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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Pedro Lembrando Inês. Poesia. Nuno Júdice. «Um pintassilgo desce pelas escadas da canção, empoleira-se nos seus versos, estende o bico para que o canto não se perca pelo chão. Ainda bem que é para o céu que ele está a olhar…»

jdact

Pedro, Lembrando Inês
O amor, dizes-me
«Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
suspenso dos gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o seu próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso deste sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzindo em
breves palavras a sua silenciosa verdade».

Natureza viva
«Um pintassilgo desce pelas escadas
da canção, empoleira-se nos seus versos,
estende o bico para que o canto
não se perca pelo chão. Ainda bem que é
para o céu que ele está a olhar: assim,
não vê os teus cabelos que se espalham
por entre ervas e ramos, nem os teus
braços que se apoiam ao declive da
encosta. No entanto, a tua respiração
canta com ele; e só quando o vento
o enxuta do ramo é que um silêncio
se faz para que, de dentro dele, nasçam o
bater de asas do seu voo e o teu riso, ao
veres um pássaro saltar de dentro do amor».

Anjo da Guarda
«O anjo que desce do espírito com a tarde,
que queima o chão da página, que
mancha de orvalho os campos do inverno,
onde a erva insiste em manter-se,
tem o olhar cansado do infinito. Pego-lhe
na mão, ouvindo o arrastar de asas
por trás de mim, enquanto avançamos
pelo alcatrão. É certo que um anjo não
foi feito para andar; e que os seus passos
desenham um voo desajeitado na hesitação
bêbeda de um rumo. Mas sento-o na
cadeira da taberna; ponho à sua frente
o amargo cálice da aguardente matinal; e
vejo-o engolir até ao fundo as gotas de
fogo do inferno, saboreando o sol que
desponta, por um instante, de entre as
nuvens que o expulsaram».
Poemas de Nuno Júdice, in ‘Poesia: Pedro, Lembrando Inês

In Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001, 2009.

Cortesia de DQuixote/JDACT

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Pedro Lembrando Inês. Poesia. Nuno Júdice. «Então, os santos pegam nas tesouras e começam a tosquia das nuvens. Lá em baixo, nos prados onde as almas se juntam, começa a chover…»

jdact
 
Pedro, Lembrando Inês

Variação sobre rosas
Como as rosas selvagens, que nascem
em qualquer canto, o amor também pode nascer
de onde menos esperamos. O seu campo
é infinito: alma e corpo. E, para além deles,
o mundo das sensações, onde se entra sem
bater à porta, como se esta porta estivesse sempre
aberta para quem quiser entrar.

Tu, que me ensinas o que é o
amor, colheste essas rosas selvagens: a sua
púrpura brilha no teu rosto. O seu perfume
corre-te pelo peito, derrama-se no estuário
do ventre, sobe até aos cabelos que se soltam
por entre a brisa dos murmúrios. Roubo aos teus
lábios as suas pétalas.

E se essas rosas não murcham, com
o tempo, é porque o amor as alimenta.

Beatitude
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas,
na idade do ouro,
as almas constipam-se,
amaldiçoando
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar
das almas.

Poemas de Nuno Júdice, in ‘Poesia: Pedro, Lembrando Inês

In Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2001, 2009.

