Mostrar mensagens com a etiqueta Romance Contemporâneo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romance Contemporâneo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Não te podes ligar com um homem da sua espécie»

jdact

«(…) Mais tarde quando quase enlouqueci em tormentos e me encontrei pesadamente endividado para com Capodistria, passei a considerá-lo um companheiro menos agradável; e certa noite, Melissa, meio embriagada, encontrou-se sentada em frente dele, diante do fogo, num tamborete baixo, tendo entre os dedos longos e pensativos a letra que eu tinha assinado, com a simples palavra pago escrita transversalmente, a tinta verde, numa caligrafia agressiva..., são estas recordações que fazem sofrer. Melissa explicou: Justine poderia rer pago a tua dívida e isso não lhe causaria grande transtorno. Mas já basta que tenha o teu desejo: não quero que tenha, também, a tua gratidão. E depois, embora te não importes muito comigo, queria fazer alguma coisa por ti, e o sacrifício, afinal, não foi demasiado grande. Pensava que não ficarias muito triste por me deitar com ele. Não fizeste tu o mesmo por mim, quero dizer, não pediste dinheiro a Justine para pagar a clínica, as radiografias e tudo o mais? Mentiste-me a esse respeito mas descobri a verdade. Não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Não te podes ligar com um homem da sua espécie. E voltando a cara fez o simulacro de cuspir, como fazem os árabes. Da vida pública de Nessim, essas gigantescas e enfadonhas recepções, de início frequentadas apenas por homens de negócios, mas que mais tarde deram pretexto a tenebrosas conjuras políticas, não quero ocupar-me.
Atravessando furtivamente o vestíbulo a caminho do estúdio, detinha-me para examinar o grande escudo de couro sobre a chaminé, onde se encontrava também um plano da mesa, para ver quem tinha sido colocado à direita e à esquerda de Justine. Durante algum tempo tentaram, gentilmente, fazer-me participar destas reuniões, mas eu protestava cansaço e sentia-me feliz por poder dispor do estádio e da imensa biblioteca. Mais tarde encontrávamo-nos como conspiradores e Justine lançava fora as máscaras de alegria, tédio e petulância que arvorava em sociedade. Desembaraçava-se dos sapatos e jogávamos cartas à luz da candeia. Quando ia deitar-se lançava um olhar ao espelho e dizia para a sua imagem: não passas de uma judia histérica e pretensiosa!
O estabelecimento de Mnemjian, barbeiro, natural da Babilónia, ficava na esquina da Rua Fouad com a Rua Nebi Daniel, e era lá que todas as manhãs, eu e Pombal nos encontrávamos reflectidos em frente dos espelhos vizinhos. Erguiam-nos ao mesmo tempo nas cadeiras e cobriam-nos com duas mortalhas brancas, como faraós mortos, para logo reaparecermos nos espelhos, como dois insectos numa montra. Era um garoto negro quem nos prendia as toalhas, enquanto o barbeiro ia misturando a espuma oleosa e perfumada numa grande tigela vitoriana, antes de aplicá-la em pequenos toques hábeis nas nossas faces. Depois de dar a primeira camada, deixava-nos de novo nas mãos do garoto para ir afiar a navalha numa enorme língua de couro que pendia, ao fundo da loja, no meio das fitas de papel mata-moscas». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «… cada casal era inferior ao precedente e Sofia, a sabedoria, era a fêmea do trigésimo casal e a menos perfeita de todas). Tudo o que é em excesso é pecado»

jdact

«(…) O seu centro espiritual era a paisagem esquecida de Soma, onde o corpo atormentado do jovem soldado foi um dia depositado na sua divindade fictícia; a sua sede temporal era o Clube dos Correctores, onde, autênticos gnósticos (gnose; o corpo astral dos que morrem prematuramente, creêm poder realizar actos corporais quando, com efeito, não possuem corpo físico e agem em pensamento, Paracelso), os correctores vinham, nas suas roupas de algodão, beber café, fumar charutos rançosos e contemplar Capodistria, como os vagabundos dos cais contemplam um pescador ou um pintor. O primeiro simboliza, para mim, as grandes conquistas do homem nos domínios da matéria, do espaço e do tempo, que devem inevitavelmente abandonar o seu conhecimento, penosamente adquirido, ao conquistador no seu túmulo; o outro não era um símbolo mas o limbo vivo do livre-arbítrio, onde a minha bem-amada Justine errava em busca (no meio de uma terrível solidão de espírito) do lampejo que lhe revelaria uma nova perspectiva do seu ser. Nela, como verdadeira alexandrina, a licença era uma forma estranha mas real de abnegação, uma máscara da liberdade; e se eu via nela um testemunho da cidade não pensava em Alexandria, nem em Plotino, mas na filha infeliz de Valentino que caiu, não como Lúcifer, por se ter rebelado contra Deus, mas pelo excessivo desejo que tinha de se unir a Ele (a doutrina gnóstica considera a criação um erro... Imagina um Deus primordial que engendrou manifestações de si próprio sob a forma de casais macho-fêmea; cada casal era inferior ao precedente e Sofia, a sabedoria, era a fêmea do trigésimo casal e a menos perfeita de todas). Tudo o que é em excesso é pecado.
Separada da divina harmonia, caiu, diz o filósofo trágico, e tornou-se a manifestação da matéria; e todo o universo da sua cidade e do mundo nasceu da sua agonia e do seu remorso. O gérmen trágico que engendrou os seus pensamentos era o gérmen de um gnosticismo pessimista. Sei que esta identificação era real porque, muito mais tarde, quando com tanta hesitação e maus presságios ela me permitiu entrar para o pequeno círculo que todos os meses se reunia em torno de Balthazar, eram sempre as suas referências ao gnosticismo as que mais a interessavam. Lembro-me da noite em que com tanto fervor e humildade ela lhe perguntou se tinha interpretado correctamente o seu pensamento: Quer dizer que Deus nunca nos criou nem tão-pouco pensou fazê-lo, mas que somos obra de uma divindade inferior, um demiurgo, que se supunha Deus? Ah!, como isso parece provável; e é esse hubris presunçoso que foi transmitido aos nossos filhos. E de uma outra vez, íamos lado a lado, ela colocou-se, repentinamente, diante de mim, e segurando-me as abas do casaco, olhou-me bem nos olhos e disse-me: e tu, em que crês? Nunca dizes nada. Basta-te rir, uma vez por outra. Não sabia á que lhe havia de responder; para mim todas as ideias se equivalem; o facto de existirem, apenas prova que alguém as criou. Que me interessa que sejam objectivamente justas ou falsas? De qualquer modo, não podem ficar indefinidamente no mesmo estado». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Entretanto, não existe mulher, por mais humilde velha ou usada, que não lhe mereça uma demonstração exterior de consideração…»

