Mostrar mensagens com a etiqueta João Ricardo Pedro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta João Ricardo Pedro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O Teu Rosto Será o Último. João Ricardo Pedro. «Então, o doutor Augusto Mendes sentou-se ao seu lado, pegou numa caneta e num papel, desenhou o rectângulo de jogo, posicionou os vinte e dois jogadores, e explicou-lhe o que era o futebol»

jdact

«(…) Todas as manhãs, o doutor Augusto Mendes mandava-o entrar para o consultório, pedia-lhe que tirasse o casaco, que se sentasse, e, enquanto ia desfiando a ligadura como se fosse um novelo, perguntava-lhe se passara bem a noite, se dormira, se os cobertores eram suficientes, se ainda tinha lenha, se não entrava água pelo telhado, se sentira dores. Depois, retirava com extremo cuidado as compressas, observava a ferida, avaliava o evoluir da cicatrização, limpava, voltava a cobri-la de compressas, enrolava uma nova ligadura e dizia: tudo como deve ser. Então, o Celestino vestia o casaco, devolvia o chapéu à cabeça e despedia-se até à manhã seguinte. Passadas três semanas, no final da consulta, enquanto lavava as mãos, o doutor Augusto Mendes disse: Celestino, o que havia para fazer, mal ou bem. está feito. O que quer dizer que ainda não é desta que morres, e que podes seguir a tua vida como bem ntenderes. Por cima do lavatório, existia um pequeno espelho, e o doutor Augusto Mendes reparou que, atrás de si, o Celestino tentava atar um lenço à cabeça, por forma a tapar o buraco sem olho. Mas o lenço era demasiado pequeno e não havia maneira de conseguir dar o nó. O doutor Augusto Mendes acabou de lavar as mãos, secou-as numa toalha branca, esperou que o Celestino voltasse a guardar o lenço dentro do bolso e, assim que se virou, perguntou-lhe: Celestino, és um homem religioso? Celestino parecia não saber o que responder. O doutor Augusto Mendes insistiu: és temente a Deus? Vais à missa aos domingos?
Celestino disse que não, que tinha ido uma vez quando era miúdo, mais nada. Nem à missa, nem à escola. E de futebol, gostas de futebol?, perguntou-lhe o doutor Augusto Mendes. Celestino encolheu os ombros e abanou a cabeça, como se não fizesse a mínima ideia do que fosse o futebol.
Então, o doutor Augusto Mendes sentou-se ao seu lado, pegou numa caneta e num papel, desenhou o rectângulo de jogo, posicionou os vinte e dois jogadores, e explicou-lhe o que era o futebol. Depois, disse: tenho um terreno, perto daqui, onde gostava de fazer um campo de futebol. É preciso arrancar as ervas, tirar as pedras, talvez alisá-lo, colocar areia, fazer as balizas, as marcações. É trabalho para uns bons meses. É o trabalho que te estou a oferecer. O doutor Augusto Mendes aguardou pela resposta do Celestino, mas, como a resposta tardava em chegar, continuou: em troca, pago-te uma boa jorna e podes ficar a viver na casa onde agora estás, até teres dinheiro para comprar