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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Ao Encontro de Espinosa. António Damásio. «E o que é o ‘conatus’ de Espinosa em termos biológicos contemporâneos? É o agregado de disposições presentes em circuitos cerebrais que, uma vez activados, levam à procura da sobrevida e do bem-estar»

Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções.. Nos Ramos Médios
«(…) Não contente com as benesses da sobrevida, a natureza tratou de nos proporcionar uma mais valia: o equipamento inato da regulação da vida não está desenhado para produzir um estado neutro, a meio caminho entre a vida e a morte. Pelo contrário, a finalidade do esforço homeostático é produzir um estado de vida melhor do que neutro, produzir aquilo que nós, seres pensantes, identificamos com o bem-estar. A colecção inteira de processos homeostáticos governa a vida, de momento a momento, em cada célula dos nossos corpos. Esta governação é conseguida por meio de um arranjo simples. Primeiro, opera-se uma mudança no ambiente de um organismo, internamente ou externamente. Segundo, as mudanças podem alterar potencialmente o curso da vida de um organismo, constituindo uma ameaça para a sua integridade ou uma oportunidade para a sua melhoria. Terceiro, o organismo detecta a mudança e responde de forma a criar uma situação mais benéfica para a sua auto-preservação. Todas as reacções homeostáticas funcionam desta maneira e constituem, por isso mesmo, meios de avaliar as circunstâncias internas ou externas de um organismo, de modo a permitir uma actuação que corresponda a essas circunstâncias. As reacções homeostáticas detectam dificuldades ou oportunidades e resolvem, por meio de acções, o problema de eliminar as dificuldades ou aproveitar as oportunidades. O que difere, a esse nível, é a complexidade da avaliação e da resposta, maiores do que nas simples reacções a partir das quais as emoções-propriamente-ditas foram construídas no curso da evolução biológica. Está bem de ver que a tentativa contínua de conseguir um estado de vida equilibrado é um aspecto profundo e definidor da nossa existência. É o que nos diz Espinosa, que vai mais longe e chama a esta tentativa a primeira realidade da nossa existência, uma realidade que ele descreve como o esforço implacável da auto-preservação presente em qualquer ser. Espinosa designa esse esforço implacável com o termo conatus, a palavra latina que pode também traduzir-se como tendência, no sentido em que aparece nas Proposições VI, VII e VII da Ética, Parte III. Nas palavras de Espinosa: cada coisa na medida do seu poder, esforça-se por perseverar no seu ser e, o esforço através do qual cada coisa tende a perseverar no seu ser nada mais é do que a essência dessa coisa.
Interpretada à luz do conhecimento actual, a noção de Espinosa implica que um organismo vivo está construído de forma a lutar, contra toda e qualquer ameaça, pela manutenção da coerência das suas estruturas e funções. O conatus diz respeito não só ao ímpeto de auto-preservação, mas também ao conjunto de actos de auto-preservação que mantêm a integridade de um corpo. Apesar de todas as transformações por que um corpo vivo passa, à medida que se desenvolve, substitui as suas partes constitutivas e envelhece, o conatus encarrega-se de respeitar o mesmo plano estrutural em todas essas operações e, deste modo, de manter o mesmo indivíduo. Os sentimentos suportam o nível de regulação homeostática que se segue ao das emoções-propriamente-ditas. Os sentimentos são a expressão mental de todos os outros níveis da regulação homeostática. E o que é o conatus de Espinosa em termos biológicos contemporâneos? O conatus é o agregado de disposições presentes em circuitos cerebrais que, uma vez activados por certas condições do ambiente interno ou externo, levam à procura da sobrevida e do bem-estar. As variadas actividades do conatus estão representadas no cérebro por sinais químicos e neurais. Os numerosos aspectos do processo da vida são continuamente representados no cérebro em mapas constituídos por células nervosas que se encontram em diversos locais do cérebro». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 16 de novembro de 2014

Ao Encontro de Espinosa. António Damásio. «Quanto mais complexa a reacção, mais a aprendizagem assume este papel. Reacções como o chorar e o soluçar estão prontas à data do nascimento, mas as razões por que choramos ou soluçamos através da vida variam com a nossa experiência»

Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções.. Nos Ramos Médios
«(…) Comportamentos normalmente associados à noção de prazer (e recompensa) ou dor (e punição). Estes comportamentos incluem reacções de aproximação e retraimento do organismo em relação a um objecto ou situação específicos. Nos seres humanos, que não apenas sentem mas podem também relatar aquilo que sentem, estas reacções são descritas como dolorosas ou aprazíveis, como recompensadoras ou punitivas. Por exemplo, quando os tecidos celulares do corpo estão à beira de sofrer uma lesão, o que acontece no caso de uma queimadura ou de uma infecção, as células da região afectada emitem sinais químicos chamados nociceptivos (a palavra nociceptivo significa indicador de dor). Como resposta e esses sinais, o organismo reage automaticamente com comportamentos de dor e comportamentos de doença. Estes comportamentos são colecções de acções, por vezes subtis, por vezes óbvias, com as quais a natureza tenta restabelecer o equilíbrio biológico de forma automática. Da lista dessas acções faz parte o retraimento do corpo (ou de uma parte do corpo), relação à origem do problema, a protecção da parte do corpo afectada e expressões faciais de alarme e sofrimento. Estas acções são acompanhadas de diversas respostas, invisíveis a olho nu, organizadas pelo sistema imunitário. De entre essas respostas consta o aumento de certas classes de glóbulos brancos, o envio desses glóbulos brancos para as áreas do corpo ameaçadas e a produção de moléculas tais como as citoquinas, que ajudam tanto na luta contra a causa do ataque (o micróbio invasor) como no restauro de um tecido lesionado. É o conjunto destas acções e dos sinais químicos relacionados com a sua produção que resulta na experiência a que chamam a dor.
Da mesma forma que o cérebro reage a um problema que se declara no corpo, também reage quando o corpo funciona bem. Quando o corpo funciona sem dificuldade e quando a transformação e a utilização de energia se desenrolam com à-vontade, o corpo comporta-se com um estado definido. A aproximação em relação a outros é facilitada. Nota-se uma descontracção e abertura do corpo, bem como expressões que traduzem confiança e bem-estar; por outro lado, libertam-se certas classes de moléculas, tais como as endorfinas. O conjunto destas reacções e dos sinais químicos com elas associados resultam na experiência do prazer. A dor ou o prazer têm causas diversas, problemas da função corporal, funcionamento ideal do metabolismo ou acontecimentos exteriores que ameaçam o organismo ou promovem a sua protecção. Mas a experiência da dor ou do prazer não é a causa dos comportamentos de dor ou de prazer, e não é sequer necessária para que esses comportamentos ocorram.
Seres extremamente simples exibem comportamentos emotivos embora a probabilidade de sentirem esses comportamentos seja pequena. Certas pulsões e motivações. Os exemplos principais incluem a fome, a sede, a curiosidade e os comportamentos exploratórios, os comportamentos lúdicos e os comportamentos sexuais. Espinosa colocou todas estas reacções sob a excelente designação de apetites e, com grande refinamento, usou uma outra palavra, desejo, para a situação em que o indivíduo consciente toma conhecimento de um apetite. A palavra apetite designa o estado comportamental de um organismo afectado por uma pulsão; a palavra desejo refere-se ao sentimento consciente de um apetite e ao eventual consumar ou frustrar de um apetite. Esta distinção espinosiana é equivalente à distinção entre emoção e sentimento. É claro que os seres humanos têm tanto apetites como desejos ligados, de forma subtil, às emoções e os sentimentos.

