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quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Assim foi Auschwitz Primo Levi. «… ora descarregando carvão ou sacos de cimento ou outras coisas ainda, todas extremamente pesadas; trabalhos que, naturalmente, eram executados ao ar livre…»

jdact

«(…) Raramente encontrávamos lá dentro alguma fibra de carne. Como bebida, de manhã e à noite era distribuído meio litro de uma infusão de substituto de café, sem açúcar; só aos domingos vinha adoçado com sacarina. Em Monowitz havia falta de água potável; a água que havia nos lavatórios servia só para uso externo, sendo de origem fluvial e chegando ao Campo sem ser filtrada, tornando-se, por isso, altamente suspeita: tinha um aspecto límpido, mas, vista numa camada espessa, parecia amarelada; tinha um gosto entre o metal e o enxofre. Os prisioneiros eram obrigados a tomar duche duas ou três vezes por semana. Esses banhos, porém, não eram suficientes para manter a higiene pessoal, pois a quantidade de sabão que nos era dada era parcimoniosa: era distribuído apenas uma vez por mês, sob a forma de um sabonete de 50 gr. de péssima qualidade. Tratava-se de um pedaço rectangular, muito duro, desprovido de substâncias gordas, mas rico em areia, que não fazia espuma e se despedaçava com extrema facilidade, de modo que após um ou dois banhos estava totalmente consumido. Depois do banho, não havia possibilidade de secar o corpo ou de o enxugar, pois não havia toalhas; e, quando saíam do banho, os prisioneiros tinham de correr nus, independentemente da estação do ano, fossem quais fossem as condições atmosféricas e meteorológicas e a temperatura, até aos seus blocos, onde eram guardadas as roupas.
Os trabalhos atribuídos à grande maioria dos prisioneiros eram manuais e todos muito cansativos, inadequados às condições físicas e a capacidade dos condenados; poucos eram aqueles que ficavam empregados em trabalhos que tivessem alguma afinidade com a profissão ou ofício que exerciam na sua vida civil. Assim, nenhum dos dois autores deste relatório pôde alguma vez trabalhar no Hospital ou no laboratório químico da Buna-Werke, foram ambos obrigados a partilhar a sorte dos seus companheiros e tiveram de se submeter a esforços superiores às suas forças, ora cavando com pá e picareta, ora descarregando carvão ou sacos de cimento ou outras coisas ainda, todas extremamente pesadas; trabalhos que, naturalmente, eram executados ao ar livre, no Inverno e no Verão, sob neve, chuva, sol e vento, sem indumentária suficiente para se protegerem das intempéries e das baixas temperaturas. Esses trabalhos, além disso, tinham de ser efectuados a um ritmo acelerado, sem qualquer pausa, à excepção do intervalo de uma hora, do meio-dia à uma, para a refeição do almoço; ai de quem fosse surpreendido parado ou em atitude de descanso durante as horas de trabalho.

A partir desta nossa rápida descrição das modalidades de vida no Campo de concentração de Monowitz, é possível deduzir-se facilmente quais eram as doenças mais frequentes que atingiam os prisioneiros e as suas respectivas causas. A classificação pode ser feita nos seguintes grupos:

1) doenças distróficas;
2) doenças do sistema gastrointestinal;
3) doenças devidas ao frio;
4) doenças infecciosas gerais e cutâneas;
5) doenças cirúrgicas;
6) doenças de trabalho.

Doenças distróficas. Se do ponto de vista quantitativo a alimentação ficava muito aquém do necessário, do ponto de vista qualitativo era desprovida de dois importantes factores: as gorduras e, principalmente, as proteínas animais, salvo os míseros vinte ou 25 gramas de salame que eram fornecidos duas ou três vezes por semana. Ademais, faltavam vitaminas. Assim se explica como essas e outras tantas carências alimentares eram o ponto de partida daquelas distrofias que atingiam quase todos os prisioneiros, desde as primeiras semanas da sua estada». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.

Cortesia de Objectiva/JDACT

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

A Trégua. Primo Levi. «… pois diante da liberdade nos sentíamos confusos, esvaziados, atrofiados, inadaptados. Mas veio a noite: os companheiros adoentados adormeceram, adormeceram também Charles e Arthur com o sono da inocência…»

jdact e wikipedia

O Degelo
«(…) Tais coisas, mal diferenciadas então, e percebidas pela maioria somente como uma repentina onda de fadiga mortal, acompanharam a nossa alegria pela libertação. Por isso, poucos dentre nós correram ao encontro dos salvadores, poucos caíram em oração. Charles e eu permanecíamos de pé, junto à fossa, com os membros lívidos, enquanto outros punham abaixo o arame farpado; depois tornamos a entrar com a padiola vazia, levando a notícia aos companheiros. durante todo o resto do dia nada ocorreu, coisa que não nos surpreendera, uma vez que estávamos fazia tempo acostumados com isso. No quarto, o beliche do falecido Somógyi foi de pronto ocupado pelo velho Thylle, com visível nojo dos meus dois companheiros franceses. Thylle, pelo que eu sabia então, era um triângulo vermelho, um prisioneiro político alemão, e era um dos velhos do Lager; como tal, pertencera de direito à aristocracia do campo: não fizera trabalhos braçais (pelo menos nos últimos anos) e recebera alimentos e roupas da sua casa. Por essas mesmas razões, os políticos alemães eram raramente hóspedes da enfermaria, onde desfrutavam de diversos privilégios: primeiramente, o de fugir das seleções. Pois, no momento da libertação, ele era o único, fora nomeado pelos SS que fugiam para o cargo de chefe do barracão do Bloco 20, de que faziam parte, além do nosso círculo de doentes altamente infectados, a Secção TBC e a Secção Disenteria. Sendo alemão, levara muito a sério essa precária nomeação. Durante os dez dias que separaram a saída dos SS da chegada dos russos, enquanto todos combatiam a última batalha contra a fome, o gelo e a doença, Thylle fizera diligentes inspecções no seu novíssimo feudo, verificando o estado do chão e das tigelas e o número das cobertas (uma para cada hóspede, vivo ou morto). Numa das suas visitas ao nosso quarto, elogiara Arthur, em virtude da ordem e da limpeza que soubera manter. Arthur, que não compreendia o alemão, e muito menos o dialecto saxão de Thylle, respondera-lhe vieux dégoûtant e putain de boche; apesar disso Thylle, daquele dia em diante, com evidente abuso de autoridade, adquirira o hábito de vir todas as noites ao nosso quarto para se servir da confortável privada: era a única, em todo o campo, com a qual tomávamos regularmente todos os cuidados, e a única situada nas proximidades de um aquecedor.
Até aquele dia, o velho Thylle fora um estranho para mim e, portanto, um inimigo; além disso, alguém do poder, e, portanto, um inimigo perigoso. Para as pessoas como eu, vale dizer, para a generalidade do Lager, outras nuances não havia: durante todo o longuíssimo ano transcorrido no Lager, eu jamais tivera a curiosidade ou a oportunidade de indagar a respeito das complexas estruturas da hierarquia do campo. O tenebroso edifício de potências terríveis continuava totalmente acima de nós, e o nosso olhar se dirigia para o solo. Entretanto, foi esse mesmo Thylle, velho militar endurecido por cem lutas pelo seu partido, e dentro do seu partido, e petrificado pelos dez anos de vida feroz e ambígua no Lager, o companheiro e o confidente de minha primeira noite de liberdade.
Durante todo o dia, tivemos muito que fazer para encontrar tempo de comentar o acontecimento, que sentíamos realmente marcar o ponto crucial de toda a nossa existência; e talvez, inconscientemente, inventávamos o que fazer, justamente com o objectivo de não ter tempo, pois diante da liberdade nos sentíamos confusos, esvaziados, atrofiados, inadaptados. Mas veio a noite: os companheiros adoentados adormeceram, adormeceram também Charles e Arthur com o sono da inocência, pois estavam no Lager havia um mês, e ainda não tinham sorvido o veneno: eu, sozinho, embora exausto, não encontrava o sono, por causa do esgotamento da doença. Doíam-me todos os membros, o sangue pulsava convulsivamente no crânio, e eu me sentia invadir pela febre. Mas não era apenas isso: como se um dique houvesse desmoronado, logo quando as ameaças pareciam desaparecer, quando a esperança de voltar à vida deixava de ser considerada absurda, eu me encontrava subjugado por uma dor nova e mais vasta, antes sepultada e relegada às fronteiras da consciência, por outras dores mais urgentes: a dor do exílio, da casa distante, da solidão, dos amigos perdidos, da juventude perdida, e da multidão de cadáveres nas proximidades». In Primo Levi, A Trégua, 1963, Editorial Teorema, colecção Diário de Viagem, 2010, ISBN: 978-972-695-937-3.

