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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Dante Alighieri. A Divina Comédia. «Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava pela sua salvação…»


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«Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.

Inferno.
Canto I

 - Oh! Virgílio, tu és aquela fonte
donde em rio caudal brota a eloquência?
Falei, curvando vergonhoso a fronte.
Ó dos poetas lustre, honra, eminência!
Valham-se o longo estudo, o amor profundo
com que em teu livro procurei ciência!

És meu mestre, o modelo sem segundo;
unicamente és tu que hás-me ensinado;
o belo estilo que honra-me no mundo.
A fera vês que o passo me há vedado;
sábio famoso, acude ao perseguido!
Tremo no pulso e veias, transtornado!

Respondeu, do meu pranto condoído;
te convém outra rota de ora avante
para o lugar selvagem ser vencido.
A fera, que te faz bradar tremante,
aqui passar não deixa impunemente;
tanto se opõe, que mata o caminhante.
[…]

Será da humilde Itália amparo forte,
por quem Camila a virgem dera a vida,
turno Eurialo, Niso acharam morte.
Por ele, em toda a parte, repelida
irá lançar-se no infernal assento,
donde foi pela Inveja conduzida.

Agora, por teu prol, eu tenho o intento
de levar-te comigo; ir-te-ei guiando
pela estância do eterno sofrimento,
onde, estridentes gritos escutando,
verás almas antigas em tortura
segunda morte a brados suplicando.

Outros ledos verás, que, em prova dura
das chamas, inda esperam ter o gozo
de Deus no prémio da imortal ventura.
Se lá subir quiseres, um ditoso
espírito, melhor te será guia,
quando eu deixar-te, ao reino glorioso.

Do céu o Imperador, a rebeldia
minha à lei castigando, não consente
que eu da cidade sua haja a alegria.
Em toda parte impera onipotente,
mas tem no Empíreo sua augusta sede:
feliz, por ele, o eleito à glória ingente!

Por esse Deus, que nunca hás conhecido,
porque este e maior mal de mim se arrede.
Que, até onde disseste conduzido,
à porta de São Pedro eu vá contigo
e veja os maus que houvesse referido.
Move-se o Vate então, após o sigo.

Canto II
Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz quem o mandava, e que havia quem se interessava pela sua salvação, determina-se segui-lo e entra com o seu guia no difícil caminho».

In Dante Alighieri, A Divina Comédia, Atena Editora, 1955, Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro (1812-1882), Digitalização de eBooks  por Helder Rocha, 2003.

 Continua
Cortesia de eBooks/JDACT

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Dante Alighieri. A Divina Comédia. «Uma formidável obra de fantasia e de representação poética, talvez um dos pontos limites que a inteligência humana pode alcançar. … prende-se também ao seu amor por Beatriz, bem como ao desejo de vingar-se de seus inimigos e de expor as suas ideias políticas»


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«A “Divina Comédia” é, principalmente, uma formidável obra de fantasia e de representação poética, talvez um dos pontos limites que a inteligência humana pode alcançar.
Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.

Inferno
Canto I

No céu a aurora já resplandecia,
subia o sol, dos astros rodeado,
seus sócios, quando o Amor divino um dia

a tais primores movimento há dado.
Me infundiam desta arte alma esperança
da fera o dorso alegre e mosqueado,

a hora amena e a quadra doce e mansa.
De um leão de repente surge o aspecto,
que ao meu peito o pavor de novo lança.

Que me investisse então cuido inquieto;
com fome e raiva atroz fronte levanta;;
tremer parece o ar ao seu conspeto.

Eis surge loba, que de magra espanta;
de ambições todas parecia cheia;
foi causa a muitos de miséria tanta!

Com tanta intensa torvação me enleia
pelo terror, que o cenho seu movia,
que a mente à altura não subir receia.

Como quem lucro anela noite e dia,
se acaso o tempo de perder lhe chega,
rebenta em pranto e triste se excrucia,

a fera assim me fez, que não sossega;
pouco a pouco me investe até lançar-me
lá onde o sol se cala e a luz me nega.

Quanto ao vale eu já ia baquear-me
alguém fraco de voz diviso perto,
que após largo silêncio quer falar-me.

Tanto que o vejo nesse grão deserto,
- “tem compaixão de mim” – bradei transido
“quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

“Homem não sou” tornou-me – “mas hei sido,
pais lombardos eu tive; sempre amada
Mântua lhes foi; haviam lá nascido.

“Nasci de Júlio em era retardada,
vivi em Roma sob o bom Augusto,
quando em deuses havia a crença errada.

“Poeta, decantei feitos do justo
filho de Anquíses, que de Tróia veio,
depois que Ílion soberbo foi combusto.