Próximo do Cume
As emoções-propriamente-ditas. É aqui que encontramos as jóias da regulação automática da vida: as emoções no sentido estrito do termo, desde a alegria à mágoa, desde o medo ao orgulho, desde a vergonha à simpatia. E na parte mais alta da árvore, na ponta dos seus diversos ramos, vamos encontrar os sentimentos. O genoma garante que todos estes dispositivos estão activos à data do nascimento, ou pouco depois, com pouca ou nenhuma dependência da aprendizagem, embora a aprendizagem venha a desempenhar um papel importante na determinação das ocasiões em que estes dispositivos virão a ser usados. Quanto mais complexa a reacção, mais a aprendizagem assume este papel. Reacções como o chorar e o soluçar estão prontas à data do nascimento, mas as razões por que choramos ou soluçamos através da vida variam com a nossa experiência. Todas estas reacções são automáticas e, em geral, estereotipadas, embora a aprendizagem possa modelar a execução de certos padrões esterotípicos. O riso ou o choro são executados de forma diferente em circunstâncias diferentes, tal como as notas que constituem a partitura de uma sonata podem ser tocadas de forma diferente. Seja como for, todas estas reacções têm como fim, de forma directa ou indirecta, regular a vida e promover a sobrevida. Os comportamentos de prazer e de dor, as pulsões e as motivações, e as emoções-propriamente ditas, são por vezes designadas pela mesma palavra, emoções no sentido lato do termo, o que é aceitável e razoável dado que todas estas reacções têm uma parecença formal e têm precisamente a mesma finalidade». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 23 de março de 2014

Leituras. Ao Encontro de Espinosa. António Damásio. «A palavra homeostasia descreve este conjunto de processos de regulação e, ao mesmo tempo, o resultante estado de vida bem regulada. No curso da evolução biológica, o equipamento inato e automático do governo da vida tornou-se muito sofisticado»

Níveis da regulação homeostática automática
Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções
As Emoções Precedem os Sentimentos
«(…) O que me lembra James Joyce, quando diz em Ulisses: Shakespeare é a coutada feliz de todos os espíritos que perderam o seu equilíbrio. Chegados aqui, é altura de perguntar: porque é que as emoções precedem os sentimentos? A minha resposta é simples: temos emoções primeiro e sentimentos depois porque, na evolução biológica, as emoções vieram primeiro e os sentimentos depois. As emoções foram construídas a partir de reacções simples que promovem a sobrevida de um organismo e que foram facilmente adoptadas pela evolução. Tem-se a impressão de que os deuses deram grande esperteza natural às criaturas que queriam salvar. Com efeito, muito antes dos seres vivos terem uma inteligência criadora e ainda antes de terem cérebros propriamente ditos, é como se a natureza tivesse decidido que a vida era, ao mesmo tempo, extremamente precária e extremamente preciosa. É claro que sabemos que a natureza não funciona de acordo com os planos de nenhum arquitecto e não decide como os artistas ou engenheiros decidem, mas talvez a metáfora nos ajude. Todos os organismos vivos, desde a humilde amiba até ao ser humano, nascem com dispositivos que solucionam automaticamente, sem qualquer raciocínio prévio, os problemas básicos da vida. Esses problemas são os seguintes:
  • encontrar fontes de energia;
  • incorporar e transformar energia;
  • manter, no interior do organismo, um equilíbrio químico comparável com a vida; 
  • substituir os sub-componentes que envelhecem e morrem de forma a manter a estrutura do organismo;
  • defender o organismo de processos de doença e de lesão física.
A palavra homeostasia descreve este conjunto de processos de regulação e, ao mesmo tempo, o resultante estado de vida bem regulada. No curso da evolução biológica, o equipamento inato e automático do governo da vida, a máquina homeostática, tornou-se muito sofisticado. Na base da organização da homeostasia encontramos respostas simples, tais como a de aproximação (approach) ou de retraimento (withdrawal) de um organismo inteiro ern relação a um determinado objecto; ou a de excitação ou quiescência. Nos níveis mais altos da organização encontramos respostas competitivas ou de cooperatividade. Podemos imaginar a máquina da homeostasia como uma árvore bem alta e larga em que os variados ramos são os fenómenos automáticos da regulação da vida. Em organismos multicelulares, caminhando do chão para o topo, eis o que devemos encontrar neste árvore.

Nos Ramos Mais Baixos
O processo de metabolismo. Este processo inclui componentes químicos e mecânicos (por exemplo, secreções endócrinas/hormonais; contracções musculares relacionadas com a digestão) que mantêm o equilíbrio químico interior. Estas reacções governam o ritmo cardíaco e a pressão arterial, dos quais depende a distribuição apropriada do fluxo sanguíneo no corpo; os ajustamentos da acidez e da alcalinidade do meio interior (os fluidos que circulam no sangue e nos espaços entre as células); e o armazenamento e distribuição de proteínas, lípidos e hidratos de carbono, necessários para abastecer o organismo de energia, que, por sua vez, é necessária para o movimento, para a manufactura de enzimas e para o manter e renovar da estrutura do organismo.