Cortesia de ETeorema/JDACT

terça-feira, 18 de julho de 2017

Assim foi Auschwitz Primo Levi. «Ao meio-dia, os deportados recebiam um litro de sopa de nabo ou couve, absolutamente insípida devido à falta de qualquer tempero…»

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«(…) O estado higiénico-sanitário do Campo parecia, à primeira vista, realmente bom: as ruas e vielas que separavam os diversos blocos, eram limpas e bem conservadas, até onde permitia o chão lamacento; o exterior dos blocos, em madeira, era bem pintado e o interior tinha os soalhos cuidadosamente varridos e lavados todas as manhãs, com os chamados castelos (beliches) de três andares em perfeita ordem, as mantas dos catres bem estendidas e alisadas. Mas tudo isto era apenas aparência, sendo a substância completamente diferente: na verdade, nos blocos, que normalmente deveriam albergar entre 150 e 170 pessoas, amontoavam-se sempre pelo menos 200, muitas vezes até 250 pessoas, e portanto em quase todas as camas dormiam duas pessoas. Nessas condições, o tamanho do dormitório era certamente inferior ao mínimo exigido pelas necessidades de respiração e hematose. Os catres eram providos de uma espécie de saco grande, mais ou menos cheio com serragem de madeira, reduzida quase a pó pelo uso prolongado, e dois cobertores. Os cobertores, além de nunca serem trocados nem submetidos, a não ser muito raramente e por motivos excepcionais, a qualquer desinfecção, estavam, na maior parte dos casos, em péssimo estado de conservação: gastos pelo uso prolongado, rasgados, cobertos de todo o tipo de manchas. Só os catres mais à vista eram providos de cobertores mais decentes, quase limpos, e às vezes até bonitos: eram os catres dos andares inferiores e mais próximos da porta de entrada.
Naturalmente, essas camas eram reservadas para os pequenos líderes do Campo: capatazes e seus assistentes, ajudantes do chefe de bloco, ou simplesmente amigos de uns ou de outros. Assim se explica a impressão de limpeza, ordem e higiene que a pessoa tinha ao entrar num dormitório pela primeira vez e deitando um olhar superficial ao seu interior. Nas armações dos beliches, nas vigas de sustentação, nas tábuas dos catres, viviam milhares de percevejos e pulgas que impediam os prisioneiros de dormir à noite; nem sequer as desinfecções dos dormitórios com vapores de ácido nitrídrico, efectuadas de três em três meses ou de quatro em quatro, eram suficientes para destruir esses hóspedes que continuavam a vegetar e a multiplicar-se quase imperturbáveis.
Os piolhos, pelo contrário, eram combatidos a fundo, a fim de prevenir o surgimento de uma epidemia de tifo petequial: todas as noites, após regressar do trabalho, e com maior rigor nas tardes de sábado (dedicadas, entre outras coisas, a rapar o cabelo; a barba e por vezes também outros pêlos), praticava-se o chamado controlo dos piolhos. Cada prisioneiro tinha de se despir e submeter as suas roupas ao exame minucioso dos encarregados dessa função; se fosse encontrado um único piolho na camisa de um deportado, todas as roupas de todos os ocupantes do dormitório eram imediatamente enviadas para desinfecção e os homens eram submetidos a duches, depois de serem esfregados com lisol. Assim, tinham de passar a noite inteira nus, até às primeiras horas da manhã, quando as suas roupas voltavam do barracão de desinfecção, impregnadas de humidade.
No entanto, não se tomava qualquer outra providência para a profilaxia das doenças contagiosas, que eram frequentes: tifo e escarlatina, difteria e varicela, sarampo, erisipela etc., sem contar com as inúmeras infecções cutâneas contagiosas, como as epidermofitoses, os impetigos, as sarnas. É de facto surpreendente que, tendo em conta tanta negligência em relação às normas higiénicas de pessoas que viviam numa promiscuidade tão grande, nunca tenham surgido epidemias de rápida difusão. Uma das maiores possibilidades de transmissão de doenças infecciosas consistia no facto de uma razoável percentagem de prisioneiros não dispôr de gamela ou de colher, de modo que três ou quatro pessoas eram obrigadas a comer sucessivamente no mesmo recipiente ou com o mesmo talher, sem poder lavá-lo.
A alimentação, de quantidade insuficiente, era de má qualidade. Consistia em três refeições: de manhã, logo depois de acordar, eram distribuídos 350 gramas de pão quatro vezes por semana e 700 gramas três vezes por semana, portanto, uma média diária de 500 gramas, quantidade que seria razoável se o próprio pão não trouxesse incontestavelmente uma grande quantidade de escórias, entre as quais, de forma muito visível, serragem de madeira; além disso, ainda de manhã, davam-nos 25 gramas de margarina com uns vinte gramas de salame ou uma colherada de doce ou ricota. A margarina era distribuída só seis dias por semana; mais tarde, essa distribuição reduzir-se-ia para três dias. Ao meio-dia, os deportados recebiam um litro de sopa de nabo ou couve, absolutamente insípida devido à falta de qualquer tempero, e à noite, no final do trabalho, outro litro de sopa um pouco mais consistente, com algumas batatas ou, por vezes, ervilhas e grão-de-bico; mas esta também totalmente desprovida de componentes gordurosos». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.

Cortesia de Objectiva/JDACT

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Assim foi Auschwitz. Primo Levi. «As repetidas desinfecções deterioravam os tecidos, acabando com a sua resistência. Todo este material resultava das roupas de pior qualidade retiradas aos passageiros dos vários comboios»

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«(…) Assim que chegou ao Campo, o grupo de 95 homens foi levado para o pavilhão de desinfecção, onde todos foram prontamente despidos e, depois, submetidos a uma completa e cuidadosa depilação: cabelos, barbas e tudo o resto caíram rapidamente sob tesouras, navalhas e máquinas. A seguir, os homens foram colocados na sala dos chuveiros e ali ficaram trancados até à manhã seguinte. Cansados, famintos, com sede e sono, atónitos com o que tinham visto e inquietos pelo seu destino imediato, mas, acima de tudo, inquietos pela sorte dos entes queridos de quem tinham sido brusca e brutalmente separados poucas horas antes, com o espírito atormentado por obscuros e trágicos pressentimentos, eles tiveram de passar a noite inteira em pé, com os pés na água que pingava das tubagens e corria pelo chão. Finalmente, por volta das 6 horas da manhã seguinte, foram submetidos a uma fricção geral com uma solução de lisol e depois a um duche quente; de seguida, foram-lhes entregues os uniformes do Campo e, para os vestir, foram conduzidos a outra sala, na qual tiveram de entrar pelo lado de fora do pavilhão, saindo nus para a neve, com o corpo ainda molhado do duche recente.
O uniforme dos prisioneiros de Monowitz durante o Inverno era composto por um casaco, um par de calças, um boné e um sobretudo de pano às riscas; uma camisa, um par de cuecas de algodão, um par de meias; um pulôver; um par de sapatos com sola de madeira. Muitas meias e muitas cuecas tinham sido visivelmente feitas a partir de alguns thaled, o manto sagrado com o qual os Judeus se costumam cobrir durante as orações, encontrados nas malas de alguns deportados e utilizados para aquela finalidade em sinal de desprezo. Mal chegava o mês de Abril, quando o frio, embora mais brando, ainda não desaparecera, as roupas de pano grosso e os pulôveres eram retirados, e as calças e o casaco eram substituídos por peças análogas de algodão, também às riscas; só em finais de Outubro voltavam a ser distribuídas roupas de Inverno.
No entanto, isso não aconteceu no Outono de 44, porque as roupas e os casacos de pano grosso tinham chegado ao limite extremo de uso, de forma que os prisioneiros tiveram de enfrentar o Inverno de 44-45 vestindo algodão, como nos meses de Verão; só uma pequena minoria recebeu uma leve gabardina impermeável ou um pulôver. Era rigorosamente proibido possuir mudas de roupa ou de peças íntimas, de forma que era quase impossível lavar camisas ou cuecas: essas peças eram trocadas, de acordo com as autoridades, a cada 30-40-50 dias, segundo a disponibilidade e sem possibilidade de escolha; as peças não vinham lavadas, eram apenas desinfectadas a vapor, pois não havia lavandaria no Campo. Em geral, eram cuecas curtas de algodão e camisas, sempre de pano, frequentemente sem mangas, sempre de aspecto repugnante devido a todo o tipo de manchas, com frequência reduzidas a farrapos; nalgumas ocasiões, em vez disso, recebia-se a camisa ou as calças de um pijama ou mesmo alguma peça de roupa feminina.
As repetidas desinfecções deterioravam os tecidos, acabando com a sua resistência. Todo este material resultava das roupas de pior qualidade retiradas aos passageiros dos vários comboios que, corno se sabe, chegavam continuamente ao Centro de, Auschwitz provenientes de todas as partes da Europa. Eram distribuídos sobretudos, casacos e calças, tanto de Verão como de Inverno, em péssimas condições, cheios de remendos e impregnados de sujidade (barro, graxa, tinta). Os prisioneiros tinham de tratar pessoalmente de os arranjar sem receberem linhas ou agulhas para isso. Era extremamente difícil conseguir trocá-los, o que só acontecia quando qualquer tentativa de arranjo fosse de todo impossível. As meias nunca eram trocadas, e a sua recuperação ficava entregue à iniciativa de cada um. Era proibido possuir lenços de assoar ou qualquer outro pedaço de tecido.
Os sapatos eram feitos numa oficina própria que existia no Campo; as solas de madeira eram pregadas em chapas de couro ou de couro sintético ou de pano emborrachado provenientes do calçado de pior qualidade retirado dos comboios que chegavam. Quando estavam em bom estado, constituíam uma defesa razoável contra o frio e a humidade, mas eram absolutamente inadequados para as caminhadas, mesmo curtas, e causavam escoriações na sola dos pés. Podia considerar-se afortunado aquele que tivesse sapatos emparelhados e do tamanho adequado. Quando se estragavam, eram consertados infinitas vezes, para além de qualquer limite razoável, de forma que era raríssimo ver calçado novo, e aquele que normalmente era distribuído não durava mais de uma semana. Não eram distribuídos atacadores, cada qual os substituía como podia por pedaços de papel retorcido ou por fio eléctrico, quando era possível encontrar algum». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.


