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domingo, 12 de julho de 2020

Barbara Wood. Solo Sagrado. «Parece que o trabalho foi feito fora dos padrões de procedimento de compactação e muito do aterro, que era orgânico, madeira, vegetação, lixo, acabou apodrecendo»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Frustrado, Sam girou sobre os calcanhares, atravessou o jardim pisoteado dos Zimmerman e voltou para uma área no fim da rua onde um centro de comando improvisado fora criado. Pessoas segurando pranchetas e falando em telefones móveis circulavam em torno de cadeiras e mesas de armar onde foram montados rádios de emissão e recepção, monitores de vigilância e um quadro de avisos para mensagens. Um caminhão, fornecedor de comida, estacionado perto estaca sendo frequentado por pessoas com insígnias e uniformes variados: Companhia de Gás do Sul da Califórnia, Departamento de Agua e Energia, DPLA, Serviço Municipal de Controle de Emergência. Havia até alguém da Sociedade Humanitária tentando reunir os animais perdidos da área evacuada. Então, o que aconteceu, Sam?, perguntou Érica, alcançando o seu chefe. O que fez a piscina afundar de repente no chão?
Engenheiros municipais e arqueólogos vêm trabalhando sem interrupção para determinar a causa. Aqueles rapazes que estão lá, disse ele, apontando para a rua, onde homens montavam equipamentos de perfuração sob fortes holofotes. Eles vão fazer testes com a terra para descobrir sobre o que exactamente este bairro está. Sam passou a mão robusta sobre os mapas topográficos e levantamentos geológicos espalhados sobre as mesas, com as pontas presas por pedras. Isto nos foi enviado pela prefeitura há poucas horas. Este aqui é um estudo geológico de 1908. E aqui tem um de 1956, quando a área estava sendo apresentada para um projecto residencial que nunca foi levado adiante. Os olhos de Érica passearam de um mapa para o outro. Eles não são iguais. Parece que o construtor actual não testou o solo de cada terreno de construção, o que não lhe foi exigido. Os testes que ele fez mostraram terra firme e alicerce rochoso. Mas isso fica nas fronteiras norte e sul da mesa, o que vem a ser as duas arestas cingindo o cânion. Lembra da irmã Sarah nos anos vinte? Este era o seu retiro religioso ou algo assim e parece que ela mandou aterrar o cânion sem nunca obter permissão ou informar a prefeitura. Parece que o trabalho foi feito fora dos padrões de procedimento de compactação e muito do aterro, que era orgânico, madeira, vegetação, lixo, acabou apodrecendo.
Os olhos privados de sono de Sam examinaram a rua, onde fontes e árvores importadas decoravam os gramados ricamente cultivados. Essa gente tem vivido sobre uma bomba-relógio. Eu não ficaria surpreso se a área toda estivesse prestes a desabar. Enquanto falava, Sam observava Érica, que estava com as mãos nos quadris, mudando de um pé para o outro como um corredor ansioso para a corrida começar. Ele a vira desse jeito antes, quando ela estava atrás de alguma coisa. Érica Tyler era uma das mais apaixonadas cientistas que ele já conhecera, mas, às vezes, o seu entusiasmo podia ser a sua ruína. Eu sei por que você está aqui, Érica, disse ele, fatigado. E não posso lhe dar o serviço. Sam, disse ela batendo os pés, o rosto afogueado, você me pôs para contar conchas de madrepérola, pelo amor de Deus! Sam era o primeiro a admitir que encarregar Érica de um amontoado de moluscos era desperdiçar a sua inteligência e talento. Mas depois do desastre do naufrágio um ano antes achou melhor que ela acalmasse os ânimos com um trabalho discreto.
Então ela passara os últimos seis meses escavando um monte recentemente descoberto que veio a ser o lixo de índios que viveram ao norte de Santa Barbara há quatro mil anos. O trabalho dela era separar, classificar e datar com carbono 14 os milhares de conchas de madrepérola encontrados lá». In Barbara Wood, Solo Sagrado, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-119-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

