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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

500 anos de Contactos Luso-Chineses. Fernando Correia de Oliveira. «Uma carta de Fernão Mendes Pinto datada de 20 de Novembro de 1555 é o primeiro documento em português escrito em Macau»

jdact

Finalmente, um pé em terra
«(…) Finalmente, e segundo as fontes chinesas da época, o facto de os portugueses conseguirem trazer para comerciar uma mercadoria raríssima e muito apreciada pelo imperador, em Beijing, o âmbar cinzento (obtido no Sueste Asiático), seria outro dos factores que abriram as portas ao comércio e mesmo à instalação em terra. Marginal à coroa portuguesa (que nesse ano de 1557 via morrer João III e aparecer no horizonte um  Sebastião ainda criança), ao Estado da Índia e aos imperadores, em Beijing, que durante muitos anos a desconheceram, a realidade de Macau iria impor-se. Até hoje.

Fernão Mendes Pinto e a China
Foi uma vida aventurosa. Pelas suas próprias palavras, foi vendido 16 vezes, feito escravo 13 e naufragou outras cinco. Fernão Mendes Pinto terá nascido em Montemor-o-Velho, por volta dos anos de 1509, 1511 ou mesmo 1514, no seio de uma famí1ia pobre. Em Dezembro de 1521, é trazido por um tio para Lisboa, nessa altura com 60 mil habitantes e o centro de um reino dependente dos seus rendimentos do comércio com a Ásia e a África (65 por cento), assolado por pestes e fomes e pelo fundamentalismo religioso da Inquisição. Em 1523, o jovem Fernão Mendes Pinto vive em Setúbal, ao serviço da casa do fidalgo Francisco Faria. e a partir de 1527 é moço de câmara na casa de Jorge, mestre de Santiago e filho bastardo de João II. Em 11 de Março de 1537, parte para a Ásia, numa armada de cinco naus comandada por Pedro Silva. Ia ao encontro de uma Ásia imensa e rica, habitada por 250 milhões de pessoas, sede de civilizações muito mais avançadas, em muitos aspectos, do que a europeia. Nesse mar de gentes e riquezas, uns escassos cinco mil portugueses, munidos da superioridade técnica militar (canhões), chegavam para controlar a maioria dos circuitos comerciais e estabelecer feitorias-fortalezas ao longo das costas do Índico e do Pacífico.
Nos primeiros anos, Fernão terá vivido como soldado, no Indico Ocidental (Goa, Diu, Ormuz), a partir de 1539 em Malaca e. até 1557, como mercador, sobretudo no Sueste Asiático (zonas de Patane, Sião, Pegu) e na Ásia Oriental (litorais da China e do Japão). Uma exposição dedicada a Fernão Mendes Pinto e os Mares da China esteve recentemente patente nas instalações da Missão de Macau, em Lisboa. Comissariada pelo historiador Luís Filipe Barreto, ela deu azo a um catálogo com texto de sua autoria. A vida de mercador aventureiro de Fernão Mendes Pinto deve ter começado por volta dos anos de 1539-40. É então enviado pelo capitão de Malaca, Pêro Faria, ao rei de Aru, em Samatra, e a Patane, na costa oriental da Península Malaia e Sião, na companhia de António Faria, escreve o historiador. Patane, tributária do Sião/Aiuthia, era um porto estratégico para os mercadores malaios e chineses e uma zona de produção de pimenta. A China consumia cerca de 75 por cento da pimenta do Sueste Asiático. Em Patane concentravam-se 300 portugueses ligados ao comércio privado da pimenta. cravo, maça, noz-moscada, âmbar, têxteis indianos de algodão, sedas, porcelanas, cânfora, almíscar, pau-da-china, ruibarbo, metais preciosos, moeda e armas de fogo. Entre 1541 e 1543, o nosso aventureiro vive em Martabão, no reino de Pegu, servindo no exército do rei da Birmânia. O mais tardar em 1543, Fernão Mendes Pinto vai, pela primeira vez, à China e integra-se nas redes de comércio entre o Sião, Pegu, a China e o Japão. Os portugueses começam a fazer comércio em Macau por volta de 1535, e a residir aí por volta de 1557. Uma carta de Fernão Mendes Pinto datada de 20 de Novembro de 1555 é o primeiro documento em português escrito em Macau». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de FOriente/JDACT

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

500 anos de Contactos Luso-Chineses. Fernando Correia de Oliveira. «Como se processa, três anos depois do acordo de Leonel Sousa, a instalação dos portugueses em Macau? … A de que o território foi cedido graciosamente pela China, em agradecimento por os portugueses terem expulsado da zona uma série de piratas. “Não há documentos que o comprovem”»