Cortesia de DQuixote/JDACT

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «Quanto a Luís de Camões, o primeiro que pôs em arte a história de Portugal com admirável veracidade, ninguém ignora, que no afamado episódio é o rei Afonso quem levanta a espada fina contra Inês, mas, os brutos assassinos são os ministros que banham as espadas, no seio e no colo de alabastro da vítima inocente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores
«(…) Ambas as expressões, põe-nas na boca dela o benemérito Garcia de Resende nas ingenuamente eloquentes Trovas a modo de romance, tão elogiadas desde que Menendez Pelayo as classificou (e bem) como a composição mais verdadeiramente e expressamente nacional do Cancioneiro Geral, em que o editor reuniu o que na Corte Portuguesa se poetou de 1450 a 1515. Garcia de Resende parece ser, além disso, o primeiro trovador que deduziu das cenas de vingança contadas por Rui de Pina a ideia de os três áulicos ministros de el-rei, esquecidos das leis da cavalaria, haverem atravessado com as suas próprias espadas o peito da mansa cordeira cujo sacrifício no altar da razão de estado a braveza natural e medieval de Afonso IV havia ordenado, cedendo aos conselhos dos que temiam o poder castelhano. Seguiu-lhe o exemplo de António Ferreira, em cuja Castro os matadores são dois: Pero Coelho e Diogo Lopes Pacheco.

Mas aqueles
cruéis ministros seus e conselheiros
arrancando às espadas se vão a ela
traspassando lh'os os peitos cruelmente.

Seguiu-lho também o suave Diogo Bernardes, no soneto encomiástico que dirigiu ao amigo e mestre, dizendo-lhe que Inês se teria partido leda deste terrestre mundo, se previsse a sua apoteose,

inda que de mais duros golpes vira
o seu tão brando peito traspassado.

Também seguiu-lhe de perto o exemplo o galego-castelhano frei Jerónimo Bermudez, com nome civil António da Silva, na sua Nise Lastimosa, essa tragédia que, embora seja apenas tradução livre da Castro de Ferreira, passa por original, em virtude das ideias laxas sobre propriedade literária, vigentes tanto na Idade Média como na época da Renascença. Com relação à gente de armas que formava o séquito de el-rei, ele verte as palavras de Ferreira dizendo:

Mas aquelles malditos alevosos...
desnudas las espadas van-se a ella,
los pechos le traspasan crudamente.

Do mesmo modo procederam Mexia Lacerda na sua Ines Reina (1612) e Luís Velez Guevara, que condensou artisticamente num belo drama (1652) a Nise Lastimosa de Bermudez e a Nise Laureada, isto é, coroada. Segunda parte na qual o inventivo e retórico frade parafraseou os versos concisos do autor d'Os Lusíadas,

aquele que depois a fez rainha,

e a

que despois de ser morta foi rainha.

Mesmo aqueles dramaturgos que se ocuparam exclusivamente de Pedro como rei justiceiro, elogiando as suas sentenças e sanhas vingadoras como dignas de um Sábio Salomão, repetem nas suas alusões a Inês a concepção geralmente aceite. Assim o pensativo Alarcão em siernpre ayuda la verdade onde Pedro para explicar a sua severa tristeza alude à morte da querida cujo peito pasó cobarde espada. Assim também o seu imitador Matos Fragoso em Ver y crer, conquanto fale mais do sedento nobre furor de Pedro e do raro e novo artifício da sua vingança do que da injusta tirania de Afonso IV.
Quanto a Luís de Camões, o primeiro que pôs em arte a história de Portugal com admirável veracidade, crente todavia na tese horaciana, ninguém ignora, que no afamado episódio é o rei Afonso quem levanta a espada fina contra Inês, mas, como nos poetas menores, os brutos assassinos são os ministros que banham as espadas, no seio e no colo de alabastro da vítima inocente, como se o poeta houvesse tido o empenho de conciliar as duas figurações: da degolação (de-coll-atione) e a da matança apaixonada. A razão da preferência dada ao peito trespassado parece-me evidente. A morte pela espada é mais nobre, mais estética do que a execução pelo cutelo. Ao peito parece também referir-se a pena de talião executada nos supostos matadores». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, Artigo publicado na Revista Lusitânia, volume II, compilado em Dispersos, Originais Portugueses, I Vária (1º volume), Lisboa, Edições Ocidente, 1969.

