. Nessa parede havia uma mesa e em cima dela um espelho no qual, conforme nos mexêssemos ou nos erguêssemos, podíamos nos ver da cama.

Mas por que gritava? Pareceu-me que gritava muito. Ou não sei se sonhei. Estou com muito calor. Deixei a toalha ao pé da cama e acariciei-lhe várias vezes a face e o queixo arredondado. Seus grandes olhos escuros fitavam ainda nebulosos. Se tivera febre, esta já havia baixado. Não posso saber, porque na realidade não era comigo que gritava, mas com o outro por quem me tomou. Sabe lá o que se terão feito um ao outro. Enquanto me ocupava de Luísa eu tinha ouvido (mas sem prestar atenção, porque atendia Luísa e estava fazendo ao mesmo tempo várias coisas e indo do quarto ao banheiro e do banheiro ao quarto) como os saltos chegavam até a porta ao lado e esta se abria sem que batessem nela, e a partir do leve rangido (foi rápido) e da suave batida ao se fechar de novo (que foi muito lenta) apenas um murmúrio indistinto, sussurros de palavras que não podiam se distinguir apesar de pronunciadas em minha língua e de, segundo o som de pouco antes, a sacada deles ter ficado entreaberta e eu não ter fechado a nossa. À preocupação com meu indevido atraso somou-se outra, minha preocupação com a sensação de pressa. Senti que tinha pressa não apenas para tranquilizar Luísa, esticar-lhe os lençóis e paliar na medida do possível os efeitos de sua doença efêmera, mas também para que não me fizesse mais perguntas e dormisse de novo, pois não havia tempo para fazê-la participar de minha curiosidade nem ela estava em condições de se interessar por nada exterior a seu corpo e, enquanto trocávamos algumas palavras e eu ia ao banheiro molhar a ponta de uma toalha, dava-lhe de beber e acariciava seu queixo que eu apreciava muito, os pequenos ruídos que eu mesmo ia fazendo e nossas próprias frases curtas e descontínuas me impediam de prestar atenção e apurar o ouvido procurando distinguir o murmúrio contíguo, que eu tinha pressa de decifrar.

E a pressa vinha porque eu tinha consciência de que o que não ouvisse agora não ia ouvir mais; não ia haver repetição, como quando você ouve uma fita cassete ou assiste a um vídeo e pode retroceder, mas cada sussurro não captado nem compreendido se perderia para sempre. É o que há de ruim no que nos acontece e não é gravado, ou, pior ainda, nem mesmo sabido nem visto nem ouvido, porque depois não há forma de recuperá-lo.

O dia em que não estivemos juntos já não teremos estado juntos, ou o que nos iam dizer por telefone quando nos ligaram e não respondemos nunca será dito, nunca a mesma coisa nem com o mesmo espírito; e tudo será levemente diferente ou totalmente diferente por nossa falta de atrevimento que nos dissuadiu de falar. Mas mesmo se naquele dia estivemos juntos, ou se estávamos em casa quando nos telefonaram, ou se nos atrevemos a falar vencendo o temor e esquecendo o risco, mesmo assim nada disso voltará a se repetir, por conseguinte chegará um momento em que ter estado juntos será como não ter estado, e ter atendido o telefone será como não o ter feito, e ter-nos atrevido a nos falar será como ter calado. Até as coisas mais indeléveis têm uma duração, como as que não deixam vestígio ou nem mesmo acontecem, e se estivermos prevenidos e as anotarmos ou gravarmos ou filmarmos, se nos enchermos de recordações e chegarmos até a substituir o acontecido pela mera constância, registo e arquivamento do que aconteceu, de modo que o que na verdade ocorra desde o princípio seja nossa anotação ou nossa gravação ou nossa filmagem, apenas isso, mesmo nesse aperfeiçoamento infinito da repetição teremos perdido o tempo em que as coisas de facto aconteceram (embora seja o tempo da anotação); e enquanto procuramos revivê-lo ou reproduzi-lo e fazê-lo voltar e impedir que seja passado, outro tempo diferente estará acontecendo, e nele, sem dúvida, não estaremos juntos nem atenderemos nenhum telefonema, nem nos atreveremos a nada, nem poderemos evitar nenhum crime e nenhuma morte (embora tampouco venhamos a cometê-los ou a causá-los), porque o estaremos deixando passar como se não fosse nosso em nossa intenção doentia de que o que já aconteceu não acabe e retorne». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa, 

Coração Tão Branco. Javier Marías. «… secado o suor da testa e dos ombros e desabotoado o soutien para que não a incomodasse, deixando que fosse ela quem decidisse mantê-lo posto, embora solto, ou tirá-lo»

jdact

«A mulata não usava relógio nem anéis. Pensei que a figura daquele indivíduo devia ter-lhe sido só um pouco visível durante todos aqueles minutos, ao contrário da minha, inteiramente visível por assomar e estar apoiada na balaustrada imóvel. Agora era o inverso, a minha se apagara de repente e era invisível, em compensação era o homem que eu não via, como tampouco.

Luisa, continuava dando-lhe as costas. Talvez aquele sujeito tivesse ido para trás e para a frente, sempre sem abrir a janela da sacada, conforme se visse ou não focalizado pelos olhos cor de limão da mulher da rua, por seu olhar míope e inofensivo. Estivera brincando com a vantagem de se deixar ver e se esconder, nenhuma das duas coisas, e ela tinha razão portanto, a pessoa com quem marcara encontro já havia subido ao hotel sem se incomodar em avisá-la, para vê-la esperar em frente e na distância, para contemplá-la em seus breves e doridos passeios de um lado para o outro, depois em seu trôpego avanço e em sua queda, calçar-se, como também eu tivera a oportunidade de observá-la.

O curioso foi que a reacção de Miriam não teve nada a ver com a que dedicara a mim ao tomar-me por outro, por aquele homem de braços fortes, peludos, compridos e relógio e aliança de canhoto. Ao vê-lo já com certeza, ao ver quem estivera esperando tanto e ouvi-lo chamá-la, não fez nenhum gesto nem gritou nada. Não o insultou nem o ameaçou nem lhe disse Vou te apanhar ou Eu te mato com o braço nu e os dedos rápidos, talvez porque, ao contrário de mim enquanto fui ele para ela, ele falara com ela ou dissera seu nome. A expressão da mulher mudou: foi de alívio, por um instante, e com prontidão, quase com um agradecimento sem destinatário, com mais graça em seus passos do que até então mostrara (como se de repente caminhasse descalça e suas pernas não fossem tão encorpadas), acabou de percorrer o trecho que a separava do hotel e entrou nele com sua grande bolsa preta agora mais leve, desaparecendo assim de meu campo visual sem me dizer mais palavras, reconciliada com o mundo durante aqueles passos. A janela da sacada à minha esquerda tornou a se fechar e logo tornou a se abrir para ficar entreaberta, como se o vento a tivesse empurrado ou o homem tivesse pensado melhor um segundo depois de fechá-la (pois não ventava) e não soubesse bem como ia querer mantê-la quando a mulher já estivesse com ele em cima, em breve (a mulher devia estar subindo a escada). Então eu, finalmente (mas passara muito pouco tempo, de modo que Luísa ainda devia sentir-se recém-acordada), abandonei meu posto, acendi o abajour do criado-mudo e me aproximei solícito da cabeceira de nossa cama, solícito mas atrasado.