jdact

«(…) A vozinha cariciosa envolve todas as frases com um sentido equívoco, e o seu discurso não perde nada com os pequenos e lancinantes suspiros com que ele o sublinha. Durante uns minutos reina o silêncio. Vejo no espelho o alto da cabeça de Mnemjian, essa crista obscena de cabelos negros que ele arranjou em caracol ao lado das fontes, sem dúvida com o fim de distrair as atenções da marreca. Enquanto manobra a navalha, os olhos perdem o brilho e o rosto torna-se tão inexpressivo como um fundo de garrafa. Os dedos trabalham as nossas faces com o mesmo desinteresse frio com que trabalham as faces exigentes (e, sim!, felizes) dos mortos. Desta vez, diz Mnemjian, há-de ficar satisfeito. Ela é nova, asseada e não custa caro. Verá por si próprio, é uma perdigota, um raio de mel com todo o mel intacto dentro dela, uma pombinha. Neste momento tem falta de dinheiro. Saiu há pouco do manicómio de Helwan, onde o marido tentou interná-la. Arranjarei para que ela esteja no Rose-Marie na última mesa do passeio. Vá vê-la quando for uma hora; se a quiser, entregue-lhe o cartão que eu lhe vou dar. Mas lembre-se de que é a mim que deve pagar. De homem para homem, é a única exigência que eu faço. Durante um momento não diz mais nada. Pombal continua a observar a sua própria imagem no espelho, enquanto a curiosidade natural que o revolve se debate com a imensa apatia do Estio. Mais tarde precipitar-se-á, sem dúvida, no apartamento, levando consigo qualquer pobre criatura esgotada e bravia, cujo sorriso idiota nenhum outro sentimento despertará nele além da piedade. Não posso negar a bondade do meu amigo, pois, na verdade, dá-se a trabalhos para conseguir empregar essas raparigas; com efeito, a maior parte dos consulados contam entre o seu pessoal antigas desgraçadas que se esforçam desesperadamente por parecer dignas, e é à assiduidade de Georges junto dos seus colegas de carreira que elas devem os seus empregos. Entretanto, não existe mulher, por mais humilde velha ou usada, que não lhe mereça uma demonstração exterior de consideração, uma dessas pequenas galantarias, uma dessas frases que eu associo com o temperamento gaulês, esse encanto francês, cerebral e falso que tão facilmente se evapora para se transformar em orgulho e em indolência mental, tal como os pensamentos franceses que tão rapidamente se perdem em moldes de areia, o esprit original cristalizando imediatamente em conceitos de onde se encontra ausente toda a sensibilidade. O omnipresente sexo que flutua sobre os seus pensamentos e as suas acções tem, contudo, um ar de desapego que o torna qualitativamente diferente das acções e dos pensamentos de um Capodistria, por exemplo, a quem muitas vezes encontramos na loja de Mnemjian à hora da barba. Capodistria tem uma maneira involuntária de feminilizar tudo aquilo de que se aproxima; sob o seu olhar, as cadeiras tornam-se dolorosamente conscientes da nudez das suas pernas. Penetra nas coisas. Sentado à mesa com ele, vi uma melancia fremir sob a carícia do seu olhar e senti vibrar as grainhas do seu ventre! As mulheres sentem-se como a ave diante da víbora em frente daquela cara estreita e chata, daquela língua que se move sem cessar sobre os lábios sumidos. Penso uma vez mais em Melissa: hortus conclusus, soror mea sponsor...
Regard dérisoire, diz Justine. Como se explica que você seja um de nós e entretanto..., esteja tão longe? Ela arranja os seus belos cabelos negros diante do espelho, com um cigarro a arder entre os lábios. Você é, evidentemente, um refugiado mental, visto que é irlandês, mas tem ainda que partilhar a nossa angoisse. De facto, o que ela procura surpreender é essa qualidade distintiva que procede não de nós mas da paisagem, os aromas metálicos que impregnam a atmosfera debilitante do lago Mareotis. Enquanto a escuto, penso nos fundadores da cidade, no Deus-Soldado no seu caixão de vidro, no corpo de comovente juventude na sua armadura de prata, descendo o rio até ao local onde se erguia o túmulo. Ou nessa grande cabeça quadrada, de negro, de onde emana um conceito de Deus, concebido no espírito da pura especulação intelectual: Plotino. É como se as preocupações desta paisagem convergissem num ponto fora do alcance da maior parte dos seus habitantes, numa região onde a carne, posta a nu pelo abuso das suas reticências finais, devesse submeter-se a uma preocupação infinitamente mais compreensiva; ou extinguir-se nessa espécie de esgotamento que as obras do Mouseion representam, os cândidos jogos dos hermafroditas nos jardins verdejantes da Arte e da Ciência. Poesia, desajeitada tentativa de inseminação artificial das Musas; metáfora de uma estupidez flagrante, da cabeleira de Berenice cintilando no céu nocturno por sobre a face adormecida de Melissa. Ah!, disse Justine uma certa vez, se ao menos houvesse algo de livre, algo de polinésico nesta devassidão em que vivemos. Ou mesmo de mediterrânico, devia ela ter acrescentado, porque as implicações de cada beijo seriam diferentes em Itália e em Espanha; aqui, os nossos corpos estavam feridos pelos ventos ásperos e esterilizantes que sopravam dos desertos africanos, e éramos obrigados a substituir o amor por uma ternura cerebral mais cruel, que, longe de repelir a solidão, só servia para exacerbá-la ainda mais. Até a própria cidade tinha dois centros de gravidade: o pólo real e o pólo magnético da sua personalidade; e, entre os dois, o temperamento dos seus habitantes dissolvia-se e esgotava-se em vãs descargas eléctricas». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

domingo, 29 de janeiro de 2017

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «O seu velho comércio abrange os dois mundos, e algumas das suas melhores observações começam por esta frase: como me dizia Fulano ao dar o último suspiro»

jdact

«(…) Mais tarde, quando quase enlouqueci em tormentos e me encontrei pesadamente endividado para com Capodistria, passei a considerá-lo um companheiro menos agradável; e, certa noite, Melissa, meio embriagada, encontrou-se sentada em frente dele, diante do fogo, num tamborete baixo, tendo entre os dedos longos e pensativos a letra que eu tinha assinado, com a simples palavra pago escrita transversalmente, a tinta verde, numa caligrafia agressiva... São estas recordações que fazem sofrer. Melissa explicou: Justine poderia ter pago a tua dívida e isso não lhe causaria grande transtorno. Mas já basta que tenha o teu desejo: não quero que tenha, também, a tua gratidão. E depois, embora te não importes muito comigo, queria fazer alguma coisa por ti, e o sacrifício, afinal, não foi demasiado grande. Pensava que não ficarias muito triste por eu me deitar com ele. Não fizeste tu o mesmo por mim, quero dizer, não pediste dinheiro a Justine para pagar a clínica, as radiografias e tudo o mais? Mentiste-me a esse respeito mas eu descobri a verdade. Eu não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Tu não te podes ligar com um homem da sua espécie. E voltando a cara fez o simulacro de cuspir, como fazem os Árabes.
Da vida pública de Nessim, essas gigantescas e enfadonhas recepções, de início frequentadas apenas por homens de negócios, mas que mais tarde deram pretexto a tenebrosas conjuras políticas, não quero ocupar-me. Atravessando furtivamente o vestíbulo a caminho do estúdio, detinha-me para examinar o grande escudo de couro sobre a chaminé, onde se encontrava também um plano da mesa, para ver quem tinha sido colocado à direita e à esquerda de Justine. Durante algum tempo tentaram, gentilmente, fazer-me participar destas reuniões, mas eu pretextava cansaço e sentia-me feliz por poder dispor do estúdio e da imensa biblioteca. Mais tarde encontrávamo-nos como conspiradores e Justine lançava fora as máscaras de alegria, tédio e petulância que arvorava em sociedade. Desembaraçava-se dos sapatos e jogávamos cartas à luz da candeia. Quando ia deitar-se lançava um olhar ao espelho e dizia para a sua imagem: não passas de uma judia histérica e pretensiosa! O estabelecimento de Mnemjian, barbeiro, natural da Babilónia, ficava na esquina da Rua Fouad com a Rua Nebi Daniel, e era lá que todas as manhãs eu e Pombal nos encontrávamos reflectidos em frente dos espelhos vizinhos. Erguiam-nos ao mesmo tempo nas cadeiras e cobriam-nos com duas mortalhas brancas, como faraós mortos, para logo reaparecermos nos espelhos, como dois insectos numa montra. Era um garoto negro quem nos prendia as toalhas, enquanto o barbeiro ia misturando a espuma oleosa e perfumada numa grande tigela vitoriana, antes de aplicá-la em pequenos toques hábeis nas nossas faces. Depois de dar a primeira camada, deixava-nos de novo nas mãos do garoto para ir afiar a navalha numa enorme língua de couro que pendia, ao fundo da loja, no meio das fitas de papel mata-moscas. O pequeno Mnemjian é um anão cujo olhar violeta não perdeu ainda a candura infantil. E, contudo, ele é o arquivo da cidade. Se quisermos conhecer os ascendentes ou as posses de qualquer pessoa, não há quem melhor nos informe; conta-nos todos os pormenores enquanto afia a navalha, experimentando o fio nos pêlos hirsutos do antebraço. E o que ele não souber depressa o descobre. E sabe tanto sobre os mortos como sobre os vivos, posto que o hospital grego o utiliza para barbear e vestir as suas vítimas, antes de as abandonar aos gatos-pingados; é uma tarefa que ele desempenha com o zelo e o prazer de todos os da sua raça. O seu velho comércio abrange os dois mundos, e algumas das suas melhores observações começam por esta frase: como me dizia Fulano ao dar o último suspiro. Parece que tem muita sorte com mulheres e consta que arredondou uma pequena fortuna à custa das suas admiradoras. Mas há, também, as velhotas egípcias, mulheres e viúvas dos paxás, que ele visita regularmente para lhes compor o penteado. Segundo ele, essas senhoras já experimentaram tudo e, dando uma palmada na medonha giba que lhe carrega as costas, acrescenta orgulhosamente: isto excita-as. Entre outras coisas possui uma cigarreira de ouro, oferta de uma sua admiradora, onde guarda uma colecção de mortalhas soltas. O seu grego é deficiente, mas enriquecido pôr inesperadas imagens, e Pombal não consente que ele lhe fale em francês, embora domine esta língua muito melhor. Está, presentemente, alcovitando para o meu amigo, e sempre me admiram os súbitos assomos de poesia que ele põe na descrição das suas protégées. Debruçado sobre a face lunar de Pombal, dirá, por exemplo, enquanto a navalha começa a ranger sob a camada de espuma: tenho uma coisa para si, uma coisa muito especial. Pombal surpreende o meu olhar no espelho e volta rapidamente a cabeça com receio de que desatemos ambos a rir às gargalhadas. Emite um grunhido prudente. Mnemjian eleva-se ligeiramente na ponta dos pés e aproxima-se mais da orelha de Pombal, entortando os olhos». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Ela foi má de muitas maneiras, é bem certo, mas isso não tinha importância. Nem sequer posso, também, afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu…»