Cortesia de E. Ocidente/JDACT

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «Agora (1924) a interpretação histórica da rosácea e da legenda Até a fim do Mundo foi substituída por outra simbólica por Reinaldo dos Santos no interessante estudo (a Iconografia dos Túmulos de Alcobaça) que publicou na ‘Lusitânia’»

Cortesia de wikipedia e jdact

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores
«(…) Na penúltima, reproduzida na obra de Vieira Natividade, e que é precedida de outras três cenas de luta violenta entre a sacrificada e o assassino (ou os assassinos) vê-se um homem que violentamente puxa para trás a cabeça dela, caída de joelhos. E segurando-a pelos cabelos a destronca ou antes já acabou de a decapitar, visto que a cabeça está separada no chão. Lá é sem cepo portanto, mas por um algoz que se realiza o acto. O sagaz e engenhoso intérprete dos túmulos considera essas representações todas, e as que constituem a orla superior do sarcófago de Pedro, como executadas entre 1356 e 1367 e inspiradas ou impostas ao escultor pela vontade suprema daquele que é autor principal dessa tragédia de amor. Por isso mesmo como documento histórico fidedigno. E embora eu pense em geral que a mão do artista nunca se cinge aos factos materiais com rigor absoluto (a arte é livre; estiliza e idealiza, eliminando o desnecessário, concentrando e aproximando o essencial, tanto no tempo como no espaço, afim de enfatizar assim), nem tão-pouco a do historiador, e em particular não possa esquecer que Pedro era muito capaz de sacros-perjúrios, concordo quanto à eloquência realista dessa cena sangrenta, na fé de que o reinante não a teria admitido se não fosse verídica na essência.
Agora (1924) a interpretação histórica da rosácea e da legenda Até a fim do Mundo foi substituída por outra simbólica por Reinaldo dos Santos no interessante estudo (a Iconografia dos Túmulos de Alcobaça) que publicou na Lusitânia. Lendo AE Fim do Mundo e tomando A por princípio, refere essa híbrida e improbabilíssima fórmula de A e Fim ao ciclo da vida na terra ou à instabilidade das coisas na terra, ilustrada por episódios do Grande Desvairo. Hipótese que não me parece provável. É tudo? Sim, tudo quanto de verdadeiramente documental e do século XIV está por ora patente aos nossos olhos. Talvez existam contudo pormenores inéditos na Crónica Geral do tempo de João I que pertence à Academia das Ciências de Lisboa ou na redacção diversa da mesma que existe na Biblioteca Nacional de Paris, e outrora fazia parte da livraria do Condestável Pedro, filho do Regente. Possível é mesmo que no texto castelhano, também inédito, que é original de ambos e representa uma refundição da Cronica General de España que fora aumentada em 1344, já figure a Estorea de Enês tal qual os antigos logo a escreveram e Fernão Lopes a aproveitou na sua Crónica de Afonso IV, desaparecida, quer propositadamente, quer por descuido.

NOTA: Quanto às Crónicas portuguesas, consulte-se o utilíssimo estudo de Jaime Cortesão, Do Sigilo Nacional sobre os descobrimentos, publicado na Lusitânia, I. Em todas as suas obras Fernão Lopes refere-se amiúde àquilo que os antigos notaram em escrito.

Estorea que, mutatis mutantis, literariamente emparelharia com a de NunÁlvares, a do Infante Santo e até certo ponto com a Lenda de Santa Isabel. Mas, conforme já deixei expresso na Saudade Portuguesa, aquelas Crónicas estão por explorar. O Romance castelhano da Degolada, inspirado pela lenda de Inês, que hoje principia Donde vas, el caballero? Onde vas triste de ti? Tão vivo na memória dos Castelhanos que, modificado, o aplicaram em 1878 ao amor profundo do rei Afonso XVII pela Rainha D. Mercedes, romance que no século XVII Velez Guevara introduzira no seu drama inesiano Reinar después de morir, e por isso tratado sem hesitar de Romance de Inês de Castro por diversos estrangeiros, claro que não o devemos contar entre os documentos conquanto seja antigo e tradicional. Escuso de acrescentar que investigadores conscienciosos da história de Inês, como Ribeiro Vasconcelos e Sanchez Moguel, acreditam na Degolação. Poetas cultos que se lembraram de Pedro e Inês, esses imitaram a cortesia e discrição dos historiadores. Só vaga e impessoalmente assentaram que deram a morte a Inês, ou que a mataram cruamente». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, Artigo publicado na Revista Lusitânia, volume II, compilado em Dispersos, Originais Portugueses, I Vária (1º volume), Lisboa, Edições Ocidente, 1969.