a tua, ou até te decidires a ir embora. Celestino continuava sem esboçar a mínima reacção, de olho posto no papel onde se encontrava desenhado o campo de futebol com os vinte e dois jogadores. Peço-te só uma coisa,, prosseguiu o doutor Augusto Mendes, que passes a ir, todos os domingos, à missa. Celestino ergueu a cabeça, olhou o doutor Augusto Mendes e perguntou-lhe porque é que estava a fazer aquilo tudo por ele. Porque desde pequeno que o meu sonho é ter um campo de futebol, riu-se. E depois disse: mas ficas avisado: se um dia destes aparecer por aí a Guarda à procura de um homem sem um olho, levo-os direitinhos a ti. O Celestino anuiu com a cabeça e, quando se preparava para se levantar, o doutor Augusto Mendes interrompeu-o: espera lá, que ainda não acabou a consulta. De dentro de uma das gavetas da secretária tirou uma caixa de madeira. Era uma caixa retangular, com um fecho pequenino e dourado. Abriu-a. No interior, sobre o forro aveludado, embutida numa concavidade, repousava uma esfera de vidro. Ao lado da esfera de vidro, havia ainda uma outra concavidade que se encontrava vazia. O doutor Augusto Mendes aproximou-se do Celestino, puxou-lhe a pálpebra direita para cima e introduziu a esfera de vidro na cavidade ocular. Tal como suspeitara, assentava-lhe na perfeição: o tamanho, a forma, a cor. O Celestino levantou-se e plantou-se, incrédulo, em frente do espelho. Vendo a simetria devolvida ao rosto, esboçou um largo sorriso. Disse: oh, doutor, até parece que já vejo melhor. É capaz, Celestino, é capaz, respondeu o doutor Augusto Mendes.
E, enquanto o outro se mirava ao espelho, o ilustre médico descobria, naquele homem vindo sabem Deus e o Diabo donde, talvez das margens do Guadiana pela forma de falar, naquele desgraçado que não tinha onde cair morto e que talvez por isso mesmo caíra ali, um inesperado reflexo de si próprio. É que, enquanto Celestino se mirava ao espelho, de sorriso estampado no rosto, e dizia Oh, doutor, até parece que já vejo melhor, não era porque, graças ao olho postiço, tivesse passado a ver melhor, mas porque a imagem que o espelho lhe devolvia se assemelhava à lembrança que tinha de si próprio. Era, por isso, uma ilusão. Uma ilusão que tinha, por um lado, a capacidade de lhe restituir a identidade mas, ao mesmo tempo, a capacidade de lha ocultar. Tanto assim era que o doutor Augusto Mendes disse, meio a rir, meio a sério: Celestino, a partir de agora, se vier aí a Guarda perguntar por um homem sem um olho, já lhes posso dizer que não sei de quem se trata. E foi sobre essa ilusão que assentou o resto da vida de Celestino. Quase quarenta anos depois, sentado no cadeirão de verga, a fumar cachimbo, olhando as árvores que recortavam o céu como fantasmas, o doutor Augusto Mendes repetia a resposta de Celestino: azares da vida». In João Ricardo Pedro, O Teu Rosto Será o Último, Prémio Leya 2011, Leya, 2012, ISBN 978-989-660-209-3.