Esse atraso é para mim inexplicável e já então o lamentei muito, não porque tivesse qualquer consequência, mas pelo que pensei que podia significar, num excesso de escrúpulo e zelo. E, embora seja certo que eu tenha associado de imediato esse atraso marital ao primeiro mal-estar de que falei e ao facto de que desde nosso casamento me fosse mais difícil pensar em Luísa (quanto mais corpórea e contínua, mais relegada e remota), o aparecimento do segundo mal-estar que também mencionei não se deveu à minha contemplação lacônica da mulata e à minha brevíssima negligência, mas antes ao que veio depois, isto é, ao que aconteceu quando eu já havia atendido Luísa, secado o suor da testa e dos ombros e desabotoado o soutien para que não a incomodasse, deixando que fosse ela quem decidisse mantê-lo posto, embora solto, ou tirá-lo. Com a luz, Luísa reanimou-se um pouco, quis beber água e, ao beber um pouco, sentiu-se melhor e, ao sentir-se um pouco melhor, dispôs-se a falar um pouco e, quando se acalmou e sentiu os lençóis menos pegajosos e se viu mais composta com a cama em ordem, e sobretudo compreendeu e se acostumou à ideia de que já era noite, de que, quisesse ou não, o dia terminara para ela sem possibilidade de continuar a fazer o que quer que fosse e de que só lhe restava tentar não fazer caso de sua doença e sepultá-la no sono até a manhã seguinte, quando presumivelmente tudo voltaria à normalidade algo anómala de nossa viagem de recém-casados e seu corpo estaria em ordem e seria outra vez corpóreo, então lembrou-se do meu descuido que seguramente ela não havia percebido como tal, ou o que recordou foi que eu tinha dito Não se preocupe a uma pessoa desconhecida que estava na rua e que de lá haviam subido vozes e gritos ouvidos no sono ou em seu torpor, que a tinham despertado e talvez assustado». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa, 

quarta-feira, 20 de março de 2024

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós»

jdact

26 de Março de 2021

«Perguntou a uma delas pela mãe. Recebeu resposta e agradecimento: senhor comendador. Tinha pressa de ir ter com a mulher, de certeza que já estava bem acordada. Durante um par de minutos, inclinou-se lá de cima, sobre a linha dos fornos que caramelizavam a alfarroba. Havia trabalhadores a varrerem cinza, a carregarem caldeiras, cada um a cumprir a sua função. Pouco faltaria para haver espanhóis a tomarem aquela mistura, no desayuno em casa ou encostados à barra, como eles dizem. A torrefação Camelo é uma máquina certa, nunca se cansava de repetir. Lembrou-se do bolo seco na boca, a mastigá-lo, as pessoas vestidas com as melhores roupas, voltas e voltas na boca, havia muito que essas pessoas não teriam conseguido imaginar. Desembaciou os olhos. À sua frente ainda estavam os homens que trabalhavam nos fornos, sorriu para todos eles.

Voltou à divisão dos sacos de café, Uganda, das máquinas a torrar grãos, das pás a arrefecê-los. Desbarrigado, indiferente ao fato de treino fora de moda, levava uma alegria que era uma espécie de vaidade. No entanto, mesmo à beira da saída, o encarregado quis dar-lhe uma palavra mais sóbria, falou do lugar onde o senhor Rui tinha de ir nessa tarde.

A pensar no lugar onde tinha de ir nessa tarde, aquela hora mudou de cor. O sorriso esmoreceu no rosto do senhor Rui, senhor comendador.

Era um veio de acidez, podia avançar por ele, isolá-lo do resto do sabor. Nesse exercício, conseguia identificar um tipo de frescura que sugeria a imagem de maçãs verdes, como quando descascava uma maçã noutro tempo e a lâmina da faca tinha riscos húmidos e a carne da maçã sangrava pequenas gotas de sumo ácido. Mas, claro, reconhecia também o doce, a sua preferência. Em alguma idade teria aprendido esse gosto, o doce confortava-o. Todavia, o doce era complexo. Ali, aquecia-lhe ligeiramente a boca com um morno que, sem inventar, lhe trazia a memória de bolachas da infância, bolachas maria em dias assinalados.

Pousou a chávena no pires, o som da loiça. A manhã entrava inteira por aquele momento, assentava nas paredes brancas, pousava em toda a extensão da mesa, na toalha, no cesto do pão, nas palavras que a mulher dizia. Ao olhar para a mulher, sentiu ainda o peso do café sobre a língua, a espessura, sentiu também o seu nome bonito, Alice. O líquido descia-lhe pela garganta, desaparecia, e o sabor do café evaporava lentamente no interior da boca. Nesse processo, desenrolava novos sabores ou, talvez, novas gradações do mesmo sabor, como tons de uma cor, castanho. Aquilo que a mulher dizia apresentava uma delicadeza semelhante, estendia um enredo de filhos, netos e bisnetos, que se cruzavam em múltiplas direcções, nomes que se enredavam, Helena, Rui, Ivan, Rita, João Manuel, Marcos, nomes dispostos em várias ordens; e também as crianças, os filhos do Rui, do Ivan, do Marcos; nomes a formarem várias ligações, mapa de muitos caminhos, como se todos fossem filhos, primos, sobrinhos, irmãos uns dos outros; e também as crianças, nunca esquecidas, crianças de todos, futuros pais, futuros avós, futuros bisavós». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta…»

jdact

26 de Março de 2021

«Foi nesse momento que, dentro daquela primavera, dobrou ligeiramente os joelhos até achar uma abertura entre verde e cor-de-rosa e, a partir desse mirante, avistou o motorista. Precisou de dar alguns minutos, não queria aparecer logo, mas faltou-lhe paciência para grandes esperas. Agradeceu em silêncio pela preferência matutina, por ter chegado cedo ao circuito de manutenção, antes de sombras fugidias que o julgassem, e saiu do loendro muito aprumado, como se viesse a caminhar no seguimento de uma andança séria, enquanto esticava e encolhia os braços para a frente.

