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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. «Fechou os olhos e escutou a voz do judeu, por cima do ronronar do seu próprio sangue: ... eu sou o seu único amigo... Deixe-se levar... Fale...»

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Rennes le Château. 18 de Junho de 1891
«(…) Bérenger tinha-se deixado cair numa cadeira. a olhar para o vazio. Tinha os lábios entreabertos e o rosto ensombrado pelo cansaço. Vinte e duas horas de trabalho. Vinte e duas, o Mat, o número do conhecimento reservado à elite. E, no entanto, podiam ter sido vinte e dois segundos, ou vinte e dois anos. Era incrível como o tempo se contraía e dilatava. A amargura tinha-se apossado da sua alma, e estava prestes a renunciar. As noites, os dias, os meses sucediam-se uns aos outros, sem que os manuscritos revelassem o seu segredo. Mantinha-os desenrolados sobre a mesa, com os cantos seguros com pedaços de telha. Ansiava entender os sinais, conhecer a sua origem, avançar na senda do conhecimento. Mas faziam-lhe falta chaves... Pedi-las a Boudet? Uma loucura. A velha raposa arrancava-lhos da mão para os usar em seu proveito. E se falasse com Billard? Era demasiado rápido. O bispo, que era um negociante, oferecer-lhe-ia a seguir um bom preço, e ele mesmo era capaz de dizer que sim. O espólio vai ser meu, repetiu mentalmente: o espólio. Porquê precisamente essa palavra? Que caminho o tinha levado até ali? Deteve-se um bocado a reflectir. Voltou ao quarto pergaminho e releu as frases do Novo Testamento, demorando-se nas palavras coladas umas às outras, nas misteriosas palavras acrescentadas. Nada... Não entendia nada. A sua mente associava ideias incoerentes, as frases que reconstruía não compunham nenhuma mensagem. Espólio... Espólio... Estou a ficar louco. Nem sequer é uma palavra latina, mas sim alemã. Não há uma única palavra parecida com espólio, nem captura, nem restos, nem tesouro.
O temor da superstição agravava a sua incompreensão. Levantou o punho para o descarregar sobre o manuscrito, quando uma silhueta preta chamou a sua atenção atrás da janela. Não reconheceu de imediato o homem gordo que se aproximava da sacristia. O desconhecido avançava arrastando os passos devido ao cansaço. Era Elias, o judeu. Bérenger correu para a janela e gritou: meu amigo! Finalmente está aqui. Elias parecia absorto numa ilusão. Deteve-se, cabeceando ao ritmo latejar do peito. Levantou a cabeça, com os olhos enevoados por formigueiro negro, e viu Saunière a sorrir lá em cima. Ah, Saunière! Pensei que nunca chegaria aqui... Abra, estou a morrer de sede. Desço já! Bérenger desceu a escada a correr. O russo já tinha entrado em casa. Os seus olhos vivazes percorriam os cantos, apoderando-se dos objectos. Abraçou Bérenger e deixou-se cair numa cadeira. Esticou as pernas pesadas, o corpo dorido. Amaldiçoou pela última vez aquele corpo gordo, que era a contrapartida da sua genialidade: um dia, toda aquela gordura acabaria por levá-lo à morte. Veio por onde?, perguntou Bérenger, servindo-lhe um copo de vinho. Pelo trilho... A caminhar... Existe algum outro caminho? Elias esvaziou o copo de vinho. Agora dê-me água. Naturalmente... Há vários caminhos de cabras, mas pelo seu aspecto, parece que teve de subir escalando um precipício. E a sua bagagem? Chegará a devido tempo, dependendo do que tiver para me contar. Não creio que tenha feito este caminho para nada... Estou enganado? Bérenger espiou os olhos escuros de Elias, que pareciam capazes de vislumbrar os mundos do além.