Cortesia de Leya/JDACT

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O Teu Rosto Será o Último. João Ricardo Pedro. « Voltou a pousar espingarda no mesmo sítio e, virando-se, de repente, para o Bocalinda, pediu-lhe para ir avisar os outros e ligar à GNR. Sem escarcéus. Pianinho»

jdact

«(…) Até que, por volta das seis da tarde, enquanto, em Lisboa, o Presidente do Conselho de Ministros, depois de se render ao Movimento das Forças Armadas, saía do quartel do Carmo dentro de uma chaimite a salvo de algum balázio perdido, de algum calhau no meio dos cor…, talvez com a cabeça entre as mãos, contemplando os sapatos, medindo os atacadores, a desfazer e a refazer os nós, talvez de olhos fechados a pensar na put… da vida, o professor Marcello Caetano, o pai da menina Ana Maria, ou  talvez a espreitar pela janelinha da chaimite, a espreitar a alegria esfuziante dos soldados, da multidão em bicos de pés, todos pendurados nas árvores como macacos, nos candeeiros de iluminação pública, país do car…, talvez estivesse ele a pensa, país dum filha-da-p…, seis da tarde, mais coisa menos coisa, o doutor Augusto Mendes e o Bocalinda, num ermo sem dono, num lugar que jamais lembraria ao diabo, muito menos ao menino Jesus, encontravam, tombado no chão, coberto por uma nuvem de moscas, a cara crivada de chumbos, o corpo do Celestino. E só não houve dúvidas de que era quem procuravam por causa do olho de vidro que permanecia intacto sobre a carne desfeita. A espingarda do Celestino encontrava-se caída, a cerca de três metros do corpo. Num gesto irreflectido, o doutor Augusto Mendes pegou na arma e confirmou que se tratava da estupenda Browning de dois canos que ele próprio lhe oferecera, havia mais de vinte anos, e na qual ainda se podia ler, numa inscrição gravada na coronha: com admiração e amizade, AM. Depois, abriu a culatra e verificou que os dois cartuchos permaneciam incólumes, dentro das câmaras. Mataram-no, disse. Ou talvez não tenha dito nada. Talvez tenha apenas pensado: mataram-no. Voltou a pousar espingarda no mesmo sítio e, virando-se, de repente, para o Bocalinda, pediu-lhe para ir avisar os outros e ligar à GNR. Sem escarcéus. Pianinho. Ele ficaria ali, de vigia ao defunto. Já anoitecia quando os guardas finalmente chegaram ao local. Com a luz que restava, tiraram medidas, fizeram desenhos, anotaram respostas, embrulharam o corpo e levaram-no, juntamente com a Browning.
O padre Alberto encarregou-se de dar a notícia à Ressurreição, coitada, que ainda no fora desta que encontrara o caminho da felicidade. Os restantes ilustres voltaram cada qual para sua casa. Exaustos, combalidos, pesarosos, levando consigo a imagem do Celestino estendido no chão: o rosto desfeito, o olho de vidro a boiar numa amalgama de carne e sangue. Uma nuvem de moscas. Apesar das insistências da mulher, o doutor Augusto Mendes não quis jantar. Fechou-se na varanda que dava para o jardim e sentou-se no velho cadeirão de verga, como se se preparasse para acender o cachimbo. E acendeu, de facto, o cachimbo, atento às silhuetas das árvores que recortavam o céu, como fantasmas. Quarenta anos, pensou. Quase quarenta anos sobre o dia em que, debaixo de uma tempestade medonha, na estrada sulcada pela fúria das águas, um rapaz muito magro, completamente encharcado, chapéu preto vergado ao peso da chuva, nenhuma bagagem nas mãos, assim que avistou gente, caiu por terra, como se andasse há muitas horas, há muitos dias, à procura de uma oportunidade para cair por terra. Foi ali. Teve sorte. Trouxeram-no para o consultório. Deitaram-no na marquesa. Despiram-no. Lavaram-no. Trazia o olho direito tapado com um lenço preto. O doutor Augusto Mendes levantou o lenço e viu que já não havia olho nenhum. A ferida era recente. Mandou toda a gente sair do consultório. Como te chamas?, perguntou-lhe, depois de o tratar. Celestino, respondeu o forasteiro. O que te aconteceu, Celestino? Azares da vida. E, sem mais perguntas, o doutor Augusto Mendes arranjou-lhe um casebre onde dormir durante o período de convalescença, que se adivinhava longo. Também lhe deu roupas, comida e algum dinheiro. Com o passar dos dias, toda a aldeia se foi acostumando à presença daquela silhueta sinistra, silenciosa, quase indistinguível da própria sombra. Estrada abaixo, estrada acima, ligadura em diagonal à volta da cabeça, um ligeiro enchumaço sobre o olho direito, ou sobre a cavidade que outrora alojara o olho direito, os dedos compridíssimos, uma certa forma distinta de amortalhar o tabaco, de pendurar o cigarro no canto da boca e de o deixar para ali esquecido, a arder». In João Ricardo Pedro, O Teu Rosto Será o Último, Prémio Leya 2011, Leya, 2012, ISBN 978-989-660-209-3.

Cortesia de Leya/JDACT

domingo, 2 de outubro de 2016

Um Postal de Detroit. João Ricardo Pedro. «… lembra-te de que os comboios continuam em rota de colisão, não há tempo a perder; toma a palavra e conta-lhe que só começaste a trabalhar nos caminhos-de-ferro…»

