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sábado, 14 de dezembro de 2013

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «Estes incontáveis seres humanos, da África do Sul ou não, tiveram a nobreza de espírito de barrar o caminho à tirania e à injustiça sem tentarem tirar disso o mínimo proveito pessoal. A ferida de um indivíduo é de todos, e por isso eles agiram em coerência na defesa da justiça e do elementar respeito humano»

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Discurso de Aceitação do Prémio Nobel
«Gostaria de aproveitar esta oportunidade para felicitar o meu compatriota e colega laureado, o presidente Frederik W. De Klerk, pela sua reacção à grande honra que me é dada. Vimos aqui juntar-nos a dois eminentes sul-africanos, o chefe Albert Luthuli e o arcebispo Desmond Tutu, aos quais haveis prestado uma homenagem plenamente merecida pela sua colaboração frutuosa na luta pacífica contra o regime maléfico do apartheid atribuindo-lhes o Prémio Nobel da Paz. Não creio que seja presunção da nossa parte acrescentar, de entre os nossos predecessores, o nome de outro excepcional laureado com o Prémio Nobel da Paz, o reverendo Martin Luther King Jr. Também ele lutou e morreu na busca de uma solução justa para os mesmos grandes problemas que nós tivemos de enfrentar na África do Sul. Refiro-me ao desafio que resulta das dicotomias entre guerra e paz, violência e não-violência, racismo e dignidade humana, opressão e liberdade, repressão e direitos humanos, pobreza e liberdade de acção. Estou aqui como representante dos milhões de pessoas que ousaram insurgir-se contra um sistema social que tem na sua essência a guerra, a violência, o racismo, a opressão, a repressão e o empobrecimento de uma população inteira. Estou também em representação dos milhões de pessoas do movimento antiapartheid espalhadas pelo mundo inteiro, dos governos e organizações que se juntaram a nós, não para combater a África do Sul enquanto país, mas sim para se opor a um sistema desumano, e pôr rapidamente cobro ao crime contra a humanidade perpetrado pelo apartheid.
Estes incontáveis seres humanos, da África do Sul ou não, tiveram a nobreza de espírito de barrar o caminho à tirania e à injustiça sem tentarem tirar disso o mínimo proveito pessoal. A ferida de um indivíduo é de todos, e por isso eles agiram em coerência na defesa da justiça e do elementar respeito humano.
Graças à sua coragem e determinação ao longo de muitos anos, podemos mesmo, hoje, prever o dia em que a humanidade inteira se reunirá para festejar uma das mais memoráveis vitórias humanas do nosso século. Quando esse dia chegar, congratular-nos-emos, todos juntos, com a nossa vitória comum sobre o racismo, o apartheid e a supremacia da minoria branca. Esse triunfo encerrará finalmente quinhentos anos de colonização africana que remonta à instauração do império português. Marcará assim um grande passo em frente na História e ilustrará a determinação comum dos povos no combate ao racismo, seja ele qual for e onde for. No extremo austral do continente africano, aqueles que sofreram em nome da humanidade inteira, tudo sacrificando pela liberdade, pela paz, pela dignidade humana e pelo progresso humano, estão prestes a receber uma recompensa incomparável, um presente inestimável. Esta recompensa não se mede em dinheiro. Nem será avaliada em função do preço dos metais raros e das pedras preciosas desta terra africana que nós pisamos na esteira dos nossos antepassados. Será e deverá ser avaliada em função da felicidade e do bem-estar das crianças, ao mesmo tempo as mais vulneráveis de qualquer sociedade e o mais precioso dos nossos tesouros. E preciso que as crianças possam finalmente brincar ao ar livre na estepe, sem mais serem torturadas pela fome, dizimadas pela doença e ameaçadas por esses flagelos que são a ignorância, a brutalidade e todas as formas de abuso, ou obrigadas a envolver-se em actos cuja gravidade ultrapassa a sua compreensão. Perante esta distinta assistência, comprometemos a nova África do Sul a prosseguir sem desfalecimentos as resoluções definidas na Declaração mundial sobre a sobrevivência, a protecção e o desenvolvimento das crianças (NOTA: Declaração dos Direitos da Criança, aprovada por unanimidade pela Assembleia Geral das Nações unidas no dia 20 de Novembro de 1959, que estabelece dez direitos fundamentais, entre os quais os que Nelson Mandela mencionou). Esta recompensa será também, e deverá ser, avaliada em função da felicidade e do bem-estar das mães e dos pais dessas crianças, que devem poder viver nesta terra sem medo de serem espoliados por razões políticas ou materiais, injuriados porque reduzidos à mendicidade.

