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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Essas alianças matrimoniais ganhavam ainda, significados políticos quando realizadas sob o amparo da Igreja e o reconhecimento público dos súbditos dos reinos envolvidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) Foi no contexto dessas divergências contra a nobreza e o clero que a rainha Isabel e dom Dinis haveriam de enfrentar seus primeiros anos como rainha e rei. Com o objectivo de realizar um entendimento político com o papado, o monarca português promoveu uma série de emendas à Corte com esse objectivo. Essa tentativa pode ser percebida igualmente por meio de uma carta que dom Dinis enviou ao Papa Martinho IV (1281-1285) solicitando que fossem suspensas as interdições que recaíam sobre o reino de Portugal. Como já havia ocorrido com Inocêncio IV (1243-1254), o papa Martinho IV (1281-1285) e seu sucessor, Honório IV (1285-1287) notabilizaram-se pelas suas acções nos assuntos políticos de diversos reinos. O primeiro ficou famoso pelos atritos com os Hohenstaufen da Alemanha na luta pela posse da Sicília. O segundo e o terceiro apoiaram abertamente a França, inclusive oferecendo a ela o reino da Sicília contra Aragão que naquela altura também se apresentava como herdeiro da ilha devido ao casamento de Pedro III, pai da Rainha Isabel com Constança, filha de Manfredo Hohenstaufen.

Ao Santíssimo Padre, & senhor Dõ Martinho pela prouidencia de Deos Summo Pontifice da Santa Igreja de Roma, Dionysio pela graça de Deos Rey de Portugal, & Algarue, beja os pés bemauenturados. Porque na terra tendes plenariamente as vezes de aquelle que he paz nossa, fazendo de ambas as repubicas de Céu, & terra huma, o medianeiro entre Deos, & homes Christo Iesu: não duuidamos que tambem voz alegraes entranhauelmente nas cousas que encaminhão â paz de Ierusalem a Santa Madre Igreja. Por esta causa determinamos manifestar a alteza de vossa Santidade, que promulgando em tempo passado o senhor Papa Gregorio Decimo de santa memoria, com conselho de seus irmãos, hua ordenação, ou prouião contra nosso pay Dom Afonso (...) & sendo tem tenção daquele Papa expressada na mesma prouisão, que nos comprehendesse ella tambem a nos. Finalmente despois de morto o dito nosso pay, (...) considerando o estado dos Reinos Sobreditos, & em particular por respeito da profunda destruição das almas de seus naturaes, as quaes de longo tempo atras estão priuados da douçura da graça dos Sacramentos…

A falta de boas relações com Roma e com seus representantes locais provocava grande instabilidade política para Portugal naquela época, pois a excomunhão seguida da interdição era uma arma utilizada pelos Papas contra os poderes laicos. A excomunhão afastava os pecadores da vida em comunhão, e o interdito recaía sobre os que possuíam poderes políticos no momento da excomunhão e privava os territórios, que estavam sob seus domínios, dos ofícios religiosos e administração dos sacramentos, entre outros. Segundo Félix Lopes, quando Dinis se casou com a Infanta Isabel de Aragão, no reino português, as igrejas mantinham suas portas fechadas e os fiéis encontravam-se privados das bênçãos e dos actos solenes. Porém, a interdição do Papa não impediu que o casamento fosse realizado com magnificência pública e muitos festejos. Ainda segundo esse autor:

 ...fez-se bodas, grandes e ruidosas, com os velhos ricos-homens trovadores e os moços trovadores, criados com o moço rei, à compita nos jogos de armas e cantares, nas alegrias e folguedos. E os festejos prolongaram-se em Trancoso por todo o mês de Julho. Depois a corte passou à Guarda onde ainda demorava a 18 de Setembro.

Essas alianças matrimoniais ganhavam ainda, significados políticos quando realizadas sob o amparo da Igreja e o reconhecimento público dos súbditos dos reinos envolvidos. Muitas vezes, elas iniciavam-se no privado, com longas negociações que envolviam os dois lados interessados, representados pelos elementos mais ilustres dos dois reinos». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Depois que ali chegarom, acharom o infante D. Afonso de Portugal, irmão delrey D. Dinis, e o conde de Portugal a que diziam D. Gonçalo, e outros muitos cavaleiros de Portugal e prelados, que ali atendiam a rainha…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) Assim como em relação ao nascimento, as informações relacionadas à infância de Isabel também são escassas. Alguns autores indicam que a futura rainha de Portugal viveu seus primeiros anos em Saragoça, sob a tutoria do avô, Jaime I; período em que ela realizou seus primeiros contactos com os frades franciscanos, que mantinham uma relação muito próxima com a corte aragonesa. Com a morte do avô, em 1276, a Infanta passou aos cuidados dos pais, porém continuou a receber uma formação educacional e religiosa nos princípios franciscanos até completar dez anos, quando foi a Portugal para casar-se com o rei Dinis.

Como estratégia política, o ritual que envolveu o casamento de Dinis com Isabel foi marcado por um período de intensa troca de informações entre os dois reinos para se certificarem de que se tratava de uma aliança benéfica. Nessas negociações, como em outras que aconteceriam durante a vida da Rainha Isabel, o papel dos procuradores foi de fundamental importância para estabelecer os compromissos e obrigações entre as duas monarquias peninsulares. As negociações iniciaram-se, em 1280, com a visita dos embaixadores portugueses à corte aragonesa, E avendo dous anos que elRey D. Denjs reynaua, (...) ouujndo a fama e bondade da Iffante, desejou de a auer por molher. E estando em Estremoz, ordenou seus procuradores (...) e emujoua a pedir a el Rey de Aragão seu padre. Em Fevereiro de 1281, foram assinados os acordos, em Barcelona, pelos embaixadores dos dois reinos e, em Abril do mesmo ano, os representantes dos dois reinos reuniram-se em Vide, agora com a presença de Dinis para selarem o contrato matrimonial.

As negociações foram retomadas em Novembro de 1281, quando Dinis nomeou os embaixadores portugueses para fazerem o casamento, que se realizou em Fevereiro de 1282, em Barcelona, sem a presença do rei português: Eu Isabel filha do Excelente D Pedro, por graça de Deos illustre Rey de Aragão, faço entrega de mim para muher legitima a vos Dõ Dinis pela graça de Deos Rey de Portugal, & Algarue, e ainda que ausente, mesmo que se estiuereis presente.

A ausência do rei na cerimónia é apenas mais um detalhe, entre outros, que envolvia os rituais de casamento naquele período: No entanto, as bênçãos matrimoniais só foram celebradas na igreja de São Bartolomeu, em Trancoso, em Julho de 1282, onde o rei e os representantes da corte esperavam a infanta Isabel.

Depois que ali chegarom, acharom o infante D. Afonso de Portugal, irmão delrey D. Dinis, e o conde de Portugal a que diziam D. Gonçalo, e outros muitos cavaleiros de Portugal e prelados, que ali atendiam a rainha. E, depois que o ifante D. James aqueles achou, tornou-se pera Castela e leixou a rainha aaqueles portugueses; e chegarom com ela aa vila de Trancoso, e ali chegou elrey D. Dinis e ali se fezerom as bodas e deu elrey oficiaes e terras aa rainha.

