segunda-feira, 1 de junho de 2020

O Deus das Pequenas Coisas. Arundhati Roy. «… é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salman Rushdie e García Márquez»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O Deus das Pequenas Coisas é a história de três gerações de uma família da região de Kerala, no sul da Índia, que se dispersa por todo o mundo e se reencontra na sua terra natal. Uma história feita de muitas histórias. A história dos gémeos Estha e Rabel, nascidos em 1962, por entre notícias de uma guerra perdida. A de sua mãe Ammu, que ama de noite o homem que os filhos amam de dia, e de Velutha, o intocável deus das pequenas coisas. A da avó Mammachi, a matriarca cujo corpo guarda cicatrizes da violência de Pappachi. A do tio Chacko, que anseia pela visita da ex-mulher inglesa, Margaret, e da filha de ambos, Sophie Mol. A da sua tia-avó mais nova, Baby Kochamma, resignada a adiar para a eternidade o seu amor terreno pelo padre Mulligan... Estas são as pequenas histórias de uma família que vive numa época conturbada e de um país cuja essência parece eterna. Onde só as pequenas coisas são ditas e as grandes coisas permanecem por dizer. O Deus das Pequenas Coisas é uma apaixonante saga familiar que, pelos seus rasgos de realismo mágico, levou a crítica a comparar Arundhati Roy com Salman Rushdie e García Márquez. Em 1997, mereceu o Booker Prize, o mais importante prémio literário da língua inglesa». In Sinopse

«Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado. Os dias são longos e húmidos. O rio estreita e corvos pretos devoram mangas reluzentes nas árvores imóveis no seu verde-pó. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas rebentam. Vespas dissolutas zumbem indolentemente no ar suculento. Depois chocam contra a limpidez das vidraças e morrem, inchadas e aturdidas pelo sol. As noites são límpidas, mas inundadas de ócio e de soturna expectativa. Porém, no princípio de Junho, a monção sudoeste irrompe e principiam três meses de vento e água, com pequenas abertas de sol brilhante que crianças excitadas aproveitam para brincar. O campo cobre-se de um verde atrevido. As fronteiras esbatem-se à medida que as sebes de tapioca ganham raiz e florescem. Muros de tijolo cobrem-se de verde-musgo. As pimenteiras serpenteiam pelos postes de electricidade. Trepadeiras silvestres rebentam por entre as margens de laterite e galgam as estradas inundadas. Barcos bolinam nos bazares. E peixe miúdo agita-se nas poças que enchem os buracos nas estradas do Departamento de Obras Públicas.
Chovia quando Rahel regressou a Ayemenem. Oblíquas cordas prateadas estoiravam sobre a terra solta, sulcando-a como pólvora. A velha casa na colina usava o telhado inclinado com beiral como quem usa um chapéu de aba descaída enterrado até às orelhas. As paredes, raiadas de musgo, tinham-se tornado moles e ligeiramente bojudas devido à humidade proveniente do solo. O jardim selvagem e pujante estava repleto do sussurro e frémito de vidas diminutas. Por entre a vegetação rasteira, uma cobra esfregava-se contra uma pedra cintilante. Rãs amarelas, enormes e esperançadas, navegavam pelo lago escumoso à procura de parceiros. Um mangusto encharcado disparou pela alameda coberta de folhas.
A casa parecia vazia. As portas e as janelas estavam trancadas. A varanda da frente deserta. Sem mobília. Mas o Plymouth azul-celeste com barbatanas cromadas ainda estava parado lá fora e Baby Kochamma ainda estava viva lá dentro. Era a tia-avó de Rahel, a irmã mais nova do seu avô. O seu verdadeiro nome era Navomi, Navomi Ipe, mas todos lhe chamavam Baby. Tornou-se Baby Kochamma quando já tinha idade suficiente para ser tia. Rahel não a viera ver, porém. Nem sobrinha nem tia-avó alimentavam ilusões a esse respeito. Rahel viera ver o irmão, Estha. Eram gémeos biovulares. Dizigóticos, chamavam-lhes os médicos. Nascidos de dois óvulos separados mas fertilizados simultaneamente. Estha, Esthappen, era mais velho dezoito minutos. Estha e Rahel nunca se pareceram muito, e mesmo quando eram crianças de braços magros e peito liso, com lombrigas na barriga e poupa à Elvis Presley, não despertavam o habitual Quem é quem? e Qual é qual?, a parentes demasiado sorridentes ou aos bispos sírios ortodoxos que amiúde visitavam a casa de Ayemenem pedindo donativos.
A confusão alojava-se num lugar mais fundo e secreto. Nesses primeiros anos amorfos, quando a memória estava ainda a começar, quando a vida parecia cheia de Princípios e sem Fins e Tudo era Para Sempre, juntos Esthappen e Rahel consideravam-se como Eu e, separada e individualmente, como Nós. Como se fossem uma espécie rara de gémeos siameses, fisicamente separados mas com identidades unidas. Agora, passados esses anos, Rahel lembra-se de acordar uma noite aos risinhos por causa do sonho divertido de Estha. Guarda também outras lembranças que não tem o direito de guardar. Lembra-se, por exemplo (embora não tenha lá estado), do que o Homem Laranjada Limonada fez a Estha no Cinema Fitas Abhilash. Lembra-se do sabor das sandes de tomate, sandes de Estha, que Estha comia, no Expresso de Madrasta para Madrasta. E estas eram apenas as pequenas coisas». In Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, 1997, Edições ASA, 1998, ISBN 972-411-937-8.

Cortesia de EASA/JDACT