Cortesia de E. Ocidente/JDACT

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores. Carolina Michaelis de Vasconcelos. «Um texto concebido no âmbito da Renascença Portuguesa. O resultado é uma interpretação comparada da ideia de Saudade com outras análogas variantes das línguas europeias…»

jdact

Pedro, Inês e a Fonte dos Amores
«Notas críticas soltas, sobre esse assunto, já quase exaustivamente tratado por penas primorosas, eis o que vai constituir a minha contribuição ao monumento literário erigido pelos melhores Camonistas de hoje, a fim de celebrar o … Centenário de Luís de Camões. Notas críticas sobre a tragédia de amor, suave e feroz, pela qual melhor do que por nenhuma outra se documenta perante o mundo inteiro, o temperamento, a psique da nação de apaixonados que, segundo fama várias vezes secular, se mantém de amor, morre de amor, ou mata delirando amorosamente. Notas críticas soltas que eu, de mais a mais, já anteriormente espalhei em escritos meus. Mas como não fossem aproveitadas nos trechos de história postos em arte por Antero de Figueiredo no Grande Desvairo nem na Iconografia dos Túmulos de Alcobaça, de M. Vieira Natividade, nem tão pouco no belo estudo que Reinaldo Santos publicou na Lusitânia sobre o mesmo tema, reúno-as num feixe para, com ele na mão, me incorporar no cortejo organizado em honra do excelso Poeta que fez da Vida, da Morte, e da Memória de Inês de Castro o episódio mais terno e delicado d'Os Lusíadas tornando lendárias e mundiais as histórias da Fonte das Lágrimas e da Degolação.

NOTA: Os Lusíadas, III, oitavas 118-135. As palavras do Poeta que afirma que os matadores banharam as espadas no colo de Inês e no seu seio, as brancas flores que ela dos olhos seus regadas tinha, deram margem, de resto, a controvérsias. Sem cepo. Antero de Figueiredo é o único escritor que fala dum cepo armado ad hoc no pátio do Paço de Santa Clara.

