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quarta-feira, 9 de março de 2011

Salvaterra de Magos. As Cheias no rio Tejo: «Em 1876, decorreu aquela que é conhecida como a maior cheia no Tejo de que há memória. Na escala hidrométrica de Vila Velha de Ródão, a cheia de 1876 registou 25,40 m. No séc. XX, as maiores cheias do Tejo ocorreram em 1936, 1940, 1941,1942 1969,1970, 1978 e, a 11 e 12 de Fevereiro de 1979, aconteceu a maior cheia»


Cortesia de dasmargensdorio

Breve historial sobre as cheias no Tejo.
«Perdem-se nos alvores dos tempos as inundações do rio Tejo. A partir do neolítico, com a sedentarização do Homem e a «descoberta» da agricultura, verificamos que os locais onde a presença humana mais se acentua são precisamente junto do Tejo ou dos seus afluentes, por serem os locais que possuem os terrenos mais férteis. Esta fertilidade ocorre sempre após as cheias.
No período romano, a ocupação agrícola é também feita junto do Tejo. Abundam várias estações arqueológicas, que denotam o uso agrícola dos locais em questão.
Ao longo dos tempos sempre houve cheias, infelizmente os registos não abundam, para que possamos compreender e analisar estas intempéries e os seus efeitos nas povoações ribeirinhas.
Jorge Custódio refere que em meados do séc. XVIII, o memorial de Santa Iria (Ribeira de Santarém), datado de 1644, como um local que, para além da função devocional, possui uma outra função que é medir as cheias e que em Benavente se comprou um farol que era utilizado em tempos de cheias «conhecer as cheias para as controlar e poder usá-las ao serviço da agricultura parece ser um desiderato essencial nos tempos antigos». 



Cortesia de portugal21 
O memorial de Santa Iria garantia uma função suplementar: a medição das cheias. A vara era utilizada com frequência para medir a altura das cheias no porto de Tancos no séc. XVIII. Anunciar a cheia, quando começava e quando acabava deveria ser uma das funções dos municípios em articulação com os responsáveis das Lezírias e Pauis. Em Benavente comprou-se um farol para o tempo de cheia, invernada e tempestade de escuro, no qual se deveria manter acesso em luz de azeite durante a época, para se saber e comunicar.
Em meados do séc. XIX, existem referências das medidas de protecção das povoações ribeirinhas afectadas pelas cheias, que para o efeito construíam diques, canais e fossas de drenagem, de modo a regularizar o leito do rio Tejo. Eram trabalhos feitos pelos valadores que consistiam na abertura e consertos de valas de contenção das terras para manter a prática agrícola.
As condições de trabalho dos valadores eram penosas. com o auxílio de uma pá curta e estreita, retiravam a lama das valas abertas até ao cimo do valado, onde enchiam cestas de madeira ou de verga, transportando-as para locais que necessitassem desta terra.

Cortesia de dasmargensdorio
É a partir do séc. XIX que começam a surgir com maior frequência os relatos/documentos sobre as cheias do Tejo e as catástrofes a elas associadas.
Em 1876, decorreu aquela que é conhecida como a maior cheia no Tejo de que há memória. Na escala hidrométrica de Vila Velha de Ródão, a cheia de 1876 registou 25,40 m e atingiu 10 000 m3 de água em Tancos. Inúmeras povoações ficaram isoladas, os campos alagados durante semanas, sendo incalculáveis as mortes e prejuízos em várias regiões.
No séc. XX, as maiores cheias do Tejo ocorreram em 1936, 1940, 1941,1942 1969,1970, 1978 e, a 11 e 12 de Fevereiro de 1979, aconteceu a maior cheia do séc. XX.

Existem algumas descrições das cheias e dos prejuízos que causaram no Ribatejo. A cheia de 1936 provocou «uma invasão tumultuosa das águas na Lezíria Grande, onde toda a terra foi alagada. Na estrada do Cabo - Porto Alto a água chegou a atingir 1 m de altura».
No que respeita à cheia de 1941 «foi o ano do Ciclone, o vendaval de 15 Fevereiro transformou a Lezíria em leitos do Tejo e Sorraia com o cortejo de estragos que foi o maior de que há memória desde a fundação da Companhia das Lezírias».
Em 1979, a água no caudal do Tejo tomou proporções nunca vistas, inundou os campos e isolou povoações durante semanas». In As Cheias em Salvaterra de Magos, CM de Salvaterra de Magos, Março de 2010.

