Mostrar mensagens com a etiqueta Idade Contemporânea. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Idade Contemporânea. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de novembro de 2018

O Tempo e os Homens. António Borges Coelho. «Que valores impulsionavam as comunidades no Ocidente muçulmano? A resposta envolve uma investigação bem mais profunda»

jdact

Textos e Sociedade no Garbe Al-Andaluz
Da cidade muçulmana
«(…) Em suma, o juiz acumulava funções de gestão da cidade e do termo, funções judiciais e também funções religiosas na medida em que organizava a guerra santa e era o fiel depositário do tesouro pio guardado na mesquita-aljama. Pelo seu lado, o almotacé, era como o irmão do juiz e devia vigiar o trabalho dos artesãos e dos obreiros, organizados em corporações, e zelar pela higiene da cidade e a observância das prescrições religiosas. O centro físico da medina ou cidade era a mesquita maior. Nas suas naves liam o Corão e a Suna e nas galerias um alfaqui doutrinava e ensinava as gentes que se purificavam na sala de abluções. As mesquitas coexistiam com igrejas, conventos e sinagogas.
A cidade que perpassa nos poemas confirma o Tratado de Ibn Abdune. Os poetas do Andaluz cantam os palácios como o Palácio das Varandas de Silves, as casas de campo com os seus jardins. No Palácio Bendito de Sevilha, onde foi morto Ibn Amar, coexistiam as câmaras e alcovas com os jardins, com a masmorra na torre sobre a porta e com o cemitério. Com os poetas entramos na alcáçova e na mesquita, ouvimos o marulhar dos mercados. As muralhas, a que se encostam as vielas e os vãos, circundam a medina. Às portas chegam as caravanas com as mercadorias e as notícias cantadas pelo pregoeiro. Entre as mercadorias, as mercadorias humanas com corrente e tronco soldado ao pé. Havia casas ricas com colunas, casas térreas, casas de sobrado, casas próprias e casas de aluguer. Neste mundo de cidade não faltava o ouro nem a prata nem a moeda dos maravedis. Os mercadores e artífices com as suas tendas organizavam-se em corporações, como pode ler-se nos versos de Al-Mertuli:

Recomendei-te que não desejasses o cargo de tabelião
nem o de imã nem o de síndico de corporação.

E nalgumas cidades nem faltavam os esgotos. Abdalá ibn Uázir, poeta e alcaide de Alcácer do Sal na altura da conquista final cristã, queixava-se nos seguintes versos:

Não desesperes de chegar a califa
pois Ibn Amar foi nomeado inspector das alfândegas.

Desgraçada época em que se fazem coisas como esta
colocar altos cargos
nas mãos de um limpador de esgotos.

Valores
Que valores impulsionavam as comunidades no Ocidente muçulmano? A resposta envolve uma investigação bem mais profunda. Averbarei tão-só dois breves apontamentos. Se a poesia exalta o prazer dos sentidos, Ibn Baja na Carta de Adeus, por exemplo, declara que são dois os fins que os homens se propõem: um, lograr com os seus actos tudo o que agrada a Deus; o outro, um fim misto que se compõe dos fins próprios da gente rica e dos fins da gente nobre, isto é, lograr o prestígio social oferecido pela ostentação, os vestidos, os adornos luxuosos e o gozo dos prazeres. Estes são os fins louváveis. Evidentemente, os pobres tinham que contentar-se com agradar a Deus. Mas os ricos e nobres que buscam somente os prazeres sensíveis são censuráveis, vis e néscios. Aos prazeres do domínio, do deleite das honras e da glória mundana, Ibn Baja aponta-lhes o prazer que se alcança no estudo das ciências.
Este estudo envolve dois tipos de deleite: um, que se origina no desejo de saber, que provoca dor e se parece com o deleite corpóreo; e o outro, o deleite daquele que conhece alguma coisa e constitui um prazer perene e nele participam quatro dos prazeres corporais, principalmente o prazer da vista e do ouvido. Para Ibn Baja o fim mais eminente era não só a procura mas principalmente a contemplação do saber que se confunde com a contemplação de Deus». In António Borges Coelho, O Tempo e os Homens, Questionar a História III, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1076-4.

Cortesia Caminho/JDACT

O Tempo e os Homens. António Borges Coelho. «Mas houve também um caminho, e mais antigo, para Meca. Muitos peninsulares fizeram a peregrinação à cidade santa dos muçulmanos. Mas tal como no caminho de Santiago, nos caminhos de Meca cruzaram-se homens…»

jdact

Textos e Sociedade no Garbe Al-Andaluz
Fome de homens e transformações sociais
«(…) Segundo a Crónica da Conquista do Algarve, em Faro a avença que el-rei fez com os mouros foi por esta guisa: que eles lhe fizessem aquele mesmo foro que em todas as cousas faziam a seu rei e que eles houvessem todas as suas casas, vinhas e herdades pela guisa; e que el-rei os defendesse e amparasse assim dos mouros como de outras quaisquer gentes que lhes nojo fizessem. E os que quisessem ir para alguns lugares de mouros que se fossem livremente com todas as cousas. E que os cavaleiros mouros ficassem por seus vassalos e que andassem com el-rei quando lhe cumprisse e que ele lhes fizesse bem e mercê.
O foral de Cáceres é também muito elucidativo. A vila foi rendida por Giraldo Sem Pavor em 1165 mas só passou definitivamente para domínio cristão em 1229, sessenta e quatro anos depois. Segundo o foral então outorgado, os povoadores não queriam povoar Cáceres porque temiam perder tempo e tudo o que tinham se acaso Afonso IX de Leão e da Galiza desse a vila a alguma ordem religiosa, concretamente à Ordem de Santiago. O rei garantia aos habitantes concelho per se e super se, sujeito somente à majestade do rei de Leão e assegurava: quem vier povoar Cáceres, seja de que condição for, cristão, judeu ou mouro ou livre ou servo venha seguramente. E nem respondam por inimizade ou por qualquer outra coisa que tenham feito antes da tomada de Cáceres. E se algum vizinho vender ou empenhar bens de raiz aos frades, perca-os para o concelho. Isto é, os povoadores de Cáceres, cristãos, judeus ou mouros (e entre os cristãos bom número dos tornadiços que os Costumes de Beja protegem) impunham como condição para povoar de novo a vila a soberania do concelho, apenas sujeita à autoridade régia, a não aceitação da Ordem de Santiago, zeladora da fé e dos bons costumes, e o perdão implícito da oposição à conquista.