Mas seria realmente degolada Inês? Ou foi apunhalada? Foi o algoz como executor oficial das Justiças de el-rei que com o seu cutelo separou do colo de alabastro a linda cabeça de cabelos ruivos e olhos verdes? Ou foi o peito de Inês trespassado pelas espadas (estoques) dos três ministros e privados de Afonso o Bravo, cujos bárbaros corações o vingador apontou e castigou também barbaramente, alguns anos depois, à moda da Idade Média como verdadeiros matadores da amada? A lenda, a poesia portanto, que de há tanto tornou internacional de nacional o caso triste e digno de memória assenta o segundo processo. A historiografia coeva, pelo contrário, simples relatadora de factos ainda não feitos arte ou estilizados, atesta o segundo (em lugar de espadadas alguns autores tardios empregam estocadas). Rui de Pina, o cronista oficial e o compilador Acenheiro, algo posterior, empregam exclusivamente termos vagos e gerais como morte e matar. Mataram-na. O rei mandou matá-la.
A Crónica de D. Afonso IV fonte de ambos, perdeu-se. Há todavia partes do relato dela no Capítulo 27 da Crónica de D. Pedro: Como el-rei Pedro de Portugal disse por D. Enes que fôra sua mulher. - Aí diz: … já tendes ouvido compridamente onde falamos da morte de D. Enes a razão porque a el-rei Afonso matou e o grande desvairo que entre ela e este rei Pedro, sendo então infante, ouve por este aso.
Restam também, na Crónica de D. João I, os importantes capítulos relativos àquelas Cortes em que João das Regras expôs a sua nenhuma fé no juramento e no casamento de Pedro com Inês. Neles não se encontram senão os mesmos termos vagos (matar e morte). Nos dizeres latinos do Breve Cronicon Alcobacense, corresponde igualmente a matou o sinónimo occidit (matar não provém de mactare, como rematar e arrematar provém do árabe mate morto, usado sobretudo no jogo do xadrez. Xeque mate significa o rei está morto): Era N.º CCC.o LWX.a III.o, VII dies Januari occidit rex alfonsus dominam agnetem Colimbrie. Nos antigos Livros de Linhagens, acrescentados até o fim da primeira dinastia, Inês não surge senão como a que matou el Rei Affonso. A mesma fórmula emprega o Castelhano Pero Lopez Ayala (1332-1407) na sua Cronica de Pedro el Cruel, falando verdade, mas não a dizendo toda, encobrindo-a pelo contrário com estilização ou idealização discreta.
Dois depoimentos de testemunhos há todavia, quase coevos dos factos e independentes um do outro, em que às claras se fala de degolação. E segundo a sentença proverbial, dois testemunhos são suficientes para autenticar qualquer facto. Durch Zweier Zeugen Mund alle Wahrheit kund. Um desses testemunhos foi lavrado, como de costume, pela pena de um cronista; o outro pelo escopro de um estatuário. O primeiro está num pergaminho de Santa Cruz de Coimbra: no chamado Livro da Noa, em cujos registos sucessivos e assaz desordenados, figura no fim a nótula seguinte: … era MCCC nonagesima tertia VII dies januarii decolata fuit Dona Ines per mandatum domini, Afonsi IIII. A arte plástica confirma este veredicto, pelo menos na leitura comum. É no calcário fino dos túmulos alcobacenses, essa maior maravilha de arte que em Portugal se produziu no século XIV e ainda hoje encanta olhos que sabem ver, apesar de corroída pela acção do tempo e destroçada pelo vandalismo da soldadesca do general Erlon em 1810, é nesse calcário fino de um dos túmulos alcobacenses que se lê como numa Bíblia Pauperum a cena da degolação. Onde? Numa das pétalas da rosácea que (fora do comum em todos os sentidos) guarnece o lado da cabeceira no sarcófago de Pedro. Fora do comum, porque em dezoito quadrinhos profanos, seis no círculo interior, doze no exterior, o artista tentou representar cenas íntimas da vida real e da morte de Inês». In Carolina Michaelis de Vasconcelos, Artigo publicado na Revista Lusitânia, volume II, compilado em Dispersos, Originais Portugueses, I Vária (1º volume), Lisboa, Edições Ocidente, 1969.

Cortesia de E. Ocidente/JDACT

domingo, 6 de março de 2011

Pedro e Inês: João Baptista Gomes Júnior. Nova Castro. Tragédia. «Té das campas os mortos se levantão para me flagellar: continuamente negros fantasmas ante mim voltêão... Que horror!.. Oh Ceos!.. Agora mesmo, ...»

Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho.
Que vem com tristes lsgrimas rogar-te
Que d'esta triste Mãi te compadeças.

NOVA CASTRO
TRAGEDIA
Cortesia de projectgutenberg 

Actores
D. Affonso IV  -  Rei de Portugal.
D. Pedro  -  Principe.
D. Ignez de Castro.
D. Sancho  -   Mestre do Principe.
Coelho  -   Conselheiro.
Pacheco  -  Conselheiro.
D. Nuno  -  Camarista do Rei.
O Embaixador de Castella.
Elvira  -  Aia de D. Ignez.
Dois Meninos   -  Filhos de D. Pedro, e D. Ignez.
A Scena he em Coimbra, n'huma Sala do Palacio, em que reside D. Ignez

A Acção começa ao romper do dia.