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Finalmente, um pé em terra
«(…) Os primeiros anos da década de 50 foram, portanto, de regresso. Dada a associação pública e notória dos portugueses com os piratas japoneses durante os decénios anteriores, e com temor de uma reacção de Beijing, as autoridades de Guangzhou resistiram ao desembarque dos comerciantes, fazendo-se as trocas ao largo. Mas, a pouco e pouco, começaram a ocorrer alguns desembarques em pequenas ilhotas do delta (Shang Chuang e Lang Pai Kao, entre outras). E, em 1554, há notícia do primeiro acordo luso-chinês de comércio. Não terá passado à forma escrita, não terá tido o formalismo que Lisboa procurara em iniciativas anteriores, mas os próprios historiadores chineses não o põem hoje em causa.
Numa carta de Janeiro de 1556, enviada de Cochim pelo capitão Leonel Sousa ao príncipe Luís, irmão do rei João III, diziam-se coisas importantes. O acordo tinha sido firmado, oralmente, com a autoridade marítima chinesa da zona. Os portugueses não poderiam voltar a utilizar como nome identificativo folangji, já que estava proscrito pelos decretos de expulsão de 1522-23. A solução foi apresentarem-se, a partir dessa altura, como gente malaia ou siamesa. Só em 1564, e por um lapso dos intérpretes chineses, se descobre a sua verdadeira nacionalidade, de gente de Portugal. Mas é de crer que os mandarins de Guangzhou sabiam, desde o início, com quem estavam a comerciar de novo.
Depois, os novos malaios ou siameses deram pagar as taxas alfandegárias, tal como faziam todos os outros Estados tributários do Sueste Asiático que vinham comerciar a Guangzhou. Comprometemo-nos a pagar uma taxa alfandegária de vinte por cento, como é costume, tal como os naturais do reino do Sião, que frequentam estas águas sob licença do imperador da China, diz Leonel Sousa. Outra condição era a oferta de presentes às autoridades locais, mas em segredo. Eles querem receber presentes dissimulados, pois existem punições severas para quem aceitar subornos, refere Leonel Sousa.
Por fim, era exigido aos portugueses que, de futuro, obedecessem a todas as normas que regulavam o comércio estrangeiro e respeitassem as autoridades chinesas. Devido à má reputação no passado, os mandarins pediram de modo particular a Leonel Sousa que vigiasse e controlasse bem os seus homens. Como o acordo foi feito sem autorização das autoridades em Beijing, os acontecimentos por ele narrados não podem, naturalmente, ser confirmados nas fontes chinesas oficiais da época, mas existem provas privadas coevas que corroboram a história do capitão português. Como se processa, três anos depois do acordo de Leonel Sousa, a instalação dos portugueses em Macau? A visão, romântica, da historiografia portuguesa foi, durante séculos, a de que o território foi cedido graciosamente pela China, em agradecimento por os portugueses terem expulsado da zona uma série de piratas. Não há documentos que o comprovem. O mais provável é que essa instalação tenha sido acidental, informal e quase despercebida nos primeiros tempos. E que tenha contado com a cumplicidade das autoridades de Guangzhou, entretanto subornadas.
Historiadores chineses dizem hoje que os mandarins de Guangdong terão, através da experiência de comércio e contactos na década de 50, percebido que bastava evitarem que os portugueses colaborassem com a população chinesa pouco escrupulosa e com os japoneses para deixarem de constituir uma grande ameaça para a dinastia ou para a nação. Se os estrangeiros fossem confinados a uma zona onde existissem meios para exercer uma apertada vigilância sobre os naturais que faziam esse contacto, o comércio poderia ser lá realizado. Mas a zona deveria, de preferência, ser no continente e suficientemente perto de Guangzhou, para também satisfazer as necessidades dos portugueses. Quanto a piratas, e no que respeita à segurança da cidade, Macau passaria a ser um porto-tampão nas mãos dos militarmente temíveis portugueses, que assim poderiam afastar as ambições de piratas e rebeldes locais». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de FOriente/JDACT

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

500 anos de Contactos Luso-Chineses. Fernando Correia de Oliveira. «Em Portugal, com a morte de Manuel I, sobe ao trono João III. O reino, com 1,3 milhões de habitantes, censo de 1532, contra os 150 milhões de chineses e 18 milhões de japoneses, continuava miserável, ciclicamente varrido por fomes, crises monetárias, levantamentos camponeses e surtos epidémicos»

Porto de Macau, gravura de 1641
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Finalmente, um pé em terra
O suborno, a mentira, a sede do lucro e a iniciativa particular conseguiram, na década de 50 do século XVI, aquilo que expedições militares e diplomáticas da coroa portuguesa não tinham até então conseguido. Assumindo as identidades falsas malaia ou siamesa, dando presentes clandestinos aos mandarins de Guangzhou, os comerciantes portugueses, aliados a piratas e contrabandistas chineses e japoneses, obtiveram aquilo com que o rei Manuel I sonhara: um estabelecimento na China. O pragmatismo e o interesse mútuo locais engendraram a fórmula Macau, com Lisboa ou Beijing fora do quadro nos primeiros anos. Não admira que o primeiro acordo de comércio luso-chinês fosse oral.

Expulsos de Guangzhou e de toda a área do delta do rio da Pérola em 1522-23, os portugueses não deixaram de comerciar, clandestinamente, com a China. Em iniciativas particulares e arriscadas, sem o conhecimento oficial da coroa em Lisboa, os navios comandados por portugueses mas tripulados, na maioria, por uma mescla de marinheiros malaios, chineses ou japoneses, acorriam como moscas ao mel costeiro nas províncias de Fujian ou de Zhejiang, onde os mandarins e comerciantes locais (os chinchéus, como lhes chamavam os textos portugueses da época) se comprometiam no comércio, contra as ordens de Beijing.
Os portugueses estavam a beneficiar de uma outra situação: desde 1523, o Japão tinha sido banido como Estado tributário no comércio com a China. Vivendo em permanente guerra civil, o arquipélago nipónico enviara delegações rivais ao continente, provocando desordens nas costas de Fujian. A dinastia dos Ming decretara a proibição de comércio com os vizinhos e os recém-chegados portugueses passaram a servir de intermediários nessas trocas, um jogo arriscado, mas que dava muito lucro (num triângulo em que as embarcações lusas, carregadas de pimenta e outras especiarias compradas no Malabar, descarregavam na China, onde iam buscar seda crua, para depois a venderem por prata e cobre japonês, que por sua vez ia parar à China).
Em Portugal, com a morte de Manuel I, sobe ao trono João III. O reino, com 1,3 milhões de habitantes (censo de 1532, contra os 150 milhões de chineses e 18 milhões de japoneses), continuava miserável, ciclicamente varrido por fomes, crises monetárias, levantamentos camponeses e surtos epidémicos. Contrariando a visão messiânica do pai, João III orientou a política externa portuguesa de forma muito mais pragmática. Na Ásia Oriental, por exemplo, em vez de continuar a procurar um relacionamento diplomático de igual para igual com o império chinês, Lisboa passou a admitir como facto incontornável o aumento do relacionamento dos mercadores privados a operarem no Índico ou no Pacífico. Com esse comércio, que a coroa não controlava, talvez se abrissem mais facilmente as portas que armadas, salvas de canhão ou embaixadores oficiais não tinham conseguido abrir.
Além de uma maior tolerância no modo de lidar com as comunidades mercantis asiáticas e do reconhecimento de que a sua cooperação seria crucial para a reabertura do mercado chinês, Lisboa passava a ter outros interlocutores locais. Para a coroa portuguesa, o imperador da China deixava de ser o principal alvo diplomático, em favor dos altos funcionários provinciais, numa constatação de que nestes residia, em larga medida, o poder de aceitação ou recusa da presença lusa por aquelas paragens ou a criação do sempre almejado entreposto.
O rei, em Lisboa, deixava de se preocupar em controlar as múltiplas iniciativas privadas dos seus súbditos no Extremo Oriente, mas esse papel de controlo e resistência passou para os capitães de Malaca. Esses oficiais receavam que a criação de um qualquer estabelecimento particular nas costas do Sul da China concorresse com Malaca enquanto grande metrópole abastecedora do comércio com a China e o Japão. Por outro lado, defendendo interesses estritamente pessoais, esses capitães lutavam pelo privilégio (inerente ao cargo) de fazerem uma viagem de comércio Malaca-China-Japão, ou de passarem esse direito, por venda, a parentes ou amigos.
Por outro lado, o Estado da Índia, que em 1550 iniciara uma viagem anual de comércio entre a China e o Japão, também ela concessionada, demonstrava que o interesse da coroa não tinha desaparecido por completo. Apesar dessas interferências oficiais, o privado prevaleceu, e iria dar lugar ao estabelecimento de Macau, afinal, um projecto luso-asiático marginal à coroa portuguesa e ao Estado da Índia.
Embora a viver os seus últimos anos, a dinastia Ming procurou combater o comércio ilegal em Fujian e Zhejiang. Num incidente em Março de 1549, centenas de piratas, contrabandistas e aventureiros foram mortos, feridos ou capturados pela armada imperial chinesa. Expulsos dessas costas, os portugueses voltaram-se de novo para Guangzhou. Quando, três décadas antes, haviam expulsado os portugueses do delta do rio da Pérola, por pressão de Beijing, os mandarins das províncias de Guangdong e de Guangxi estenderam as medidas restritivas de comércio aos outros estrangeiros. Em resultado disso, as actividades comerciais na zona diminuíram substancialmente e a economia local foi muito prejudicada.



