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sábado, 26 de fevereiro de 2022

Diário do conde de Sarzedas. Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656). Artur T. Matos. «Onde a situação se tornava mais crítica era na relação a o socorro a Ceilão. Para este socorro não há vintém nem real, nem donde possa vir; acuda Deus com sua Misericórdia…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não há nenhuma [fortaleza] que dê boas-novas)), anotava em 15 de Novembro; e acrescentava na semana seguinte: Todos representam misérias e faltas, pedindo socorros. Faltava arroz, pólvora, soldados, cavalaria e fortificações. Todavia, como várias vezes também observou, não havia um real para nada. Há dois anos que não chegava canela de Ceilão, em razão da guerra que aí grassava, e porque os capitães a vendiam para pagarem aos soldados. A armada dos periches que deveria sair de Goa em começos de Outubro, para acompanhar a cáfila regressada de Cambaia com roupas, necessitava de 10000 xerafins (3. 000$000 réis). A inexistência de financiamento levou o governador a tentar convencer os guzerates, importadores destes tecidos, a adiantar a quantia . Mas só lhe conseguiu virar 6 .000 xerafins. Apesar dos esforços, não consegue ver assinada a paz com o Idalxá. Duvida mesmo que tal venha acontecer, tais as manobras dilatórias do embaixador. Tudo são mentiras e falsidades, comentava! E, comparando o comportamento deste mouro com o dos que privara em Tânger, concluía: Não tem fé nem constância em nada […] mas como isto é longe parece que também enxerga na mudança do modo e natureza.

Onde a situação se tornava mais crítica era na relação a o socorro a Ceilão. Para este socorro não há vintém nem real, nem donde possa vir; acuda Deus com sua Misericórdia, que só ela o pode fazer, anotava o vice-rei em meados de Novembro. Talvez por isso escreveria a todas as ordens religiosas encomendando o bom sucesso de Ceilão e que se expusesse o Santíssimo diariamente. Sobre o mesmo motivo e depois de ouvir o Conselho de Estado convocou as forças representativas do Estado para uma reunião na sala real: Câmara, tribunais, provinciais das ordens religiosas, procuradores das cidades do Norte e do Sul. A todos deu conta da difícil situação militar de Ceilão e das dificuldades em acudir-lhe . Depois chamou ao palácio várias pessoas a quem solicita empréstimo de dinheiro para o socorro . Mas todos se escusam com misérias e trabalhos. Situação semelhante ocorreria em relação ao arroz, cuja carência era gritante, devido à situação de guerra com o Canará, fonte tradicional de abastecimento deste cereal.

Pede pareceres ao Senado, Inquisição (maldita), Relação e provinciais das ordens religiosas sobre a legalidade do lançamento de um tributo para fazer face à difícil situação do Estado . Havia que adquirir meios, já que era difícil, senão impossível, conseguir qualquer empréstimo. À falta de recursos financeiros, certamente motivada pelas diminuição do comércio regional, das rendas do Estado e pelo acréscimo das despesas militares, juntava-se alguma desorganização dos assuntos da Fazenda Real. Desmazelo nos oficiais dos Contos e queixas contra os seus procedimentos, negligência na arrecadação das dívidas reais, arrematação das rendas por preços inferiores ao habitual, tais eram os males diagnosticados pelo vice-rei em relação à Fazenda que achava mui desencaminhada.

Também a morosidade da justiça mereceria a sua crítica. Em 3 de Setembro, após o termo das férias, deslocou-se à Relação afim de despachar petições de presos e de agravos. E, perante o volume de processos nas mãos dos desembargadores, recomendou-lhe celeridade e despacho às solicitações. Mas no mês seguinte voltaria a denunciar o descuido que ali reinava, perante a delonga de seis anos num julgamento». In Artur Teodoro Matos, Diário do conde de Sarzedas, Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656), Lisboa, colecção Outras Margens, CNCDPortugueses, 2001, ISBN 972-787-052-X.

Cortesia de CNCDP/JDACT

 JDACT, MLCT, JLT, Índia, Cultura e Conhecimento, 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

No 31. Comer, Orar, Amar. Elizabeth Gilbert. «Vinha tentando convencer-me de que os meus sentimentos eram comuns, apesar de todas as provas em contrário, como a conhecida com quem eu havia esbarrado na semana anterio…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu estava tentando tanto não saber isso, mas a verdade continuava a insistir. Eu não quero mais estar casada. Não quero morar nesta casa grande. Não quero ter um filho. Mas todos esperavam que eu quisesse ter um filho. Eu estava com 31 anos. Meu marido e eu, estávamos juntos havia oito anos, sendo seis casados, havíamos construído nossa vida inteira com base na expectativa comum de que, uma vez superada a avançada marca dos 30 anos, eu iria querer sossegar e ter filhos. Ambos esperávamos que, a essa altura, eu já tivesse me cansado de viajar e fosse ficar feliz em morar numa casa grande e barulhenta, cheia de crianças e de colchas feitas à mão, com um jardim nos fundos e um reconfortante ensopado borbulhando em cima do fogão. (O facto de esse ser um retrato bastante fiel da minha mãe é um indicador rápido de como antigamente era difícil para mim perceber a diferença entre eu mesma e a poderosa mulher que havia me criado.) Mas eu não queria nenhuma dessas coisas, e estava arrasada por estar me dando conta disso. Pelo contrário: meus 20 anos haviam chegado ao fim, aquele prazo final dos 30 havia-se abatido sobre mim como uma sentença de morte, e eu descobri que não queria engravidar. Continuava esperando querer ter um filho, mas isso não acontecia. E eu conheço a sensação de querer alguma coisa, podem acreditar. Sei muito bem o que é desejo. Mas esse desejo não existia. Além do mais, eu não conseguia parar de pensar no que minha irmã me tinha dito certo dia, enquanto amamentava o seu primogénito: Ter um filho é como fazer uma tatuagem na cara. Precisa realmente ter a certeza de que é isso que quer antes de se comprometer.

Mas como poderia voltar atrás agora? Tudo estava no lugar certo. Supostamente, aquele deveria ser o ano. Na verdade, já vínhamos tentando engravidar havia alguns meses. Mas nada tinha acontecido (excepto pelo facto de, num arremedo quase sarcástico de uma gravidez, eu estar tendo enjôos matinais psicossomáticos e vomitando meu café-da-manhã todos os dias, aflita). E todo o mês, quando eu ficava menstruada, via-me sussurrando furtivamente no banheiro: Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada por me dar mais um mês de vida. Eu vinha tentando convencer-me de que isso era normal. Todas as mulheres devem sentir-se assim quando estão tentando engravidar, concluí. (Ambivalente, foi a palavra que usei, evitando a descrição muito mais exacta, inteiramente dominada pelo pânico).

Vinha tentando convencer-me de que os meus sentimentos eram comuns, apesar de todas as provas em contrário, como a conhecida com quem eu havia esbarrado na semana anterior, que acabara de descobrir que estava grávida do primeiro filho depois de gastar dois anos e rios de dinheiro em tratamentos de fertilidade. Ela estava em êxtase. Sempre desejara ser mãe, disse-me. Admitiu que vinha comprando roupinhas de bebé secretamente havia anos, e escondendo-as debaixo da cama, onde seu marido não as encontraria. Vi a alegria no seu rosto e a reconheci. Era uma alegria idêntica à que meu próprio rosto havia irradiado na Primavera anterior, no dia em que descobri que a revista para a qual eu trabalhava iria me mandar para a Nova Zelândia para escrever um artigo sobre a busca por uma lula gigante». In Elizabeth Gilbert, Comer, Orar, Amar, 2006, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-503-0.

 ortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Elizabeth Gilbert, Literatura, MLCT, Aniversário, Itália, Indonésia, Índia, 

sábado, 30 de outubro de 2021

Passagem para a Índia. E.M. Forster. «O narguilé tinha sido preparado com o tabaco muito comprimido, conforme o costume da casa do seu amigo, e a água gorgolejava melancólica. Ele o manejou habilmente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Largando a bicicleta, que caiu antes que um criado pudesse pegá-la, Aziz saltou para dentro da varanda. O jovem era pura animação: Hamidullah, Hamidullah! Eu me atrasei?, gritou ele. Não se desculpe, disse o anfitrião. Você está sempre atrasado. Responda, por favor, à minha pergunta. Estou atrasado? Mahmoud Ali comeu tudo? Se ele comeu, vou para outro lugar. Senhor Mahmoud Ali, como vai o senhor? Obrigado, doutor Aziz, eu estou morrendo. Morrendo antes do jantar? Ah, pobre Mahmoud Ali! Hamidullah já está morto. Ele faleceu enquanto você vinha subindo de bicicleta. Ah, sim, é isso, disse o outro. Imagine nós dois dirigindo-nos de um outro mundo ao senhor, de um mundo mais feliz. Por acaso no seu mundo mais feliz existem narguilés? Aziz, não brinque. Estamos numa conversa muito triste. O narguilé tinha sido preparado com o tabaco muito comprimido, conforme o costume da casa do seu amigo, e a água gorgolejava melancólica. Ele o manejou habilmente. Cedendo por fim, o tabaco saiu num jacto, penetrou nos seus pulmões e narinas, expulsando a fumaça das fogueiras de esterco de vaca que os havia enchido quando ele passou pedalando pelo bazar. Era delicioso. Aziz ficou ali num transe sensual mas sadio, durante o qual a conversa dos outros dois não lhe pareceu particularmente triste, eles estavam discutindo se era ou não possível ser amigo de um inglês. Mahmoud Ali sustentava que era impossível e Hamidullah discordava, mas com tantas reservas que não havia atrito entre eles. Era realmente delicioso estar deitado na ampla varanda, com a lua subindo diante deles e os criados preparando o jantar lá atrás, e sem nenhuma confusão acontecendo. Bom, veja a minha própria experiência esta manhã. Eu só afirmo que é possível na Inglaterra, respondeu Hamidullah, que muito tempo antes havia estado naquele país, antes da grande migração, e tivera em Cambridge uma recepção cordial. Aqui é impossível. Aziz, o garoto de nariz vermelho insultou-me novamente no tribunal! Eu não o culpo. Disseram-lhe que ele devia insultar-me. Até recentemente ele era um garoto muito bonzinho, mas os outros tomaram conta dele. É, eles não têm chance aqui, é isso que eu acho. Aparecem querendo ser cavalheiros e ouvem dizer que isso não é apropriado. Veja o Lesley, veja o Blakiston, agora é o seu garoto de nariz vermelho, e Fielding será o próximo. Ora, eu me lembro quando o Turton apareceu. Foi numa outra parte da Província. Vocês não vão acreditar, amigos, mas eu andei com o Turton na carruagem dele, o Turton! Ah, sim, houve uma época em que nós éramos muito íntimos. Ele me mostrou a sua colecção de selos.

Hoje ele é capaz de achar que você a roubaria. Turton! Mas o garoto de nariz vermelho será bem pior que o Turton! Acho que não. No fim eles são todos iguais, nem melhores nem piores. Dou a qualquer inglês dois anos, seja ele Turton ou Burton. A diferença é apenas de uma letra. E dou a qualquer inglesa seis meses. Todas elas são exactamente iguais. Você não concorda comigo?» In E.M. Forster, Passagem para a Índia, 1924, 1879, Edição Relógio D’Água, 2017, ISBN 978-989-641-756-7.

Cortesia de ERelógioD’Água/JDACT

JDACT, Literatura, Índia, EM Forster,

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Passagem para a Índia. E.M. Forster. «A extensão interminável se interrompe apenas ao sul, onde um grupo de punhos e dedos se arremete do chão. Esses punhos e dedos são as colinas de Marabar, que contêm as extraordinárias cavernas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A não ser pelas cavernas de Marabar, que ficam a trinta quilómetros de distância, a cidade de Chandrapore nada apresenta de extraordinário. Margeada, mais que banhada, pelo Ganges, ela o acompanha por umas poucas milhas, quase não se distinguindo dos detritos que ele deposita tão fartamente. Não há degraus para banho na beira do rio, porquanto ali o Ganges não é sagrado; na verdade não há beira de rio, e o amplo e mutante panorama da sua corrente é vedado por bazares. As ruas são malcuidadas e os templos não têm beleza, e embora haja umas poucas casas elegantes, elas são encobertas por jardins ou ficam em becos cuja sujeira afasta quem quer que não tenha sido convidado. Chandrapore nunca foi grande ou bela, mas duzentos anos atrás ficava na estrada entre o Norte da Índia, então imperial, e o mar, e as casas elegantes datam desse período. O interesse pela decoração cessou no século XVIII, mas nunca foi democrático. Nos bazares não há pinturas e os entalhes são poucos. A própria madeira parece feita de barro; os habitantes, de barro movente. Tudo o que se mostra aos olhos é tão rasteiro, tão monótono, que quando o Ganges baixa seria legítima a expectativa de que ele tivesse feito desaparecer aquela excrescência devolvendo-a à terra. As casas caem, as pessoas se afogam e são deixadas por ali apodrecendo, mas o contorno geral da cidade persiste, inchando aqui, minguando ali, como uma débil mas indestrutível forma de vida. Para o interior a perspectiva se modifica. Há uma esplanada oval e um hospital comprido e descorado. No terreno elevado ao lado da estação ferroviária erguem-se casas de eurasianos. Depois da ferrovia, que corre paralela ao rio, a terra afunda e em seguida volta a se erguer muito infrenemente. Nessa segunda elevação fica a pequena área residencial dos funcionários ingleses do distrito, e vista dali Chandrapore parece ser um lugar totalmente diferente. É uma cidade de jardins. Não é uma cidade, e sim uma floresta dispersa, rala, com cabanas. Um jardim de recreio tropical banhado por um rio nobre. As palmeiras suculentas, os cinamomos, as mangueiras e as figueiras-de-bengala que estavam ocultos atrás dos bazares são visíveis agora e por sua vez ocultam os bazares. As árvores se erguem em jardins onde antigos tanques as nutrem, irrompem em arrabaldes abafadiços e ao redor de templos desprezíveis. Buscam luz e ar, e, dotadas de mais força que o homem ou suas obras, pairam sobre o sedimento inferior saudando-se umas às outras com acenos de galhos e folhas e criando uma cidade para os pássaros. Sobretudo depois das chuvas elas escondem o que se passa, mas em todas as ocasiões, mesmo quando queimadas ou desfolhadas, embelezam a cidade para os ingleses que moram no alto, e assim os recém-chegados não acreditam que Chandrapore seja tão pobre quanto costuma ser descrita, e é preciso levá-los até lá para que eles se desiludam. Quanto à área residencial dos funcionários, ela não provoca nenhuma emoção. Não encanta nem desagrada. É planeada com espírito prático, tendo no alto um Clube de tijolo vermelho e bem atrás uma mercearia e um cemitério, e as casas se dispõem ao longo de ruas que se cruzam em ângulos rectos. Não há nada de repulsivo, e apenas o panorama é bonito; nada é compartilhado com a cidade, fora o céu que se arqueia sobre ambas.

O céu também tem as suas mudanças, menos pronunciadas que as da vegetação e do rio. Por vezes as nuvens lhe dão relevo, mas normalmente ele é uma cúpula de matizes mesclados, com predomínio do azul. De dia o azul empalidece até ao branco, ali onde ele toca o branco da terra; depois do pôr-do-sol ele tem uma nova circunferência alaranjada, dissolvendo-se em direcção ao alto até chegar a um suavíssimo púrpura. Mas o cerne azul permanece, até mesmo à noite. Então as estrelas são como lâmpadas penduradas na imensa abóbada. A distância entre a terra e elas é um nada, confrontada com a distância além delas; e essa distância mais remota, embora esteja além da cor, finalmente se liberta do azul.