Cortesia de Objectiva/JDACT

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Assim foi Auschwitz. Primo Levi. «Monowitz era, portanto, um típico Arbeits-Lager (campo de trabalho): todas as manhãs a população inteira do Campo, excepto os doentes e as poucas pessoas designadas para trabalhos internos»

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«(…) Assim que o comboio chegou a Auschwitz (eram aproximadamente 21 horas de 26 de Fevereiro de 1944), os vagões foram rapidamente esvaziados por numerosos SS, armados com pistolas e bastões; e os viajantes foram obrigados a colocar malas, trouxas e cobertores ao longo do comboio. A comitiva foi logo dividida em três grupos: um de homens jovens e aparentemente válidos, que veio a ser constituído por 95 indivíduos; um segundo de mulheres, também jovens, grupo pequeno, composto por apenas 29 pessoas, e um terceiro, o mais numeroso de todos, com crianças, inválidos e velhos. Enquanto os primeiros foram encaminhados separadamente para vários campos, há razões para crer que o terceiro foi conduzido directamente para a câmara de gás de Birkenau, e aqueles que o integravam trucidados nessa mesma noite.
O primeiro grupo foi levado para Monowitz, onde havia um Campo de concentração sob a alçada administrativa de Auschwitz, do qual distava cerca de 8 km, e que fora constituído em meados de 1942 com a finalidade de fornecer mão-de-obra para a construção do complexo industrial Buna-Werke, subordinado à I.G. Farbenindustrie. Esse campo albergava entre 10000 e 12000 prisioneiros, embora a sua capacidade normal se limitasse a 7000-8000 homens. A maior parte deles eram Judeus de todas as nacionalidades da Europa, mas havia uma pequena minoria de criminosos alemães e polacos, de políticos polacos e de sabotadores.
A Buna-Werke, destinada à produção em grande escala de borracha sintética, gasolina sintética, corantes e outros subprodutos de carvão, ocupava uma área rectangular com cerca de 35 km2. Uma das entradas dessa zona industrial, totalmente isolada por cercas altas de arame farpado, encontrava-se a poucas centenas de metros do Campo de concentração dos Judeus, enquanto, a pouca distância deste e adjacente à periferia da zona industrial, havia um Campo de concentração para prisioneiros de guerra ingleses e, mais longe, encontravam-se outros Campos para trabalhadores civis de várias nacionalidades. Diga-se de passagem que o ciclo produtivo da Buna-Werke nunca começou: a data de inauguração, prevista inicialmente para Agosto de 1944, foi sendo protelada devido aos bombardeamentos aéreos e à sabotagem por parte dos operários civis polacos, até à evacuação do território pelo exército alemão.
Monowitz era, portanto, um típico Arbeits-Lager (campo de trabalho): todas as manhãs a população inteira do Campo, excepto os doentes e as poucas pessoas designadas para trabalhos internos, dispunha-se numa formação perfeitamente ordenada e desfilava ao som de uma banda, que tocava marchas militares e alegres cançonetas, para se dirigir aos locais de trabalho que, para alguns grupos, ficavam a uma distância de seis-sete quilómetros: o trajecto era feito em passo acelerado, quase em corrida. Antes da saída para o trabalho e depois do regresso, todos os dias se realizava a cerimónia de chamada numa praça do Lager própria para esse fim, onde todos os prisioneiros tinham de ficar em formação rígida, durante uma a três horas, independentemente do clima que estivesse». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.

Cortesia de Objectiva/JDACT

Assim foi Auschwitz Primo Levi. «A viagem de Fossoli para Auschwitz durou exactamente quatro dias; e foi muito penosa, sobretudo por causa do frio, que era tão intenso…»

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«Graças à documentação fotográfica e às declarações agora numerosas fornecidas por ex-internos dos vários Campos de concentração criados pelos alemães para a aniquilação dos judeus da Europa, talvez já não exista ninguém que ainda ignore o que foram esses lugares de extermínio e as torpezas que lá foram praticadas. No entanto, com a finalidade de dar a conhecer melhor os horrores, dos quais nós próprios também fomos testemunhas e muitas vezes vítimas durante o período de um ano, acreditamos ser útil trazer a público em Itália um relatório que apresentámos ao governo da U.R.S.S., por solicitação do Comando Russo do Campo de Concentração de Kattowitz para italianos ex-prisioneiros. Foi neste Campo que também nós ficámos abrigados após a nossa libertação, efectuada pelo Exército Vermelho em finais de Janeiro de 1945. Acrescentamos agora a essa exposição algumas informações de ordem geral, pois o nosso relatório da altura devia restringir-se exclusivamente ao funcionamento dos serviços sanitários do Campo de Monowitz. O mesmo governo de Moscovo solicitou relatórios análogos a todos os médicos de qualquer nacionalidade que, vindos de outros campos, também tivessem sido libertados.
Partimos do Campo de concentração de Fossoli di Carpi (Módena) em 22 de Fevereiro de 1944, num comboio com 650 Judeus de ambos os sexos e de todas as idades. O mais velho passava dos oitenta anos, o mais novo era um bebé de três meses. Muitos estavam doentes, alguns gravemente: um velho de setenta anos, que tivera uma hemorragia cerebral poucos dias antes da partida, foi igualmente embarcado e morreu durante a viagem.
O comboio era composto apenas por vagões de transporte de gado, fechados pelo lado de fora; em cada vagão, foram amontoadas mais de cinquenta pessoas, a maior parte das quais levava consigo todas as malas que conseguia, porque um primeiro sargento alemão do Campo de Fossoli tinha-nos sugerido, com ar de quem dava um conselho desinteressado e afectuoso, que nos provêssemos de muitas roupas pesadas, camisolas de malha, cobertores, peliças, porque seríamos levados para regiões com um clima mais rigoroso do que o nosso. E acrescentara, com um sorrisinho benévolo e uma piscadela de olho irónica, que, se alguém tivesse dinheiro ou jóias escondidas, faria bem em levá-los também, pois lá seriam certamente úteis. A maioria dos que partiam mordeu o isco, seguindo um conselho que escondia uma armadilha grosseira; outros, pouquíssimos, preferiram confiar os seus bens a algum particular com livre acesso ao Campo; outros, por fim, que no acto da detenção não tinham tido tempo de providenciar mudas de roupa, partiram apenas com o que vestiam.
A viagem de Fossoli para Auschwitz durou exactamente quatro dias; e foi muito penosa, sobretudo por causa do frio, que era tão intenso, especialmente nas horas nocturnas, que de manhã as tubagens de metal que percorriam o interior dos vagões estavam cobertas de gelo, devido ao vapor da respiração que se condensava sobre elas. Outro tormento era a sede, que só podia ser saciada com a neve recolhida durante a única paragem diária, quando o comboio se detinha em campo aberto e os viajantes eram autorizados a descer dos vagões, sob a rigorosíssima vigilância de inúmeros soldados, prontos, com a metralhadora sempre apontada, a abrir fogo contra quem quer que fizesse menção de se afastar do comboio.
Era durante essas curtas paragens que se procedia, vagão a vagão, à distribuição dos alimentos: pão, doce e queijo; nunca água ou qualquer outro líquido. As possibilidades de dormir eram reduzidas ao mínimo, pois a quantidade de malas e trouxas que se amontoavam no chão não permitia que ninguém se ajeitasse numa posição cómoda e propícia ao descanso; os viajantes deviam, portanto, contentar-se em ficar acocorados da maneira que lhes custasse menos num espaço muito reduzido. O soalho dos vagões estava sempre molhado e não era fornecido sequer um pouco de palha para o cobrir». In Primo Levi, Assim foi Auschwitz, 2015, Penguin Randon House Grupo Editorial, Objectiva, 2015, ISBN 978-989-877-569-6.

