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quinta-feira, 13 de maio de 2021

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto D’Ávila. «A bastardia de Afonso garantia a Nuno Álvares Pereira a proximidade desejada com a casa real mas independência quanto bastasse»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto D’Ávila

Vida e Acção Política

«(…) O condestável casara, muito jovem, com dona Leonor de Alvim, viúva de Vasco Gonçalves Barroso. A sua condição de viúva parece justificar este matrimónio algo atípico, dado a precoce idade de dom Nuno (que tinha dezasseis anos quando casou) e o estatuto económico superior da noiva, já que as viúvas constituíam, no mercado matrimonial, uma segunda escolha, uma opção desvalorizada. Deste casamento, o condestável teve apenas uma filha, dona Beatriz.

Quando o condestável enviuvou em 1387, João I propôs-lhe novo matrimónio, desta feita com dona Beatriz Castro, filha de Álvaro Pires Castro que, curiosamente, fora o primeiro condestável do Reino, nomeado por dom Fernando, em 1382. Viúvo cobiçado, detentor de uma enorme fortuna, talvez a maior do Reino nessa altura, e com apenas uma filha, era natural que Nuno Álvares Pereira voltasse a casar. Contudo, o condestável recusou terminantemente a proposta do rei. Seria o início da sua vida casta e ascética. O seu marcante desempenho durante a crise dinástica, que lhe havia granjeado importantes doações de terras e títulos, sobretudo confiscados aos familiares e principais aliados de dona Leonor Teles, tornara-se algo perigoso para o novo rei, que se arrependera, em parte, das grandiosas doações que fizera. Nuno Álvares Pereira era o único nobre no Reino com uma hoste capaz de lhe fazer frente.

Dona Beatriz, herdeira da imensa fortuna do seu progenitor, era uma noiva muito almejada. O rei, arrependido, via na união de dona Beatriz com um dos seus filhos uma solução de compromisso e uma forma dos bens por ele doados regressarem à Coroa. Por seu lado, o condestável via na ligação à família real uma estratégia para potenciar, ainda mais, o seu poder. Todavia as negociações não foram fáceis. O monarca pretendia casar a herdeira do condestável com o sucessor do trono, o príncipe dom Duarte, significativamente mais novo do que dona Beatriz. Contudo, não era essa a pretensão do condestável, que dava primazia à construção de uma casa senhorial independente da casa real. Do ponto de vista de Nuno Álvares Pereira, o objectivo central a atingir com o casamento da filha seria o da constituição de uma casa senhorial que perpetuasse a sua linhagem e a sua memória. A solução foi encontrada em dom Afonso, filho natural de João I, significativamente mais velho do que os infantes seus irmãos e de idade muito similar a dona Beatriz. A bastardia de Afonso garantia a Nuno Álvares Pereira a proximidade desejada com a casa real mas independência quanto bastasse. É interessante notar que, apesar de Nuno Álvares Pereira ter conseguido a construção de uma casa que o veria sempre como o fundador, quer a nível patrimonial quer ao nível do capital simbólico, os seus descendentes nunca adoptaram o seu apelido, Pereira. Pelo contrário, estes, à semelhança da família real, de quem também descendiam (ainda que por via bastarda), não utilizavam apelido. Dom Afonso nasceu entre os anos de 1370 e 1377, filho de Inês Pires e de João I, na altura, mestre de Avis, no castelo de Veiros, em Estremoz. Foi ali criado por sua mãe e mais tarde em Leiria por Gomes Martins Lemos, conselheiro régio. Desta união, que nunca foi legitimada, nasceria também uma filha, dona Beatriz, futura condessa de Arundel.

A existência dos dois filhos naturais de dom João foi mantida em segredo durante o atribulado período da crise sucessória, tendo apenas sido dada a conhecer após a subida ao trono do pai. Quando, em 1387, João I casou com dona Filipa de Lencastre os bastardos régios foram admitidos na corte por iniciativa da rainha. Dona Filipa manteve sempre uma boa relação com os seus enteados: dom Beatriz casaria com um parente seu, o conde de Arundel, em Inglaterra, e dom Afonso estava presente em Odivelas, com o seu pai e irmãos, aquando da morte da rainha, vítima de peste, no ano de 1415. A sua mãe, Inês Pires, ingressou por altura do enlace de João I com dona Filipa de Lencastre, no Convento de Santos-o-Velho, tendo sido a sua 12ª Comendadeira. Os filhos tinham direito a visitá-la e pensa-se que dona Beatriz terá mesmo vivido no convento com a mãe até ter atingido a idade núbil». In Maria Barreto D’Ávila, D. Fernando I. 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

Casa de Bragança, Cultura e Conhecimento, História, JDACT, Maria Barreto D’Ávila, Política,

quarta-feira, 12 de maio de 2021

D. Fernando I. 2º duque de Bragança. Maria Barreto D’Ávila. «Apesar de ser usual, por uma questão de comodidade, referirmo-nos aos três condes de Barcelos, Ourém e Arraiolos como casa de Bragança…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia à Mestre Maria Barreto D’Ávila

