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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

As Mulheres do Deserto. Alice Hoffman. «Não posso reconsiderar a minha fé, Yaya. Então considere a sua vida, foi a minha resposta. Para me provocar, Amram riu imitando uma galinha, empertigando o corpo magro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ainda assim, saí em busca do meu irmão, encontrando-o no mercado com os amigos. As mulheres desacompanhadas não eram vistas com frequência entre os homens que se dirigiam àquelas passagens estreitas; as que não tinham escolha a não ser sair desacompanhadas dirigiam-se às pressas à rua dos Padeiros ou às barracas que ofereciam cerâmica e jarros feitos do barro de Jerusalém, e depois, rapidamente, corriam de volta para casa. Eu usava um véu e a minha túnica estava apertada com força. Havia zonnoth no mercado, mulheres que se vendiam para o prazer dos homens, que não cobriam os braços ou o cabelo. Uma delas zombou de mim enquanto passava apressada, o rosto soturno abrindo-se num sorriso quando me viu correndo pelo beco. Você acha que é diferente de nós?, gritou. Você é apenas uma mulher, assim como nós. Puxei o meu irmão para longe dos amigos para que pudéssemos ficar debaixo de um flamboyant. As flores vermelhas exalavam o cheiro do fogo e pensei que isso era um presságio, que o meu irmão conheceria o fogo. Preocupava-me com o que aconteceria com ele quando a noite chegasse e os sicários se reunissem sob os cedros, local em que faziam seus planos. Pedi-lhe para renunciar aos meios violentos que adoptara, mas meu irmão, jovem como era, ardia por justiça e uma nova ordem na qual todos os homens fossem iguais. Não posso reconsiderar a minha fé, Yaya. Então considere a sua vida, foi a minha resposta. Para me provocar, Amram riu imitando uma galinha, empertigando o corpo magro e forte e debruçando-se, enquanto batia asas imaginárias. Você quer que eu fique em casa no galinheiro, onde possa me trancar por dentro e ter certeza de que estou seguro?

Ri, apesar dos meus temores. Meu irmão era corajoso e bonito. Não admirava que o meu pai o favorecesse. Tinha o cabelo dourado, os olhos escuros, mas salpicados de luz. Nesse momento, vi que a criança de quem cuidara como uma mãe tornara-se um homem, um homem puro em suas intenções. Eu não poderia fazer mais do que questionar o caminho que escolhera. No entanto, estava determinada a agir em seu benefício. Quando meu irmão voltou para junto dos amigos, continuei para dentro do mercado, chegando até ao fundo das ruas tortuosas, por fim contornando para um beco pavimentado com tijolos cinzentos empoeirados. Ouvira dizer que era possível comprar boa sorte nas proximidades, ali havia uma loja misteriosa de que sussurravam as mulheres do bairro. Em geral, elas interrompiam a conversa quando eu me aproximava, mas ficara curiosa e ouvira dizer que, se uma pessoa seguisse a imagem de um olho rabiscada dentro de um círculo, seria levada a um lugar de medicamentos e magias. Tomei o caminho do olho até chegar à casa de keshaphim, um tipo de magia praticada por mulheres, sempre perseguido em segredo. Bati na porta e apareceu uma velha que me examinou atentamente. Irritada com a minha presença, ela perguntou porque eu estava ali. Como hesitasse, ela começou a fechar a porta contra mim, resmungando. Não tenho tempo para alguém que não sabe o que quer, murmurou. Protecção para o meu irmão, consegui dizer, nervosa demais para informar mais que isso.

No Templo praticava-se a magia dos sacerdotes, homens santos ungidos pela oração, escolhidos para oferecer sacrifícios, tentar milagres e realizar exorcismos, expulsando o mal de que muitas vezes os homens poderiam estar possuídos. Nas ruas praticava-se a magia das minim, menosprezadas pelos sacerdotes, chamadas de charlatãs e impostoras por alguns, muito embora respeitadas por muitos. As casas de keshaphim, no entanto, eram consideradas os lugares em que se praticava o tipo mais desprezível de magia, um trabalho de mulheres, nocivo, vingativo, praticado por aquelas que eram acusadas de bruxas. Mas uma min que realizasse feitiços e maldições jamais falaria com uma garota como eu se não tivesse prata para entregar e um pai ou irmão para me recomendar. E se tivesse procurado um dos sacerdotes em busca de um amuleto, eles o negariam a mim, porque era filha de alguém que lhes fazia oposição. Até eu sabia que não merecia os seus favores». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Alice Hoffman, Literatura, Deserto,