O céu tudo determina, não só climas e estações, mas a hora em que a terra deverá se embelezar. Sozinha ela pouco pode fazer, apenas débeis explosões de flores. Mas quando o céu resolve, os bazares de Chandrapore inundam-se de esplendor ou uma bênção passa de horizonte a horizonte. O céu é capaz disso por ser tão forte e tão enorme. A força lhe vem do sol, nele infundida diariamente; o tamanho, da prostração da terra. Nenhuma montanha ultrapassa a linha curva. Légua após légua a terra se estende plana, incha um pouco, volta a ficar plana. A extensão interminável se interrompe apenas ao sul, onde um grupo de punhos e dedos se arremete do chão. Esses punhos e dedos são as colinas de Marabar, que contêm as extraordinárias cavernas». In E.M. Forster, Passagem para a Índia, 1924, 1879, Edição Relógio D’Água, 2017, ISBN 978-989-641-756-7.

Cortesia de ERelógioD’Água/JDACT

JDACT, Literatura, Índia,

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Diário do conde de Sarzedas. Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656). Artur T. Matos. «Era urgente que Portugal enviasse meios para enfrentar a crise, sob pena de perder-se o Estado da Índia, concluía o vice-rei no final de uma reunião do Conselho da Fazenda»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Acompanhemos o primeiro dia de trabalho do novo vice-rei, já instalado no seu palácio levantou-se às 5 horas, ouviu missa e, na sala real, deu audiência a todos os que lhe quiseram falar. Depois, querendo demonstrar o seu empenhamento pessoal nas armadas que se aprestavam, foi à Ribeira dar calor à armada da colecta e às que seguiriam de socorro para Ceilão e para o Norte, bem como a outros navios. Aproveitou para visitar, na Ribeira, a Casa da Fundição e a do Armazém. Regressou ao palácio para jantar. De tarde reuniu o Conselho de Estado, onde analisou as cartas remetidas de Ceilão em meados do mês anterior. Estuda agora a possibilidade de enviar, com urgência, reforços para esta ilha, bem como para Tivim, ameaçado pelas tropas do Idalxá. Manifesta também o desejo de se deslocar em breve a esta praça.

O conde de Sarzedas cumpre, diariamente, uma agenda bem preenchida de tarefas governativas. Recebe embaixadores, fidalgos, o capitão-mar da cidade, o da armada do Norte e os de outros navios, o patriarca da Etiópia e indigitado arcebispo de Goa, o inquisidor, os vigários-gerais das Ordens, sobretudo o de São Domingos, ou os simples religiosos. Dá audiência a diversas pessoas em simultâneo, incluindo, por vezes, elementos da nobreza. Atende, no seu palácio, capitães-mores e os procuradores de Damão e de outras cidades do Norte e do Sul, para além de muitas pessoas. Reúne-se, frequentemente, com o secretário de estado, com o vedar da Fazenda ou com os dois em conjunto, mas também com os ouvidores-gerais do Cível e do Crime, com os ministros da Relação, dos Contos e da Mesa do Desembargo do Paço. Convoca, com regularidade, o Conselho de Estado e o Conselho da Fazenda, que faz reunir na denominada Sala da Rainha, cujas actas são, em bom número, hoje conhecidas. Despacha petições, envia cartas e ordens para diferentes partes e sobre variadíssimos assuntos do Estado.

A Ribeira é um dos locais que o vice-rei visita assiduamente. O apresto dos navios para o socorro de Ceilão e dos que seguiriam para o Norte, ou a partida da armada dos periches (pequeno barco, do tipo canoa ou almadia, usado no Canará e Malabar) que acompanhava a cáfila com destino a Cambaia e o carregamento das naus do Reino, são as razões que sobretudo invoca para tais deslocações. Mas também o fabrico de amarras e âncoras foram motivo da presença de Rodrigo Silveira no mesmo local, em dois dias muito próximos. O Tribunal da Relação, a Casa dos Contos, a Matrícula, a Casa da Pólvora e a Mesa do Desembargo do Paço foram outras das instituições que algumas vezes receberam a visita do vice-rei. A 4 de Setembro vai a Tivim observar o andamento dos trabalhos de fortificação, pelo que teve de se levantar às 4 horas da manhã, regressando já noite dentro. A consciência da importância da sua presença em certos actos públicos de culto e, por certo, a sua condição de cristão, levou-o também a deslocar-se ao Convento da Madre de Deus em Daugim, por ocasião das festas da Natividade e da Imaculada Conceição, ao dos Agostinhos para a festa do Bom Jesus no primeiro de Janeiro e no dia do seu patrono e à festa de São Francisco de Assis, celebrada pelos Franciscanos no convento da cidade. Também honrou, em pessoa, os Carmelitas Descalços na festa da padroeira, Santa Teresa D’Ávila onde, aliás, se confessou, comungou e assistiu a um sermão. Na festividade de Santa Catarina, promovida anualmente pelo Senado de Goa, incorporou-se na procissão, como também participou em idêntico acto litúrgico e noutros, comemorativos da Restauração, na catedral.

A festa de São Francisco Xavier mereceria uma visita ao Convento do Bom Jesus, para ouvir a pregação em vésperas do dia comemorativo em honra do Apóstolo das Índias. Para sua grande consolação, o corpo do santo já lhe havia sido aqui mostrado, logo após a sua chegada a Goa. Na Igreja de São Caetano dos Teatinos, assistiu, em dia da Exaltação de Santa Cruz, aos actos solenes aí realizados, tendo sido padrinho de um judeu que se convertera ao cristianismo quando detido no cárcere da Inquisição (maldita) de Goa. Nesta azáfama diária que nem conheceu descanso ao domingo ou dia santo, três assuntos parecem ter dominado a agenda política do conde vice-rei nos pouco mais de quatro meses em que dela deixou registo o apresto das armadas que faziam o comércio regional e garantiam o abastecimento às guarnições das diversas fortalezas portuguesas o agravamento da situação militar, quer no território de Goa, quer, sobretudo, em Ceilão e onde os portugueses davam mostras de não poderem resistir por muito mais tempo e, por último, a falta de recursos humanos, navais e, mormente, financeiros, que permitissem remediar de imediato a difícil situação em que o Estado da Índia se encontrava. Era urgente que Portugal enviasse meios para enfrentar a crise, sob pena de perder-se o Estado da Índia, concluía o vice-rei no final de uma reunião do Conselho da Fazenda». In Artur Teodoro Matos, Diário do conde de Sarzedas, Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656), Lisboa, colecção Outras Margens, CNCDPortugueses, 2001, ISBN 972-787-052-X.

Cortesia de CNCDP/JDACT

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Comer, Orar, Amar. Elizabeth Gilbert. «Ali, ofereço ao universo uma fervorosa oração de agradecimento. Primeiro, em inglês. Em seguida, em italiano. E então, só para ter a certeza, em sânscrito»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Usando meus aguçados poderes de intuição, mandei um e-mail para os dois homens ao mesmo tempo, perguntando, em italiano: será que vocês são irmãos? Foi Giovanni quem respondeu com este texto muito provocativo: melhor ainda. Gémeos! Sim, muito melhor. Gémeos idênticos de 25 anos, altos, morenos e lindos, conforme vim a descobrir, com aqueles gigantescos olhos castanhos de pupilas líquidas que os italianos têm e que simplesmente me tiram o chão. Depois de conhecer os rapazes pessoalmente, comecei a perguntar-me se por acaso eu deveria ajustar um pouquinho a minha regra quanto a permanecer solteira durante este ano. Por exemplo, talvez eu pudesse permanecer totalmente solteira excepto pelo facto de ter dois lindos irmãos italianos de 25 anos como amantes. Isso me lembrava um pouco um amigo meu que é vegetariano, mas come bacon, e no entanto… Eu já estava escrevendo a minha carta para o fórum de alguma revista masculina: em meio à penumbra bruxuleante iluminada pelas velas do café romano, era impossível dizer de quem eram as mãos que acariciavam… Mas não. Não, não, não.