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Salvaterra de Magos. As Cheias no rio Tejo: «Um dos maiores paradoxos da vida do Ribatejo. O Tejo leva e traz o maná para as eiras, escoadas as águas, ao fim de alguns dias, a terra fica prenha e reverdejará na Primavera seguinte»

Cortesia de meteoribatejohostzi

As cheias no rio Tejo
«As inundações do Tejo são quase tão antigas quanto o próprio rio Tejo.
Nos Invernos chuvosos uma invasão de águas do Tejo arrasa tudo à sua volta e durante dias o rio parece revoltar-se contra o Homem, inundando os campos, modificando por completo a lezíria ribatejana.

«E o rio parece assombrado! E parece que homens e animais não podem fazer outra coisa que não seja esperar. Esperar pela segunda fase do Inverno Ribatejano, a fase das enormes e catastróficas cheias do Ribatejo. Essa altura em que o rio incha como o ventre de uma grávida e paralisa tudo definitivamente, invadindo toda a campina, transbordando para as estradas, tornando o Ribatejo um túmulo aquático, suspenso no tempo» (O Inverno no Ribatejo).

As cheias são um dos maiores paradoxos da vida do Ribatejo: são boas porque fertilizam as terras e lavam os campos e são más porque destroem bens e espalham o pânico nas povoações ribeirinhas.

Cortesia desortidofino
Nos dias de cheias, o rio Tejo faz-se mar, que se estende de horizonte a horizonte, com os campos alagados, culturas destruídas, estradas cortadas, o desespero e ira dos Homens que se sentem diminutos perante esta adversidade das cheias:
  • «A água vai baixando. Deixou de chover há uns dias. Na lezíria já não há emposta mais chegada onde não tenha ido. A medida que a cheia desce, a desolação aumenta. Os troncos das árvores, a vegetação das abertas, os barracões, os paus da vedação, tudo o que as águas tocaram, envolvem-se numa cinta de barro viscoso, quase castanho, como se mãos humanas as tivessem marcado de maldição. Aluíram palheiros e arribanas. Vêem-se a boiar coelhos e galinhas das capoeiras arrombadas; e dezenas de lebres que não puderam escapar à morte da corrida com a cheia; e pássaros. Anda no ar um cheiro acre. E ameaça de mais fome. Os milhafres planam sobre um festim de miséria. Mergulham lá do alto, agarram as presas e abalam. Perdem-se no horizonte pardo» (Alves Redol Os Avieiros).
Durante dias ou semanas, as povoações ribeirinhas cobrem-se de água, mágoas e inquietações. Contudo, estas cheias possuíam um dom para fertilizar as terras destes campos, em cada cheia os solos agrícolas eram renovados e dotados de fecundidade para as colheitas:

Cortesia de cinemasapo
«O Tejo leva e traz o maná para as eiras, escoadas as águas, ao fim de alguns dias, a terra fica prenha e reverdejará na Primavera seguinte». (Micaela Soares, Cheias).
Na primeira metade do séc. XX, as cheias com maior ou menor intensidade aconteciam todos invernos e as populações da borda d'água habituaram-se a viver com elas.
A partir desta data, com a construção de barragens no rio Tejo e afluentes, as cheias ficaram mais espaçadas, mas em contrapartida tornaram-se mais violentas e destruidoras.

Salvaterra de Magos é uma vila ribeirinha que sofreu durante anos a revolta das águas do Tejo e soube adaptar-se a estes ciclos de cheias, criando para estes temporais uma espécie de «vida anfíbia», de forma a resistir e a sobreviver a estas intempéries». In As Cheias em Salvaterra de Magos, CM de Salvaterra de Magos, Março de 2010.

Cortesia da CMSalvaterra de Magos/JDACT