Caminho/peregrinação a Meca
Desbravado está o caminho para Santiago, caminho mais intensamente cavalgado e calcorreado após o afluxo dos frades cluniacenses e dos condes buiguinhões Raimundo e Henrique. Mas houve também um caminho, e mais antigo, para Meca. Muitos peninsulares fizeram a peregrinação à cidade santa dos muçulmanos. Mas tal como no caminho de Santiago, nos caminhos de Meca cruzaram-se homens, animais, plantas, mercadorias, técnicas agrícolas e artesanais, ideias, manuscritos de Aristóteles, de Avicena, a ideia de Universidade e de Hospitais. Os historiadores e arqueólogos põem hoje em relevo os caminhos do Mediterrâneo, bem mais antigos que a expansão árabe-muçulmana. Mas o caminho para o Mediterrâneo, sobretudo nos séculos mais tardios da dominação muçulmana, tinha um nome, tinha pelo menos uma cidade farol no longínquo horizonte, a cidade santa de Meca. Não será por razões civilizacionais e ideológicas que nos integramos hoje facilmente, crentes e não crentes, numa peregrinação motorizada ou pedestre a Santiago e temos dificuldade em conceber que antepassados nossos, bons e legítimos hispanos, tivessem caminhado e navegado para Meca e aí tenham descalçado as sandálias e beijado a pedra da kaaba?

Da cidade muçulmana
Os textos permitem considerar o binómio cidade-campo não só como estruturas opostas mas complementares. O quotidiano das cidades e das vilas do Garbe com os seus campos não se afastaria muito daquele que se entreabre no Tratado de Ibn Abdune. As cidades viviam da produção agrícola das aldeias da sua periferia e nas primeiras moravam funcionários, mercadores, proprietários e artífices. Nas almoinhas das vilas e cidades vicejavam as hortas e pomares. Mas, sem as aldeias e os seus cereais, as cidades facilmente seriam presa de conflitos internos e mudariam de senhor.
O elo cidade-aldeias era assegurado pelos chefes das aldeias que aí representavam o poder da cidade. Estes deveriam manter boas relações com os camponeses pondo um freio nos avaliadores de impostos, considerados a escória da população. Nas herdades dos particulares deveria haver um guarda jurado ou os camponeses tratariam as herdades dos habitantes da cidade como se fossem públicas. E os braceiros agrícolas teriam de cumprir com consciência a sua jornada de trabalho não perdendo tempo com a satisfação das suas necessidades. Á frente das cidades estava o juiz, assessorado no seu pretório por dois juristas e defendido pela guarda dos alguazis. Ligados à actividade do juiz, multiplicavam-se os notários e os advogados que não deveriam ser moços, borrachos ou libertinos. Além de julgar os feitos civis e criminais, o juiz tinha a seu cargo o tesouro das fundações pias dos muçulmanos. A ele cabia dar dinheiro para se cultivar determinado campo, para o pagamento de salários, restauração de herdades ou edifícios ou ainda para a organização de campanhas militares. Também só uma ordem do juiz poderia quebrar a inviolabilidade do domicílio, garantida pela lei». In António Borges Coelho, O Tempo e os Homens, Questionar a História III, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1076-4.

Cortesia Caminho/JDACT

sábado, 30 de maio de 2015

O Tempo e os Homens. Colecção Universitária. António Borges Coelho. «… a chamada ‘Reconquista’ acabou por definir duas grandes Estremaduras, “a portuguesa”, que seguia a linha da costa entre o Douro e o Tejo, e a Estremadura “castelhana” que corre em Castela-a-Nova junto à fronteira portuguesa»

jdact

Textos e Sociedade no Garbe Al-Andaluz
«(…) Os restos, desvelados pelos arqueólogos, permitem reencontrar as estruturas, o duradoiro, o que mais permanece. Os próprios actos individuais ficam reduzidos ao osso dos gestos necessários do quotidiano. Mas, pelo seu lado, os textos assinalam a mudança, entreabrem a porta ao acto individual e gratuito, ao pensamento pessoal e também ao tumulto. Na prática do arqueólogo, de certo modo o movimento pára, o som emudece. Os textos, ao contrário, aquecem e chocam o ovo da vida. Por certo, os escritos dos autores muçulmanos medievais olham a vida de cima, dos palácios, e raramente vão além do pórtico das mesquitas. De qualquer modo, a partir dos textos é possível desfiar um rosário breve de ideias gerais, muitas pacíficas, outras talvez não tanto.

Estremaduras e árabes peninsulares
O domínio e a cultura muçulmana radicaram-se mais profundamente no chamado Portugal mediterrânico mas os textos indicam que os fluxos e refluxos da maré vão bem além dessa fronteira natural. Poucos anos antes da conquista de Lisboa (1147), oitenta e três anos decorridos sobre a reconquista de Coimbra, o geógrafo Edrici situava o limite de Portugal e de algum modo do Garbe na corda do rio Vouga. A dança das fronteiras, estremas ou Estremaduras pode ser mais bem acompanhada pelos documentos dos arquivos cristãos. Num documento do ano 909 afirma-se: reinando na Galiza e na estrema do Minho e na estrema do Douro, Ordonho, filho de Afonso. As estremas situavam-se então, a ocidente, na região do Minho e na região do Douro. Século e meio mais tarde, nos forais de São Martinho de Mouros e outras vilas situadas na linha do Douro transmontano, Fernando Magno diz pretender ampliar as Estremaduras que, pelos vistos, galgavam então o Douro para a outra margem. Os exemplos podiam multiplicar-se. E afinal a chamada Reconquista acabou por definir duas grandes Estremaduras, a portuguesa, que seguia a linha da costa entre o Douro e o Tejo, e a Estremadura castelhana que corre em Castela-a-Nova junto à fronteira portuguesa.
Os textos provam, igualmente, que houve árabes na Península Ibérica. Esta afirmação pode parecer redundante. Mas não têm faltado vozes que minimizam ou afirmam até que os árabes na Península Ibérica nunca existiram. E como há sempre boas almas, dispostas a entregar-se às novidades e ao absurdo, é necessário reafirmar que, no Andaluz e também no Garbe, se estabeleceram árabes, designadamente iemenitas. Nos exércitos da conquista, no exército dito sírio que sufocou a revolta berbere, no estabelecimento do emirato omíada. Ao longo do tempo não faltaram depois emigrantes oriundos do Oriente. Os textos muçulmanos conservam também a descrição de ferozes lutas tribais que prolongavam na Península Ibérica velhas lutas travadas na Arábia e na Síria.