jdact

«(…) Sei bem que o mundo ignora esta espécie de paradoxo e não está habituado a ele; mas Nessim conhecia-a e aceitava-a de um modo que é absolutamente incompreensível para aqueles que não conseguem separar o amor dos ideais corruptos da propriedade privada. Um dia, muito mais tarde, ele disse-me: que podia eu fazer? Justine era demasiado forte para mim, sob muitos aspectos. Não podia fazer nada senão amá-la, a despeito de tudo, era o meu único trunfo. Antecipava-me, adivinhando todos os seus erros; ela encontrava-me sempre junto de si, pronto a ajudá-la quando caía, como para lhe demonstrar que nada disso tinha importância. No final das contas, ela só comprometia a parte mais insignificante da minha pessoa: a minha reputação. Mas isto ocorreu muito mais tarde: só nos conhecemos bastante bem para podermos falar assim livremente quando o destino infeliz nos devorou a todos. Lembro-me também de ele me ter dito certo dia, foi na vila de Verão, perto de Bourg El Arab: talvez o surpreenda se lhe disser que sempre pensei que em Justine havia uma espécie de grandeza. Há certas espécies de grandeza, sabe, que se não se aliam à arte ou à religião, fazem destroços na vida ordinária. É pena que ela tenha aplicado os seus dons somente nos domínios do amor. Ela foi má de muitas maneiras, é bem certo, mas isso não tinha importância. Nem sequer posso, também, afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as pessoas dos seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural que isso seja doloroso, e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela lhes infligia. Mas eu, não! E sorrindo aquele seu bem conhecido sorriso, onde a doçura se casava com uma inexprimível amargura, repetiu em voz baixa: mas eu, não.
Capodistria..., como situá-lo no quadro? Mais parece um duende do que um homem, podereis julgar. A cabeça chata e triangular de serpente com os dois grandes lóbulos frontais; os cabelos avançando em riste, como uma viseira. Uma língua esbranquiçada e nervosa que passa incessantemente pelos lábios secos e delgados. É incrivelmente rico e não necessita mexer uma palha para viver. Sentado o dia inteiro no terraço do Brokers Club, observa a passagem das mulheres, com o olhar inquieto do homem que baralha sem cessar um velho baralho de cartas sebosas. De tempos a tempos, tem um sobressalto, como um camaleão atirando bruscamente a língua, o que é um sinal subtil. Então, há uma silhueta que se afasta do terraço, para seguir a mulher que o seu gesto designou. Às vezes os seus agentes detêm e importunam abertamente uma mulher na rua, em seu nome, mencionando uma soma de dinheiro. Na nossa cidade, uma mulher não se considera ofendida por lhe oferecerem dinheiro. Algumas limitam-se a rir. Outras aceitam imediatamente. Mas nunca se zangam. O vício e a virtude praticam-se com a mesma naturalidade. Capodistria conserva-se distante de tudo isto, no seu fato imaculado, com um colorido lenço de seda a espreitar do bolso. Os sapatos bicudos brilham intensamente. Os amigos chamam-lhe Da Capo devido a certas proezas sexuais iguais à sua fortuna, ou à sua fealdade. Existe um obscuro parentesco entre ele e Justine. Lastimo-o, diz ela. Tem o coração empedernido e tudo quanto lhe resta são os cinco sentidos, como os fragmentos de um copo quebrado. Contudo, a monotonia de uma tal vida não parece deprimi-lo. A família é famosa pelo número de suicídios cometidos e a sua herança psicológica está carregada de doenças e perturbações mentais. Mas isso não o afecta em absoluto e ele costuma dizer, pousando um indicador demasiado longo sobre a têmpora: todos os meus antepassados tinham pancada. Meu pai também. Era um grande femeeiro. Quando já era muito velho, tinha um manequim de borracha, feito à imagem de uma mulher perfeita, em tamanho natural; no Inverno, podia encher-se de água quente. Era uma boneca extraordinariamente bela. chamava-lhe Sabina, que era o nome de sua mãe, e levava-a sempre consigo. Tinha a paixão dos paquetes, e os dois últimos anos da sua vida passou-os no mar, entre a Europa e Nova Iorque, sem descer a terra quase nunca. Sabina possuía um magnífico guarda-roupa. Era um grande espectáculo vê-los descer os dois à sala de jantar, vestidos como para uma récita de gala. o velho viajava com um criado chamado Kelly. Cada um do seu lado, pegavam em Sabina por um braço, e ela tinha o ar de uma dama de sociedade, maravilhosamente vestida e ligeiramente embriagada. Na noite em que morreu, disse a Kelly: envia um telegrama a Demétrio e diz-lhe que Sabina morreu nos meus braços, sem sofrimento. Enterraram-na em Nápoles, junto do velho. Quando acabava de contar esta história, a sua gargalhada era a coisa mais natural e sã que se possa conceber». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

sábado, 12 de dezembro de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Ela soltou um ligeiro suspiro, como para manifestar que a minha resposta a pusera à vontade e sentou-se acendendo um cigarro, fumava tabaco francês, aspirando pequenas fumaças que lançava para o espaço em fios azulados…»

jdact

«(…) Fazia frio cá fora e eu ia passando pelas lojas da Rua Fouad, fortemente iluminadas. Diante de uma mercearia, vi uma pequena caixa de azeitonas com o nome Orvieto no rótulo, e, tomado bruscamente pela nostalgia do bom lado do Mediterrâneo, entrei na tenda; comprei a caixa; pedi que a abrissem, e sentando-me numa mesa de mármore, sob a lúgubre claridade suja, comecei a devorar a Itália, a sua carne queimada pelo sol, o seu solo fecundo, as suas vinhas ilustres. Sentia que Melissa nunca seria capaz de compreender este meu estado de espírito. Seria obrigado a mentir, dizendo que tinha perdido o dinheiro. Não vi imediatamente o comprido carro que ela tinha deixado na rua sem parar o motor. Entrou na lojeca com um ar brusco e decidido e disse, com aquele tom de autoridade que possuem as lésbicas e que as mulheres ricas usam quando se dirigem a pessoas manifestamente pobres: que entende por natureza antinómica da ironia?, ou qualquer coisa desse género, e que não me ocorre agora à memória. Não conseguindo arrancar-me do meu sonho italiano, ergui a cabeça com ar aborrecido e vi-a, nos três espelhos que guarneciam três das paredes, debruçar-se para mim, o rosto sombrio e um pouco assustador, simultaneamente perturbado e cheio de uma arrogante reserva. Naturalmente eu já tinha esquecido tudo quanto podia ter dito sobre a natureza da ironia e tudo o mais, e respondi-lhe isso mesmo com um ar de indiferença que não era totalmente fingido. Ela soltou um ligeiro suspiro, como para manifestar que a minha resposta a pusera à vontade e sentou-se acendendo um cigarro, fumava tabaco francês, aspirando pequenas fumaças que lançava para o espaço em fios azulados que ficavam suspensos na luz crua da sala. Não sabia que atitude adoptar diante da franqueza com que ela me olhava e que eu considerava algo embaraçosa, era como se ela estivesse a avaliar o uso que poderia extrair da minha pessoa. Gostei da maneira como se referiu aos versos que ele escreveu sobre a cidade, disse ela. Fala bem o grego. Naturalmente é escritor.
Naturalmente, respondi eu. É sempre doloroso não se ser conhecido. Parecia inútil prosseguir neste caminho. Sempre tive horror às conversas literárias. Ofereci-lhe uma azeitona que ela aceitou; cuspiu o caroço, como um gato, na sua mão enluvada e deixou-o ficar, como se o tivesse esquecido. Disse, então: Gostaria de apresentá-lo a Nessim, meu marido. Quer vir? Um polícia tinha aparecido à porta, manifestamente intrigado com o automóvel abandonado. Foi essa a primeira vez que eu entrei na grande casa de Nessim com as suas estátuas, as suas palmeiras e os seus nichos, os seus Courbet, os seus Bonnard e tudo o mais. Era, simultaneamente, magnífico e medonho. Justine subiu vivamente a escadaria monumental, detendo-se apenas para transferir o caroço de azeitona do bolso do seu casaco para um vaso da China, chamando Nessim em todos os tons. Fomos de sala em sala, povoando-as de sons. A resposta veio do grande estúdio no sótão, e precipitando-se para ele, como um cão, ela atirou-se, metaforicamente, aos pés do marido, ficando ligeiramente para trás a abanar alegremente a cauda. Tinha conseguido apanhar-me.
Nessim estava sentado no último degrau de um escadote e preparava-se para ler, mas começou a descer lentamente, observando-nos com toda a atenção. A sua timidez não sabia como reagir diante das minhas roupas modestas, dos meus cabelos encharcados e da minha caixa de azeitonas, e eu próprio não podia dar-lhe qualquer explicação da minha presença, visto que ignorava, até, o motivo por que me tinham trazido ali. Compadeci-me dele e ofereci-lhe uma azeitona; sentámo-nos e acabámos as azeitonas falando, se bem me lembro, de Orvieto, que nenhum de nós conhecia, enquanto Justine ia pelos aperitivos. É uma grande consolação para mim recordar este primeiro encontro. Nunca me senti mais perto deles, quero dizer, mais perto do casal que eles formavam; pareciam-me, então, esse animal ideal de duas cabeças que o casamento pode produzir. Vendo a luz quente e benevolente que brilhava nos olhos de Nessim, compreendi, recordando-me dos escandalosos rumores que corriam acerca de Justine, que tudo quanto ela pudesse ter feito, mesmo aquilo que aos olhos do mundo pudesse passar por repreensível ou chocante, tinha, num certo sentido, sido feito por amor dele. O amor de Justine por seu marido era como uma pele dentro da qual ele se encontrava, tal como Hércules em menino; e os esforços que ela fazia para se realizar não a tinham afastado dele, muito pelo contrário». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Ela passava por ter tido um grande número de amantes; e Nessim passava por um ‘mari complaisant’. Tinha-os visto dançar juntos em diversas ocasiões, ele esguio, com uma cintura fina de mulher, e bonitas mãos…»