Perspectiva de Macau, 1598




A sociedade chinesa dividia-se em debates sobre a questão do comércio externo, havendo um partido que defendia trocas com os Estados marítimos apenas como meio para os apaziguar, para que a segurança das zonas costeiras pudesse ser mantida. Outro partido defendia que a manutenção do comércio marítimo era vital para o bem-estar económico das populações das províncias costeiras». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. «Ao contrário de Álvares, que nunca mais regressaria a Portugal, Rafael Perestrelo chegou a Lisboa no Verão de 1518, tornando-se o primeiro português, ainda que de origem italiana, a concluir uma viagem de ida e volta entre Portugal e a China […]; foi também o primeiro europeu que o fez seguindo uma via exclusivamente marítima»

Cortesia de foriente

A Chegada a Guangzhou
«A pimenta de Samatra encontrou clientes no porto de Guangzhou, o regresso fez-se carregando produtos chineses para negociar em Malaca e não para serem levados para Lisboa. A chegada dos portugueses ao litoral do Celeste Império satisfez, assim, o desejo do monarca Manuel I de alargar o mais possível a sua influência e, ao mesmo tempo, a política de Afonso de Albuquerque, que procurou tornar Portugal uma potência asiática, privilegiando o comércio "da Índia para a Índia". Segundo Albuquerque, compensaria mais à coroa portuguesa, por intermédio do Estado da Índia, o envolvimento português nessas redes inter-asiáticas do que na novíssima ‘Rota do Cabo’.

Jorge Álvares chegou a Malaca em Março ou Abril de 1514, mas só no ano seguinte uma nova missão exploratória demandou a China. Desta vez, a iniciativa não partiu do comandante de Malaca, mas de Goa. O cronista Fernão Lopes de Castanheda diz que, em 1515, Bartolomeu Perestrelochegara [...] da Índia por mandado do governador para ser feitor de Malaca e provedor da Fazenda e com ele seu irmão Rafael Perestrelo para ir descobrir a China”. Nem Lisboa nem Goa sabiam ainda das explorações e negócios efectuados por Jorge Álvares.

Cortesia de foriente

Rafael seguiu a rota de Álvares, fundeou ao largo de Guangzhou, comerciou sem incidentes e, em 1516, estava de volta a Malaca. Além de um lucro "de vinte para um", trazia a boa nova de que "os chins queriam paz e amizade com os portugueses, e que era muito boa gente", nas palavras de Castanheda. Ao contrário de Álvares, que nunca mais regressaria a Portugal, Rafael chegou a Lisboa no Verão de 1518, tornando-se, muito provavelmente, o primeiro português, ainda que de origem italiana, a concluir uma viagem de ida e volta entre Portugal e a China só interrompida pelas escalas indispensáveis e pelos negócios; foi também o primeiro europeu que o fez seguindo uma via exclusivamente marítima. Demorara quase quatro anos e meio a completá-la.

Entretanto, em 1515, enquanto movia influências para obter do papa uma Inquisição idêntica à que actuava em Castela e Aragão, o rei Manuel I nomeara Fernão Peres de Andrade capitão de uma armada para descobrir a China e o Bengala. Neste tempo de óbvias dificuldades de comunicação, é compreensível que o rei português fosse mandando enviados sem esperar por saber da sorte ou de relatos de outros anteriormente partidos de Lisboa. Apenas com 26 anos, Fernão Peres de Andrade era já um veterano das andanças da Índia, onde servira a coroa entre 1505 e 1518, e combatendo ao lado de Lourenço de Almeida, Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque. Fora, aliás, a escolha deste último para comandar a armada que ficara a defender uma Malaca recém-conquistada.

Cortesia de raiadiplomatica

Segundo alguns historiadores portugueses, a esquadra saída de Lisboa em 1515 marca uma nova etapa no relacionamento luso-chinês, pois já não se trata de um punhado de homens que vinham a bordo de navios de mercadores asiáticos, mas de uma armada que, além de desejar intensificar os negócios, procurava encetar relações diplomáticas. A coroa portuguesa procurava dar uma dimensão política às relações luso-chinesas.
Jorge Álvares e Rafael Perestrelo, embora fossem enviados oficiais das autoridades portuguesas, limitaram-se a comerciar em Guangzhou, sem tentarem estabelecer em nome do rei de Portugal qualquer tipo de relações diplomáticas com os mandarins. Assim, na perspectiva destes, os mercadores lusos eram apenas mais um grupo de estrangeiros que demandavam as suas águas para fazerem comércio tributário, sem grandes alterações à ordem estabelecida desde há séculos.