Os reflexos básicos. Incluem o reflexo de startle (reflexo de alarme ou susto) que os organismos exibem quando reagem a um ruído inesperado, e os tropismos ou taxes, que levam os organismos a escolher a luz e não o escuro, ou a evitar o frio e o calor extremos.

O sistema imunitário. É um sistema que defende o organismo de vírus, de bactérias, de parasitas e de moléculas tóxicas que o podem invadir do exterior. Curiosamente, o sistema imunitário também está preparado para manejar moléculas que normalmente residem em células saudáveis do organismo e que se podem tornar tóxicas quando as células doentes ou mortas as libertam no meio interior (por exemplo, o ácido glutâmico e o ácido hianorónico). Em suma, o sistema imunitário constitui uma primeira linha de defesa dos organismos vertebrados quando a sua integridade é ameaçada, quer do exterior quer do interior».

In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

Ao Encontro de Espinosa. Leituras. António Damásio. «… o que Ricardo devia ter dito, com as devidas desculpas para Shakespeare, é o seguinte: Ó, como esta forma exterior de lamentos lança uma sombra intolerável de pesar sobre o silêncio da minha alma torturada»

Cortesia de wikipedia

Os Apetites e as Emoções
Shakespeare já o tinha dito
«(…) Na parte final de Ricardo II, coma coroa já perdida e a prisão cada vez mais perto, Ricardo explica a Bolingbroke a distinção entre emoção e sentimento. Ricardo pede que lhe tragam um espelho e confronta no seu rosto o espectáculo do declínio. Declara então que a forma exterior de lamentos que o seu rosto exprime nada mais é do que as sombras do pesar que ninguém vê, um pesar que se avoluma em silêncio na alma torturada. O seu pesar, diz ele, é inteiramente interior. Em apenas quatro versos, Shakespeare anuncia que o processo unificado e aparentemente singular dos afectos, a que geralmente nos referimos indiscriminadamente como emoções ou sentimentos, pode ser analisado em partes. A elucidação dos sentimentos requer esta distinção. É verdade que o uso habitual da palavra emoção tende a incluir a noção de sentimento. Mas, na tentativa de compreender a cadeia complexa de acontecimentos que começa na emoção e termina no sentimento, separar a parte do processo que se torna pública da parte do processo que sempre se mantém privada ajuda a clarificar as ideias. À parte pública do processo chamo emoção e à parte privada sentimento. Peço ao leitor que me acompanhe nesta escolha de palavras e conceitos, porque esta escolha nos vai permitir descobrir qualquer coisa de novo na biologia que respeita a esses fenómenos. No contexto deste livro, as emoções são acções ou movimentos, muitos deles públicos, que ocorrem no rosto, na voz ou em comportamentos específicos. Alguns comportamentos da emoção não são perceptíveis a olho nu mas podem tornar-se visíveis com sondas científicas modernas, tais como a determinação de níveis hormonais sanguíneos ou de padrões de ondas electrofisiológicas. Os sentimentos, pelo contrário, são necessariamente invisíveis para o público, tal como é o caso com todas as outras imagens mentais, escondidas de quem quer que seja excepto do seu devido proprietário, a propriedade mais privada do organismo em cujo cérebro ocorrem.
As emoções desenrolam-se no teatro do corpo. Os sentimentos desenrolam-se no teatro da mente. Tal como veremos, as emoções e as várias reacções que as constituem fazem parte dos mecanismos básicos da regulação da vida. Os sentimentos também contribuem para a regulação da vida mas a um nível mais alto. As emoções e as reacções com elas relacionadas parecem preceder os sentimentos na história da vida e constituir o alicerce dos sentimentos. Os sentimentos, por outro lado, constituem o pano de fundo da mente. As emoções e os sentimentos estão tão intimamente relacionados ao longo de um processo contínuo que tendemos a vê-los, compreensivelmente, como uma entidade simples. No entanto, é possível entrever sectores diferentes nesse processo contínuo e, com a ajuda do microscópio da neurociência cognitiva, é possível e legítimo dissociar esses sectores. Com a ajuda dos métodos científicos modernos, um observador pode examinar objectivamente os comportamentos que perfazem uma emoção e, desse modo, estudar o prelúdio dos processos do sentimento. Transformar emoção e sentimento em objectos separados de pesquisa, ajuda-nos a descobrir como se sente.

As Emoções Precedem os Sentimentos
Ao discutir a precedência da emoção sobre o sentimento, devo começar por chamar a atenção para qualquer coisa que Shakespeare deixou ambígua nos seus versos para Ricardo. A ambiguidade tem a ver com a palavra sombra e com a possibilidade de que o sentimento pudesse surgir antes da respectiva emoção, uma possibilidade que de facto não se verifica. Os lamentos exteriores são uma sombra do pesar invisível, diz Ricardo, uma espécie de reflexo, no espelho, do objecto principal, o sentimento de pesar, tal como o rosto de Ricardo, no espelho, reflecte Ricardo, o objecto principal da peça. Esta ambiguidade é fácil de compreender.
Gostamos de acreditar que aquilo que está escondido é a origem daquilo que exprimimos, e claro que acreditamos que, no que diz respeito à mente, o sentimento é aquilo que conta. Eis a substância, diz Ricardo quando fala do seu pesar oculto, e concordamos com ele. Mas principal não significa que veio primeiro e, ainda menos, causativo. A grande importância dos sentimentos não deixa entrever facilmente a forma como eles surgem, e pode levar à falsa ideia de que os sentimentos ocorrem primeiro e, subsequentemente, se exprimem em emoções. Este ponto de vista é incorrecto e é uma das causas do atraso no estudo neurobiológico dos sentimentos. Na realidade, são os sentimentos que constituem sombras das manifestações emocionais. Com efeito, o que Ricardo devia ter dito, com as devidas desculpas para Shakespeare, é o seguinte: Ó, como esta forma exterior de lamentos lança uma sombra intolerável de pesar sobre o silêncio da minha alma torturada». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

