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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O Rosto de Camões. Aníbal Almeida. «Conhecidas, desde a primeira metade do século XVIII, as três gravuras-base co cânone iconográfico camoniano e divulgado, desde 1880, o que então parecia um seu parente pobre (o desenho à pena ‘hecho de mano de Manuel Faria’, faltava só dispor e ordenar os elementos da sucessão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«L’ingegno del pittore vuol essere asimilitude delo specchio». In Leonardo da Vinci

Dez anos de Camões
«O ensaio que segue constitui pouco mais que o registo do resultado de uma inspecção visual das espécies fundamentais da iconografia camoniana tais como as publicou, em Setembro de 1972, a revista Panorama, editada pela defunta SEIT em luxuoso número dedicado ao IV Centenário de Os Lusíadas, extensamente comemorado a essa obra crepuscular daquele fim de império. E visa mada mais nada menos que estabelecer, quase só a partir dessa base, a vera efigie de Camões. A incómoda surpresa de esta proposta se me oferecer como viável viria a acentuar-se, logo a seguir, com ter adquirido a convicção de que os traços fisionómicos, peculiares e expressivos. Do poeta, podiam ter-se revelado, não há dez anos, mas há cinquenta e sete: desde a publicação por Afonso Dornelas, da peça capital deste aparente quebra-cabeças. Na verdade, o conjunto do que designaremos por espécies sinópticas ficou perfeito e coerente desde a comunicação, por esse autor à Academia das Ciências, 23 de Julho de 1925, da cópia hoje conhecida da sanguínea de Fernão Gomes: com seu vincado ar de família, sem divergências irredutíveis, portanto o selo virtual do lugar respectivo no seio da parentela, em suas linhas recta e colateral, como antes, porém agora sem postular a existência de antecessor incógnito nascido no Parnaso, adulto e já armado, da coxa ou virilha de Deus Pai. Conhecidas, desde a primeira metade do século XVIII, as três gravuras-base co cânone iconográfico camoniano e divulgado, desde 1880, o que então parecia um seu parente pobre (o desenho à pena hecho de mano de Manuel Faria, faltava só dispor e ordenar os elementos da sucessão, desde o seu termo inicial à gravura de A. Paulus e descendentes imediatos mais temporãos, passando pelo produto do benemérito Faria, realmente medíocre mas com a importância crucial de um anterior missing link agora revestido do seu alcance verdadeiro de elo de ligação entre um retrato do natural de homem de pena e a infindável teoria das espécies canónicas, ataviadas com os sinais de Apolo e Marte, que se lhes veio a suceder.
De 1925 para cá o panorama não se alterou, salva a publicação em 1972, por Maria Antonieta Azevedo, do espectacular retrato da prisão, que aliás veio depor, eloquentemente, sobre a verdade das espécies sinópticas, passando a constituir, a par da miniatura de Goa, o par de espécies-testemunho daquele elenco e, em geral (por ambas serem mais do que monocromias), do corpo (inteiro, no primeiro caso) de Camões. Posto o que falta apenas declarar o seguinte: não é de ânimo leve que empreendo esta incursão pela seara alheia do camonismo; faço-o apenas uti cives (sem pois, reivindicar sequer um grão de competência no seio desse composto, obeso e vário, constituído pela pretensa entidade epistémica que se traduz em cuidar de Camões) e só após dez anos de paciência não compensada. E a circunstância de fundamentalmente se tratar de expor aqui a solução de um problema do tipo é bom observador?, leva-me a protestar, logo de início, que só uma certa desatenção, peculiar aos camonistas, especialmente sensível e danosa neste domínio iconográfico, me ensinou a fazê-lo, prestando inteira concordância ao desabafo de um iconografista camonista sobre outro cujos paralelos, contrastes e filiações com razão lhe pareceram totalmente falhos de espírito crítico e até de capacidade de observação: esse o motivo por que escrevo.
Por outro lado, ocorre confessar que, neste ponto, nel mezzo del camin di nostra vita, me vejo constrangido a resistir às várias e urgentes tentações deste lugar de privilégio, e a esconjurar este fantasma devorador das energias em busca do seu rosto: esse o motivo que escrevo agora. Claro, quase uma década passada de atenção permanente, embora desigual, a este tema, não vai servir-se, sem guarnição e sem tempero, o fruto, apenas, de um olhar de relance e à vista desarmada: não é impunemente que se entretém convívio diuturno com uma figura de tal grandeza e singular projecção para nós, quer queiramos quer não, lusíadas dos dele. Mas irei proceder em termos de poder manter inteiro domínio das bases virtuais e bibliográficas sobre que se ergue este discurso: daí o aparato iconográfico, talvez primo conspectu excrecente, que acompanha estas palavras, aliás livres de alusões ou acenos implícitos a autoridades de que se louva o camonismo. Pode, pois, reconhecer ou não por verdadeiro o rosto conhecido, mas não reconhecido, que agora vai indigitado como figura ou gesto de Camões: esse o motivo por que escrevo assim». In Aníbal Almeida, O Rosto de Camões, Universidade de Coimbra, Revista Científica e Literária, O Instituto, Auro Pretiosior, Coimbra Editora Limitada, volumes 140/141, Coimbra, 1980/1981.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

Nos Bastidores do Palco de Mestre Gil. Joaquim Namorado. «Dinato, escreve letra por letra o que eu te dito: a caridade interesseira e a fingida devoção que trocam os bens do céu pelos gozos deste mundo»

Cortesia de wikipedia

O Diabo sem Máscara
«Um diabo de Mestre Gil
tira a máscara de teatro
e fica como na vida.