Fome de homens e transformações sociais
Os cavaleiros e peões da Reconquista não pretendiam apenas alargar o seu espaço, cercar novas terras mas, usando palavras antigas, ferrar o gado humano que as adubava e rompia. E na caça ao homem não importava ao caçador se eram muçulmanos ou cristãos, hispanos, árabes ou berberes. Não se nega a guerra cruel e o extermínio, não se ocultam tão-pouco do lado muçulmano as almenaras erguidas com as cabeças dos vencidos para chamar os crentes à oração, não se subestima a fuga, por vezes maciça, e a deslocação de populações. Mas não afirmava o próprio Afonso VI, rei de Leão e de Castela, que era impossível degolar todos os muçulmanos? O que se afirma é que a vida continuou, certamente mais difícil nos primeiros tempos, sob a espada dos novos senhores. Sesnando de Coimbra segurou os vencidos da cidade e da região do Mondego e aplacou os muçulmanos e moçárabes da reconquistada Toledo. Só numa razia, Afonso Henriques trouxe para Coimbra mais de mil moçárabes. Por que haveriam os senhores cristãos de rejeitar e expulsar os braços que lhes fariam frutificar as terras? Não foram apenas as novidades técnicas da guerra ou o choque frontal dos exércitos que, por si sós, trouxeram a vitória aos Estados cristãos. Só quando Fernando Magno e seu filho Afonso VI se propõem aceitar a originalidade social e até religiosa do Islão é que as conquistas se tornaram irreversíveis. Basta ler os forais dos concelhos reconhecidos no território do Portugal mediterrânico e compará-los com os direitos das populações dependentes do Portugal atlântico tais como aparecem consignados nas cartas de foral». In António Borges Coelho, O Tempo e os Homens, Questionar a História III, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1076-4.

Cortesia Caminho/JDACT

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

História e Identidade Nacional. Sérgio Matos. «A par de outras temáticas como a Cruzada, os Descobrimentos e a expansão ultramarina, a decadência e o atraso relativamente a outras nações europeias, a definição do herói nacional ou as relações com Castela, o problema da independência de Portugal…»

Cortesia de wikipedia

A formação de Portugal na historiografia contemporânea
«No Portugal contemporâneo, a reflexão sobre a identidade nacional não se aprofundou como noutras nações europeias. Mas nunca deixou de estar presente na historiografia e na literatura e desenvolveu-se em múltiplas direcções após a queda do Império, em 1974-75. Diversos autores têm sublinhado a função social da história na formação da consciência nacional. Entre as elites intelectuais, os historiadores ocupam um lugar destacado na fixação de uma memória social, uma memória escrita, não raro erudita, acessível a uma pequena parcela da comunidade em que se inserem. Essa memória da nação teve as suas limitações, durante muito tempo permaneceu manuscrita, quando não oral; frequentemente esqueceu as diversidades étnicas e culturais bem como as assimetrias regionais, para olhar o território nacional como um todo indiferenciado. E até ao século XIX, deixou-se entrosar por diversos mitos. Mas não exprimem esses mitos, também eles, um determinado sentido de identidade? Seja como for, a memória da nação contribuiu para legitimar a independência do Estado português e a sua permanência histórica, bem como para forjar a coesão nacional. O caso português revela particularidades em relação a outros Estados-nação europeus que importa considerar: escasso peso das minorias étnicas, religiosas e linguísticas no todo nacional, de um modo geral nele integradas sem problemas; escassez de revoltas e rebeliões regionais e locais. Em tal contexto de relativa homogeneidade, de períodos de relativa estabilidade política e social (1851-1868; 1871-1890; 1932-1958) e de difusão de ideários nacionalistas, não surpreende que a história tenha sobretudo vincado um sentido da unidade nacional. Em diversos momentos estiveram em jogo desafios internos e externos, que podiam pôr em causa a existência do Estado independente: o défice das finanças públicas; o desafio iberista, tão vivo nos decénios de 1850-70 ou logo após a instauração da Iª  República em 1910, e a questão colonial, a ameaça que outras potências europeias com maiores recursos significavam em África. Nestas circunstâncias, compreende-se que um pequeno Estado europeu periférico e marginal como o português tenha, em diversos momentos, incentivado os estudos históricos e a publicação de fontes relevantes para o conhecimento do seu passado. E que a historiografia portuguesa tenha sido frequentemente instrumentalizada pelos nacionalismos e pelas ideologias difundidas pelo Estado ou por correntes políticas organizadas. A par de outras temáticas como a Cruzada, os Descobrimentos e a expansão ultramarina, a decadência e o atraso relativamente a outras nações europeias, a definição do herói nacional ou as relações com Castela, o problema da independência de Portugal e a sua permanência histórica constituíram um dos temas-chave da historiografia portuguesa, sobretudo a partir da revolução liberal de meados do século XIX. Tornou-se, de resto, numa das referências fundamentais na legitimação histórica do Estado português. O tema da formação de Portugal foi tratado em múltiplas perspectivas, tendo em conta, não raro, a questão das origens étnicas dos Portugueses, a autonomização do Estado no século XII, o território, a construção da nação e a sua continuidade no tempo. A frequente indiferenciação entre os conceitos de pátria, Estado e nação, que se observa na historiografia oitocentista (com raras excepções como as de Herculano e Oliveira Martins), contribuiu para a mescla daquelas questões que hoje são consideradas de um modo distinto.

Das teses providencialistas à teoria política de Herculano
Desde os finais do século XVIII, o racionalismo iluminista e a afirmação de uma historiografia de exigência documental e científica, sobretudo ligada à Academia Real das Ciências, alimentaram uma corrente crítica em relação às fábulas acerca das origens de Portugal: Túbal (neto de Noé, suposto fundador de Setúbal e do Reino de Portugal) e a sua descendência mítica, o milagre de Ourique e as alegadas Cortes de Lamego. A crença no progresso, a confiança na razão e o sentido crítico perante a teologia contribuía para minar a credibilidade dessas tradições tão difundidas mas, na verdade, nunca fundamentadas em evidências históricas. A instauração do regime liberal pela força das armas, depois legitimado por eleições e pela adopção dos textos constitucionais, e as novas exigências culturais de um Estado-nação em construção, que intentava formar cidadãos instruídos e não já súbditos fiéis ao monarca absoluto, tornavam arcaicos alguns desses mitos das origens (Túbal e o milagre de Ourique). Mas até meados de Oitocentos, era ainda muito comum a teoria providencialista acerca da batalha de Ourique, como momento-chave na formação do Estado português: para além dos legitimistas, partidários do Antigo Regime político, o poeta António Feliciano Castilho ainda a difundia. Outros autores esqueciam a tradição do milagre de Ourique mas continuavam a ver na batalha o facto decisivo na fundação da monarquia (caso de Coelho Rocha ou de Ferdinand Denis). Esta sobrevalorização do acontecimento, baseada, por vezes na teoria contratualista da origem popular do poder real, associava-se também à sobrevalorização do papel histórico de Afonso Henriques, herói fundador por excelência. Fundamentava-se assim a separação do Estado, quando não da Nação (frequentemente confundida com o Estado), no princípio dinástico. Mas num tempo de céleres transformações sociais e extraordinárias conquistas científicas como foi o século XIX, depressa esta tese se tornou insuficiente para explicar a complexa realidade dos Estados-nação». In Sérgio Campos Matos, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, História e Identidade Nacional, A formação de Portugal na historiografia contemporânea, Lusotopie, IV Jornadas, Porto, 2002.