Interrompi a fantasia no meio. Aquele não era o momento para eu arrumar uma história de amor e (conseqüência óbvia e inevitável) complicar ainda mais a minha já tão enrolada vida. Aquele era o momento para eu procurar o tipo de cura e paz que só podem vir da solidão. De todo o modo, àquela altura, em meados de Novembro, o tímido e estudioso Giovanni e eu já havíamos nos tornado grandes amigos. Quanto a Dario, o mais extrovertido e festeiro dos dois irmãos, eu o apresentei à minha encantadora amiguinha sueca, Sofie, e o modo como eles têm compartilhado as suas noites em Roma é outro tipo completamente diferente de intercâmbio. Mas Giovanni e eu só fazemos conversar. Bom, comer e conversar. Já faz várias agradáveis semanas que temos comido e conversado, dividindo pizzas e gentis correcções gramaticais, e a noite de hoje não foi nenhuma excepção. Uma noite maravilhosa regada a novos idiomas e mozzarella fresca.

Agora é meia-noite e o tempo está enevoado, e Giovanni me acompanha até ao meu apartamento por aquelas ruelas de Roma que serpenteiam de forma natural em volta dos antigos prédios como pequenos riachos coleando ao redor das sombras formadas pelos densos bosques de ciprestes. Agora estamos diante da minha porta. Estamos de frente um para o outro. Ele me dá um abraço caloroso. A coisa já evoluiu; durante as primeiras semanas, ele só fazia apertar minha mão. Acho que, se eu ficasse na Itália por mais três anos, poderia até ser que ele tomasse coragem para me beijar. Por outro lado, ele poderia simplesmente me beijar agora mesmo, esta noite, aqui mesmo junto à minha porta…, ainda há uma chance…, quero dizer, nossos corpos estão colados sob o luar…, e é claro que isso seria um erro terrível…, mas mesmo assim o facto de ele poder realmente fazer isso agora é uma possibilidade tão maravilhosa…, ele poder simplesmente se curvar…, e…, e… Que nada. Ele solta o abraço. Boa-noite, cara Liz. Buona notte, caro mio, respondo. Subo as escadas até ao meu apartamento no quarto andar, sozinha. Entro na minha mini cozinha, sozinha. Fecho a porta atrás de mim. Mais uma noite solitária em Roma. Mais uma longa noite de sono pela frente, sem ninguém nem nada na minha cama a não ser uma pilha de guias de conversação e dicionários de italiano. Estou sozinha, inteiramente sozinha, completamente sozinha. Ao absorver essa realidade, largo minha bolsa, caio de joelhos e encosto a testa no chão. Ali, ofereço ao universo uma fervorosa oração de agradecimento. Primeiro, em inglês. Em seguida, em italiano. E então, só para ter a certeza, em sânscrito.

E uma vez que já estou ali ajoelhada no chão em posição de súplica, deixem-me manter essa posição enquanto viajo no tempo até três anos atrás, até ao instante em que toda esta história começou, um instante que também me encontrou nessa mesma exacta posição: de joelhos, no chão, rezando. No entanto, tudo o mais em relação à cena de três anos atrás era diferente. Daquela vez eu não estava em Roma, mas sim no banheiro do andar de cima da grande casa no subúrbio de Nova York que eu acabara de comprar com meu marido. Eram mais ou menos três horas da manhã de um Novembro gelado. Meu marido dormia na nossa cama. Eu estava escondida no banheiro pelo que deveria ser a 47a noite consecutiva, e, como em todas aquelas outras noites, estava soluçando. Soluçando com tanta força, na verdade, que uma grande poça de lágrimas e muco se espalhava à minha frente sobre os ladrilhos da casa de banho, um verdadeiro lago formado por toda a minha vergonha, medo, confusão e dor. Eu não quero mais estar casada». In Elizabeth Gilbert, Comer, Orar, Amar, 2006, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-503-0

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Elizabeth Gilbert, Literatura, Itália, Indonésia, Índia,

 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Comer, Orar, Amar. Elizabeth Gilbert. «Em Roma, estudou a arte do prazer, aprendeu a falar italiano e engordou os 23 quilos mais felizes da sua existência. Reservou a Índia para praticar a arte da devoção»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Quando fez 30 anos, Elizabeth Gilbert tinha tudo o que uma mulher americana formada e ambiciosa podia querer: um marido, uma casa, uma carreira de sucesso. Mas em vez de estar feliz e preenchida, sentia-se confusa e assustada. Depois de um divórcio infernal e de uma história de amor fulminante acabada em desgraça, Gilbert tomou uma decisão determinante: abdicar de tudo, despedir-se do emprego e passar um ano a viajar sozinha. Comer na Itália, Orar na Índia e Amar na Indonésia é uma micro-autobiografia desse ano. O projecto de Elizabeth Gilbert era visitar três lugares onde pudesse desenvolver um aspecto particular da sua natureza no contexto de uma cultura que tradicionalmente se destacasse por fazê-lo bem. Em Roma, estudou a arte do prazer, aprendeu a falar italiano e engordou os 23 quilos mais felizes da sua existência. Reservou a Índia para praticar a arte da devoção. Com a ajuda de um guru nativo e de um cowboy do Texas surpreendentemente sábio, Elizabeth empenhou-se em quatro meses de exploração espiritual ininterrupta. Em Bali, aprendeu a equilibrar o prazer sensual e a transcendência divina. Tornou-se aluna de um feiticeiro nonagenário e apaixonou-se da melhor maneira possível, inesperadamente». In Sinopse

 

«Eu queria que o Giovanni me beijasse. Ah, mas são tantos os motivos que fariam disso uma péssima ideia... Para começar, Giovanni é dez anos mais novo do que eu, e, como a maior parte dos rapazes italianos de vinte e poucos anos, ainda mora com a mãe. Só esses dois factos já fazem dele um parceiro romântico improvável para mim, já que sou uma americana de trinta e poucos anos que trabalha, acaba de passar por um casamento falido e por um divórcio arrasador e interminável, imediatamente seguido por um caso de amor apaixonado que terminou com uma dolorosa ruptura. Todas essas perdas, uma atrás da outra, deixaram em mim uma sensação de tristeza e fragilidade, e a impressão de ter mais ou menos 7 mil anos de idade. Por uma simples questão de princípios, eu não imporia essa minha pessoa desanimada, derrotada e velha ao adorável, inocente Giovanni. Sem falar que eu finalmente havia chegado à idade em que uma mulher começa a questionar se a maneira mais sensata de superar a perda de um lindo rapaz de olhos castanhos é mesmo levar outro para sua cama imediatamente. É por isso que já faz muitos meses que estou sozinha. É por isso, na verdade, que decidi passar este ano inteiro sozinha. Diante do que o observador mais arguto poderá perguntar: então porque veio para Itália?

E tudo que posso responder, sobretudo quando olho para o belo Giovanni do outro lado da mesa, é: boa pergunta. Giovanni é meu parceiro de intercâmbio de línguas. Isto pode parecer uma insinuação, mas infelizmente não é. Tudo o que realmente significa é que nós nos encontramos algumas noites por semana aqui em Roma para praticar o idioma um do outro. Primeiro conversamos em italiano, e ele é paciente comigo; em seguida, conversamos em inglês, e eu sou paciente com ele. Descobri que Giovanni algumas semanas depois de ter chegado a Roma, graças ao grande cybercafé da Piazza Barbarini, do outro lado da rua, em frente àquele chafariz com a escultura de um homem com rabo de peixe soprando sua concha. Ele (Giovanni, não o homem com o rabo de peixe) fixara um anúncio no quadro de avisos explicando que um italiano nativo estava procurando alguém que falasse inglês para treinar conversação nas duas línguas. Logo ao lado do seu anúncio havia outro com o mesmo pedido, absolutamente idêntico em cada palavra, e até na fonte usada. A única diferença era a informação para contato. Um dos anúncios trazia o endereço eletrónico de um tal Giovanni; o outro tinha o nome de um tal Dario. Mas até o número do telefone residencial era o mesmo». In Elizabeth Gilbert, Comer, Orar, Amar, 2006, Bertrand Editora, 2006, ISBN 978-972-251-503-0
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Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Elizabeth Gilbert, Literatura, Itália, Indonésia, Índia,

sábado, 13 de junho de 2020

O Deus das Pequenas Coisas. Arundhati Roy. «As velas grandes sobre o altar estavam arqueadas. As pequenas não. Uma velha senhora disfarçada de parente distante (que ninguém reconheceu)»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) De qualquer modo, agora pensa em Estha e Rahel como Eles porque, separadamente, eles os dois já não são o que Eles eram ou aquilo que algum dia pensaram que Eles seriam.
Nunca mais.
As suas vidas têm agora tamanho e forma. Estha tem a dele e Rahel tem a dela.
Margens, Orlas, Fronteiras, Bordas e Limites apareceram como um bando de duendes nos seus horizontes separados. Criaturas pequenas com sombras longas, patrulhando o Fim. Turvo. Meias-luas suaves formaram-se sob os seus olhos e eles têm a idade que Ammu tinha quando morreu. Trinta e um.
Nem velhos.
Nem novos.
Mas de uma idade viável, morrível.