Ao Encontro de Espinosa. Leituras. António Damásio. «Ambos passaram a maior parte das suas vidas no paraíso holandês, um deles por direito de nascimento, o outro por escolha deliberada, Descartes tinha decidido no princípio da sua carreira que as suas ideias entrariam em provável conflito com a igreja Católica…»

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«(…) A igreja considerou o livro um ataque à religião organizada e ao poder político. Depois disso Espinosa deixou de publicar. Os seus últimos escritos ainda estavam na gaveta da secretária no dia da sua morte, mas Van der Spijk tinha instruções precisas: a secretária foi colocada numa barca com rumo a Amsterdão, onde foi entregue ao verdadeiro editor de Espinosa, John Rieuwertz. A colecção dos manuscritos póstumos, a Ética, constantemente revista, a Gramática Hebraica, o segundo e incompleto Tratado Político, o Ensaio para a Melhoria da Compreensão, e a Correspondência, foi publicada nesse mesmo ano de 1677 sob as inicias BdeS. Devemos recordar esta situação sempre que pensamos nas províncias holandesas como um paraíso de tolerância intelectual. Eram, de facto, um paraíso, mas a tolerância tinha limites.
Durante a maior parte da vida de Espinosa, a Holanda foi uma república, e durante a sua vida adulta a política holandesa foi dominada por Jan de Witt no seu papel de Grande Pensionário. De Witt era ambicioso e autocrático, mas era um espírito esclarecido. Não se sabe ao certo se Witt e Espinosa se conheceram pessoalmente, mas sem dúvida Witt conhecia o trabalho do filósofo, e é provável que tenha contido, mais do que uma vez, a fúria dos políticos calvinistas mais conservadores na altura em que o Tractatus começou a causar escândalo. É sabido que Witt possuía o Tractatus desde 1670, e pensa-se que se aconselhou com Espinosa. Seja como for, não há qualquer dúvida de que Witt manifestou interesse pelo pensamento político de Espinosa e tinha considerável simpatia pelas suas opiniões religiosas. Espinosa tinha boas razões para se sentir protegido pela presença de Witt.
Esta relativa segurança de Espinosa terminou abruptamente em 1672 durante uma das horas mais negras da história da Holanda. Num episódio inesperado que define uma era politicamente volátil, Witt e o seu irmão foram assassinados por uma turba, em consequência da suspeita infundada de que eram traidores da causa holandesa na guerra com a França que então se desenrolava. Os atacantes espancaram e esfaquearam os irmãos Witt e arrastaram-nos até aos cadafalsos da cidade, onde ambos chegaram já morros. Os corpos foram despidos, pendurados como num talho, esquartejados, e os fragmentos vendidos como recordações ou comidos no meio de um regozijo doentio. Tudo isto se passou perto do sítio onde estou neste momento, praticamente ao virar da esquina da casa de Espinosa. O episódio chocou a Europa intelectual do tempo. Leibniz declarou-se horrorizado, tal como o eternamente calmo Huygens na segurança da sua vida parisiense. Mas para Espinosa o acontecimento foi devastador. O revelar da natureza humana no seu mais selvagem e vergonhoso abalou a equanimidade que Espinosa mantinha com enorme disciplina. Espinosa preparou um dístico com as palavras ultimi barbororum (o cúmulo da barbaridade), e dispunha-se a ir colocá-lo junto do que restava dos irmãos Witt. Felizmente que a sensatez de Van der Spijk levou a melhor. Van der Spijk fechou a porta da casa à chave e assim evitou que Espinosa enfrentasse uma morte certa. Espinosa chorou em público, pela única vez, ao que parece. O porto de abrigo intelectual, mesmo que imperfeito, tinha desaparecido.
Olho para o túmulo de Espinosa, uma vez mais, e recordo-me da inscrição que Descartes preparou para o seu próprio túmulo: aquele que se escondeu bem, viveu bem. Apenas 27 anos separam a morte de Descartes e de Espinosa (Descartes morreu em 1650). Ambos passaram a maior parte das suas vidas no paraíso holandês, um deles por direito de nascimento, o outro por escolha deliberada, Descartes tinha decidido no princípio da sua carreira que as suas ideias entrariam em provável conflito com a igreja Católica e com a monarquia francesa, e partira discretamente para a Holanda. Ambos tinham tido que esconder e fingir, e, no caso de Descartes, talvez distorcer as suas próprias ideias. Ambos actuaram com sensatez e por razões óbvias. Em 1633, um ano depois do nascimento de Espinosa, Galileu foi interrogado pela inquisição romana e preso na sua própria casa. Nesse mesmo ano, Descartes suspendeu a publicação do seu Tratado do Homem, e, mesmo assim, teve de responder a ataques ferozes às suas opiniões. Em 1642, contradizendo o seu pensamento inicial, Descartes postulava uma alma imortal separada de um corpo perecível, talvez como uma tentativa desesperada de evitar novos ataques. Se foi essa a sua intenção a estratégia funcionou, embora não propriamente durante a sua vida. Mais tarde, dando novas provas de prudência, trocou a Holanda pela Suécia, para onde foi ensinar a irreverente rainha Cristina. Descartes morreu no meio do seu primeiro Inverno em Estocolmo, aos 54 anos. Devemos estar gratos por viver numa época bem mais tolerante, mas, mesmo assim, continua a recomendar-se prudência». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de PEA/JDACT

domingo, 4 de agosto de 2013

O Amor e o Ocidente. Denis de Rougemont. «Se o segredo da crise do casamento é simplesmente a atracção do proibido, donde nos vem esse gosto da infelicidade? Que ideia de amor trairá ele? Que segredo da nossa existência, do nosso espírito, talvez da nossa história?»