Não encontrou nenhuma maldade nele. Pelo contrário, no seu olhar havia algo de inefável e subtil: era o amor. Posso confiar nele. Descobri uns manuscritos na igreja... Pensei que o senhor me poderia ajudar. Depende do seu conteúdo, e do que quiser que eu faça. Não temos pressa... Tranquilize-se. Estou perfeitamente tranquilo! Vejo para lá  das aparências. O sofrimento consome-o. Bérenger engoliu em seco. Elias dizia a verdade. Tinha visto a sua alma. Não conseguiu resistir ao desejo de lhe revelar as suas angústias. Sou um homem desgraçado... Não pense que o digo com narcisismo, não me gabo das minhas desgraças. Mas sinto-me perseguido pela má sorte e a contrariedade. Está a falar-me de uma intuição? Não! Então é o resultado de um raciocínio. Explique-se, dê-me elementos para avaliar. Elias agarrou-o pelo braço para o obrigar a falar. O seu rosto endureceu-se. Agora, uma luz intensa brilhava-lhe nos olhos. Porque é que agora tenho medo deste judeu?, interrogou-se Bérenger, estremecendo. Porque Deus o tinha feito tão genial? Não devo deixar-me subjugar!
Não tente dominar-se, prosseguiu Elias. É natural sentir medo quando nos sentimos ameaçados. Deve aprender a manter a calma. O segredo consiste em separar a realidade dos pesadelos, e eu não sou um pesadelo. Não procure adivinhar quem eu sou. Averiguá-lo-á quando souber reconhecer a essência de todas as coisas que o rodeiam. Ainda não está pronto para ser iniciado. O egoísmo limita as suas possibilidades... Fale! Confie em mim. Bérenger deixou o olhar vaguear pela divisão. Os objectos pareciam envolvidos numa bruma avermelhada e luminosa. Não conseguia distinguir a posição dos ponteiros do relógio, apesar de estar ao alcance da sua mão. O mundo esmigalhava-se, pouco a pouco a sua consciência adormecia. Fechou os olhos e escutou a voz do judeu, por cima do ronronar do seu próprio sangue: ... eu sou o seu único amigo... Deixe-se levar... Fale...
Pouco a pouco, Elias afrouxou os dedos até soltar o braço de Bérenger. Depois, passou a mão esquerda diante dos olhos do sacerdote. Com os seus dedos compridos e finos, traçou no ar um sinal de poder que convergia na fronte de Bérenger. O sacerdote deixou de se debater. O frio invadiu-lhe o corpo e, por momentos, pôs-se a tremer e julgou que o seu fim tinha chegado. Logo a seguir sentiu a tibieza. A primeira recordação acudiu à sua mente com precisão diabólica: era o odor dos cabelos de Marie. Recordou a forma dos seus lábios, as ancas largas onde ansiava perder-se. Tudo começou no dia em que ela chegou...» In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. «Um carvalho acolheu-o sob a sua sombra. Encostou as costas ao tronco, deixando-se escorregar. Chegou o momento. Voltou-se para a aldeia, fechando os olhos para se concentrar»

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Rennes le Château. 20 de Junho de 1889
«(…) Bérenger esperava aquela declaração. A comédia foi rápida e eficaz: talvez, mas é melhor reflectir ponderadamente. São muito antigos. Em Toulouse ou em Paris, alguns historiadores pagariam um bom preço por eles. Valia a pena vendê-los. Deixe-os um tempo comigo e arranjarei comprador. Que me diz? Combinado, respondeu o alcaide animado, apertando a mão de Bérenger. Agora, a sua imagem era o vivo retrato da satisfação. Os números já desfilavam pela sua cabeça: duzentos, trezentos, quinhentos..., mil francos? Ficou a olhar para o cura. Depois sorriu. As suas especulações tinham chegado ao topo: três mil francos? E se Saunière o vigarizava? Quero uma cópia dos manuscritos, disse, olhando outra vez para o chão. Empenhar-me-ei para que tenha uma transcrição. Quando fecharmos o negócio, trago-lhe uma acta da venda. Fica mais tranquilo? Sim. Então brindemos. Bérenger pegou-lhe no braço, sem deixar de reflectir. Só havia um homem que lhe podia emprestar o dinheiro. Quando o alcaide se fosse embora, escreveria a Elias Yesolot.

