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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa. António Vilhena e Daniel Pires. «Amansam as ondas, quebra o vento a ira; minha tormenta triste não sossega; arde o peito em vão, em vão suspira. Ao romper de alva anda a névoa cega sobre os ‘montes da Arrábida’ viçosos, enquanto a eles a luz do Sol não chega»

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Écloga VIII
«Arde por Galateia, branca e loura,
sereno, pescador pobre, forçado
düa estrela cruel que à míngua moura.
Os outros pescadores têm lançado
no Tejo as redes; ele só fazia
este queixume ao vento descuidado.

 - Quando virá, formosa Ninfa, o dia
em que te possa dar a conta estreita
desta doudice triste e vã porfia?
Não vês que me foge a alma e que me enjeita,
buscando num só riso da tua boca,
nos teus olhos azuis, mansa colheita?
Se a esse espírito algüa mágoa toca,
se de Amor fica nele üa pegada,
que te vai, Galateia, nesta troca?
Dar-te-ei minha alma; lá ma tens roubada;
não ta demandarei; dá-me por ela
üa só volta de olhos descuidada.

Se muito te parece e minha estrela
não consentir ventura tão ditosa,
dou-te as asas do Amor perdidas nela.
Que mais te posso dar, Ninfa formosa,
inda que o mar de aljôfar me cobrira
toda esta praia leda, e graciosa?
Amansam as ondas, quebra o vento a ira;
minha tormenta triste não sossega;
arde o peito em vão, em vão suspira.
Ao romper de alva anda a névoa cega
sobre os montes da Arrábida viçosos,
enquanto a eles a luz do Sol não chega.
Eu vejo aparecer outros formosos
raios, que a graça e cor ao céu roubaram;
ficam meus olhos cegos mais saudosos.
Quantas vezes as ondas se encresparem
com meus suspiros! Quantas com meu pranto
se pararam com mágoa e me escutaram!
Se, na força da dor, a voz levanto,
e ao som do remo, que água vai ferindo,
por alta Lua meu cuidado canto,
os maviosos delfins me estão ouvindo;
a noite sossegada; o mar calado.
Só, Galateia, foges e vás rindo.
Estranhas, porventura o mar cercado
da fraca rede, abarca ao vento solta.

E um pobre pescador aqui lançado?
Antes que dê no céu o Sol üa volta,
Se pode melhorar minha ventura,
como acontece aos outros, na água envolta.
Igual preço não é da formosura
areia de ouro que o rico Tejo espraia,
mas um amor que para sempre dura.
Vejam teus olhos, bela Ninfa, a praia;
verás teu nome na mimosa areia.
Nunca sobre ele o mar com fúria saia!
Vento ou ar até agora a não salteia.
Três dias há que escrito aqui o deixou
amor, guardando-o a toda a força alheia.
Ele com suas mãos mesmo ajudou
a escolher estas conchas, afirmando
que o Sol para ti só as matizou.
Um ramo te colhi de coral brando;
Antes que o ar lhe desse, parecia
o que de tua boca estou cuidando.
Ditoso se o soubesse inda algum dia!»
In Lírica, edição de ‘Hernâni Cidade’

In António Mateus Vilhena, Daniel Pires, A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, Centro de Estudos Bocageanos, 2014, ISBN 978-989-8361-16-5.

Cortesia de CEBocageanos/JDACT

domingo, 13 de julho de 2014

Sebastião da Gama. Sobre a Lenda da Arrábida. João Reis Ribeiro. «… uma pequena casa, em que permaneceu o resto da sua vida em hábito de ermitão, servindo a Senhora com todo o desvelo e tratando da dita ermida com sumo esmero e asseio. A Ermida da Memória localiza-se no designado Convento Velho»