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O Mito de Tristão. Triunfo do romance e o que ele esconde
«(…) Mal-casados, decepcionados, revoltados, exaltados ou cínicos, infiéis ou enganados: quer na realidade ou em sonhos, no remorso ou no receio, no prazer da revolta ou na ansiedade da tentação, há pouca gente que se não reconheça pelo menos numa destas categorias. Renúncias, compromissos, rupturas, neurastenias, confusões irritantes e mesquinhas de sonhos, de obrigações, de secretas complacências, metade da infelicidade humana se resume na palavra adultério. Apesar de todas as nossas literaturas, ou talvez por causa delas, justamente, pode parecer por vezes que não se disse ainda nada sobre a realidade dessa infelicidade. E que certas questões das mais ingénuas, neste domínio, tenham sido mais vezes resolvidas do que propostas...
Por exemplo o mal verificado: deve a culpa ser lançada sobre a instituição do casamento ou, pelo contrário, sobre qualquer coisa que a arruine no próprio cerne das nossas ambições? Será, de facto, como muitos o pensam, a chamada concepção cristã do casamento que causa todo o nosso tormento ou, pelo contrário, será uma concepção do amor que não vimos que irá talvez tornar esse laço, desde o início, insuportável?
Verifico que o ocidental ama pelo menos tanto aquilo que destrói como o que assegura a felicidade dos cônjuges. Donde pode vir uma tal contradição? Se o segredo da crise do casamento é simplesmente a atracção do proibido, donde nos vem esse gosto da infelicidade? Que ideia de amor trairá ele? Que segredo da nossa existência, do nosso espírito, talvez da nossa história?

O Mito
Existe um grande mito europeu do adultério: o Romance de Tristão e Isolda. Através da desordem extrema dos nossos costumes, da confusão das morais e dos imoralismos que delas vivem, nos momentos mais puros de um drama, acontece que vemos transparecer, em filigrana, essa forma mítica. Como uma grande imagem simples, como uma espécie de tipo primitivo dos nossos mais complexos tormentos. E assim como, para se livrarem das confusões da nossa língua, os poetas costumam reportar as palavras às suas origens longínquas, ou seja, à coisa ou ao acto que se pensa que elas designavam no início, assim queria eu reportar a esse mito certas confusões dos nossos costumes. Etimologia das paixões, menos decepcionante que a das palavras, já que encontra na nossa existência, e não em qualquer ciência hipotética, sua imediata verificação.
Mas em primeiro lugar, dirá alguém, será exacto que o romance de Tristão é um mito? E, nesse caso, tentar analisá-lo não será destruir o seu encanto? Já não acreditamos que mito seja sinónimo de irrealidade ou de ilusão. Demasiados mitos manifestam entre nós uma força demasiado incontestável. Mas o abuso que se faz da palavra obriga a redefini-la. Poderia dizer-se, duma maneira geral, que o mito é uma história, uma fábula simbólica, simples e impressionante, que resume um número infinito de situações mais ou menos análogas. O mito permite apreender instantaneamente certos tipos de relações constantes e destacá-las da confusão das aparências quotidianas. Num sentido mais restrito, os mitos traduzem as regras de conduta de um grupo social ou religioso. Procedem, portanto, do elemento sagrado à volta do qual se constituiu o grupo (narrativas simbólicas da vida e da morte dos deuses, lendas que explicam os sacrifícios ou a origem dos tabus, etc.). Frequentemente se notou já que um mito não tem autor.
A sua origem tem de ser obscura.  E o seu próprio sentido o é, em parte. Apresenta-se como a expressão anónima de realidades colectivas ou, mais exactamente, comuns. A obra de arte, poema, conto ou romance, distingue-se portanto radicalmente do mito. O seu valor não procede, com efeito, senão do talento do seu criador. O que importa nela é justamente o que não importa no caso do mito: a sua beleza, a sua verosimilhança e todas as suas qualidades de êxito singular (originalidade, habilidade, estilo, etc.).
Mas o carácter mais profundo do mito é o poder que ele tem sobre nós, em geral involuntariamente. O que faz com que uma história, um acontecimento ou mesmo uma personagem se tornem mitos é precisamente esse domínio que exercem sobre nós, não desejado. Uma obra de arte, como tal, não tem a bem dizer um poder de coacção sobre o público. Por bela e poderosa que seja, podemos sempre criticá-la, ou apreciá-la por razões individuais. O mesmo não pode dizer-se do mito: o seu enunciado desarma toda a crítica, reduz ao silêncio a razão, ou, pelo menos, torna-a ineficaz. Ora eu proponho-me encarar o Tristão, não como obra literária, mas como tipo das relações do homem e da mulher num dado grupo histórico: a elite social, a sociedade cortês e imbuída de cavalaria dos séculos XII e XIII. Este grupo, a bem dizer, dissolveu-se há muito tempo. Contudo, as suas leis são ainda as nossas, duma maneira secreta e difusa. Profanadas e renegadas pelos nossos códigos oficiais, tornaram-se tanto mais coercivas quanto já só têm poder sobre os nossos sonhos». In Denis de Rougemont. L’Amour et l’Occident, Librarie Plon, 1938, O Amor e o Ocidente, Vega, Lisboa, 1956.

Cortesia de Vega/JDACT

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Leituras. Parte XXXVI. António Damásio. Ao Encontro de Espinosa: «A julgar pelo tom da sua correspondência, Espinosa era simpático com a gente simples e impaciente com os seus pares. Ao que parece tolerava aqueles que eram tolos mas modestos, mas não a outra espécie de tolos. Sei que o túmulo de Espinosa está no adro da Igreja, e da casa dos vivos talvez não seja má ideia ir para a casa dos mortos»

Cortesia de tribodejacob e vdrpatricewordpress

«Mas aos 24 anos, depois de ter sido expulso da sua própria sinagoga, Espinosa adoptou o nome de Benedictus, abandonou o conforto da casa de família e começou a calma e deliberada jornada cuja última paragem foi aqui no Paviljoensgracht. O nome português Bento, o nome hebreu Baruch e o nome Benedictus em latim têm precisamente o mesmo significado: bendito. Que diferença fazia, um nome ou outro? Uma imensa diferença, diria eu; as palavras podiam ser superficialmente equivalentes, mas o conceito por detrás de cada uma delas era radicalmente diferente.