“Mas por que tornas da tristeza ao meio?
Por que não vais ao deleitoso monte,
que o prazer todo encerra no seu seio?



In Dante Alighieri, A Divina Comédia, Atena Editora, 1955, Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro (1812-1882), Digitalização de eBooks Brasil por Helder Rocha, 2003.

Continua
Cortesia de eBooks Brasil/JDACT

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Dante Alighieri. A Divina Comédia. «Uma formidável obra de fantasia e de representação poética, talvez um dos pontos limites que a inteligência humana pode alcançar»

(1265-1321)
Florença, Itália
Quadro de Sandro Botticelli
Cortesia de wikipedia

«Uma obra que deveria figurar na ‘estante’ de qualquer estudante. E não apenas por ser a famosa “Comédia” de Dante, a que os pósteros acrescentaram, por seus méritos, “A Divina”. A tradução, feita por José Pedro Xavier Pinheiro (1822-1882), Brasil, enobrece a língua portuguesa e, em particular, as letras pátrias.
Dedicando-lhe o ‘Paraíso’ escrevia Dante a Cangrande della Scala:
  • “O sentido desta obra não é simples; ao contrário ela é «polisensa», pois outro é o sentido literal, outro aquele das coisas significadas”.
Declarava Dante com essas palavras que a “Divina Comédia” é um poema alegórico.
Não somente no poema há alegorias particulares, mas o poema, na sua inteireza, tem uma significação, ou melhor, várias significações alegóricas. Muitas foram as interpretações que da “Divina Comédia” se fizeram sob esse ponto de vista. Alguns comentadores puseram em maior evidência o seu sentido moral e teológico; outros consideram o poema dantesco como uma obra de inspiração política e ligada intimamente às vicissitudes pessoais do poeta. Não são, porém, as intenções alegóricas que consagram a imortalidade da “Comédia” dantesca, à qual os pósteros atribuíram a qualificação de divina. A “Divina Comédia” é, principalmente, uma formidável obra de fantasia e de representação poética, talvez um dos pontos limites que a inteligência humana pode alcançar. O poema dantesco é apresentado na tradução em tercetos rimados como no texto original, como inicialmente citado (José P. Xavier Pinheiro). Esta tradução constitui uma obra digna de admiração. Fiel, bastante clara, consegue reproduzir grande parte da força poética do maravilhoso poema italiano». In Fonte ‘orelha’ da edição digitalizada.

Dante, no Exílio
Anónimo.
Archivo Iconográfico S. A., Itália.
Cortesia de Corbis Image Collections

Inferno
Canto I
Dante, perdido numa selva escura, erra nela toda a noite. Saindo ao amanhecer, começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam a passagem uma pantera, um leão e uma loba, que o repelem para a selva. Aparece-lhe então a imagem de Virgílio, que o reanima e se oferece a tirá-lo de lá, fazendo-o passar pelo Inferno e pelo Purgatório. Beatriz, depois, o guiará ao Paraíso. Dante o segue.

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era a cousa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa.

Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras cousas que vi, direi verdade.

Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tornara,
Quando hei o bom caminho abandonado.

Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando,
Que pavor tão profundo me causara.

Beatriz
Cortesia de seguindopassoshistoria

Ao alto olhei, e já, de luz banhando,
Vi-lhe estar às espaldas o planeta,
Que, certo, em toda parte vai guiando.

Então o assombro um tanto se aquieta,
Que do peito no lago perdurava,
Naquela noite atribulada, inquieta.

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
Olha o mar perigoso em que lutava.

O meu ânimo assim, que treme ansioso,
Volveu-se a remirar vencido o espaço
Que homem vivo jamais passou ditoso.

Tendo já repousado o corpo lasso,
Segui pela deserta falda avante;
Mais baixo sendo o pé firme no passo.

Eis da subida quase ao mesmo instante
Assoma ágil e rápida pantera
Tendo a pele por malhas cambiante.

Não se afastava de ante mim a fera;
E em modo tal meu caminhar tolhia,
Que atrás por vezes eu tornar quisera (19)»

Continua
In Dante Alighieri, A Divina Comédia, Atena Editora, 1955, Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro (1812-1882), Digitalização de eBooks Brasil por Helder Rocha, 2003.

Cortesia de eBooks Brasil/JDACT

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dante Alighieri: Poema épico. Um poema que narra uma odisseia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. Dante, o personagem da história, é guiado pelo inferno e purgatório pelo poeta Virgílio, e no céu por Beatriz

(1265-1321)
Florença, Itália
Por  Sandro Botticelli
Cortesia de wikipédia

Dante Alighieri foi um escritor, poeta e político italiano. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como «il sommo poeta» (o sumo poeta). Dante, na verdade, é uma abreviação de seu real nome, Durante.