Sem explicações, entrou no automóvel, sentou-se, bebeu de uma pequena garrafa de água, muito digno. Não foi preciso dizer nada ao motorista, que regressou à segurança de saber para onde iam em seguida. As ruas da vila apresentavam nova animação, motorizadas, gente que aparecia à janela, cães a darem algum passeio, arrumados à sombra das paredes.

Muito bem-disposto, passou o portão da torrefação Camelo, sorriso aberto, dentição luminosa. A sexta-feira sentia-se da forma subtil com que os dias da semana se distinguem uns dos outros, o tempo roda. As pás giravam sobre os grãos de café, arrefeciam-nos depois da torra, como se estivessem ali para fazer uma demonstração prática dessa qualidade cíclica do tempo. Mas faltava vontade para teorias, o trabalho estava já em plena acção, conforme se desejava. O encarregado largou logo qualquer coisa que podia esperar e, lampeiro, avançou na direcção do senhor Rui, que também seguia na direcção dele. O que diziam foi abafado pelo afã das máquinas, falavam de assuntos que pouco interessariam a quem não partilhasse o brilho nos olhos de um e de outro. O patrão, claro, tinha a sua história, as lembranças que bastas vezes lhe cruzavam a ideia, em pequeno a aprender com o pai e com o tio, e todas as suas idades, a decidir cada evolução daqueles armazéns, até ser um homem de oitenta e nove anos, até ser aquela a sua empresa de estimação, pequena entre outras empresas do grupo que, àquela mesma hora, eram preocupação da sua descendência.

Depois de tanta veterania, algum privilégio havia de lhe calhar. Conversaram com gosto, as notícias do café vinham com optimismo. Estavam de costas voltadas para a montanha de sacas de juta, as figuras dos dois homens recortadas nesse fundo. Não se tratava da pilha de sacos que está logo à esquerda de quem entra, mas sim os outros, os que estão um pouco mais à frente, à direita, café do Uganda, esse nome gravado nos sacos: Uganda Natural Robusta Coffee. O fim da conversa foi assinalado por alguns pequenos passos e, logo a seguir, duas ou três passadas rijas. A propósito de algum detalhe, o senhor Rui disse uma graça a dois rapazes com farda da fábrica, rapazes de cinquenta e tal anos, calças castanhas, camisola vermelha, grená, cor de romã madura, boina na cabeça, óculos. Riram-se os dois, como era próprio, um deles acrescentou um comentário conveniente e tratou-o por senhor comendador.

Já na sala de embalagem, três mulheres cumprimentaram-no com a deferência de uma sílaba pouco articulada, talvez sem consoantes, a mesma que usavam em todas as manhãs que o senhor Rui decidia entrar ali. À margem dessa etiqueta, a máquina repetia a sua música, a sua sequência infinita, os pacotes chegavam em fila, altivos, novos e brilhantes, deslumbrados, a verem o mundo pela primeira vez a partir de uma passadeira de metal e, por fim, encontravam as mãos da mulher que os alinhava no interior de uma caixa de papelão, prontos para se lançarem numa viagem que ainda desconheciam. O senhor Rui cumprimentou as funcionárias também com uma sílaba, mas afinada por outra nota». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

terça-feira, 5 de março de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia…»

jdact

«Mas eu não conhecia ninguém em Havana, mais ainda, era a primeira vez que estava em Havana, em minha viagem de lua-de-mel com minha mulher tão recente. Virei-me por fim e vi Luísa erguida na cama, com os olhos fixos em mim mas sem ainda me conhecer nem reconhecer onde estava, aqueles olhos febris do doente que acorda assustado e sem ter recebido aviso prévio de seu despertar no sono. Estava levantada, e o sutiã saíra do lugar enquanto dormia, ou então no movimento brusco que acabava de fazer ao erguer-se: estava torcido, tinha descoberto um ombro e quase um seio, com certeza a estava incomodando, devia tê-lo prendido com seu próprio corpo esquecido no mal-estar e no adormecimento. Que está acontecendo?, perguntou apreensiva. Nada, respondi. Volte a dormir.

Mas não me atrevi a achegar-me e acariciar seus cabelos para tranquilizá-la de verdade e para que voltasse ao torpor, como teria feito em qualquer outra circunstância, porque naquele instante eu não me atrevia a abandonar meu lugar na sacada, nem a desviar os olhos por pouco que fosse daquela mulher que estava convencida de ter estado comigo, nem a evitar por mais tempo o diálogo abrupto que da rua se impunha a mim. Era uma pena que falássemos a mesma língua e eu a compreendesse, porque o que ainda não era diálogo já se tornava violento, talvez porque não o fosse, não fosse diálogo. Eu te mato, filho-da-pu…! Juro que eu te mato aqui mesmo!, gritava a mulher da rua.

Gritava aquilo do chão e sem poder me encarar, porque, justo no momento em que eu me virara para dizer a Luísa quatro palavras, um sapato tinha saído do pé da mulata e ela caíra, sem se machucar mas sujando na hora a saia branca. Gritava isto, Eu te mato, e ia se levantando, um tombo, a bolsa sempre pendurada no braço, não a soltara, aquela bolsa ela não soltaria nem que a esfolassem, tentava sacudir-se ou limpar a saia com a mão e estava com um pé descalço, erguido no ar, como se não quisesse de maneira nenhuma pousá-lo e sujar também sua planta, nem as pontas dos dedos sequer, o pé que poderia ver o homem que ela tinha encontrado, vê-lo de perto, em cima, e tocá-lo, mais tarde.

Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia, ainda que apenas um segundo, o necessário para secar o suor que lhe empapava a testa e os ombros e para ajustar ou tirar o soutien para que não a incomodasse e fazê-la regressar com palavras ao sono que a curaria. Aquele segundo eu não podia dar-lhe naquele momento, como era possível, notava com força as duas presenças que quase me paralisavam e emudeciam, uma fora e outra dentro, diante de meus olhos e diante das minhas costas, como era possível, sentia-me obrigado para com ambas, tinha de haver um erro ali, eu não podia me sentir culpado para com minha mulher por nada, por uma demora mínima na hora de atendê-la e acalmá-la, e menos ainda para com uma desconhecida ultrajada, por mais que ela acreditasse que me conhecia e que era eu quem a ultrajava.