Estabelecidos os compromissos entre os dois reinos, o casamento do rei português com a Infanta aragonesa necessitava ainda, para ser finalmente reconhecido pelos súditos do reino, ser legitimado pela Igreja, questão esta que não seria resolvida de imediato devido às constantes lutas entre a Coroa e a Igreja. As inúmeras tentativas de assentar um acordo com o papado para o restabelecimento das práticas religiosas no reino era um legado que o pai de dom Dinis, Afonso III (1248-1279), havia lhe deixado. Segundo Mattoso, as rivalidades entre os monarcas da primeira dinastia portuguesa com o clero local estão relacionadas também, à tentativa dos reis de estabelecer um limite aos poderes senhoriais da nobreza e do clero sobre as terras da coroa. Embora os reis procurassem se acercar de uma nobreza que lhes desse apoio, procuravam, por meio dos laços de vassalagem, um grupo limitado formado pelos mais poderosos; o que não excluía a rivalidade. Essa tentativa de equilíbrio, realeza/nobreza, alterou-se desde o reinado de Afonso II (1211-1223) devido à prematuridade da afirmação do poder régio contra os privilégios dos poderes senhoriais, fossem eles do clero, das ordens militares, da alta ou da pequena nobreza. A conjuntura política do reino ficaria mais delicada ainda no governo de Sancho II (1223-1248). Esse rei, diferentemente do seu antecessor, não conseguiu travar o avanço dos poderes senhoriais sobre as terras do reino e sobre os poderes da Igreja local, situação que levaria, a partir de 1245, os descontentes do reino e os bispos portugueses, com o apoio do papa Inocêncio IV (1243-1279), a destituí-lo do poder e nomear seu irmão, Afonso III, como substituto ao trono. Ainda segundo Mattoso, os contactos que Afonso III havia feito com o desenvolvimento da centralização monárquica foram postos em prática pelo rei francês Luis IX (1226-1270), no tempo em que esteve naquele reino como conde de Bolonha. Isso possibilitou-lhe, após a guerra civil (1245-1248) e a morte do rei Sancho II, reorganizar a administração do reino sujeitando clero e nobreza, tanto na esfera da política fiscal como da judicial. Facilitado pela decadência das antigas linhagens, dom Dinis avançaria, ainda mais, a política de centralização do reino por meio do aperfeiçoamento da justiça e da recuperação dos direitos senhoriais sonegados pela nobreza, por meio de repetidas inquirições». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

 JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

domingo, 13 de novembro de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «E, quando esta rainha dona Isabel naceo, andava a era de Cesar em mil e III e nove anos, e, porque a madre delrey D. Pedro fora filha delrey d’Onglia e fora irmãa de Santa Isabel (tia da Rainha Isabel de Portugal canonizada no ano de 1235, pelo Papa Gregório IX)…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) António Vasconcelos também aceita a data de 1270, porém esse autor não indica o dia e o mês do nascimento da Rainha Isabel. Já José Agostinho, Le Brun e Simas Alves Azevedo afirmam que a rainha Santa Isabel nasceu no ano de 1271. Na ausência de um documento oficial que determine categoricamente a data do nascimento da Rainha Isabel, os estudos contemporâneos oscilam entre 1269 e 1271, ou seja, adoptam uma data aproximada com base nos cálculos aplicados para identificar a época exacta em que o texto anónimo Livro que fala da boa vida que fez a raynha de Portugal, dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte havia sido escrito. Nesse documento, a data do nascimento da infanta está registada desta maneira:

E, quando esta rainha dona Isabel naceo, andava a era de Cesar em mil e III e nove anos, e, porque a madre delrey D. Pedro fora filha delrey d’Onglia e fora irmãa de Santa Isabel (tia da Rainha Isabel de Portugal canonizada no ano de 1235, pelo Papa Gregório IX) foy posto a esta rainha de Portugal nome de Isabel. E em tempo que ela naceo avia grande descordia antre elrey D. James e o ifante D. Pedro, seu filho, padre desta Dona Isabel, em tanto que elrey nom queria veer seu filho D. Pedro, nem alguu de seus filhos, pero que, em vivendo elrey D. James, eram já todos os que ouve nados, e escolheo esta Dona Isabel, e criava-a e amava-a muito, dizendo por vezes dela, que sa criada e neta avia de seer a melhor molher que saira da casa de Aragom; e foy em aquel tempo aviido do ifante D. Pedro com elrey D. James, seu padre.

Apesar das controvérsias quanto à data do nascimento da Infanta Isabel, é possível afirmar que, quando ela nasceu, o trono aragonês era ocupado por seu avô paterno Jaime I, o Conquistador (1213-1276), esposo de Violante da Hungria. Isabel era filha do Infante Pedro, herdeiro do trono aragonês, futuro Pedro III, o Grande (1276-1285) e de Constança Hohenstaufen, filha de Manfredo, rei da Sicília e de Nápoles. Nascido em Valência, no ano de 1240, o pai da Infanta Isabel foi o primeiro filho de Jaime I e de sua segunda esposa, Violante. Com a morte da mãe, no ano de 1251, a formação do Infante Pedro ficou sob a responsabilidade de nobres catalãs, o que lhe proporcionou uma educação literária trovadoresca e, principalmente, político-militar. Tal educação lhe valeu a confiança por parte do rei Jaime I, ao nomeá-lo, em 1257, como Procurador Geral do principado da Catalunha. Com a morte de Afonso, em 1262, único filho que Jaime I havia tido com sua primeira esposa, Leonor de Castela, o Infante Pedro III, transformou-se no único herdeiro do trono do Reino de Aragão, Valência e do Condado de Barcelona, excepto Maiorca e a Sardenha que ficou para o seu irmão menor, Jaime, futuro Jaime II de Maiorca.

Ao morrer Jaime I, em 1276, Pedro III já contava com 30 anos de idade e muita experiência na política e na guerra, pois como Príncipe da Catalunha havia realizado importantes contactos com seu cunhado Alfonso X (1252-1284) de Castela, Felipe III (1270-1285) da França, viúvo da irmã Isabel e com os muçulmanos, que ocupavam diferentes posições geográficas no mediterrâneo. A rainha teve cinco irmãos legítimos: Afonso III (1285-1291), sucessor de Pedro III; Jaime II (1291-1327), rei da Sicília e, depois, de Aragão, após a morte de Afonso III; Fradique ou Frederico III (1295-1337), também rei da Sicília, Pedro, que morreu sem descendentes e Violante, que se casou com Roberto, rei de Nápoles.


In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

terça-feira, 17 de maio de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Porém, em ambos os casos, segundo esse mesmo direito, o matrimónio tornar-se-ia indissolúvel quando consumado por união carnal entre os esposos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

Alianças Políticas na Península Ibérica nos Séculos XIII – XIV

«(…) O direito canónico vigente em Portugal durante o período em que este trabalho se insere, reservava como elemento essencial para a concretização de uma aliança matrimonial, a decisão final aos próprios cônjuges de se aceitarem por marido e mulher e partilharem uma vida comum. Tal disposição poderia ser expressa por palavras de presente, arranjo que efectivava o compromisso prontamente ou por palavras de futuro, que constituía exclusivamente uma promessa de casamento (noivado) e implicava um compromisso com direitos e deveres entre os envolvidos, no entanto ele só seria efectivado quando o casal concretizasse os acordos por meio das palavras de presente. Porém, em ambos os casos, segundo esse mesmo direito, o matrimónio tornar-se-ia indissolúvel quando consumado por união carnal entre os esposos.

A segunda situação, palavras de futuro, foi muito comum entre os reinos peninsulares. Por meio dessa prática, reis e rainhas serviram-se muitas vezes de seus filhos, ainda impúberes, para realizar alianças matrimoniais como uma prerrogativa de materialização de acordos políticos. Neste sentido, as alianças matrimoniais realizadas entre as monarquias da Península Ibérica durante a Idade Média eram acontecimentos que ultrapassavam as solenidades jurídicas e religiosas e compunham, além de uma liturgia, uma questão política. Na configuração de uma nova família, essa ocorrência ganhava mais importância ainda quando duas casas reinantes procuravam concretizar novos acordos de cooperação económica e militar, demarcar novos espaços territoriais, modificar suas alianças políticas, reatar a paz ou iniciar longas crises com a Igreja de Roma, entre outras possibilidades.

No centro das negociações dessas alianças, não eram consideradas a vontade e a liberdade de decisão dos futuros esposos, mas sim as disposições traçadas pelas duas casas régias com o apoio das mais ilustres famílias nobiliárias que também viam nelas um acontecimento ideal para alcançar vantagens económicas e políticas. Nesse sentido, esses acordos possibilitavam igualmente a formação de uma rede de relações amistosas entre os reinos, que afectavam todo o corpo social ao possibilitar a criação de núcleos familiares que traduziam a constituição de uma organização de parentesco que alterava o panorama social e político de toda a comunidade.