Vida e Acção Política

«(…) Contudo, durante muito tempo a biografia foi considerada como um modelo historiográfico menor, mais ligado à apologia do que a uma análise isenta e rigorosa. Também em Portugal, a biografia foi até muito recentemente um género desconsiderado. A Colecção Reis de Portugal dirigida por Roberto Carneiro e com coordenação científica de Artur Teodoro Matos e João Paulo Oliveira Costa, veio mudar este panorama. Estas biografias régias trouxeram novas perspectivas à historiografia portuguesa, tornando-se obras fundamentais para a compreensão da história do nosso país. Brevemente será também publicada uma biografia do infante dom Henrique, intitulada Henrique, o infante, da autoria de João Paulo Oliveira Costa. Tendo em vista a elaboração de um estudo biográfico sobre dom Fernando, 2.º duque de Bragança e considerando que os estudos precedentes sobre a casa de Bragança deixaram algumas problemáticas em aberto, foi nosso objectivo proceder à recolha de dados prosopográficos de dom Fernando e à caracterização do seu pensamento político tentando destrinçar o seu comportamento diferenciado em relação ao seu pai e irmão, para além das outras principais figuras políticas suas contemporâneas, quanto à política do Reino. Outras linhas de análise foram trilhadas através do exame da sua participação nos projectos expansionistas no Norte de África, da evolução do seu património e da sua estratégia de perpetuação da linhagem da sua casa. Para tal foi indispensável caracterizar tanto o contexto sociopolítico em que dom Fernando viveu como o seu âmbito familiar.

As fontes utilizadas na elaboração desta tese compuseram-se, na sua grande maioria, de documentação da chancelaria régia, seguindo-se alguma documentação do Arquivo da Casa de Bragança. Contudo, as fontes mais interessantes para a caracterização do pensamento político de dom Fernando são os inúmeros conselhos por ele redigidos, assim como as Crónicas de João I, Duarte I e Afonso V. No entanto, há lacunas na documentação que não nos permitiram analisar certos aspectos biográficos de dom Fernando. Infelizmente, com excepção da Chancelaria de Afonso V, não existem mais documentos relativos ao período em que o conde de Arraiolos assumiu a capitania da praça de Ceuta, pelo que não possuímos relatos dos acontecimentos políticos e militares desse período, o que nos impede de identificar os nobres que o acompanharam durante a sua capitania. Também os anais dedicados a Ceuta são parcos em informações acerca do governo de dom Fernando, relatando apenas o episódio da sua vinda ao Reino durante o agudizar dos conflitos entre o duque de Bragança, seu pai, e o infante dom Pedro. As fontes utilizadas também não nos permitiram entrar na esfera privada de dom Fernando. Este estudo, tal como o nome indica, incidirá, portanto, maioritariamente na vertente política do indivíduo biografado.

Apesar de ser usual, por uma questão de comodidade, referirmo-nos aos três condes de Barcelos, Ourém e Arraiolos como casa de Bragança, nesta dissertação tentaremos evitar esta designação para o período anterior a 1442, data em que dom Afonso, conde de Barcelos, acedeu ao ducado brigantino. Aliás, apesar de por vezes agirem conjugadamente, numa óbvia solidariedade familiar, os três condes são titulares de casas que coabitam em simultâneo, mas que são independentes. É nosso entender que a maior dependência será sempre entre o conde de Ourém, filho primogénito, e o seu pai, o conde de Barcelos. A prová-lo temos o episódio ocorrido durante a regência do infante dom Pedro aquando da criação do ducado de Bragança. Pai e filho estavam interessados nas terras brigantinas e dom Pedro resolveu a querela entregando o ducado ao conde de Barcelos, tendo a justificação para a sua decisão recaído no facto de que, sendo o primogénito, o conde de Ourém herdaria, ainda que a médio prazo, as propriedades do pai.

Dom Fernando, secundogénito, ficava de fora desta equação. A sua casa, a de Arraiolos/Vila Viçosa, seria totalmente independente das outras duas até à morte do irmão e sua consequente nomeação como herdeiro da casa de Bragança. Esta dissertação terá, portanto, como objectivo analisar a actuação de dom Fernando enquanto chefe da casa de Arraiolos/Vila Viçosa e, posteriormente, enquanto segundo duque de Bragança.

O legado de Nuno Álvares Pereira

A consolidação da nova dinastia de Avis e a vitória dos seus partidários sobre a facção castelhana deu azo à emergência de uma nova nobreza composta, na sua grande maioria, por filhos segundos e membros de linhagens inferiores que se haviam destacado militarmente no apoio ao mestre de Avis. O maior beneficiado destes nobres foi, sem dúvida alguma, dom Nuno Álvares Pereira nascido em 1360, filho bastardo de Álvaro Gonçalves Pereira, prior do Hospital, e de Iria Gonçalves do Carvalhal». In Maria Barreto D’Ávila, D. Fernando I. 2º duque de Bragança, Vida e Acção Política, Dissertação de Mestrado, FCSHumanas, UNLisboa, 2009.

Cortesia de FCSH/UNL/JDACT

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