Estha e Rahel quase nasceram num autocarro: o carro em que Baba, o seu pai, transportava Ammu, a sua mãe, para o hospital de Shillong para ela dar à luz, avariou na estrada ziguezagueante da propriedade do chá em Assão. Abandonaram o carro e fizeram sinal a um autocarro apinhado dos Transportes Estatais. Devido à estranha compaixão dos muito pobres pelos comparativamente desafogados, ou talvez apenas por notarem a avançadíssima gravidez de Ammu, alguns passageiros sentados cederam o lugar ao casal e, durante o resto da viagem, o pai de Estha e Rahel teve de segurar o ventre da sua mãe (com eles lá dentro) para o impedir de balouçar. Isso foi antes de eles se divorciarem e de Ammu voltar a viver em Kerala.
Segundo Estha, se tivessem nascido no autocarro poderiam ter usufruído de viagens de autocarro gratuitas durante o resto da vida. Ninguém sabia exactamente onde ele obtivera tal informação, ou como é que sabia tais coisas, mas durante anos a fio os gémeos guardaram um leve ressentimento contra os pais por estes os terem deserdado de uma vida inteira de viagens de autocarro gratuitas.
Também acreditavam que, se fossem atropelados numa passadeira, o Governo pagaria os seus funerais. Tinham a certeza absoluta de que era para isso que as passadeiras existiam. Funerais pagos. Claro que em Ayemenem não havia passadeiras onde se pudesse ser atropelado, nem sequer em Kottayam, a cidade mais próxima, mas eles tinham visto algumas pela janela do carro no caminho para Cochim, que ficava a duas horas de viagem. O Governo nunca pagou o funeral de Sophie Mol porque ela não foi atropelada numa passadeira. O funeral dela foi em Ayemenem, na igreja velha recém-pintada. Sophie era prima de Estha e Rahel, filha do tio Chacko. Viera em visita de Inglaterra. Estha e Rahel tinham sete anos quando ela morreu. Sophie Mol tinha quase nove. Teve um caixão especial de tamanho infantil.
Forrado a cetim.
Com puxadores de bronze reluzentes.
Ela estava deitada no caixão, com as suas calças Crimplene amarelas à boca-de-sino, uma fita no cabelo e a sua adorada malinha go-go made in England. Tinha o rosto pálido e encarquilhado como o polegar de um dhobi depois de estar demasiado tempo na água a lavar roupa. A congregação reuniu-se à volta do caixão e a igreja amarela inchou como uma garganta ao som dos cânticos tristes. Os padres com barbas encaracoladas balouçavam os turíbulos de incenso suspensos em correntes e nunca sorriam aos bebés como costumavam sorrir aos domingos.
As velas grandes sobre o altar estavam arqueadas. As pequenas não.
Uma velha senhora disfarçada de parente distante (que ninguém reconheceu), mas que frequentemente aparecia perto dos cadáveres em funerais (uma viciada em funerais? Uma necrófila latente?), colocou colónia num chumaço de algodão e, com ar devoto e gentilmente desafiador, salpicou a testa de Sophie Mol. Sophie Mol cheirava a colónia e a madeira de caixão.
Margaret Kochamma, a mãe inglesa de Sophie Mol, não deixou Chacko, o pai biológico de Sophie Mol, pôr o braço à sua volta para a confortar.
A família aglomerou-se num canto. Margaret Kochamma, Chacko, Baby Kochamma e, ao lado dela, a cunhada, Mammachi, a avó de Estha e Rahel (e de Sophie Mol). Mammachi era quase cega e usava óculos escuros sempre que saía de casa. As lágrimas escorriam-lhe por trás dos óculos e tremiam-lhe no queixo como gotas de chuva num beiral. Parecia pequena e doente no seu sari branco-sujo e engomado. Chacko era o único filho de Mammachi. A dor dela doía-lhe. A dele dilacerava-a.
Embora Ammu, Estha e Rahel tivessem sido autorizados a assistir ao funeral, foram obrigados a permanecer separados do resto da família. Ninguém olhava para eles.
Estava calor na igreja e as pontas brancas dos jarros engelhavam e encaracolavam. Uma abelha morreu numa flor do caixão. As mãos de Ammu tremeram e, com elas, o livro de hinos. Tinha a pele fria. Junto dela estava Estha, quase a dormir, os olhos doendo e brilhando como vidro, a face escaldando a pele descoberta do braço de Ammu que tremia ao segurar o livro de hinos. Rahel, por seu lado, estava bem acordada, ferozmente vigilante, frágil e exausta na sua batalha contra a Vida Real». In Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, 1997, Edições ASA, 1998, ISBN 972-411-937-8.

Cortesia de EASA/JDACT

segunda-feira, 1 de junho de 2020

The Godo d Small Things. Uma voz poética entre o Oriente e o Ocidente. Luciana Moura C. Camargo. «… são quatro livros religiosos considerados os mais antigos da Índia: Rigveda, Samaveda, Iajurveda e Atarveda. De acordo com a preservação desses livros, pode-se considerar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Índia. O Universo do Deus das Pequenas coisas e sua Literatura
«Com uma história de mais de quatro mil anos, a Índia é um país que, com suas cores, temperos, cheiros, hibridismos culturais, trajes exóticos, festivais e cânticos sagrados, arquitectura e incensos, desperta a atenção do Ocidente. Com as suas dualidades, de estações geladas do Himalaia até às praias quentes e douradas do sul, de albergues aos hotéis-palácios, do ambiente vibrante de Mumbai às tranquilas praias de Goa, a Índia fascina todos que, de uma maneira ou de outra, não podem ficar indiferentes a essa experiência à moda das histórias das mil e uma noites. O território indiano possui cerca de três milhões de quilómetros quadrados, localiza-se ao sul da Ásia e divide-se em vinte e nove estados; ao norte faz fronteira com o Nepal e a China, ao leste com Bangladesh e Mianmar (Birmânia), ao nordeste com o Butão e ao oeste com o Paquistão. É considerado, depois da China, o segundo país mais populoso do mundo, com mais de um bilhão de habitantes. O regime político é o Parlamentarismo e a religião predominante é o hinduísmo, seguida do islamismo, budismo e outras menores, como o cristianismo e os sikhs, religião panteísta baseada nos ensinamentos de dez gurus que viveram no nordeste da Índia durante os séculos XVI e XVII.
A constituição indiana reconhece oitocentos e quarenta e quatro dialectos e catorze línguas oficiais, sendo que cada uma delas possui a sua respectiva literatura regional. Entretanto, todas remontam à cultura clássica baseada na tradição oral sânscrita, a mais antiga conhecida do ramo indo-europeu, que produziu textos sagrados védicos, nos anos 1500 a.C. Os Vedas (a ciência, o saber religioso) são quatro livros religiosos considerados os mais antigos da Índia: Rigveda, Samaveda, Iajurveda e Atarveda. De acordo com a preservação desses livros, pode-se considerar que os mesmos apresentam dois núcleos fundamentais: o Samhitas (colecções de orações e litanias) e o Bramanas e Upanissades, textos explicativos em prosa.