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

Não existe unanimidade entre os pesquisadores em apontar com exactidão o dia, o mês ou mesmo o ano do nascimento da infanta Isabel de Aragão. António Silva Pinto afirma que ela nasceu a 11 de Fevereiro de 1270, data também admitida por Cruz Coelho. Vitorino Nemésio assegura que ela deve ter nascido entre o Inverno de 1269 e 1270. António Nogueira Gonçalves, por sua vez, declara que dona Isabel, da casa de real de Aragão, nasceu no ano de 1270, provavelmente a 11 de Novembro». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Outro autor que também estudou a vida da rainha foi Fernando Félix Lopes. Por meio de uma série de artigos publicados entre as décadas de 50 e 60 do século passado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«(…) Outro autor que também estudou a vida da rainha foi Fernando Félix Lopes. Por meio de uma série de artigos publicados entre as décadas de 50 e 60 do século passado, esse autor dedicou-se especialmente aos conflitos entre dom Dinis e o irmão, e dom Dinis e o filho, e a algumas actividades religiosas e políticas da rainha entre outras. Pode-se destacar, ainda, o livro de Mário Domingues, D. Dinis e Santa Isabel, evocação histórica, publicado em 1963. Inspirado por uma leitura marxista, essa obra procura exaltar as realizações de dom Dinis, pois, segundo ele, a lenda em torno da vida da rainha Santa Isabel havia obscurecido a importância do papel político do monarca português: A lenda é demasiada injusta para com o soberano. No transparente intuito de valorizar a santa, tratou de amesquinhar um homem que, no decurso de toda a sua vida, não deu senão provas inequívocas de generosidade e carinho pelas classes desprotegidas. No entanto, com a publicação, em 1987, da obra da historiadora espanhola, Ângela Muñoz Fernández, já é possível conhecer alguns aspectos da vida da rainha Isabel analisados sob o enfoque das contribuições de uma historiografia actualizada e crítica. Neste estudo, a medievalista espanhola analisou diversas composições literárias sobre a rainha Isabel, como exemplo de modelos ético-normativos que a Igreja medieval projectou sobre a figura da mulher. O objectivo deste estudo é realizar uma investigação da figura da rainha Isabel enfocando a sua actuação política e religiosa e não dos milagres que realizou após a morte sobre os quais há farta bibliografia. Nele, a finalidade principal é uma reflexão sobre o papel e a actuação da rainha Isabel nas estratégias políticas da Península Ibérica, no final do século XIII e na primeira metade do século XIV, mais precisamente entre 1280, data provável dos primeiros contatos entre Portugal e Aragão para ajustarem o seu casamento com dom Dinis, e 1336, data da sua morte.

Para tal tarefa, foram selecionadas, além do já citado texto anônimo do século XIV: Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, D. Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte, as Crónicas dos sete primeiros reis de Portugal, as Crónicas de los Reys de Castilla. Além dessas fontes, foram selecionados também testamentos, doações e cartas de autoridades civis e eclesiásticas, publicadas como apêndice documental em diversos estudos sobre o período e, principalmente, um corpus documental composto por correspondências que a rainha Isabel manteve com muitas autoridades da época. Demarcando a temporalidade específica e delimitando as fontes, no primeiro capitulo realizou-se um estudo sobre a importância das alianças matrimoniais como expediente utilizado pelos reinos Ibéricos na tentativa de estabelecer profícuos acordos políticos, principalmente, do significado do casamento da infanta Isabel com dom Dinis para estabelecer uma aliança política entre aqueles reinos. Entendendo a casa régia enquanto um espaço político e cultural que sustentava a sociedade política daquele período, no segundo capítulo foram examinadas as actuações políticas da rainha nos diversos assuntos internos do reino português, mais precisamente seu envolvimento nas divergências entre o marido e o irmão e entre o marido e o Infante herdeiro, Afonso, futuro rei dom Afonso IV, bem como seu empenho na administração de seus bens, nomeação de fiéis servidores e na intervenção directa nas negociações dos casamentos dos filhos bastardos de dom Dinis. No segundo capítulo, também foi feita uma reflexão sobre as acções da rainha, situando-a no seu próprio contexto histórico, ou seja, uma rainha que adicionava aos códigos legislativos da época, os exercícios religiosos franciscanos como forma de governar e conduzir os assuntos internos do reino. No terceiro capítulo, investigou-se a participação da rainha Isabel no envolvimento do reino português diante dos conflitos e dos acordos com o reino de Castela e de Aragão, sobretudo sua participação nas mediações diplomáticas que envolveram os reinos de Portugal, Aragão e Castela. No quarto capítulo, foram discutidas as acções da rainha Isabel depois da morte de dom Dinis, em 1325, dando ênfase à sua actuação política na busca de soluções para os novos conflitos externos envolvendo seu filho, dom Afonso IV, rei de Portugal, seu neto, Alfonso XI, rei de Castela, e seu sobrinho, Alfonso IV, rei de Aragão e ao significado político das aspirações tomadas pela rainha deixadas nas suas declarações testamentárias». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

 JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «… discutiu o desenvolvimento e as implicações político-religiosas do culto à rainha depois do depósito do seu cadáver no mosteiro de Santa Clara de Coimbra»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«(…) A actuação das autoridades religiosas e eclesiásticas para oficializar o culto da rainha deu-se em diferentes datas: em Abril de 1516, ela foi beatificada pelo Papa Leão X; em 1556, o Papa Paulo IV ampliou o culto da rainha a todo o território português; em 1560, foi criada, em Coimbra, a Confraria da Rainha Isabel; em 1612, seu túmulo foi aberto pela primeira vez; em 1625, o Papa Urbano VIII declarou-a Santa; Rei Felipe IV, também denominado III pelos portugueses, elegeu-a Protectora do Reino; em 1677, o corpo da Rainha Santa foi transferido provisoriamente para a capela do novo mosteiro de Santa Clara, no Monte da Esperança; em 1687, o corpo da Rainha Santa foi transferido, com grande solenidade, da capela provisória para o novo convento; em 1691, a Santa foi transferida para o coro alto da Igreja; em 1747, foi publicada a bula áurea da canonização pelo Papa Bento XIV e, em 1755, a Câmara Municipal de Coimbra elegeu a rainha Santa Isabel como Padroeira da Cidade. É importante observar ainda que, o empenho das autoridades constituídas, para canonizar a rainha, contribuiu para a recolha e a preservação de muitos relatos sobre a sua vida, o que colaborou também para a revitalização e a actualização do seu mito e da sua lenda.

Se por um lado, tanto o texto do século XIV, quanto os textos dos séculos XVI e os subsequentes foram importantes para perpectuar os contornos sobre-humanos da rainha, por outro, eles contribuíram, para elevar e transformar os gestos ordinários característicos de uma mulher que pertencia à realeza e que cumpria as funções políticas do seu tempo, em gestos de uma rainha santificada ainda em vida, o que não corresponde ao período em que a rainha viveu. Nesse sentido, esses autores, ao escreverem, pintarem ou esculpirem obras sobre os feitos da rainha Isabel, potencializaram sua vida com eventos extraordinários e essencialmente sagrados, combinando suas realizações políticas em vida com sua lenda e seu mito, ambos construídos posteriormente ao seu falecimento.

Em relação a esse aspecto, as referências sobre Santa Isabel são exemplares, uma vez que, segundo os cronistas e hagiógrafos, depois do casamento, a rainha viveu entre as intrigas da corte, o ciúme das damas, as rivalidades amorosas, as acusações de adultérios que recaíam sobre sua pessoa e a do rei e, principalmente, entre sua fé e suas orações como único meio para solucionar as conturbações políticas porque passava o reino português naquela época. Essas imagens atribuídas à rainha serviram para reforçar ainda mais sua importância como modelo de mulher perfeita, contribuindo para que ela ficasse conhecida pelo povo português, entre outros atributos, como um exemplo de esposa dedicada, de mãe perfeita e uma autêntica heroína, apenas feita de amor, de perdão, de paz e de santidade. Essas imagens ganhariam novos contornos com a morte de dom Dinis, em 7 de Janeiro de 1325. Segundo os cronistas, foi durante esse período de 11 anos em estado de viuvez que a rainha Isabel desempenhou fielmente todas as acções de uma verdadeira santa, ao se recolher no mosteiro de Santa Clara e viver uma verdadeira vida franciscana, empregando todo seu tempo a serviço dos necessitados e dedicando-se aos exercícios de compaixão e de mortificações.