Cortesia de Lusotopie/JDACT

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

História da Vida Privada em Portugal José Mattoso. «A matriz individualista do direito português reflecte-se na reforma jurídica do século XIX, estando consagrada no Código Civil de 1867, também conhecido por Código Seabra. Encerrando uma visão individuocêntrica do mundo do direito»

jdact

A época contemporânea. Introdução
Sob o olhar da história: da vida privada família à vida privada individual (1820-1950)
«(…) A Revolução de 24 de Agosto de 1820, ao estabelecer um novo sistema jurídico-constitucional, fundamentado na existência de um governo representativo e na separação dos poderes, marcou uma viragem no modo de conceber e de viver em sociedade, tendo feito emergir a consciência de cidadania. No que toca à matéria que se tem vindo a desenvolver, o Estado constitucional liberal deu sentido emancipador à condição de cidadão, ao consagrar direitos e garantias individuais, de cuja preservação dependia a felicidade pública, e que, em última instância, favorecia a autonomização de uma esfera privada na sociedade civil. Um dos princípios estruturantes da constituição de 1822, definido logo em 1821 pelas Cortes Extraordinárias e Constituintes, é precisamente o de salvaguarda dos direitos e deveres individuais dos portugueses, enfatizando-se os de liberdade, segurança e propriedade.
Reconhecem-se garantias materiais e processuais no âmbito do direito criminal, bem como no campo do direito da propriedade, proclamado como sagrado e inviolável. O mesmo princípio da inviolabilidade se aplica à correspondência e ao domicílio, afirmando-se que a casa de todo o português é para ele um asilo, onde nenhum oficial público poderá entrar (...) sem ordem escrita da competente autoridade (...). Da linguagem simbólica do texto constitucional infere-se a sacralização do espaço doméstico, fazendo-o absorver a ancestral tradição religiosa do direito de asilo do cristianismo medieval, incorporação que vai ao encontro das reflexões de Benjamin Constant, para quem a vida privada era uma espécie de refúgio à margem da vida pública, como atrás se referiu. A casa é o domínio privado, por excelência, o fundamento material da família, pilar da ordem social. Da convocação da linguagem religiosa, reutilizada ao serviço da propaganda revolucionária, pode extrair-se a necessidade de legitimação ideológica do novo discurso, por meio de um paradigma histórico purificado pelo tempo.
A matriz individualista do direito português reflecte-se na reforma jurídica do século XIX, estando consagrada no Código Civil de 1867, também conhecido por Código Seabra. Encerrando uma visão individuocêntrica do mundo do direito, todas as suas disposiçoes, como afirma Mário Reis Marques, giram à volta do sujeito de direito e da sua capacidade de acção. O lugar central ocupado pelos direitos individuais no Estado liberal traduz a importância assumida pelo sentimento de identidade individual na nova sociedade, o qual se difunde ao longo do século XIX, precipitando-se nas últimas décadas. Balizados por novos marcos jurídicos, os costumes privatizam-se, aprofunda-se a exploração do eu, reforça-se a identidade pessoal, renova-se o conceito de espaço privado, o qual reveste competências que pertenciam anteriormente à esfera pública.
A irrupção do individualismo na sociedade oitocentista, ou, na opinião de alguns autores, a forte investida do indivíduo, pode medir-se pelo desenvolvimento tomado por novas práticas e comportamentos até à II Guerra Mundial, que farão emergir, no contexto do círculo familiar, um espaço cada vez maior da intimidade pessoal. Sublinhem-se as preocupações com a antroponímia; a prática cada vez mais divulgada da leitura solitária do jornal à medida que avança a alfabetização das massas populares, o alargamento do ensino público e a difusão do movimento jornalístico após 1834; a expansão da fotografia e a democratização do retrato; os cuidados com a aparência e os progressos do asseio». In José Mattoso, História da Vida Privada em Portugal, A Época Contemporânea, coordenação de Irene Vaquinhas, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2011, ISBN 978-989-644-149-4.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

História da Vida Privada em Portugal José Mattoso. «Um dos aspectos mais interessantes do estudo da vida privada, reside precisamente em saber como é que a lógica das esferas separadas, que constitui a base da ordem social, cívica e moral, se singulariza no quotidiano, é aceite ou, pelo contrário, questionada»

Maquete de paláco no século XV, Rossio
jdact

A época contemporânea. Introdução
Sob o olhar da história: da vida privada família à vida privada individual (1820-1950)
«(…) Sob o ponto de vista linguístico, a evolução do conceito não é linear nem unívoca, apontando para uma dimensão plural e distintos conteúdos valorativos. Em termos lexicais, a palavra privada significa, em meados do século XVII, de acordo com o Vocabulario Portuguez e Latino do padre Raphael Bluteau (edição de 1720), secreta; latrina ou lugar público para as necessidades da natureza, onde iam os que não tinham calhandreiras, nem escravos para despejar serviços, conotação de manifesto conteúdo escatológico que se mantém nos dias de hoje, designando instalações sanitárias em alguns países lusófonos. Já o vocábulo privado identifica particular, uma pessoa privada que não exerce ofício algum público, que trata só da sua família e dos seus interesses domésticos. Cerca de um século depois, os sinónimos mantêm-se, registando-se ainda um outro, despojado, palavra que remete para a forma latina privare, que significa privar de alguma coisa, desapropriar. No contexto da sociedade oitocentista, o vocábulo parece adquirir um sentido ideológico preciso, a privação de direitos políticos, aludindo a um dos actos fundamentais do acesso à cidadania que coloca o indivíduo no espaço público. Trata-se de uma situação que caracteriza grande parte da população, dada a base censitária dos regimes eleitorais, mas muito em particular a condição das mulheres, totalmente isentas de direitos políticos.
Longe de ser neutral, a separação público/privado passava também pela diferença de género, sendo o espaço público considerado o lugar por excelência do sexo masculino e o privado, ou doméstico, do sexo feminino, partilhando-se da convicção que a domesticidade era condição natural da mulher, ou seja, inerente à sua própria natureza. O discurso oitocentista insiste nas qualidades e aptidões específicas de cada sexo, fundamento biológico da ordem sexual, base das duas esferas, na terminologia do tempo: aos homens, o cérebro, a inteligência, a capacidade de decisão; às mulheres, o coração, a sensibilidade, os sentimentos. Melhor do que ninguém, o escritor Almeida Garrett expõe este binómio, ao escrever: [...] a natureza deu à mulher meios diferentes dos que deu aos homens. A força que Deus pôs no braço do homem, está nos lábios e nos olhos da mulher. A fortaleza e decisão são o vigor do carácter masculino; a generosa resignação, a gentil deferência, a constância no sofrimento e nas privações, são o vigor; não menos poderoso e eficaz, da índole feminina. Em contraponto ao modelo positivo que associa a mulher ao espaço privado, a expressão mulher pública era sinónimo de prostituta, definindo o contra-ideal do que deveria ser uma mulher conveniente, sentido que não tendo desaparecido completamente nos dias de hoje, tende a atenuar-se em benefício da imagem valorativa da participação feminina nas diversas instâncias do poder político.
Convém, no entanto, levar um pouco mais longe o pensamento de forma a captar a lógica discursiva que se oculta por detrás da linguagem. Ora, se tivermos presente que os espaços público e privado se constroem opondo-se, não é difícil admitir que obedecem a princípios contrastantes. Se o primeiro é entendido como esfera da liberdade e da igualdade, o segundo pressupõe uma relação hierarquizada entre os seus membros, seja entre o homem e a mulher, o marido e a esposa, os pais e os filhos, entre outras, modelo comum à estrutura familiar tradicional e que a jurisprudência oitocentista consagraria na lei. Um dos aspectos mais interessantes do estudo da vida privada, no decurso do período considerado neste livro, reside precisamente em saber como é que a lógica das esferas separadas, que constitui a base da ordem social, cívica e moral, se singulariza no quotidiano, é aceite ou, pelo contrário, questionada. A aproximação ao conceito de vida privada pera via lexical permite, por conseguinte, supor uma evolução semântica do termo, pela incorporação de valores, códigos culturais e formas de sociabilidade que, não sendo inteiramente originais, irromperam no contexto político e ideológico da implantação do liberalismo». ». In JoséMattoso, História da Vida Privada em Portugal, A Época Contemporânea, coordenação de Irene Vaquinhas, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2011, ISBN 978-989-644-149-4.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