jdact

«(…) Nessim estava de mal com a cidade, mas como a sua considerável fortuna o punha diariamente em contacto com os negociantes locais, estes demonstravam a seu respeito uma indulgência risonha, como a que se adopta para com um pobre de espírito. E se entrávamos no seu gabinete, esse sarcófago todo de móveis tubulares e em vitrais, não era raro encontrá-lo sentado, como um órfão, diante da secretária (coberta de campainhas, polés e candeeiros), comendo pão preto e lendo Vasari, enquanto com ar distraído ia assinando letras e recibos. Levantava então para o visitante o rosto pálido em forma de amêndoa, esforçando-se por sorrir, mas nem sempre logrando sair do seu universo secreto, com um olhar quase suplicante. E, contudo, sob esta aparência amável e desinteressada, ocultava-se uma impiedosa lucidez, e os seus empregados surpreendiam-se ao descobrir que, a despeito do seu ar ausente, não ignorava o menor facto respeitante aos seus negócios, e que as transacções que conduzia eram sempre fundadas num inesperado bom-senso comercial. Os empregados consideravam-no uma espécie de oráculo, no entanto (diziam, suspirando e dando de ombros), parecia não dar a esse facto a menor importância! Não dar importância ao ganho, eis o que para os alexandrinos é o expoente máximo da loucura.
Conheci-os de vista durante muito tempo antes de nos encontrarmos, como, de resto, conhecia toda a gente na cidade! De vista e igualmente de reputação, dado que a sua maneira de viver, altiva, desenvolta e sem condescender com as convenções, tinha tornado o casal notório entre os nossos provinciais. Ela passava por ter tido um grande número de amantes; e Nessim passava por um mari complaisant. Tinha-os visto dançar juntos em diversas ocasiões, ele esguio, com uma cintura fina de mulher, e bonitas mãos de dedos afilados; a cabeça adorável de Justine, o ângulo muito pronunciado do seu nariz árabe e os olhos translúcidos, dilatados pela beladona, lançando em torno olhares de pantera semidomesticada. Depois, um dia, eu aceitei proferir uma conferência sobre o poeta da cidade no Atelier des Beaux-Arts, espécie de clube onde os amadores habilidosos podiam conviver, alugar estúdios, etc. Aceitei, unicamente porque isso me proporcionava um pequeno ganho suplementar e porque, aproximando-se o Outono, Melissa tinha necessidade de um novo casaco. Mas foi uma tarefa dolorosa, e eu sentia o velho perto de mim, assediando, por assim dizer, as ruelas obscuras, em torno da sala de conferências, e impregnando-as com o perfume dos seus versos inspirados nos amores de miséria, e, contudo, fecundos, que ele experimentara, amores que talvez tivesse pago, amores fugazes a que o seu estro conferia vida e eternidade, e com que demorada paciência e ternura ele tinha fixado o minuto adventício e fixado todos os seus cambiantes! Que impertinência a minha falar sobre um ironista que, com tanta naturalidade e delicadeza, fez das ruas e dos bordéis de Alexandria o objecto da sua obra! E, o que é mais, falar diante de um público que não é constituído por marçanos de mercearia e pequenos empregados, que ele imortalizou, mas por dignas damas da sociedade para quem a cultura que ele representava era uma espécie de banco de sangue: elas tinham vindo receber a sua transfusão. Algumas tinham perdido uma tarde de bridge, para me ouvir, sabendo perfeitamente que não se sentiriam transportadas, mas simplesmente estupefactas.
Tudo quanto me lembro de ter dito é que me sentia perseguido pelo seu rosto, o rosto docemente triste da última fotografia; e quando a onda de esposas dos bons burgueses se escoou pela escadaria de pedra, perdendo-se nas ruas húmidas onde os seus automóveis esperavam, descobri, no momento de deixar a sala, que para trás ficara uma estudante solitária das paixões e das artes. Estava sentada no fundo da sala, pensativa, de pernas cruzadas, numa atitude masculina, fumando um cigarro. Não olhava para mim, mas fixava o soalho em frente dos seus pés com um ar vulgar. Senti-me lisonjeado, pensando que pelo menos uma pessoa tinha compreendido as minhas dificuldades. Peguei na gabardina e na pasta húmida e lancei-me para as ruas varridas por uma chuvinha fina e penetrante que o vento do litoral fustigava. Tomei o caminho de casa onde Melissa a essa hora teria posto a mesa, coberta com uma folha de jornal, depois de ter mandado Hamid buscar o assado ao padeiro, porque não tínhamos forno». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

sábado, 29 de agosto de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «E ouvindo-a recitar esses versos, pondo em cada sílaba grega, deliberadamente irónica, uma espécie de ternura equívoca, descubro de repente o estranho e ambíguo poder da cidade, a sua paisagem composta de um único plano aluvial…»