Também eles devem ser aliviados do fardo pesado que é o desespero, provocado pela fome, pela privação e pelo desemprego. O valor desta recompensa para todos os oprimidos será medido, e deverá sê-lo, em função da felicidade e do bem-estar de todas as pessoas do nosso país que tiverem derrubado os muros desumanos que as dividem. Estas grandes massas terão virado as costas ao insulto grave dirigido à dignidade humana, que pretendia designar uns como senhores e outros como servos, e que tinha como resultado fazer de cada indivíduo um predador cuja sobrevivência dependia da destruição do outro. O valor da recompensa que todos vamos partilhar será avaliado, e deverá sê-lo, em função da paz jubilosa que triunfará, porque a humanidade, que junta negros e brancos em uma só e a mesma raça, quer que cada um de nós possa daqui para o futuro viver como um filho do paraíso. Assim viveremos, porque teremos criado uma sociedade em que todos nascemos iguais e todos teremos direito a uma parcela justa de vida, de liberdade, de prosperidade, de dignidade humana e de bom governo. Uma tal sociedade nunca deverá tolerar que haja presos políticos, nem que sejam violados os direitos humanos de qualquer pessoa. Assim como nunca deverá acontecer que os caminhos que conduzem a uma mudança pacífica sejam de novo entravados por usurpadores que procuram privar o povo de todo e qualquer poder para atingirem os seus próprios e ignóbeis objectivos […]»In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

O meu singelo contributo. Obrigado MADIBA
Cortesia de Bizâncio/JDACT

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «Há demasiado tempo que esperamos pela liberdade. Não podemos esperar mais. E tempo de intensificar a luta em todas as frentes. Esmorecer na nossa combatividade seria uma falta que as gerações futuras não iriam perdoar-nos»

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Discurso perante a multidão na cidade do Cabo, no dia da sua Libertação
Dia 11 de Fevereiro de 1990
«Amigos, camaradas e compatriotas sul-africanos. Saúdo-vos em nome da paz, da democracia e da liberdade para todos! Estou aqui, perante vós, não como um profeta mas como um humilde servo vosso, do povo. Os vossos sacrifícios incansáveis e heróicos tornaram possível a minha presença hoje aqui. Deposito, pois, os anos de vida que me restam nas vossas mãos. Neste dia da minha libertação, quero também exprimir a minha sincera e mais viva gratidão aos meus milhões de compatriotas e a todos quantos, nos quatro cantos do mundo, nunca se cansaram de fazer campanha pela minha libertação.
[…]