O Rigveda (Veda das Estrofes), segundo Eduardo Iáñez, é o mais antigo de todos e

[...] consta de 1028 hinos (suktas) divididos em dez livros (mandalas); composto entre 1500 e 1000 a.C., cada um dos livros é atribuído a uma família de bardos orsis (profetas) e destinava-se à classe sacerdotal que pretendia com eles a invocação aos deuses para que estes assistissem aos sacrifícios.

Essa obra constitui-se de importante fonte de informações sobre a religião e a população ária, que falava sânscrito e transmitia seus hinos oralmente. Somente após muitos séculos, houve o registo escrito desses hinos cantados em casamentos e funerais, cujas composições eram destinadas aos deuses Indra (deus da guerra e do céu), Agui (deus do fogo), Usas (a aurora), Varuna (deus do mar) e Vanu (deus do vento), entre outros. O Rigveda já se revela como uma forma de narrativa épica e até hoje é considerado um dos textos mais sagrados do hinduísmo.
O Samaveda (Veda dos Cânticos e Melodias) destaca-se pelo grande valor para a história da música, visto destinar-se ao aprendizado de canto e de diversas melodias, pelos alunos que desejavam frequentar a escola do Samaveda, com o sacerdote Udgatar. A secção textos explicativos apresenta valiosas fábulas sobre animais e assuntos sagrados. O Iajurveda (Veda das Fórmulas Sagradas) traz a sua importância atrelada à liturgia do cerimonial bramânico. Actualmente, são constituídos de cinco livros agrupados em dois Iajurveda, o branco e o negro. No branco, encontram-se os mantras, orações e fórmulas de sacrifícios; no negro, há exposição desses ritos. Os textos explicativos destacam-se pela presença de comentários acerca da origem das cerimónias sagradas e por servir de influência para o budismo. O Atarverda (Veda das fórmulas mágicas) constitui-se de fórmulas e conjuros de diversas procedências vinculadas à própria figura do Brâmane ou sacerdote supremo. Possui 731 hinos, alguns em prosa, e uma vasta colectânea de salmos e orações repletos de encanto poético. Para os textos explicativos, Eduardo Iáñez esclarece:

As interpretações mais notáveis correspondem às Upanissades, ensino de doutrinas secretas que se constituem, na realidade, nas mais antigas manifestações de filosofia indiana: o canto seria a exposição dos princípios de mundo, deus e alma em torno da concepção panteísta que poderia resumir-se na identificação Brâmane-alma universal/Atman-alma individual e na transmigração desta última até à libertação definitiva para unir-se com Brâmane».
[…]

In Luciana Moura C. Camargo, The Godo d Small Things, Uma voz poética entre o Oriente e o Ocidente, 2006, Tese de Doutoramento em Letras, Faculdade de Ciências e Letras, Araraquara, Brasil, 2006.

Cortesia FCLetras/JDACT

O Deus das Pequenas Coisas. Arundhati Roy. «… é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salman Rushdie e García Márquez»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O Deus das Pequenas Coisas é a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal. Uma história feita de muitas histórias. A história dos gémeos Estha e Rabel, nascidos em 1962, por entre notícias de uma guerra perdida. A de sua mãe Ammu, que ama de noite o homem que os filhos amam de dia, e de Velutha, o intocável deus das pequenas coisas. A da avó Mammachi, a matriarca cujo corpo guarda cicatrizes da violência de Pappachi. A do tio Chacko, que anseia pela visita da ex-mulher inglesa, Margaret, e da filha de ambos, Sophie Mol. A da sua tia-avó mais nova, Baby Kochamma, resignada a adiar para a eternidade o seu amor terreno pelo padre Mulligan... Estas são as pequenas histórias de uma família que vive numa época conturbada e de um país cuja essência parece eterna. Onde só as pequenas coisas são ditas e as grandes coisas permanecem por dizer. O Deus das Pequenas Coisas é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salman Rushdie e García Márquez. Em 1997, mereceu o Booker Prize, o mais importante prémio literário da língua inglesa». In Sinopse

«Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado. Os dias são longos e húmidos. O rio estreita e corvos pretos devoram mangas reluzentes nas árvores imóveis no seu verde-pó. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas rebentam. Vespas dissolutas zumbem indolentemente no ar suculento. Depois chocam contra a limpidez das vidraças e morrem, inchadas e aturdidas pelo sol. As noites são límpidas, mas inundadas de ócio e de soturna expectativa. Porém, no princípio de Junho, a monção sudoeste irrompe e principiam três meses de vento e água, com pequenas abertas de sol brilhante que crianças excitadas aproveitam para brincar. O campo cobre-se de um verde atrevido. As fronteiras esbatem-se à medida que as sebes de tapioca ganham raiz e florescem. Muros de tijolo cobrem-se de verde-musgo. As pimenteiras serpenteiam pelos postes de electricidade. Trepadeiras silvestres rebentam por entre as margens de laterite e galgam as estradas inundadas. Barcos bolinam nos bazares. E peixe miúdo agita-se nas poças que enchem os buracos nas estradas do Departamento de Obras Públicas.
Chovia quando Rahel regressou a Ayemenem. Oblíquas cordas prateadas estoiravam sobre a terra solta, sulcando-a como pólvora. A velha casa na colina usava o telhado inclinado com beiral como quem usa um chapéu de aba descaída enterrado até às orelhas. As paredes, raiadas de musgo, tinham-se tornado moles e ligeiramente bojudas devido à humidade proveniente do solo. O jardim selvagem e pujante estava repleto do sussurro e frémito de vidas diminutas. Por entre a vegetação rasteira, uma cobra esfregava-se contra uma pedra cintilante. Rãs amarelas, enormes e esperançadas, navegavam pelo lago escumoso à procura de parceiros. Um mangusto encharcado disparou pela alameda coberta de folhas.
A casa parecia vazia. As portas e as janelas estavam trancadas. A varanda da frente deserta. Sem mobília. Mas o Plymouth azul-celeste com barbatanas cromadas ainda estava parado lá fora e Baby Kochamma ainda estava viva lá dentro. Era a tia-avó de Rahel, a irmã mais nova do seu avô. O seu verdadeiro nome era Navomi, Navomi Ipe, mas todos lhe chamavam Baby. Tornou-se Baby Kochamma quando já tinha idade suficiente para ser tia. Rahel não a viera ver, porém. Nem sobrinha nem tia-avó alimentavam ilusões a esse respeito. Rahel viera ver o irmão, Estha. Eram gémeos biovulares. Dizigóticos, chamavam-lhes os médicos. Nascidos de dois óvulos separados mas fertilizados simultaneamente. Estha, Esthappen, era mais velho dezoito minutos. Estha e Rahel nunca se pareceram muito, e mesmo quando eram crianças de braços magros e peito liso, com lombrigas na barriga e poupa à Elvis Presley, não despertavam o habitual Quem é quem? e Qual é qual?, a parentes demasiado sorridentes ou aos bispos sírios ortodoxos que amiúde visitavam a casa de Ayemenem pedindo donativos.
A confusão alojava-se num lugar mais fundo e secreto. Nesses primeiros anos amorfos, quando a memória estava ainda a começar, quando a vida parecia cheia de Princípios e sem Fins e Tudo era Para Sempre, juntos Esthappen e Rahel consideravam-se como Eu e, separada e individualmente, como Nós. Como se fossem uma espécie rara de gémeos siameses, fisicamente separados mas com identidades unidas. Agora, passados esses anos, Rahel lembra-se de acordar uma noite aos risinhos por causa do sonho divertido de Estha. Guarda também outras lembranças que não tem o direito de guardar. Lembra-se, por exemplo (embora não tenha lá estado), do que o Homem Laranjada Limonada fez a Estha no Cinema Fitas Abhilash. Lembra-se do sabor das sandes de tomate, sandes de Estha, que Estha comia, no Expresso de Madrasta para Madrasta. E estas eram apenas as pequenas coisas». In Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, 1997, Edições ASA, 1998, ISBN 972-411-937-8.