jdact

«(…) Era, se preferem assim, o namoro de dois espíritos prematuramente extenuados e que parecia ainda mais perigoso que um amor de base puramente sexual. Sabendo até que ponto ela amava Nessim, de quem eu próprio gostava enormemente, tal pensamento causava-me horror. Estendida ao meu lado, ligeiramente ofegante, os seus grandes olhos contemplavam o tecto onde voavam querubins de gesso. Disse-lhe então: … esta aventura entre um pobre professor e uma dama da alta sociedade de Alexandria não pode conduzir a nada. Isto vai acabar num escândalo mundano que nos separará porque serás obrigada a pôr-me de parte. Justine não gostava de ouvir as verdades. Voltou-se, descansou sobre um cotovelo, e, baixando os seus magníficos olhos perturbados sobre os meus, olhou-me demoradamente. Não temos qualquer alternativa neste assunto, disse ela naquela sua voz rouca que eu tanto amava. Falas como se pudéssemos escolher. Tudo isto faz parte de um plano preconcebido por qual quer ente que desconhecemos, talvez pela cidade ou por outra parte de nós próprios. Que sei eu? Revejo-a na modista, diante dos grandes espelhos múltiplos, dizendo: Olha! Cinco imagens diferentes da mesma pessoa. Se eu fosse escritor tentaria descrever uma personagem assim, através de uma espécie de visão prismática. Porque será que não podemos ver mais de um perfil de uma só vez?
Ela boceja e acende um cigarro; depois senta-se na cama e abraça os delicados tornozelos, começando a recitar lentamente, com um delicioso trejeito, os maravilhosos versos do velho poeta que falam de um amor muito e muito antigo, cujo encanto não suporta uma tradução. E ouvindo-a recitar esses versos, pondo em cada sílaba grega, deliberadamente irónica, uma espécie de ternura equívoca, descubro de repente o estranho e ambíguo poder da cidade, a sua paisagem composta de um único plano aluvial, o seu ar de perpétuo esgotamento e compreendo que ela é uma verdadeira filha de Alexandria; isto é, nem grega, nem síria, nem egípcia, mas uma híbrida, um complexo.
Que intensidade põe ela ao recitar a passagem em que o velho lança fora a antiga carta de amor que tanto o comoveu e exclama: … entro tristemente no terraço; que nada venha distrair o curso dos meus pensamentos, nada, nem mesmo o espectáculo dos movimentos insignificantes da cidade que amo, das suas ruas e das suas lojas! E levanta-se, abre as persianas e debruça-se sobre a varanda que deita para a cidade recamada de luzes, todo o seu ser tenso sob a carícia do vento do entardecer que chega das planícies da Ásia; e, durante um breve lapso, nem mesmo tem consciência do corpo que lhe pertence. Príncipe, Nessim é, evidentemente, um gracejo; pelo menos para os comerciantes que o viam passar, digno e imperturbável, no seu grande Rolls cor de prata. Para começar, ele não era muçulmano mas sim copta. Todavia, o epíteto convinha-lhe admiravelmente, pois havia algo de principesco no desdém que Nessim afectava perante a cupidez nos lucros, que é um traço comum a todos os alexandrinos, mesmo nos mais ricos. E, contudo, os elementos que formavam a sua reputação de excêntrico nada tinham de particularmente notável para aqueles que tinham vivido fora do Levante. Só lhe interessava o dinheiro para gastar; não tinha nenhuma garçonnière e parecia ser absolutamente fiel a Justine, coisa de facto inaudita. No que respeita ao dinheiro, era tão rico que lhe causava uma espécie de nojo, e nunca trazia nenhum consigo. Gastava à árabe e passava vales aos comerciantes; os restaurantes e os night-clubs aceitavam os seus cheques. As suas dívidas eram regularmente pagas, e todas as manhãs, Selim, o seu secretário, percorria de carro o itinerário que o amo seguira na véspera, para liquidar todos os débitos acumulados.
Este estilo de vida, que derrotava os hábitos de servilismo e o espírito provinciano dos habitantes da cidade, era considerado por estes uma espécie de desprezo à europeia. Mas não se tratava de hábitos adquiridos pela educação; Nessim tinha nascido com eles e, neste pequeno universo, cuja única razão de existir parece ser o ganho, não encontrava nenhum alimento para o seu desejo de doçura e contemplação. Não existia homem menos autoritário do que ele, e, contudo, os seus actos provocavam comentários porque vinham marcados com o forte selo da sua personalidade. As pessoas sentiam-se inclinadas a atribuir as suas maneiras a uma educação estrangeira, quando, de facto, a Alemanha e a Inglaterra o tinham profundamente desconcertado, tornando-o mais tarde incapaz de se adaptar à vida da cidade. Da primeira, tinha colhido o gosto pela especulação metafísica, em contradição com a natureza do espírito mediterrânico, ao passo que Oxford tinha tentado transformá-lo num pedante e apenas conseguira desenvolver as suas tendências filosóficas a ponto de o incapacitar para o culto da sua arte predilecta: a pintura. Pensava e sofria muito, mas faltava-lhe a força necessária para ousar, que é a condição essencial para realizar seja o que for». In Lawrence Durrell, Quarteto de Alexandria, 1957, Justine, tradução de Daniel Gonçalves, 1960/1961, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-205-110-1.
Cortesia de PdQuixote/JDACT

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «… a incubação da miséria humana toma tais proporções que nos confunde, transbordando e espalhando todos os sentimentos humanos numa vaga única de desgosto e terror…»

jdact

«(…) Mais tarde, quando lhe revistaram os bolsos, descobri no montão de objectos vulgares um pequeno frasco vazio de perfume barato que Melissa usava; e trouxe-o para o apartamento, onde ficou sobre a pedra da chaminé durante alguns meses, até ao dia em que Hamid, tomado de um acesso de arrumação, o lançou para o lixo. Nunca falei nisso a Melissa; mas, muitas vezes, quando a noite me encontrava só, enquanto ela dançava e era, talvez, obrigada a ir para a cama com os seus admiradores, punha-me a observar esse pequenino frasco, que parecia condenar triste e apaixonadamente o amor desse velho e compará-lo com o meu; o testemunhar, também, por procuração, o desespero que leva uma pessoa a agarrar-se a qualquer objecto insignificante, ainda todo impregnado da memória daquela que traiu. Descobri Melissa perdida no sombrio litoral de Alexandria, pobre avezinha exausta, quase afogada e com o sexo despedaçado...
Ruas que fogem das docas, por entre montões de casas desmanteladas e apodrecidas, metendo-se umas pelas outras, voltando as costas umas às outras... Balcões esteirados formigando ratos, e velhas cujo cabelo está cheio de crostas de feridas. Paredes ébrias que cambaleiam para leste e oeste do seu verdadeiro centro de gravidade. Cordões negros de moscas colando-se aos lábios e aos olhos das crianças, e larvas de moscas, como pérolas húmidas, por todo o lado; o peso dos cadáveres faz cair o papel mata-moscas nas portas dos cafés e das cantinas. Odor dos berberes curtidos de suor, comparável ao cheiro de uma velha passadeira em decomposição. E, depois, os pregões e os ruídos da rua: os gritos e o tilintar do aguadeiro, batendo os pratos de metal para anunciar a sua passagem, e os gritos inesperados que, uma vez por outra, dominam a algazarra, tais como os de um pequeno animal de órgãos sensíveis que se estripa vivo. Feridas como pântanos..., a incubação da miséria humana toma tais proporções que nos confunde, transbordando e espalhando todos os sentimentos humanos numa vaga única de desgosto e terror.
Gostaria de poder imitar a coragem de Justine atravessando estas ruas para vir encontrar-se comigo no café onde a esperava: o El Bab. O pórtico com um arco quebrado onde inocentemente nos sentávamos a conversar; mas a nossa conversa escolhia um caminho repleto de insinuações que tomávamos por presságios de uma pura e simples amizade. Sobre este chão de terra batida, sentindo subir das profundezas da terra uma frescura sombria, só um desejo predominava em nós, e era o de comunicar os pensamentos e experiências que ultrapassam a gama das ideias que, ordinariamente, são o tema das conversas. Ela falava como um homem e eu falava-lhe como se ela fosse um homem. Não consigo recordar-me em substância do que tratávamos nessas conversas. Apoiando-me sobre um cotovelo, bebendo arak, sorrindo-lhe, eu respirava o perfume, quente como o próprio Estio, que se exalava do seu vestido e do seu corpo, um perfume que se chamava, não percebo bem porquê, Jamais de la vie.
São estes momentos que o escritor possui, e não o amante, e que vivem para sempre. Podemos recordá-los uma vez por outra, ou servirmo-nos deles para construir esta porção de vida que é a obra literária. Podemos embriagá-los com palavras, mas o que não podemos é destruí-los. Nesse mesmo contexto, encontro outro desses momentos, deitado ao lado de uma mulher adormecida, num quarto arrendado à hora, perto da mesquita. Na madrugada desse começo de Primavera, densa de orvalho, destacando-se no silêncio que entorpece a cidade, antes do despertar das aves, ouvia a voz monótona do muezim cego recitando o Ebed, a voz flutuando como um cabelo na camada de ar fresco que assenta sobre as palmeiras de Alexandria. Glorifico a perfeição de Deus Eterno. (Isto era repetido três vezes, cada vez mais lentamente, num registo agudo e muito puro.) A perfeição de Deus, o Desejado, o Existente, o Único, o Supremo: a perfeição de Deus, o Primeiro, o Único: a perfeição dele que não foi criado, a quem nada se assemelha, que não tem semelhante nem descendência. Glorifiquemos e celebremos a Sua perfeição. A maravilhosa oração abre caminho como uma serpente através da minha consciência adormecida, os anéis de palavras lucilantes penetram em mim, a voz do muezim baixando gradualmente para registos mais graves, até que a aurora emerge cheia do seu maravilhoso poder de sarar, sinal de uma graça imerecida e inesperada, impregnando o pobre quarto onde Melissa dorme, respirando Com uma leveza de gaivota, embalada pelos esplendores oceânicos de uma língua que ela jamais conhecerá.
Quem pode pretender que Justine não tinha o seu lado estúpido? O culto do prazer, as pequenas vaidadezinhas, a preocupação pelo que podiam pensar dela as gentes provincianas, a arrogância. Quando queria, era também capaz de ser de uma exigência titânica. Sim. Sim. Mas é o dinheiro que faz crescer todas estas ervas daninhas. Direi somente que em muitos casos ela pensava como um homem, e nos seus actos saboreava uma certa independência vertical com o adoptar um comportamento masculino. A nossa intimidade era de uma ordem psíquica muito estranha. Cedo descobri que ela podia ler os meus pensamentos com grande segurança. As ideias chegavam-nos simultaneamente. Lembro-me de ter tido consciência de uma vez em que ela pensava exactamente no mesmo que eu, e pelos mesmos termos: Esta intimidade não deve prolongar-se porque já esgotámos todas as possibilidades das nossas respectivas imaginações; o que acabaremos por descobrir, para além das cores sombrias da sensualidade, será uma amizade tão profunda que nos tornará escravos um do outro, para toda a vida». In Lawrence Durrell, Justine (Quarteto de Alexandria), Editora Ulisseia, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-568-496-2.