jdact

«(…) Contudo, nunca deixaram de ser dois estranhos, peças de uma gigantesca engrenagem programadas para se moverem perpetuamente em sentidos opostos, cruzando-se a horas certas sem que alguma vez se chegassem a tocar. E agora, por causa de um erro de agulha, por causa de uma falha de sinalização, por causa de um mal-entendido, por causa de um azar dos diabos ou da sórdida vontade de Deus, por causa de um estupor qualquer que se esqueceu de avisar a central de que o comboio com destino a Vilar Formoso seguia com dezassete minutos de atraso, estes dois homens não podiam cumprir até ao fim o seu destino de homens estranhos, de homens condenados a nunca se conhecerem, e eram subitamente forçados a partilhar o derradeiro momento das suas vidas. Mas regressemos ao instante em que o maquinista, falando da paixão do pai pelas histórias aos quadradinhos, fez uma dessas pausas que parecem anunciar uma confissão. Fosse por súbito arrependimento, ou porque uma lembrança mais pungente lhe tomasse o espírito, ao invés da inflexão descendente da voz que se adivinhava, o maquinista adoptou um registo agudo, já próximo do falsete, a fazer lembrar aquelas crianças cuja excitação extravasa a tessitura do aparelho vocal. Aos domingos, contou ele, depois da missa e do almoço, o nosso pai levava-nos para o campo, a mim e ao meu irmão, munidos de paus e alguidares partidos e cordas velhas e sacas de serapilheira e fruta podre e panelas de ferro enferrujado; e então, inspirados pelas diferentes aventuras que acompanhávamos através das revistas de banda desenhada que chegavam no Regional que vinha de Lisboa, encenávamos crimes de espionagem, golpes palacianos, invasões intergalácticas, sangrentas batalhas que opunham as cruéis tropas de Gengis Khan às mais sanguinárias tribos de peles-vermelhas. Resolvidas as contendas, que amiúde nos cobriam o corpo de mazelas, estendíamo-nos extenuados no chão, a olhar as nesgas de céu que se vislumbravam por entre os ramos das árvores e a perguntar ao nosso pai como é que o mundo tinha começado: então e as aves? Isso foi ao quinto dia, juntamente com os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas. Assim, de repente? Tomem lá umas asas e voem? Parece que sim. Todas ao mesmo tempo? Cegonhas, pardais, gaivotas, pombos, falcões, águias, pintassilgos, melros, corvos, codornizes? Com alguns minutos de diferença, provavelmente. Deve ter sido uma coisa linda de se ver, tudo a bater as asas. Podem crer. Uma coisa linda... Para últimas palavras de um homem à superfície da Terra, esta evocação de um pequeno diálogo com o seu pai não está nada mal; aliás, tendo em conta o sem-número de constrangimentos em que nos encontramos, seria difícil descobrir melhor. Por isso, tu aí, tu que te tens mantido calado desde o princípio desta aventura, tu que sempre foste incapaz de levantar a voz, mesmo quando te sobravam razões para isso, tu que vens aos comandos dessa poderosa locomotiva que encerra nos seus motores mais cavalos do que aqueles que participaram na batalha de Borodino, aproveita a deixa; repara bem, é uma excelente deixa, a passarada toda a bater as asas; lembra-te de que os comboios continuam em rota de colisão, não há tempo a perder; toma a palavra e conta-lhe que só começaste a trabalhar nos Caminhos-de-ferro porque chumbaste nos testes de admissão à Força Aérea. Conta-lhe que, em miúdo, o teu sonho era ser piloto de aviões...» In João Ricardo Pedro, Um Postal de Detroit, 2016, Publicações dom Quixote, Leya, 2016, ISBN 978-972-205-949-7.

Cortesia PdonQuixote/JDACT

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O Teu Rosto Será o Último. João Ricardo Pedro. «Por mar, respondia o Bocalinda, claro que entraram por mar. O cabr… do mar que sempre foi e sempre será a nossa desgraça. Mas cabe na cabeça de alguém fazer a capital de um país junto ao mar?»