Cuidado
A porta do Paviljoensgracht continua fechada e de momento a única coisa que posso fazer é imaginar alguém a sair de uma barca atracada próxima do número 72 e a caminhar para a casa na esperança de ser recebido por Espinosa, nesses tempos, o Paviljoensgracht era um canal largo; mais tarde o canal foi cheio de entulho e transformado numa rua, tal como tantos outros canais em Amsterdão ou Veneza. O simpático Van der Spijk, senhorio de Espinosa e pintor abre a porta. Manda entrar o visitante para o seu estúdio, que fica atrás das duas grandes janelas junto à porta principal, e pede-lhe para esperar enquanto previne Espinosa, o seu inquilino.

jdact

Os quartos de Espinosa são no terceiro andar e ele irá descer pela escada de caracol, uma daquelas escadas íngremes e apertadas que dão mau nome à arquitectura holandesa. Espinosa está elegantemente vestido na sua farpela fidalga, nada de muito novo, nada de muito gasto, tudo em bom estado, colarinho branco engomado, calças pretas de veludo, colete de cor preta, casaco de pêlo de camelo preto, corte perfeito, sapatos de verniz preto e fivela de prata. Ah, falta a bengala de madeira, indispensável para o descer da escada.

A entrada de Espinosa é fulgurante. Tem um rosto equilibrado, uma pele barbeada e os olhos negros e brilhantes dominam a sua presença. O cabelo é preto, a pele amendoada, a estatura média. Com delicadeza e afabilidade mas com grande economia de palavras, Espinosa pede ao visitante que faça as suas perguntas. As respostas virão durante o chá. Van der Spijk continuará a pintar silenciosamente mas com uma dignidade salubre e democrática. Os seus sete filhos não perturbam a calma da tarde. A Senhora Van der Spijk costura fora da cena. As duas criadas preparam o jantar.
Espinosa fuma o seu cachimbo e o aroma do tabaco colide com o da aguarrás durante as perguntas e respostas. Entardece. Atrás destas janelas Espinosa recebeu centenas de visitantes, desde vizinhos e familiares dos Van der Spijk a jovens estudantes, desde Gottfried Leibniz e Christiaan Huygens a Henry Oldenburg, presidente da Royal Society Inglesa então acabada de criar. A julgar pelo tom da sua correspondência, Espinosa era simpático com a gente simples e impaciente com os seus pares. Ao que parece tolerava aqueles que eram tolos mas modestos, mas não a outra espécie de tolos.

Cortesia de imagensdigitais e filosofarpreciso

Também posso imaginar um cortejo fúnebre num outro dia cinzento, 25 de Fevereiro de 1677. O caixão tosco de Espinosa, seguido, a pé, pela família Van der Spijk, e por muitos homens ilustres ocupando seis carruagens, em marcha vagarosa a caminho da Igreja Nova. Decido então caminhar para a Igreja Nova reconstituindo o trajecto provável do cortejo. Sei que o túmulo de Espinosa está no adro da Igreja, e da casa dos vivos talvez não seja má ideia ir para a casa dos mortos.

Não se trata de um cemitério no sentido próprio do termo. É um adro de igreja, por detrás de grades mas com portões abertos, rodeado por edifícios da cidade, arbustos e relvado, musgo, trilhos de pedra e lama no meio de árvores altas. Encontro o túmulo exactamente onde tinha previsto, nas traseiras da igreja, uma campa rasa e uma pedra vertical, envelhecidas pelo tempo e sem qualquer decoração. A pedra vertical tem o nome de Espinosa e a inscrição «caute», o que significa «cuidado». O conselho é um pouco arrepiante quando se pensa que os restos mortais de Espinosa não estão, de facto, aqui, e que o seu corpo foi roubado, não se sabe de todo por quem, enquanto jazia na igreja, algumas horas depois do funeral. Espinosa tinha-nos dito que cada um devia pensar o que quisesse e dizer aquilo que pensava, mas mais devagar. Era preciso ter cuidado. Ainda é. Cuidado com o que se diz e se escreve ou nem os ossos se aproveitam. Espinosa usou a palavra ‘caute’ na sua correspondência, por baixo do desenho de uma rosa. Durante a última década da sua vida, todas as suas palavras foram ‘sub-rosa’. O frontispício do ‘Tractatus’ indicava um impressor fictício e uma cidade de impressão (Hamburgo) onde o livro não foi, de facto, impresso. O espaço para o nome do autor estava em branco. Mesmo assim, e apesar do livro ter sido escrito em latim e não em holandês, as autoridades holandesas proibiram-no em 1674. Tal como era de esperar o livro foi colocado no Índex do Vaticano». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Leituras. Parte XIII: António Damásio. Ao Encontro de Espinosa: «A dificuldade começa com o problema de que não há um só Espinosa, mas vários, pelo menos quatro. O primeiro é o Espinosa acessível, o radical erudito que discorda das igrejas do seu tempo. O seguinte, é o arquitecto político, o pensador que descreve as características de um estado democrático ideal. O terceiro, o filósofo que usa factos científicos, um método de demonstração geométrico. O quarto, o protobiologista, o pensador da vida escondido por detrás de numerosas proposições»


 Cortesia de tribodejacob e vdrpatricewordpress

«Certas ideias de Espinosa fazem parte da cultura contemporânea, mas, tanto quanto saiba, Espinosa não é referência corrente nas neurociências. Esta ausência merece um comentário. Espinosa é um pensador bem mais famoso do que conhecido. Por vezes aparece-nos como se viesse do nada, em esplendor solitário e inexplicável, embora esta impressão seja falsa. Apesar da sua originalidade, Espinosa faz parte integrante do seu meio intelectual.

Por vezes desaparece, de súbito, sem continuidade, outra falsa impressão dado que a essência de algumas das propostas proibidas se encontra regularmente no século que se seguiu à sua morte. Uma das explicações para toda esta celebridade desconhecida tem a ver com o escândalo que Espinosa causou no seu próprio tempo. As suas palavras hereges foram banidas décadas a fio e com raras excepções eram citadas para o atacar e não para o defender. A continuidade de reconhecimento intelectual que normalmente mantém o trabalho de um pensador foi assim interrompida e várias ideias de Espinosa foram usadas sem atribuição. Este estado de coisas, contudo, não chega para explicar porque é que Espinosa continuou a ganhar fama mas permaneceu desconhecido, uma vez que Goethe e Wordsworth se tornaram seus defensores públicos .Talvez que a explicação mais directa seja que Espinosa não é fácil de conhecer.