Porém, as referências em relação à vida da rainha e à evolução do seu culto não estão cingidas apenas ao conhecimento da hagiografia. Numa tentativa de superar essa visão, alguns estudos propuseram novas reflexões sobre essa personagem. O exemplo mais clássico é o livro de António Vasconcelos Dona Isabel de Aragão, a Rainha Santa. Publicado em dois volumes e em edição facsimilada, nos anos de 1891 e 1894, essa obra foi pioneira na tentativa de realizar uma leitura isenta do culto à rainha Santa Isabel. Nela, o autor confessaria que não seria seguro remontar seu estudo ao tempo em que ela viveu e, assim começaria por indagar sobre as primeiras manifestações culturais do espírito religioso do povo dirigidas à dona Isabel de Aragão logo após a sua morte. Foi, portanto, a partir dessa premissa que António Vasconcelos desenvolveu sua pesquisa, ou seja, discutiu o desenvolvimento e as implicações político-religiosas do culto à rainha depois do depósito do seu cadáver no mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Uma das primeiras obras que tem por objectivo realizar uma leitura do papel político da rainha Isabel foi realizada por Maria Teresa Lobo Ávila em 1923. Apresentada como tese de licenciatura à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, esse estudo, apesar de a autora destacar alguns episódios da participação da Rainha nos assuntos políticos do reino, carecem, porém, de uma reflexão crítica sobre o significado das acções políticas e religiosas da rainha Isabel». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Apoiando-se num corpus documental de fontes primárias e secundárias formado por cartas, crónicas, bulas e testamentos reproduzidos em edições modernas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«Apoiando-se num corpus documental de fontes primárias e secundárias formado por cartas, crónicas, bulas e testamentos reproduzidos em edições modernas e em edições originais localizadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e nas Bibliotecas da Universidade de Coimbra, esta tese discute a participação da Rainha Isabel de Portugal (1270-1336) nas estratégias políticas da Península Ibérica na Baixa Idade Média. A Rainha Isabel, filha do Rei Pedro III de Aragão (1285-1291), ao se casar com o Rei Português dom Dinis (1279-1325), no ano de 1282, iniciou uma importante acção diplomática como mediadora nas divergências entre o Rei português, cujo anseio era uma política de centralização da monarquia contra parte da nobreza. Esta defendia os privilégios senhoriais e era representado por dom Afonso, irmão de dom Dinis e, depois, pelo filho e futuro Rei de Portugal dom Afonso IV (1325-1357). A Rainha também se notabilizou pelas acções diplomáticas que realizou com reis e rainhas de Castela e Aragão sempre com o objectivo de promover os acordos de paz como uma alternativa aos enfrentamentos bélicos, principalmente por meio da realização de alianças matrimoniais dos filhos e dos netos entre essas mesmas casas régias. Consciente da importância do seu papel, a Rainha manteve uma intensa correspondência por meio de cartas e mensageiros de sua confiança com os reinos peninsulares e autoridades eclesiásticas. Também, como uma personalidade franciscana da Baixa Idade Média, actuou intensamente nos projectos sócio-religiosos ao promover a distribuição de esmolas e construção de albergues, orfanatos, hospitais e casas para abrigar religiosos. Como viúva, dividiu as suas acções entre o exercício religioso e a diplomacia para solucionar as divergências políticas entre Portugal, Castela e Aragão». In Resumo

«A vida da rainha Isabel, esposa do rei de Portugal dom Dinis (1279-1325) pode ser conhecida por meio de uma vasta literatura construída ao longo de muitos séculos. No entanto, grande parte dessa literatura pertence ao género hagiográfico e, como é próprio desse género literário, as acções dessa rainha, resignação diante das aventuras extraconjugais do marido, acolhimento afectuoso dos filhos bastardos do rei, atos de benevolência para com os pobres, empenho filantrópico na construção de albergues e de hospitais para leigos e religiosos, interferência providencial para estabelecer concórdias nas divergências internas do reino e nas conturbadas e delicadas relações políticas dos reinos ibéricos, entre outras, são rememoradas como atributos de uma rainha extraordinária que, muitas vezes, solucionou parte deles por meio de diversos milagres. Tais referências hagiográficas que recordam os feitos da rainha não ficaram circunscritas apenas aos relatos literários ou religiosos, pois a repercussão em torno de seus actos miraculosos alimentou também outras manifestações culturais, como a pintura e a escultura, contribuindo, para que sua imagem de santidade sobrevivesse como representação plástica na memória cristã do povo português até aos dias de hoje.

Uma das primeiras obras literárias que difundiu a figura da rainha como um ser excepcional e que, de certa maneira, continua exercendo forte influência como paradigma da santidade de Isabel é a obra intitulada Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte. De autor desconhecido, esse texto, do século XIV, escrito provavelmente em seguida à morte da rainha, mostra, além das actividades da Santa nos assuntos políticos e religiosos, a posição por ela ocupada no reino português, os momentos finais da sua vida, a jornada dramática do seu corpo de Estremoz para o Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra e, sobretudo, seus milagres. Trata-se, portanto, de um texto que fundou uma tradição literária sobre a vida da rainha Isabel ao ressaltar e perpetuar imagens supra-humanas. Inspirados principalmente nos relatos do texto hagiográfico do século XIV, diferentes autores dos séculos XVI e XVII retomaram, reproduziram e difundiram outras versões sobre a história de vida da rainha. Essa ocorrência não é mera casualidade, principalmente se se considerar que essas obras literárias foram elaboradas no contexto em que os poderes político e eclesiástico da época envidaram as primeiras iniciativas para concretizar a canonização da rainha Isabel». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

 Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Mujeres Peninsulares entre Portugal y España. Maria Isabel B. Carneiro. «… con otra hija de los Reyes Católicos, la jovencísima Doña María, que sale de España en 1500. El casamiento se celebra en Alcácer do Sal, a 30 de octubre»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Recién llegada a la Corte, la nueva consorte sufre el agravio de que, indiferente a su belleza, el marido pone los ojos en una de sus damas, la portuguesa Guiomar de Castro. Tal rechazo bien podría haber sido la causa de que su hija homónima, nacida en 1462, tuviera por padre a Beltrán de la Cueva. Sea como fuere, el, quizás injustificado, apodo de Beltraneja supuso para la infortunada princesa ver en el trono que le pertenecía a la hermana de su padre. Caro pagó las liviandades de una madre infeliz! Lo cierto es que ni el propio Alfonso V de Portugal pudo ayudar a su sobrina; y la madrileña Doña Juana murió en Lisboa el año 1530, sin renunciar a su condición de reina de Castilla. La madre había dejado de existir en Madrid el 13 de junio de 1475 (se retiró a vivir ejemplarmente en el convento de San Francisco en un cuarto sobre la portería. En 1475, es la primera reina que en Madrid acaba sus días, los Reyes Católicos le hicieron un rico mausoleo de alabastro fino sobre cuya tumba nos informan Quintana, León Pinelo, Argote de Molina, en sus conocidas historias locales. Marañón recuerda que a ella se le debe la introducción del guardainfante para ocultar sus concepciones ilegítimas). En 1465 había ido a Portugal en infructuoso viaje para pedir ayuda contra los nobles que habían proclamado rey al Infante Don Alfonso, en Ávila.
La infanta española Isabel, hija de los Reyes Católicos, sale de España en 1490, para casarse con el Príncipe heredero D. Alfonso, hijo de los reyes de Portugal Juan II el Magno y Doña Leonor. Don Alfonso muere en Santarem el 12 de julio de 1491. Esta muerte y el asesinato de Juan II, en 1495, determinan el acceso al trono de Don Manuel I el Afortunado, que decide tomar por esposa a la infanta viuda. El contrato se firma a 30 de septiembre de 1496; Isabel entra de nuevo en Portugal al año siguiente. Previsiblemente, la providencia parecía destinarla a un papel más importante que el de reina regente. La prematura muerte de su hermano Don Juan, en 1497, sin descendencia, la había convertido en heredera del trono de Castilla y posiblemente de Aragón; cuando menos, su hijo Don Miguel ceñiría las tres coronas. A efectos de este reconocimiento, vuelve a España para verse con sus regios padres. La parca implacable actúa de nuevo y cambia el rumbo de las dinastías portuguesa y española. Isabel muere de parto en Zaragoza, en agosto de 1498; dos años después, el infantito Don Migue.
Manuel I necesita descendencia. Nada mejor que cubrir la vacante con otra hija de los Reyes Católicos, la jovencísima Doña María, que sale de España en 1500. El casamiento se celebra en Alcácer do Sal, a 30 de octubre.