jdact

«(…) Mas, entre os excessos do Larau e as apreensões do padre Alberto, ninguém sabia com clareza o que se estava a passar em Lisboa, nem a situação em que se encontrava Marcelo Caetano. E, nesse território de dúvidas, lançavam-se para a mesa os mais curiosos palpites: que tinha sido assassinado logo às primeiras horas da madrugada; que já estava morto havia vários dias; que já tinha dado à sola e todo aquele escarcéu no Largo do Carmo era pura encenação; que os revoltosos não sabiam o que fazer com o corpo, era sempre assim, tudo tratadinho, tudo a correr como o previsto e, depois, vai-se a ver e ninguém sabe o que fazer com o corpo, se exibi-lo em praça pública, se deitá-lo discretamente ao Tejo, atado a correntes de ferro e pesos de chumbo, se queimá-lo numa fogueira, na Praça do Comércio, uma encrenca, era o que era; que tudo não passava de bluff do próprio Marcelo Caetano, na esperança de que o povo saísse à rua para o salvar; que, àquela hora, já o Marcelinho estava a beber refrescos de groselha no Sul de Espanha, com os olhos voltados para Alcácer Quibir; que tudo dependia de quem estivesse por detrás disto, que eram soldados, que muito bem, parece que são soldados. Mas se os nossos soldados, dizia o Fangaias e com certa razão, coitadinhos, andam por terras do Ultramar a perder pernas, a perder braços, a perder o juízo, como é que de repente aparecem tantos soldados? Seriam russos? Americanos? Ingleses? Franceses? E por onde é que eles tinham entrado sem ninguém dar por nada? Por mar, respondia o Bocalinda, claro que entraram por mar. O cabr… do mar que sempre foi e sempre será a nossa desgraça. Mas cabe na cabeça de alguém fazer a capital de um país junto ao mar? Vaidades. Nunca houve cabeças no filha-da-pu… deste país, rematou o Larau, colocando um ponto final na refeição. E, já de barriguinhas consoladas, a bebericarem golinhos de café e conhaque, a desfrutarem dos prazeres primaveris que o jardim lhes oferecia, as incertezas continuavam a ser mais do que muitas. Mil e uma hipóteses haviam sido avançadas. Todos os receios. Todas as esperanças, também. Mas, entre os presentes, havia um, cuja voz ainda não se fizera ouvir: o doutor Augusto Mendes, o mais ilustre de entre os ilustres. E foi justamente no momento em que todos se voltavam para o distinto anfitrião, na ânsia de lhe ouvir as primeiras palavras, que ao portão da casa apareceu, esbaforida e de credo na boca, a Ressurreição. A Ressurreição era vizinha do Celestino. Aliás, era mais do que vizinha. Era quem lhe tratava da roupa e da casa e das panelas de sopa. Quem se preparava para o amparar na velhice, recebendo em troca, e apesar da diferença de idades, o afecto e o respeito que nunca conhecera nos homens que lhe haviam enchido a casa de filhos. O que te aconteceu?, perguntaram. E a Ressurreição, depois de recuperar o fôlego, contou que o Celestino não viera almoçar. Que já dera a volta a tudo: da fonte salgada até ao chão do Humberto, do lugar do Barba Ruiva até ao cemitério antigo. E que agora, depois de lhe vasculhar a casa mais uma vez, é que dera conta de que a espingarda também desaparecera. Porque é que o homem haveria de sair de espingarda em Abril? Nenhum dos presentes lhe soube responder, e dividiram-se em três parelhas: doutor Augusto Mendes e Bocalinda, padre Alberto e Adolfo, Fangaias e Larau. Traçaram uma circunferência imaginária, com centro na casa do Celestino e raio de meia légua. Dividiram a circunferência em três partes iguais. Dentro de cada parte, identificaram os pontos onde, com maior probabilidade, o Celestino se poderia ter enfiado. Marcaram encontro para dali a duas horas e fizeram-se ao caminho. Galgaram muros e cercas. Vasculharam palheiros e currais. Subiram a montes. Treparam árvores. Assomaram-se a poços e a noras. Encontraram pessoas. Fizeram perguntas. Seguiram pegadas. Cartuchos. Beatas. Voltaram ao centro da circunferência. Alargaram o perímetro. Retomaram as buscas». In João Ricardo Pedro, O Teu Rosto Será o Último, Prémio Leya 2011, Leya, 2012, ISBN 978-989-660-209-3.

Cortesia de Leya/JDACT

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Teu Rosto Será o Último. João Ricardo Pedro. «Era o pai da menina Ana Maria. Um homem só, dizia o padre, um homem bom, um homem que se percebia que andava cansado de acartar um império inteiro às costas»