A dificuldade começa com o problema de que não há um só Espinosa, mas vários, pelo menos quatro, pelas minhas contas. O primeiro é o Espinosa acessível, o radical erudito que discorda das igrejas do seu tempo, apresenta uma nova concepção de Deus e propõe um caminho novo para a salvação humana. O Espinosa seguinte é o arquitecto político, o pensador que descreve as características de um estado democrático ideal, habitado por cidadãos responsáveis e felizes. O terceiro é o menos acessível da colecção: o filósofo que usa factos científicos, um método de demonstração geométrico e a intuição para formular uma concepção do universo e dos seus seres humanos.


Cortesia de europaamerica

Reconhecer estes três Espinosas e a teia das suas dependências chega para sugerir a grande complexidade de Espinosa. Mas o problema não fica por aí, porque há um quarto Espinosa, o protobiologista, o pensador da vida escondido por detrás de numerosas proposições, axiomas, provas, lemas e escólios. Dado que o progresso da ciência das emoções e dos sentimentos se coaduna com as propostas que Espinosa começou a articular, a segunda finalidade deste livro é estabelecer a ligação entre este Espinosa menos conhecido e a neurobiologia de hoje que lhe corresponde. O livro não aborda o seu pensamento fora dos aspectos que me parecem pertinentes para a biologia. O alvo é bem mais modesto. Através da história, a filosofia tem prefigurado a ciência e julgo que a ciência deve reconhecer esse esforço histórico, sempre que possível e devido, o que é por certo o caso com Espinosa.

À Procura de Espinosa
Espinosa é pertinente para a neurobiologia apesar das suas reflexões sobre a mente humana não terem origem numa prática científica, mas sim numa preocupação geral com e condição humana. A preocupação suprema de Espinosa era a relação entre os seres humanos e a natureza. Espinosa tentou clarificar essa relação de forma a propor métodos eficazes para a salvação humana. Alguns desses métodos eram pessoais, sob o controlo do indivíduo, mas outros dependiam da ajuda que certas formas de organização social e política davam ao indivíduo. O pensamento de Espinosa descende do de Aristóteles, mas os alicerces biológicos são mais firmes, como seria de esperar. Espinosa parece ter entrevisto uma relação entre a felicidade pessoal e colectiva, por um lado, e a salvação humana e a estrutura do estado, por outro, muito antes de John Stuart Mill. Pelo menos no que diz respeito às consequências sociais do seu pensamento, Espinosa é hoje regularmente reconhecido.


Cortesia de imagensdigitais e filosofarpreciso

Espinosa prescreveu o estado democrático ideal, marcado pela liberdade da palavra, «cada um pense o que quiser e diga o que pensa», pela separação prática do estado e da religião, e por um contrato social generoso que promovesse o bem estar dos cidadãos e a harmonia do governo. Espinosa prescreveu tudo isto mais de um século antes da Declaração da Independência Americana e da primeira emenda da Constituição Americana.
Quem é, então, este homem que pensava sobre a mente e corpo de um modo não só profundamente diferente da maior parte dos seus contemporâneos mas também notavelmente moderno? Quais as circunstâncias que produziram um espírito tão rebelde? Para tentar responder a estas perguntas precisamos de reflectir sobre ainda mais um Espinosa, o homem por detrás de três nomes próprios, Bento, Baruch, Benedictus, uma pessoa ao mesmo tempo corajosa e cautelosa, inflexível e acomodatícia, arrogante e modesta, admirável e irritante, próxima da matéria concreta e observável e, ao mesmo tempo, abertamente espiritual. Os sentimentos pessoais de Espinosa nunca são revelados directamente no estilo da sua prosa e apenas podem ser adivinhados, aqui e além, a partir de indícios esparsos.
Quase sem me dar conta, comecei à procura da pessoa por detrás da estranheza do trabalho. Queria apenas encontrar-me com Espinosa na minha imaginação, conversar um pouco, pedir-lhe para autografar a Ética. Escrever sobre a minha procura de Espinosa e sobre a história da sua vida passou a ser a terceira finalidade deste livro.

Espinosa nasceu na próspera cidade de Amesterdão em 1632, no meio da Idade de Ouro da Holanda. Nesse mesmo ano, perto da casa da família Espinosa, um jovem Rembrandt de 23 anos estava a pintar «A Lição de Anatomia do Doutor Tulp», o quadro que iniciou a sua fama.

Bento foi o nome que lhe foi dado quando nasceu pelos seus pais Miguel e Hana Debora, judeus sefarditas portugueses que se tinham instalado em Amesterdão. Na sinagoga e entre os amigos, Espinosa era conhecido por Baruch, o nome que sempre o acompanhou na meninice e na adolescência passadas nesta comunidade afluente de mercadores e estudiosos judeus». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa, As Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, Publicações Europa-América, Fórum da Ciência, 2003, ISBN: 972-1-05229-9.

Cortesia de Publicações Europa-América/JDACT

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Poesia. Silva Araújo: Raízes. «São para ti, meu anjo guardador, os versos que me dita a inspiração. São para ti, ó roseirinha em flor, de que eu, por amor, sou um botão»

Cortesia de silvaaraujo

Mensageira
Avezinha mansa,
tu por onde andaste?
Conta-me o que viste,
mostra o que encontraste.

Tu que corres mundo
célere, veloz,
e que depois voltas
para ao pé de nós,

mostra-me o que viste,
conta o que escutaste
pelas longas terras
lá por onde andaste.

Bate tuas asas,
apressa teus passos.
Vai à minha mãe
e cobre-a de abraços.

Diz-lhe que lhos manda
o seu filho, eu,
que longe de casa
nunca a esqueceu.

Depois volta cá
fazer-me carinhos,
pois ela por certo
vai mandar beijinhos.


Meu anjo
São para ti, meu anjo guardador,
os versos que me dita a inspiração.
São para ti, ó roseirinha em flor,
de que eu, por amor, sou um botão.

Eles encerram o profundo amor
que a ti dedica o meu coração.
'Scritos num misto de alegria e dor,
mostram afecto e dedicação.

Quando te escrevo, mãe, neste momento
quisera, mais veloz até que o vento,
transpor de um salto todo este espaço.