domingo, 10 de outubro de 2021

As Mulheres do Deserto. Alice Hoffman. «Por essa época eu tinha começado a perceber o que ele fazia quando saía para se encontrar com os companheiros durante a noite»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando me tornei mulher, não tive mãe para me dizer o que fazer com o sangue que veio com a lua ou para me acompanhar na mikvah, o banho ritual que teria me purgado com uma imersão total na pureza. A primeira vez que sangrei pensei que estivesse morrendo, até que uma velha que era minha vizinha teve pena de mim e me disse a verdade sobre os ciclos mensais das mulheres. Baixei os olhos enquanto ela falava, envergonhada de ser informada de tais detalhes íntimos por uma estranha, sem acreditar muito no que ela dizia, imaginando porque o nosso Deus faria com que eu me tornasse impura. Mesmo agora, acho que poderia estar certa por tremer de medo no dia em que sangrei pela primeira vez. Talvez o facto de me tornar mulher fosse o fim para mim, por ter nascido no sangue e merecer ser tirada da vida do mesmo modo. Não me incomodei em contornar os meus olhos com kohl ou esfregar óleo de romã nos pulsos. Não perfumei o meu cabelo, em vez disso prendi as tranças na nuca e depois cobri a cabeça com um xaile de lã do tecido mais simples que pude encontrar. Meu pai só se dirigia a mim quando me chamava para trazer a sua refeição ou lavar as suas roupas. Por essa época eu tinha começado a perceber o que ele fazia quando saía para se encontrar com os companheiros durante a noite.

Geralmente ele envolvia os ombros com um manto cinza-claro, que se dizia ter sido tecido com os fios de uma teia de aranha. Eu tocara a sua bainha uma vez. Era tão sinistro quanto belo, concedendo ao seu portador a capacidade de se dissimular. Quando o meu pai saía, desaparecia, porque tinha o poder de desaparecer mesmo ele estando à sua frente. Eu ouvira meu pai ser chamado de assassino pelos nossos vizinhos. Franzira a testa e não acreditara, mas, quanto mais analisava as suas idas e vindas, mais sabia que era verdade. Ele fazia parte de um grupo secreto de homens que carregavam a adaga encurvada dos sicários, zelotes fanáticos que escondiam as facas afiadas sob seus mantos e as usavam para punir aqueles que se recusavam a lutar contra Roma, especialmente os sacerdotes que aceitassem sacrifícios da legião e seus favores ao Templo. Os assassinos eram implacáveis, até eu sabia disso. Ninguém estava a salvo da sua ira; os outros zelotes os repudiavam, contestando os seus métodos brutais. Dizia-se que os sicários lutavam contra os judeus que se curvavam demais a Roma, e que Adonai, o nosso grande Deus, nunca perdoaria o assassinato, especialmente de irmão contra irmão. Mas os judeus eram uma fraternidade dividida, em conflito na prática e nas orações. Os que pertenciam aos sicários riam-se da ideia de que Deus não desejava outra coisa senão que todos os homens fossem livres. O preço era de nenhuma consequência. Seu objectivo era um só governante, não imperadores, não reis, só o Rei da Criação. Somente ele governaria quando tivessem terminado o seu trabalho na terra.

Meu pai fora um assassino por tanto tempo que os homens que ele matara eram como folhas de uma árvore de salgueiro, muitas para contar. Porque ele possuía uma habilidade que poucos homens tinham e afirmava ter o poder da invisibilidade, era capaz de entrar numa sala como uma sombra e despachar o inimigo antes que a vítima estivesse mesmo ciente de que uma janela se abrira ou que uma porta se fechara. Para a minha tristeza, o meu irmão seguiu o caminho do nosso pai assim que teve idade suficiente para se tornar um discípulo da vingança. Amram era perigosamente susceptível a seus estilos violentos, pois na sua pureza via o mundo como bom ou mau, sem gradação entre os extremos. Sempre os espiava juntos, meu pai falando no ouvido do meu irmão, ensinando-lhe as regras do assassinato. Um dia, enquanto reunia as túnicas e a capa de Amram para lavar no poço, encontrei uma adaga, já marcada por uma linha carmesim. Teria chorado se fosse capaz, mas tinha abandonado as lágrimas. Não afogaria mais ninguém como afogara a minha mãe, de dentro para fora». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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sábado, 4 de setembro de 2021