Dinato, escreve
letra por letra
o que eu te dito:

a caridade interesseira
e a fingida devoção
que trocam os bens do céu
pelos gozos deste mundo.

Dinato, escreve
como eu te dito:

não servem de salvação
são motivo de castigo.

Dinato, escreve
letra por letra
o que eu te dito:

a justiça corrompida
e o direito violado
o inocente perseguido
e o criminoso exaltado.

Dinato, escreve
como eu te dito:

terão castigo.

Dinato, escreve
letra por letra
o que eu te dito:

o orgulho da humildade
que se aponta como exemplo
com a máscara da mentira
por detrás da indiferença.

Dinato, escreve
como eu te dito:

terá castigo.

Dinato, escreve
letra por letra
o que eu te dito:

os falsos puritanos
que pregam a abstinência
escondendo o que é natural
para o fazer licencioso.

Dinato, escreve
como eu te dito:

terão castigo

Dinato, escreve
letra por letra
o que eu te dito:

a ovelha ranhosa
que de lobo se disfarça
com as manhas da raposa.

Dinato, escreve
como eu te dito:

a inclemência do tirano
como o lobo carniceiro
que de inocente se mascara
terão castigo.

Assim é, Dinato,
como eu te dito».


In Joaquim Namorado, Nos Bastidores do Palco de Mestre Gil, Universidade de Coimbra, O Instituto, volumes 140/141, Auro Pretiosior, Revista Científica e Literária, Coimbra Editora Limitada, Coimbra, 1980/1981.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

O atentado contra Miguel Vasconcelos em 1634. António Oliveira. «O mérito de Diogo Soares consistiu precisamente em alvitrar fontes de receita que pudessem ser arrecadadas independentemente da obstrução dos ‘populares, sem respecto ao governo, tribunal ou pessoa particular’»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A resistência, ou o desmazelo administrativo do sector das finanças públicas, levou o governo de Lisboa a considerar, em 1631, o erário régio completamente empenhado, incapaz de suprir um financiamento pontual destinado à recuperação de Pernambuco. Diogo Soares, porém, descobriu que não era bem assim: não só havia possibilidade de conseguir dinheiro imediato destinado ao socorro do Brasil, através de uma melhor cobrança de certas dívidas do Estado, como existiam avultados efeitos livres de consignações, o que permitia situar em Portugal uma renda anual de 500000 cruzados. Destes ingressos não havia notícia ou, o que significava o mesmo, o conhecimento deles era tão confuso que Madrid não podia contar com eles. Difícil, porém, seria cobrá-los através de organismos institucionalizados em Portugal, dada a oposição à pressão fiscal, bem acentuada a partir da crise de 1627-1628. O mérito de Diogo Soares consistiu precisamente em alvitrar fontes de receita que pudessem ser arrecadadas independentemente da obstrução dos populares, sem respecto ao governo, tribunal ou pessoa particular. Para o efeito propôs uma Junta da Fazenda, havendo-lhe sido concedida a faculdade, pelo conhecimento que tinha da matéria, de apresentar os seus membros. À Junta incumbia, para além da cobrança dos efeitos que lhe estavam consignados, a preparação da armada a enviar a Pernambuco, dado que havia pouco que fiar dos ministros encarregados do apresto das naus: a cobrança das receitas implicava o controlo da sua aplicação. A presidência da Junta foi confiada ao conde de Castelo Novo, homem da confiança política da Corte e com experiência quanto ao despacho dos navios da Índia, dado o lugar que ocupava na direcção da Companhia do Comércio da Índia. Castelo Novo, que tinha por inimigos os da parcialidade, aceitou o lugar, mas impondo condições que Madrid não regateou: fazer parte do governo a fim de melhor poder executar o que fosse conveniente, dado que tinha de obrar com ministros que le encuentran las cosas que asta ora corren por su mano; obter em Madrid, depois de sangrar o País, um lugar que não ficasse dependente dos inimigos que forçosamente iria granjear; mercês para si e filhos. Para secretário foi proposto e nomeado Miguel Vasconcelos Brito, persona inteligente y confidente y que dará buena cuenta de los negócios que alli se tractaren, sendo os restantes membros igualmente afectos ao governo de Madrid.
O regimento outorgado à Junta da Fazenda conferiu-lhe jurisdição necessária ao desempenho das suas funções, incluindo a penal, independente das instituições portuguesas. Os assuntos que lhe diziam respeito caminhavam para Madrid através de uma única via, a de Diogo Soares, o qual passou a controlar a fazenda pública portuguesa, sendo incumbido pelo monarca de orçamentá-la y averiguar lo en que se á convertido la hazienda real de diez años a esta parte. A criação de semelhante órgão não podia deixar de sustentar em Portugal uma dupla oposição: a da própria natureza do seu objectivo, uma maior rapina fiscal através da colecta de verbas que feriam interesses diversos, alguns deles muito explosivos, e a que lhe adivinha da jurisdição, gerindo assuntos portugueses independentemente das autoridades nacionais. A contestação ao exercício da sua actividade manifestou-se, na verdade, tanto na cobrança dos efectos prontos como nos da renda fixa e preparação da armada de socorro do Brasil. A Junta tinha jurisdição autónoma. Mas não lhe era possível, por exemplo, proceder à arrecadação, cobrança executiva ou manejo de algumas quantias que considerava pertencer-lhe sem o apoio de não colaboracionistas do regime. Eram-lhe necessários, por exemplo, os processos relativos às dívidas da fazenda régia que diversas entidades tinham em seu poder, como o regedor da Casa da Suplicação, mas que se recusaram a entregar-lhos sem expressa ordem régia. E a mesma resistência dilatória oferecia o meirinho-mor, conde de Sabugal, ou o próprio governo ao levantar dúvidas quanto à presença entre si do conde de Castelo Novo, ao ignorar o regimento da Junta ou mesmo proibindo, como determinou o próprio conde de Basto, no momento voltado para os populares, que lhe fossem entregues pelo tesoureiro-mor 30000 cruzados por conta dos efeitos que lhe pertenciam. Atitude que Madrid não deixou de estranhar: o conde devia ayudar a este negocio en la misma forma que denantes lo hazia, porque nó mudó de sustância y concurren las mismas razones». In António de Oliveira, O Instituto, Auro Pretiosior, Universidade de Coimbra, Revista Científica e Literária, Coimbra Editora Limitada, volumes 140/141, Coimbra, 1980/1981.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