Mas só, meu bem, com a imaginação
posso apertar-te junto ao coração
e dar-te um terno, carinhoso abraço.
Poemas de Silva Araújo, in «Raízes»
(1955-56)

JDACT

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

António Damásio: «Dar a Palavra aos Sentimentos». Os sentimentos são a expressão do florescimento humano ou do sofrimento humano, na mente e no corpo

JDACT
Com a devida vénia a António Damásio e a Publicações Europa-América, Forum da Ciência nº 58, 6ª edição,Fevereiro de 2004, adquirido em Dezembro de 2004.

Dar a Palavra aos Sentimentos«Os sentimentos de dor ou prazer são os alicerces da mente. É fácil não dar conta desta simples realidade porque as imagens dos objectos e dos acontecimentos que nos rodeiam, bem como as imagens das palavras e frases que os descrevem, ocupam toda a nossa modesta atenção, ou quase toda. Mas é assim. Os sentimentos de prazer, ou de dor, ou de toda e qualquer qualidade entre dor e prazer, os sentimentos de toda e qualquer emoção ou dos diversos estados que se relacionam com uma qualquer emoção, são a mais universal das melodias, uma canção que só descansa quando chega o sono, e que se torna num verdadeiro hipo quando a alegria nos ocupa ou se desfaz em lúgubre requiem quando a tristeza invade.

Dada a ubiquidade dos sentimentos, seria fácil pensar que a sua ciência estaria já há muito elucidada. Mas não está. De entre todos os fenómenos mentais que podemos descrever, os sentimentos e os seus ingredientes essenciais - a dor e o prazer - são de longe os menos compreendidos no que respeita à sua biologia e em particular à neurobiologia. Isto é particularmente surpreendente quando pensamos que as sociedades avançadas cultivam os sentimentos da forma mais despudorada e manipulam os sentimentos com álcool ou drogas ilícitas, medicamentos, boa e má cozinha, sexo real e virtual, toda a espécie de consumos e práticas sociais e religiosas cuja única finalidade é o bem estar. Tratamos dos nossos sentimentos com pílulas, bebidas, exercícios físicos e espirituais, mas nem o público nem a ciência fazem uma ideia clara sobre o que são os sentimentos do ponto de vista biológico.

Cortesia de grandesmensagens
Ao contrário dessas entidades concretas, os sentimentos eram intangíveis. Quando comecei a pensar sobre a forma como o cérebro criava a mente, aceitei sem protesto a ideia de que os sentimentos não cabiam em nenhum programa científico. Podíamos estudar a forma como o cérebro nos movimenta. Podíamos estudar processos sensoriais, tais como a visão, compreender como se organiza o pensamento. Podíamos até estudar as reacções emocionais com as quais respondemos a diversos objectos e situações. Mas os sentimentos, se podem distinguir das emoções – continuavam fora do nosso alcance, para sempre misteriosos e inacessíveis. Não era possível explicar como aconteciam os sentimentos e, ainda menos' o local onde aconteciam.
Tal como era o caso com a consciência, os sentimentos existiam fora das portas da ciência, aí mantidos cuidadosamente não só por uma certa filosofia apostada em negar qualquer explicação neurocientífica pata os fenómenos mentais, mas também por neurocientistas encartados que lhes negavam a entrada A prova de que tomei a sério estas diversas limitações é o facto de que, durante muitos anos, evitei qualquer projecto que dissesse respeito aos sentimentos. Levei muito tempo a descobrir que os obstáculos postos à ciência dos sentimentos não tinham qualquer cabimento e que a neurologia dos sentimentos não era menos viável do que a da visão ou da memória. Mas a realidade de certos doentes neurológicos forçou-me, ao fim e ao cabo, a rever a minha posição.

Cortesia de joaofariaswordpress
Imaginem, por exemplo, encontrar alguém a quem uma certa lesão cerebral tornou incapaz de sentir vergonha ou compaixão, mas em nada alterou a capacidade de sentir tristeza, felicidade ou medo. Imaginem uma pessoa a quem uma lesão de outra região cerebral tornou incapaz de sentir medo, mas não interferia com a capacidade de sentir compaixão ou vergonha. A crueldade da doença neurológica é um poço sem fundo para as suas vítimas - os doentes, bem como os médicos que os observam e tratam. Mas a doença neurológica também tem qualquer coisa de redentor: a doença funciona como um bisturi que separa o cérebro normal do cérebro doente com espantosa precisão e que assim permite uma rara porta de entrada na fortaleza do cérebro e mente.
A reflexão sobre a situação destes doentes e de outros com problemas comparáveis levou-me à construção de diversas hipóteses. Primeiro, era óbvio que certas espécies de sentimentos podiam ser bloqueadas pela lesão de um sector cerebral discreto; a perda de um sector cerebral específico implicava a perda de uma classe específica de fenómeno mental. Segundo, era também óbvio que sistemas cerebrais diferentes controlavam diferentes espécies de sentimentos; a lesão de uma certa região anatómica cerebral não causava a perda de todas as formas possíveis de sentimento. Terceiro, quando os doentes perdiam a capacidade de exprimir uma determinada emoção também perdiam a capacidade de sentir o correspondente sentimento. De forma surpreendente, contudo, alguns doentes incapazes de sentir certos sentimentos eram ainda capazes de exprimir as emoções que lhes correspondem - ou seja, era possível exibir uma expressão de medo mas não sentir medo.

Cortesia de teresita
A emoção e o sentimento eram irmãos gémeos, mas tudo indicava que a emoção tinha nascido primeiro, seguida pelo sentimento, e que o sentimento se seguia sempre à emoção como uma sombra.
Apesar da intimidade e aparente simultaneidade, tudo indicava que a emoção precedia o sentimento. O entrever desta relação específica permitiu, tal como iremos ver, uma perspectiva privilegiada na investigação dos sentimentos.
Estas hipóteses podiam ser testadas com a ajuda de técnicas de neuroimagem que permitem a criação de imagens da anatomia e actividade do cérebro humano. Passo a passo, primeiro em doentes e depois tanto em doentes como em pessoas sem doença neurológica, começámos a mapear a geografia do cérebro que sente. A meta era elucidar a teia de mecanismos que permitem aos nossos pensamentos desencadear estados emocionais e construir sentimentos». In António Damásio, Ao Encontro de Espinosa.

Cortesia de mensagensvirtuais

Continua.

Cortesia de António Damásio/JDACT