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quarta-feira, 27 de março de 2013

O Prior do Crato. 1902. Prelúdios de Amor. J. Oliveira Mascarenhas. «Não é apto para se apaixonar por Egérias imaginárias, - não é assim João?... Pois apaixonei-me eu. João de Castro escutava atentamente. Fazia-lhe estranheza aquela linguagem do jovem príncipe, que não compreendia bem. Luiz deu-se pressa em desfazer-lhe a ostensiva confusão»

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D. Luiz e a Pelicana
« - Dizei-me senhor - prosseguiu ele: como é que os sentidos versos que fizestes e ocultais, têm artes de nos arrebatar docemente, e de pôr-nos no ânimo sensações desconhecidas?... Já amaste alguma vez como Dom-Duardos?... Já no vosso caminho topastes alguma linda Flérida?... Não! – Respondeu sentidamente o infante. Flérida é o vago… É o desconhecido... É um capricho… É um desejo... João de Castro confessou-se intimamente vencido por este singular arranco metafísico, e ficou mudo como os môrros revestidos de aveludada relva, que os seus possantes solípedes impiedosamente calcavam. Luiz fitou-o a furto, e notou a confusão em que o havia deixado a resposta que lhe dera.
 - Dizei-me - perguntou-lhe o moço príncipe. Nunca ouvistes falar na Egéria da antiga Roma?  - Era uma célebre ninfa que inspirava o velho Numa. - Pois eu, como Numa Pompílio, sinto-me preso às seduções de uma outra ideal Egéria. – Ah!... Ah!... Ah!... deixai-me rir,senhor. - Será motivo para chufa, um afecto tão inocente?! – Perdão. Eu não sei rir de escárnio, e muito menos quando se trata de afectos vossos… que são sempre imaculados! Mas quem vai rejeitado, dia a dia, princesas e rainhas tão belas como poderosas…

NOTA: O infante Luiz rejeitou a mão de Maria Tudor, rainha de Inglaterra, e a da princesa Edwiges, mais tarde rainha da Polónia.

 - Não é apto para se apaixonar por Egérias imaginárias, - não é assim João?... Pois apaixonei-me eu. João de Castro escutava atentamente. Fazia-lhe estranheza aquela linguagem do jovem príncipe, que não compreendia bem. Luiz deu-se pressa em desfazer-lhe a ostensiva confusão. – Vejo que vos embaraçaram as minhas revelações... Pois bem. Ides saber por completo o meu mais íntimo sigilo. – Como poderei corresponder a tamanha honra, senhor? - É muito fácil, e difícil. Fácil, se guardardes o meu segredo, como se guardam as sagradas fórmulas no interior de um sacrário; e difícil, se me ajudardes a realizar o meu sonho... meu desejo.
 - Como?!... - É que ainda não vi, nem ouvi, aquela por quem me apaixonei. João de Castro fitou suspeitosamente o interlocutor. Custava-lhe a crer que estivesse ali aquele príncipe de espírito esclarecido… aquele príncipe que fora o orgulho de um grande mestre… aquele príncipe de vinte e três ridentes primaveras, tão respeitado por velhos e rapazes… aquele príncipe, enfim, que era um dos mais suaves trovadores da corte. - Ainda me não compreendestes, João? - Senhor, não! - Amo, e não sou amado! - Será possível?! Desenhou-me o cérebro no coração a imagem de um ente peregrino, que não vi ainda personificado. E amo a quimera… o vago... o desconhecido!...
E jornadeio na esperança de encontrar a realização deste sonho febril, que não é um pesadelo, mas que me deixa em luta com essa visão querida, cujos dedos vaporosos me apertam e torturam. - Mas... o que desejais de mim, senhor? - Que me ajudeis a procurar a realização desse ideal, percorrendo comigo o mundo até a encontrarmos. - Percorrerei!... - Está pactuado». In J. A. Oliveira Mascarenhas, P Prior do Crato, romance histórico, ilustrações de Bemvindo Ceia, Typ. Lusitana-Edirora de Arthur Brandão, Lisboa, 1902.

continua
Cortesia de Typ. Lusitana/JDACT

O Prior do Crato. 1902. Prelúdios de Amor. J. Oliveira Mascarenhas. «Ides ouvir. E João, dando à voz e ao rosto másculo uma expressão menos viril, começou a recitar o “Dom-Duardos” ao som pouco eufónico do choutar dos marroquinos. A seu turno, o infante, embevecido pelo ritmo dos próprios versos e pela profunda filosofia…»