domingo, 9 de novembro de 2014

História da Vida Privada em Portugal José Mattoso. «… a vida privada emerge na segunda metade do século XVIII, no momento em que despontam os sistemas políticos democráticos que definem uma nova categoria de cidadão, centrada no exercício de direitos cívicos e políticos…»

jdact

A época contemporânea. Introdução
Sob o olhar da história: da vida privada família à vida privada individual (1820-1950)
«(…) O século XIX é geralmente considerado o século de ouro da vida privada. O fecho da família sobre si própria; a modificação da planta interior das casas, com a delimitação de áreas reservadas (para os criados, quartos de dormir para o casal e para os filhos, aposentos destinados à higiene pessoal, escadas de serviço); o gosto pelo conforto doméstico; o progresso da consciência individual, são alguns dos sintomas do reforço da privatização, no século do liberalismo, constituindo uma etapa decisiva na evolução dessa outra grande história que é a da noção de intimidade e na qual aquela se integra. De um modo geral, a maior parte dos autores tende a sublinhar, como consequência das formulações políticas do século das luzes, a oposição entre o Estado e a sociedade, da qual resulta a separação das esferas pública e privada. Esta última reforça-se no decurso de oitocentos, sob uma concepção restritiva do Estado, se bem que este se venha a constituir como garante dessa autonomia, fenómeno que acompanha a afirmação da burguesia no contexto da progressiva democratização da sociedade e do desenvolvimento do mercado económico concorrencial.
Em rigor, a vida privada define-se por oposição à vida pública, identificando aquela que se passa em particular, ou seja, distingue-se por aquilo que a separa dos órgãos formais do aparelho político-administrativo do Estado e de tudo o que denuncia uma relação com a coisa pública, sejam bens, valores ou o exercício de uma actividade profissional. Deve-se a Benjamin Constant (1767-1830), referência incontornável do pensamento liberal, a sua incorporação na ideologia política que emergiu da Revolução Francesa e o atribuir-lhe valor instrumental no quadro teórico e normativo da sociedade burguesa. Invocando princípios novos decorrentes de uma cultura política assente na noção de liberdade, a vida privada é considerada, por aquele influente sistematizador da doutrina liberal com largo eco no triénio vintista, uma característica do homem moderno por oposição ao homem antigo, empenhado nas cousas públicas. Deste modo, o conceito de vida privada enquadra-se no discurso cultural e político liberal, sendo associado à ideia de modernidade e de ruptura com o passado, em particular, com a sociedade de Antigo Regime. É na vida privada que o indivíduo experimenta o sentimento de independência, sendo entendida como refúgio e lugar por excelência da felicidade individual e colectiva.
Desde a Revolução Francesa à actualidade, o conceito de vida privada tem vindo a ser objecto de uma profunda reflexão teórica que problematiza o seu conteúdo, a delimitação das suas fronteiras e as zonas de interacção relativamente ao espaço público, bem como as estruturas de sociabilidade que se entrecruzam no seu seio entre outros aspectos. Para além do já referido Benjamin Constant, Alexis Tocqueville (1805-1859), no século XIX, ou, já no século XX, Norbert Elias (1897-1990), Jurgen Habermas e, mais recentemente, Richard Sennett, Albert Hirschmann, Anthony Giddens e Jean-Claude Kaufmann, são alguns dos autores que têm interrogado criticamente a lógica da separação dos espaços públicos e privados e analisado os factores institucionais e ideológicos que condicionam o respectivo movimento pendular ao longo do tempo. Porém, independentemente do conteúdo que cada qual atribui ao conceito, todos os autores parecem coincidir num ponto: a vida privada emerge na segunda metade do século XVIII, no momento em que despontam os sistemas políticos democráticos que definem uma nova categoria de cidadão, centrada no exercício de direitos cívicos e políticos, bem como numa organização social formada, em princípio, por homens livres e iguais. Todos os autores ainda admitem que é no decurso do século XIX, sob o impulso da burguesia, que a vida privada tem o seu apogeu, sendo associada às alegrias da intimidade familiar, irradiando progressivamente para os meios populares». In JoséMattoso, História da Vida Privada em Portugal, A Época Contemporânea, coordenação de Irene Vaquinhas, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2011, ISBN 978-989-644-149-4.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