Cortesia de Ulisseia/JDACT

terça-feira, 26 de maio de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «A rapariga tem por missão elevar-me o moral, o que não é uma tarefa invejável, tanto mais que à superfície não existe nada que indique que o meu moral se encontre por baixo. As conversas banais tornaram-se numa forma salutar de automatismo»

jdact

«(…) No Consulado-Geral senta-se por detrás de uma secretária, constantemente coberta por cartões com os nomes dos colegas. Aquele seu grande corpo, afeito às prolongadas sestas e a Crebillon filho, é a encarnação da preguiça. Os seus lenços cheiram prodigiosamente a alfazem. As mulheres constituem o tema favorito das suas conversas, e pode falar com experiência, a julgar pelo número de visitantes que vejo desfilar pelo pequeno apartamento onde raramente se encontra a mesma cara duas vezes. Para um francês, o amor oferece aqui um grande interesse. Elas agem antes de pensar. E quando chega o momento da dúvida, e o instante torturante do remorso, as coisas avançaram de mais, e ninguém se sente com coragem de voltar para trás. Falta um pouco de finura a essa animalidade, mas é justamente o que me convém. Estou enjoado do amor, e, sobretudo, não quero ouvir falar nessa mania copta e judaica da dissecação e da análise. Quero regressar à minha casa da Normandia sem qualquer compromisso. No Inverno, Pombal vai para férias e eu disponho, só para mim, do pequeno apartamento húmido; faço serão a corrigir os cadernos escolares, ouvindo Hamid ressonar. Neste último ano atingi a saturação. Falta-me a força de vontade para fazer alguma coisa na vida, para melhorar a minha situação à força de trabalho, para escrever e até para fazer amor. Não sei o que me sucede. Experimento pela primeira vez uma indiferença total pela minha própria sobrevivência. Folheio, às vezes, as páginas de um manuscrito ou as velhas provas de algum romance ou de um opúsculo de poemas, mas sem interesse, com uma espécie de enfado; e também com tristeza, como quando se abre um passaporte antigo.
De vez em quando, alguma das numerosas amiguinhas de Georges vem cair na minha rede, quando, na sua ausência, o vêm procurar ao apartamento, e o incidente não tem outras consequências senão agravar por algum tempo o meu taedium vitae. Georges é precavido e generoso neste ponto, e antes de partir (conhecendo a minha pobreza) sucede que muitas vezes paga adiantadamente a uma das sírias da taverna do golfo para vir uma ou outra vez passar uma noite no apartamento na disponibilidade, como ele diz. A rapariga tem por missão elevar-me o moral, o que não é uma tarefa invejável, tanto mais que à superfície não existe nada que indique que o meu moral se encontre por baixo. As conversas banais tornaram-se numa forma salutar de automatismo que persiste ainda por muito tempo depois de toda e qualquer palavra se ter tomado supérflua; e, quando necessário, fazer amor dá-me uma espécie de alívio, visto que nestas paragens é difícil dormir: mas sem paixão, distraidamente. Algumas destas aventuras com pobres criaturas extenuadas, levadas até ao fim por necessidade física, são interessantes, mesmo comoventes, mas perdi o gosto de classificar as minhas emoções, e elas agora não passam, para mim, de silhuetas projectadas numa tela. Só se podem fazer três coisas com uma mulher, disse um dia Clea. Podemos amá-la, sofrer por ela, ou então fazer literatura. Eu passava pela experiência de um fracasso em todos estes domínios do sentimento.
Se falo em tudo isto, é simplesmente para mostrar em que espécie humana Melissa ia tentar insuflar a vida. E ela não podia ligeiramente acrescentar um fardo à sua vida, atormentada pela doença e desprovida de alegria. Necessitava de muita coragem para se interessar por mim no estado em que se encontrava. Era talvez o fruto do seu próprio desespero, porque, tal como eu, também tinha tocado o fundo da desgraça. Tínhamos ambos falhado. Durante semanas, o velho peleiro seguiu-me pelas ruas, armado com uma pistola que fazia uma saliência no bolso do sobretudo. Era consolador saber por um dos amigos de Melissa que a pistola estava descarregada, mas, de qualquer maneira, era alarmante Ser perseguido por este velho. Devemos ter-nos fuzilado em imaginação em cada esquina da cidade. Da minha parte, não tolerava aquela face grosseira, inchada, com os olhos assentando sobre pesadas bolsas acastanhadas, luzentes de gordura, nem podia, tão-pouco, suportar a ideia da sua intimidade vulgar e bestial com a rapariga. aquelas mãos curtas e pesadas, húmidas de suor cobertas de cerdas negras e ásperas como as de um javali! Esta situação durou por algum tempo, e, de repente, um sentimento extraordinário de intimidade pareceu começar a desenvolver-se em nós. Cumprimentávamo-nos e sorríamos quando nos encontrávamos. Um dia, calhou sentarmo-nos num bar, lado a lado, durante cerca de meia hora; ardíamos por falar, mas nenhum de nós tinha coragem de dar o primeiro passo. O nosso único tema de interesse comum era Melissa. Ao partir, vi-o num dos compridos espelhos que forravam as paredes, de cabeça baixa e olhar perdido dentro do copo. Havia na sua atitude alguma coisa que me despertou a atenção, o ar embaraçado de uma foca amestrada que tenta imitar emoções humanas e, pela primeira vez, compreendi que ele amava Melissa tanto quanto eu próprio. Tive dó da sua fealdade e da vazia e dolorosa incompreensão com que afrontava emoções tão novas para ele: o ciúme e a falta de uma amante adorada». In Lawrence Durrell, Justine (Quarteto de Alexandria), Editora Ulisseia, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-568-496-2.

Cortesia de Ulisseia/JDACT

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «… dois ficaram assim por um instante, ela a olhar para os jogadores, ele a olhar para ela. Depois, ela voltou-se com um suspiro de resignação, e dirigiu-se prudentemente para o mundo do ruído e da luz»