Raras vezes na história dos povos, uma árvore genealógica produziu tantos ramos que se entrelaçaram num sistema de alianças que cobriu totalmente o século XVI. Tem interesse a sua enumeraçao, porque a crise dinástica de 1580 radicou na sucessao dos filhos de D. Manuel e D. María, cuyos herdeiros invocaram entao os mais hábeis argumentos para a obtençao do trono vago. Por isso, a descendência d’O Venturoso merece ser considerada pelas implicaçoes que teve, nao apenas no quadro nacional, mas ainda na história europeia do tempo.

De los siete vástagos que procrea este matrimonio, dos de ellos, Don Juan, el heredero, e Isabel se destinan respectivamente a Catalina y Carlos, hijos ambos de Felipe el Hermoso y Juana la Loca. La vida de la reina Doña María fue breve, pero fructífera e intensa. Quizás convenga también a ella el apodo de afortunada: le cupo en suerte participar de uno de los períodos más gloriosos y prósperos para la historia de Portugal, política y culturalmente. Se vió inmersa en la estética del fausto, una de cuyas plasmaciones artísticas la constituyó el arte manuelino… Digamos que, cuando menos, fue una espectadora privilegiada y a la vez protagonista de lo que en el argot teatral se llama un papel bombón». In Maria Isabel Barbeito Carneiro, Mujeres Peninsulares entre Portugal y España, Doctora en Letras por la Universidad Complutense de Madrid, Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 0, 2003.

Cortesia daPenínsula/RevistaEIbéricos/JDACT

Mujeres Peninsulares entre Portugal y España. Maria Isabel B. Carneiro. «La Infanta Juana, hija de Duarte de Portugal y de Leonor de Aragón (nació en Almada (Portugal), adonde se había trasladado la familia real huyendo de la peste. Hija póstuma de D. Duarte…»

 Cortesia de wikipedia e jdact

«Desde nuestra atalaya del siglo XXI echamos una mirada retrospectiva y las vemos intercambiarse por diversos espacios geográficos de la piel de toro, dejando superpuestas sus huellas femeninas, que diferenciamos bajo el gentilicio de portuguesas o españolas. En realidad, mujeres peninsulares que dejaron su impronta positiva o negativa, como corresponde a la espécie humana. Mi modesto homenaje al Profesor José Adriano Carvalho, consiste en mostrar un reducido a la vez que representativo elenco de mujeres vinculadas a nuestra historia peninsular. Protagonistas de situaciones y actuaciones de diversa índole, sus trayectorias fueron muy diferentes. Algunas, las menos, regresaron a su tierra natal; otras, nunca volvieron a pisar el suelo patrio. Este muestreo, por tanto, lo constituyen mujeres que representan la varia y compleja condición humana, cuya respuesta ante un mismo estímulo es imprevisible. Al hacer recuento de su bien o mal obrar, a veces se resalta la nacionalidad como un rasgo caracterizador. Experimentarían ellas en vida esos prejuicios? A mi modo de ver, las divisiones político-geográficas establecidas por el hombre, no implican una idiosincrasia peculiar; si acaso, pueden influir los factores geográficos determinados por la naturaleza.
En general, las féminas, desde el más bajo al más alto nivel social, fueron objeto de tráfico, moneda de cambio, para satisfacer intereses de todo tipo. Los enlaces dinásticos supusieron un continuo trasegar, no sólo de las mujeres destinadas a reinas consortes sino también de las que éstas llevaban consigo a su servicio. Emigrantes forzosas, presas de saudade, unas; otras, de morriña, cabe considerar más afortunadas a las que no salieron de la Península. Quedan atrás muchas de ellas cuando, en agosto de 1447, Isabel, hija del Infante Don Juan y de Isabel de Barcelos, deja Portugal para unirse al rey Don Juan II de Castilla. La memoria de esta Isabel aparece ensombrecida por dos actuaciones horrendas: la muerte de Don Álvaro de Luna, su mediador matrimonial (el aciago fin de este valido parece responder a las intenciones del propio rey; quizás lo que deba atribuirse a su esposa Isabel sea la maquinación, por cuanto, según refieren las crónicas: como el Rey Don Juan ya tuviese gran desamor al Maestre de Santiago (…), dijo a la Reina que le dijese qué forma le parecía que se debía tener para que la prisión del Maestre se pusiese en obra) y el atroz tormento que inflige a Beatriz Silva, pariente suya selecionada en Portugal para formar parte de su séquito en calidad de dama. Quizás ambos crímenes contaran con el estímulo de una exacerbada celotipia. Se achaca la demencia que acusó tras la muerte de su marido a posibles remordimientos; en realidad, la celotipia ya es síntoma de patologia demencial. Lo paradógico es que la perversión de esta reina engendró una santa y, su vientre, la soberana más paradigmática de España: Isabel la Católica. A ella correspondió cerrar los ojos de tan turbulenta madre el 15 de agosto de 1496, en Arévalo.
En cuanto a Beatriz Silva, hija de Ruy Gómez de Silva e Isabel de Meneses, hay dudas sobre si nació en Ceuta, siendo su padre Alcaide de la ciudad hacia 1424, o en Campo Mayor, de donde también lo fue más adelante. Ejemplo de familia itinerante entre España y Portugal, lo cierto es que Beatriz pasó la infancia y parte de su juventud entre ambas poblaciones, hasta que se traslado a Castilla, como queda dicho, con la temible reina Isabel. A partir de entonces, ya permaneceria en España para siempre, extendiéndose su memoria universalmente, perpetuada en los altares y a través de una nutrida descendencia de concepcionistas franciscanas. No procede que nos detenhamos ahora en la biografía de esta santa; pero sí quiero reflejar una anécdota que relatan las Crónicas de Fray Marcos de Lisboa, al referirse a su huída de la Corte camino de Toledo para refugiarse en el Monasterio de las Dueñas de Santo Domingo el Real.

(…) En este camino fue confortada por el Señor con otro aparescimiento, y oyó que la llamaban en lenguaje Portugués, y volviéndose a ver quién la llamaba, vio venir dos frailes de S. Francisco.

Estos frailes, nada menos que Francisco de Asís y Antonio de Padua (mas bien habría que decir de Lisboa),

saludáronla con palabras de mucha consolación, y no sólo le quitaron todo el temor, y angustia de su alma, mas entre otras muchas palabras le dijeron que fuese muy segura y cierta, que con el favor de la madre de Dios sería ella madre de muchas hijas, muy benditas, y nombradas, y estimadas en el mundo.

La Infanta Juana, hija de Duarte de Portugal y de Leonor de Aragón (nació en Almada (Portugal), adonde se había trasladado la familia real huyendo de la peste. Hija póstuma de D. Duarte, se educó con su madre en Toledo); por ende, hermana de Alfonso V de Portugal, es obligada a contraer matrimonio con Enrique IV de Castilla, que había fracasado en sus primeras nupcias con Blanca de Navarra. La boda se celebra en Córdoba el 21 de mayo de 1455». In Maria Isabel Barbeito Carneiro, Mujeres Peninsulares entre Portugal y España, Doctora en Letras por la Universidad Complutense de Madrid, Península, Revista de Estudos Ibéricos, nº 0, 2003.