As Mulheres do Deserto. Alice Hoffman. «Se era isso o que ele queria, então assumiria o manto da culpa, porque eu era uma filha obediente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A garota contratada para cuidar de mim foi logo despedida, levando consigo toda a consolação e o conforto. Eu sabia o que me esperava depois da sua partida, a vida atrofiada de uma criança órfã de mãe. No dia em que ela nos deixou, eu solucei segurando-me nas suas saias, desesperada pelo seu abraço terno. Meu irmão, Amram, disse-me para não chorar; tínhamos um ao outro. A serva ofertou-me uma romã para dar sorte, antes de gentilmente desvencilhar as saias do meu enlace. Ela era jovem o bastante para ser minha irmã, mas fora como uma mãe para mim e me dera a única ternura que eu conhecera. Dei a minha romã de presente ao meu irmão, tendo já decidido deixá-lo sempre em primeiro lugar. Mas essa não foi a única razão. Já tivera o bastante do meu quinhão de tristeza. Quando cresci, tornei-me calma e bem-comportada. Não pedia nada, e isso era exactamente o que recebia. Se fosse inteligente, tentava não demonstrá-lo. Se me ferisse, guardava as feridas para mim mesma. Virava-me para o lado sempre que via as outras meninas com o pai, pois o meu não queria ser visto comigo. Ele não falava comigo nem me tomava no colo. Preocupava-se apenas com o meu irmão, seu amor por Amram era evidente a cada instante. No jantar eles se sentavam juntos, enquanto eu era deixada no corredor, onde dormia. Havia escorpiões escondidos pelos cantos e eles logo se acostumaram comigo. Observava-os temerosa, mas também admirando como ficavam à espreita de suas presas nas pedras frias sem nunca se revelar. Guardei o meu sentimento de profunda vergonha dentro de mim, de maneira muito semelhante a como um escorpião esconde o seu desejo insaciável. Nisso éramos iguais.

Ao mesmo tempo, eu era humana. Ansiava por uma mecha de cabelo da minha mãe, para que pudesse conhecer a sua cor. Naquele corredor muitas vezes chorei pelo conforto dos seus braços. Acaso acha que sinto pena de você?, perguntou o meu pai um dia em que se fartara do meu pranto. Vai ver que foi esse seu choro que a matou. Causando tal inundação que a afogou por dentro. Eu nunca retrucara antes, mas saltei à frente dele. O pensamento de que poderia ter afogado a minha mãe com as minhas lágrimas era demais para suportar. Meu peito e a garganta ardiam. Nesse instante, não me importava que o homem à minha frente fosse Yosef bar Elhanan e eu não fosse nada. Não foi culpa minha, declarei. Vi uma expressão estranha atravessar o rosto do meu pai. Ele deu um passo para trás. Está dizendo que a causa fui eu?, advertiu ele, erguendo as mãos como que para se proteger de uma maldição. Não respondi, mas depois que ele saiu percebi que na realidade tínhamos algo em comum, mais do que com os escorpiões, mesmo que meu pai nunca falasse comigo ou me chamasse pelo nome. Tínhamos matado a minha mãe juntos. E, no entanto, ele queria que eu carregasse a culpa sozinha. Se era isso o que ele queria, então assumiria o manto da culpa, porque eu era uma filha obediente.

Não choraria nunca mais. Nada me faria quebrar essa promessa. Quando uma vespa me picou, e formou-se um vergão vermelho no meu braço, forcei-me a ficar quieta e não sentir a sua dor. Meu irmão correu até mim para certificar-se de que eu não me ferira. Chamou-me pelo nome secreto que me dera quando éramos pouco mais que dois bebés, Yaya. Eu adorava ouvi-lo chamar-me assim, pois o apelido carinhoso fazia-me lembrar das canções de adormecer da minha ama e de uma época anterior à consciência de que trouxera a ruína para a minha família. Eu ardia de dor com a picada da vespa, mas insisti que estava bem. Quando ergui os olhos, vi o brilho de lágrimas nos olhos de Amram. Qualquer um teria pensado que fora ele quem se tinha ferido. Ele sentia a dor mais facilmente que eu e era muito mais sensível. Às vezes, eu cantava para ele quando não conseguia dormir, entoando as canções de adormecer de Alexandria de cujas palavras me recordava, como se tivesse vivido antes outra vida.