jdact

«(…) Recordo aquela época em que o mundo conhecido apenas existia para nós quatro; os dias não passavam de espaços entre sonhos, espaços entre o marcos movediços do tempo, das ocupações, da tagarelice... Um fluxo e refluxo de assuntos insignificantes, uma vadiagem, sem finalidade, ao longo de coisas mortas, Sem nos levar a parte nenhuma, sem nada nos oferecer uma existência que esperava de nós o impossível: que existíssemos! Justine dizia que tínhamos sido apanhados pela projecção de uma vontade demasiado poderosa e demasiado intencional, para ser humana, a zona de atracção que Alexandria criava para aqueles que tinha escolhido como seus símbolos. Seis horas. Nos arredores da gare, há uma confusão de silhuetas brancas. Na Rua das Irmãs, as lojas enchem-se e esvaziam-se como grandes pulmões. Os raios desmaiados do Sol trespassam as longas curvas da esplanada, e os pombos, ébrios de luz, juntam-se nos minaretes para banharem as asas nos derradeiros esplendores do poente. Nos balcões dos cambistas, tilintam moedas. Os gradeamentos de ferro das janelas dos bancos estão ainda demasiado quentes para uma pessoa lhes poder tocar. Ouve-se o rodar das carruagens que levam os funcionários, com uma flor vermelha na botoeira, a caminho dos cafés da beira- mar. É a pior hora de suportar, quando do meu balcão eu a vejo caminhar na direcção da cidade, com as suas sandálias brancas, ainda meio adormecida. A cidade sai da sua concha como uma velha tartaruga, e deita uma olhadela cá para fora. Por um momento, abandona os pedaços arrancados da sua carne, enquanto de uma ruela escondida junto do matadouro, dominando os mugidos e balidos, sobem fragmentos nasalados de uma canção de amor síria; quartos de tons penetrantes, como se produzidos por um nariz cheio de orifícios. Depois, homens fatigados que levantam os toldos nas varandas e dão um passo, piscando na luz pálida e quente,- flores lânguidas duma sesta angustiosa, cabeças doloridas pelos húmidos sonhos, sonha dos nos leitos torpes. Tomei-me num desses pobres amanuenses da consciência, um cidadão de Alexandria. Ela passa debaixo da minha janela, sorrindo a alguma secreta satisfação, abanando docemente as faces Com o pequenino leque vermelho. Um sorriso que, provavelmente, não tornarei a ver, até porque, quando está acompanhada, limita-se a rir, descobrindo os seus magníficos dentes brancos. Mas este sorriso triste e furtivo tem uma qualidade que a ninguém ocorrerá atribuir-lhe, malícia! Seria mais fácil concebê-la de uma natureza mais trágica, sem qualquer espécie de humor vulgar. Mas a recordação obstinada desse sorriso faz-me duvidar, presentemente, do acerto da minha observação.
Tinha-a encontrado frequentemente e conhecia-a bastante bem, de vista, antes de nos relacionarmos: a nossa cidade não permite o anonimato, quando se possui um rendimento anual superior a duzentas libras. Vejo-a sentada, sozinha, à beira-mar, lendo um jornal e trincando uma maçã; ou no vestíbulo do Cecil Hotel, entre as palmeiras poeirentas, com uma capa debruada a prata, que usava lançada sobre as costas, como os camponeses, e com o longo indicador enfiado na barbela. Nessim tinha parado à porta do salão de dança, cheio de luz e de música. Não a tinha visto. Num nicho protegido pelas palmeiras, um par de velhos jogava o xadrez. Justine parara para observá-los. Não sabia as regras do jogo, mas a aura de concentração e de imobilidade que envolvia os jogadores fascinou-a. Permaneceu ali, um longo momento, diante dos velhos, surdos ao mundo e ao universo cheio de música, como indecisa e não sabendo em qual desses mundos entrar. Finalmente, Nessim aproximou-se docemente para lhe tomar o braço, e os dois ficaram assim por um instante, ela a olhar para os jogadores, ele a olhar para ela. Depois, ela voltou-se com um suspiro de resignação, e dirigiu-se prudentemente para o mundo do ruído e da luz.
E noutras circunstâncias igualmente menos honrosas para ela e para nós; e, contudo, como é bem verdade que as mulheres mais másculas e engenhosas podem ser maravilhosamente femininas! Ela não cessava de me falar nessas rainhas terríveis que deixavam, ao passar o odor amoniacal dos seus amores incestuosos como uma nuvem flutuando no inconsciente de Alexandria. As gatas gigantescas devoradoras de homens, como Arsinoé, eram as suas verdadeiras irmãs. E, contudo, por detrás das acções de Justine havia outra coisa, o produto de uma filosofia trágica mais amadurecida, a ideia de um equilíbrio, mercê do qual a moral devia suplantar a personalidade e as suas tendências perversas. Era a vítima sincera das suas dúvidas corajosas. E, apesar de tudo, veio perfeitamente a ligação entre o quadro de Justine, debruçando-se sobre o vaso imundo onde flutuava um féto, e a pobre Sofia de Valentino, morrendo por um amor tão perfeito quanto insensato. Georges Pombal, empregado subalterno do consulado, partilha comigo um pequeno apartamento na Rua Nebi Daniel. O facto de ser possível que possua uma coluna vertebral toma-o um fenómeno raro da sociedade diplomática. Para ele, as chinesices do protocolo e as recepções, tal como num pesadelo surrealista, possuem um encanto exótico. Vê a diplomacia através dos olhos de Douanier Rousseau. Toma parte no jogo sem deixar que o que lhe resta de personalidade sofra com isso. Creio que o segredo do seu sucesso reside na sua preguiça, que toca o sobrenatural». In Lawrence Durrell, Justine (Quarteto de Alexandria), Editora Ulisseia, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-568-496-2.

Cortesia de Ulisseia/JDACT

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Falo-lhe como falaria comigo mesmo se estivesse só; ela responde-me numa linguagem heróica de sua invenção. Enterrámos debaixo da lareira os anéis que Cohen tinha comprado para Melissa…»

jdact

«(…) Além da velha enrugada que vem todos os dias da aldeia, trotando na sua mula, para fazer os arranjos domésticos, mais ninguém nos faz companhia. A criança leva a vida feliz e plena de uma flor transplantada. Ainda não lhe dei um nome, mas claro que a baptizei de Justine. Que outro nome lhe conviria? Quanto a mim, não me sinto feliz nem infeliz; estou suspenso como um cabelo ou uma pena, na amálgama nebulosa dos meus pensamentos. Falei da inutilidade da Arte mas esqueci-me de reconhecer as consolações que ela proporciona. O alívio que deriva do género de trabalho que produzo com o cérebro e o coração reside nisto: só no silêncio activo do pintor ou do escritor é que a realidade pode ser reelaborada e revelada no seu aspecto verdadeiramente significativo. As nossas acções quotidianas nada mais são do que os ouropéis que velam o vestido de ouro, a essência da forma. É na sua arte que o artista encontra, pela imaginação, um feliz compromisso com tudo quanto o feriu na vida quotidiana, e não para escapar ao seu destino, como faz o homem vulgar, mas para realizá-lo da forma mais adequada e completa que lhe for possível. Senão, porque nos havíamos de ferir uns aos outros? Não, a paz que eu procuro e que talvez venha a encontrar jamais me será dada, nem pelos olhos de Melissa, onde a temperatura brilhava, nem pelas pupilas ardentes e negras de Justine. Tomámos, todos nós, caminhos diferentes; mas aqui, no grande primeiro desastre da minha idade madura, sinto que a recordação delas enriquece e aprofunda, para além de todos os limites, os confins da minha arte e da minha vida. Realizo-as de novo em pensamento; é somente aqui, nesta mesa de pinho, colocada debaixo da sombra de uma oliveira e sobranceira ao mar, que eu posso fazê-las reviver em toda a merecida pujança. Assim, o sabor deste escrito ficará devendo alguma coisa aos seus modelos vivos, ao seu hálito, à sua pele, à sua voz, que se virão mesclar na frágil trama da memória humana. Quero ressuscita-las de tal modo que a dor se transmude em arte… Talvez seja inútil tentar uma tal empresa, mas, de qualquer maneira, não posso deixar de fazê-lo... Hoje, eu e a criança acabámos de construir a lareira da casa, falando tranquilamente enquanto trabalhávamos. Falo-lhe como falaria comigo mesmo se estivesse só; ela responde-me numa linguagem heróica de sua invenção. Enterrámos debaixo da lareira os anéis que Cohen tinha comprado para Melissa, de acordo com os usos da ilha. É uma forma de assegurar boa sorte aos habitantes da casa.
Na época em que encontrei Justine, eu era quase um homem feliz. A repentina intimidade com Melissa abrira-me uma porta, e essa intimidade não era menos maravilhosa pelo facto de ser inesperada e totalmente imerecida. Como todos os egoístas, eu não tolerava viver só; na verdade, o meu último ano de celibato tinha-me enervado, a minha incapacidade para o governo doméstico, a minha inaptidão para tratar de roupas, comida e dinheiro haviam concorrido para me reduzir ao desespero. Estava farto dos meus aposentos infestados de carochas, tendo por companhia um criado berbere, Hamid, o Zarolho. Melissa tinha derrubado as minhas frágeis defesas, não pelas qualidades que geralmente se atribuem às amantes, encanto, beleza excepcional, inteligência, mas em virtude daquilo a que chamo a sua caridade, no sentido grego da palavra. Costumava vê-la passar, muitas vezes, recordo-me, pálida, puxando para o magro, vestindo um modesto casaco de pele de foca e levando o seu cãozito pela trela, no meio das ruas invernosas. As suas mãos de tuberculosa, marcadas pelas veias azuis, etc. Os traços curvos e ousados das suas sobrancelhas davam aos bonitos olhos um ar simultaneamente cândido e atrevido. Via-a durante meses, mas a sua beleza taciturna não me excitava. Cruzava-me com ela todos os dias quando ia ter com Baltasar ao Café Al Aktar, onde o digno homem me iniciava. Nunca pensei em que um dia me viria a tomar seu amante. Sabia que ela tinha sido modelo no Atelier, profissão pouco invejável, e que era agora dançarina; mais, sabia que era amante de um velho peleiro, um vulgar e grosseiro negociante da cidade. Anoto estes pormenores simplesmente para registar um aspecto da minha vida para sempre afundado. Melissa! Melissa!» In Lawrence Durrell, Justine (Quarteto de Alexandria), Editora Ulisseia, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-568-496-2.