História da Vida Privada em Portugal José Mattoso. «Para que quero eu olhos senhora Santa Luzia. Para que quero eu olhos senhora Santa Luzia. Se eu não vejo o meu amor nem de noite, nem de dia, senhora Santa Luzia»

jdact

A época contemporânea. Introdução
A redefinição do público e do privado (1820-1950)
«(…) A noção burguesa de vida privada está ainda associada, no imaginário oitocentista, à expressão dos sentimentos, fundamento da coesão familiar, sendo entendida como o lugar por excelência da materialização dos afectos, base da felicidade individual, enquanto se considera a vida pública controlada pela razão. A literatura romântica saberá explorar sabiamente esse filão e alimentar sonhos cor-de-rosa de amor e de felicidade eternas, deixando-nos nos romances, e em tantas obras de qualidade discutível, episódios que identificam, quase invariavelmente, amor com casamento e intimidade com felicidade. A cena de interior descrita por Carlos Moura Cabral contém todos esses ingredientes e, provavelmente, terá tanto de verídico como de utopia prospectiva. A simplicidade estilística de que se socorre o autor, próxima da linguagem cinematográfica, confere à narrativa autenticidade, como se retratasse uma cena do quotidiano, retirada da realidade social, sem ter em linha de conta o estatuto de representação simbólica do texto literário. Ora, história e literatura não se confundem nem identificam e, embora sejam duas expressões narrativas próximas, a ficção literária traduz a capacidade criativa e o imaginário do seu autor a partir de um dado contexto social e cultural. Ao historiador compete ler criticamente o romancista com o rigor dos métodos científicos da pesquisa e da análise documental, e utilizar a literatura como um registo ficcionado de aproximação ao conhecimento da realidade sociológica que se oculta por entre o emaranhado das intrigas passionais e da crítica de costumes. Vêm estas palavras a propósito da tentação de reconstruir a história da vida privada de 1820 a 1950 a partir das fontes literárias, aparentemente tão credíveis em testemunhos de época, contrastando em absoluto com a desesperante pobreza das fontes históricas, escritas ou iconográficas. As dificuldades práticas da pesquisa prendem-se com a insuficiência dos documentos quando o objecto de investigação está para além dos discursos e dos modelos culturais que transparecem através das instituições e dos comportamentos. Como captar o silêncio, o íntimo, as nuances dos afectos, o que não se diz e permanece oculto? Como aceder aos monólogos interiores, às orações, aos medos, aos desejos e aos sonhos de vida futura? Que documentos interrogar? Os arquivos privados são raros e socialmente bem determinados. Os arquivos públicos e, em particular, as tradicionais fontes políticas ou administrativas, são omissas ou lacunares sobre o tema, excepto no que concerne ao debate ideológico sobre a instituição da família, considerada o epicentro da vida privada e a unidade primária da vida social e afectiva. Quanto aos arquivos judiciais que nos elucidam sobre o lado sombrio das relações humanas e a sua conflitualidade interna, continuam, no nosso país, a ser pouco explorados, em termos históricos, permanecendo, em grande parte, como um continente por desbravar.
Nestas circunstâncias, o historiador deve socorrer-se de todas as fontes possíveis ao seu alcance: interrogar minuciosamente as estatísticas e relatórios disponíveis; explorar os textos religiosos, normativos, científicos ou literários; utilizar documentos gráficos como a publicidade, a fotografia, a iconografia, ou tão-só, os objectos materiais do quotidiano dispersos por museus e demais instituições museológicas... Compete-lhe, ainda, prestar atenção às pequenas coisas que tanto fascínio exerciam sobre os homens e as mulheres de oitocentos, muitas das quais chegaram até nós religiosamente guardadas por familiares ou integradas em colecções particulares, como se de relíquias se tratasse, sejam cartas amarelecidas Pelo tempo, sejam postais ilustrados, jóias, estampas, cartões de felicitação ou tantas outras pequeninas minudências. Discretamente, com a prudência que a pesquisa histórica aconselha, entremos no círculo estreito da vida privada, essa fortaleza forrada a rendas, como a qualifica Michelle Perrot, solidamente resguardada da intrusão alheia…» In JoséMattoso, História da Vida Privada em Portugal, A Época Contemporânea, coordenação de Irene Vaquinhas, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2011, ISBN 978-989-644-149-4.


Cortesia de Temas e Debates/JDACT

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

História da Vida Privada em Portugal JoséMattoso. «Um paraíso que constitui, no entanto, um privilégio, reservado a uma pequena elite do nascimento ou da fortuna: a vida privada é, no decurso do século XIX, um fenómeno essencialmente burguês»

Praia da Figueira da Foz, postais ilustrados
jdact

A época contemporânea. Introdução
A redefinição do público e do privado (1820-1950)
«Eles tinham bebido a última gota de café por umas chávenas pequeninas, brancas, de porcelana finíssima. Deram um beijo e retiraram-se para o gabinete, onde se recostaram em duas belas cadeiras longas, fofas, convidativas ao sono, ao descanso de um bom jantar. Havia sete meses que se tinham casado, que um padre com o seu latim lhes tinha permitido trocarem os seus abraços e as suas carícias. E ela embrulhada, galantemente, num roupão de lã, deixava perceber que não vinha muito longe o dia em que seu esposo receberia a coroação de pai. Tinham comido com um magnífico apetite. O cavaco estabelecera-se à mesa com a animação própria de dois amigos; discutiram umas pequenas coisas, uns negociozinhos de casa, beberam à saúde um do outro, depois de aberto um falerno de quinze anos, enfim, passaram deliciosamente uma hora saboreando um belo jantar, servido com todos os atractivos, com os nadinhas adoráveis, que lhes dava um tom principesco, apesar da sua mediocridade. Ele, o esposo feliz, acendera um bom charuto e contemplava, preguiçosamente, as nuvenzinhas de fumo azulado que se perdiam no ar. Tinha as pernas estendidas, a cabeça inclinada para trás, entregue à mais completa despreocupação. Ela deixava entrever um delicado pé num sapato de cetim cor--de-rosa, pousado sobre um tamborete, e palitava, negligentemente, uns dentes brancos, iguais, aromatizados, sentindo-se bem naquele confortável paraíso, onde a primeira dúvida ainda não tinha ousado penetrar (...)». In Carlos Moura Cabral, ‘Depois do jantar’, O Occidente, 1 de Dezembro de 1879.