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Sobre a lenda da Arrábida
«(…) Quando, cerca de meio século mais tarde, em 1638, frei António da Purificação relatou a história, dando a conhecer o mais antigo documento que refere Hildebrando, apresentou assim a personagem: tendo a embarcação de um mercador inglês que vinha para Lisboa sido acometida por tempestade, entre a tripulação … vinha um religioso da nossa Ordem Eremítica chamado Haildebran, que devia vir por capelão da nau ou de um fidalgo que ali vinha por nome D.Bartolomeu. Trazia este religioso consigo uma devota imagem da Mãe de Deus para socorro das suas necessidades. Depois, o cronista acompanha a história já contada por Gonzaga: quando o religioso foi orar junto da imagem, esta tinha desaparecido e o barco orientou-se para porto seguro por uma luz que, no dia seguinte, Hildebrando localizou como originária do sítio onde encontrou a sua imagem e onde, posteriormente, foi erigida uma ermida.
Por 1721, mais duas versões surgiram: uma, apresentada por frei Agostinho de Santa Maria (1642-1728), no seu Santuário Mariano, réplica do que narrou frei António da Purificação, seu antecessor na ordem agostinha; outra, do franciscano frei António da Piedade, na Crónica da Província da Arrábida, que refere que o navio em apuros foi transportado a um sítio chamado Alportuche, próximo da barra de Setúbal. Segundo este último cronista, depois do encontro da tripulação com a imagem, foi reconhecido que a Mãe de Deus tinha escolhido aquele lugar para sua habitação. Por este motivo, Haildebrant distribuiu pela sua tripulação todas as mercadorias que trazia para seu negócio, reservando para si algum dinheiro com o qual e no mesmo sítio onde foi encontrada a imagem, mandou edificar tanto uma ermida chamada da Memória, onde colocou a dita imagem, como junto à mesma ermida, uma pequena casa, em que permaneceu o resto da sua vida em hábito de ermitão, guardando suma pobreza e oração, servindo a Senhora com todo o desvelo e tratando da dita ermida com sumo esmero e asseio. A Ermida da Memória localiza-se no designado Convento Velho.

A Lenda Romanceada
A pedido dos festeiros do Círio de Setúbal, em 1896, Joaquim Rasteiro redigiu a Lenda da Arrábida, não se distanciando do essencial do que a tradição tinha prolongado, mas pincelando a tempestade com cores românticas e tumultuosas. Posteriormente, foi a vez de Arronches Junqueiro utilizar o pretexto da lenda da Arrábida para um dos seus poemas, em cerca de duas dezenas de estrofes, respeitando a tradição popular, mas também com o recurso a uma visão romântica da tempestade. Em 1988, o azeitonense Carlos Alberto Ferreira Júnior publicou o livro Lenda da Arrábida, em versão romanceada, aproveitando para ligar os nomes de algumas das personagens a alguns locais da Arrábida. Nesta leitura, aconteceu o naufrágio e o primeiro sobrevivente a pôr pé em terra foi o gajeiro, que se viu sobre as areias agarrado à imagem da Virgem. Cansado e acreditando que todos os companheiros tinham morrido, subiu a serra e depositou a imagem em lugar propício. Sentindo a solidão, desalentado, embrenhou-se na mata e, num lugar solitário, ficou para sempre guardada a história fantástica deste homem. O sítio passou a ser a Mata do Solitário. No entanto, houve outros sobreviventes, entre os quais Hildebrando e Abraão, estando mesmo a imaginar-se que este último, ao ter construído uma cruz que ergueu no monte, deu origem à designação de Monte Abraão. Apesar de Carlos Alberto registar, na introdução ao livro, que jamais podia esquecer a alta figura do velho couteiro da Arrábida a contar com voz pousada aos peregrinos a trágica odisseia de Hildebrando, o certo é que este, tal como os outros autores, deram à lenda as cores de que mais gostaram. Ou, como deixou registado o pároco azeitonense Manuel Frango Sousa, puseram na lenda os seus sentimentos e o que gostariam que tivesse acontecido se tivessem sido actores desse acontecimento.