Cortesia de Objectiva/JDACT

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Contos. Primo Levi. «… pensou: tu es medicus in aeternum, e, o que é pior, todos vão perceber. Morandi não tinha nenhum gosto pelas coisas irrevogáveis e, naquele momento, sentia-se inclinado a ver naquela história uma grande e interminável aborrecimento»

jdact e wikipedia

Histórias Naturais
«Se não acreditais, muito me aflijo, mas um homem de bem, um homem de bom senso deve acreditar sempre no que se lhe diz e no que lê. Não o diz Salomão, Provierbiorum XIV: Innocens credit omni verbo etc.? Por minha parte, nada encontro escrito nos livros sagrados que seja contra isso. Mas, se a vontade de Deus assim o tivesse determinado, ainda o acharíeis absurdo? Oh! por favor, não perturbeis nunca os vossos espíritos com esses vãos pensamentos, pois vos afirmo que para Deus nada é impossível e, se ele quisesse, as mulheres passariam a parir pelo ouvido. Baco não foi gerado pela coxa de Júpiter? E Minerva não nasceu, pelo ouvido, do cérebro de Júpiter? Castor e Pólux, da casca de um ovo posto e quebrado por Leda? Mais admirados e espantados ficaríeis ainda se eu vos citasse, agora, todo o capítulo de Plínio sobre os partos estranhos e contra a natureza. Bem vedes que não sou um mentiroso tão ousado como ele foi. Lede a sétima parte de sua História natural, cap. III, e não me futriqueis mais o juízo.

Os mnemagogos
O doutor Morandi (que ainda não se habituara a ser chamado de doutor) desceu da viatura com a intenção de conservar-se incógnito por no mínimo dois dias, mas logo viu que seria impossível. A proprietária do café Alpino o acolhera com neutralidade (evidentemente não era muito curiosa, ou não muito arguta); mas, pelo sorriso deferente, maternal e levemente debochado da dona da tabacaria, ele entendeu que já era o doutor novo, sem possibilidade de adiamentos. Devo ter o diploma escrito na cara, pensou: tu es medicus in aeternum, e, o que é pior, todos vão perceber. Morandi não tinha nenhum gosto pelas coisas irrevogáveis e, naquele momento, sentia-se inclinado a ver naquela história uma grande e interminável aborrecimento. Algo parecido com o trauma do nascimento, concluiu de modo não muito coerente. No entanto, como primeira consequência do anonimato perdido, era preciso encontrar Montesanto, sem mais demoras. Voltou ao café para retirar da mala a carta de apresentação e se pôs à procura do endereço que estava no cartão, cruzando a cidade deserta sob um sol inclemente. Chegou ao lugar com dificuldade, depois de infinitos giros inúteis; não quis perguntar a rua a ninguém, porque nos rostos dos poucos que avistou pelo caminho pareceu discernir uma curiosidade malévola. Esperava que a placa de identificação da casa fosse velha, mas a achou mais velha que qualquer expectativa, coberta de ferrugem e com o nome quase ilegível. Todas as persianas da casa estavam fechadas, e a baixa fachada, descascada e sem cor. À sua chegada, houve um rápido e silencioso acender de lâmpadas. Montesanto em pessoa desceu e veio recebê-lo. Era um velho alto e corpulento, de olhos míopes e vivos num rosto de traços gastos e pesados: movia-se com a segurança silenciosa e maciça dos ursos. Estava de mangas curtas, sem colete: a camisa estava puída e não parecia limpa. Pela escada e em cima, no estúdio, estava fresco e quase escuro. Montesanto sentou-se e ofereceu uma cadeira a Morandi, especialmente incómoda. Vinte e dois anos aqui dentro, pensou Morandi com um arrepio mental, enquanto o outro lia sem pressa a carta de apresentação. Olhou em redor, enquanto seus olhos se habituavam à penumbra. Sobre a escrivaninha, cartas, revistas, receitas e outros papéis de natureza indefinível, todos amarelados e amontoados numa pilha impressionante. Do tecto pendia um longo fio de aranha, apenas visível pela poeira que o envolvia, balançando molemente aos sopros imperceptíveis da brisa meridiana. Um armário envidraçado com poucos instrumentos antigos e poucas garrafinhas nas quais os líquidos tinham corroído o vidro, assinalando o nível que por muito tempo haviam conservado. Na parede, estranhamente familiar, a grande moldura fotográfica dos Laureandi Medici 1911, bem conhecido dele: aí está o rosto quadrado e o queixo forte de seu pai, Morandi sénior; e logo ao lado (ai, como seria difícil reconhecê-lo!) o aqui presente Ignazio Montesanto, magro, nítido e espantosamente jovem, com ar de herói e mártir do pensamento, tão ao gosto dos formandos da época. Após a leitura, Montesanto pousou a carta sobre o monte de papéis da escrivaninha, onde ela camuflou-se perfeitamente. Bem, disse em seguida, estou muito contente que o destino, a sorte..., e a frase acabou num murmúrio indistinto, seguido de um longo silêncio. O velho médico inclinou a cadeira sobre as pernas posteriores e dirigiu o olhar para o tecto. Morandi dispôs-se a esperar que o outro retomasse o discurso; o silêncio já começava a pesar quando Montesanto retomou subitamente a fala. Falou por muito tempo, a princípio com muitas pausas, depois com mais rapidez; a sua fisionomia se ia reanimando, os olhos brilhavam ágeis e vivos no rosto desfeito. Surpreso, Morandi dava-se conta de experimentar uma nítida e crescente simpatia pelo velho. Tratava-se evidentemente de um solilóquio, um grande devaneio que Montesanto estava concedendo. Para ele as ocasiões de falar (e se via que sabia falar e que conhecia a importância disso) deviam ser raras, breves retornos a um antigo vigor de pensamento agora talvez perdido». In Primo Levi, 71 Contos, 1966, 1971, Companhia das Letras, colecção Listrada, 2005, ISBN 978-853-590-757-5.