Cortesia daPenínsula/RevistaEIbéricos/JDACT

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A Escrava de Córdova. Alberto S Santos. «Convencido de tais profecias, o rei Afonso III enviou, então, um emissário a Córdova propondo a paz ao califa Muhammad I»

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(…) Múnio era conhecido pelo cognome o Gasco,  por ser oriundo da Gasconha e ter chegado, anos antes, às terras de Anégia, nas margens do Douro, que apresurou para si. O próprio rei se apressou a outorgar-lhe qualidade de governador, interessado no estabelecimento da sua autoridade na fronteira com os mouros. No final do conciliábulo, solicitou ao abade Rosendo uma audiência a sós. O scriptorium do mosteiro acolheu-os, dando-lhes a privacidade de que necessitavam. Ali se encontravam vários livros, o orgulho daquele ancião. Uns, trazidos pelos moçárabes andalusinos das oficinas livreiras de Córdova; outros, pelos peregrinos de santiago; outros ainda recolhidos com muito zelo pelo abade, durante as inúmeras viagens feitas ao longo da sua vida, como era o caso das obras de padres antigos oriundas de França e de Itália. Viam-se também livros de Isidoro, Leandro, Ildefonso, Taio e Beda, o Venerável.
O governador de Anégia, um dos poucos nobres que, na idade juvenil, aprendera a ler num mosteiro, fixou a sua atenção numa das secções da biblioteca daquele que fora, em tempos, bispo das dioceses de Dume-Mundoñedo e de Santiago. Encontravam-se ali separados livros que o conde não contava ver, alguns deles de que nem sequer suspeitava existirem. Ricamente encadernados, exibiam-se uma Crónica Moçárabe, uma Crónica Profética, uma Crónica de Afonso III, um livro de João Toledo, uma cópia do Libellus de Antichristo, de Adson de Montierender e uma edição de Comentários ao Apocalipse, do Beato de Liébana, entre outros livros que Múnio não conseguiu identificar. Abade... Que estranhas obras se encontram aqui... Interessais-vos, por acaso, por algumas das ideias que já ouvi..., de que o mundo vai acabar...?! Um sorriso aberto pairou, durante algum tempo, nos lábios daquele ancião já de costas curvadas pelo peso dos anos, enquanto as suas mãos trémulas acariciavam as lombadas dos seus amados livros.
Vejo que és muito perspicaz, meu filho. De facto, tenho estado a recolher informações sobre essas questões. Estou preocupado com algumas correntes que apregoam que o fim dos tempos está próximo. Por isso, ao longo dos anos, tenho coleccionado os livros que têm tratado esse assunto. E que dizem eles? Bom..., muitas coisas... Já que estás interessado no tema, senta-te nesse escabelo e escuta, que eu resumo-te o essencial, respondeu-lhe o venerando abade, dirigindo-se em passo cansado para o topo de uma mesa quadrada feita em madeira de carvalho, onde se sentou em frente ao anegiense. Não era aquela a razão por que Múnio pretendia falar a Rosendo, mas ficou muito entusiasmado por poder receber os ensinamentos daquele sábio vivo.
O Bispo Julião de Toledo dedicou-se à elaboração de laboriosos cálculos sobre o final dos tempos. Com a chegada dos muçulmanos e de algumas pestes ao nosso território, os cristãos moçárabes começaram, por sua vez, a preocupar-se com o fim da dominação dos infiéis. Por isso, na sua Crónica Moçárabe previa-se que no ano 6000 da criação do Mundo, o fim da sexta e última idade do Mundo, que corresponde ao ano 800 depois de Cristo, os muçulmanos seriam expulsos destas terras. Também o Beato de Liébana, que viveu na segunda metade do século VIII, acreditava que a Parusia ocorreria nessa ocasião, como se vê nos seus Comentários ao Apocalipse. Este livro está ilustrado com várias iluminuras e desenhos retratando a sua visão das convulsões e catástrofes que antecederiam o regresso de Cristo, no final dos tempos. Como tal não aconteceu, o tema foi retomado no ano 883, através da Crónica Profética e da Crónica de Afonso III, também elas escritas por moçárabes. Estes assinalaram o ano seguinte como aquele em que terminaria o castigo dos Godos pelos seus pecados e a consequente expulsão dos árabes. Convencido de tais profecias, o rei Afonso III enviou, então, um emissário a Córdova propondo a paz ao califa Muhammad I e solicitando autorização para trazer as relíquias de Santo Eulógio e de outros mártires moçárabes para Oviedo». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A Escrava de Córdova. Alberto S Santos. «… exausta e aliviada, enquanto se recompunha. Não..., não pode ser!... Parece... Parece ele! Terá sido ele quem me salvou?»

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(…) O soldado dominava bem aquela técnica. Já usada noutras situações similares. Não demorou muito tempo até lograr despir a clériga e colar-se às suas costas. A jovem sentiu o mundo ruir: tudo aquilo em que acreditara desabava ingloriamente. Não conseguiria sobreviver a tal ultraje: ou morreria durante o acto ou matar-se-ia de seguida. Talvez Jesus não tivesse sido correcto para com ela ao dar-lhe tão triste sina, depois de toda a dedicação que lhe votara. Ainda se lembrou das suas últimas palavras na cruz: pai, porque me abandonaste? E julgou compreendê-las. A túmida virilidade do soldado fez-se sentir ainda dentro das suas vestimentas guerreiras. É, o fim!, pensou, benzendo-se mentalmente, enquanto era coberta pelos primeiros lampejos do sol minguante que conferiam tonalidades ocres àquele final de dia. Subitamente, e nada o fazendo prever, todo o corpo do árabe tombou, desamparado, antes de ter conseguido concretizar os seus intentos predadores e sem que Ouroana tivesse plena consciência do que estava a acontecer. O espírito parecia-lhe estar já fora do corpo.
Os seus olhos fitavam as águas límpidas do Sousa que, indiferentes, corriam dolentemente para o Douro. Porém, a sua quietude começava a ser perturbada por uma insólita cena: os peixes fugiam nervosamente de uma mancha vermelha que penetrava no rio, cada vez com mais intensidade. Ouroana ainda julgou estar a sua pureza a ser absorvida pelas cristalinas águas. Mas não! A virgindade desflorada nunca seria suficiente para corar o ribeiro de tanto carmesim. Só então reparou que o guarda, por cima de si, se encontrava completamente inanimado: a mão já não tapava a sua boca e era precisamente das costas daquele corpo que jorrava o líquido que tingia o rio e deixava os peixes em alvoroço. Ele jazia morto e ela permanecia imaculada! Com dificuldade, conseguiu livrar-se do cadáver do mouro que, de cabeça para baixo, ocupava o lugar onde antes se encontrara o dela. Nas suas costas, bem cravada, luzia a adaga que tão eficazmente o atingira. Meu Deus, enviaste o meu anjo protector!, murmurou, exausta e aliviada, enquanto se recompunha. Não..., não pode ser!... Parece... Parece ele! Terá sido ele quem me salvou?

Lua Cheia. Mosteiro de São Salvador de Celanova, Ourense, Galiza. Ano de 976
Múnio Viegas, o governador da Civitas (espécie de distritos militares criados pelo rei Afonso III das Astúrias, 866-910, dependentes de um centro fortificado, sede do poder condal, onde se coordenavam as estratégias de defesa, se cobravam os impostos e se praticava a justiça em nome do rei) Anégia, acompanhado de outros influentes nobres galegos e portucalenses tinha-se dirigido ao Mosteiro de Celanova para solicitar os bons ofícios do seu abade, Rosendo Guterres, na oposição a Ordonho III, o Rei de Leão. Pretendiam substituí-lo por Bermudo, mais favorável aos seus interesses. A ilustre delegação de magnates vestidos de feiraches, os roupões típicos das terras do Minho, exibindo os compridos cabelos divididos ao meio por uma risca e cortados de forma a deixar uma madeixa cair sobre a testa, era chefiada por Gonçalo Mendes, Conde-Maior de Portucale. Integravam-na ainda Gonçalo Nunes, que, à boca pequena, se dizia ter sido o responsável pela morte do rei Sancho I, e Rodrigo Vasques». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

sábado, 11 de março de 2017

A Escrava de Córdova. Alberto S. Santos. «A fome e a sede começaram a apertar. O guarda fez sinal aos prisioneiros de que os levaria ao rio para beber»