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D. Luiz e a Pelicana
«Numa fagueira madrugada de um dos dias do mês de Agosto de mil quinhentos e vinte e nove sua alteza o senhor infante Luiz, irmão de el-rei João III, e o sei dilecto amigo e condiscípulo João de Castro, futuro vice-rei da Índia, acompanhados de um grupo de escudeiros e lacaios, eram vistos a atravessar a ponte de barcas, que naquele tempo, existia cerca da foz do rio Coa. Encaminhava-se a comitiva para as terras de Bragança, onde, para fins venatórios, o respectivo duque Jayme a esperava. O infante Luiz caminhava triste e pensativo, a despeito do bom humor do seu amigo, humor temperado pelo sadio ar puro e balsâmico das campinas e matagais. No que pensaria?
 - Grande labor de espírito vos interessa hoje senhor! Disse João de Castro, dirigindo-se-lhe e fazendo ladear um pouco o seu valente corcel. - -Ah!... Desculpai-me João. Vinha a pensar... a pensar... nem eu sei em quê. Dizei-me: gostais desta feracíssima vegetação?... É magnífica, não é ?... - Soberba, meu senhor. - E um castelinho aqui… rodeado de árvores frondosas… e uns muros muito altos?... - Devia ser uma encantadora vivenda para milhafres… - Bem se vê que sois um gélido matemático.
  • E se dentro desse castelinho existisse uma deliciosa rapariga, cujos lábios carminados vos inundassem de beijos... cujo farto seio arfasse junto ao vosso… e cujos olhos negros vos mergulhassem numa doce noite escura?
 - Ah!... ah!... ah!... gargalhou o moço Castro. Vê-se, meu senhor, que trazeis novo romance na mente. - Ah! E como é melodioso e sentido o vosso Dom-Duardos!... - Onde vistes o Dom-Duardos? !... - Na mão de Gil Vicente. Mas, se o velho mestre foi indiscreto, perdoai-lhe, senhor, pelo muito que vos quer e pelo apreço em que vos tem. O único culpado na inconfidência, fui eu, pois quase o obriguei a deixar-me decorar os vossos versos… - Decoraste o meu romance?... - Com mais prazer do que decorava convosco as lições de Pedro Nunes.

NOTA: Pedro Nunes, o glande matemático, nasceu na vila de Alcácer do Sal, em 1492, segundo alguns autores; falecendo, no dizer de Bayle, em 1577. Fez os seus estudos em Lisboa e Salamanca, foi lente de filosofia na Universidade de Lisboa, e cosmógrafo-mór do reino. Deixou muitas obras de valor. Os seus mais laureados discípulos em matemática foram o infante Luiz e João de Castro.

Ides ouvir. E João, dando à voz e ao rosto másculo uma expressão menos viril, começou a recitar o Dom-Duardos ao som pouco eufónico do choutar dos marroquinos. A seu turno, o infante, embevecido pelo ritmo dos próprios versos e pela profunda filosofia que eles continham, repetia com um mal disfarçado tremor na voz:

Saibam quantos são nascidos,
sentença que não varia:
contra a morte e contra amor
que ninguém não tem valia.

 - Grande verdade é essa, senhor. Que poder terão os homens, que resistir possa a um amor veemente?... O moço duque de Beja não respondeu logo. E o futuro vice-rei da Índia, que, além da sua fina e ilustrada observação, o conhecia tão bem como se fora ele próprio, entrou a convencer-se de que o infante estava ferido, mas muito ferido no mais íntimo do coração. Aquele mutismo profundo e raras vezes interrompido… Aquela ascética meditação de tantas léguas de caminho… Aquele estranho respirar ofegante… Aqueles pueris devaneios de castelinho… Aquele quadro pitoresco da donzela de olhos negros… Tudo isto, concatenado e meditado, dava enfim ao moço Castro, a prova moral que o firmava em semelhante presunpção. Ah! Que se ele pudesse dar-lhe alívios?!» In J. A. Oliveira Mascarenhas, P Prior do Crato, romance histórico, ilustrações de Bemvindo Ceia, Typ. Lusitana-Edirora de Arthur Brandão, Lisboa, 1902.

continua
Cortesia de Typ. Lusitana/JDACT