Cortesia da CdasLetras/JDACT

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Revolta no 31. A Trégua. Primo Levi. «… vagávamos fazia dez dias como astros esbatidos, tinha encontrado o seu próprio centro sólido, um núcleo de condensação: quatro homens armados, mas não armados contra nós»

jdact e wikipedia
«Sonhávamos nas noites ferozes
sonhos densos e violentos
sonhados de corpo e alma:
voltar; comer; contar.
Então soava breve e submissa
a ordem do amanhecer:
Wstavach;
e se partia no peito o coração. 
Agora reencontramos a casa,
nosso ventre está saciado,
acabamos de contar.
É tempo. Logo ouviremos ainda
o comando estrangeiro:
Wstavach».
11 de Janeiro de 1946
«Nos primeiros dias de Janeiro de 1945, sob a pressão do Exército Vermelho, já nas proximidades, os alemães desocuparam às pressas a bacia mineira silesiana. Todavia, em outros lugares, e em análogas condições, não hesitaram em destruir com fogo ou com as armas o Lager, campo de concentração ou de extermínio, juntamente com os seus ocupantes; no distrito de Auschwitz agiram de maneira diversa: ordens superiores (ao que parece ditadas pessoalmente por Hitler) impunham a “recuperação”, a qualquer preço, de todos os homens aptos para o trabalho. Por isso, todos os prisioneiros sadios foram retirados, em condições assombrosas, para Buchenwald e Mauthausen, enquanto os doentes foram abandonados à própria sorte. A partir de vários indícios, é lícito deduzir a intenção primeira alemã de não deixar nos campos de concentração nenhum homem vivo; mas um violento ataque aéreo noturno e a rapidez da investida russa induziram os alemães a mudar de ideia, e a bater em retirada, deixando inacabados o próprio dever e a própria guerra. Na enfermaria do Lager de Buna-Monowitz chegávamos a oitocentos. Destes, cerca de quinhentos morreram das próprias doenças, do frio e da fome, antes que chegassem os russos, e outros duzentos, apesar dos socorros, nos dias imediatamente sucessivos. A primeira patrulha russa pôde ser vista do campo por volta de meio-dia de 27 de Janeiro de 1945. Charles e eu fomos os primeiros a avistá-la: estávamos transportando para a vala comum o corpo de Sómogyi, o primeiro morto dentre os nossos companheiros de quarto. Reviramos a padiola na neve infecta, pois a vala já estava cheia, e outra sepultura não era possível: Charles tirou o boné, para saudar os vivos e os mortos.
Eram quatro jovens soldados a cavalo, que agiam cautelosos, com as metralhadoras embraçadas, ao longo da estrada que demarcava os limites do campo. Quando chegaram ao arame farpado, detiveram-se, trocando palavras breves e tímidas, lançando olhares trespassados por um estranho embaraço, para observar os cadáveres decompostos, os barracões arruinados, e os poucos vivos. Pareciam-nos admiravelmente corpóreos e reais, suspensos (a estrada era mais alta do que o campo) em seus enormes cavalos, entre o cinza da neve e o cinza do céu, imóveis sob as rajadas do vento húmido que ameaçava o degelo. Parecia-nos, e assim era, que o nada atravessado de morte, no qual vagávamos fazia dez dias como astros esbatidos, tinha encontrado o seu próprio centro sólido, um núcleo de condensação: quatro homens armados, mas não armados contra nós; quatro mensageiros da paz, de rostos rudes e pueris sob os pesados capacetes de pelo. Não acenavam, não sorriam; pareciam sufocados, não somente por piedade, mas por uma confusa reserva, que selava as suas bocas e subjugava os seus olhos ante o cenário funesto. Era a mesma vergonha conhecida por nós, a que nos esmagava após as selecções, e todas as vezes que devíamos assistir a um ultraje ou suportá-la: a vergonha que os alemães não conheceram, aquela que o justo experimenta ante a culpa cometida por outrem, e se aflige que persista, que tenha sido introduzida irrevogavelmente no mundo das coisas que existem, e que a sua boa vontade tenha sido nula ou escassa, e não lhe tenha servido de defesa.
Assim, a hora da liberdade soou grave e acachapante, e inundou, a um só tempo, as nossas almas de felicidade e doloroso sentimento de pudor, razão pela qual quiséramos lavar nossas consciências e nossas memórias da sujeira que as habitava; e de sofrimento, pois sentíamos que isso já não podia acontecer, e que nada mais poderia acontecer de tão puro e bom para apagar o nosso passado, e que os sinais da ofensa permaneceriam em nós para sempre, nas recordações de quem a tudo assistiu, e nos lugares onde ocorreu, e nas histórias que iríamos contar. Porque, e este é o tremendo privilégio de nossa geração e do meu povo, ninguém pôde mais do que nós acolher a natureza insanável da ofensa, que se espalha como um contágio. É absurdo pensar que a justiça humana possa extingui-la. Ela é uma inexaurível fonte do mal: quebra o corpo e a alma dos esmagados, os destrói e os torna abjectos; recai como infâmia sobre os opressores, perpetua-se como ódio nos sobreviventes, e pulula de mil maneiras, contra a própria vontade de todos, como sede de vingança, como desmoronamento moral, como negação, como fadiga, como renúncia». In Primo Levi, A Trégua, 1963, Editorial Teorema, colecção Diário de Viagem, 2010, ISBN: 978-972-695-937-3.

Cortesia de ETeorema/JDACT

sábado, 23 de abril de 2016

Se Isto é um Homem. Primo Levi. «Também sabemos agora que não é a mesma coisa receber a concha de sopa da superfície ou do fundo da selha, e já somos capazes de calcular, na base da capacidade das várias selhas, qual o lugar mais conveniente onde ficar…»

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Se isto é um homem
«Vós que viveis tranquilos
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais regressando à noite
comida quente e rostos amigos:
considerai se isto é um homem
quem trabalha na lama
quem não conhece paz
quem luta por meio pão
quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
sem cabelos e sem nome
sem mais força para recordar
vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
recomendo-vos estas palavras,
esculpi-as no vosso coração
estando em casa andando pela rua,
ao deitar-vos e ao levantar-vos;
repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara».

«(…) Ainda nos falta aprender muitas coisas, mas muitas outras já as aprendemos. Já temos uma certa ideia da topografia do Lager; este nosso Lager é um quadrado com cerca de seiscentos metros de lado, cercado por duas redes de arame farpado, sendo a interior percorrida por corrente de alta-tensão. É constituído por sessenta barracas de madeira, que aqui se chamam Blocks, uma dezena das quais em construção; a estas acrescentam-se o corpo das cozinhas, que é de alvenaria; uma horta experimental, gerida por um destacamento de Häftlinge privilegiados; as barracas dos duches e das latrinas, uma por cada grupo de seis ou oito Blocks. Para além disso, alguns Blocks são destinados a funções especiais. Primeiro, um grupo de oito, na extremidade leste do campo, constitui a enfermaria e o posto médico; há depois o Block 24 que é o Krätzeblock, reservado aos sarnosos; o Block 7, onde nenhum Häftling comum jamais entrou, reservado à Prominenz, isto é, à aristocracia, aos internados que desempenham os cargos mais elevados, o Block 47, reservado aos Reichsdeutschs (os arianos alemães, políticos ou criminosos); o Block 49, exclusivamente para Kapos; o Black 12, do qual metade, para uso dos Reichsdeutsche e Kapos, faz funções de Kantine, isto é, de posto de distribuição de tabaco, insecticida e, ocasionalmente, outros artigos; o Block 37, que contém os escritórios centrais e os serviços de trabalho; e finalmente o Block 29, que mantém as janelas sempre fechadas porque é o Frauenblock, o prostíbulo do campo, servido por raparigas Häftlinge polacas e reservado aos Reichsdeutsche.
Os Blocks de habitação comum são divididos em duas zonas: num deles (Tagesraum),vive o chefe da barraca com os seus amigos: contém uma mesa comprida, cadeiras, bancos; por todo o lado, uma quantidade de objectos estranhos de cores vivas, fotografias, recortes de revistas, desenhos, flores artificiais, bibelôs; nas paredes, grandes letreiros, provérbios e breves poesias exortando à ordem, à disciplina, à higiene; num canto, uma vitrina com os instrumentos do Blockfrisör (barbeiro autorizado), as conchas para distribuir a sopa e duas vergastas de borracha, uma maciça e outra oca, para manter a disciplina. O outro local é o dormitório; não há outra coisa a não ser cento e quarenta e oito camas em beliches de três andares, apinhadas, como celas de uma colmeia, de forma a utilizar sem desperdícios todo o volume do local, até ao tecto, e divididas por três corredores; aqui vivem os Häftlinge comuns, num total de duzentos, duzentos e cinquenta por barraca, portanto, dois na maioria das tarimbas, que são de tábuas de madeira móveis, equipadas com enxergão de palha muito fino e com dois cobertores cada. Os corredores de passagem são tão estreitos, que duas pessoas passam com muito dificuldade; a superfície total de chão é tão escassa, que os habitantes do mesmo Block não a podem ocupar ao mesmo tempo, sem que pelo menos metade esteja deitada nas camas. Daí, a proibição de entrar num Block ao qual não se pertence. No meio do Lager está a Praça da Chamada, enorme, onde nos reunimos de manhã, para constituirmos as esquadras de trabalho, e à noite, para sermos contados. Em frente à Praça da Chamada há um canteiro com a relva cuidadosamente cortada, onde são montadas as forcas quando é preciso.
Cedo aprendemos que os hóspedes do Lager estão divididos em três classes: os criminosos, os políticos e os judeus. Todos andam com farda às riscas, todos são Häftlinge, mas os criminosos trazem ao lado do número, cosido no casaco, um triângulo verde; os políticos, um triângulo vermelho; os judeus, que são a maioria, trazem a estrela judaica, vermelha e amarela. Há também os SS, mas poucos e fora do campo, e vêem-se relativamente poucas vezes: os nossos verdadeiros patrões são os triângulos verdes, que têm liberdade de acção sobre nós, e também os das outras duas classes dispostos a ajudá-los: que não são poucos. E aprendemos mais coisas ainda, mais ou menos rapidamente, conforme o carácter de cada um; a responder Jawohl, a não fazer perguntas, a fingir sempre ter percebido. Aprendemos o valor dos alimentos; agora, também já raspamos cuidadosamente o fundo da marmita depois do rancho, e mantemo-la debaixo do queixo ao comermos o pão para não desperdiçar as migalhas. Também sabemos agora que não é a mesma coisa receber a concha de sopa da superfície ou do fundo da selha, e já somos capazes de calcular, na base da capacidade das várias selhas, qual o lugar mais conveniente onde ficar no momento de ir para a bicha». In Primo Levi, Se Questo è um Uomo, Einaudi, Turim, 1958, Se Isto é um Homem, 1998, Tradução de Simonetta Neto, 10ª edição, 2013, Teorema, ISBN 978-972-695-945-8.
  