O Poema de Sebastião da Gama
O poema Lenda de Nossa Senhora da Arrábida, de Sebastião da Gama, que agora se publica, constitui uma das peças do seu espólio até aqui inédita. Manuscrito datado de 9 de Janeiro de 1942, tem o número 183 no conjunto de poemas sob o título de Saudosas Recordações que o poeta coligiu. Contém dedicatória a Eugénia Rodrigues, cunhada, e é assinado por Tarro, o pseudónimo que utilizou em poemas para amigos, mas que nunca divulgou em publicação. O texto conta a história do naufrágio de Hildebrando e do aparecimento da imagem de Nossa Senhora pela voz de um narrador que promete relatar o sucedido, sem um ponto lhe aumentar, o que parece ser contraditório quando se trata de uma lenda... Mas o poeta e narrador sente-se desde início fascinado pela beleza da história e vai avançando na acção, ao mesmo tempo que se deixa inundar pelo quadro do temporal, com chamadas de atenção para o leitor, num quase diálogo, para os momentos mais mágicos ou mais trágicos que tecem a narrativa. O ritmo do poema acelera quando passa pelos momentos alusivos à Natureza da mesma maneira que surpreende quando evoca o espanto, o pasmo, dos marujos, que o leitor é convocado a sentir. Poema de fé é este que Sebastião da Gama compôs. No final, o homem surge repleto de uma paz interior, só possível porque nunca lhe faltou a confiança num Deus próximo». In João Reis Ribeiro

In Sebastião da Gama, Lenda de Nª. Srª. da Arrábida, Associação Cultural Sebastião da Arrábida, nos 90 anos de Sebastião da Gama, 2014.

Cortesia da ACSdaGama/JDACT

sábado, 12 de julho de 2014

Sebastião da Gama. Sobre a Lenda da Arrábida. João Reis Ribeiro. «Certo é que o mais antigo documento conhecido respeitante a Hildebrando e à sua ligação à Arrábida data do seculo XIII e foi reproduzido por frei António da Purificação (1601-1658), […] na Crónica da Antiquíssima Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho (1638)»

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Sobre a lenda da Arrábida
«Hildebrando não é nome habitual nas latitudes latinas. O linguista José Pedro Machado atribui-lhe origem germânica, a partir da junção de duas palavras que, na sua tradução inicial, significariam espada de guerra, facto nada inédito se pensarmos que grande parte do vocabulário bélico tem origem germânica. Mas o nome Hildebrando, que consta também no título de um poema heróico germânico datado do século VIII, chegou, em tempos remotos, à serra da Arrábida e fez lenda. De vez em quando, a sua história tem sido invocada e recriada conforme as épocas, alterando-se mesmo a caracterização da personagem que, numas situações, é um rico mercador, enquanto noutras é apresentada como um frade. De comum, entre os dois estatutos existe o facto de ser originário do norte da Europa, chegado à Arrábida em virtude de uma tempestade que atirou o barco para esta região, devoto de uma imagem de Nossa Senhora e salvo de um naufrágio graças a essa mesma devoção.
A história de Hildebrando, constituída em lenda, tentará explicar o efeito místico da serra, conduzirá para uma versão que ajude a perceber as origens de uma devoção, mas não é alheia também às oposições havidas entre ordens religiosas (agostinhos e franciscanos) e, numa versão divulgada em 1988, romanceou mesmo a origem dos nomes de vários pontos da região arrábida. Certo é que o mais antigo documento conhecido respeitante a Hildebrando e à sua ligação à Arrábida data do seculo XIII e foi reproduzido por frei António da Purificação (1601-1658), informando que tinha consultado o original no arquivo da Sé de Lisboa, na Crónica da Antiquíssima Província de Portugal da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho (1638). O documento, dado em Lisboa em 11 de Março de 1220, apresenta Hildebrando como fundador de um templo atribuído à ordem agostiniana: … seja conhecido de todos, presentes ou futuros, quantos virem as presentes letras, que eu, Hildebrando, com grande trabalho e suor, fundei o lugar de Rábida e aí construí uma igreja, em honra de Deus e da Bem Aventurada Virgem Maria, cujo nome aí seja invocado, com licença e mandato do Senhor Bispo e do Cabido de Lisboa. E, passado tempo, vendo que os rendimentos do lugar eram suficientes para uma congregação, instituí nela a Ordem de Santo Agostinho.