Mas aos portugueses, habituados à conquista a cargas de canhão, aterrorizando as gentes do Índico, inebriados pelos sucessos militares tão rapidamente conseguidos, o comércio simples não bastava; nada sabiam, afinal, da China. Muito particularmente dos seus rígidos códigos de conduta e diplomacia.
Guangzhou não era Malaca e o Império do Meio não era, em absoluto, um qualquer reinozinho tributário como os que, com maior ou menor facilidade, tinham sido subjugados». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. «Mas isso não impediu que Pires e companheiros tenham "vendido os seus bens, por bom preço, e dizem que é tão lucrativo levar especiarias para a China como levá-las para Portugal; pois é um país frio e fazem muito uso delas. De Malaca à China são quinhentas léguas, navegando em direcção a norte"»

Cortesia de foriente

A Chegada a Guangzhou
«Em Julho de 1511, a frota de Afonso de Albuquerque aparece ao largo de Malaca, então talvez o porto mercantil mais importante do Índico Oriental. Ele já tinha resolvido a questão do mar Vermelho, com a conquista de Ormuz, já tinha conquistado Goa, tornando esta última a sede do império no Oriente; iria resolver a questão que faltava.
Ancorada a armada de Albuquerque, os portugueses contactaram aí alguns juncos chineses. O sultão de Malaca, Mahmud Xá, tinha-os detido uns dias antes, assim como as respectivas tripulações. A origem dos problemas entre os mercadores chineses (e outros) e o sultão não está bem estudada, mas parece radicar na sua política antiestrangeira e de centralização política. Os chineses aproveitaram a primeira oportunidade e fugiram com os seus barcos, oferecendo-se a Albuquerque para ajudar os portugueses no ataque à cidade-estado, tributária do imperador da China.

O vice-rei português recusou a oferta, argumentando que, em caso de fracasso do ataque português, os chineses ficariam, daí em diante, se ajudassem, marcados negativamente junto do rei de Malaca, que os trataria mal. Mas sugeriu que eles emprestassem algumas barcaças para o desembarque das suas tropas. Diz-se que os mercadores chineses, longe de desagradados, ficaram sensibilizados com a consideração mostrada pelo comandante português.

Cortesia de wikipedia

Prestaram mais tarde, de bom grado, ajuda aos portugueses no transporte dos enviados de Albuquerque na viagem de ida e volta ao Sião (Tailândia). Quando regressaram à China, levariam assim consigo uma ideia muito favorável do carácter e da coragem dos lusitanos. Segundo alguns historiadores chineses, quando o cronista João de Barros diz nas “Décadas” que de Malaca Afonso de Albuquerque "enviou mensageiros seus" à China, entre outros países, deveria estar a referir-se a estes mercadores, pois não há conhecimento de quaisquer outros mensageiros então enviados ao Império do Meio. No entanto, segundo historiadores portugueses, tratar-se-ia de um grupo constituído em 1512, comandado por um tal João Viegas e que não chegaria sequer a ser transportado.

O sultão Mahmud Xá, retirado para o reino de Pahang ao ver que a resistência era impossível, e que a recuperação da cidade entretanto saqueada também sem ajuda do exterior, enviou à corte chinesa uma embaixada chefiada por seu tio, Nacem Mudaliar. Segundo o xá deposto, com a conquista de Malaca os portugueses tinham alterado o equilíbrio geoestratégico da região e, sobretudo, a ordem chinesa do mundo, uma vez que Malaca era um Estado tributário da China.
Chegada a Guangzhou (Cantão), a embaixada recebeu autorização de prosseguir até Beijing, seguindo o protocolo em relação aos Estados sob suserania chinesa. Recebido pelo imperador, Mudaliar pediu ajuda, mas não a encontrou. A China estava nessa altura mais preocupada em preparar uma gigantesca expedição destinada a expulsar os mongóis da sua fronteira norte.

Cortesia de raiadiplomatica

Nas fontes chinesas, os historiadores apenas encontraram até agora uma breve referência sobre a conquista de Malaca pelos “folangji feringis ou franks”, o nome pelo qual os portugueses foram conhecidos nos primeiros tempos na Ásia do Sul e no Extremo Oriente, para cujos povos os brancos vindos do Ocidente eram todos francos.

Em 1513, o novo capitão de Malaca, Jorge de Albuquerque, envia um oficial da coroa, Jorge Álvares, com o objectivo claro, pela primeira vez, de navegar até à China. A missão de Álvares levava um carregamento de pimenta de Samatra. Barros conta como os portugueses chegaram a uma ilha, Tongman, na região do delta do rio da Pérola (Zhujiang), ao largo de Guangzhou.
Ali ele ergueu um padrão, com as armas portuguesas, e a intenção de comemorar esta "descoberta" da China. Um filho seu, entretanto falecido, é lá enterrado, e ele próprio morreu ali, sete anos depois, na volta de outra viagem que fizera à China.
Cartas de mercadores italianos que aludem a esta viagem de Álvares, o primeiro contacto comercial luso-chinês que se conhece, referem que os portugueses "não foram autorizados a desembarcar; pois dizem que é contra os seus costumes deixar os estrangeiros entrar nas suas residências". Mas isso não impediu que Pires e companheiros tenham "vendido os seus bens, por bom preço, e dizem que é tão lucrativo levar especiarias para a China como levá-las para Portugal; pois é um país frio e fazem muito uso delas. De Malaca à China são quinhentas léguas, navegando em direcção a norte".

Ao encetarem relações comerciais com o Império do Meio, os portugueses procuraram imiscuir-se na rede de comércio regional que ligava há séculos a Insulíndia ao Sul da China». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Continua
Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. «Por ordem de Fernão Peres de Andrade, os navios dispararam uma salva de canhão. Era a prática corrente, usada por todo o Índico, mais para “saudar”, do que para impressionar»

Representação europeia de chineses, 1596
jdact

Como Elefante em loja de Porcelanas
«Enquanto se tratou de comércio puro e simples, os portugueses conseguiram entender-se bem com os chineses de Guangzhou, um dos portos da China do Sul destinados ao comércio tributário. Mas estes estranhos intrusos nos circuitos económicos regionais quiseram mais:
  • ao ritmo das descargas de canhão, procuraram estabelecer fortalezas-feitorias e dialogar de igual para igual com o imperador. O que tinha resultado em África e no Índico não iria dar frutos no Pacífico. Pelo menos com essa táctica.
Numa armada capitaneada por Lopo Soares de Albergaria (designado governador do Estado da Índia), partida de Lisboa em 1515, seguia Fernão Peres de Andrade, que levava como missão expressa a "descoberta" da China. Em início de 1516, e a partir de Cochim, sai a nova armada, composta por oito navios, carregados de pimenta. Incluíam-se alguns juncos pertencentes a mercadores malaios, que se associavam assim à expedição diplomática e comercial lusa. Todos os barcos eram capitaneados por portugueses, estavam bem armados e tinham chineses por pilotos.
A 15 de Agosto de 1517, depois de passarem por uma zona infestada de piratas, e de encontros mais ou menos amistosos com juncos chineses encarregados de patrulharem essas águas e protegerem o comércio, os portugueses chegaram à ilha de Tunmen (Tamão, nas fontes portuguesas da época). Sabe-se que se situava algures no delta do rio da pérola, mas a sua localização exacta é ainda motivo de pesquisa e debate entre os historiadores. Contactadas as autoridades marítimas e alfandegárias chinesas, Fernão Peres de Andrade explicou que trazia uma embaixada dos “folangji” ao «rei da China». Mas foi-lhe respondido que ninguém ali tinha autoridade para autorizar a subida do rio, até Guangzhou. Depois de alguma pressão, os chineses cederam, e até forneceram um piloto à esquadra. A frota chegou a Guangzhou no final de Setembro de 1517.