Este relato, extraído de uma crónica publicada na revista O Occidente, evoca um dos símbolos mais emblemáticos da vida privada oitocentista: o jantar em família (o actual almoço), tomado no aconchego do lar. O cenário descrito é pródigo em lugares-comuns que desenham, a traço grosso, os elementos que recriam o ambiente intimista, sinónimo de felicidade: a lassidão dos corpos, propícia ao devaneio e ao suave abandono; a espontaneidade dos gestos, liberta do garrote dos formalismos e das conveniências sociais; a tranquilidade mansa do conforto doméstico em ambiente amoroso; o erotismo subtil de um roupão e a sensualidade de um minúsculo pé; as confidências sussurradas... Elementos soltos que reconstituem, na ficção literária, o jardim das delícias da intimidade conjugal, cerne da vida privada, resguardado da intrusão alheia, inclusive dos olhares indiscretos dos criados. Um paraíso que constitui, no entanto, um privilégio, reservado a uma pequena elite do nascimento ou da fortuna: a vida privada é, no decurso do século XIX, um fenómeno essencialmente burguês.
Para a grande maioria da população, rural ou urbana, que vive em modestíssimas habitações, senão mesmo em estreitas e infectas moradas, húmidas e lôbregas, sem ar e sem luz, como descreviam tantos autores, na viragem do século XIX para o XX, as condições materiais da habitação operária, tanto das ilhas do Porto como dos pátios e das colmeias de Lisboa, os espaços privados são inexistentes, vivendo-se quase na rua, à vista de todos. De um modo geral, as casas reduzem-se a uma cela com uma porta de entrada, prolongando-se por entradas comuns a todos os moradores, onde se faziam a comida, as lavagens e os despejos. Seria impossível situar a cena doméstica acima transcrita no casario cerrado das vielas sujas e degradadas das freguesias urbanas, onde se amontoa o operariado, e nas quais até o soltem medo de entrar. Nos meios rurais, as condições de habitabilidade não são melhores, tendo chocado a rainha D. Estefânia aquando de uma visita efectuada pouco depois do seu casamento, em 1858, deixando as suas impressões numa carta escrita à sua mãe: (...) Aquela pobre gente tinha um ar muito contente e alegre na sua cabana miserável que não passa de um monte de pedras coberto dalgumas telhas, sem janelas, com uma porta só, chão térreo, rachas de todos os lados que deixam a passagem livre às chuvas e ao vento; é horrível e é ali que aquela pobre gente passa a vida com os seus porcos (...). A intimidade exige condições de alojamento e a organização racional do espaço doméstico adaptada aos diferentes momentos do dia-a-dia, estrutura que caracteriza uma certa tipologia de residências burguesas que se divulga a partir do último quartel do século XIX, mas impensável nas habitações populares, de uma única divisão, com áreas que não excediam os 16 m2, partilhadas por famílias completas, de 6-7 elementos». In JoséMattoso, História da Vida Privada em Portugal, A Época Contemporânea, coordenação de Irene Vaquinhas, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2011, ISBN 978-989-644-149-4.

Cortesia de Temas e Debates/JDACT

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O Tempo e os Homens. Colecção Universitária. António Borges Coelho. «A existência de filósofos malditos é tão velha como a história do pensamento ocidental. E qualquer artífice sabe que quanto mais variados e complexos forem os instrumentos, maiores possibilidades se abrem à acção»

jdact

Manipulador do tempo. Tempo e Memória
História. Histórias
«(…) No seu trabalho diário, o historiador opera uma gama variada de produtos: colectâneas documentais como os Portugaliae Monumenta Historica de Alexandre Herculano ou os Monumenta Henricina de Dias Dinis; Histórias Universal, de Portugal, da França, de Lisboa; Histórias regionais ou locais; monografias sobre História das Ideias, História Económica, Social, Mental, Arte, Quotidiano, Biografias, etc., etc. Noutras alturas produz discursos sob e sobre o fogo vivo dos acontecimentos. Estes relatos-testemunhos, necessários, por vezes preciosos, alcandoram-se frequentemente ao discurso mais perene da História. Noutro plano, independentemente da originalidade, os produtos acabados revestem linguagens diferenciadas: a do cerzir de acontecimentos e de ideias; a metalinguagem que conceptualiza os dados empíricos; a metalinguagem que navega sobre conceitos mas deixa à vista os fundamentos empíricos; a metalinguagem… Por outro lado, certos produtos voltam-se para a análise, a pesquisa e o escalpelizar de um problema ou tema limitado; outros ousam as grandes sínteses. O artesão manipulador do tempo marca o produto com a sua mente e a sua mão mas é extremamente dependente; dependente das informações, dependente do trabalho dos homens e mulheres que organizam a informação conservada nos arquivos, bibliotecas e museus, dependente das ideias e da carpintaria dos autores que o antecederam, dependente de toda a sociedade no pensar, no milagre diário de existir. E é no plano final, no movimento das palavras até se fixarem nestes caracteres e não noutros, que as marcas do artesão identificam e valorizam o produto genuíno.

Textos e Sociedade no Garbe Al-Andaluz
Tanto a verdade histórica como o mito se incorporam nas representações que dão sentido aos passos que agora mesmo renovamos. Os mitos captam o real profundo mas tem sido com o pensamento lógico que a Humanidade vem aumentando o conhecer e o poder, desenvolvendo e ameaçando a própria vida na Terra. No campo historiográfico, práticas de diferentes escolas e sistemas, confundindo o real e o lógico, coisificando os modelos, anulando a indeterminação do real, indeterminação acrescida nas sociedades humanas pelo factor a que os teólogos e os filósofos chamaram livre-arbítrio, têm levado muitos autores a refugiarem-se na procura necessária e sempre incompleta de informações novas, esquecendo que conhecer é relacionar. Há mesmo quem minimize e desconfie da compreensão em História e, a pretexto de perigo ideológico, recuse, afinal por preconceito; ideológicos, ferramentas conceptuais e expulse do território da teoria contributos de autores considerados indesejáveis.
A existência de filósofos malditos é tão velha como a história do pensamento ocidental. E qualquer artífice sabe que quanto mais variados e complexos forem os instrumentos, maiores possibilidades se abrem à acção. Necessário é dominar bem as ferramentas até para as rejeitar e afinar e saber quando, onde e como manejá-1as. Hoje insistem em todos os tons que as ideologias morreram, tocam-se as trombetas do Juízo Final da História como se fosse possível viver sem representações do mundo e sem conflitos, isto precisamente num tempo em que se reacendem na própria Europa velhíssimas guerras de bandeira religiosa que há muito se julgavam desaparecidas. Ao constante movimento e transformação do mundo, a razão responde imobilizando na ideia o que se move. Daí a necessidade de rectificação constante, daí a urgência de encontrar novas relações e mecanismos lógicos que envolvam não só a prova como até a ilusão do movimento. Por mais asséptica que seja a nossa postura e linguagem, por mais que congelemos a objectividade e expulsemos e anatemizemos as ideologias, o tempo social, económico, cultural e político concreto marca a actividade do historiador e do arqueólogo. E é bem um sinal de tristes tempos, esta necessidade de sublinhar o óbvio, de reafirmar o sobejamente verificado, demonstrado». In António Borges Coelho, O Tempo e os Homens, Questionar a História III, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1076-4.