Rennes le Château. 18 de Junho de 1891
O caminhante tinha partido antes da alba, para se deleitar no momento em que a noite se libertava do incêndio do dia. Agora, ofegava e gemia pela encosta, De vez em quando parava, tomava fôlego e olhava para leste, regozijando-se com as chamas errantes que aumentavam e se juntavam para dar vida ao novo sol. Nahash, o tentador, tinha fugido juntamente com as criaturas das trevas. Saudou o amanhecer com uma vénia e continuou a andar. O sol não tardaria a fazê-lo sofrer. Um rebanho já subia em direcção aos Pirenéus, tocado pelos pastores. Escutou os chocalhos dos carneiros, os guizos e as campainhas dos cordeiros e das ovelhas. Quando as bestas se amontoaram à sua volta, descobriu que traziam talismãs ao pescoço; pedras da saúde e medalhinhas. O vento sussurrava segredos. Nessa altura, um pastor clamou por entre as rajadas: fui até à cerca, vi três eremitas, traziam pedras más, para destruir os campos. Menino Jesus, leva-os daqui.
Agachou-se, a escutar. Os pastores tinham medo. Tinham sempre medo. Será que o pastor tinha invocado Jesus por causa dele? A voz tinha-se calado. Ao longe, os cordeiros já corriam alegres para o vale. Estava outra vez sozinho e começava a sentir o cansaço. Sentia o corpo pesado, mole. Uma carapaça de banha rodeava-lhe o coração. De vez em quando, tropeçava nas pedras. Não tinha sido feito para escalar montanhas. Não devia ter subido a pé desde Couiza. Quanto lhe faltaria ainda percorrer? Levantou o olhar, avaliando a distância que o separava do seu destino. A fita pálida do caminho enredava-se e retorcia-se pela encosta da colina, tornando-se cada vez mais estreita. No cimo, o céu era uma miragem de branco e azul, onde o temível sol dominava. Passada meia hora, avistou finalmente a aldeia. Não tinha mudado nada. Continuava a ser uma aldeia miserável, perdida no meio da solidão. Um carvalho acolheu-o sob a sua sombra. Encostou as costas ao tronco, deixando-se escorregar. Chegou o momento. Voltou-se para a aldeia, fechando os olhos para se concentrar. Sentiu pensamentos confusos. Eram os dos camponeses. Momentos depois, distinguiu os pensamentos de Bérenger. O sacerdote estava perturbado e o seu espírito lutava contra um problema insolúvel. No entanto, não corria nenhum perigo. O homem de preto levantou-se mais tranquilo. Podia entrar na aldeia. Não havia nenhum inimigo em Rennes». In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. «Logo a seguir reconheceu o rasto da Igreja. Quanto poderiam valer? A avaliar pela cara do cura, pouca coisa. Deus et bomo, prin... ci... pium et... finis»

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Rennes le Château. 20 de Junho de 1889
«(…) No dia seguinte, Bérenger recebeu a visita do alcaide, que tinha sido alertado por Babou e Rousset. Viu-o aproximar-se da janela do segundo andar, onde tinha instalado o seu escritório. O gordo alcaide deteve-se diante da igreja, como que amodorrado. No entanto, era um homem astuto. Não nos devíamos fiar nos seus ombros caídos, nem nos seus passos vacilantes, tão-pouco no ar submisso com que olhava as fendas ressequidas pelo sol. Tinha mandado demolir os muros da aldeia, depois do gabinete de Goblet e o general Boulanger, seu ministro de guerra, terem caído por obra da direita e dos moderados. No entanto, na sua atitude havia um desejo de vingança copiado dos artigos de A lanterna e O intransigente, que lia com regularidade. Era ele quem tinha mandado os jovens recrutas da aldeia gritar pelas ruas: que lutem os curas! (desde Julho de l889, os sacerdotes franceses deviam prestar também o serviço militar). Tinha o mesmo calcanhar de Aquiles de todos os homens de Razès: o dinheiro. O ruído das notas de banco e o tilintar das moedas de ouro, tinham-no tirado essa manhã da cama. Tinham acendido duas candeias nos seus olhos matreiros. Vem por causa dos documentos, disse Bérenger para consigo Babou e Rousset deram à língua. Enrolou os manuscritos e meteu-os dentro dos cilindros. Tinha-os estudado, em vão, toda