Os Religiosos e a Lenda
Por meados do século XVI, foi fundado na Arrábida o convento franciscano, conhecido como Convento Novo. Em 1587, o padre franciscano Francisco Gonzaga (1546-1620) redigiu a obra De Origine Seraphicae Religionis Franciscanae, referindo no capítulo sobre a Província da Arrábida o seguinte: … estando um certo mercador, de nacionalidade inglesa, em perigo, no mar, por causa de uma tempestade que se levantara, e, como não lhe restasse qualquer esperança de salvação, com o navio, em que viajava, a baloiçar entre rochedos e as ondas do mar a encapelarem-se cada vez mais e a cair a noite escura, longe de qualquer auxílio humano e remédio, resolveu, com os restantes marinheiros, em atitude de súplice oração, refugiar-se junto de certa imagem devotíssima da gloriosa Virgem que consigo levava e, não a tendo podido encontrar de forma nenhuma, desiludido na sua esperança, nada mais esperava para além do naufrágio e de uma amarga morte. E eis que, quando menos o pensava, uma certa luz brilhou para si do lado do Monte Arábico. Depois, a história facilmente se adivinha: com a ajuda dos seus homens, o mercador virou a proa do barco para a luz e aportou num espaço calmo e tranquilo. Curioso, o mercador dirigiu-se para o sítio de onde provinha a luz e descobriu a imagem de que era devoto em cima de um rochedo. E continua Francisco Gonzaga: … atribuindo isto à bondade e misericórdia divinas, o próprio mercador, divididas, primeiro, as mercadorias, nesse mesmo lugar onde se fixara a imagem, tratou de construir um eremitério e uma torre contígua a ele, na qual passou o resto de vida que teve sob o hábito de anacoreta, em extrema pobreza, perpétua oração e santidade. Estava dada a primeira versão da lenda da Arrábida». In Sebastião da Gama, Lenda de Nª. Srª. da Arrábida, Associação Cultural Sebastião da Arrábida, nos 90 anos de Sebastião da Gama, 2014.

Cortesia da ACSdaGama/JDACT

Lenda de Nª. Srª. da Arrábida. Sebastião da Gama. «E no lugar onde apar’cera a Virgem Bela fez Hildebrando uma capela. E, p’ra pagar prova tamanha que Deus lhe dera do seu poder, passou orando…»

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Lenda de Nª. Srª. da Arrábida
[…]
«Mas mal chegaram
onde devia
poisar Maria
arrecuaram
d’espanto.
A doce imagem
Desapar’cera
mai-lo seu manto
e a marinhagem
que a fé pusera
na Virgem Mãe
 - Supremo Bem -
jaz muda e queda.

Mas eis, lá fora,
o Vento pára,
o Mar se queda.
Bendita hora!
 - Milagre!, exclama
a marujada
e já a chama
da Fé sagrada
mais aumentava
nos corações.
Rudes bretões
olham o Mar:
parece um lago;
e o Ventar
é mais afago,
é mais carícia;
e a montanha
uma delícia
que o bom Sol banha.

Mas, nisto, vê
o capitão
‘ma luz, que crê
ser ilusão
da sua vista,
por sobre a Serra.
É mais ‘ma estrela
caída à Terra
a luz tão bela
que ele avista.
E, num barquinho,
lá vão, lá vão;
descem na areia
que é branco linho,
na Serra são
num instantinho.
E a luz tão bela
que eles cuidaram
ser Lua Cheia
ser uma estrela
eles julgaram...
Pasmai! Pasmai!
que eles pasmaram
também.
Olhai! Olhai!
A luz que via
a marinhagem,
a linda luz,
era a imagem
da Virgem Mãe
do bom Jesus,
Santa Maria,
que lhes fugira
do batelão;
na Serra a vira
o capitão!

E no lugar
onde apar’cera
a Virgem Bela
fez Hildebrando
uma capela.
E, p’ra pagar
prova tamanha
que Deus lhe dera
do seu poder,
passou orando,
a agradecer,
nesta montanha,
o que restava
da sua vida,
que ele cuidava
a Deus devida».

Arrábida, dia 9 de Janeiro de 1942

In Sebastião da Gama, Lenda de Nª. Srª. da Arrábida, Associação Cultural Sebastião da Arrábida, nos 90 anos de Sebastião da Gama, 2014.