jdact

Por ordem de Fernão Peres de Andrade, os navios dispararam uma salva de canhão. Era a prática corrente, usada por todo o Índico, mais para «saudar», do que para impressionar. Os chineses é que não estavam habituados a isso por parte de quem até aí os visitara, súbditos de Estados tributários do imperador.
Para os registos chineses ficava, assim, “a conduta imprópria dos portugueses, que não só estavam ali sem autorização das autoridades competentes, como tinham cometido uma falta contra os costumes da terra, ao fazerem disparar os canhões”. Fernão Peres de Andrade desculpou-se como pôde, manifestando ignorância dos costumes da terra. Ao saber da presença de tão insólita embaixada, o governador das províncias de Guangdong e de Guangxi mandou um emissário indagar. Os portugueses foram instruídos pormenorizadamente das normas de etiqueta, para que novas «gaffes» não fossem cometidas. E, assim, deu-se o primeiro encontro formal entre a embaixada lusa, por um lado, e os mandarins de Guangzhou e o emissário do governador, por outro. O local escolhido pelos chineses foi a mesquita da cidade, demonstrando deste modo que a maioria, se não a totalidade, das delegações que nos últimos séculos tinham demandado a China eram provenientes de Estados islamizados.

Explicado o objectivo da missão, o contacto directo com o imperador, os mandarins fizeram o que era normal, pois assumiam estar perante mais uma visita de cortesia, no âmbito do comércio tributário:
  • procuraram nos registos, a “Colecção das Ordenações” da dinastia Ming, anteriores visitas dos tais “folangji”.
E não encontraram nada. Os chineses prometeram fazer um relatório sobre esta situação inédita e mandá-lo à corte imperial.

Cortesia de wikipedia

Enquanto esperavam pela resposta, os portugueses foram autorizados a permanecer em terra. Da comitiva fazia parte Tomé Pires, boticário, que servira dois anos em Malaca como escritor da feitoria, contador e vedor das drogarias. Pires era', sem dúvida, o português e ocidental que, no seu tempo, mais sabia da Ásia do Sueste e do mar da China. Mesmo assim, sabia relativamente pouco, ou não escreveria na “Suma Oriental” (1515, tratado que o tornou famoso) que com um punhado de barcos Portugal conquistaria as costas da China. Ele e outros cinco ou seis desembarcaram, ficando a viver na casa do superintendente de comércio chinês. Ao lado, fechados a cadeado, os presentes que estavam destinados ao imperador.

Em Malaca, quando chegaram notícias da expedição de Fernão Peres de Andrade ao delta do rio da Pérola, os portugueses ficaram ainda mais encorajados com as hipóteses de comércio, sendo despachado, em Março de 1516, outro junco para a China, sob o comando de Jorge Álvares. Quanto a Fernão Peres de Andrade, depois do episódio da carga de canhão, despedia-se da China em Setembro de 1518. Chegado a Malaca, já era “mui próspero em honra, e fazenda”.
Ao serviço dos Reis Católicos, o português Fernão de Magalhães iniciava, entretanto, a primeira viagem de circum-navegação. Parte a 20 de Setembro de 1519 de Sevilha, morte a 27 de Abril de 1521, nas Filipinas». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. «Os primeiros anos do século XVI não começaram, internamente, muito bem para o reino de Portugal. O príncipe D. Miguel, filho de D. Manuel e de D. Isabel, filha, por sua vez, dos Reis Católicos e presuntiva herdeira dos tronos de Leão, Castela e Aragão, morria em 1500»

Cortesia de foriente

A Chegada a Guangzhou
«Com alguma ironia, os portugueses só conseguiram chegar ao Oriente usando a arte de marear de pilotos árabes ou utilizando invenções chinesas, como o compasso, sem o que seria impossível desenhar os portulanos, mapas referindo apenas as costas. Esses conhecimentos chegaram à Europa através do islão, que cercava o Velho Continente numa cintura apertada, impedindo-o do contacto directo com o Oriente mítico do ouro e das especiarias. Mas o cerco foi quebrado, pelos portugueses, em 1498, com a descoberta da via marítima até à Índia. A conquista de Malaca, em 1511, abre finalmente caminho até ao Grão Cataio, a lendária China de que Marco Polo e outros viajantes europeus da Idade Média tinham falado. Os primeiros contactos luso-chineses são amistosos, porque estritamente comerciais.
Os primeiros anos do século XVI não começaram, internamente, muito bem para o reino de Portugal. O príncipe D. Miguel, filho de D. Manuel e de D. Isabel, filha, por sua vez, dos Reis Católicos e presuntiva herdeira dos tronos de Leão, Castela e Aragão, morria em 1500. A mãe morrera em 1498, quando o dera à luz. As pretensões de Lisboa a uma chefia unificada das casas reais ibéricas iam por água abaixo. D. Manuel reincidiu no sonho, casando com uma cunhada, D. Maria, ainda em 1500.

Cortesia de foriente

A miséria entre a população era extrema. Fundavam-se as primeiras misericórdias, mas a fome generalizada acentuava os efeitos de surtos epidémicos em 1503, 1505, 1507, 1510… Em 1506, ocorre em Lisboa um levantamento antijudaico, chefiado por frades de fé incendiária. Houve milhares de mortos. É sob o pano de fundo de um reino mergulhado na peste, na miséria e no fanatismo religioso que a aventura da expansão prossegue. Estranhamente. Ou até por isso.

Conquistadas que estavam bases na costa ocidental do subcontinente indiano, Manuel I manifestou desde cedo um grande empenhamento em estender a influência dos portugueses para a contracosta e, se possível, ainda mais para oriente. Em 1505, Francisco de Almeida era nomeado vice-rei da Índia. As comunidades muçulmanas de mercadores (árabes, persas, indianas, etc.), que detinham o monopólio do comércio oriental e se apoiavam no reino de Veneza para a distribuição dos seus produtos pela Europa iam contrariando como podiam (militarmente, fazendo correr boatos, promovendo alianças e desfazendo outras) a concorrência dos novos intermediários que tinham aparecido em força no Índico desde o Gama, em 1498.
Para a coroa em Lisboa tornava-se claro que, além da entrada do mar Vermelho, era agora necessário expandir a exploração geográfica e mercantil até aos estreitos de Ceilão e Malaca, afinal as duas portas, respectivamente a ocidente e a oriente, das rotas comerciais do Sueste Asiático.