Cortesia de EASA/JDACT

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Diário do conde de Sarzedas. Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656). Artur T. Matos. «Convocou os juízes da Relação para combinar a sua posse e tratou de matérias de justiça com o ouvidor-geral. A posse ocorreria no mesmo Colégio dos Reis Magos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Mas onde a situação militar se agravara terrivelmente era no Ceilão. Terminadas as tréguas em 1652, os holandeses fizeram avançar as suas tropas na ilha, com a intenção de tomarem Colombo. Por sua vez, também o rei de Cândia não desistira de expulsar os portugueses, perfilando-se ao lado dos holandeses. A agravar estas frentes de combate, a desordem nas hostes portuguesas, a fome, a insatisfação e a pressão psicológica que a ameaça do ataque militar provocava, desencadearam um motim que conduziu à execução de dois oficiais e à deposição do geral, Manuel Mascarenhas Homem. E os meios para fazer face a esta situação de guerra eram muito escassos.
É esta, no essencial, a situação que o novo vice-rei irá encontrar em Goa. Ancorando a nau Bom Jesus da Vidigueira no porto de Mormugão na manhã de 21 de Agosto, logo o capitão-mor António Sousa Meneses, com outros capitães e fidalgos, o foram visitar a bordo. O novo governador teve assim o ensejo de se inteirar da situação política e militar da Índia e de avaliar a sua gravidade. Todavia não terá ficado surpreendido. Lastima sabê-lo mas, como faz notar, enxerguei que me não enganava!
No dia seguinte, após ouvir missa ainda a bordo, acto religioso a que o vice-rei diariamente assistirá, embarcou com alguns fidalgos na manchua do Estado com destino a Reis Magos, indo alojar-se, como era usual, no colégio franciscano desse nome. Não passou despercebido ao novo vice-rei o sombreado das árvores e o verde dos campos que o final da monção provocara, bem como a grandiosidade e a beleza dos templos e das casas. De caminho recebeu carta do inquisidor com o treslado do auto-de-fé que ocorrera nesse dia e de Brás Castro, o governador cessante. À entrada da igreja aguardava-o uma figura de fama, não identificada, que lhe deu as boas-vindas em verso. Atento, ouviu, entrou na igreja e rezou. De tarde recebeu visitas e, ao anoitecer, a de Brás Castro e seu filho. No dia seguinte, depois de ouvir missa cantada, certamente de acção de graças pelo bom sucesso da viagem, iniciava a sua actividade. Recebeu o secretário de estado a quem incumbiu, entre outros assuntos, de enviar avisos para o Norte informando da sua chegada.
Convocou os juízes da Relação para combinar a sua posse e tratou de matérias de justiça com o ouvidor-geral. A posse ocorreria no mesmo Colégio dos Reis Magos a 24, com a presença da Cidade, Conselho de Estado, Relação e fidalgos. E, de seguida, reuniu o Conselho de Estado para decidir o modo como haviam de desembarcar os soldados que ainda se encontravam a bordo e o envio de tropas para Salsete e Bardes. É que haviam chegado notícias de estar a aproximar-se da fronteira o exército do Idalxá . Mas o erário estava exaurido ou, na sua expressão, não havia um real para nada. Por isso teve de recorrer a um empréstimo de dois mil e quinhentos xerafins. Este é o estado em que achei este Estado, comentaria o vice-rei.
Certamente para dar tempo a que se preparasse a costumada recepção na Cidade de Goa, continuará instalado nos aposentos franciscanos em Reis Magos. Despacha assuntos mais imediatos, como seja a descarga das naus, o envio de cartas para o Norte, ou até a recomendação aos conventos para que agradecessem a Deus a boa viagem
que fizera e lhe pedissem graças para o seu governo. A partida para a Cidade de Goa teve lugar a 26, quando já eram decorridos quatro dias de permanência em Reis Magos. De manhã dá audiências, despacha com o secretário de estado e às duas horas parte com o acompanhamento que se costuma em actos semelhantes. Aguardava-o a vereação, que lhe entrega as chaves da cidade e, a seguir, o cabido, que lhe dá a beijar um crucifixo. O cortejo solene prossegue, agora debaixo do pálio, com destino à Sé. No percurso, danças e folias abrilhantam a festa e pretendem significar o regozijo popular. A situação financeira não permitia grandes gastos e o vice-rei ordenara contenção nas despesas. Na catedral reza e, depois, a cavalo, dirige-se ao seu palácio, onde a nobreza da cidade, que já o havia acompanhado, o aguardava.
Apesar das duas horas de viagem até à cidade, do cortejo e cerimonial que teve de cumprir, ainda tratou com vários oficiais de assuntos respeitantes à Fazenda Real que considera em grande lástima. Aliás, Rodrigo Silveira parece estar ciente da oposição que lhe será movida pelos poderosos e oficiais de justiça, quando tiver de proceder, como é justo e sem respeitos, ao saneamento financeiro do Estado e à aplicação da justiça. Todavia não parece preocupar-se. Bem sei que lhes não há-de parecer bem - comentava, porém dá-se-me pouco disso. Aliás, no começo da semana seguinte, mandaria reunir os ministros dos Contos para lhes dar uma reprimenda pelo incumprimento das suas obrigações, já que tivera queixa geral de seus procedimentos, e da má arrecadação das dívidas gerais». In Artur Teodoro Matos, Diário do conde de Sarzedas, Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656), Lisboa, colecção Outras Margens, CNCDPortugueses, 2001, ISBN 972-787-052-X.

Cortesia de CNCDP/JDACT

Diário do conde de Sarzedas. Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656). Artur T. Matos. «Mascate caíra em 1650, arrastando as fortalezas em redor. Diu, bloqueado por uma armada holandesa, via-se impossibilitada de comerciar com Moçambique, Pate e Meca»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aliás, na mesma embarcação, o capitão e Manuel Mendonça passaram a viagem a acusar-se mutuamente, acabando o vice-rei por autorizar a transferência de Manuel Mendonça com os seus criados para o patacho Santa Teresa. Na almiranta é um grupo de degredados que, com a conivência de dois religiosos, ao que parece, provocaram distúrbios. E os exemplos poderiam multiplicar-se. Os castigos são quase sempre a prisão, os trabalhos na bomba e nos batéis. Mas também o julgamento de alguns casos é adiado para Goa.

Se esta viagem foi marcada por alguma normalidade, tem, porém, a particularidade de nela ter participado um vice-rei que, por essa razão, assumi u o comando supremo da armada. Os navios seguiram em conserva e apenas o patacho Santa Teresa de Jesus se ausentou durante alguns dias, o que causou alguma preocupação. As embarcações comunicaram entre si através de batéis e houve uma correspondência assídua trocada com os comandos, as ordens religiosas, o auditor, ou com algumas outras pessoas de relevo social. Mas a circulação de gente entre navios também ocorreu, ou por necessidade de serviço, ou por simples visita de cortesia e distracção. Sempre que o tempo o permitiu, foi tirada a coordenada do lugar e, algumas vezes, medida a altura com o prumo. O confronto destes elementos entre pilotos foi muitas vezes feito, como solicitada a opinião de capitães e pilotos experientes sobre algumas decisões importantes a tomar.