Cortesia da ACSdaGama/JDACT

Lenda de Nª. Srª. da Arrábida. Sebastião da Gama. «Partiu o mastro o Vento aterrador e girou ao redor a rir. Entretanto, na nave, o capitão, da Grã-Bretanha filho e Hildebrando, com os seus repartia, em bom quinhão, a coragem..., que nele ia faltando»

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Lenda de Nª. Srª. da Arrábida
«Não conheceis a lenda linda
de Maria
que desceu,
certo dia,
nesta serra?
Pois eu conto
sem um ponto
lh’aumentar,
se me ‘inda
lembro dela.
Dia de temporal por sob o Céu.
O mar aterra.
Ouve-se o Vento
a soprar.
E um lindo barco à vela
navegava,
retorcia,
já tombava,
já caía.
Olhai! Olhai!
‘Té parece
gaivotinha
que falece!
Asas, a vela branquinha
a que o Vento, caçador,
disparou
de repente
e, gemente,
a piar,
foi cair
no Mar.
Olhai! Olhai!

Partiu o mastro o Vento aterrador
e girou
ao redor
a rir.
Entretanto, na nave, o capitão,
da Grã-Bretanha filho e Hildebrando,
com os seus repartia, em bom quinhão,
a coragem..., que nele ia faltando.
E diz assim
à marujada:
 - Correi a mim,
que a fé em Deus
e em Maria
nos salvará!
Correi, oh meus,
‘té à sagrada
imagem que há
neste navio
da Virgem Mãe de Deus, imaculada.
A Alegria
então floriu
nas faces da marujada
que já estava
desanimada,
que já cuidava
a Morte ao pé:
é que os salvava
a sua fé.
E veio
correndo logo,
nos olhos fogo,
no coração.

E o Vento rugia
e o barco quebrava
e o Mar lá bramia
com sua voz cava.
Mas eles já nem ouviam
o Mar;
já nem sentiam
ventar.
[…]
Arrábida, dia 9 de Janeiro de 1942

In Sebastião da Gama, Lenda de Nª. Srª. da Arrábida, Associação Cultural Sebastião da Arrábida, nos 90 anos de Sebastião da Gama, 2014.

Cortesia da ACSdaGama/JDACT

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sebastião da Gama: O Poeta da Serra da Arrábida

(1924-1952)
Cortesia de geopedrados

Sebastião da Gama, foi um poeta português. Exerceu a actividade docente nas cidades de Lisboa, Setúbal e Estremoz. Era licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi colaborador das revistas Árvore e Távola Redonda.
Sebastião Artur Cardoso da Gama ficou para a história pela sua dimensão humana, nomeadamente no convívio com os alunos, registado nas páginas do seu famoso Diário (iniciado em 1949). De acordo com os críticos literários, não esteve dependente de qualquer escola, afirmando-se pela sua temática (amor à natureza, ao ser humano) e pela candura muito pessoal que caracterizou os seus textos. Por motivos de saúde, passou a residir no Portinho da Arrábida, com a panorâmica Serra da Arrábida a alimentar o culto pela paisagem presente na sua obra. Nos últimos anos foi instituído um Prémio Nacional de Poesia com o seu nome. Foi fundador da Liga para a Protecção da Natureza em 1948.

Cortesia de bibliblogue.wordpress
Estreou-se com Serra Mãe (1945), publicou Loas a Nossa Senhora da Arrábida (1946, em colaboração com Miguel Caleiro), Cabo da Boa Esperança (1947) e Campo Aberto (1951). Após a sua morte, foram editados Pelo Sonho é que Vamos (1953), Diário (1958), Itinerário Paralelo (1967), O Segredo é Amar (1969) e Cartas I (1994). A obra Diário, é um interessantíssimo testemunho da sua experiência como docente e uma valiosa reflexão sobre o ensino.
No ano de 1999, foi inaugurado em Vila Nogueira de Azeitão, o Museu Sebastião da Gama, destinado a preservar a memória e a obra do Poeta da Arrábida, como era também conhecido.
Morre aos 27 anos de idade, de tuberculose renal de que sofria desde adolescente.

O Sonho
Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos

Elegia segunda
Todos os pássaros, todos os pássaros
Asas abriam, erguiam cantos,
De Amor cantavam.
Todos os homens, todos os homens,
De almas abertas, de olhos erguidos,
De Amor cantavam.
De Amor cantavam todos os rios,
Todas as serras, todas as flores,
Todos os bichos, todas as árvores,
Todo os pássaros, todos os pássaros,
Todos os homens, todos os homens.
De Amor cantavam...
Sebastião da Gama, Campo Aberto

Cortesia de belostextos.aaldeia

wikipédia/JDACT