sábado, 27 de junho de 2020

Barbara Wood. Solo Sagrado. « Ainda não estive lá dentro, disse ele. Há um geólogo e uma dupla de especialistas explorando a caverna neste momento para verificar a estabilidade estrutural»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando Érica saiu do carro e sentiu o vento da noite no rosto, olhou enfeitiçada para a cena horripilante. Já tinha visto fotos nos jornais e ouvido relatos de testemunhas sobre o acontecimento, como o terremoto de algum modo desestabilizou o solo sob a comunidade fechada de Emerald Hills Estates, um enclave exclusivo nas montanhas de Santa Mónica, causando o afundamento repentino de uma piscina e ameaçando o resto das casas com o mesmo destino. Mas nada a preparara para o que os seus olhos contemplavam agora.
Embora a leste o céu estivesse começando a clarear, a noite ainda era um manto escuro e refractário sobre Los Angeles, tanto que tiveram que trazer luzes de emergência. Sóis feitos por homens, colocados a intervalos em torno do perímetro do sítio, iluminando um quarteirão do bairro superelegante onde as casas sobressaíam como templos de mármore na lua leitosa. No centro dessa cena surrealista havia uma cratera negra, a boca do diabo que engolira a piscina do famoso produtor de cinema Harmon Zimmerman. Helicópteros zumbiam no céu, projectando círculos de luzes que cegavam os topógrafos montando seus equipamentos, geólogos chegando com brocas e mapas, homens com capacetes aquecendo as mãos em copos de café enquanto esperavam pelo amanhecer, e policiais tentando evacuar os residentes que se recusavam a sair.
Mostrando a carteira que a identificava como antropóloga do Instituto Arqueológico do Estado, Érica e seu assistente receberam permissão para transpor a faixa amarela que mantinha a multidão afastada. Eles correram para a cratera, onde os bombeiros do condado de Los Angeles estavam inspecionando a borda do desmoronamento. Érica procurou rapidamente pela entrada da caverna. É aquilo ali?, perguntou Luke, apontando com o braço comprido para o outro lado da cratera. Érica pôde apenas divisar, uns dois metros e pouco abaixo do nível do chão, uma abertura na lateral da escarpa. Parece perigoso, dra. Tyler. Está pensando em entrar?
Já entrei em cavernas antes. Que diabos você está fazendo aqui! Érica virou-se rapidamente para ver um homem alto com um cabelo grisalho vindo a passos largos na sua direcção, com uma expressão severa no rosto. Sam Carter, o principal arqueólogo estadual do Instituto de Preservação Histórica da Califórnia, um homem que usava suspensórios coloridos e falava com voz ruidosa. E que claramente não estava feliz em vê-la. Sabe por que estou aqui, Sam, disse Érica, enquanto tirava o cabelo do rosto e olhava para o caos em volta. Moradores das casas ameaçadas estavam discutindo com a polícia e se recusando a deixar suas propriedades. Fale-me da caverna. Já foi lá dentro? Sam notou duas coisas: que os olhos de Érica brilhavam com uma febre interior e que seu blazer estava abotoado errado. Era óbvio que ela largara tudo e viera de Santa Barbara como se estivesse pegando fogo.
Ainda não estive lá dentro, disse ele. Há um geólogo e uma dupla de especialistas explorando a caverna neste momento para verificar a estabilidade estrutural. Assim que eles derem permissão, vou dar uma olhada. Agora que Érica estava aqui, não seria fácil livrar-se dela. A mulher grudava feito cola quando punha alguma coisa na cabeça. E o Projeto Gaviota? Imagino que o deixou em mãos apropriadas? Érica não o escutou. Estava olhando para a fenda na encosta e pensando nas botas pesadas calcando a delicada ecologia da caverna. Rezou para que não tivessem destruído evidências históricas preciosas inadvertidamente. A arqueologia nestas colinas já era bastante insignificante, apesar do facto de pessoas terem vivido aqui por dez mil anos. As poucas cavernas encontradas renderam muito pouco, porque no início do século XX tractores e dinamites destruíram estas montanhas selvagens para abrir caminho para estradas, pontes e o progresso humano. Sítios cemiteriais foram cobertos com arado, montes de aldeias aplainados, todos os traços de antigas habitações humanas obliterados. Érica?, chamou ele. Preciso entrar, disse ela. Ele sabia que ela referia-se à caverna. Érica, nem você sequer devia estar aqui. Designe-me para o trabalho, Sam. Você vai fazer a escavação. E ossos foram encontrados, disseram no noticiário. Érica... Por favor». In Barbara Wood, Solo Sagrado, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-119-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Barbara Wood. Solo Sagrado. «Érica não sabia o que isso significava. Sua mente estava voltada para uma única coisa: a descoberta espantosa que fora feita»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Érica agarrou o volante enquanto o veículo de tracção nas quatro rodas subia a estrada de terra, desviando de grandes pedras e passando por buracos. Sentado ao seu lado, pálido e ansioso, estava seu assistente Luke, um estudante graduado pela UCSB que trabalhava na tese de seu doutorado. Na casa dos vinte anos, cabelos louros e compridos presos num rabo-de-cavalo, Luke usava uma camiseta que dizia Arqueólogos Escavam Mulheres Antigas.