Cortesia Caminho/JDACT

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Tempo e os Homens. Colecção Universitária. António Borges Coelho. «O manipulador do tempo, no sentido de que trabalha, opera, torce e distorce esse mesmo tempo e no sentido de que com ele intervém, mesmo quando não quer intervir, condicionando de algum modo a concepção do presente e do futuro»

jdact

Manipulador do tempo. Tempo e Memória
História. Histórias
«(…) Mas a História-conhecimento o que é? As definições são tantas como os seus manipuladores. Um núcleo comum será o de memória organizada do passado humano. É um olhar atento, sobre o que fluiu e flui, sobre o que na mudança permanece. E o estudo das ideias, das instituições, dos grupos sociais, da actividade dos homens singulares mas numa perspectiva do movimento e do todo. Com o avanço da Sociologia, os historiadores das instituições, para lá, da paragem que a descrição envolve, tendem muitas vezes a quedar-se numa posição estática quando a atitude da História é essencialmente dinâmica. Mas para lá desta atitude de ver o que se move, de reconstituir e organizar os sinais dos sinais que permanecem e de desenhar uma trajectória, deparamos não com uma ciência da História mas com diferentes ciências da História. Pré-História, Teoria da História, Historiografia, História das Instituições, História Universal, História Social, História Comparada, História da Arte, História Regional, História Económica, História das Ideias e das Mentalidades, História da Filosofia, História do Quotidiano, História dos Jogos, História da Ciência, História da Técnica, História da Matemática, Demografia Histórica, etc., etc. Por outro lado, estas ciências da História mergulham no território de todas as outras ciências, em particular no território da Geografia, da Sociologia, da Antropologia, da Lógica, da Epistemologia, da Matemática. Ora, cada uma das ciências da História requer metodologias específicas.
Mas, no final das contas, a História Sociopolítica, iluminada pela História Económica e pela História das Ideias e das Mentalidades, emerge porventura como a disciplina charneira de maior ambição globalizante, como a disciplina a que melhor caberia a designação de História sem determinativo. O manipulador do tempo, no sentido de que trabalha, opera, torce e distorce esse mesmo tempo e no sentido de que com ele intervém, mesmo quando não quer intervir, condicionando de algum modo a concepção do presente e do futuro, é ainda, apesar do progresso tecnológico e do crescente e absorvente trabalho de equipa, particularmente no que se refere à recolha e conservação da matéria-prima, um homem de ofício, um homem de oficina, um verdadeiro artesão. E se há épocas em que a oficina fica submersa na tralha dos factos, outras há em que não tem condimentos nem conduto para deitar na panela. Obviamente, o historiador vive ou viveu no seu tempo. Traz na mente e no corpo as suas marcas. Reage a par e passo aos seus estímulos. E, no entanto, quanto mais se enredar nos seus dramas e combates, quanto mais se submergir nos acontecimentos contraditórios, mais fértil a experiência, mais fina a sensibilidade para compreender a linguagem, o esconde-esconde das acções dos homens ou não fosse o esqueleto do homem, como escreveu Marx, a chave da anatomia do macaco.
Mas este homem submerso não pode ficar à tona do presente, tem que mergulhar nas águas profundas, viver anos da sua vida no tempo que pretende desenterrar. O trabalho do historiador é um trabalho de mineiro, horas e horas sepultado sem ver a luz. Na sua oficina, parte de um plano ou ideia. Essa ideia é subvertida e substituída por novas ideias à medida que avançam os protocolos e protocolos de informações como vagonetas carregadas de minério. Destas informações, laboriosamente organizadas e medidas pela Cronologia, os conceitos, os métodos quantitativos, vai retirar os grãos, as pepitas das pedras do minério. Mas o historiador não pode contentar-se com cingir no colo da História o colar dos factos. Tem de graduar com eles a compreensão global, sempre aberta a novas determinações, dos processos históricos. Não pode tão-pouco ficar com os pés presos nas poldras dos factos sem o salto no desconhecido para alcançar a outra margem. Também não pode partir de uma premissa maior, isto é, dos lugares-comuns ou menos comuns, respigar depois nas fontes casos particulares numa premissa menor e concluir o que já estava concluído na premissa maior. Por outro lado, o aparelho conceptual não pode figurar como adorno, visível ou invisível; tem de suportar o peso das estruturas». In António Borges Coelho, O Tempo e os Homens, Questionar a História III, Editorial Caminho, Colecção Universitária, Lisboa, 1996, ISBN 972-21-1076-4.

Cortesia Caminho/JDACT

domingo, 17 de julho de 2011

A Serenidade Clássica: «A difusão de imagem das ruínas de edifícios greco-latinos clássicos serviu de modelo ao equilíbrio de proporções, simplicidade de formas, sobriedade de estilo, elegância de carácter... em suma, de uma beleza discreta, medida e ordenada pela razão humana e adoptada como cânone estético»


Cortesia de wikipedia e obviousmag 

«Graças ao seu carácter racionalista e universalista, e a sua inspiração na harmonia clássica, a arte neoclássica imperou por igual, acima das convulsões políticas da sua época, durante momentos históricos tão diversos como o iluminismo, a Revolução e o período napoleónico, todos de claro predomínio cultural francês.
Entre 1750 e 1815, alastrou pela Europa e pela América um gosto pela bela racionalidade da antiguidade greco-latina. O desenvolvimento das ciências, a generalização das viagens e os achados arqueológicos que o saber europeu empreendeu durante a Idade Moderna frutificaram, precisamente nos alvores da Idade Contemporânea, numa admiração renovada pela arquitectura da Grécia e da Roma antigas.

Modelo de Perfeição.
A difusão de imagem das ruínas de edifícios greco-latinos clássicos serviu de modelo ao equilíbrio de proporções, simplicidade de formas, sobriedade de estilo, elegância de carácter... em suma, de uma beleza discreta, medida e ordenada pela razão humana e adoptada como cânone estético.


Cortesia de portalsaofrancisco e vivercidades 

Também foi um movimento contestatário impulsionado por uma burguesia com crescentes reivindicações democráticas perante a aristocracia, assim como diante dos estilos barroco e rococó que esta classe utilizava como sua expressão característica. Em confronto com a complexidade e confusão destes estilos, o movimento opôs a clareza e simplicidade do clássico, entendido como norma de perfeição, tal como já se assimilava no Renascimento.
Além disso, o seu espírito universalista levou-o a expandir-se de Paris, que constituiu o epicentro do movimento, até ao resto da Europa, sobretudo no âmbito anglo-saxão e germânico, mas também em Espanha, Itália e Rússia, tal como nos Estados Unidos da América, onde se converteu no estilo fundador da sua identidade cultural e no Brasil.

O Neoclassicismo Britânico.
Diversamente da França, o barroco não chegou a enraizar-se na Grã-Bretanha. Após o legado de Christopher Wren, foi o paladianismo, derivado da influência do arquitecto italiano António Palladio, século XVI, o representante de grande parte da época georgiana. Também herdeiro da simetria e da simplicidade das formas clássicas, o neoclassicismo não impôs uma grande ruptura comparativamente à arte de Palladio, mas constituiu uma renovação mais enriquecida e profunda que foi beber às fontes originais da Antiguidade.

Nos EUA, o neoclassicismo foi o estilo com que se forjou a unidade nacional.
Deu forma a um mundo novo.
O Capitólio é o símbolo da emergente democracia.
Cortesia de slideshare

Por volta de 1770, durante o reinado de Jorge III, que teve de enfrentar a independência dos EUA e a influência ameaçadora da Revolução Francesa e do império Napoleónico, a obra de Robert Adam e William Chambers fundou um modelo arquitectónico de raízes profundas na cultura anglo-saxónica». In Gayban Grafie.

Cortesia de Wikipédia e Gayban Grafie/JDACT