terça-feira, 10 de junho de 2014

O atentado contra Miguel Vasconcelos em 1634. António Oliveira. «… tratava-se de uma cópia do parecer político e moral, no que diz respeito a corrupção, dado por Diogo Soares em 1634 para guia da princesa Margarida, sobretudo naquilo que não devia fazer…»

Princesa Margarida
Cortesia de wikipedia

«A oposição contra o autoritarismo do conde-duque de Olivares manifestou-se, em 1634, através de profundo significado político (problemática muito vasta; pretende-se tomar posição na tentativa de assassínio político de um dos símbolos da opressão, levantamentos populares sob o domínio filipino). Uma delas concentra-se no atentado contra a vida de Miguel Vasconcelos e do irmão, Prior de Avis, levada a efeito no princípio do mês de Maio. A atitude ambivalente da classe senhorial, tanto da portuguesa como a de outros reinos da monarquia hispânica, se apoiava a coroa, enquanto beneficiária, não deixava de opor-se quando a soberania atentava contra os seus privilégios. Para defender-se, usando o aparelho de Estado que detinha, colocava-se numa atitude de resistência civil, quer obedecendo, mas não cumprindo, quer usando de outras atitudes hostis. Resistência levada a efeito em Portugal, no tocante à elite de poder, em nome do interesse do povo, sendo designados os defensores dos privilégios nacionais, por esse motivo, de populares, de repúblicos, de patronos das austeridades de Portugal y de sus fueros. O governo de Madrid reconhecia, pelo menos em 1634, que el pecado de la popularidad [era] casi comum a la nobleza.
Por isso mesmo, e na aplicação do aforismo clássico de dividir para governar, procurava faborecer al Pueblo y a los de menos nobleza contra los de la primera calidad sin mostrar que se haze sino que no se ha de consentir sean oprimidos y desestimados. A desestabilização estava precisamente na contraditória união da nobreza com o povo, possível e temível dentro do nacionalismo português e do oportunismo da classe dirigente, como nas ocasiões em que o poder soberano atentava contra os seus privilégios em matéria fiscal, tornando tributário o sangue e merecimento (temor bem sentido por Olivares ao tempo dos levantamentos em Portugal em 1637). Não admira assim, e sem contradição, que a nobreza, no período filipino, houvesse recebido mas quantiosas mercedes que en todo el tiempo de los señores Reys de Portugal (afirmações de Diogo Soares, num momento antinobiliárquico do governo de Madrid, que suscitaram à margem da minuta em que foram exaradas, no referente ao texto se escuse ajuntando capitolos a la administracion de la fazenda. Qual foi a redacção final?).
Os populares, através da nobreza titulada (condes) e dos graduados universitários, detinham os postos-chaves da administração. Constituíam uma parcialidade que fazia os possíveis para impedir a entrada no governo de indivíduos que lhe não fossem afectos, en tal forma que en muchos tempos todo andó en los suyos (tratava-se de uma cópia do parecer político e moral, no que diz respeito a corrupção, dado por Diogo Soares em 1634 para guia da princesa Margarida, sobretudo naquilo que não devia fazer; servir-se dos desafectos ao governo de Madrid; foram estes, principalmente os visados pelo censor político, embora nomeando todos os principais; posteriormente, Novembro de 1634, foram redigidas informações secretas [?] semelhantes com a advertência de que a princesa Margarida poderia usar delas; estas notícias coincidem e referem-se sobretudo apenas aos principais ministros; por hipótese, o documento poderia ter saído da Junta Secreta que apreciou o memorial do secretário de Estado; o seu autor parece ignorar o exacto prenome do cunhado de Diogo Soares, havendo-o deixado em branco na minuta). A parcialidade infecta, dominando o governo, opunha-se, assim, a tudo que Madrid ordenasse contra seus interesses (os cabeças da parcialidade eram Diogo Silva, conde que foi de Portalegre, o irmão, marquês de Gouveia, Diogo Castro e o filho Miguel, embora os dois primeiros, em 1634, não estivessem por motivos particulares, unidos como dantes aos segundos; Diogo Silva, chefe incontestado, era de los mas entendidos hombres de Portugal, de muy levantados pençamentos por naturaleza y piença que nadie llega a lo que el alcança; era tido como pai da pátria e um dos oráculos todos entendiam que a vontade de Diogo Silva era en Portugal sempre oposta à delRey & que levava consigo tantas, que todas juntas formavão hum muro incontrastável, o qual de força se havia de romper primeiro, que se pudesse introduzir a forma dos decretos reais, & sua obediência, porque a Bobreza & Povo, tinhão por sospeitosas aquellas resoluçoens que não rubricava o aplauso do conde Diogo Silva).
Nestes termos, não admira que se recomendasse à princesa Margarida que fosse considerado como morto. Assim era tido em Madrid, depois da ousadia que teve em deixar o governo, em Abril de 1627, sem licença régia. Por esse motivo houve quem tivesse votado, no Conselho de Estado, que lhe fosse cortada a cabeça, acabando por prevalecer que fosse desterrado de Lisboa y se hiziesse quenta que era muerto. Pela desobediência, como reconheceu Madrid, algunos del Pueblo le tienen por republico, sendo o que em Portugal tinha mas authoridad, y séquito. Uma forma de vencer a desobediência às leis, de furtar-se à burocracia institucionalizada, tópico comum a outros reinos da monarquia, encontrou-a Olivares, entre outros meios, na formação de juntas à margem dos conselhos, constituídas por gente da sua confiança política e disposta a devotar-se ao serviço do rei sem preocupação da perda de popularidade. Assim aconteceu, entre tantas outras vezes, em 1631, ao ser criada a Junta da Fazenda e, em 1634, a Junta encarregada de tratar da renda fixa». In António de Oliveira, O Instituto, Auro Pretiosior, Universidade de Coimbra, Revista Científica e Literária, Coimbra Editora Limitada, volumes 140/141, Coimbra, 1980/1981.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Hora de Justiça. Amélia Janny. Costa Rodrigues. «… tal como ela foi, como a viu Teixeira de Pascoaes, alta e magra, duma leveza aérea no andar, que a desligava do solo empredado e lhe diluia a velhice no sorriso perpétuo dos seus lábios…»