Cortesia de Teorema/JDACT

terça-feira, 5 de abril de 2016

A Chave Estrela. Primo Levi. «Olhou-me por um momento, com olhos singularmente inexpressivos, e depois repetiu com paciência: se alguém está na própria casa, talvez até esteja sossegado… O mundo é belo porque é variado»

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«Ah, não: tudo eu não posso contar. Ou bem lhe digo o lugar, ou então lhe conto o facto, mas eu, se fosse o senhor, escolheria o facto, porque é um facto e tanto. Depois, se o senhor quiser mesmo recontá-lo, basta trabalhar em cima dele, rectificar, esmerilhar, tirar as aparas, dar uma insuflada e, pronto, aí está uma bela história; e, apesar de eu ser mais jovem que o senhor, história é o que não me falta. O lugar talvez o senhor adivinhe, assim não precisa acrescentar nada; mas, se eu lhe disser onde fica, eu acabo tendo problemas, porque aquela gente é boa, mas um pouco melindrosa. Conhecia Faussone havia apenas dois ou três dias. Encontramo-nos por acaso no refeitório, o refeitório para estrangeiros de uma fábrica muito distante, para a qual fui deslocado devido ao meu ofício de químico de vernizes. Nós dois éramos os únicos italianos; ele estava lá havia três meses, mas tinha estado naquelas terras outras vezes e se virava muito bem com a língua, além das quatro ou cinco que já falava, incorrectamente, mas com fluência. Tem uns trinta e cinco anos de idade, é alto, seco, quase calvo, bronzeado, sempre bem barbeado. Um rosto sério, quase imóvel e pouco expressivo. Não é um grande narrador: ao contrário, chega a ser bastante monótono, propenso à diminuição e à elipse, como se temesse parecer exagerado, mas muitas vezes se deixa levar e então exagera sem se dar conta. Tem um vocabulário reduzido e frequentemente exprime-se por meio de lugares-comuns que talvez lhe pareçam argutos e novos; se quem o escuta não ri, ele repete, como se estivesse lidando com um tonto. ... porque, sabe, se estou nesse negócio de circular por todos os estaleiros, fábricas e portos do mundo, não é por acaso, e sim porque eu mesmo quis. Todos os jovens sonham em conhecer florestas, desertos ou a Malásia, e eu também sonhei com essas coisas; só que gosto que osmeus sonhos se tornem reais, senão permanecem como uma doença que a gente carrega pela vida inteira, ou como a cicatriz de uma operação, que volta a doer sempre que o tempo fica húmido. Havia duas alternativas: esperar ficar rico e depois transformar-me num turista ou então trabalhar como montador. Eu optei por ser um montador. É claro que existem outras maneiras, como quem dissesse virar contrabandista etc., mas essas coisas não servem para mim, porque eu gosto de conhecer países, mas sou um tipo dentro das regras. Agora já me habituei tanto a esta vida que, se precisasse ficar sossegado num canto, adoeceria: para mim, o mundo é belo porque é variado. Olhou-me por um momento, com olhos singularmente inexpressivos, e depois repetiu com paciência: se alguém está na própria casa, talvez até esteja sossegado… O mundo é belo porque é variado. Então, como eu estava dizendo, já passei por tantas e boas, mas a história mais sinistra que me aconteceu foi no ano passado, naquele país que prefiro não mencionar, mas posso dizer que é muito longe daqui e também da nossa casa, e, enquanto aqui sofremos um frio danado, lá, ao contrário, faz um calor de rachar durante nove meses do ano, e nos outros três há muito vento. Estava lá  a trabalhar no porto, mas lá não é como na nossa terra: o porto não é do Estado, e sim de uma família, e a família pertence ao pai de família. Antes de começar a trabalhar na montagem, precisei apresentar-me a ele de fato completo, almoçar, conversar, fumar sem pressa, imagine só, nós que sempre temos as horas contadas. Não por nada, mas é que custamos caro, e esse é o nosso orgulho. Esse pai de família era um tipo meio a meio, meio moderno e meio tradicionalista; vestia uma bela camisa branca, dessas que não são passadas, mas quando entrava em casa tirava os sapatos e também pediu que eu tirasse os meus. Falava inglês melhor do que os ingleses (que, aliás, não lhe agradam muito), mas não me apresentou às mulheres da sua família. Também como patrão devia ser meio a meio, uma espécie de explorador-progressista: imagine que mandou pendurar a sua foto emoldurada em todos os escritórios e até nos depósitos, como se fosse um Jesus Cristo. Mas todo o país é um pouco assim, há um monte de mulas e de monitores, há aeroportos que deixam o de Caselle no chinelo, mas muitas vezes, para chegar a um lugar, é mais rápido ir a cavalo. Há mais boites que padarias, mas vê-se gente nas ruas com tracoma. O senhor deve saber que montar um guindaste é um trabalho e tanto, e uma ponte rolante é ainda pior, mas não são tarefas que se façam sem uma equipa: é preciso alguém que conheça as malícias do ofício e que coordene tudo, nós, e depois os auxiliares da obra. E é aqui que começam as surpresas. Naquele tal porto, as confusões sindicais também são um grande problema; o senhor sabe, é um país onde, se alguém rouba alguma coisa, cortam-lhe a mão em praça pública: a direita ou a esquerda, a depender do que foi roubado, ou às vezes até uma orelha, mas sempre com anestesia e bons cirurgiões, que estancam a hemorragia num segundo. É verdade, não são lendas, e se alguém começar a espalhar calúnias a respeito de uma dessas famílias importantes, cortam-lhe a língua e pronto. Pois bem, apesar de tudo isso, lá eles têm associações muito bem organizadas, que participam de todas as decisões: todos os operários de lá carregam sempre um rádio de pilhas, como se fosse um patuá, e se a rádio disser que há greve, tudo pára, não há ninguém que ouse levantar um dedo; de resto, se alguém tentasse, era capaz de receber uma facada, talvez não imediatamente, mas dali a dois ou três dias; ou então o sujeito levava uma viga na cabeça ou bebia um café e caía morto. Não gostaria de viver naquele lugar, mas sinto-me satisfeito por ter estado lá, porque há certas coisas que a gente só acredita vendo». In Primo Levi, A Chave Estrela, 1978, tradução de Maurício Dias, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2009, ISBN 978-853-591-400-9/978-858-086-898-2.