Ainda com Francisco de Almeida, dá-se, em 1509, a batalha de Diu, quando uma importante armada turca é aniquilada. Os portugueses começavam a impor claramente a sua superioridade marítima na zona. Nesse mesmo ano, o vice-rei é substituído por Afonso de Albuquerque.

Cortesia de jugular

No espírito de Manuel I misturavam-se, por um lado, o desejo de aumentar as zonas de influência e uma certa ideia de facilidade resultante dos inúmeros êxitos obtidos desde a sua subida ao trono; por outro, o receio de que os espanhóis alcançassem primeiro a Ásia Oriental, pois não se sabia ainda que um enorme oceano separava o Extremo Oriente dos territórios explorados pelos rivais ibéricos desde 1492. Quando Diogo Lopes de Sequeira partiu à descoberta de Malaca, em 1508, a China passara a fazer parte dos interesses da coroa. Nas instruções que recebera do rei, Sequeira podia ler:
  • “Perguntareis pelos chins, e de que partes vêm, e de quão longe, e de quanto em quanto vêm a Malaca, ou aos lugares em que tratam, e as mercadorias que trazem, e quantas naus deles vêm cada ano, e pelas feições de suas naus, e se tornam no ano em que vêm, e se têm feitores ou casas em Malaca, ou em outra alguma terra, e se são mercadores ricos, e se são homens fracos, se guerreiros, e se têm armas ou artilharia, e que vestidos trazem, e se são grandes homens de corpos, e toda a outra informação deles, e se são cristãos, se gentios, ou se é grande terra a sua, e se têm mais de um rei entre eles, e se vivem entre eles mouros ou outra alguma gente que não viva na sua lei ou crença, e se não são cristãos, em que crêem, ou a que adoram e que costumes guardam, e para que parte se estende a sua terra, e com quem confinam”.
Logo nos portos do Norte de Samatra, que foram escalados antes da chegada a Malaca, os portugueses terão contactado com chineses (pelo menos receberam porcelanas chinesas de presente por parte do sultão de Pedir).
À sua chegada a Malaca, a 1 de Julho de 1509, Sequeira encontrou dois ou três juncos chineses no porto. Contactou directamente mercadores do Império do Meio, comeu a bordo de um junco, descreveu os chineses e os seus hábitos. Foi, de facto, o primeiro encontro luso-chinês de que há registo. Em 1510, regressou a Portugal». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

sábado, 30 de julho de 2011

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. Parte Id. « À «China Amarela» de Mao Zedong seguiu-se a «China Azul» de Deng Xiaoping. Os primeiros contactos dos portugueses com o Império do Meio deram-se quando os chineses iniciavam um período «amarelo». Até por isso, as coisas não foram fáceis»

Cortesia de jugular

Foi mais forte o Vento de Oeste.
«A primeira, reivindicando o berço civilizacional chinês, centrada no rio Amarelo, é continental, rural, tendencialmente xenófoba, convencida da sua superioridade, fechada ao mundo. A segunda, cosmopolita, adepta das trocas de bens, gentes e ideias, pretende gerir essa superioridade civilizacional, temperando-a com as influências externas, firmando o império em pólos de desenvolvimento costeiro, abrindo-o ao mar e ao mundo. A divisão poderia também fazer-se em China do Norte e China do Sul, com a primeira alinhada tradicionalmente com as teses «amarelas» e a segunda quase sempre afazer força pelas «azuis». Estes dois conceitos continuam hoje presentes, digladiando-se. À «China Amarela» de Mao Zedong seguiu-se a «China Azul» de Deng Xiaoping. Os primeiros contactos dos portugueses com o Império do Meio deram-se quando os chineses iniciavam um período «amarelo».
Até por isso, as coisas não foram fáceis.

Cortesia de elosclubetavira

Diferentes noções de tempo histórico.
Mesmo que não tivesse chegado ao Atlântico ou a Portugal, se Zheng He ou as suas esquadras estivessem presentes no Índico quando Vasco da Gama lá chegou, a correlação de forças teria sido diferente e os portugueses não conseguiriam com tanta facilidade impor-se no mapa político-económico regional. Um Gama 80 anos mais cedo, ou um Zheng 80 anos mais tarde, daria um quadro de uma China forte, dominada por uma dinastia Ming decidida, pronta a socorrer Estados suseranos que seriam depois vítimas dos portugueses. Os escassos barcos lusos, munidos apenas da superioridade tecnológica dos canhões, tripulados, na sua maioria, por gentios, entraram no Índico quando a dinastia Ming estrebuchava, a braços com rebeliões internas e sem uma elite esclarecida.
Mas o tempo também entra noutro tipo de considerações. Ao olharmos para as expedições de ZhengHe e de Vasco da Gama, convém ter em conta as diferentes percepções do tempo na China (e no resto da Ásia) e na Europa. Dos cerca de seis milénios de História da humanidade, a China entra pelo menos nos últimos quatro. E, caso único, só ela, ao longo desse tempo, não sofreu soluções de descontinuidade na sua evolução como civilização e como cultura, sempre igual a si mesma, sempre percorrendo a mesma linha evolutiva (algo de que a Índia ou o Egipto não se podem gabar, apesar de serem fruto de uma matriz igualmente antiga, mas descontínua, e de que o Japão se aproxima, mas com menos, seguramente, dois milénios).
Cortesia de aquitailandia

Olhando para os quatro mil anos da Historia da China, para essa vasta unidade de que os chineses têm bem consciência, mais ou menos intelectualizada mas sempre intuída, vemos que as expedições marítimas de Zheng He aconteceram num passado psicologicamente recente. No tempo histórico português, as viagens situar-se-iam, em termos de percepção da duração, à época da queda da monarquia, em 1910.
João de Deus Ramos, o primeiro diplomata português acreditado em Beijing desde o reinício das relações, fazia há pouco tempo uma comunicação em Paris sobre este tema. Ele sublinha que a percepção do «meio-caminho histórico» para os chineses está em torno da dinastia Han, na altura em que Cristo andou pela terra. Mas, para os portugueses, a viagem de Vasco da Gama está no centro temporal do seu percurso histórico. Assim, enquanto Portugal olha para a viagem à Índia de 1497 como um evento bem longe no tempo, os chineses intuem as viagens de Zheng He como acontecimento da época moderna, quase contemporânea». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. Parte Ic. «Se prosseguisse a viagem, ou outros por ele, o almirante eunuco, que já tinha tocado zonas da costa oriental africana hoje Moçambique, poderia muito bem estar no ano seguinte ao largo da costa portuguesa. E os livros de História poderiam falar, por exemplo, da ocupação das Berlengas, em 1434, por «gente estranha, de fala estranha…»