Hoje, a maioria dos sul-africanos, negros e brancos, reconhece que o apartheid não tem futuro. Temos de acabar com ele, pela nossa acção conjunta e decisiva, para construir a paz e a segurança em todo o país. A resistência colectiva e as outras acções empreendidas pela nossa organização e pelo nosso povo não podem deixar de conduzir à instauração da democracia. A destruição causada pelo apartheid no nosso subcontinente é incalculável. Para muitos, deixou de existir estrutura familiar. Há milhões sem casa e sem emprego. A nossa economia está arruinada e o nosso povo mergulhado no conflito político. O nosso recurso à luta armada em 1960, com a formação do braço armado do ANC, Umkhonto we Sizwe, era uma acção meramente defensiva contra a violência do apartheid. Os factores que levaram à luta armada persistem hoje. Não nos resta outra alternativa senão continuar com ela. Resta-nos esperar um clima favorável às negociações para que a luta armada não seja por muito mais tempo uma necessidade.
Sou um membro leal e disciplinado do Congresso Nacional Africano. Estou por isso plenamente de acordo com todos os seus objectivos, as suas estratégias e as suas tácticas. Unir os habitantes do nosso país é uma tarefa tão importante e necessária hoje como sempre foi. Nenhum dirigente, qualquer que ele seja, pode levá-la a bom porto sozinho. Nós, os líderes políticos, temos de submeter os nossos pontos de vista à nossa organização e deixar que seja ela a decidir de acordo com o processo democrático que é o seu. É meu dever, a este propósito, sublinhar que um dirigente do movimento é uma pessoa eleita democraticamente em congresso nacional. É um princípio que tem de ser observado, sem lugar à mínima derrogação. Hoje, desejo comunicar-vos que as minhas conversações com o governo se destinaram a normalizar a situação política no país. Ainda não começámos a discutir as reivindicações fundamentais da nossa luta. Quero também salientar que eu, pessoalmente, em nenhum momento encetei negociações quanto ao futuro do nosso país, a não ser para insistir num encontro entre o ANC e o governo. O Sr. De Klerk foi mais longe do que qualquer outro presidente nacionalista, ao tomar medidas concretas no sentido de normalizar a situação. Porém, outras diligências, como as que ficaram esboçadas na Declaração de Harare, terão de ser desenvolvidas antes de podermos negociar os direitos fundamentais que o nosso povo exige. Aproveito esta oportunidade para reiterar a nossa reivindicação, entre outras, do levantamento imediato do estado de emergência e da libertação de todos os presos políticos não apenas de alguns. Só uma situação normalizada, que garanta uma livre actividade política, pode permitir-nos consultar o nosso povo para dele obter um mandato.
O povo tem de ser consultado para decidir quem vai negociar e quais são as negociações a fazer. Nenhuma negociação deve ter lugar sem o parecer dos nossos concidadãos. O futuro do nosso país só pode ser decidido por um órgão eleito democraticamente numa base não racial. As negociações, que incidirão sobre o desmantelamento do apartheid, terão de tomar em consideração o desejo irreprimível do nosso povo de uma África do Sul democrática, não racial e unitária. É preciso acabar com o monopólio branco do poder político e preparar uma reestruturação dos nossos sistemas político e económico, para se poder assegurar que as desigualdades devidas ao apartheid sejam eliminadas e a nossa sociedade seja perfeitamente democratizada. E bom que se diga que o Sr. De Klerk é um homem íntegro, que tem uma consciência apurada dos perigos a que se exporia uma personalidade pública que não honrasse os seus compromissos. Dito isso, a nossa organização tem o dever de definir a sua linha de conduta e a sua estratégia em função da dura realidade com que estamos confrontados. E esta realidade traduz-se no facto de continuarmos a sofrer os efeitos da política posta em prática pelo governo nacionalista. A nossa luta está num momento crucial da sua história. Apelamos ao nosso povo para que se mobilize no sentido de tornar rápido e ininterrupto o caminho que conduz à democracia. Há demasiado tempo que esperamos pela liberdade. Não podemos esperar mais. E tempo de intensificar a luta em todas as frentes. Esmorecer na nossa combatividade seria uma falta que as gerações futuras não iriam perdoar-nos. A liberdade que se desenha no horizonte tem de nos dar ânimo para redobrarmos os nossos esforços. Só uma acção maciça e disciplinada pode garantir-nos a vitória. Apelamos aos nossos compatriotas brancos para que se juntem a nós na construção de uma nova África do Sul, o movimento pela liberdade pertence a uma família política em que eles também têm lugar. Apelamos à comunidade internacional para que prossiga a sua campanha para isolar o regime do apartheid. Levantar agora as sanções seria correr o risco de fazer abortar o processo que há-de levar à erradicação total do apartheid.
A nossa marcha para a liberdade é irreversível. Não podemos permitir que o medo se atravesse no nosso caminho. O sufrágio universal, assente na participação comum de todos os eleitores numa África do Sul unificada, democrática e não racial, é a única via que leva à paz e à harmonia racial. Para concluir, gostaria de repetir as palavras que já pronunciei no decurso do meu julgamento, em 1964. São tão verdadeiras hoje como eram na época:
  • Tenho lutado contra a dominação branca e contra a dominação negra. Tenho acalentado o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas possam viver juntas, em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para cuja concretização espero viver. Mas se for necessário, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.
In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

Cortesia de Bizâncio/JDACT

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «... procurar trabalho onde quiserem e não onde os serviços de emprego os mandam ir. Os africanos querem uma partilha justa da totalidade da Africa do Sul; querem segurança e participação na sociedade. Acima de tudo, queremos direitos políticos iguais, porque, sem eles, as nossas desvantagens serão permanentes»

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Estou disposto a morrer
Declaração de Nelson Mandela no banco dos réus, em sua defesa, na abertura do julgamento de Rivonia

Ao Tribunal Supremo de Pretória, 20 de Abril de 1964.
[…]

«(…) O governo responde muitas vezes às críticas que lhe são dirigidas com a afirmação de que os africanos da África do Sul vivem muito melhor do que os dos outros países de África. Não sei se isso é verdade, porque se não tivermos em conta o índice de custo de vida a comparação não faz qualquer sentido. Mesmo que tenha fundamento, tal afirmação é descabida. De facto, o que interessa não é saber se somos pobres em comparação com outros países, mas sim que somos pobres em relação à população branca no nosso próprio país, e que a legislação nos impede de repor o equilíbrio.
A falta de dignidade humana vivida pelos africanos era resultado directo da política de supremacia branca. Supremacia branca implica inferioridade negra. A legislação destinada a preservar a supremacia branca reforça este conceito. As tarefas inferiores na África do Sul são invariavelmente desempenhadas pelos africanos. Quando alguma coisa tem de ser carregada ou limpa, o homem branco olha à sua volta, à procura de um africano que o faça na sua vez, quer o africano seja seu empregado, quer não. Em consequência deste tipo de atitude, os brancos têm tendência para considerar os africanos como uma raça à parte. Esquecem que eles têm família:
  • são capazes de emoções, que se apaixonam como qualquer branco;
  • que tal como eles desejam estar com a mulher e os filhos;
  • que querem ganhar o suficiente para garantir a subsistência da família, alimentá-la, vesti-la, mandar os filhos à escola.
E qual é o pau para toda a obra ou o trabalhador braçal que pode ter esperanças de 1á chegar?
[…]