Cortesia de wikipedia

«… Evoca hoje este Instituto de Coimbra Amélia Janny, uma curiosa figura de Mulher e de Poesia do puro romantismo coimbrão, que em Coimbra nasceu, em Coimbra viveu sempre em vida, que não foi curta, a sentir, a escrever e a declamar seus versos, inspirada no seu encanto e no seu culto. Será mais uma Hora de Justiça que chega e ao Instituto se deve, como, nos mais próximos tempos, as horas de Eugénio de Castro e de Mestre Gonçalves. Uma hora de justiça e também uma hora de reparação. Há muito se esbatera, ou quae apagara, na memória, tão frágil e incerta, desta terra, o nome que ela tantas, tantas vezes aclamara em festas de caridade, em comemorações cívicas, em ruidosas manifestações académicas, como o tricentenário de Camões, nos folguedos alegres do seu povo.
Depressa esqueceram os seus versos, que por aí se cantavam e sabiam de cor e se aprendiam sem esforço porque eram límpidos, de clara expressão, espontâneos, brotando, quase sempre, de uma impressão rápida, mas incisiva. Dela bem poderá dizer-se, ajeitando-lhe o pensamento do mal-aventurado Chénier, l’art ne fait que des vers, le coeur seu est poète, que a arte desses versos lhe vinha do coração, porque antes de tudo, os sentia. O culto da sua bondade, que aqui floresceu a par com o seu talento, esse mais depressa se amortece, ou quase extingue… Mas Coimbra é assim, como algumas mulheres caprichosas, inconstantes, ingratas no rumo ou no querer de seus próprios amores…
Ora se apaixona ou delira em entusiasmo excessivo e pródigo, nem sempre justo e medido, ora se esquiva, repudia até os que mais e melhor lhe querem… Regozijemo-nos, porém. Se o primeiro centenário do nascimento de Amélia Janny passou quase em injusto e doloroso silêncio, aqui nos reunimos hoje para avivar a sua memória, atenuando assim, ao mesmo tempo, mais uma culpa de ingratidão… E se, nesta casa, se mantém o pensamento inicial da lei dos nossos Estatutos, no regimento da sua vida científica e associativa, seja esta uma oportunidade para relembrar que, na sua tradição, viveu sempre o justiceiro preito aos que hajam merecido no cultivo das ciências, das belas letras e das artes exaltando seus méritos ou seus serviços. Não se quebrou, felizmente, a tradição.
E ainda bem que a figura de Amélia vai como que ressurgir nesta sala, tal como ela foi, como a viu Teixeira de Pascoaes, alta e magra, duma leveza aérea no andar, que a desligava do solo empredado e lhe diluia a velhice no sorriso perpétuo dos seus lábios (O Penitente). Assim vi eu ainda essa Senhora, na sua feminilidade encantadora, passar por essas ruas saudada com carinhoso respeito, com o prestígio do seu talento poético e da sua bondade, com a admiração por tudo quanto a tornou singular em Coimbra. Na verdade, Amélia não foi só a poetisa de tão inspirados versos, que primorosamente declamava, numa voz doce e clara, nem aquela delicada e cativante figura que, à sua volta e com largueza, soube espalhar o bem com simplicidade e com modéstia. Não; não foi só isso. Aquela sua casa, pequenina e acolhedora, da Couraça de Lisboa, tão cheia sempre da luz incomparável do sol de Coimbra, sobre o vale alegre do Mondego, a cujos sortilégios e encantos a poetisa se manteve sempre fiel, foi, por muitos anos, apetecido e obrigado lugar de reunião das mais proeminentes e festejadas e marcantes figuras da Coimbra das últimas décadas do século passado e dos primeiros anos do actual». In Costa Rodrigues, O Instituto, Universidade de Coimbra, Revista Científica e Literária, Coimbra Editora Limitada, volume 114, Coimbra, 1950.