Ela estava fazendo malabarismos para voltar a pôr o sapato sem pisar no chão com o pé descalço. A saia era um pouco apertada para realizar essa operação com êxito, seus pés de ossos demasiado compridos, e enquanto tentou não gritou, mas resmungava, não podemos estar muito atentos aos outros enquanto tratamos de recompor a aparência. Não teve outro remédio que apoiar o pé, que se sujou no acto. Voltou a levantá-lo como se o chão a houvesse contaminado ou queimado, sacudiu a poeira como Luísa sacudia a areia seca nas praias justo antes de abandoná-las, às vezes ao cair da noite; enfiou os dedos do pé no sapato, a parte da frente; depois, com o indicador (da mão livre da bolsa), ajustou a tira do calcanhar que sobressaía sob aquela tira (a tira do soutien de Luísa devia continuar caída, mas eu não a via agora). Suas pernas robustas pisaram outra vez com firmeza, batendo no pavimento como se fossem cascos. Deu mais três passos sem erguer ainda a vista e, quando a ergueu, quando abria a boca para me insultar ou me ameaçar e iniciava pela enésima vez o gesto preênsil, garra de leão, aquele que agarrava e significava Você não vai se livrar de mim ou Vai comigo para o inferno, suspendeu-o no ar, e o braço nu ficou congelado no alto, como o de um atleta». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5

Cortesia do RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Você é meu ou Eu te mato. Você está abobalhado ou o que foi? Inda por cima ficou mudo? Mas por que você não me responde? Já estava bem perto, avançara pela esplanada uns dez ou doze passos, suficientes para que agora sua voz estridente não só se ouvisse…»

jdact

«Ao dar mais passos do que os que dera repetidamente durante sua espera vi que andava com dificuldade e lentidão, como se não estivesse acostumada com os saltos, ou suas pernas robustas não fossem feitas para eles, ou a bolsa a desequilibrasse ou estivesse enjoada. Caminhava um pouco como Luísa tinha caminhado depois de sentir-se mal, ao entrar no quarto para deixar-se cair na cama, onde eu lhe tirara parte da roupa e a introduzira nos lençóis (eu a cobrira apesar do calor). Mas naquele andar desajeitado também se adivinhava a graça, perdida naquele momento: quando estivesse descalça a mulher mulata caminharia com graça, a saia ondularia, quebrando-se ritmicamente contra as coxas. Meu quarto estava às escuras, ninguém acendera a luz ao cair a noite, Luísa dormia indisposta, eu não me mexera daquela sacada, olhava os havaneses e depois aquela mulher que continuava se aproximando com passo trôpego e continuava gritando para mim o que agora já ouvia: Ei! Você o que faz aí? Tive um sobressalto ao entender o que estava dizendo, não tanto porque o dissesse para mim quanto pelo modo de fazê-lo, cheio de confiança, furioso, como de quem se dispõe a acertar as contas com a pessoa mais próxima ou a quem está amando, que a irrita continuamente. Não era que se tivesse sentido observada por um desconhecido de uma sacada de um hotel para estrangeiros e viesse reclamar de minha contemplação impune de sua figura e de sua humilhante espera, mas sim que reconhecera de repente em mim, ao levantar a vista, a pessoa que estava esperando sabe lá havia quanto tempo, sem dúvida desde muito antes de eu a notar. Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes ou para alisar outra vez a saia, agora com maior afinco, já que por fim se encontrava diante de quem devia julgar ou apreciar sua queda, a da saia.

Continuava me fitando e desviando um pouco a vista, como se tivesse algum problema de estrabismo, seus olhos escapavam momentaneamente para minha esquerda. Talvez tivesse parado e ficado longe para mostrar sua irritação e que não estava disposta a deixar o encontro se consumar assim sem mais nem menos uma vez que me avistara, como se ela não tivesse sofrido ou não tivesse sido destratada até dois minutos antes. Então disse outras frases, todas elas acompanhadas do gesto inicial do braço e dos dedos móveis, o gesto de segurar, como se com ele dissesse Venha cá ou Você é meu.

Mas com a voz dizia, uma voz vibrante, empostada e desagradável, como de apresentador de tevê, político num discurso ou professor dando aula (mas parecia iletrada): Você o que faz aí? Não me viu que o estava esperando faz uma hora? Por que não me disse que você já tinha subido? Creio que dizia assim, com essa leve alteração na ordem das palavras e abuso dos pronomes em comparação com o que eu teria dito, ou qualquer pessoa de meu país, suponho. Embora eu continuasse sobressaltado, e além disso comecei a temer que os gritos daquela mulata acordassem Luísa às minhas costas, pude observar melhor o rosto, que de facto era de uma mulata bem clara, talvez tivesse uma quarta parte de negra, mais visível nos lábios grossos e no nariz um tanto achatado do que na cor, não muito distinta da cor de Luísa na cama, que passara vários dias bronzeando-se nas praias para recém-casados.

Os olhos piscantes da mulher me pareceram claros, cinzentos ou verdes, pelo menos cor de limão, mas talvez, pensei, tenha ganhado de presente umas lentes de contato coloridas, causa de sua visão deficiente. Tinha narinas veementes, alargadas pela ira (tinha cara de velocidade portanto), e mexia a boca em excesso (agora eu teria lido sem dificuldade em seus lábios, se precisasse), com esgares parecidos com os das mulheres de meu país, isto é, de substancial desprezo. Continuou se aproximando, cada vez mais indignada por não receber resposta, sempre repetindo o mesmo gesto do braço, como se não tivesse outro recurso expressivo além desse, um longo braço nu que dava um golpe seco no ar, os dedos dançando simultaneamente por um instante como para agarrar-me e depois arrastar-me, uma garra.

Você é meu ou Eu te mato. Você está abobalhado ou o que foi? Inda por cima ficou mudo? Mas por que você não me responde? Já estava bem perto, avançara pela esplanada uns dez ou doze passos, suficientes para que agora sua voz estridente não só se ouvisse, mas começasse a troar no quarto; suficientes também, achei, para que me visse sem incerteza por mais míope que fosse, portanto parecia indubitável que eu era a pessoa com quem marcara um encontro importante, que a angustiara com meu atraso e a ofendera da sacada com minha vigilância calada que continuava ofendendo-a». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5

Cortesia do RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «… só que eu já a usava na esquerda, fazia duas semanas, pouco tempo, não me acostumara. Também o relógio, preto e grande, aquele homem usava no pulso do mesmo braço e eu, em compensação, no do outro. Devia ser canhoto»