Durante todo o tempo em que crescia, eu me perguntava como seria ter um pai que não olhasse para o lado ao me ver, que me dissesse como estava bonita, muito embora o meu cabelo flamejasse com uma estranha tonalidade avermelhada e a minha pele fosse salpicada de manchas cor de terra como se eu tivesse sido aspergida com lama. Ouvi meu pai dizer a outro homem que aquelas marcas eram manchas do sangue da minha mãe. Depois disso, tentei arrancá-las com as unhas, até tirar sangue da carne, mas meu irmão me impediu quando descobriu as depressões avermelhadas nos meus braços e pernas. Ele me garantiu que as sardas eram salpicos de cinzas caídos das estrelas do céu. Por causa disso, eu sempre brilharia na escuridão. E ele sempre seria capaz de me encontrar, por mais longe que estivesse». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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Alice Hoffman. As Mulheres do Deserto. «Eu não tinha uma resposta, mas me vi reflectida nos seus olhos. Era uma assassina, digna de sua indignação e de sua ira»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O sangue de um galo tornava as nossas casas de adoração impuras. As mulheres esfregavam os degraus com soda cáustica, lamuriando-se enquanto o faziam. Estávamos contaminados, não importava o quanto esfregassem ou quanta água fossem capazes de derramar sobre as pedras. A cada violação entendíamos o aviso da legião: O que fazemos com o galo, podemos fazer com vocês.

Uma noite, uma estrela semelhante a uma espada despontou sobre a cidade. Podia ser vista noite após noite, brilhando continuamente no leste. As pessoas tremeram, certas de que era um presságio, esperando pelo que estava por vir. Pouco depois o portão oriental do Templo abriu-se por conta própria. Multidões se reuniram, apavoradas, convencidas de que essa ocorrência permitiria a chegada do desastre. Os portões não se abrem se não há uma razão. As espadas não surgem no céu se a paz está para vir. Os nossos vizinhos começaram a negociar os pequenos tesouros que possuíam, acotovelando-se pelas ruas, determinados a escapar com o pouco que tinham. Reuniram os filhos e começaram a fugir de Jerusalém, esperando chegar à Babilónia ou a Alexandria, saudosos do Sião desde o instante em que partiam. Nas valas que se enchiam de água da chuva durante os períodos de enchentes repentinas, logo se formou um rio de sangue escorrendo do Templo. O sangue chorava, lamentava-se e amaldiçoava, pois as suas vítimas não abriam mão da vida facilmente. Os soldados mataram os rebeldes primeiro, depois chacinaram a esmo. Quem fosse infeliz o bastante para passar por perto deles era abismo na sua rede. As pessoas eram arrancadas da família, arrebanhadas nas ruas. Veio a noite conhecida como Flagelo dos Inocentes. A última ilusão de que as nossas orações seriam atendidas desapareceu. Quantos de nós perderam a fé naquela noite?

Quantos se afastaram do que o nosso povo sempre acreditou? Um menino de dez anos foi levado a ferros e depois crucificado porque se recusou a se curvar aos soldados. Esse menino padecia de surdez e nem sequer ouvira a ordem, mas ninguém se importava mais com essas coisas. Um mundo de ódio se abatera sobre nós. O pecado da morte do menino elevou-se como uma nuvem, evidente para todos. Depois disso, vinte mil pessoas entraram em pânico nas ruas, atropelando-se umas às outras em frenesi, abandonando a dignidade enquanto afluíam para as estradas. No momento em que a manhã surgiu, quase todos haviam abandonado Jerusalém.

Quanto a mim, o meu mundo se acabara antes que o Templo começasse a queimar, antes que o pó de pedra cobrisse as vielas. Muito antes de o Templo cair, eu perdera a minha fé. Não significava nada para o meu pai, abandonada por ele desde o momento em que nasci. Teria sido completamente negligenciada não fosse a família da minha mãe insistir em que se contratasse uma ama. Uma jovem serva de Alexandria foi trazida para cuidar de mim, mas quando ela cantava canções de adormecer, meu pai, o temível Yosef bar Elhanan, mandava que se calasse. Quando me alimentava, ele insistia em que eu já comera o bastante. Eu mal deixara de gatinhar quando o meu pai me chamou para contar-me a verdade do meu nascimento. Chorei ao descobrir a realidade e assumi o peso da minha entrada nesta vida. Meu nome era Yael e foi a primeira coisa sobre mim que aprendi a desprezar. Esse fora o nome da minha mãe também. Todas as vezes que era pronunciado, servia somente para lembrar ao meu pai que a ocasião da minha chegada a este mundo roubara a sua esposa. O que isso faz de você?, perguntou amargamente. Eu não tinha uma resposta, mas me vi reflectida nos seus olhos. Era uma assassina, digna de sua indignação e de sua ira». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Alice Hoffman. As Mulheres do Deserto. «Quanto mais os romanos nos prendiam por crimes contra a sua lei, mais lutávamos entre nós mesmos, incapazes de nos decidir sobre uma única linha de acção»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando os romanos atacaram o terceiro muro, o nosso povo foi forçado a fugir daquela parte do Templo. Em seguida, a legião derrubou o segundo muro. Ainda não foi o bastante. O grande Tito, líder militar de toda a Judeia, passou a construir quatro rampas de cerco. Nosso povo as destruiu com fogo e pedras, mas o ataque dos romanos aos muros do Templo havia enfraquecido as nossas defesas. Não muito tempo depois conseguiram abrir uma brecha. Os soldados entraram no labirinto de muros que cercavam o nosso local mais sagrado, correndo como ratos, os escudos erguidos para o alto, as túnicas brancas abrasando-se com o sangue. O Templo sagrado estava sendo destruído pelas suas mãos. Depois que isso acontecesse, a cidade também, obrigada a acompanhá-lo, tombaria de joelhos como um prisioneiro comum, pois sem o Templo não haveria lev ha-olam, o mundo perderia o centro, não restando nada por que lutar. O anseio por Jerusalém era um fogo que não se extinguia. Existia uma faísca dentro do mais sagrado dos lugares santos que fazia as pessoas quererem possuí-lo, e o que mais desejam muitas vezes os próprios homens destroem. À noite, os muros que tinham sido feitos para durar uma eternidade gemeram e oscilaram.

Quanto mais os romanos nos prendiam por crimes contra a sua lei, mais lutávamos entre nós mesmos, incapazes de nos decidir sobre uma única linha de acção. Talvez por saber que não conseguiríamos triunfar sobre o seu poderio, voltávamo-nos uns contra os outros, divididos por ciúme, desunidos pela traição, a nossa vida tornou-se um emaranhado sombrio de medo. As vítimas muitas vezes atacam umas às outras, como galinhas num galinheiro, trocando bicadas frenéticas. Nós fizemos o mesmo que elas. Não só o nosso povo foi sitiado pelos romanos, mas as pessoas entraram em guerra umas contra as outras. Os sacerdotes foram condescendentes, pendendo para o lado de Roma, e os que lhes faziam oposição eram declarados ladrões e bandidos, meu pai e seus amigos entre os opositores. Os impostos eram tão altos que os pobres não podiam mais alimentar os filhos, enquanto os que se aliaram a Roma prosperavam e enriqueciam. As pessoas testemunhavam contra os próprios vizinhos, roubavam umas das outras e fechavam a porta aos necessitados. Quanto mais desconfiávamos uns dos outros, mais éramos derrotados, divididos em grupos hostis, quando na verdade éramos um corpo só na crença em Adonai, éramos os filhos e as filhas do reino de Israel.

Durante os meses que antecederam a destruição do Templo, instalou-se o caos enquanto enfrentávamos os nossos inimigos. Fizemos todo o esforço para vencer aquela guerra, mas, assim como Deus criou a vida, também gerou a destruição. Durante o furioso mês vermelho de Av, corpos inchados lotavam o kidron, a ravina profunda que separava a cidade do cintilante Monte das Oliveiras. O sangue de homens e animais formava lagos escuros nos nossos lugares mais sagrados. O calor era estranho e implacável, como se a maldade da terra se refletisse contra nós, um espelho dos nossos pecados. Dentro dos salões mais secretos do Templo, o ouro era fundido e partilhado; desaparecia, roubado do mais santo dos lugares, para nunca mais ser visto.

Nem uma única brisa soprava. A temperatura subira com a desordem, do chão para cima, e os tijolos que pavimentavam as estradas romanas eram tão quentes que queimavam os pés das pessoas, enquanto os desesperados buscavam um paraíso seguro, um estábulo, uma câmara abandonada, até mesmo um espaço de pedra fria no interior do forno de um padeiro. Os soldados da décima legião, que seguiam a insígnia do javali, plantaram as suas bandeiras sobre as ruínas do Templo, com pleno conhecimento de que isso era uma afronta para nós, pois atiravam na nossa cara um animal que considerávamos impuro. Os soldados eram como os próprios javalis, irresponsáveis, cruéis. Corriam por todo o lado, matando galos brancos do lado de fora das sinagogas, tratando lugares que serviam como bet kenesset e bet tefilliah, casas tanto de reunião como de oração, como um insulto e uma maldição». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Alice Hoffman. As Mulheres do Deserto. «Disseram que trazia os olhos abertos, a marca de um rebanho à parte. O que era de esperar de uma criança nascida de uma mulher morta, pois fui tocada por Mal’ach ha-Mavet, o Anjo da Morte…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quanto a mim, não esperava nada além de desastre. Conhecera o seu abraço antes mesmo de respirar ou enxergar. Era a segunda criança na família, um ano mais nova que o meu irmão Amram, mas radicalmente o oposto dele, amaldiçoada pelo fardo do meu primeiro alento. Minha mãe morreu pouco antes de eu nascer. Naquele momento, o mapa da minha vida manifestou-se sobre a minha pele como uma explosão de marcas vermelhas, pintas que, quando seguidas de uma para outra, me conduziram ao meu destino. Lembro-me do instante em que entrei no mundo, a grande calma que foi subitamente interrompida, o calor da minha pulsação sob a pele. O ventre da minha mãe foi aberto com uma faca afiada e fui tirada de lá. Estou convencida de que ouvi o rugido de dor do meu pai enlutado, o único som a romper o silêncio terrível de alguém que nasce da morte. Eu mesma não chorei, nem me lamuriei. As pessoas notaram isso. As parteiras sussurraram entre si, convencidas de que eu era ou abençoada ou amaldiçoada. Meu silêncio não foi o único aspecto incomum em mim, nem as sardas avermelhadas que surgiram sobre a minha pele uma hora depois do meu nascimento. Foi o meu cabelo, com a sua cor vermelho-escura de sangue, uma cobertura espessa crescente, como se eu já conhecesse este mundo e aqui já tivesse estado antes.

Disseram que trazia os olhos abertos, a marca de um rebanho à parte. O que era de esperar de uma criança nascida de uma mulher morta, pois fui tocada por Mal’ach ha-Mavet, o Anjo da Morte, antes de nascer no mês de Av, no Tisha B’Av, o nono dia, sob o signo do leão. Sempre soube que haveria um leão à minha espera. Sonho com tais criaturas desde que consigo me lembrar. Nos meus sonhos, alimentava um leão com a minha mão. Em troca, ele tomava a minha mão inteira na sua boca e me comia viva. Ao deixar a infância, decidi cobrir a cabeça; mesmo quando estivesse no pátio do meu pai, guardava-me para mim. Nas raras ocasiões em que acompanhei a nossa cozinheira ao mercado, via outras jovens se divertindo e enciumava-me até mesmo da mais comum dentre elas. Elas viviam uma vida plena, ao passo que eu só conseguia pensar em tudo o que não tinha. Elas falavam alegremente de seu futuro como noivas enquanto se encontravam junto ao poço ou se reuniam na rua dos Padeiros, acompanhadas das mães e tias. Sentia vontade de gritar com elas, mas não dizia nada. Como poderia falar da minha inveja quando havia coisas que queria ainda mais do que um marido, um filho ou uma casa própria? Ansiava por uma noite sem sonhos, um mundo sem leões, um ano sem Av, aquele amargo mês vermelho.

Deixamos a cidade quando o segundo Templo foi posto em ruínas, aventurando-nos pelo Vale dos Espinhos. Durante meses os romanos haviam profanado o Templo, crucificando o nosso povo dentro dos seus muros sagrados, arrancando o ouro dos umbrais de entrada e dos pórticos. Era para lá que os judeus de toda a criação viajavam a fim de oferecer sacrifícios perante o local mais sagrado, com milhares chegando à época da Festa dos Pães Ázimos, ansiosos por vislumbrar as paredes de ouro do lugar de morada da palavra de Deus». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

As Mulheres do Deserto. Alice Hoffman. «A minha pele estava queimada, as minhas mãos, esfoladas. Entreguei-me ao deserto, curvando-me à sua voz poderosa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Verão, 70 d. C.

«Viemos como pombos através do deserto. Num tempo em que não existia nada além da morte, éramos gratos por qualquer coisa, e muito gratos por tudo quando acordávamos para mais um dia».

«Caminhamos por tanto tempo que me esqueci do que era viver entre quatro paredes ou dormir toda uma noite. Nessa época, perdi tudo o que poderia ter possuído caso Jerusalém não tivesse caído: um marido, uma família, um futuro para chamar de meu. A minha infância desapareceu no deserto. A pessoa que fora um dia deixou de existir quando me vesti de branco e a poeira subiu em nuvens. Éramos nómadas, deixando para trás camas e pertences, tapetes e vasos de bronze. O nosso lar então era a casa do deserto, preta à noite, brutalmente branca ao meio-dia.

Dizem que a beleza mais verdadeira encontra-se na terra mais árida e que Deus pode ser encontrado lá por quem tem os olhos abertos. Mas os meus olhos estavam fechados contra os ventos da mudança, que podem cegar uma pessoa num instante. A própria respiração era um milagre quando as tempestades vinham rodopiando por toda a terra. A voz que surge do silêncio é algo que ninguém é capaz de imaginar até que seja ouvida. Ela ruge quando fala, mente para convencê-lo, rouba-lhe o pouco que tenha e o deixa sem uma única palavra de conforto. O conforto não pode existir em tal lugar. Só o que é brutal sobrevive. O que é astúcia subsiste até de manhã.

A minha pele estava queimada, as minhas mãos, esfoladas. Entreguei-me ao deserto, curvando-me à sua voz poderosa. Por onde quer que andasse, o meu destino andava comigo, costurado aos meus pés com linha vermelha. Tudo o que nunca será já foi escrito muito antes que aconteça. Não há nada que possamos fazer para impedi-lo. Não poderia seguir noutra direcção. As estradas de Jerusalém levavam apenas a três lugares: a Roma, ao mar ou ao deserto. Meu povo tornara-se errante, como fora no início dos tempos, novamente expulso. Segui meu pai para fora da cidade porque não tinha escolha. Nenhum de nós tinha, verdade seja dita.

Não sei como tudo começou, mas sei como terminou. Ocorreu no mês de Av, cujo signo é Arieh, o leão. É um mês que para o nosso povo significa a destruição, um período em que as pedras do deserto tornam-se tão quentes que não se pode tocá-las sem queimar os dedos, em que a fruta murcha nas árvores antes de amadurecer e as sementes chacoalham no seu interior, em que o céu torna-se branco e a chuva não cai. O primeiro Templo foi destruído nesse mês. As ferramentas significavam armas e não puderam ser usadas na construção do mais sagrado dos lugares santos; por isso, o grande guerreiro, o rei David, foi proibido de construir o Templo, porque conhecera os males da guerra. Em vez disso, a honra recaiu sobre seu filho, o rei Salomão, que invocou o shamir, um verme capaz de atravessar a pedra, e assim criou glória a Deus sem o uso de ferramentas de metal.

O Templo foi construído como Deus decretara que deveria ser, livre de derramamento de sangue e da guerra. Seus nove portões foram recobertos com ouro e prata. Lá, no mais sagrado dos lugares, ficou a Arca que guardava a aliança do nosso povo com Deus, um baú feito com a melhor madeira de acácia, decorado com dois querubins dourados. Mas, apesar da grandiosidade, o primeiro Templo foi destruído, o nosso povo, e Livros para a Babilónia. Entretanto, retornaria após setenta anos para reconstruí-lo no mesmo local em que Abraão se dispusera a oferecer o filho Isaac em sacrifício ao Todo-Poderoso, em que o mundo fora originalmente criado.

O segundo Templo resistiu por centenas de anos como a morada da palavra de Deus, o centro da criação no centro de Jerusalém, embora a Arca em si tivesse desaparecido, talvez na Babilónia. Mas então o tempo de derramamento de sangue impôs-se a nós uma vez mais. Os romanos quiseram tudo o que tínhamos. Chegaram até nós depois de invadirem inúmeras terras com as suas legiões imensas, pretendendo não apenas conquistar, mas humilhar, reivindicar não só a nossa terra e o nosso ouro, mas a nossa humanidade». In Alice Hoffman, As Mulheres do Deserto, Editora Planeta, 2011, 2013, ISBN 978-854-220-122-2.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

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