Cortesia da UCoimbra/Instituto/JDACT

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Guitarra. Andaluzia. Homenagem. «Y como si hoy estuvieran solos los hombres de edad, y las mujeres de espera y los jóvenes de amor. Como si el mundo no fuera hoy tu apoyo y tu vigor: miles de manos y fuegos de millones en un haz; de soldados, de labriegos, de los que llenan la paz»

Cortesia de wikipedia


«En tu peñón solitario
lleno de olvido y dolor,
estrictamente salario,
perpetuamente sudor.
En tu girón de archipiélago
de ron y cañaveral,
chupado por el murciélago
numeroso del central.
En tu estirpe de malarias
secretas como tu voz,
llena de angustias agrarias
y de silencio feroz;

Dominí, no estás solo,
no estás solo, Dominí.
Del ecuador hasta el polo
el mundo lucha por tí.
A pesar de tantos daños,
tanto silencio, a pesar
de tantos sufridos años
sin comprender, sin pelear;
a pesar de que tu islote
cierra el horizonte y vas
solo como un galeote
solo y sin brisa quizás;

Dominí, no estás solo,
no estás solo, Dominí.
Del ecuador hasta el polo
el mundo lucha por tí.
Y que tus golpes los cargas
en tu solitaria piel,
y que tus noches amargas
te son solas, te son hiel;
Dominí, no estás solo,
no estás solo, Dominí.
Te acosa el hambre y el dolo,
sólo que tú no estás solo,
y hoy que miran hacia tí
tantos hombres y mujeres
¿qué te pasa, Dominí?

Hay un mundo de quehaceres
y tú duermes o algo así.
O algo más entrañado...
Como si una soledad
desenvolviera a tu lado
sólo sombras, sólo edad.
Como si el tiempo y el agua
que sollozan en tu pie,
o el sol que nace en la fragua
y va a morir al café,
o la niña junto al río
y tú en tu cañaveral
y la tierra y el bohío
fueran todos del central
y el hambre y los goterones
de sangre y lágrimas y
sudor agrio, en los terrones
de tu patria, para tí
fueran solamente. Fueran
sólo de tu soledad.

Y como si hoy estuvieran
solos los hombres de edad,
y las mujeres de espera
y los jóvenes de amor.
Como si el mundo no fuera
hoy tu apoyo y tu vigor:
miles de manos y fuegos
de millones en un haz;
de soldados, de labriegos,
de los que llenan la paz
de alegría y de esperanza,
de los que van al taller
o vienen de la labranza,
de los que saben leer...

De aquél que no, pero sabe
tu lomo herido y tu voz,
llena de un silencio grave
y de un agravio precoz.
Del ecuador hasta el polo
hoy todos luchan por tí.
Te acosa el hambre y el dolo
sólo que tú no estás solo
¡Dominí, no estás tan solo,
no estás solo, Dominí!»

JDACT

Homenagem. Adriano Correia de Oliveira. As minhas Barbas. Óscar Lopes. «… um “poeta em acção”, um poeta que tende para o homem responsável e total. A sua canção tem o seu ponto de partida mais reconhecível no fado estudantil coimbrão, lírico, com uma linha melódica apoiada na guitarra e/ou viola»