jdact

« Aquele segundo eu não podia dar-lhe naquele momento, como era possível, notava com força as duas presenças que quase me paralisavam e emudeciam, uma fora e outra dentro, diante de meus olhos e diante das minhas costas, como era possível, sentia-me obrigado para com ambas, tinha de haver um erro ali, eu não podia me sentir culpado para com minha mulher por nada, por uma demora mínima na hora de atendê-la e acalmá-la, e menos ainda para com uma desconhecida ultrajada, por mais que ela acreditasse que me conhecia e que era eu quem a ultrajava. Ela estava fazendo malabarismos para voltar a pôr o sapato sem pisar no chão com o pé descalço. A saia era um pouco apertada para realizar essa operação com êxito, seus pés de ossos demasiado compridos, e enquanto tentou não gritou, mas resmungava, não podemos estar muito atentos aos outros enquanto tratamos de recompor a aparência. Não teve outro remédio que apoiar o pé, que se sujou no acto. Voltou a levantá-lo como se o chão a houvesse contaminado ou queimado, sacudiu a poeira como Luísa sacudia a areia seca nas praias justo antes de abandoná-las, às vezes ao cair da noite; enfiou os dedos do pé no sapato, a parte da frente; depois, com o indicador (da mão livre da bolsa), ajustou a tira do calcanhar que sobressaía sob aquela tira (a tira do soutien de Luísa devia continuar caída, mas eu não a via agora). Suas pernas robustas pisaram outra vez com firmeza, batendo no pavimento como se fossem cascos. Deu mais três passos sem erguer ainda a vista e, quando a ergueu, quando abria a boca para me insultar ou me ameaçar e iniciava pela enésima vez o gesto preênsil, garra de leão, aquele que agarrava e significava Você não vai se livrar de mim ou Vai comigo para o inferno, suspendeu-o no ar, e o braço nu ficou congelado no alto, como o de um atleta.

Vi sua axila recém-raspada, tinha se aprontado toda para o encontro. Olhou uma vez mais à minha esquerda e olhou para mim e olhou à minha esquerda e para mim. Mas o que está acontecendo?, voltou a perguntar Luísa de sua cama. Sua voz era temerosa, expressava um temor misto, interior e exterior, tinha medo do que estava acontecendo em seu corpo, tão longe de casa, e do que não sabia que estava acontecendo, ali na sacada e na rua, ou que estava acontecendo comigo e não com ela, os casais logo se acostumam a que tudo aconteça com ambos. Era de noite e nosso quarto continuava às escuras, devia sentir-se tão ofuscada que nem acendia o abajur da mesinha-de-cabeceira a seu lado. Estávamos numa ilha.

A mulher da rua ficou com a boca aberta sem dizer nada e levou a mão ao rosto, a mão que foi deslizando decepcionada, envergonhada e mansa para baixo desde cima. Já não havia mal-entendido. Ai, desculpe, disse-me ao cabo de uns segundos. Confundi o senhor com outra pessoa. Num instante toda a fumaça tinha-se dissipado e ela havia compreendido, isso era o mais grave, que tinha de continuar esperando, talvez onde estivera de início, não mais sob as sacadas, teria de voltar ao ponto escolhido originalmente, ao outro lado da rua além da esplanada, para lá arrastar com celeridade e ódio seu salto afilado após seus dois ou três passos, três machadadas e espora, ou espora depois dos machados. Era uma pessoa repentinamente desarmada, dócil, perdera toda a sua cólera e suas energias, e creio que não lhe importava tanto o que eu pudesse pensar de seu engano e de seu mau génio, afinal era eu um desconhecido a seus olhos verdes, quanto se dar conta de que seu encontro ainda corria o risco de não acontecer.

Fitava-me com seu olhar cinzento de repente absorto, com um pouco de desculpa e um pouco de indiferença, de desculpa o justo necessário, pois era a amargura que prevalecia. Ir embora ou esperar de novo, depois de ter concluído a espera. Não se preocupe, disse eu. Com quem está falando?, perguntou-me Luísa, que sem minha assistência ia saindo de seu estupor, embora não das trevas (a voz era um pouco menos rouca e sua pergunta mais concreta; talvez não estivesse entendendo que era noite).

Mas ainda não respondi nem me aproximei da cama para sossegá-la e arrumar os lençóis para ela, porque nesse momento abriram ruidosamente as portas da sacada à minha esquerda e vi aparecerem dois braços de homem que se apoiaram na balaustrada de ferro, ou a seguraram como se fosse uma barra móvel, e chamaram: Miriam!

A mulata, indecisa e confusa, tornou a olhar para cima, agora já sem dúvida à minha esquerda, sem dúvida para a sacada que se abrira e para os braços fortes que eram tudo o que eu via, os braços compridos do homem em mangas de camisa, as mangas arregaçadas, brancas, os braços peludos, tanto ou mais do que os meus. Eu havia deixado de existir, desaparecera, também estava de mangas arregaçadas, tinha levantado as mangas ao sair à sacada para debruçar-me, fazia pouco, mas agora eu havia desaparecido por ser eu outra vez, isto é, por ser para ela ninguém. No anular da sua mão direita o homem trazia uma aliança como a minha, só que eu já a usava na esquerda, fazia duas semanas, pouco tempo, não me acostumara. Também o relógio, preto e grande, aquele homem usava no pulso do mesmo braço e eu, em compensação, no do outro. Devia ser canhoto». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

domingo, 28 de janeiro de 2024

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia…»

jdact

«Embora eu continuasse sobressaltado, e além disso comecei a temer que os gritos daquela mulata acordassem Luísa às minhas costas, pude observar melhor o rosto, que de facto era de uma mulata bem clara, talvez tivesse uma quarta parte de negra, mais visível nos lábios grossos e no nariz um tanto achatado do que na cor, não muito distinta da cor de Luísa na cama, que passara vários dias bronzeando-se nas praias para recém-casados. Os olhos piscantes da mulher me pareceram claros, cinzentos ou verdes, pelo menos cor de limão, mas talvez, pensei, tenha ganhado de presente umas lentes de contato coloridas, causa de sua visão deficiente. Tinha narinas veementes, alargadas pela ira (tinha cara de velocidade portanto), e mexia a boca em excesso (agora eu teria lido sem dificuldade em seus lábios, se precisasse), com esgares parecidos com os das mulheres de meu país, isto é, de substancial desprezo.

Continuou se aproximando, cada vez mais indignada por não receber resposta, sempre repetindo o mesmo gesto do braço, como se não tivesse outro recurso expressivo além desse, um longo braço nu que dava um golpe seco no ar, os dedos dançando simultaneamente por um instante como para agarrar-me e depois arrastar-me, uma garra. Você é meu ou Eu te mato. Você está abobalhado ou o que foi? Inda por cima ficou mudo? Mas por que você não me responde? Já estava bem perto, avançara pela esplanada uns dez ou doze passos, suficientes para que agora sua voz estridente não só se ouvisse, mas começasse a troar no quarto; suficientes também, achei, para que me visse sem incerteza por mais míope que fosse, portanto parecia indubitável que eu era a pessoa com quem marcara um encontro importante, que a angustiara com meu atraso e a ofendera da sacada com minha vigilância calada que continuava ofendendo-a. Mas eu não conhecia ninguém em Havana, mais ainda, era a primeira vez que estava em Havana, em minha viagem de lua-de-mel com minha mulher tão recente.