Os africanos querem auferir um salário decente, fazer um trabalho que são capazes de fazer e não um trabalho que o governo os acha capazes de fazer. Os africanos querem poder viver ou ter um terreno no sítio onde trabalham, sem serem excluídos desta ou daquela região a pretexto de que não nasceram nela, ou obrigados a arrendar casas que nunca podem considerar suas. Os africanos querem ser integrados no conjunto da população, e não ser remetidos para guetos. Os homens não querem ser separados das suas mulheres e dos seus filhos, nem ser forçados a levar uma existência que não tem sentido, longe dos seus. As mulheres querem estar ao lado dos seus maridos, e não continuar a viver como viúvas nas Reservas. Os africanos querem ter o direito de sair depois das onze horas da noite, e não ser confinados aos seus quartos como crianças pequenas. Os africanos querem ter o direito de viajar pelo seu próprio país e procurar trabalho onde quiserem e não onde os serviços de emprego os mandam ir. Os africanos querem uma partilha justa da totalidade da Africa do Sul; querem segurança e participação na sociedade.
Acima de tudo, queremos direitos políticos iguais, porque, sem eles, as nossas desvantagens serão permanentes. Sei que tal soa revolucionário aos ouvidos dos brancos deste país, porque a maioria dos eleitores será africana. Isto faz com que o homem branco receie a democracia. Mas tal receio não deve ser impeditivo de que seja garantida a harmonia racial e a liberdade para todos. Como não deve fazer pensar que o direito de voto universal trará consigo uma qualquer supremacia racial. A discordância política, assente na questão da cor, é totalmente artificial, e quando ela desaparecer deixará de haver supremacia de uma raça sobre a outra. O ANC passou meio século a combater o racismo. A sua vitória não o levará a alterar esta política [...]»In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

Público e jdact
Cortesia de Bizâncio/JDACT

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «A luta que nos oferecia melhores perspectivas, e menores riscos de vida para ambos os lados, era a guerra de guerrilha. Decidimos, por consequência, nos nossos preparativos para o futuro, tomar providências para a hipótese da guerra de guerrilha»

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Estou disposto a morrer
Declaração de Nelson Mandela no banco dos réus, em sua defesa, na abertura do julgamento de Rivonia

Ao Tribunal Supremo de Pretória, 20 de Abril de 1964.
[…]

«(…) Evitar uma guerra civil foi o nosso lema durante muitos anos, mas quando decidimos incluir a violência na nossa política, tomámos consciência de que talvez um dia tivéssemos de a enfrentar. Tivemos de contar com ela ao estabelecer o nosso plano de acção. Precisávamos de um plano suficientemente flexível para nos permitir agir em função da evolução da situação e que, acima de tudo, considerasse a guerra civil como último e extremo recurso, deixando para o futuro a decisão. Não queríamos lançar-nos numa guerra civil, mas queríamos estar preparados para o caso de ela se tornar inevitável. Para isso dispunhamos de quatro meios: a sabotagem, a guerrilha, o terrorismo e a rebelião aberta. Optámos pelo primeiro, determinados a esgotá-lo antes de tomar outra decisão. À luz dos nossos antecedentes políticos, a nossa opção era lógica. A sabotagem excluía a perda de vidas humanas, e o futuro das relações raciais apresentava-se esperançoso. O rancor atenuava-se e, se a nossa política produzisse frutos, um governo democrático poderia um dia tornar-se realidade.
[…]