jdact

«Uma das feições mais salientes da nossa vida artística dos anos 60 é o regresso da poesia de grande publico à sua relação conjugal com a música. Essa reconciliação entre a música e a poesia de intervenção cívica integra-se então numa voga internacional de balada democrática e, entre nós, está em estreita relação com os movimentos estudantis que marcaram o início e o final desse decénio de 60. É certo que a tradição de poetar directamente para o violão vinha já de João de Deus e até do árcade de origem brasiIeira Caldas Barbosa, que se auto-alcunhou de Calda de Açucár. É certo que Augusto Gil e António Nobre escreveram quadras vocacionadas para o canto; e, quer o fado lisboeta, quer o fado coimbrão estão ligados a uma vária autoria poética a que conferem, por vezes, uma espécie de consagração pelo anonimato. Mas a poesia de resistência dos anos 60 deriva mais directamente daquela que, pela mão por exemplo de Carlos de Oliveira e Gomes Ferreira, assinalou o primeiro alento de luta política democrática do final da II Guerra Mundial. Mais tarde, após o 25 de Abril, surgirão realizações de uma poesia não apenas unida à música vocal e instrumental, mas ainda ao teatro, ao espectáculo em geral, e, em suma, àquilo que poderíamos chamar a arte total em acção.
Permita-se-me lembrar que a palavra de étimo grego drama designava, na origem, precisamente isto, poesia em acção, e que a palavra de étimo latino actor equivale originariamente a agente, pois as peças de teatro eram, em latim, concebidas de início como res gerendae, o que também se pode traduzir por poesia em acção. Adriano Correia de Oliveira é um poeta em acção, um poeta que tende para o homem responsável e total. A sua canção tem, sem duvida, o seu ponto de partida mais reconhecível no fado estudantil coimbrão, lírico, predominantemente elegíaco, com uma linha melódica apoiada na harmonização à guitarra e/ou viola, e um páthos tipicamente romântico nos portamentos que prolongam ad libitum as sílabas tónicas das palavras de efeito. Mas os dois grandes temas da juventude académica de então eram as guerras injustas e dementadas contra os povos colonizados e aquele conjunto de aspirações que se exprime pela bela palavra liberdade. O soldado que vai à guerra e volta num caixão de pinho é a projecção de um destino provável para esses jovens que, em termos cantados pelo nosso trovador, fazem da capa negra a bandeira da liberdade. Para alguns, essa liberdade cingia-se às tradições liberais e à oposição a uma guerra que, no nosso tempo, parecia já, evidentemente injusta, por uma razão que os antigos liberais, paradoxalmente, ainda não eram capazes de ver. Mas Adriano Correia de Oliveira esteve desde cedo e até à morte com aqueles para quem a liberdade se concretiza em metas como a abolição da exploração pela mais-valia, como a libertação da terra latifundiária, como a realização programática e até constitucional das melhores virtualidades humanas, individuais e colectivas, e como a autêntica autodeterminação nacional, na economia e também na cultura.
E é para cantar todas estas liberdades, formais e reais, que Adriano mobiliza símbolos que vêm de toda a tradição poética portuguesa: são as barcas que já para a guerra levavam, à amiga, o amigo das cantigas trovadorescas de Martim Codax; são as águas, que constituem o arquétipo das almas apaixonadamente livres da Menína e Moça de Bernardim; e é o vento, símbolo romântico, e, entre nós, herculaniano, da paixão e da revolta. E nos poemas cantados por Adriano são ainda bem legíveis as tradições trágico-marítimas de cinco séculos, são-no traços satíricos populares da Restauração antifilipina, contra a integração de Portugal na grande Europa reaccionária de então dos Habsburgos, são-no legíveis motes dos liberais cercados no Porto em 1832, da insurreição patuleia e da propaganda republicana. E, para além destas vozes históricas, há timbres vocais específicos que assinalam regiões várias da nossa sensibilidade popular». In Óscar Lopes, Homenagem a Adriano Correia de Oliveira, Uma Arte de Música e Outros Ensaios, Oficina Musical, Porto, 1986.

Cortesia de OMusical/JDACT

Flamengo. Paco de Lucia. «Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma»

Cortesia de wikipedia

«Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilizacão de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Génio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu carácter nato quer que eu seja; e meu Génio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser. Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou. Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste. O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de lançar o Interseccionismo, a tranquila posse de mim. Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci».


JDACT

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A Vida Breve. Memória. «A Lembrança está demasiado fresca para sobre ela dizer mais; acabei agora mesmo de fechar os olhos e de voltar costas à tela. Vou respirar fundo, dar uma volta, mirar as estrelas…»

Cortesia de wikipedia

As minhas asas
Eu tinha umas asas brancas,
asas que um anjo me deu
que, em me cansando da Terra,
bati-as, voava ao Céu.

Porque as minhas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
para a terra me pesavam
já não se erguiam ao Céu.

E as minhas asas brancas,
asas que um anjo me deu,
pena a pena ma caíram
nunca mais voei ao Céu.

Poema de Almeida Garrett, voz de Luís Góis


JDACT

A Vida Breve. Memória. «Hoje será como todos os dias: lhe falarei, junto ao leito, mas ele não me escutará. Não será essa a diferença. Ele vivia noutro mundo. Diferença está na marmita que adormecerá, sem préstimo, na sua cabeceira. Ele devorava os meus preparados…»

Cortesia de wikipedia

Para a D. Flora e Filhas

Companheiros
Quero escrever-me de homens
quero calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho.

E quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados.

Deixo-vos
a paciência dos rios
a idade dos livros que não se desfolham.

Mas não lego
mapa nem bússola
porque andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me às vezes viver.

Hei-de inventar
um verso que vos faça justiça.

Por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho.

Basta-me saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros.

Poema de Mia Couto, Moçambique, África, 1984.