Cortesia de wikipedia
ACTO I
Scena I

Ignez, e Elvira
Ign.(1) Sombra implacavel! Pavoroso Espectro!
Não me persigas mais... Constança! Eu morro.(2)

(1) Ignez entra na Scena delirante, e horrorisada.
(2) Assenta-se desfallecida.
Elv. Que afflição!.. Que delirio!.. Oh Deos!
Senhora...
Ign.(3) Onde está... onde está o meu Esposo?...
(3) Ainda fora de si, e atemorisada

Elv. O Principe, Senhora, inda repousa,
Tudo jaz em silencio: tu sómente, Negando-te ao socego, atribulada, Neste Paço, ululando, errante vagas? Que dor acerba o coração te rasga? Que sonhadas visões assim te ancêão?
Ign. Contra Ignez se conspira o Ceo, e a Terra. (4)

(4) Levantando-se
Té das campas os mortos se levantão
Para me flagellar: continuamente
Negros fantasmas ante mim voltêão...
Que horror!.. Oh Ceos!.. Agora mesmo, Elvira,
Debuxados na mente inda diviso
Os medonhos espectros, que, girando
Em torno de mim, me assombrárão...
surgir vejo Constança do sepulchro,
Que em furias abrazada a mim caminha...
Relampagos fuzilão, treme a terra...
Eis-que lá dos abysmos arrojados
Impios Ministros da feroz vingança
No peito agudos ferros vem cravar-me:
Debalde agonisante o Esposo invoco...
Proferido por mim seu doce nome
Exacerba os furores de Constança,
Que á morada dos mortos me arremessa.
Oh do crime funestas consequencias!...
Desgraçados mortaes!

Elv. .............. E póde hum sonho...
 
Ign. Não he hum sonho, Elvira, são remorsos.
Elv. Devem elles acaso inda ralar-te?
Não bastou Hymenêo a suffoca-los?
Ah! Se antes que os seus laços te cingissem,
Succumbiste do amor á paixão céga,
Assaz tens expiado este delicto,
Delicto mais que todos desculpavel.
Ign. Huma alma como a minha jámais julga
Ter assaz expiado seus delictos:
Embora de Hymenêo os sacros laços
Agora o meu amor licito fação,
Este amor foi no crime começado.
Mirrada de pezares, sim, foi elle,
Quem despenhou Constança no sepulchro,
Constança, essa Princeza desgraçada,
Que, a não ser eu, talvez fosse ditosa,
Talvez, do Esposo amada, inda vivesse;
Eu fui a origem dos seus males todos;
Trahi sua amizade, fui-lhe ingrata,
Sua rival, oh Ceos! assassinei-a.
Oh crime involuntario! Horrendo crime!
Tuas iras são justas, sim, Constança;
Arrasta-me comtigo á sepultura,
Acaba de punir-me, e de vingar-te...
Mas ah! Que digo!.. Não... poupa-me a vida,
Nella a vida do Principe se int'ressa:
Tu não has de querer envenenar-lha:
A morte não, não póde certamente
A paixão extinguir de que morreste;
Mesmo lá do sepulchro inda o adoras...
E talvez compassiva me desculpes.
Quem melhor do que tu conhecer deve,
Que aos affectos de Pedro, aos seus extremos
Humanas forças resistir não podem?
Se tu, sem ser amada, tanto o amaste,
Deixaria eu de ama-lo sendo amada?
Sabe o Ceo quanto tempo em viva guerra,
Contra o meu coração lutei debalde:
Quantas vezes chamando em meu soccorro
A virtude, e a razão... auxilio inutil!
Immudece a razão quando amor falla.
Triunfar de paixões iguaes á minha...
Os miseros mortaes não podem tanto...
Que profiro infeliz? Até blasfemo!...
Perdoa, Summo Deos, ao meu delirio:
A meu pezar, Senhor, fui criminosa;
Porém tua Justiça adoro, e temo.