jdact

«Uma coisa parecia certa: no dia vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, faltaria ainda um bom bocado para as sete da manhã, Celestino apertou a cartucheira à cintura, enfiou a Browning a tiracolo, verificou o tabaco e as mortalhas, esqueceu-se do relógio pendurado num prego que também segurava um calendário e saiu porta fora. O céu começava a clarear. Ou talvez nem sequer tivesse começado a clarear. Por cima das sopas de café com leite, Celestino emborcara, sem esforço, dois tragos de bagaço. O primeiro, para a azia. O segundo, para os pensamentos cismáticos, que ele, como, aliás, todos os traços fisionómicos sugeriam, era homem dado a prolongadas melancolias. Por volta das onze horas da manhã, nenhum vento de mudança fora ainda sentido por aqueles que viviam da cruel aritmética dos alqueires, dos cinchos, das safras, das luas, das maleitas, das malinas, das geadas. Nos campos, homens e mulas rasgavam a terra em irrepreensíveis geometrias, enquanto, na penumbra dos currais, embaladas por ladainhas que os próprios lábios iam tecendo, as mulheres atestavam as gamelas dos porcos, das cabras, dos filhos. E, se alguém tivesse o desplante de interromper os seus laboriosos afazeres para lhes comunicar que, naquele preciso momento, o Presidente do Conselho de Ministros de Portugal se encontrava encurralado num quartel de Lisboa, cercado por soldados que exigiam a sua rendição, o mais certo seria obter como resposta um olhar de absoluta indiferença.
É que naquela pequena aldeia com nome de mamífero, encalacrada num sopé da Serra da Gardunha, voltada para sul sem consciência de que estava voltada para sul, a única excepção àquele total alheamento acerca dos destinos da pátria, como se a pátria fosse um lugar longínquo, era a casa do doutor Augusto Mendes, onde, numa espécie de gabinete de crise, se encontravam reunidas as suas mais ilustres personalidades: Adolfo, Bocalinda, Larau, padre Alberto, Fangaias e, claro está, o anfitrião, o doutor Augusto Mendes. Dona Laura, ao ver a casa encher-se de bocas, e pressentindo que isso de golpes de Estado era coisa para levar o seu tempo, apressou-se, de faca e alguidar, em direcção às capoeiras, donde regressou com as duas primeiras vítimas da revolução. E ainda não tinham soado as duas da tarde quando, num exercício ostensivo de poder, como se quisesse deixar bem claro que o que quer que estivesse a acontecer no País, ali em casa tudo permaneceria na mesma, desligou o rádio e a televisão, abriu as portadas que davam para o jardim e anunciou que a canja estava na mesa.
Coma, que a hortelã faz-lhe bem ao ânimo, disse ela ao padre Alberto, aquele que, de entre os ilustres, se mostrava mais apreensivo com o desenrolar dos acontecimentos. Não os acontecimentos políticos, que a política nunca lhe interessara. A César o que era de César, e a Deus o que era de Deus. Interessavam-lhe os homens e as almas dos homens, o que já não era coisa pouca. E, se era verdade que nunca nutrira especial simpatia pelo doutor Oliveira Salazar, bem pelo contrário, a coisa mudava de figura quando se tratava de Marcelo Caetano: o professor, o viúvo, o pai. O pai da menina Ana Maria, essa jóia de moça. Porque era o pai da menina Ana Maria quem, desde madrugada, se encontrava refugiado no quartel do Carmo, sabia-se lá em que condições. Já não era o Presidente do Conselho de Ministros, muito menos o Ministro das Colónias ou o Comissário da Mocidade Portuguesa. Era o pai da menina Ana Maria. Um homem só, dizia o padre, um homem bom, um homem que se percebia que andava cansado de acartar um império inteiro às costas.
No extremo oposto da tribuna, encontrava-se o Larau, cujo ânimo, desde que nascera, permanecia em constante exaltação, fossem revoluções, bilhares às três tabelas ou procissões de sábado aleluia. E a visão da canjinha a fumegar não só lhe aguçara o apetite, como lhe aprimorara o verbo. Assim, sempre que o nome Marcelo Caetano vinha à baila, coisa que acontecia, pelo menos, de três em três minutos, o Larau fazia questão de lhe acrescentar um majestoso e sonoro epíteto: pu… que o pariu e filho de um granda cor… Ao que se seguia, perante o olhar severo de dona Laura, um contrito Deus me perdoe, acompanhado do respectivo sinal da cruz». In João Ricardo Pedro, O Teu Rosto Será o Último, Prémio Leya 2011, Leya, 2012, ISBN 978-989-660-209-3.

Cortesia de Leya/JDACT

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Um Postal de Detroit. João Ricardo Pedro. «… em certas noites de Maio, junto aos desfiladeiros das Portas de Ródão, maravilharam-se com o mesmo reflexo da Lua sobre o Tejo, e sempre que chegaram à estação de Santa Apolónia»