JDACT

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Nelson Mandela. A Sua Mensagem. «A morte é inevitável. Quando um homem fez o que considera seu dever para com seu povo e seu país, pode descansar em paz. Acredito ter feito esse esforço, e é por isso, então, que dormirei pela eternidade»

(1918-2013)
Mvezo, Cabo Oriental, África do Sul
Cortesia de wikipedia

«Uma boa cabeça e um bom coração são sempre uma combinação formidável. Depois de termos conseguido subir a uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir. A educação e o ensino são as mais poderosas armas que podes usar para mudar o mundo. Ser pela liberdade não é apenas tirar as correntes de alguém, mas viver de forma que respeite e melhore a liberdade dos outros. Eu aprendi que a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo. Se falares a um homem numa linguagem que ele compreenda, a tua mensagem entra na sua cabeça. Se lhe falares na sua própria linguagem, a tua mensagem entra-lhe directamente no coração. Se tu queres fazer as pazes com o teu inimigo, tens que trabalhar com o teu inimigo. E então ele torna-se o teu parceiro. Tudo parece impossível até que seja feito. É melhor liderar a partir da rectaguarda e colocar outros à frente, especialmente quando estamos a celebrar uma vitória por algo de muito bom que aconteceu. Mas deves tomar a linha da frente quando há perigo. Desta forma as pessoas irão apreciar a tua liderança. O dinheiro não cria o sucesso, mas sim a liberdade de criar o sucesso». In Nelson Mandela.


«Não existe revelação mais nítida da alma de uma sociedade do que a forma como esta trata as suas crianças. Não existe nenhum passeio fácil para a liberdade em lado nenhum, e muitos de nós teremos que atravessar o vale da sombra da morte vezes sem conta até que consigamos atingir o cume da montanha dos nossos desejos. Não há qualquer paixão a atingir vivendo de forma minimalista - vivendo de uma forma que é menos do que aquela que nós seríamos capaz de viver. Liberdade parcial não é liberdade. Quando a água começa a ferver é uma estupidez tentar desligar o calor. À medida que nos libertamos do nosso próprio medo a nossa presença liberta automaticamente outros. A maior glória de viver não consiste em jamais cair, mas em reerguermo-nos sempre que o fizermos. "Será que alguém pensa genuinamente que se não conseguiu algo foi por não ter tido o talento, a força, a resistência e a determinação nesse sentido? Deixem reinar a liberdade. O Sol nunca se põe em tal façanha humana. Não há como regressar a um local que se mantém inalterado para nos apercebermos da forma em que mudámos». In Nelson Mandela.


«Devemos usar o tempo sensatamente e entender que o momento é sempre adequado para se fazer o bem. A bondade do homem pode ser escondida, mas nunca extinta. Quando acendemos a nossa própria luz inconscientemente, damos permissão a que outros façam o mesmo. A prioridade é sermos honestos connosco. Nunca poderemos ter um impacto na sociedade se não nos mudarmos primeiro. Os grandes pacificadores são todos gente de grande integridade e honestidade mas, também, de humildade. Perigos e dificuldade não nos travaram no passado e não nos assustarão agora, mas devemos preparar-nos para eles, como homens determinados quanto ao que pretendem e que não perdem tempo com conversas vãs e inacção. A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo. A educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através dela que a filha de um camponês se torna médica, que o filho de um mineiro pode chegar a chefe de mina, que um filho de trabalhadores rurais pode chegar a presidente de uma grande nação. É aquilo que fazemos do que temos, e não o que nos foi dado, que distingue uma pessoa de outra. Não sou um santo, a menos que vejam um santo como um pecador que continua a tentar. Ninguém nasce a odiar outra pessoa devido à cor da sua pele, ao seu passado ou religião. As pessoas aprendem a odiar, e, se o podem fazer, também podem ser ensinadas a amar, porque o amor é mais natural no coração humano do que o seu oposto. Quando penso no passado, no tipo de coisas que me fizeram, sinto-me furioso, mas, mais uma vez, isso é apenas um sentimento. O cérebro sempre domina e diz-me: tens um tempo limitado de estada na Terra e deves tentar usar esse período para transformar o teu país naquilo que desejas. Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. O nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta. Nos perguntamos: Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível? Na verdade, quem sou para não ser tudo isso?... O pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de nós. E à medida que deixamos a nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo».  In Nelson Mandela.


«Do avesso desta noite que me encobre,
preta como a cova, do começo ao fim,
eu agradeço a quaisquer deuses que existam,
pela minha alma inconquistável.
Na garra cruel desta circunstância,
não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.
Além deste lugar de ira e lágrimas
avulta apenas o horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
encontra-me, e me encontrará destemido.
Não importa quão estreito o portal,
quão carregada de punições a lista,
sou o mestre do meu destino:
sou o capitão da minha alma».
In William Ernest Henley, 1875, quando Nelson Mandela comemorou 20 anos de liberdade.


Cortesia de Citador/JDACT

sábado, 11 de junho de 2011

Adriano Lucas: A condecoração de Grande Oficial da Ordem do Mérito. «Um tributo à liberdade de imprensa»


Cortesia de independentepelafregueia e jdact

«A condecoração de Adriano Lucas, que faleceu a 21 de Março deste ano, com o título de Grande Oficial da Ordem do Mérito representa «um tributo à liberdade de imprensa», considera Adriano Callé Lucas. «Foi algo, a liberdade de expressão, por que o meu pai sempre se bateu», realçou o filho do antigo director do Diário de Coimbra (DC), no final da sessão solene do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portugueses, em que se distinguiram ainda mais quatro personalidades de Coimbra.
Na opinião do actual director do Diário de Coimbra, a homenagem a título póstumo, ao engenheiro Adriano Lucas tem a particularidade de «ajudar os outros jornais e empresas em busca da verdade e da independência face aos poderes».