Quantas Sharpevilles iriam ainda ficar registadas na história do nosso país? E quantas Sharpevilles poderia o país ainda suportar sem trazer de regresso à ordem do dia a violência e o terror? E, uma vez transposta esta etapa, que iria acontecer ao nosso povo? Estávamos certos de que iríamos vencer, mas a que preço para nós próprios e para o país? E se 1á chegássemos, como poderiam então negros e brancos voltar a viver juntos em paz e harmonia? Eram estes os problemas com que nos víamos confrontados, e era este o nosso estado de espírito quanto às decisões a tomar. A experiência convenceu-nos de que a rebelião daria ao governo oportunidades ilimitadas para o massacre indiscriminado do nosso povo. Mas foi precisamente porque o solo da África do Sul já estava empapado com o sangue de africanos inocentes que considerámos nosso dever prepararmo-nos, a longo prazo, para usar a força, com a finalidade de nos defendermos contra a força. Se a guerra era inevitável, queríamos que a luta fosse conduzida nos termos mais favoráveis possível para o nosso povo. A luta que nos oferecia melhores perspectivas, e menores riscos de vida para ambos os lados, era a guerra de guerrilha. Decidimos, por consequência, nos nossos preparativos para o futuro, tomar providências para a hipótese da guerra de guerrilha.
[…]

O credo ideológico do ANC é, e sempre foi, o credo do nacionalismo africano. Não é o conceito do nacionalismo africano expresso no grito Empurrar o homem branco para o mar. O nacionalismo africano que o ANC representa é o conceito de liberdade e realização para o povo africano na sua própria terra. O documento político mais importante alguma vez adoptado pelo ANC e a Carta da Liberdade. Nada tem a ver com um Estado socialista. Apela à redistribuição, e não à nacionalização das terras; se prevê a nacionalização das minas, dos bancos e do monopólio industrial, é porque os grandes monopólios pertencem a uma única raça e porque, sem isso, a supremacia racial continuaria, fosse qual fosse o poder político. Seria inútil revogar as proibições impostas aos africanos pela lei do ouro quando todas as minas de ouro pertencem a companhias europeias. Neste aspecto, a política do ANC corresponde à antiga política do actual Partido Nacional que, durante muitos anos, incluiu no seu programa a nacionalização das minas de ouro, então sob a tutela de capitais estrangeiros. De acordo com a Carta da Liberdade, só uma economia baseada na empresa privada permitiria a nacionalização. A aplicação prática da Carta ofereceria novas perspectivas de uma população africana próspera constituída por todas as classes, incluindo a classe média. Nunca o ANC, em nenhum período da sua história, advogou uma mudança revolucionária na estrutura económica do país, nem jamais, que eu me lembre, condenou a sociedade capitalista». In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

Cortesia de Bizâncio/JDACT

Nelson Mandela. Uma Lição de Vida. Jack Lang. «Nós, os dirigentes do nosso povo, que havíamos de fazer? Íamos deixar-nos intimidar por essas demonstrações de força e ameaças, ou íamos enfrentá-las e, se sim, como? Não tínhamos dúvidas de que era nosso dever continuar a conduzir o combate»

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Estou disposto a morrer
Declaração de Nelson Mandela no banco dos réus, em sua defesa, na abertura do julgamento de Rivonia

Ao Tribunal Supremo de Pretória, 20 de Abril de 1964.
«Eu sou o primeiro acusado.
Quero deixar claro, desde o início, que a insinuação feita pelo Estado de que a luta na África do Sul está sob a influência de estrangeiros ou de comunistas é totalmente incorrecta. Fiz o que fiz, quer como indivíduo quer como líder do meu povo, devido à minha experiência na África do Sul e à minha proveniência africana, de que me orgulho, e não por causa do que alguém de fora possa ter dito. Na minha juventude no Transkei, escutei os anciãos da minha tribo a contarem histórias dos velhos tempos. Entre as lendas que relatavam, encontravam-se as narrativas de guerras travadas pelos nossos antepassados em defesa da pátria. Os nomes de Dingane e Bambata, Hintsa e Makanna,Squngthi e Dalasile, Moshoeshoe e Sekhukhuni eram louvados como representantes do orgulho e da glória de toda a nação africana. Eu esperava então que a vida me proporcionasse a oportunidade de servir o meu povo e dar o meu humilde contributo para a sua luta de libertação. E isto que me tem motivado em todos os actos relacionados com as acusações feitas contra mim neste caso.
[…]