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Palacioli, Paço de Sousa, Anégia, ano 997
«(…) Depois da inspecção, o general chamou para junto de si um punhado de homens que, quer pelo aparelho das montadas, quer pelo aspecto mais distinto, deveriam ter funções de comando. Apesar da distância, Ouroana conseguiu perceber pelas conversas que a missão destinada àqueles homens era seguir em direcção à cidade do Portucale (actual cidade do Porto) e que a restante parte do exército aguardaria, a curta distância, junto a um vau do rio Sousa. Esta última assegurava a protecção dos que punham o mosteiro de Paço de Sousa a ferro e fogo. Acorrentem os escravos! Seguirão a pé, na rectaguarda! Destaquem-se quatro soldados para os guardarem!, ordenou, firme, Almançor. De mãos agrilhoadas à frente do regaço e ligadas a cerca de uma dezena de cativos, o grupo de Ouroana era um dos três que, ferozmente custodiado, partia daquele cenário de terror. O guarda que a vigiava era um soldado de meia-idade, cuja participação em muitas batalhas se denunciava pelas vincadas cicatrizes gravadas na face, na testa e no pescoço, bem como pelo ligeiro coxear da perna esquerda. Mal a marcha foi iniciada, Ouroana pressentiu-lhe um estranho sorriso por entre os dentes podres. O olhar, húmido e libidinoso, denunciava-lhe os pensamentos. De facto, estava convencido que havia chegado a sua sorte. E que sorte! Nunca imaginara encontrar ser tão inquietante e atraente à face da terra e logo à sua inteira disposição: apenas no Paraíso, e depois de ter participado na Jihad, tal lhe parecia possível.
A turba seguiu pelas margens do Sousa até se confundir com os estandartes da outra parte do exército. Atrás das três filas de cristãos agrilhoados que encerravam a comitiva, apareceu um batalhão de ginetes comandado por outro jovem esbelto, mas forte, de barba rala e aparentando cerca de vinte anos. Ao aproximar-se das tropas estacionadas mais à frente, Ouroana percebeu a realidade: quaisquer que fossem os alvos de Almançor, só podia rezar pelas suas almas. A temível máquina de guerra cordovesa chegara àquele local, depois de destruir o Mosteiro de São Pedro de Lardosa e de sitiar o Castelo de Penafiel. Ambas as facções tomaram as posições já definidas e mais que conhecidas pelas tropas. Os três grupos de cativos, permanentemente vigiados, ocupavam uma zona marginal da falange de guerra, enquanto o sol queimava sobre as suas cabeças. A fome e a sede começaram a apertar. O guarda fez sinal aos prisioneiros de que os levaria ao rio para beber. Fê-los sentar em círculo e percorrer depois, um a um, os cerca de cinquenta passos que separavam aquele local de um salgueiral, junto a um meandro do rio que dava protecção visual a quem lá se encontrasse. A noviça estranhou que, não sendo a última do grupo, o soldado a deixasse para o fim. Ao caminhar em direcção ao rio, começou a suspeitar do seu ofegar mais acelerado e do renovado brilho no olhar. Junto ao leito, o guarda apontou para a água e repetiu o ritual que havia cumprido com os anteriores. Como julgava que, à semelhança dos demais cativos, não seria entendido, colocou a sua mão em concha e simulou levar a água à boca.
Bebe, infiel!, disse, ansioso, na sua língua. Quando Ouroana apanhou a água que lhe mataria a sede atroz, o guarda tomou-lha e virou-a ao contrário. A jovem adivinhou-lhe a lascívia no cínico sorriso que se confirmou quando, pela segunda vez naquele dia, o metal de uma espada lhe atrapalhou a respiração. A tensão já não lhe permitiu compreender as palavras do agareno, ao mesmo tempo que lhe fazia sinal para se deitar: vais ser minha, cabra infiel! Vou possuir-te aqui mesmo! A sua cabeça sacudiu-se automaticamente para trás, repelida pelo cheiro repugnante que saía daquela boca de rala e apodrecida dentadura, ao mesmo tempo que na sua mente passava um rodopio de pensamentos desconexos. Preferia morrer a ser violada. Enquanto entrevia o seu Mosteiro tornar-se um fio no horizonte, a velocidade do seu pensamento levava-a até ao sonho que a fizera acreditar que era portadora de uma missão no mundo para atingir a perfeição, a salvação e, assim, alcançar o Paraíso. Será que Deus lhe pedia que se sacrificasse, deixando a sua pureza ser trespassada pelo infiel? Pretenderia Ele que se opusesse, colocando fim à vida antes de ser violada, demonstrando ao muçulmano, através da sua auto-imolacão, de que têmpera e convicção são feitos os verdadeiros crentes?
No meio dessa vertigem, o árabe arrumou as suas vestes e, com vista à profanação, colocou-se por detrás de Ouroana, agarrando-a pelo pescoço. Encostou-lhe a espada ao ventre e obrigou-a a ajoelhar-se. De seguida, levou o dedo indicador ao nariz: não queria barulhos inconvenientes. A jovem sentiu, então, brotar de dentro de si uma onda de energia que a levou a lutar com todas as suas forças. Enquanto o soldado a forçava a deitar-se de barriga para baixo, esbracejou, esperneou, mordeu-o e acotovelou-o. Não obstante, o agareno conseguiu imobilizá-la e atar-lhe as mãos com a corda que, premeditadamente, havia trazido consigo. Desesperada, gritou por socorro. De imediato, com a sua mão esquerda, o guarda tapou-lhe a boca e, com a direita, despojou-a das suas vestes, restos do hábito que vestira de manhã, quando lhe haviam chegado os sinais daquele imprevisto alvoroço». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A Escrava de Córdova. Alberto S. Santos. «Almançor fez avançar o seu alazão até junto do primeiro dos monges ajoelhados ao longo do ribeiro e fez-se passar lentamente em frente de cada um deles. Parava junto de alguns cativos»