Cortesia de fparaujo
Elv. O Ceo he justo, Ignez, o Ceo te absolve:
Tua alma, onde morou sempre a virtude,
Tem por graves delictos leves faltas;
Tranquilliza, Senhora, os teus sentidos,
Modera as afflicções.
Ign. ............... Em breve a morte
Ás minhas afflicções virá pôr termo.

Elv. Oh Ceos! Na primavera de teus annos,
Engolfada em fataes, loucos pezares,
Tu propria buscas terminar teus dias,
Sem que ao menos te lembres que depende
Da tua vida a vida do Consorte;
Que numa lagrima só que tu derrames,
Se o Principe jámais a divisasse,
Seria de sobejo a envenenar-lhe
O terno coração, que affagar deves!...
Se neste estado agora elle te achasse,
Em que estado sua alma ficaria!
Por seu amor, te rogo, enxuga o pranto,
As afflicções desterra, em que soçobras.
Ign. Oxalá que podesse desterra-las!
Mas buscarei ao menos reprimi-las,
Porque não participe o caro Esposo
Dos males, dos horrores que me cercão.
Embora o Ceo me opprima, e me castigue,
Entorne sobre mim suas vinganças;
Porém sobre elle só prazeres mande:
O seu socego, mais que o meu, desejo:
A fim de lhe mostrar alegre o gesto,
A que esforços me não dou continuamente?
Para o não affligir... ah! Quantas vezes
Calco, suffoco dentro do meu peito
Afflicções, que no peito me não cabem!...
Quantas vezes, sumindo-se a seus olhos,
Dos meus ao coração recúa o pranto!
Mas ah, que os meus pezares, meus martyrios,
Quanto mais os escondo, muais se azédão,
Nem podem já ter fim senão co'a vida.
A qualquer parte, oh Ceos, que os olhos mande,Pág. 7
Motivos d'afflicção sómente encontro.
Do passado a lembrança me horrorisa,
E do futuro a idéa me intimida:
Contra mim conspirada a intriga, a inveja,
Sobranceiras as iras d'hum Monarcha,
Tudo me vai cavando a sepultura:
O coração m'o diz.

Elv. ............ Elle te illude:
Que podes tu temer, quando enlaçada
Ao mais digno dos Principes do Mundo,
Ao melhor dos mortaes que os Ceos formárão,
O seu braço invencivel te defende?
Em vez de recear sonhados males,
Olha os immensos bens, a fausta sorte,
Que propicio futuro te apparelha;
O Lusitano Solio, que te espera;
O respeito, o amor dos Portuguezes,
A gloria de imperar sobre este povo,
A quem teme, e venera o Mundo inteiro...
Tudo, tudo, Senhora, te promette
Permanentes venturas: nada temas.

Cortesia de artistlevel
Ign. Essas mesmas quimericas venturas,
Esses bens illusorios, que me apontas,
Justos motivos são dos meus temores.
Oxalá que D. Pedro não tivesse
Hum Throno por herança que offertar-me!
Então fôra eu feliz, passára a vida
No regaço da paz, e da alegria:
Não haveria então quem se oppozesse
Á perpetua união das nossas almas;
Nem barbara politica empecêra
De nossos ternos corações a escolha:
Hum do outro na posse, ambos ditosos,
Aos transportes d'amor sem susto entregues,
Rodeados dos tenros, caros filhos,
Sem ter que desejar, o Throno excelso,
Todos esses fantasmas da grandeza
Nem huma vez sequer nos lembrarião;
Mas o fado nao quiz...

Elv. ................ Ahi vem D. Sancho.

Ign. Que motivo o conduz a procurar-me?
Venero as suas cãs, e o seu caracter;
Como elle, junto aos Reis, achão-se poucos.

Fim da Scena I