Foi muito mais do que apenas um literato. Numa época onde apenas os escritos em latim eram valorizados, redigiu um poema épico e teológico, La Divina Commedia (A Divina Comédia), que se tornou a base da língua italiana moderna e culmina a afirmação do modo medieval de entender o mundo. Nasceu em Florença, onde viveu a primeira parte da sua vida até ser injustamente exilado. Apesar dessa condição,  o seu amor incondicional e capacidade visionária transformaram Dante no mais importante pensador de sua época.

O Museu em Florença
Cortesia de wikipédia
Escritor italiano. Estuda Teologia e Filosofia e conhece profundamente os clássicos latinos e os filósofos escolásticos. Pertencente ao Partido Guelfo, luta na Batalha de Campaldino contra os Gibelinos. Cerca de 1300 inicia a carreira diplomática e, em 1302, é encarcerado por causa das suas actividades políticas. Inicia-se então a segunda etapa da sua vida. O exílio definitivo, pois não dá acolhimento às amnistias de 1311 e 1315. Afastado de Florença, vive em Verona e em Lunigiana. Posteriormente, e seguindo as vicissitudes da política dos principados italianos, reside também em Ravena, onde morre.
Apesar de ser casado, Beatriz, dama florentina, é o seu amor platónico e a personagem central da sua obra.
Cortesia de wikipédia
A Vida Nova é uma colecção de sonetos e canções dedicada à sua dama idealizada, Beatriz. Mas a grande obra de Dante é a Divina Comédia, grandioso poema alegórico, filosófico e moral que resume a cultura cristã medieval. A sua estrutura reproduz as concepções cosmológicas e teológicas da época. É uma obra de rica simbologia mística. Beatriz, convertida em ideia espiritual após a sua morte, personifica a teologia ou sabedoria divina, com a qual a alma percorre as vias da razão até alcançar a graça e a união com Deus. Mas tudo isso está impregnado das ideias e crenças de Dante, das suas recordações e esperanças, dos seus amores e ódios, da poderosa inspiração e da personalidade deste formidável escritor.
 
 
Cortesia de stelle
A obra é uma história narrada em versos, que descreve uma viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. Os três livros que formam a Divina Comédia são divididos em 33 cantos cada, com aproximadamente 40 a 50 tercetos, que terminam com um verso isolado no final. O Inferno possui um canto a mais que serve de introdução a todo o poema. No total são 100 cantos. Os lugares descritos por cada livro (o Inferno, o Purgatório e o Paraíso) são divididos em 9 círculos cada, formando no total 27 (3 x 3 x 3) níveis. A Divina Comédia excerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e outros artistas nos últimos 700 anos.
Cortesia de stelle
 
Dante escreveu a «Comédia» no seu dialeto local. Ao criar um poema de estrutura épica e com propósitos filosóficos, Dante demonstrava que a língua toscana (muito aproximada do que hoje é conhecido como língua italiana, ou língua vulgar, em oposição ao latim, que se considerava como a língua apropriada para discursos mais sérios) era adequada para o mais elevado tipo de expressão, ao mesmo tempo que estabelecia o Toscano como dialecto padrão para o italiano.
Outras obras importantes do autor são:
  • De Vulgari Eloquentia;
  • Vita Nova (onde narra a história do seu amor por Beatriz);
  • Le Rime (Canzoniere);Il Convivio (de carácter filosófico);
  • De Monarchia (onde expõe as suas ideias políticas);
  • As Epístolas, Éclogas e Quaestio de aqua et terra (obras consideradas menores).
Beatriz Portinari foi, segundo alguns críticos literários, a figura histórica que inspirou o personagem Beatriz, de Dante.

Cortesia de seguindopassoshistoria

Um anjo clama na razão divina,
E diz: "Senhor, entende-se, no mundo,
Que seja maravilha o que provém
De uma alma tal que até no céu resplandece".
E o Céu, que não possui outro defeito
Que o de não tê-la, ao seu senhor pede,

Depois da morte de Beatriz, diz o poeta:

Que de sua humildade a luz intensa
Atravessou os céus com tanta força
Que ao eterno senhor fez maravilha
Tal que o doce desejo
Lhe veio de chamar tanta virtude;
E fê-la ir habitar junto de si,
Pois viu que esta vida tormentosa
Não merecia coisa tão gentil.


Dante no Exílio
Anónimo.
Archivo Iconográfico S. A., Itália. 
Corbis Image Collections

Cortesia de wikipédia/JDACT