Em 22 de Agosto de 1655 desembarcava em Goa o vice-rei Rodrigo Lobo Silveira. A conjuntura político-militar no Estado da Índia exigia um governante competente e avisado. O governador em exercício, Brás Castro, havia tomado conta da administração do Estado em condições irregulares, já que tinham resultado de um motim chefiado pelo secretário de estado José Chaves Sotomaior e em que fora também um dos promotores. Apesar disso, manter-se-ia no governo por três anos. A somar a esta crise política, a defesa da Cidade de Goa mostrava-se incapaz de poder resistir a um ataque inimigo. Estava sem muros e com poucos moradores, alertava a vereação goesa. As demais fortalezas do Estado da Índia davam mostras de não poderem sobreviver aos ataques sucessivos perpetrados por naturais e europeus.
Mascate caíra em 1650, arrastando as fortalezas em redor. Diu, bloqueado por uma armada holandesa, via-se impossibilitada de comerciar com Moçambique, Pate e Meca. Com dificuldade resistia Chaul à pressão dos mouros sobre o seu termo. No Canará os holandeses pressionavam os reis locais a manterem o cerco às fortalezas portuguesas, como forma de impedir a saída da pimenta e do arroz, este essencial à sobrevivência de Goa. E, fracassadas as diligências diplomáticas e sem recursos para uma defesa eficaz e, muito menos, para uma ofensiva militar, Barcelor é abandonada e Mangalar entregue ao inimigo. Onor terá o mesmo destino, já que, após heroica mas malograda resistência, por decisão do Conselho de Governo de Goa é desmantelada a fortaleza e mandada recolher a Goa a sua gente. Muito ruim exemplo para conservação do povo que tínhamos na Índia, comentava assim um contemporâneo este acontecimento.
As posições portuguesas no Malabar sofriam das mesmas maleitas. Cranganor, com as muralhas arruinadas e sem guarnição suficiente, não resistiria a qualquer embate organizado. E, no Kerala, a cidade de Cochim e o forte de Coulão, desguarnecidos de meios de defesa, estavam prontos a render-se ao inimigo. Também a decadência comercial e política das cidades de Negapatão e São Tomé de Melia por no Coromandel, prenunciavam o ocaso da presença portuguesa, até porque a vizinhança holandesa em Paliac até lhe retirava qualquer pretensão de ressurgimento económico imediato. Aliás, estes haviam saqueado recentemente Tuticorim, na costa da Pescaria, centro produtor de aljôfar.
No restante Estado a situação era análoga. Moçambique achava-se desprovido do essencial e a indisciplina militar grassava de tal modo, que alguns soldados haviam morto à paulada um dos seus oficiais. No Extremo-Oriente, as arremetidas holandesas haviam feito paralisar o comércio de Macau devido ao encerramento do estreito de Malaca, enquanto os castelhanos de Manila constituíam também uma ameaça de peso . As carências da administração eram enormes e avolumara-se o descontentamento da população que, amotinada, trucidara o capitão-mor. Em Timor, os holandeses apoderavam-se da tranqueira de Cupão e instalavam-se definitivamente na ilha». In Artur Teodoro Matos, Diário do conde de Sarzedas, Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656), Lisboa, colecção Outras Margens, CNCDPortugueses, 2001, ISBN 972-787-052-X.

Cortesia de CNCDP/JDACT

Diário do conde de Sarzedas. Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656). Artur T. Matos. «A conflituosidade a bordo das naus da Índia era, como se sabe, muito comum, a julgar pelas informações disponíveis. Aliás, a morosidade e as intempéries da viagem, a exiguidade dos espaços…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Já as festas da Ascensão e do Corpo de Deus, organizadas pelos padres da Companhia de Jesus e ocorridas, respectivamente, a 6 e 27 de Maio, teriam maior solenidade, com altares especialmente montados para o efeito, missa e pregação e saudação pela artilharia de bordo. O dia de Corpo de Deus seria mesmo o escolhido para a celebração da primeira missa de um jovem jesuíta. Todavia o domingo do Espírito Santo, ao contrário do que acontecera anteriormente, já não era objecto de qualquer festejo, recebendo apenas a menção do dia. Não passaram despercebidos os tradicionais dias de Santo António e São João, cujos festejos religiosos e profanos couberam à tripulação do navio. Com altar levantado no convés, aí se rezou missa com sermão e presença do vice-rei que, em véspera de São João, mandaria ainda colocar lanternas e lampiões nas antenas e gáveas dos navios. Em dia de Santo António realizaram-se ainda danças, uma comédia e entremezes. Estes também teriam lugar pelo São João.
Na frota seguiam Franciscanos, Jesuítas e Dominicanos, não sendo por isso de estranhar que tendo caído em época de viagem a comemoração de dois dos seus patronos, Santo Inácio de Loiola (31 de Julho) e São Domingos (4 de Agosto), promovessem as respectivas festas. Com a liturgia habitual realizada em altar também para o efeito erguido no convés, talvez os promotores tivessem aprimorado de um modo muito especial a sua ornamentação, já que foi descrita como contendo todo o conserto que o mar pode dar de si. Mas para além da comemoração das festas comuns e dos santos, no quotidiano religioso de bordo destacaram-se duas devoções: a das Almas do Purgatório e a do Rosário. Quanto à primeira, recorde-se que estavam na altura divulgadas as confrarias das Almas e a bordo a elas se recorria para que, por seu intermédio, Deus mandasse o vento necessário para as naus navegarem. Daí o hábito de fazer-se peditório em altura de calmaria para, com o produto das esmolas, se rezarem missas por tal intenção. A do Rosário, de especial afecto da Ordem dos Pregadores, conheceu nesta viagem não só uma prática diária que chegou a registar a participação do vice-rei, como foi implementada a sua devoção no galeão São Francisco, como na capitânia, através da pregação que propositadamente ali foi realizada por frades dominicanos ao longo de diferentes ocasiões. No testemunho de Tissanier, no galeão todas as sextas-feiras se fazia a devoção da Boa Morte, conforme as intenções do padre-geral da Companhia, Vincent Carafa.
Quanto aos passatempos, a pesca foi, porventura, aquele que terá conhecido mais praticantes e do qual também tiraram mais proveito. Albacoras e outros muitos peixes não identificados foram capturados ao longo da viagem, sobretudo na zona da Guiné (o primeiro dia de pesca ocorreu a 9 de Abril, em que foram capturadas três albacoras). Alguns jogos também serviram de entretenimento, como os de parar, embora a este tenham sido impostas algumas restrições (só poderia ser jogado com nove cartas e tábuas). Mas as danças, comédias e e entremezes também ocuparam e distraíram passageiros e tripulantes. Alguns, certamente pela sua condição social e hierárquica chegaram a deslocar-se a outros navios para assistirem a representações teatrais (o escrivão da almiranta e um frade franciscano deslocaram-se ao galeão São Francisco para assistirem à representação de uma comédia. E, pelo vento ser rijo, acabariam por vir ter à Bom Jesus da Vidigueira).
A conflituosidade a bordo das naus da Índia era, como se sabe, muito comum, a julgar pelas informações disponíveis. Aliás, a morosidade e as intempéries da viagem, a exiguidade dos espaços, a incomodidade dos alojamentos, a falta de higiene, a carência e má qualidade dos alimentos e a dificuldade na sua confecção, a convivência forçada entre pessoas de desigual condição social e cultural, criavam um ambiente psicológico muito propício aos desentendimentos e discórdias, que atingiam com frequência a violência. Recorde-se que boa parte dos contingentes militares enviados para a Índia saíam directamente das prisões e, muito especialmente, da do Limoeiro. Aliás, dois soldados daqui vindos, assinale-se, pereceram na viagem. O uso de facas e adargas era proibido, como forma de prevenir esfaqueamentos.
Na presente viagem, nem a presença do vice-rei, nem as razoáveis condições do mar e a quase ausência de calmarias evitaram algumas brigas e desacatos. Estes ocorreram quer entre grumetes e sodados, quer entre gente de condição, como foi o caso de um moço fidalgo e um soldado ou de João Lobo, capitão-da-fogo e Gaspar Carneiro, capitão de uma das esquadras, que se bateram, ou do mesmo João Lobo que estando à mesa do vice-rei se desentendeu com João Furtado, acabando os dois na prisão. Também noutros navios as agressões ocorreram. No galeão São Francisco o meirinho feriu com uma faca um aio do vice-rei; dias depois um soldado e um grumete tomaram-se de razões junto ao fogão, lugar de grande concentração de gente e de muita espera, e desencadearam um motim, do qual resultarão feridos». In Artur Teodoro Matos, Diário do conde de Sarzedas, Vice-rei do Estado da Índia (1655 -1656), Lisboa, colecção Outras Margens, CNCDPortugueses, 2001, ISBN 972-787-052-X.

Cortesia de CNCDP/JDACT