Ouvi dizer que está uma confusão, dra. Tyler, disse ele, enquanto Érica manobrava o carro, subindo a estrada que serpenteava perigosamente. Parece que a piscina desapareceu dentro do chão. Assim, sem mais nem menos, prosseguiu, estalando os dedos. Disseram no noticiário que o buraco do afundamento se estendeu por todo o comprimento da mesa, e sob as casas dos astros de cinema, e daquele cantor de rock que esteve no noticiário, e daquele jogador de basebol que fez todas aquelas jogadas no ano passado, e de um famoso cirurgião plástico. Sob as casas deles. Então você sabe o que isso significa. Érica não sabia o que isso significava. Sua mente estava voltada para uma única coisa: a descoberta espantosa que fora feita. Na hora do desastre ela estava na região norte trabalhando num projecto para o estado. O terremoto, ocorrido há dois dias e medindo 7.4, fora sentido tão ao norte quanto San Luis Obispo, tão ao sul quanto San Diego e tão a leste quanto Phoenix, sobressaltando milhões de habitantes do sul da Califórnia. Fora o maior tremor de que se tem lembrança e o que pode ter provocado, um dia depois, o desaparecimento súbito e espantoso de uma piscina de trinta metros, trampolim, tobogã e tudo o mais.
Um segundo evento espantoso se seguira quase imediatamente: quando a piscina afundou, a terra a recobriu, expondo ossos humanos e a abertura de uma caverna que não se conhecia. Esta pode ser a descoberta do século!, declarou Luke, tirando os olhos da estrada por um instante para olhar para a chefe. Ainda estava escuro e não havia luz ao longo do caminho montanhoso. Érica acendeu a luz interior do carro, iluminando os cabelos castanhos e brilhantes, levemente ondulados, que roçavam seus ombros, e uma tez bronzeada pelos anos de trabalho sob o sol. A dra. Érica Tyler, com quem Luke trabalhara nos últimos seis meses, estava na casa dos trinta, e, embora não a achasse linda, Luke a achava atraente de um modo que era sentido mais nas entranhas de um homem do que nos olhos. Uma descoberta e tanto para algum arqueólogo sortudo, acrescentou ele. Porque você acha que nós violamos todas as normas de trânsito para chegar até aqui?, disse ela com um sorriso, depois de olhá-lo de relance, e voltou sua atenção para a estrada a tempo de se desviar de uma lebre assustada.
Eles chegaram ao topo da mesa de onde as luzes de Malibu podiam ser vistas à distância. O resto da vista, Los Angeles a leste e o oceano Pacífico ao sul, estava bloqueado por árvores, picos mais altos e mansões de milionários. Érica manobrou o carro pelo congestionamento de carros de bombeiro, carros de polícia, caminhões municipais, vans de reportagens e a fileira de carros estacionados ao longo da fita amarela que cercava o sítio. Curiosos se sentavam nos capôs e capotas dos veículos para observar, beber cerveja e falar sobre desastres e seus significados, ou talvez apenas para ser entretidos por algum tempo, apesar dos avisos, transmitidos aos gritos pelos megafones, de que a área era perigosa. Ouvi dizer que toda essa mesa era um tipo de retiro comandado por uma espírita maluca na década de 20, disse Luke quando o carro parou. As pessoas costumavam subir até aqui para falar com os fantasmas.
Érica lembrou ter visto cine-jornais mudos de irmã Sarah, uma das personalidades mais pitorescas de Los Angeles, que costumava fazer sessões espíritas para a realeza de Hollywood, como Rodolfo Valentino e Charlie Chaplin. Sarah fizera sessões para multidões em teatros e auditórios e, quando os seus seguidores totalizaram centenas de milhares, veio para estas montanhas e construiu um retiro chamado de A Igreja dos Espíritos. Sabe como este lugar era chamado originalmente?, prosseguiu Luke, enquanto desafivelavam os cintos de segurança. Quer dizer, antes que ele fosse da médium? Antigamente, disse ele, a palavra antigamente evocando pergaminhos com lacres de cera e homens duelando ao amanhecer. Cahon de Fantasmas, entoou ele, provando as palavras empoeiradas em sua língua. Cánion mal-assombrado. Parece assustador!, concluiu, estremecendo.
Luke, disse Érica, rindo, se quiser ser um arqueólogo quando crescer, não vai poder ter medo de fantasmas. Ela mesma vivia diariamente com fantasmas e assombrações, espíritos e duendes. Eles povoavam seus sonhos e as suas escavações arqueológicas, e, embora os fantasmas pudessem iludi-la, confundi-la, provocá-la e frustrá-la, nunca a assustaram». In Barbara Wood, Solo Sagrado, Editora Record, 2002, ISBN 978-850-106-119-5.

Cortesia de ERecord/JDACT