Cortesia de Ulisseia/JDACT

sábado, 12 de janeiro de 2013

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «As mensagens não se detinham na consciência, atravessavam espontaneamente os lábios entreabertos, os olhos, os sorvetes e a lojeca de toldo vivamente colorido. Éramos uma parte da cidade…»

jdact

«Os corpos incompletos dos jovens procuram a cumplicidade de uma nudez condescendente, e nos pequenos cafés, onde Baltasar ia tantas vezes na companhia do velho poeta da cidade, os rapazolas começam a jogar aos dados, à luz das candeias de petróleo; mas, sem tardança, o vento do deserto, prosaico e áspero, constrange-os a largar as pedras, e ficam inertes, a observar os desconhecidos. A respiração é dolorosa e em cada baforada estival reconhecem o sabor ressequido da cal viva...
Tive de vir para aqui para reconstruir integralmente esta cidade na minha memória, esta melancólica província que o velho considerava cheia das ruínas negras da sua vida. O estrondear dos eléctricos vibrando nas suas artérias metálicas, penetrando no meidan cor de ferrugem de Mazarita. Ouro, fósforo, magnésio, papel. Aqui nos encontrámos muitas vezes . Havia um pequeno bar onde ela gostava de vir, no Verão, tomar sorvete e comer talhadas de melancia. Chegava sempre atrasada, regressando, provavelmente, de qualquer encontro num gabinete de persianas cerradas, mas eu fazia por não adivinhar essas coisas quando a sua boca, maravilhosamente fresca e jovem, procurava saciar nos meus lábios uma infinita sede estival. Talvez na sua memória ainda agonizasse a imagem do homem que acabava de deixar, e no seu corpo arrefecesse ainda o calor dos beijos recebidos.
Mas isso não tinha a menor importância; só contava, agora, a suave curva do seu braço que envolvia o meu, e eu gozava uma felicidade completa porque nela não existiam segredos. Era bom estarmos assim, perturbados e ligeiramente embaraçados, um pouco oprimidos pelo conhecimento partilhado do nosso desejo recíproco. As mensagens não se detinham na consciência, atravessavam espontaneamente os lábios entreabertos, os olhos, os sorvetes e a lojeca de toldo vivamente colorido. Éramos uma parte da cidade, e ali estávamos, com os dedos entrecruzados, respirando a tarde perfumada de aromas de cânfora.

Esta noite, estive a reler os meus apontamentos. Alguns serviram para acender o fogão, outros foram destruídos pela criança. Mas é uma espécie de censura que me apraz, porque tem a indiferença das forças naturais para com o mundo da Arte, uma indiferença que eu começo a partilhar. No final das contas, que interesse tem para Melissa uma bonita metáfora, quando se encontra agora profundamente enterrada, como uma múmia, na areia tépida e sombria do negro estuário?
Mas estes papéis que eu guardo com cuidado são os três cadernos do diário de Justine e as páginas que registam a loucura de Nessim. Foi o próprio Nessim quem me entregou todos esses documentos, quando parti, dizendo-me: - Guarde e leia. Há muito de nós todos nessas páginas. Ajudá-lo-ão, como sucedeu comigo, a suportar a perda de Justine, sem ser obrigado a esquecê-la. Foi no Palácio de Verão, depois da morte de Melissa, quando ele ainda cria no retorno de Justine. Penso muitas vezes, e sempre com um certo terror, no amor de Nessim por Justine. Que poderia existir de mais compreensivo, de mais bem fundado? Na sua dor havia aquela espécie de êxtase que geralmente se considera um atributo dos santos mas que se encontra, também, nos verdadeiros amantes. Um pouco de espírito poderia mitigar-lhe o sofrimento. Mas é fácil criticar. Demasiado o sei.

Na grande tranquilidade das noites de Inverno, o mar é um enorme relógio. A sua perturbadora agitação, que se prolonga no espírito, é a fuga sobre que este escrito se compõe. Cadências vazias das ondas que lambem as suas próprias feridas, indolentes nas extensões planas do delta, ferventes nas praias desertas, para sempre vazias sob o voo melancólico das gaivotas: garatujas brancas sobre fundo cinza, espumadas pelas nuvens... Se, por equívoco, uma vela se aproxima destas paragens, logo se desvanece, antes de cair sob a sombra da terra. Destroços arrancados do frontão das ilhas, a última camada, corroídos pelas intempéries, abandonados no ventre azul do mar... Desaparecidos!» In Lawrence Durrell, Justine (Quarteto de Alexandria), Editora Ulisseia, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-568-496-2.

Cortesia de Ulisseia/JDACT

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Justine. Quarteto de Alexandria. Lawrence Durrell. «Em suma, que é esta nossa cidade? Que se condensa sob o nome de Alexandria? Num relance, os olhos proporcionam-me a imagem de milhares de ruas poeirentas. Actualmente, as moscas e os mendigos são os donos da cidade…»



(1912-1990)
Jalandhar, Índia
jdact e cortesia de wikipedia

«O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza de pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos... Retirei-me para esta ilha com alguns livros e com a criança, a filha de Melissa. Não sei porquê, agora, ao escrever, penso nesta ilha como num retiro. Os habitantes dizem por brincadeira que só um convalescente pensaria em vir procurar este lugar. Bem, para condescender, admitamos que sou um homem que procura curar-se...
Durante a noite, quando o vento ruge e a criança dorme sossegadamente na sua camita perto da chaminé, acendo uma lamparina e começo a andar para trás e para diante, com a mente cheia de recordações dos meus amigos: Justine, Nessim, Melissa e Baltasar. E, insensivelmente, na senda da memória, regresso à cidade onde as nossas vidas se entrecruzaram e desfizeram, à cidade que se serviu de nós como sua flora, embaraçando-nos nos seus conflitos próprios e deixando-nos convencidos de que a trama das nossas paixões nos pertencia, à bem-amada Alexandria!
E foi preciso vir até tão longe para compreender! Vivendo neste promontório escalvado, onde todas as noites Arcturo vem disputar-me às trevas, longe da poeira e dos relentos calcários das tardes de Verão, compreendo agora que nenhum de nós é responsável pelo que se passou. É a cidade que deve ser julgada, embora seja sobre nós, os seus filhos, que recaia a punição. Em suma, que é esta nossa cidade? Que se condensa sob o nome de Alexandria? Num relance, os olhos proporcionam-me a imagem de milhares de ruas poeirentas. Actualmente, as moscas e os mendigos são os donos da cidade, juntamente com aqueles que se deliciam com uma existência intermédia.
Cinco raças, cinco línguas, uma dúzia de credos; cinco esquadras cruzando os seus perfis reflectidos sobre as águas oleosas do porto. Mas existem mais de cinco sexos e apenas as subtilezas linguísticas do grego demótico nos proporcionam os cambiantes diferenciais. O capital sexual que se esbanja em oferta abundante surpreende pela sua variedade e profusão. E, contudo, não é um lugar de prazer. Os amantes simbólicos do mundo grego cedem lugar a algo subtilmente andrógino e diferente, introvertido. O Oriente não pode desfrutar a doce anarquia carnal, porque o Oriente está para além do corpo. Recordo-me de ter ouvido a Nessim certo dia, creio que o tinha lido em algum lugar, que Alexandria era o grande lagar do amor; os que escapavam eram os doentes, os solitários, os profetas, enfim, todos aqueles que tinham o sexo mutilado.
Apontamentos paisagísticos... Prolongados acordes de cor. A luz a filtrar-se através da nuvem perfumada que afoga os limoeiros. No ar, em suspensão, a poeirada vermelha dos tijolos, e o relento do asfalto ardente, regado mas logo seco. Pequenas nuvens húmidas rasando a terra sem, contudo, se desfazerem em chuva. Sobre um fundo vermelho-baço, pinceladas verdes, lilases, e reflexos carminados sobre as águas. No Verão, a humidade do mar põe um brilho luminoso na atmosfera. Uma capa viscosa cobre todas as coisas.
Depois, no Outono, o ar seco e vibrante, uma electricidade estática e ácida que inflama a pele sob as ténues roupas. A carne acordada ensaia as suas forças nas grades que a encarceram. Uma meretriz embriagada cambaleia pela ruela, espalhando fragmentos de uma canção, como se fossem pétalas de rosas. Teriam sido estes inebriantes acordes que António ouviu, decidindo-o a render-se à cidade que já o tinha conquistado de corpo e alma?» In Lawrence Durrell, Justine (Quarteto de Alexandria), Editora Ulisseia, Lisboa, 2007, ISBN 978-972-568-496-2.

Cortesia de Ulisseia/JDACT