Já referi que eu era um dos que contribuíram para a constituição do Umkhonto. Eu e aqueles que comigo puseram de pé a organização fizemo-lo por duas razões. Primeiro, porque estávamos convencidos de que a política levada a cabo pelo governo conduzia directamente os africanos a uma violência inevitável, e que sem dirigentes responsáveis capazes de canalizar e conter os sentimentos do nosso povo se registariam actos terroristas susceptíveis de gerar entre as diversas raças um ressentimento e uma hostilidade de uma intensidade nunca até então igualada, nem mesmo em tempo de guerra. Segundo, porque tínhamos consciência de que o povo africano não tinha outra alternativa que não fosse a violência para lutar vitoriosamente contra o princípio estabelecido da hegemonia branca. A legislação bloqueava todos os meios legais de manifestação da nossa oposição a tal princípio, e nós encontrávamo-nos numa posição que nos levava ou a aceitar um estado permanente de inferioridade, ou a fazer frente ao governo. Optámos por desafiar a lei, mas sem recorrer à violência; só perante uma nova legislação contra os nossos métodos e, mais tarde, uma demonstração de força da parte do governo para esmagar toda e qualquer oposição à sua política, decidimos responder à violência pela violência.
Mas a violência que tínhamos decidido adoptar nada tinha a ver com terrorismo. Todos nós, fundadores do Umkhonto, éramos membros do congresso Nacional Africano que, para resolver os conflitos políticos, se apoiava nos princípios da não-violência e da negociação. Acreditamos que a África do Sul pertence a todos quantos vivem no seu seio, e não apenas a uma colectividade, seja ela negra ou branca. Não desejávamos uma guerra inter-racial, e tudo fizemos para evitá-la.
[...]

Tenho agora de recuar a Junho de 1961. Nós, os dirigentes do nosso povo, que havíamos de fazer? Íamos deixar-nos intimidar por essas demonstrações de força e ameaças, ou íamos enfrentá-las e, se sim, como? Não tínhamos dúvidas de que era nosso dever continuar a conduzir o combate. Qualquer outra decisão nos parecia uma lamentável capitulação. O nosso problema não estava em saber se devíamos bater-nos, mas sim como continuar a fazê-lo.
[…]

Nós, os do ANC, sempre defendemos uma democracia não racial, e rejeitámos qualquer acção que pudesse afastar as raças mais ainda do que já estavam. Mas a verdade nua e crua era que cinquenta anos de não-violência não tinham trazido ao povo africano nada, a não ser mais legislação repressiva e cada vez menos direitos. Pode não ser fácil de compreender para este tribunal, mas é um facto que há muito tempo que o povo andava a falar de violência, do dia em que lutariam com o homem branco e recuperariam o seu país; e nós, os líderes do ANC, convencêramo-los, no entanto, a evitar a violência e a usar métodos pacíficos. Embora alguns de nós tivessem discutido isto em Maio e Junho de 1961, não se podia negar que a nossa política para atingir um Estado não racial através da não-violência nada tinha conseguido, e que os nossos seguidores começavam a perder a confiança nesta política e desenvolviam ideias de terrorismo perturbadoras…»  In Jack Lang, Leçon de vie pour l’avenir, Perrin 2004, Nelson Mandela, Uma Lição de Vida, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2005, ISBN 978-972-53-0275-0.

Cortesia de Bizâncio/JDACT

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela. A Sua Mensagem. «A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade»

(1918-2013)
Mvezo, Cabo Oriental, África do Sul
Cortesia de wikipedia

«Uma boa cabeça e um bom coração são sempre uma combinação formidável. Depois de termos conseguido subir a uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir. A educação e o ensino são as mais poderosas armas que podes usar para mudar o mundo. Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros. Eu aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo. Se falares a um homem numa linguagem que ele compreenda, a tua mensagem entra na sua cabeça. Se lhe falares na sua própria linguagem, a tua mensagem entra-lhe directamente no coração. Se tu queres fazer as pazes com o teu inimigo, tens que trabalhar com o teu inimigo. E então ele torna-se o teu parceiro. Tudo parece impossível até que seja feito. É melhor liderar a partir da rectaguarda e colocar outros à frente, especialmente quando estamos a celebrar uma vitória por algo de muito bom que aconteceu. Mas deves tomar a linha da frente quando há perigo. Desta forma as pessoas irão apreciar a tua liderança. O dinheiro não cria o sucesso, mas sim a liberdade de criar o sucesso». In Nelson Mandela.


«Não existe revelação mais nítida da alma de uma sociedade do que a forma como esta trata as suas crianças. Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos. Não há qualquer paixão a atingir vivendo de forma minimalista - vivendo de uma forma que é menos do que aquela que nós seríamos capaz de viver. Liberdade parcial não é liberdade. Quando a água começa a ferver é uma estupidez tentar desligar o calor. À medida que nos libertamos do nosso próprio medo a nossa presença liberta automaticamente outros. A maior glória de viver não consiste em jamais cair, mas em reerguermo-nos sempre que o fizermos. "Será que alguém pensa genuinamente que se não conseguiu algo foi por não ter tido o talento, a força, a resistência e a determinação nesse sentido? Deixem reinar a liberdade. O Sol nunca se põe em tal façanha humana. Não há como regressar a um local que se mantém inalterado para nos apercebermos da forma em que mudámos». In Nelson Mandela.