Cortesia de ECdasLetras/JDACT

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Se Isto é um Homem. Primo Levi. «Hora após hora, este primeiro longuíssimo dia no vestíbulo do Inferno está a terminar. Enquanto o Sol se põe num vórtice de sinistras nuvens sanguíneas, mandam-nos finalmente sair da barraca…»

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Se isto é um homem
[…]
«Meditai que isto aconteceu:
recomendo-vos estas palavras,
esculpi-as no vosso coração
estando em casa andando pela rua,
ao deitar-vos e ao levantar-vos;
repeti-as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara»

«(…) Mas não gosta de falar: ninguém aqui gosta de falar. Somos novos, não temos nada e não sabemos nada; para quê perder tempo connosco? Explica-nos contrariado que todos os outros se encontram a trabalhar e voltarão à noite. Ele saiu hoje de manhã da enfermaria; por hoje, está dispensado do trabalho. Perguntei-lhe (com uma ingenuidade que poucos dias depois já devia parecer-me fabulosa) se nos iam devolver pelo menos as escovas de dentes; ele não riu, mas, com uma expressão de extremo desprezo no rosto, disse-me: Vous n’étes pas à la maison. E é este o refrão que ouvimos repetir por toda a gente: já não estão nas vossas casas, isto não é um sanatório, daqui não se sai a não ser pela chaminé (que é que isto significa? Iremos aprendê-lo bem mais tarde). E assim é: empurrado pela sede, descobri, no lado de fora de uma janela, um belo pedaço de gelo ao meu alcance. Abri a janela, arranquei o pedaço de gelo, mas imediatamente avançou um matulão que andava lá fora e mo tirou brutalmente. Warum?, perguntei-lhe no meu pobre alemão. Hier ist kein warum (aqui não há porquês), respondeu-me, empurrando-me para dentro à força. A explicação é repugnante mas simples; neste lugar, tudo é proibido, não por razões obscuras, mas porque o campo foi criado para tal. Se quisermos viver nele, temos de o perceber rapidamente e bem. ... O Santo Vulto aqui não vês, nem como em Serchio se toma aqui banho! (Divina Comédia)
Hora após hora, este primeiro longuíssimo dia no vestíbulo do Inferno está a terminar. Enquanto o Sol se põe num vórtice de sinistras nuvens sanguíneas, mandam-nos finalmente sair da barraca. Vão dar- nos água para beber? Não, dispõem-nos mais uma vez em filas, levam-nos para uma ampla parada que ocupa o centro do campo e mandam-nos formar meticulosamente. Depois, não acontece mais nada durante mais de uma hora: parece que estamos à espera de alguém. Uma fanfarra começa a tocar, junto à porta do campo: toca Rosamunda, a bem conhecida cantiga sentimental, e isto parece-nos tão estranho que nos olhamos uns aos outros, sorrindo; nasce dentro de nós uma sombra de alívio, talvez todas estas cerimónias mais não sejam do que uma colossal farsa de gosto teutónico. Mas a fanfarra, depois de Rosamunda, continua a tocar outras marchas, umas atrás das outras, e então aparecem os grupos dos nossos companheiros, que regressam do trabalho. Avançam em colunas de cinco; avançam com um passo estranho, não natural, duro, como fantoches rígidos, feitos apenas de ossos: mas avançam acompanhando escrupulosamente o compasso da fanfarra.
Também eles se dispõem como nós, segundo uma ordem minuciosa, na ampla parada; uma vez entrado o último grupo, contam-nos e voltam a contar-nos durante mais de uma hora e efectuam demorados controlos que parecem ser dirigidos por um tipo com a farda às riscas, o qual presta contas a um pequeno grupo de SS armado até aos dentes. Finalmente (já é de noite, mas o campo está fortemente iluminado por faróis e holofotes), sente-se gritar Absperre!, e então todas as esquadras destroçam num vaivém confuso e turbulento. Agora, já não se deslocam rígidos e empertigados como dantes: cada um arrasta-se com esforço evidente. Noto que todos trazem na mão ou pendurada no cinto uma marmita de chapa de ferro quase tão grande como uma bacia. Também nós, recém-chegados, vagueamos entre a multidão, à procura de uma voz, de um rosto amigo, de um guia. Encostados à parede de madeira de uma barraca estão dois rapazes sentados no chão: parecem muito novos, dezasseis anos no máximo, ambos com o rosto e as mãos sujos de fuligem. Um deles, ao passarmos, chama-me e faz-me em alemão algumas perguntas que não percebo; depois pergunta-me de onde vimos. Italien, respondo; queria perguntar-lhe muitas coisas, mas o meu vocabulário alemão é muito limitado. És judeu?, pergunto-lhe. Sou judeu polaco. Há quanto tempo estás num Lager?  Há três anos, e levanta três dedos. Deve ter entrado criança, penso horrorizado; pelo menos, isto significa que há quem consiga sobreviver aqui. Qual é o teu trabalho? Schlosser, responde. Não percebo; Eisen; Feuer (ferro, fogo) insiste ele, e acena com as mãos como quem bate com o martelo numa bigorna. É um ferreiro, portanto. Ich Chemiker, declaro eu; e ele acena gravemente com a cabeça: Chemiker gut. Mas tudo isto tem a ver com o futuro longínquo: o que me atormenta, neste momento, é a sede.
Beber, água. Nós nada água, digo-lhe. Olha para mim com o rosto sério, quase severo, e diz pausadamente: Não bebas água, camarada, e a seguir outras palavras que não percebo. Warum? Geschwollen, responde telegraficamente: abano a cabeça, não percebi. Inchado, dá-me a entender, inchando as bochechas e representando com as mãos uma monstruosa tumescência do rosto e da barriga. Warten bis heute abend. (Esperar até hoje noite) traduzo eu palavra por palavra. Depois diz-me: Ich Schlome, Du? Digo-lhe o meu nome, e ele perguntou: Onde a tua mãe?' Em Itália. Schlome fica surpreendido. Judia na Itália? Sim, explico como melhor sei, escondida, ninguém conhece, fugir, não falar, ninguém ver. Percebeu; agora levanta-se, aproxima-se e abraça-me timidamente. A aventura terminou, sinto-me invadido por uma tristeza serena que é quase alegria. Nunca mais voltei a ver Schlome, mas não esqueci o seu rosto sério e bondoso de criança, que me acolheu à porta da casa dos mortos». In Primo Levi, Se Questo è um Uomo, Einaudi, Turim, 1958, Se Isto é um Homem, 1998, Tradução de Simonetta Neto, 10ª edição, 2013, Teorema, ISBN 978-972-695-945-8.

Cortesia de Teorema/JDACT

Se Isto é um Homem. Primo Levi. «O meu nome é 174 517; fomos baptizados, guardaremos até à morte a marca tatuada no braço esquerdo. A operação foi levemente dolorosa e extraordinariamente rápida: puseram-nos todos em fila e, um a um…»

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Se isto é um homem
«Vós que viveis tranquilos
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais regressando à noite
comida quente e rostos amigos:
considerai se isto é um homem
quem trabalha na lama
quem não conhece paz
quem luta por meio pão
quem morre por um sim ou por um não».
[…]