Virei-me por fim e vi Luísa erguida na cama, com os olhos fixos em mim mas sem ainda me conhecer nem reconhecer onde estava, aqueles olhos febris do doente que acorda assustado e sem ter recebido aviso prévio de seu despertar no sono. Estava levantada, e o soutien saíra do lugar enquanto dormia, ou então no movimento brusco que acabava de fazer ao erguer-se: estava torcido, tinha descoberto um ombro e quase um seio, com certeza a estava incomodando, devia tê-lo prendido com seu próprio corpo esquecido no mal-estar e no adormecimento.

Que está acontecendo?, perguntou apreensiva. Nada, respondi. Volte a dormir. Mas não me atrevi a achegar-me e acariciar seus cabelos para tranquilizá-la de verdade e para que voltasse ao torpor, como teria feito em qualquer outra circunstância, porque naquele instante eu não me atrevia a abandonar meu lugar na sacada, nem a desviar os olhos por pouco que fosse daquela mulher que estava convencida de ter estado comigo, nem a evitar por mais tempo o diálogo abrupto que da rua se impunha a mim.

Era uma pena que falássemos a mesma língua e eu a compreendesse, porque o que ainda não era diálogo já se tornava violento, talvez porque não o fosse, não fosse diálogo. Eu te mato, filho-da-pu…! Juro que eu te mato aqui mesmo!, gritava a mulher da rua. Gritava aquilo do chão e sem poder me encarar, porque, justo no momento em que eu me virara para dizer a Luísa quatro palavras, um sapato tinha saído do pé da mulata e ela caíra, sem se machucar mas sujando na hora a saia branca. Gritava isto, Eu te mato, e ia se levantando, um tombo, a bolsa sempre pendurada no braço, não a soltara, aquela bolsa ela não soltaria nem que a esfolassem, tentava sacudir-se ou limpar a saia com a mão e estava com um pé descalço, erguido no ar, como se não quisesse de maneira nenhuma pousá-lo e sujar também sua planta, nem as pontas dos dedos sequer, o pé que poderia ver o homem que ela tinha encontrado, vê-lo de perto, em cima, e tocá-lo, mais tarde.

Senti-me culpado para com ela, pela espera, por sua queda e por meu silêncio, e também culpado para com Luísa, minha mulher recém-contraída que estava precisando de mim pela primeira vez desde a cerimónia, ainda que apenas um segundo, o necessário para secar o suor que lhe empapava a testa e os ombros e para ajustar ou tirar o soutien para que não a incomodasse e fazê-la regressar com palavras ao sono que a curaria». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

Coração Tão Branco. Javier Marías. «Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes…»

jdact

«Ao dar mais passos do que os que dera repetidamente durante sua espera vi que andava com dificuldade e lentidão, como se não estivesse acostumada com os saltos, ou suas pernas robustas não fossem feitas para eles, ou a bolsa a desequilibrasse ou estivesse enjoada. Caminhava um pouco como Luísa tinha caminhado depois de sentir-se mal, ao entrar no quarto para deixar-se cair na cama, onde eu lhe tirara parte da roupa e a introduzira nos lençóis (eu a cobrira apesar do calor). Mas naquele andar desajeitado também se adivinhava a graça, perdida naquele momento: quando estivesse descalça a mulher mulata caminharia com graça, a saia ondularia, quebrando-se ritmicamente contra as coxas. Meu quarto estava às escuras, ninguém acendera a luz ao cair a noite, Luísa dormia indisposta, eu não me mexera daquela sacada, olhava os havaneses e depois aquela mulher que continuava se aproximando com passo trôpego e continuava gritando para mim o que agora já ouvia: Ei! Você o que faz aí?

Tive um sobressalto ao entender o que estava dizendo, não tanto porque o dissesse para mim quanto pelo modo de fazê-lo, cheio de confiança, furioso, como de quem se dispõe a acertar as contas com a pessoa mais próxima ou a quem está amando, que a irrita continuamente. Não era que se tivesse sentido observada por um desconhecido de uma sacada de um hotel para estrangeiros e viesse reclamar de minha contemplação impune de sua figura e de sua humilhante espera, mas sim que reconhecera de repente em mim, ao levantar a vista, a pessoa que estava esperando sabe lá havia quanto tempo, sem dúvida desde muito antes de eu a notar.

Ainda estava à distância, atravessara a rua evitando os poucos carros sem procurar um semáforo e se achava no começo da esplanada, onde parara, talvez para descansar os pés e as pernas tão salientes ou para alisar outra vez a saia, agora com maior afinco, já que por fim se encontrava diante de quem devia julgar ou apreciar sua queda, a da saia. Continuava fitando-me e desviando um pouco a vista, como se tivesse algum problema de estrabismo, seus olhos escapavam momentaneamente para minha esquerda.

Talvez tivesse parado e ficado longe para mostrar sua irritação e que não estava disposta a deixar o encontro se consumar assim sem mais nem menos uma vez que me avistara, como se ela não tivesse sofrido ou não tivesse sido destratada até dois minutos antes. Então disse outras frases, todas elas acompanhadas do gesto inicial do braço e dos dedos móveis, o gesto de segurar, como se com ele dissesse Venha cá ou Você é meu. Mas com a voz dizia, uma voz vibrante, importada e desagradável, como de apresentador de tevê, político num discurso ou professor dando aula (mas parecia iletrada):

Você o que faz aí? Não me viu que o estava esperando faz uma hora? Por que não me disse que você já tinha subido? Creio que dizia assim, com essa leve alteração na ordem das palavras e abuso dos pronomes em comparação com o que eu teria dito, ou qualquer pessoa de meu país, suponho». In Javier Marías, Coração Tão Branco, 1992, Relógio D’Água, 1994, ISBN 972-708-247-5.

Cortesia de RelógioD’Água/JDACT

JDACT, Javier Marías, Literatura, Espanha, Narrativa,

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. « Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento»

jdact

26 de Março de 2021

«A minha mãe vira-se para mim, entro nos seus olhos, são olhos verdadeiros. A nata já solidificou sobre o leite fervido. Os olhos da minha mãe, limpos, o seu rosto, esta é aquela juventude que ficará aqui, teremos de avançar sem ela, teremos de continuar, não poderemos deter-nos por nada, nem sequer por aquilo que mais importa, pela única coisa que importa. Ainda estamos sozinhos na cozinha, a minha mãe ainda não preparou as canecas, ainda não misturou o leite, ainda não as adoçou, ainda não chamou as minhas irmãs, ainda não sabe o que vai acontecer ao meu pai, faltam tão poucos anos, ainda não envelheceu, a minha mãe ainda não envelheceu. A minha mãe, os seus olhos jovens e limpos e eu com nove anos, o meu Rui, pode deixar que eu falo com o meu Rui, eu com nove anos, a querer poupá-la de tudo, a querer resolver tudo, a querer segurar-lhe nas mãos e, na hora certa, a querer sussurrar-lhe aos ouvidos: não tenha medo, mãe; não tenha medo, mãe; sou o seu Rui, estou aqui.