a noite. Continham três genealogias misteriosas e diversos textos incompreensíveis em latim, que misturavam citações do Novo Testamento e letras do alfabeto, numa desordem total. Confirmou as suas suspeitas depois de dar uma vista de olhos ao átrio da igreja. Os dois operários tinham vindo cumprimentar o alcaide, que lhes respondeu com a mão e sorriu mostrando os dentes todos cariados. Manter a calma, acima de tudo. O fundamental era isso. Só assim conseguiria conservar a sua descoberta. Bérenger esperou que o alcaide batesse à porta pela segunda vez e desceu para abrir com parcimónia. Respirou fundo, quando chegou à entrada. Aproximou-se com passo sigiloso e abriu a porta de par em par. O alcaide olhou-o sem pestanejar. Por instantes, o seu olhar cruzou-se com o do cura, depois voltou a olhar para o chão. Bérenger notou um sorriso debaixo do seu espesso bigode ruivo. Não passava de uma falsa impressão, tão falsa como a mão húmida que apertou sem entusiasmo. Bom dia, padre, murmurou o alcaide. Bom dia, senhor alcaide... Vem confessar-se? Queria dizer-lhe... Não, não tenho nada para confessar... É que as obras que anda a fazer... Sabe do que é que falo?... Aquilo do pilar. Os pergaminhos. Quer dar-lhes uma vista de olhos? Sim. Siga-me. Subiram ao quarto de cima. Bérenger estendeu-lhe os cilindros e o alcaide pegou-lhes com mãos ávidas. Meteu os dedos calejados nas aberturas e tirou os manuscritos, um a um. Logo a seguir abanou os cilindros, olhou-os à luz da janela para ver o fundo, voltou a abaná-los como se houvesse algo escondido lá dentro. Estavam irremediavelmente vazios. Não havia mais nada?, perguntou despeitado, apontando para os manuscritos. Não me diga que pensou que continham pedras preciosas... Não passam de estojos. Foram lacrados para proteger estas actas da degradação. O alcaide desenrolou um dos pergaminhos, com expressão desgostosa. Logo a seguir reconheceu o rasto da Igreja. Quanto poderiam valer? A avaliar pela cara do cura, pouca coisa. Deus et bomo, prin... ci... pium et... finis, leu penosamente, sem entender o significado, e interrogou Bérenger com o olhar. Deus e Homem, começo e fim, traduziu Bérenger, com um sorriso de superioridade. O alcaide sentiu-se humilhado. Cura asqueroso. Quem se julgava ele? Limpo o cu ao teu latinório. Detestava aqueia língua que mantinha os profanos, como ele, à margem dos assuntos do clero. Saunière não devia esquecer que a sua igreja agora pertencia à comuna. Tenho de levá-los. Perdão? É meu dever conservá-los nos arquivos comunitários». In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. «Agora rodem-na para o lado, ordenou Bérenger. Os homens afastaram-se passo a passo do pilar, esmagados pelo peso. A lousa rodou sobre os ombros do sacerdote, que permaneceu no seu lugar»

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Rennes le Château. 20de Junho de 1889
«(…) Os operários paravam de vez em quando para limpar o suor. Bérenger estava de costas, quatro passos mais à frente, a meditar diante de Santo António. As palavras de Boudet, que tinha visto na véspera, ainda repicavam na sua cabeça: amanhã, à segunda hora da tarde, retirará a lousa de pedra do altar. De acordo com o binário, a essa hora os peixes do zodíaco louvarão a Deus, as serpentes de fogo enlaçar-se-ão no caduceu (vara de louro ou oliveira com duas serpentes enroscadas na ponta, que era atributo de Mercúrio e insígnia dos antigos parlamentários e arautos, e que hoje se emprega como símbolo do comércio) e o relâmpago conhecerá a harmonia. Não tinha compreendido uma palavra. No entanto, estava atento ao relógio. Já eram duas horas. Tinha chegado o momento. Voltou-se e fulminou os operários com o olhar, que jaziam tombados nas cadeiras com as ferramentas entre as pernas. Rousset e Babou ficaram inquietos. Nunca tinham visto Bérenger tão enervado. Era mesmo o diabo, esse cura!, Babou voltou a picar o chão com o maço e o buril. Pára!, troou Bérenger. O que é que se passa? Babou engoliu em seco. Retirem a pedra do altar-mor.