jdact

«Longe de imaginar o quanto aquela notícia nos dizia respeito, e os efeitos devastadores que teria nas nossas vidas, demorei a adormecer. Ainda hoje, trinta anos depois, seis internamentos depois, centenas de caixas de comprimidos depois, sessões de psicanálise, mesas de pé-de-galo, sanatórios, termas, casas de repouso, choques eléctricos, dou por mim deitado na cama, de olhos pregados no tecto, a pensar nesses dois pobres maquinistas, frente a frente, sem tempo para uma travagem de emergência, sem tempo para saltarem das locomotivas e rolarem como cowboy sobre um manto de feno, sem tempo sequer para se questionarem acerca das circunstâncias insólitas, colossais, em que se encontravam, aos comandos dos seus exércitos indomáveis, semelhantes a dois generais inimigos que se reunissem entre as linhas avançadas para negociações de última hora, para uma tentativa de entendimento que evitasse a derrota e a chacina, e, porém, absolutamente conscientes da sua impotência para anularem o confronto, para o adiarem até, nem que fosse por breves segundos. escassíssimos segundos, os segundos suficientes para dizerem, em desolado uníssono: estamos metidos numa alhada!
Poderiam depois trocar duas ou três palavras de conforto, histórias antigas, o amor aos comboios. Talvez um deles, o de temperamento mais caloroso, começasse por confessar que, em miúdos, ele e o irmão se entretinham a apanhar escaravelhos, gafanhotos, lesmas, grilos, lagartixas, toda a espécie de bichos que saltam ou rastejam, e que, quais vítimas de um sacrifício que aplacasse a fúria dos deuses, os colavam com resina ao ferro dos carris, momentos antes da passagem do Rápido proveniente da Guarda ou dos vagões carregados de volfrâmio das minas da Panasqueira, comboios demasiado importantes para efectuarem paragem no pequeno apeadeiro cujo nome inscrito em azulejos testemunhava o domínio islâmico sobre aquelas terras até meados do século XI, altura em que os devotos das santas chagas de Cristo, sob os comandos de Fernando I, rei de Leão e Castela, expulsaram os Sarracenos da faixa circunscrita pelos rios Douro e Mondego. Novecentos anos volvidos sobre tão ilustre peleja, seria nesse apeadeiro que o pai do maquinista, humilde funcionário dos Correios e amante de banda desenhada, aguardaria, duas vezes por semana, a chegada do Regional que vinha de Lisboa e, em troca de dez ou quinze tostões, receberia das mãos do revisor uma revista com as mais recentes aventuras do Capitão Meia-Noite, do Flash Gordon, do Mandrake, do Barão de Dorset, do Kit Carson.
Chegado a este ponto, é bem possível que o maquinista fizesse uma pausa, uma dessas pausas que, quando acompanhadas de um movimento descendente do olhar, quase sempre antecedem uma ligeira inflexão na voz, colocando-a dois ou três tons mais abaixo, e revelam, por parte de quem se prepara para prosseguir o rumo de uma confidência, o receio de vir a ser condenado pelo juízo moral do interlocutor. Claro que este receio pode adquirir diferentes matizes e significados, dependendo não só da matéria de que se constitui a confidência, mas, sobretudo, da relação que já existe, ou está prestes a existir, entre quem fala e quem ouve. No caso destes maquinistas, estamos perante dois estranhos, dois homens que não se conhecem; no entanto, é provável que se tenham cruzado inúmeras vezes, a altíssimas velocidades, em circunstâncias que não permitiram mais do que um simples aceno; é provável até que tenham ambos a vaga memória de um encontro fortuito ocorrido há muitos anos, ao balcão de um desses cafés que existem no interior das grandes estações terminais; ou numa casa de banho pública, aliviando-se em urinóis adjacentes, trocando desabafos acerca do cheiro a mijo, do tempo, do futebol, enquanto os olhos repousavam, distraídos, na superfície polida da pedra mármore. Durante anos partilharam as mesmas linhas-férreas; viram repetidamente as mesmas paisagens; tentaram cumprir à risca os mesmos horários e os mesmos procedimentos de segurança; sentaram-se com zelo aos comandos das mesmas locomotivas, e os gestos mecanizados de um foram os gestos mecanizados do outro; em certas noites de Maio, junto aos desfiladeiros das Portas de Ródão, maravilharam-se com o mesmo reflexo da Lua sobre o Tejo, e sempre que chegaram à estação de Santa Apolónia, a abarrotar de Amélias e magalas, sentiram a mesma melancolia, a mesma vontade imensa e inexplicável de chorar». In João Ricardo Pedro, Um Postal de Detroit, 2016, Publicações dom Quixote, Leya, 2016, ISBN 978-972-205-949-7.

Cortesia PdonQuixote/JDACT