Cortesia de publicacoesforiente

Foi mais forte o Vento de Oeste.
«Pelo sistema do tributo, visava-se manter sob a alçada chinesa os Estados asiáticos e, através deste sistema de controlo, exercer influência nos povos tributários, que assim se iam «elevando» até aos padrões civilizacionais chineses pela mão firme e magnânima do Filho do Céu.
Quando partiu para sudoeste, em 1405, em barcos com quatro vezes o tamanho dos do Gama, Zheng He ia em missão de suserania, firmar o prestígio chinês, fazer entrar na ordem sínica os mais recalcitrantes (se necessário, pela força). Mas não havia intenções de ocupação, pois uma vez enquadrados os Estados no sistema tributário, os grandes navios partiam e continuavam a ser as hierarquias autóctones a exercer o poder. Segundo historiadores que se dedicaram a comparar os objectivos do imperador chinês com os do monarca português, o sonho de D. Manuel e o desígnio de Yongle são diferentes na sua génese e nos seus objectivos, mas convergem na estrutura psicológica e na convicção de superioridade, de destino, de origem messiânica, num, de um substrato imanente a uma milenar cultura, noutro.

Cortesia de wikipedia

Vasco da Gama e Zheng He terão assim sabido incarnar a plenitude da visão estratégica global dos seus soberanos. Yongle morreu em 1424, com 64 anos.
A sua política externa e o impulso dado às expedições marítimas não foram continuados pelo seu sucessor, que suspendeu as viagens. O imperador seguinte, Xuande, que reinou de 1426 a 1435, ordenou ao eunuco uma sétima e última viagem. Este viria a morrer em 1433, em Calicut, 65 anos antes da chegada de Vasco da Gama à cidade. Se prosseguisse a viagem, ou outros por ele, o almirante eunuco, que já tinha tocado zonas da costa oriental africana hoje Moçambique, poderia muito bem estar no ano seguinte ao largo da costa portuguesa. E os livros de História poderiam falar, por exemplo, da ocupação das Berlengas, em 1434, por «gente estranha, de fala estranha, pele mais clara que a nossa, ricamente vestida, olhos quase cerrados, nariz pequeno [...]».
Porque terá parado com a morte de Zheng He a aventura imperial marítima chinesa do século XV?

Cortesia de sandrarochafotografia

Ninguém sabe ao certo, os anais são omissos quanto a isso (os próprios relatos das suas viagens foram destruídos, dado o seu estatuto de eunuco, e apenas a descoberta de uma estela, há três décadas, em Fujien, assinada por Zheng He, lançou mais alguma luz sobre as expedições). Não era o comércio (de escravos, inclusive), a conquista ou a dilatação da fé que a moviam, mas antes a procura de Estados «suseranáveis».
Uma razão plausível é o facto de, chegados a África, os chineses vislumbrarem cada vez menos Estados organizados, não encontrando por isso mais razão para continuar. Parece que as reviravoltas políticas na corte de Beijing, os custos elevadíssimos das expedições e os fracos lucros que delas se retiravam, além das «eternas» preocupações com a sempre periclitante fronteira do Norte, ajudaram ao fim abrupto das expedições.
Se, em Lisboa, as vozes maioritárias contra a prossecução da expansão a leste foram derrotadas pelo messianismo manuelino, em Beijing, desde 1433 que pesaram as opiniões dos «Velhos do Restelo». Era a vitória da «China Amarela» em detrimento da «China Azul». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

terça-feira, 26 de julho de 2011

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. Parte Ib. «Estes acontecimentos poderão ter firmado em Yongle a convicção da justeza dos seus desígnios de criação de uma esfera de influência, e da obtenção de aliados, a sul e a ocidente. No mesmo sentido terá também contribuído a natureza dúbia da sua ascensão ao trono»

Cortesia de wikipedia

Foi mais forte o Vento de Oeste.
«Yongle, uma personalidade forte, protector das gentes da cultura, foi um dos mais destacados imperadores chineses. Como homem de Estado, procurou, ao longo dos seus 21 anos de reinado, alargar e fortalecer o sistema tributário. É nesse sentido que se inserem as viagens de Zheng He (1371-1433). Este Gama oriental «avant la lettre» era chinês de Yunnan, mas com sangue mongol. Originário de uma das tribos da Ásia Central, de religião islâmica, eunuco, perito mais nas artes da guerra terrestre do que na arte de marear (tinha-se destacado na guerra contra os mongóis, na fronteira norte do país), partiu, em 1405, à frente de uma formidável armada:
  • 62 navios de grandes dimensões, outros 250 mais pequenos, levando a bordo 27 800 homens.
  • Destino, o arquipélago malaio e o oceano Índico.
Entre os objectivos fundamentais das expedições marítimas dos Ming contava-se o controlo dos eixos fundamentais de navegação no Índico (sobretudo os estratégicos estreitos de Sunda e Malaca), bem como o controlo rigoroso das actividades das comunidades de chineses ultramarinos, que proliferavam e prosperavam um pouco por toda a Ásia do Sueste.
Mas o objectivo não era «descobrir», não era «dilatar a fé», não era «conquistar». O que o imperador Yongle queria que o seu almirante fizesse era apenas «impressionar».
Cortesia de raiadiplomatica

Zheng He terá conseguido o efeito desejado. Nas sete viagens que fez (de 1405 a 1433), terá tocado na costa oriental de África, os pontos mais a ocidente e sul que visitou terão sido na costa do que é hoje o Quénia (Melinde?), a norte de Moçambique. Como resultado dessa gigantesca operação de relações públicas do Império do Meio, começaram a afluir à China muitos mais enviados e outros portadores de tributos. Segundo alguns historiadores que têm procurado estudar em paralelo as figuras de Vasco da Gama e de Zheng He, os perigos que Yongle teve de enfrentar logo no início do seu reinado terão contribuído para a sua política externa de suserania nos mares do Sul e do Ocidente.
Na verdade, no início do século XV, Tamerlão estava no apogeu da sua força. O fundador da dinastia Ming tinha posto termo à dinastia Yuan (1279-1368), mongol, fundada por Kubilai Khan, neto de Gengis Khan, e ao predomínio da Ásia Central naquela região do globo. Tamerlão reivindicava-se descendente de Gengis Khan e queria reconquistar a China. Só a sua morte, em 1405, terá impedido nova invasão do império chinês.