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Palacioli, Paço de Sousa, Anégia, ano 997
«(…) De facto, Muhammad Abiamir, o seu verdadeiro nome, ocupava, desde 978, o cargo de hajib, o primeiro-ministro dos Omíadas. Havia conseguido a sua primeira importante vitória como comandante militar em 977, quando invadiu com sucesso o Reino de Leão e, a partir de então, passou a aterrorizar todos os lugares por onde passava com as suas permanentes aceifas estiais. Saqueou, matou, destruiu, pilhou tudo o que encontrara pela frente, com especial gosto pela humilhação e profanação dos santuários da cristandade. Concentrara em si todos os poderes, eclipsando o próprio jovem Califa Hisham II. Todavia, naquele canto mais ocidental da Península, acreditava-se que Almançor não pretendia ali voltar, por estar mais concentrado na zona central de Leão e em Castela. Estava visto que assim não era! Ouroana estranhou a falta de reacção dos monges às ordens do ginete. Só depois compreendeu que apenas ela entendia a língua dos árabes. Para não chamar a atenção sobre si, decidiu, também ela, não acatar de imediato as instruções. Mas a ordem ecoou, de seguida, em perfeita língua romanço, a falada nas terras que acreditavam que Jesus era o verdadeiro filho de Deus, oriunda daquele que detinha a missão de intérprete do exército islâmico. A reacção já foi diferente: a noviça entreviu os rostos aflitos dos seus, ao perceberem quem tinham pela frente. Todos cumpriram com prontidão.
Almançor fez avançar o seu alazão até junto do primeiro dos monges ajoelhados ao longo do ribeiro e fez-se passar lentamente em frente de cada um deles. Parava junto de alguns cativos, especialmente mulheres. Com a espada, fazia-os levantar a cabeça, deixando comentários para o jovem ginete que o seguia a pé. A ponta da espada esfriou o queixo de Ouroana. Tolhida, ergueu a cabeça e viu um negro fulminante afogar o azul celeste que os seus olhos alumiavam no momento. Os de Almançor cresceram de espanto, ao mesmo tempo que um misterioso sorriso se lhe desenhava no rosto. Agarrou os pêlos da sua barba bem aparada com a mão esquerda e, com a direita, levantou a bayda. Calmamente, alisou os seus longos cabelos brancos, voltando a tapar a cabeça, e, com o dedo indicador direito, coçou uma vincada cicatriz que exibia na face. O frio metal desceu ligeiramente e acariciou demoradamente os hirtos seios da jovem indefesa que se escondiam por dentro do hábito que fora preto e branco, mas que, então, mais parecia a vestimenta de um mendigo. A fuligem, as cinzas e a poeira desfiguraram-no completamente. A mão amarelenta do comandante árabe fez subir a espada, roçando ao de leve a orelha direita de Ouroana, até chegar a um ponto acima da sua testa. Baixou-a depois ligeiramente, fazendo-a penetrar por debaixo do véu preto que completava o seu hábito monacal. Rodou o metal até ficar com a lâmina de forma perpendicular ao topo da cabeça e, com um movimento brusco e forte, rasgou-o, permitindo que se soltasse uma longa e encantadora cabeleira loura.
Hmmm... Que belos cabelos! Lembram-me algo ou alguém... Parecem um ondulante campo de trigo do al-Andalus!, gracejou Almançor, deixando-se enlevar pelo agradável efeito que produzia a visão daquela mulher de pele alva e brilhante. Os olhos do árabe abriram-se ainda mais e os seus lábios desceram da posição de sorriso inicial até se tornarem arredondados. Que o Todo-Misericordioso me perdoe!... Mas é muita beleza junta numa infiel! Será certamente uma escrava bem disputada nos mercados de Córdova para o harém de um piedoso e rico muçulmano, asseverou Almançor, ainda intrigado com a fugaz ideia de ter visto algures aquele rosto. Atrás de si, um soldado sorriu, sardónico, enquanto manifestava um concordante aceno com a cabeça e olhava a noviça com mal contida lascívia. As faces de Ouroana tonalizaram a raiva que lhe ardia por dentro. Não evitou uma sequência de pestanejos, nem logrou conter o descontrolo das suas batidas cardíacas. Voltou-lhe ao pensamento aquele sonho que lhe definira a sua missão. E, enquanto via Almançor e o seu sequaz prosseguirem a inspecção aos demais ajoelhados, atravessava pela sua mente um novo turbilhão de ideias e de imagens sem um sentido definido: ora se via a morrer à espada de um árabe e, esvaída em sangue, atirada ao ribeiro, ora fugia com as tropas islamitas no seu encalço, ora salvava o mundo do infiel inimigo, à frente de um exército cristão». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT

A Escrava de Córdova. Alberto S. Santos. «Alguns momentos volvidos, curtos no ciclo do tempo, mas que pareceram intermináveis para todos aqueles desprotegidos colocados ao longo do pequeno curso de água»

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Palacioli, Paço de Sousa, Anégia, ano 997
«Eis que chegou a hora! Acordou abruptamente, muito antes de o sino anunciar a hora de matinas, e levantou-se com aquela convicção bem cravada no seu coração. Ouroana estava certa de que chegara finalmente o momento de cumprir a divina missão para a qual fora chamada. Da sua minúscula cela, situada na parte traseira do Mosteiro, podia ouvir perfeitamente os clamores de dor, de angústia e de espanto dos homens e das mulheres com quem partilhava a vida, e ainda os gritos de guerra entoados numa língua estranha naquela terra, mas que Ouroana tão bem conhecia, a dos seguidores de Maomé. Também não demorou a afligir-se com o cheiro a fumo e a fogo, bem como a tossir a fuligem que entrava pela fresta dos seus austeros aposentos. Aquela imprevista luminosidade alaranjada tinha origem na igreja, onde evoluíam labaredas que rapidamente consumiam a madeira, abalando as estruturas graníticas do mosteiro dedicado a São Salvador, em Paço de Sousa, território de Anégia, Condado Portucalense, no Reino de Leão. Não..., não há qualquer missão... é o fim! Valei-nos, Senhor! Perdoa-me, Cristo, todos os pecados, pois chegou a minha hora!, pensou, ao aperceber-se do inferno que a rodeava, enquanto vestia com urgência o seu hábito. De repente, aquilo para que se havia preparado, a missão que lhe havia sido anunciada com vista à sua salvação, parecia-lhe já uma visão sem sentido.
Afinal não era Cristo aquele homem de branco!, murmurou angustiada. Os pensamentos turvavam-se face ao ruído cada vez mais arrepiante que lhe chegava de todos os lados: os ensurdecedores brados na língua dos árabes misturavam-se com os desesperados choros e lamentos dos irmãos e irmãs do mosteiro e com os tropéis dos cavalos em redor do edifício. A luz labarenta consumia-o, projectando sombras medonhas nas paredes. Como aquela aurora era diferente das outras da sua vida! Mas outra coisa a afligia muito mais: desvanecia-se a certeza que o seu coração detinha desde a Primavera do ano anterior e com a qual acordara momentos antes. Não foi necessário muito esforço para que dois homens magros, de tez morena, nariz adunco, barba comprida e vestidos de preto abrissem a porta da sua cela, apenas segura por um débil ferrolho de madeira. O sinal da cruz não produziu qualquer efeito mágico ou milagroso. As espadas e adagas dos sarracenos mostravam-se bem mais convincentes: rasgavam o sonho que a mobilizara até àquele lugar. Com as armas apontadas ao pescoço, o seu pensamento perdia-se, difuso, na história da sua vida. Deitara-se convicta de que era portadora de uma missão divina, acordara com a angústia da morte à frente dos olhos. Viu-se agarrada pelos dois desconhecidos e arrastada em direcção à porta e ao longo do corredor que a ligava ao acesso aos claustros. Todas as celas se encontravam já abertas. Nas que não se encontravam vazias, jaziam corpos esvaídos em sangue. Estavam mortos ou moribundos por se terem recusado a sair, terem lutado ou, sendo já velhos, liminarmente liquidados para não darem mais trabalho.
Depois de ter sido retirada pela porta principal do mosteiro, Ouroana foi levada para junto do ribeiro (referência ao actual ribeiro de Gamuz, que, na Idade Média, também se veio a designar Egamuz) que passava nas imediações e empurrada para o lugar onde se encontravam já alguns dos trémulos companheiros de infortúnio. O terror estampava-se nos rostos que sobreviveram à pilhagem e ao aço dos musculados soldados. Foram todos postos junto à margem, donde assistiram a um espectáculo hediondo. As chamas, ajudadas pelo calor que já se fazia sentir àquela hora do dia nos finais do mês de Julho do ano 997, consumiam, vorazes, o edifício onde a jovem noviça entregara a sua vida. Um grande estrondo eclodiu, capaz de estancar momentaneamente a algaraviada dos atacantes e de assustar, ainda mais, os aflitos clérigos. O sino da igreja acabava de ser derrubado, para gáudio de alguns exuberantes soldados que ergueram as espadas em direcção ao céu, enquanto invocavam Allâh.
Alguns momentos volvidos, curtos no ciclo do tempo, mas que pareceram intermináveis para todos aqueles desprotegidos colocados ao longo do pequeno curso de água, apareceu, montado num elegante cavalo cor de canela, vestido de finos brocados verdes e com uma bayda metálica a proteger a cabeça, um homem já de idade avançada e que parecia ser o chefe daquele exército. Ouroana olhou em redor e, ainda que por alto, contou cerca de três dezenas de cativos. Percebeu que faltariam outros tantos. Eram os mais jovens que ali se encontravam. Soerguendo a voz, um jovem cavaleiro árabe ordenou na sua língua materna, depois de descer da montada: todos de joelhos para receberem al-sayiid e al-malik al-karima do Califado de Córdova, o grande al-Mansur! O sangue da noviça gelou ao longo de cada uma das tensas veias e artérias. Conhecia melhor que qualquer outro cristão que ali se encontrava a fama do chefe das tropas árabes, aquele que os seguidores de Cristo consideravam o impiedoso e sanguinário Almançor. Assim se chamava por se manter invencível nas batalhas que liderara desde que assumira o comando político e militar das hostes oriundas do Califado de Córdova». In Alberto S. Santos, A Escrava de Córdova, Porto Editora, 2008, ISBN 978-972-004-166-1.

Cortesia de PEditora/JDACT