Responsável pelo Diário de Coimbra nos últimos 60 anos, Adriano Lucas dedicou grande parte da vida à Comunicação Social, em especial à imprensa diária regional, e foi ele também o representante dos jornais diários portugueses na comissão que elaborou a primeira Lei de Imprensa do pós-25 de Abril. Engenheiro, empresário e gestor de várias empresas, o homem que passa a estar na lista das personalidades condecoradas pela República serve também de inspiração a um prémio municipal de jornalismo.

Cortesia do dc

Condecorados quatro professores da Universidade de Coimbra.
Se a memória de Adriano Lucas mereceu aplausos em Castelo Branco, também o mérito de mais quatro personalidades ligadas à Universidade de Coimbra, Maria Helena da Cruz Coelho, Fernando Seabra Santos, Luís Maló de Abreu e Miguel Castelo Branco. Quem não quis perder o momento em que quatro personalidades da Cidade do Conhecimento foram homenageadas foi Artur Santos Silva, presidente do Conselho Geral da UC». In Diário de Coimbra.

Cortesia de D. de C./JDACT

terça-feira, 8 de março de 2011

Maria Rosa Colaço: Homenagem para ti... Dia Mundial da Mulher. «Partam a caixa de vidro, tirem a postiça paisagem, deixei-me ao mesmo espaço para a última viagem»

(1935-2004)
Torrão
Cortesia de opharol

À Menina Vestida de Noite
Menina de preto
tão triste!Tão nua!
Corpinho de fome
olhinhos da lua.

De lua de luto
da lua de dó
menina de preto
tão triste! Tão só!

Menina, menina
tão rica de nada
dá a tua mão
de flor desfolhada.

Dá-me a tua mão
anda a ver a vida
menina calada
de preto vestida.
Maria Rosa Colaço

Cortesia de almadepoeta
O Pirilampo
Nos dedos da noite
sou uma lanterninha
pareço uma estrela
que viaja sózinha.

Nas horas serenas
cheias de calor
eu pouso nos ramos
na terra e na flor.

E vivo contente
com a minha sina
basta-me esta luz
mesma pequenina.

É tudo o que espero
não peço mais nada:
Ser o sol que baste
para a minha estrada.
Maria Rosa Colaço

Cortesia de lendosempre
Peixe no Aquário
Que tristeza a vida
na casa fechada
com búzios fingidos
com areia pintada.

Que saudades do vento
que saudades do mar
que saudades do sol
da água a cantar.

Que raiva ser peixe
em sala de gente
tudo o que é igual
deixa-me doente.

Era melhor um anzol
era melhor uma rede
os dias sem aventura
não matam fome nem sede.

Partam a caixa de vidro
tirem a postiça paisagem
deixei-me ao mesmo espaço
para a última viagem.
Maria Rosa Colaço

Cortesia de eb1mariarosacolacorcts

 MLCT e JDACT

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cesário Verde: «Hei de mostrar, tão triste e tenebroso, os pegos abismais da minha vida, e hei de olhá-la dum modo tão nervoso»

Cortesia de daliedaqui

Esplêndida
Ei-la! Como vai bela! Os esplendores
Do lúbrico Versailles do Rei-Sol!
Aumenta-os com retoques sedutores.
É como o refulgir dum arrebol
Em sedas multicores.

Deita-se com langor no azul celeste
Do seu landau forrado de cetim;
E os seus negros corcéis que a espuma veste,
Sobem a trote a rua do Alecrim,
Velozes como a peste.

É fidalga e soberba. As incensadas
Dubarry, Montespan e Maintenon
Se a vissem ficariam ofuscadas
Tem a altivez magnética e o bem-tom
Das cortes depravadas.

É clara como os pós à marechala,
E as mãos, que o Jock Club embalsamou,
Entre peles de tigres as regala;
De tigres que por ela apunhalou,
Um amante, em Bengala.

É ducalmente esplêndida! A carruagem
Vai agora subindo devagar;
Ela, no brilhantismo da equipagem,
Ela, de olhos cerrados, a cismar
Atrai como a voragem!

Os lacaios vão firmes na almofada;
E a doce brisa dá-lhes de través
Nas capas de borracha esbranquiçada,
Nos chapéus com reseta, e nas librés
De forma aprimorada.

E eu vou acompanhando-a, corcovado,
No trottoir, como um doido, em convulsões,
Febril, de colarinho amarrotado,
Desejado o lugar dos seus truões,
Sinistro e mal trajado.

E daria, contente e voluntário,
A minha independência e o meu porvir,
Para ser, eu poeta solitário,
Para ser, ó princesa sem sorrir,
Teu pobre trintanário.

E aos almoços magníficos do Mata
Preferiria ir, fardado, aí,
Ostentando galões de velha prata,
E de costas voltadas para ti,
Formosa aristocrata!
Cesário Verde
 
Homenagem ao poeta, quando se comemoram 156 anos do seu nascimento
(25 de Fevereiro de 1855)
 
Cinismos
Eu hei de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.

Hei de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.

Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.

Hei de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei de olhá-la dum modo tão nervoso,

Que ela há de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há de chorar, chorar enternecida!

E eu hei de, então, soltar uma risada.
Cesário Verde

JDACT