Os dois homens quiseram obedecer, mas por mais que empurrassem, apenas conseguiram deslocar a pedra uns centímetros. Babou deixou-se cair, extenuado. Rousset caiu a seguir, corado com o esforço. Ambos ofegavam desalentados, com a garganta seca, a pensar no absinto fresco que beberiam essa noite. O que é que se passa?, surpreendeu-se Bérenger. É demasiado pesad. Se o senhor não nos ajudar não conseguiremos movê-la. Corre-vos água nas veias... Afastem-se. O sacerdote era conhecido pela sua força prodigiosa, mas não conseguiram disfarçar o sorriso. Como é que lhe passava pela cabeça que podia sozinho com a pedra? Ia partir a espinha, no mínimo. Bérenger apoiou-se num dos pilares visigodos que sustentavam a enorme lousa, retesou os músculos e empurrou-a para cima com os ombros. Pouco a pouco, endireitou-se diante do olhar atónito dos operários. Vai-lhe cair no chão!, gritou Babou. Não faz mal, mau cristão, esforçou-se Bérenger com uma careta. Trata-se de trocá-la por uma nova... Se não queres que se parta, segura-a do outro lado. Babou começou a fazer esforços desesperados para manter a lousa em equilíbrio. Rousset agachou-se debaixo da lousa para o ajudar.
Agora rodem-na para o lado, ordenou Bérenger. Os homens afastaram-se passo a passo do pilar, esmagados pelo peso. A lousa rodou sobre os ombros do sacerdote, que permaneceu no seu lugar. Mas Bérenger, em vez de os seguir, apoiou outra vez a sua carga sobre o outro pilar. O que é que está a fazer?, gritou-lhe Rousset. Estou a descansar. Os dois compadres ofegavam sob o olhar divertido do sacerdote. O peso da lousa mantinha-os pregados ao chão, e não se atreviam a fazer o menor movimento. Também já não podiam voltar ao ponto de partida. Às vezes, não sei se estamos feitos à imagem e semelhança de Deus. Padre! Porque é que diz isso? É a verdade. Vocês não passam de criaturas fracas. Por favor, padre, tire-nos daqui. Primeiro vão-me contar quem é que anda a dizer que me deito com Marie todas as semanas, quando me traz notícias do abade Boudet. Nós não, padre... Além disso, é normal. Apesar de tudo, o senhor é um homem. Quero saber. Babou já não aguentava mais. Doía-lhe o corpo e tremiam-lhe as pernas. Não parecia que o cura fosse ceder. Se largasse a lousa, corria o risco de lhe esmagar uma perna. Preferiu falar: é Alexandrine Marro. Já suspeitava. Bérenger desatou a rir. Essa velha harpia tem-me rancor desde que cheguei à aldeia... Porque não me quis alojar em casa dela. Vou-vos livrar da carga, uma vez que não posso livrar-vos dos vossos pecados. Que, por certo, não são poucos. Iremos confessar-nos!, gritaram os homens.
Satisfeito, Bérenger contornou o pilar com os braços e levantou no ar a extremidade da lousa. Levaram-na imediatamente para o fundo da igreja. De regresso ao altar, Babou apoiou-se num dos pilares para limpar a testa. Po…!, disse surpreendido. É oco! É oco como?. Bérenger correu para o lado dele. Sim, é oco. Até tem plantas cá dentro. Bérenger afastou Babou e enterrou a mão na abertura. Continuou a enterrá-la. Tirou um molho de fetos secos e três cilindros de madeira lacrados. O coração deu-lhe um baque. Seria esse o segredo de Boudet?» In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT

segunda-feira, 16 de maio de 2016

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. « Creio que irá encontrar com que se entreter. Com que se entreter? O que é que insinuava com isso? Bérenger compreendeu logo a seguir»

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Rennes le Château. 11 de Novembro de 1888
«(…) Bérenger estava a mil léguas da Eucaristia. Os arranhões de Marie ardiam-lhe no corpo, os gritos da rapariga ressoavam-lhe na cabeça. Os seus pensamentos ainda se confundiam na doce modorra que nasce no amor. Conseguiu responder com aprumo: sei que diz a verdade. Sei distinguir o bem do mal, é um dom que Deus me concedeu. O senhor é um homem de bem, e a partir de agora abro-lhe as portas da minha casa e do meu coração. Mas permita-me que lhe pergunte de que país vem. O nome francês não consegue disfarçar que é estrangeiro. Não me surpreenderia se me dissesse que é alemão. Austríaco. Austríaco! E chama-se realmente Guillaume? Não... Perdoe-me..., não tenho o direito de continuar a mentir-lhe. Sou o arquiduque João Estêvão Habsburgo, primo do imperador da Áustria-Húngria e descendente do grande Rodolfo. Foi como se o céu se abatesse sobre a sua cabeça, como se um vendaval o atirasse ao chão. A imagem de Marie apagou-se dos seus pensamentos. Sentou-se, sentindo-se atordoado. Sob a luz cinzenta, tudo à sua volta lhe parecia sujo e vetusto. No seu miserável quarto, estava um dos homens mais poderosos da terra. O arquiduque... O Habsburgo... Ali mesmo, em sua casa, no meio daquela espelunca esquecida de Deus. Ainda não conseguia acreditar. O que é que devia fazer? E pensar que o príncipe tinha bebido o seu mau vinho...