Estava escondido atrás das ramas e das flores de um loendro. Com os joelhos pouco dobrados, espreitava o motorista. As flores exageravam no cor-de-rosa e, ao mesmo tempo, tingiam o ar com um perfume doce, grosso, meloso. O sol começava a aquecer e, também por isso, o perfume apurava o açúcar.

Tomou uma posição mais justa, endireitou-se, mas não quis aparecer logo, precisava de dar mais alguns minutos. Lembrou-se dos óculos do Marcello Caetano, já era a segunda vez que tinha essa lembrança naquele dia. Mas logo a seguir olhou na direcção de Espanha, o olhar atravessou a vedação do estádio, lançou-se no começo da estrada. Os campos de oliveiras certinhas, que cobriam uma e outra berma, chegaram da imaginação, ou da memória, em algum desses lugares os observava também.

Pareciam malucos, os pardais, enrolavam-se em tropelias a baixa altitude, desafiavam o sol, sabiam que, a qualquer momento, podiam entrar pelas copas das árvores e descansar as asas e os bicos. Porque começou a saturar-se de esperar, voltou a dobrar ligeiramente os joelhos e voltou a espreitar o motorista entre duas pernadas do loendro.

Lá continuava ele, intrigado, encostava-se e desencostava-se da porta do automóvel, cumprimentava um transeunte, bom dia, trocava frases avulsas com os bombeiros que davam um passo fora do quartel.

Na primeira hora da manhã, quando o senhor Rui chegou de fato de treino, sapatilhas atadas com largos laços, o motorista ficou logo com duas palavras presas na garganta. A rotina é uma forma de lógica; por isso, durante o caminho para o estádio, poucos minutos em ruas sem trânsito, o motorista franziu a cara e calculou há quantos anos o patrão não começava o dia com aquela ginástica. Não alcançou um número certo. Em vez de concluir esse raciocínio, dedicou-se a pequenos sinais, gestos ou sugestões, espécie de pequenas perguntas ocultas, discretíssimas. Mas o patrão, senhor Rui, optou por olhar para o lado, ignorar o rosto metediço no espelho retrovisor e restantes códigos.

No estacionamento, puxado o travão de mão, quando o motorista se ofereceu para acompanhá-lo, recebeu logo resposta negativa, o senhor Rui levantou a palma da mão e agitou-a. E prescindiu de outras palavras, apenas um certo tom, cara sisuda. Às vezes, fazia falta esse rigor. E afastou-se em linha recta, na medida do possível, para o circuito de manutenção. Nos pensamentos, quase ofendido, parecia-lhe que aquele interesse desafiava as suas competências e respondia a acusações que não tinham sido realmente feitas. Era a idade, cismou que a desconfiança do motorista nascia do tema da idade. Os novos têm a arrogância do que desconhecem, bamboleiam-se todos manientos, carregados de presunção, sem repararem que levam um céu de pedra suspenso sobre a cabeça, nuvens esculpidas. Está mesmo ali, bastaria um movimento de pescoço para enxergá-lo, mas ficam de olhos turvos quando dirigem a vista para certas lonjuras, conforme olhos de peixe morto, ganham a mesma capa de cegueira.

Influído por esse despique, passou diante das bilheteiras do estádio do Campomaiorense, quatro buracos quadrados numa parede, e entrou no circuito de manutenção. Seguia de queixo erguido, acompanhava os passos com movimento atlético de cotovelos ao longo do corpo mas, de repente, os artelhos tomaram outra decisão. E, logo os dois ao mesmo tempo, lançaram uma pontada que lhe apanhou os calcanhares, o peito dos pés, articulações, tendões, músculos. Só teve tempo de se encostar ao vulto do loendro e serenar. Pensou numa cadeira ou num banco, mas aquela sombra já era de valor. Fechou os olhos, encheu os pulmões. Lembrou-se do sentinela no Quartel do Trem, a hora de sair, licença, e o sentinela lá estava, sempre um rapaz amedrontado, por mais que o escondesse numa cara desta ou daquela maneira, um rapaz em sentido, a cabeça a assar no capacete, os pés a ferverem nas botas, meias de fio áspero. Abriu os olhos, esvaziou os pulmões. Já tinha os calcanhares mais acomodados, mas sabia que voltariam a doer se tivesse a extravagância de lançar-se em novo andamento. Lembrou-se das razões porque deixou de fazer aquela caminhada, pequena derrota, mais uma». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber, 

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «… a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café»

jdact

26 de Março de 2021

«Quando entreguei o prato e o pano à minha mãe, tinha a cesta aviada com pedaços de carne acomodados em folhas de couve, pode deixar que eu falo com o meu Rui. A minha mãe explicou-me os destinatários dessas encomendas, orelha, toucinho, ossos, pés, fígado, baço. Antes de sair, passou-me a mão pelo cabelo, uma festa, como se me penteasse. Quando terminei a primeira ronda, estavam as mulheres no começo de encher as farinheiras. O cheiro avinagrado da massa das farinheiras impregnava a divisão. A seguir, com a cesta novamente carregada, as ruas de Campo Maior entardeceram, a cal recebeu diferentes amarelos, acinzentados e azuis, até cair a noite. Quando voltei da segunda ronda de distribuição, mãos agradecidas a receberem as encomendas, olhos regalados a apreciarem a carne, a textura da carne sobre a couve, a minha mãe esperava-me com a vasilha do leite, tinha essa intenção planeada desde sempre. Depois do morno do sebo e da palha, depois do olhar mal iluminado das vacas, depois das ruas, noite antes do serão, gente a voltar para casa, cheguei com o quarto de litro de leite, mais um ou dois dedos por paga de bom freguês.

Foi ao entregar a vasilha que a minha mãe me prometeu a nata. Eu conhecia já o desenvolvimento desse gesto, não era a primeira vez. Entrei em casa e sentei-me à mesa com as minhas irmãs, a pequena não estava ainda farta de brincadeira. Sopa de feijão com massa, a minha mãe sempre de pé, a ir de uma tarefa para outra, acabámos de comer em silêncio, as sombras engrossavam nos cantos. Mas a pequena estava ainda esperta, não pensava em sono, e a minha irmã Cremilde fazia-lhe a vontade, as suas vozes a desmontarem-se até serem risos e, sem esforço, a transformarem-se outra vez em vozes. Recolhida a loiça, quando fui buscar o caderno da escola e me sentei à mesa, arrumado ao candeeiro de petróleo, a minha mãe deu ordem às raparigas para irem para o quarto, não se importaram, sabiam que lá estariam mais soltas.