No Fundo
«(…) Sabemos que, quanto a isto, dificilmente nos compreenderão, e é bom que assim seja. Mas considere cada um quanto valor quanto significado está contido mesmo nos nossos mais pequenos hábitos quotidianos, nos nossos mil objectos que até o mendigo mais humilde possui: um lenço, uma velha carta, a fotografia de uma pessoa amada. Estas coisas fazem parte de nós, quase como se fossem membros do nosso corpo; não podemos sequer pensar em sermos privados delas, no nosso mundo, pois imediatamente encontraríamos outras para substituir as velhas, outros objectos que são nossos porquanto guardam e suscitam memórias nossas. Imagine-se agora um homem ao qual, juntamente com as pessoas amadas, tiram a casa, os hábitos, a roupa, enfim, tudo, literalmente tudo quanto possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à carência, esquecido da dignidade e bom senso, pois acontece facilmente, a quem tudo perdeu, perder-se a si próprio; reduzido a tal ponto, que outros poderão sem problemas de consciência decidir da sua vida ou da sua morte para além de qualquer sentido de afinidade humana; no caso mais optimista, na base de uma mera avaliação de utilidade. Compreender-se é então o duplo significado da expressão campo de extermínio, e será claro o que entendemos exprimir com esta frase: jazer no fundo.
Haftling: aprendi que sou um Haftling. O meu nome é 174 517; fomos baptizados, guardaremos até à morte a marca tatuada no braço esquerdo. A operação foi levemente dolorosa e extraordinariamente rápida: puseram-nos todos em fila e, um a um, pela ordem alfabética dos nossos nomes, passámos diante de um hábil funcionário munido de uma espécie de punção com a agulha muito curta. Ao que parece, é esta a verdadeira iniciação: só mostrando o número se recebem o pão e a sopa. Foram precisos vários dias, e não poucos socos e bofetadas, para que nos habituássemos a mostrar o número prontamente, de forma a não atrapalhar as operações diárias de distribuição da comida; foram precisos semanas e meses para que aprendêssemos o som em língua alemã. E durante muitos dias, sempre que o hábito dos dias livres me levava a procurar as horas no relógio de pulso, no seu lugar aparecia-me ironicamente o meu novo nome, o número bordado em sinais azulados debaixo da epiderme.
Só muito mais tarde, e pouco a pouco, alguns de nós acabaram por aprender algo da funesta ciência dos números de Auschwitz, em que se compendiam as etapas da destruição do judaísmo da Europa. Aos velhos do campo, o número diz tudo: a época de entrada no campo, o comboio de que se fazia parte e, por consequência, a nacionalidade. Cada um tratará com respeito os números de 30 000 a 80 000: já só restam algumas centenas, e indicam os poucos sobreviventes dos guetos polacos. Convém abrir bem os olhos quando se entra em relações comerciais com um 116 000 ou um 117 000: estão reduzidos a cerca de quarenta, mas trata-se dos gregos de Salonica, é preciso não se deixar enganar. Quanto aos números altos, contêm uma nota essencialmente cómica, como acontece com as expressões caloiro ou recruta na vida normal: o número alto típico é um indivíduo pançudo, dócil e ingénuo ao qual podes fazer acreditar que na enfermaria distribuem sapatos de couro para indivíduos de pés delicados, convencendo-o a correr até lá, deixando a sua marmita de sopa à tua guarda; podes vender-lhe uma colher por três rações; podes mandá-lo ter com o mais feroz dos Kapos, para lhe perguntar (aconteceu-me a mim!) se é verdade que o dele é o Kartoffelschalkonmando, o Kommando Descasca-Batatas, e se é possível alistar-se.
De resto, todo o processo de integração nesta ordem nova para nós realiza-se numa chave grotesca e sarcástica. Uma vez acabada a operação de tatuagem, fecham-nos numa barraca onde não está ninguém. As camas em beliche estão arrumadas, mas estamos severamente proibidos de mexer nelas e de nos sentarmos, pelo que nos movimentamos sem destino durante metade do dia no escasso espaço disponível, ainda atormentados pela sede furiosa da viagem. Depois, a porta abre-se, entra um rapaz com a farda às riscas, com um ar bastante civilizado, pequeno, magro e louro. Fala francês, e muitos de nós caímos-lhe em cima, bombardeando-o com todas as perguntas que até agora trocámos uns com os outros inutilmente». In Primo Levi, Se Questo è um Uomo, Einaudi, Turim, 1958, Se Isto é um Homem, 1998, Tradução de Simonetta Neto, 10ª edição, 2013, Teorema, ISBN 978-972-695-945-8.

Em memória do Fernando José. Que estejas em paz.

Cortesia de Teorema/JDACT

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Se Isto é um Homem. Tradução de Simonetta Neto. Primo Levi. «… com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável»

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No Fundo
«(…) Andamos para a frente e para trás sem sentido, e falamos , cada um fala com todos os outros, o que provoca um grande barulho. A porta abre-se, entra um alemão, é o mesmo sargento de há pouco; fala brevemente, o intérprete traduz. O sargento diz que têm de se calar, pois isto não é uma escola tabínica. Vê-se que as palavras não são suas, as palavras maléficas torcem-lhe a boca ao sair, como se cuspisse algo de repugnante. Pedimos-lhe que pergunte do que é que estamos à espera, por quanto tempo ainda ficaremos aqui, pelas nossas mulheres, tudo: mas ele diz que não, que não quer perguntar. Este Flesch, que se adapta sem nenhuma vontade a traduzir em italiano frases alemãs cheias de gelo e se recusa a passar para alemão as nossas perguntas porque sabe que é inútil, é um judeu alemão à beira dos cinquenta, que tem na cara uma grande cicatriz de um ferimento que sofreu ao combater contra os italianos no Piave. É o homem fechado e taciturno, pelo qual experimento um respeito instintivo, porque sinto que começou a sofrer antes de nós. O alemão vai-se embora, e ficamos calados, embora com um pouco de vergonha por ficarmos calados. Ainda era noite, perguntávamos a nós próprios se jamais chegaria o dia. De novo a porta se abriu e entrou um tipo com a farda às riscas. Era diferente dos outros, mais velho, de óculos, um rosto mais civilizado, e muito menos robusto. Fala connosco e fala italiano.
Já estamos cansados de nos espantar parece que estamos a assistir a um drama louco, daqueles em que aparecem em cena as bruxas, o Espírito Santo e o Demónio. Fala mal italiano, com um forte sotaque estrangeiro. Fala demoradamente, é muito gentil, procura responder a todas as nossas perguntas. Encontramo-nos em Monowitz, próximo de Auschwitz, na Alta Silésia: uma região habitada promiscuamente por alemães e polacos. Este campo é um campo de trabalho, em alemão diz-se Arbeitslager; todos os prisioneiros (são cerca de dez mil) trabalham numa fábrica de borracha, que se chama Buna, e por isso também o campo se chama Buna. Iremos receber sapatos e roupa; não, os nossos, não: outros sapatos, outra roupa, como a dele. Agora estamos nus porque estamos à espera do duche e da desinfecção, que irão ocorrer logo após o despertar, porque não se entra no campo sem fazer a desinfecção.
Com certeza, teremos de trabalhar, todos aqui têm de trabalhar. Mas há trabalho e trabalho: ele, por exemplo, é médico, é um médico húngaro que estudou em Itália; é o dentista do Lager, Encontra-se num logo há quatro anos (não neste: a Buna só existe há um ano e meio), porém, podemos vê-lo, está bem, não está muito magro. Porque é que se encontra no Lager? É judeu como nós?, não, diz ele com simplicidade, eu sou um criminoso. Fazemos-lhe muitas perguntas; às vezes ri-se, responde a algumas, não responde a outras; vê-se bem que evita certas questões. Das mulheres não fala: diz que estão bem, que cedo voltaremos a vê-las, mas não diz como, nem onde. Mas conta-nos outras coisas, coisas estranhas e loucas, talvez também ele esteja a gozar connosco. Talvez esteja louco: no Lager, um homem enlouquece. Diz que todos os domingos há concertos e desafios de futebol. Diz que quem sabe pugilismo pode tornar-se cozinheiro. Diz que quem trabalha bem recebe como prémio senhas com as quais se pode comprar tabaco e sabão. Diz que a água de facto não é potável, mas que todos os dias é distribuído um sucedâneo de café, que geralmente ninguém bebe, porque a sopa é água da quanto basta para satisfazer a sede. Pedimos-lhe para nos dar algo que se beba, mas ele diz que não pode, que veio ter connosco às escondidas, contra a proibição dos SS, porque ainda não estamos desinfectados, e tem de se ir embora imediatamente; veio porque tem simpatia pelos italianos e porque, diz, tem um pouco de coração.
Perguntamos-lhe ainda se há outros italianos no campo, diz que há alguns, poucos, não sabe quantos, e de repente muda de conversa. Entretanto, tocou um sino e ele fugiu imediatamente, deixando-nos atónitos e desconcertados. Alguns sentem-se mais animados, eu não, eu continuo a pensar que também este dentista, este indivíduo incompreensível, quis divertir-se à nossa custa, e não quero acreditar numa palavra do que disse. Ao toque do sino, sentiu-se o campo escuro acordar. De repente, a água começou a brotar a ferver dos chuveiros, cinco minutos de felicidade; mas logo a seguir irrompem quatro tipos (talvez sejam os barbeiros) que nos impelem, molhados e fumegantes, com gritos e empurrões para a sala adjacente, que está gelada; aqui outras pessoas, gritando, deitam para cima de nós não sei que farrapos e põem-nos na mão um par de sapatões com sola de madeira; não temos tempo de perceber que já nos encontramos ao ar livre, na neve azul e gelada da madrugada e, descalços e nus, com toda a roupa na mão, temos de correr até outra barraca, a uma centena de metros de distância. Aqui, é-nos permitido vestir-nos.
Quando acabámos, cada um ficou no seu cantinho, e não ousámos levantar o olhar uns para os outros. Não há espelhos para nos vermos, mas o nosso aspecto está diante de nós, reflectido em cem rostos lívidos, em cem fantoches miseráveis e sórdidos. Estamos transformados nos fantasmas que entrevimos ontem à noite. Então, pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão e, se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá--lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva». In Primo Levi, Se Questo è um Uomo, Einaudi, Turim, 1958, Se Isto é um Homem, 1998, Tradução de Simonetta Neto, 10ª edição, 2013, Teorema, ISBN 978-972-695-945-8.

Em memória do Fernando José. Que estejas em paz.

Cortesia de Teorema/JDACT