«Devemos usar o tempo sensatamente e entender que o momento é sempre adequado para se fazer o bem. A bondade do homem pode ser escondida, mas nunca extinta. Quando acendemos a nossa própria luz inconscientemente, damos permissão a que outros façam o mesmo. A prioridade é sermos honestos connosco. Nunca poderemos ter um impacto na sociedade se não nos mudarmos primeiro. Os grandes pacificadores são todos gente de grande integridade e honestidade mas, também, de humildade. Perigos e dificuldade não nos travaram no passado e não nos assustarão agora, mas devemos preparar-nos para eles, como homens determinados quanto ao que pretendem e que não perdem tempo com conversas vãs e inacção. A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo. A educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através dela que a filha de um camponês se torna médica, que o filho de um mineiro pode chegar a chefe de mina, que um filho de trabalhadores rurais pode chegar a presidente de uma grande nação. É aquilo que fazemos do que temos, e não o que nos foi dado, que distingue uma pessoa de outra. Não sou um santo, a menos que vejam um santo como um pecador que continua a tentar. Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto. Quando penso no passado, no tipo de coisas que me fizeram, sinto-me furioso, mas, mais uma vez, isso é apenas um sentimento. O cérebro sempre domina e diz-me: tens um tempo limitado de estada na Terra e deves tentar usar esse período para transformar o teu país naquilo que desejas. Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. O nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta. Nos perguntamos: Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível? Na verdade, quem sou para não ser tudo isso?... O pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de nós. E à medida que deixamos a nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo».  In Nelson Mandela.


«Do avesso desta noite que me encobre,
preta como a cova, do começo ao fim,
eu agradeço a quaisquer deuses que existam,
pela minha alma inconquistável.
Na garra cruel desta circunstância,
não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.
Além deste lugar de ira e lágrimas
avulta apenas o horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
encontra-me, e me encontrará destemido.
Não importa quão estreito o portal,
quão carregada de punições a lista,
sou o mestre do meu destino:
sou o capitão da minha alma».
In William Ernest Henley, 1875, quando Nelson Mandela comemorou 20 anos de liberdade.


Cortesia de Citador/JDACT

Nelson Mandela. África do Sul. Sinónimo de igualdade, liberdade e revolução. Mas é também sinónimo de música, onde muitos artistas foram beber inspiração para compor alguns temas que ficarão para sempre na história, ligados ao antigo Presidente da África do Sul. «O que isto é, viver! Abrir os olhos, ver, e ser o nevoeiro que se vê! Nevoeiro ao nascer, nevoeiro ao morrer, e um destino na mão que se não lê...»

Cortesia de publico e jdact


«Na taça que eu lavrei quero que bebas
o segredo profundo dos meus dias;
e, dona do que é meu, de mim recebas
toda a riqueza que não conhecias.
A taça é branca como um véu sem cor,
e o segredo nimbado de vazio;
quero que a veja pois o teu amor,
e bebas só dum trago o luar frio.
Quero, depois, que quebres o cristal
de encontro à fraga dura da lembrança
do Poeta que fui ao natural
junto de ti a trabalhar na herança».

«Meu coração quebrou.
Era um cedro perfeito;
mas o vento da vida levantou,
e aquele prumo do céu caiu direito.
Nos bons tempos felizes
em que ele batia, erguido,
desde a rama às raízes
era seiva e sentido.
Agora jaz no chão.
Palpita ainda, e tem
vida de coração...
Mas não ama ninguém».



JDACT

Música. África do Sul. Homenagem. «Talvez o espere a avó o pai amigos e a mãe que disfarça às vezes uma lágrima. Talvez o próprio povo o espere ainda quando subitamente fica melancólico propenso a acreditar em coisas misteriosas»

Cortesia de publico e jdact


«Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo».

«Talvez o espere ainda a Incomeçada
aquela que louvámos uma noite
quando o abril rompeu em nossas veias.
Talvez o espere a avó o pai amigos
e a mãe que disfarça às vezes uma lágrima.
Talvez o próprio povo o espere ainda
quando subitamente fica melancólico
propenso a acreditar em coisas misteriosas.
Algures dentro de nós ele cavalga
algures dentro de nós
entre mortos e mortos.
É talvez um impulso quando chega maio
ou as primeiras aves partem em setembro.
Cargas e cargas de cavalaria.
E cercos. Conquistas. Naufrágios naufrágios.
Quem sabe porquê. Quem sabe porquê.
Entre mortos e mortos
algures dentro de nós.
Quem pode retê-lo?
Quem sabe a causa que sem cessar peleja?
E cavalga cavalga.
Sei apenas que às vezes estremecemos:
é quando irrompe de repente à flor do ser
e nos deixa nas mãos
uma espada e uma rosa».