Cortesia de danieldeavila
Estes acontecimentos poderão ter firmado em Yongle a convicção da justeza dos seus desígnios de criação de uma esfera de influência, e da obtenção de aliados, a sul e a ocidente. No mesmo sentido terá também contribuído a natureza dúbia da sua ascensão ao trono. Nos primeiros anos, pelo menos, a questão da legitimidade do seu «mandato celestial» causava apreensão e insegurança. É que Yongle tinha usurpado o trono ao seu sobrinho pela força das armas, e este fugira para parte incerta, supondo-se que para algum reino do Sudeste Asiático. Logo na primeira expedição, Zheng He levava instruções para inquirir sobre o paradeiro do deposto imperador, sem que, no entanto, o tivesse conseguido encontrar.
Aos três factores, já assinalados, que terão levado o imperador chinês a enviar as esquadras do almirante eunuco a caminho do Ocidente (incremento das relações tributárias, perigo de invasão e legitimidade na sucessão) há que juntar um outro, talvez o mais importante, que forma o telhado do edifício no pensamento sínico:
  • o sentimento de superioridade civilizacional em relação aos outros povos.
No caso chinês, o imperador Yongle não teria um sonho, mas um desígnio, que não era messiânico, mas essencialmente político;
  • não universal, mas certamente asiático, comparado com o cunho de «missão» que D. Manuel pretendeu imprimir às suas iniciativas marítimas.
O imperador, como representante do Céu, possuidor da virtude e garante do equilíbrio de todos os seres, que exercia por mandato celestial, imbuído e convencido da superioridade das concepções cosmológicas, filosóficas e político-sociais do Império do Meio, devia e queria levar ao conhecimento das nações de além-mar a pujança espiritual e temporal da China». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT

Fernando Correia de Oliveira: 500 anos de Contactos Luso-Chineses. Parte Ia. «A 18 de Maio de 1498, a armada do Gama chega a Calicut, e o primeiro desembarque dá-se três dias depois, alterando para sempre a geopolítica mundial. Os primeiros contactos físicos com chineses dar-se-iam 11 anos mais tarde, em Malaca»

Cortesia de foriente 

Foi mais forte o Vento de Oeste.
«A 20 de Dezenbro de 1999, daqui a 500 dias, as Berlengas passam de novo à soberania portuguesa, depois de este minúsculo arquipélago ter sido ocupado durante 565 anos pela China. É a última colónia asiática que resta na Europa, terminando assim um ciclo de expansão das potências orientais, iniciado nos primeiros anos do século XV.

Não, a história não se passou assim, mas podia perfeitamente ter-se passado. O que levou a que fosse o Ocidente a carregar os ventos dominantes da humanidade, de há 500 anos até hoje, e a partir de um pobre e despovoado território chamado Portugal? Porque não foi a China, já então o país mais populoso do mundo e, na altura, o mais avançado social e politicamente, a liderar o processo de mundivisão, dado que tinha os meios técnicos e humanos ao seu alcance para o fazer?
A História foi o que foi e, a 20 de Dezembro do próximo ano, a China retoma a administração de Macau, terminando aí o ciclo imperial asiático do Ocidente e iniciando-se um outro nas relações entre Lisboa e Beijing. É do diálogo pioneiro entre os extremos ocidental e oriental da grande massa euro-asiática, dos contactos, encontros e desencontros entre portugueses e chineses no último meio milénio, que iremos tratar.

Cortesia de foriente

A conquista de Ceuta, no Norte de África, em 1415, é considerada como o acto fundador da expansão portuguesa. Exactamente 73 anos depois, em 1488, Bartolomeu Dias realizava a grande viagem do século XV, o corolário da exploração da costa ocidental de África que entretanto foi sendo paulatinamente feita. Estava aberta a porta marítima para o Oriente; as águas do Atlântico e do Índico, ao contrário do que os livros e as lendas diziam, comunicavam entre si.

Mas, mesmo então, tudo poderia ter ficado por ali. Nas Cortes de Montemor-o-Novo (1495-96), convocadas por D. Manuel I, que ascendeu ao trono por morte de D. João II, a pergunta foi posta claramente:
  • avança-se mais?
  • As terras das especiarias valem o esforço em cabedais e gente?
Segundo os cronistas, «houve muitos e diferentes votos, e os mais foram que a Índia não se devia descobrir». Apesar disso, avançou-se.
O Velho do Restelo, símbolo encontrado por Camões para traduzir, afinal, a opinião maioritária das elites lusitanas (defendendo o exclusivo da expansão portuguesa no Norte de África), perdia. A 18 de Maio de 1498, a armada do Gama chega a Calicut, e o primeiro desembarque dá-se três dias depois, alterando para sempre a geopolítica mundial. Os primeiros contactos físicos com chineses dar-se-iam 11 anos mais tarde, em Malaca.

Cortesia de accemkdim

E na China, como decorreu o século XV, em termos de contactos com o exterior?
Estava-se na dinastia Ming (1368-1644). Em 1403, sobe ao trono o seu terceiro imperador, Yongle. Espelhando bem o tradicional desprezo confuciano pelas coisas materiais, pelo «mesquinho trato» do comércio, terá dito um dia, negando-se a taxar uns carregamentos de pimenta que mercadores islâmicos do Sueste Asiático, de visita à corte, tinham ido vender ao mercado chinês:
  • «[...] estes estrangeiros vieram de longe por admiração das luzes da nossa cultura. Se nós agora lhes retirássemos parte do seu lucro, o que lucraríamos nós? E com isso poríamos em risco a nossa honra!».
Seguindo a tradição milenar do Trono do Dragão, a China era o centro do mundo. Mas o seu imperialismo não era agressivo, antes paternalista. Era dever dos outros países prestarem-lhe homenagem mas, feito isso, poderiam continuar a governar-se como bem entendessem. Neste esquema harmonioso, cujo resultado final era o chamado comércio tributário, os Estados que nele entrassem tinham, periódica e regularmente, de pagar tributo ao imperador, reconhecendo-o como ser superior, divino. Assim, podiam comerciar em pontos especiais e muito limitados, ao longo da costa, em determinadas alturas do ano, e em troca apelar à protecção de Beijing (Pequim) em caso de contestação interna ou agressão de terceiros». In Fernando Correia de Oliveira, 500 anos de Contactos Luso-Chineses, Público, Fundação Oriente, 1998, ISBN 972-8179-28-6.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT