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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ervas Silvestres. Lu Xun. «… como que com medo de mim? Que me queiram mal? É isto o que me inquieta, o que está para além da minha compreensão. E, me entristece. Compreendi! São as mães que assim as ensinam!»

jdact

Diário de um louco
«(…) Eu conheço dois irmãos. É desnecessário referir os seus nomes. Quando ambos frequentavam a escola secundária, éramos bons amigos. Passaram depois os anos e as notícias que me chegavam mais e mais raras se tornavam. Aconteceu porém que, não há muito, ouvi dizer que um deles estava gravemente doente. Aproveitando uma visita que tencionava fazer à terra natal, não deixei de, num salto, ir visitá-lo. Todavia, ao chegar, fui recebido não pelos dois, mas só pelo mais velho. Este, agradecendo a minha deslocação vindo de tão longe, informou-me estar já o seu irmão recuperado e em viagem. Ia tomar posse de um cargo oficial, após as respectivas provas. E, depois de uma sonora gargalhada, mostrou-me dois volumes manuscritos que constituíam um diário do meu antigo amigo. Referiu o quanto aquela leitura poderia mostrar como o seu irmão mais novo estivera doente. De todo o modo, não punha qualquer problema em que aquilo fosse lido pelos amigos do enfermo. Assim sendo, trouxe eu comigo o dito diário. Não foi necessário mais do que uma passagem de olhos para perceber quanto a sua doença era do foro da mente, da esquizofrenia ou do complexo da perseguição. Linguagem desordenada e sem lógica, do sem sentido ao disparate, sem ordem cronológica nem referência a datas, apenas a desigualdade no carregado do traço e a irregularidade caligráfica mostravam terem sido escritos em tempos necessariamente diferentes. Se bem que, de vez em vez, lá surgissem períodos um pouco mais coerentes. Mostro uma boa parte do referido texto como algo de exemplar ou como matéria para o estudo dos médicos. É como o que segue. Não corrigi um único erro. Apenas alterei os nomes que foram surgindo, apesar de dizerem respeito tão só a pouco importantes aldeões. Quanto ao título, foi dado pelo próprio, depois da sua recuperação. Assim o deixo». In 2 de Abril do ano 7.

«Esta noite está um belíssimo luar. E eu que não via um luar assim há mais de trinta anos! Hoje contemplo-o, e isso dá-me uma grande alegria. Só agora compreendo o quanto foi na escuridão que passei os meus últimos trinta anos. Preciso, porém, de ter muito cuidado. Senão..., por que é que aquele cão da família Zhao terá olhado tão insistentemente para mim? Eu tenho razão em ter medo.
Hoje não há lua. Sei como isso é um mau sintoma. De manhã, quando saía de casa, silenciosamente, bem que reparei no olhar estranho do senhor Zhao. Parece que tem medo de mim, que me quer mal. Também uma boa meia-dúzia de aldeões cochichavam sobre a minha pessoa, parecendo temer-me. Todos os que fui encontrando pelo caminho assim faziam. Um deles, mais bruto, sorriu-me, a boca muito aberta. Senti um frio percorrer-me da cabeça aos pés. Bem sei que eles têm tudo planeado. Mas não me deixo intimidar, sigo o meu caminho. Estava um grupo de crianças mais à frente. Também segredavam sobre mim e os seus olhares eram como os do senhor Zhao, caras fechadas. Mas que raio tenho eu que ver com as crianças? Por que se comportarão elas também assim? Não pude deixar de gritar: Digam-me! Mas fugiram. Pensava por que carga de água havia eu de ter alguma coisa que ver com o senhor Zhao, ou com as outras pessoas da rua. Tanto quanto sei, nunca lhes fiz mal algum. Aconteceu apenas que, já la vão vinte anos, maltratei um livro de história de um velho senhor. Parece que ele terá ficado muito zangado. Mas estou em crer que o senhor Zhao nem conhece esse velho. Será que ouviu dizer qualquer coisa e vem agora fazer justiça não encomendada? E terá mesmo combinado com todos os outros, agora meus inimigos! Mas, e as crianças? Quando isso se passou nem nascidas eram. Como é possível que também elas me olhem com olhares esquisitos, como que com medo de mim? Que me queiram mal? É isto o que me inquieta, o que está para além da minha compreensão. E, me entristece. Compreendi! São as mães que assim as ensinam!
Não dormi bem durante a noite. As coisas precisam de ser bem investigadas, há que vê-las com maior clareza. Quanto a eles, uns foram condenados a açoites pelos oficiais locais, outros apanharam na cara bofetadas dos ricos, outros ainda souberam a esposa violada por funcionários governamentais, houve mesmo quem visse os próprios pais atirados para o suicídio pela opressão dos credores. Mas não tinham, nem mesmo então, caras tão horrorizadas e agressivas como ontem. A mais estranha foi aquela mulher na rua a bater no filho, dizendo: Palerma o que me apetece é morder-te! Mas com os olhos fixos em mim. Eu assustei-me. E denunciando eu o medo, os outros, com caras maldosas e dentes de lobo, desataram às gargalhadas. Foi quando Chen Lao-wu, o nosso criado, correu para mim e me puxou para dentro de casa». In Lu Xun, Ervas Silvestres, tradução do chinês de Sun Lin e Luís Cabral, Fundação Oriente, Edições Cotovia, Lisboa, 1997, ISBN 972-8028-960-2.

Cortesia da FOriente/JDACT

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ervas Silvestres. Lu Xun. «Em termos literários, foi ele um modernizador do seu tempo, o único escritor chinês de fama mundial após os tempos dinásticos. Um modernista que se identificou com o Ocidente e um revolucionário que alterou o estilo da literatura chinesa»


jdact e cortesia de wikipedia

«Lu Xun é mais do que um escritor moderno da antiquíssima China. Moderno, embora já um clássico. Para contar a história da vida deste homem, necessário se torna contar a história do conflito entre a China antiga e a China moderna. É possível, nos seus textos, de algum modo reviver e compreender uma nação e um povo profundamente divididos. A China, entre aproximadamente 1880 e 1950, foi atormentada por dramáticos e desastrosos eventos históricos que, sem dúvida, teriam atrasado uma nação mais frágil. Foi um profundo abismo para o povo e a sociedade chineses, divididos entre uma elite social altamente sofisticada mas de um refinamento elegante totalmente estagnado e os movimentos e espírito revolucionários de uma geração que pretendia, a todo o custo, quebrar com as peias sufocantes que a cercavam e caminhar decididamente para uma modernização.
Numa perspectiva superficial, a China experimentou problemas semelhantes aos europeus, no período que medeia os dois últimos decénios do século XIX e o início da II Guerra Mundial. Mas as diferenças eram grandes. O velho sistema social e político na China estava, em quase todos os aspectos, muito mais atrasado do que na Europa, assim como o corte com o antigo e o concomitante passo revolucionário para uma idade nova foi ainda mais drástico do que na Rússia. No meio destes conflitos e mudanças, o povo chinês teve que sofrer imensamente.
Passeando por ruas movimentadas, escondendo o rosto nas abas do meu chapéu, escreveu o ensaísta, poeta e novelista chinês, Lu Xun, 1881-1936, eu sinto-me
como um bêbedo em pé sobre uma tábua esburacada boiando ao sabor de uma corrente furiosa. Lu Xun foi testemunha dos mais desastrosos tempos da história moderna chinesa. Ele presenciou e viveu o fim da China Imperial, sendo que o seu trabalho mais produtivo se verificou nos tempos de confusão e anarquia que se seguiram à proclamação da República Chinesa, em 1911. Escreveu muito sobre estes tempos, sobre uma China torturada pelos senhores da guerra e pelas tropas dos invasores estrangeiros.
Sentiu ele a inabilidade e a paralisia dos intelectuais e dos políticos da sua geração. E presenciou a miséria e o sofrimento dos milhões de inapelavelmente pobres, não se permitindo sobre isso o silêncio. A sua importância para as literaturas chinesa e mundial não é apenas a de um grande escritor, mas sim, também, a de um intelectual política e socialmente activo.
Em termos literários, foi ele um modernizador do seu tempo, o único escritor chinês de fama mundial após os tempos dinásticos. Um modernista que se identificou com o Ocidente e um revolucionário que alterou o estilo da literatura chinesa.


As suas raízes estão bem enterradas no seu tempo. Lu Xun nasceu a 25 de Setembro de 1881, em Shaoxing, a capital de um dos distritos de Zhejiang, uma província da costa oriental chinesa. A cidade fora o berço, durante muitos séculos, de chineses educados e influentes. Foi a terra natal de muitos artistas e membros politicamente responsáveis da alta sociedade. Não surpreende assim que a sua família ocupasse cargos altamente posicionados, ao nível do poder e da administração locais.
Nasceu no seio dos Zhou, tendo como cabeça de família o seu avô materno, titular de um lugar no governo distrital. Era assim um Mandarim, um membro da aristocracia não hereditária, burocratas de mérito próprio que governaram a China por quase dois mil anos. Este legado de tradição feudal elegante fez de Lu Xun um precoce homem de letras, alguém que crescera num mundo de poesia. O seu nome completo de nascença era Zhou Shuren, o que signifìca: homem vertical como uma árvore. O que os seus pais tinham em mente, quando lhe deram este nome, pode apenas ser adivinhado. Mais tarde, ele próprio mudou de nome, procedimento normal entre chineses da classe culta, e tomou o nome de família da sua avó materna, Lu Rui. Viveu a sua inteira meninice junto do avô, o cabeça do clã familiar, a quem ele dedicava um profundo afecto.
A primeira infância, em Shaoxing, foi segura e tranquila. Recebeu instrução numa das muitas escolas citadinas privadas, como acontecia frequentemente na China de então. Eram escolas ao velho estilo, onde um mestre patriarcal ensinava os alunos a ler os livros canónicos chineses, os clássicos de Confúcio, e os muitos escritos escolásticos que divulgavam e interpretavam o Mestre. Foi também então iniciado na composição poética e na elaboração de ensaios à maneira clássica. As ciências, no sentido ocidental do termo, ainda não eram requeridas para a educação de um promissor jovem como Lu Xun. As meninas eram instruídas em casa. Quando o eram». In Lu Xun, Ervas Silvestres, Série Oriental, prefácio de Frank Landt, Edições Cotovia, Lisboa, 1997, ISBN 972-8028-96-2.

Cortesia de Cotovia/JDACT