«Herói é quem num muro branco inscreve
o fogo da palavra que o liberta:
sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.
Herói é quem morrendo perfilado
não é santo nem mártir nem soldado
mas apenas por último indefeso.
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso».


JDACT

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Mundo na Era da Globalização: Parte I. «...para ambos os grupos trata-se, antes de tudo, de um fenómeno de natureza económica. O que é um erro. A globalização é política, tecnológica e cultural, além de económica»

Cortesia de globalizacao83geo  

Globalização
«Os mercados financeiros movimentam mais de um trilião de dólares por dia. É um aumento maciço em relação aos inícios da década de 1990, sem falarmos de anos mais distantes. O valor do dinheiro que temos no bolso, ou nas nossas contas bancárias, muda de momento a momento, de acordo com as flutuações registadas nestes mercados.

Deste modo, eu diria sem hesitar que a globalização, tal como estamos a vivê-la, a muitos respeitos não é apenas uma coisa nova, é também algo de revolucionário. Porém, creio que nem os cépticos nem os radicais compreenderam inteiramente o que é a globalização ou quais são as suas implicações em relação às nossas vidas. Para ambos os grupos trata-se, antes de tudo, de um fenómeno de natureza económica. O que é um erro. A globalização é política, tecnológica e cultural, além de económica. Acima de tudo, tem sido influenciada pelo progresso nos sistemas de comunicação, registado a partir do final da década de 1960.


Cortesia de novasoportunidadesesctturmap 
Em meados do século XIX, um pintor de retratos de Massachusetts, chamado Samuel Morse, transmitiu a primeira mensagem através do telégrafo eléctrico: «Qual é a vontade de Deus?». Ao fazê-lo deu início a uma nova fase da História Mundial. Nunca tinha sido enviada uma mensagem sem que uma pessoa a transportasse ao seu destino. Porém, o advento das comunicações por satélite representa uma ruptura da mesma dimensão com o passado. O primeiro satélite comercial foi lançado em 1969. Agora há mais de 200 destes satélites em órbita, cada um carregado com uma enorme diversidade de informações.
Pela primeira vez na História podemos estabelecer comunicação instantânea com o outro lado do mundo. Outros tipos de comunicação electrónica, cada vez mais integrados com as transmissões via satélite, têm acelerado a evolução nos anos mais recentes. Até final da década de 1950, não existia nenhum cabo directo transatlântico ou transpacífico. O primeiro transportava menos de 100 comunicações simultâneas. Os actuais transportam mais de 1 milhão.
A 1 de Fevereiro de 1999, cerca de 150 anos depois de Morse ter inventado o seu sistema de pontos e traços, o Código de Morse, enquanto meio de comunicação no mar, desapareceu finalmente da cena mundial. Foi substituído por um sistema que utiliza a tecnologia dos satélites e permite localizar imediatamente qualquer navio em perigo. A maioria dos países preparou a transição com alguma antecedência. A França, por exemplo, deixou de usar o Código Morse nas águas costeiras em 1997, desligando-o com um floreado tipicamente gaulês: «Atenção a todos. Esta é a nossa última chamada antes do silêncio eterno».

Cortesia de notapositiva 
A comunicação electrónica instantânea não é apenas um meio de transmitir informações com maior rapidez. A sua existência altera o próprio quadro das nossas vidas, ricos ou pobres. Quando a imagem de Nelson Mandela nos pode ser mais familiar do que ado vizinho que mora na porta ao lado da nossa, é porque qualquer coisa mudou na nossa vida corrente.
Nelson Mandela é uma celebridade a nível global e a celebridade é, em grande parte, o produto da nova tecnologia das comunicações. O alcance das novas tecnologias de comunicação aumenta com cada vaga de inovações. Nos USA, a rádio levou 40 anos para atingir os 50 milhões de ouvintes. O mesmo número de pessoas usava um computador pessoal, apenas 15 anos depois de a máquina ter sido inventada. Só foram precisos uns meros 4 anos, para haver 50 milhões de americanos que usam a Internet com regularidade». In O Mundo na Era da Globalização, Anthony Giddens 1999, Editorial Presença 2ª edição, Abril 2000, ISBN 972-23-2573-6.

Cortesia da Editorial Presença/JDACT

sábado, 5 de junho de 2010

Siphiwo Ntshebe: Cantor lírico sul-africano

(1974-2010)
O cantor lírico sul-africano Siphiwo Ntshebe, escolhido por Nelson Mandela para actuar na cerimónia de abertura do Mundial de Futebol de 2010. Morre aos 35 anos de idade.


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