O carvão do lápis, no papel, sob a luz do candeeiro, penumbra, era feito de sombra, escrevi letras com sombra. O tempo, a minha mãe e eu, todos os objectos da cozinha. E, há poucos minutos, voltei a guardar o caderno, os trabalhos terminados, aptos para o olhar do professor e, imediatamente, os sons do alumínio e do esmalte, a vasilha de alumínio a verter o leite para o púcaro de esmalte. Apercebo-me ainda do momento em que arrumei o púcaro às brasas, a raspar no chão de cinzas, ao lado da cafeteira com água que está sempre encostada ao lume. Esse momento aconteceu e está ainda a acontecer, existiu o ponto em que tudo era esse momento, e existe este ponto arrastado em que é um eco, imagem desfiada, composta por notícias em que só agora reparo.

Interrompendo um raciocínio, de repente, como se me quisesse apanhar desprevenido, o leite sopra um arrufo e lança-se; mas os meus reflexos são imediatos, inclino-me e puxo o púcaro. A minha mãe dá conta deste gesto. Tem tudo preparado, abre a lata do café. Fixo-me nas minhas mãos de rapaz de nove anos, o tamanho e a forma dos dedos, as unhas, a pele da palma das mãos, os pulsos. Reparo nos meus braços, na proporção do meu corpo em relação ao que me rodeia, esta cozinha, a cozinha dos meus nove anos, reparo neste tempo, serão da minha infância, inverno, dia de semana, o meu irmão que ainda não chegou, um homem com dezasseis anos, as minhas irmãs, a Cremilde com onze e a Clarisse com sete, e o meu pai, que também ainda não chegou, o patrão não lhe concedeu anuência, mas que está em algum lugar, a respirar, a ver alguma coisa, quase de certeza a pensar em nós, quase de certeza a pensar que gostava de estar aqui.

E esta hora tão precisa, intensa, a minha mãe, resguardada pela luz e pela escuridão, o candeeiro de petróleo a aguentar todo o peso da noite. A minha mãe com a cintura envolta em nuvens, entorna a água sobre o coador. É café do melhor, trazido de Espanha pelo meu tio, é ouro. Vai preparar canecas de café com leite para as minhas irmãs e para mim, para o meu irmão mais tarde, a Clarisse irá lamber os lábios para não desperdiçar nenhum cristal de açúcar, a minha mãe irá desfrutar do consolo de ver-nos consolados. Caem as últimas gotas negras pelo bico do filtro, cone invertido, o eflúvio do café». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

 Cortesia de QuetzalE/JDACT

 JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,

Almoço de Domingo. José Luís Peixoto. «As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe»

jdact

26 de Março de 2021

«Hoje, durante toda a tarde, atravessei Campo Maior bastas vezes. Pousei o livro da segunda classe, comi um caldo e, logo a seguir, estava eu já disposto, encostado a dois breves minutos de folga, em silêncio bem-comportado. A minha mãe aceitava uma encomenda, pode deixar que eu falo com o meu Rui. Eu ali, transparente ou invisível, e a minha mãe a falar de mim, o Rui dela. Temos carne nova na mercearia, sabes e por toda a vila. O porco foi morto ontem e, àquela hora, já não estava pendurado de cabeça, preso pelas patas traseiras, tinham começado a desmanchá-lo no primeiro início da manhã, cedo, no fresco, antes ainda da minha abalada para a escola.

Pode deixar que eu falo com o meu Rui, e falaria, mas o primeiro mandado já estava capaz de ser feito. Com solene cerimónia, a minha mãe apresentou-me um prato de fêveras, coberto por um pano. E tanto o prato, como o pano, como as fêveras, pertenciam à melhor selecção.

Atravessei a praça da República e, depois, escolhi as ruas que me pareceram mais apuradas para aquele desfile. Levava o prato à frente do peito, seguro pelas duas mãos. Em cada passada, levantava o pé com firmeza, não arriscava sequer tropeçar numa ideia. Nesse rigor, cruzei-me com moços da minha idade, obrigados a decorar os mesmos rios de Angola que eu e, apesar dessa grande confiança, não nos cumprimentámos. Em silêncio, reconhecendo gravidade, ficaram apenas a seguir-me com o olhar.

Mais perto da casa do doutor, crescia o desejo de ver o meu pai, talvez calhasse a achá-lo entre uma tarefa e outra, podia mesmo coincidir com a oportunidade de um passeio no carro do patrão, do doutor, os bancos de couro, o gargalo esticado para ver a estrada depois do capô, longa carroçaria de chapa mociça, e o meu pai, compenetrado, os braços pousados no guiador, pronto para qualquer manobra. Mas, quase ao mesmo tempo, logo colado a esse pensamento, o coração desengatilhava-se a bater, tipo bombo, era o medo de encontrar o filho do doutor, medo de que andasse solto, espírito envenenado. Fiz os últimos metros nesse suplício, como se o prato de fêveras me puxasse a mim. Fui direito às traseiras, bati à porta da copa, chegou uma servente de cozinha que me desenganou logo da possibilidade de ver o meu pai, tinha acabado de sair de automóvel, tinha ido levar ou buscar a patroa, a esposa do doutor.

À espera da devolução da loiça, a ansiedade cresceu com a idealização do filho do doutor, rosto esgazeado que podia saltar-me à frente. Assim que recebi o prato enxaguado, a pingar água, o pano muito bem dobrado, quis sair dali. Nessa urgência, distingui um urro abafado, talvez o filho do doutor, trancado em algum ponto daquele casarão, ou no interior da minha cabeça.

As brasas, como pequenas almas. A cinza, quase misturada com a sombra, pó de sombra. O leite, escondido na sua cor, mas prestes a irromper de repente pelas paredes do púcaro. Tenho de evitar essa bruteza de desperdício. Tenho também de esquivar-me aos pingos súbitos que as barrigas dos chouriços largam, chuva muito lenta de gordura espessa, gordura que se desfez para atravessar os poros das tripas e, depois, aquecida por este fumo paciente, se reagrupou num pingo meloso. Não afasto o olhar do lume, estou de guarda às chamas e ao leite, mas reconheço na pele o toque da luz do candeeiro, o aroma tóxico e doce do petróleo queimado. O meu irmão ainda não chegou a casa. Não se sabe a que horas o meu pai chegará, dispensado por fim pelo doutor. As minhas irmãs continuam no quarto. Não me viro para ver a minha mãe, mas sinto a sua presença, mãe desmedida, este é o mundo onde ela existe». In José Luís Peixoto, Almoço de Domingo, Quetzal Editores, 2021, ISBN 978-989-722-460-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

JDACT, José Luís Peixoto, Literatura, Narrativa, Campo Maior, Rui Nabeiro, O Saber,