Bérenger sentia vontade de despertar. Nunca tinha estado em semelhante situação, salvo nos seus sonhos matutinos, além do mais, sempre interrompidos. Mas talvez isso mesmo os tornasse suportáveis. Agora, o sonho era real. O príncipe era de carne e osso, estava ao alcance da sua mão, sorria como qualquer homem. Perdoe-me por o ter recebido assim, sua excelência, balbuciou Bérenger. Não tem nada que pedir desculpa..., e, sobretudo, nada de etiqueta entre nós. Chame-me Estêvão. Nunca se esqueça que o meu apelido é Guillaume, que o meu pai é francês e a minha mãe é austríaca e que sou viajante de comércio. Não sei se conseguirei... Faz parte da sua missão. Qual missão? Sabê-lo-á quando chegar o momento... Tranquilize-se... Não sou eu quem lhe deve dizer em que consiste. Foi escolhido para ela pelo Priorado de Sião, de que sou membro. É tudo quanto posso revelar. O nome não me diz nada... Onde fica esse priorado? Depende de Roma? Boudet e Billard contam-se entre os seus membros? E Elias? O senhor faz parte do mesmo grupo deles? Diga-me. Faço parte do grupo de Deus. Você aceita esta explicação? Eu...
Seja razoável Saunière. Encarregar-nos-emos que faça fortuna, mas deve dar-nos tempo. Creio que irá encontrar com que se entreter. Com que se entreter? O que é que insinuava com isso? Bérenger compreendeu logo a seguir. O arquiduque levantou-se e dirigiu-se para a escada, acariciou o corrimão com as costas da mão, escrutando o tecto. Não é o suficiente, bem sei, murmurou com o ouvido colado à madeira. Tenha a bondade de aceitar também isto. Meteu a mão num bolso e atirou-lhe um pequeno saco. Bérenger apanhou-o no ar. Ficou estupefacto quando o despejou em cima da mesa. Eram moedas de cem francos de ouro. Estão aí mil francos, disse Estêvão ao seu lado. É um segundo adiantamento, para que ultrapasse os seus problemas com paciência. O senhor enfrentou a República, e pediu ajuda aos monárquicos. A condessa de Chambord atendeu, uma vez mais, a sua súplica. Confio que dê bom uso a essa oferta da Casa de França... Então, Estêvão atirou-lhe um segundo saco: estão aqui mais mil francos. Da parte da Casa da Áustria. Poderá substituir a pedra do altar-mor que, pelos vistos, se encontra em muito mau estado.
Bérenger respondeu: terei... Terei paciência. Diga aos seus amigos do Priorado de Sião que podem contar comigo. Magnífico!, exclamou Estêvão. Assim é que se fala. Aperte a mão, padre, e brindemos uma vez mais antes que me faça ao caminho. Tenho de me ir embora a seguir, aguardam-me outras tarefas. Bérenger apertou-lhe a mão, brindou com ele, acompanhou-o à porta. O sonho tinha terminado, mas o ouro ainda brilhava sobre a mesa. Podia, finalmente, mandar restaurar a igreja. Brincou com as moedas, fazendo-as rodar. A inscrição dos cantos rezava, Deus proteja a França. Que Deus nos proteja, murmurou também uma voz, nas suas costas. Marie abraçou-o pelos ombros, acariciando-lhe os cabelos. As suas ternas carícias afastaram-no das moedas, voltou-se, abraçou-a contra o peito. Começou a beijar-lhe outra vez o pescoço. Sei que te mandaram ter comigo para me fazeres sucumbir, disse-lhe, entre os beijos. Que suave que é a tua pele... Sei que não me contarás nada. Não importa... A única coisa que conta é a verdade que agora brilha nos teus olhos. Olha para mim. A rapariga tinha os olhos humedecidos. Havia amor no seu olhar. Nele também havia paixão. Precisamente quando ia dizer-lhe amo-te, Bérenger esmagou-lhe os lábios com um beijo». In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT

domingo, 10 de maio de 2015

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. «O relâmpago apanhou o olhar de Bérenger... Não era uma medalha. Era uma pequena caixa de ouro redonda, protegida por um vidro e engastada num círculo de cobre onde estavam gravados vários signos»

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Renees-le-Château. 11 de Novembro de 1888
«(…) Agora sentia-se plena, feliz. Nunca ninguém tinha feito amor com ela assim. O próprio Bérenger não parecia o mesmo homem. Ao longo de quatro horas, tinha-a arrastado de prazer em prazer, de deleite em deleite. O que é que lhe teria acontecido para ter mudado tanto? Marie ainda se recordava das carícias inexperientes das suas mãos, essas mesmas mãos que hoje lhe tinham aberto as portas da voluptuosidade. Teria conhecido outra mulher? Voltou a olhá-lo, procurando uma resposta no seu rosto adormecido, galhardo e sensual. Ai, meu amor, pensou, qual será o teu segredo? O que é que querem de ti? Ameaçaram-me para que fosse tua amante... Mas eu já não te poderei fazer mal, embora me façam mal a mim. É demasiado tarde. Amo-te..., amo-te. Abraçou-o. Ele deixou-se abraçar. O torpor durou até baterem à porta. Bérenger ficou lívido. Já vou!, gritou. Um momento! Sussurrou a Marie: não saias daqui. Seria um horror, se o surpreendessem. Vestiu-se a toda a pressa, passou a mão pelo cabelo, fechou a porta do quarto e precipitou-se para a entrada. Já cá estou, disse abrindo a porta. Ficou estupefacto. O homem que tinha diante de si parecia saído de um conto de fadas. Alto, magro, branco e louro, ataviado com um elegante fato de cavaleiro e calçado com botas de couro cru. Tinha os lábios delicados, os olhos nostálgicos e sonhadores. Todo ele era uma estampa de nobreza.
Bons dias, padre, disse, com um sotaque particular. O senhor é o abade Saunière? O próprio. Um sorriso iluminou o rosto do visitante, que tirou o chapéu e fez uma vénia. É um prazer conhecer um partidário dos reis. Quem é o senhor? Chamo-me Guillaume. Posso entrar? Gostaria de falar com o senhor sobre um assunto importante. Faça favor, respondeu Bérenger afastando-se. Logo a seguir deu um grito. Agora me lembro! É o amigo de monsieur Yesolot, falou-me do senhor a primeira vez que nos encontrámos. É ele quem me manda. Bérenger sorriu, mas o seu coração começou a palpitar. Olhou pelo canto do olho para a escada que conduzia à alcova. As roupas de Marie ainda jaziam desordenadas diante da chaminé. Sentiu o rubor no rosto e pegou no visitante pelo braço, conduziu-o até, uma cadeira voltada para a janela. Sente-se... Um copo de vinho...? Com todo o gosto!, respondeu o outro, deixando-se cair na cadeira.
Bérenger atirou-se aos saiotes, apanhou-os de relance e enrodilhou-os com o vestido. Sem se deter para reflectir, atirou a roupa para dentro de uma arca e rodou sobre si mesmo, pegou na garrafa e nos copos, e foi ter com o visitante. O estranho desabotoou o casaco com parcimónia. A sua fronte altiva, os seus olhos sonhadores, todo o seu rosto transmitia majestade e gentileza. Uma medalha brilhou-lhe sobre a camisa, quando abriu as golas para se pôr à vontade. O relâmpago apanhou o olhar de Bérenger... Não era uma medalha. Era uma pequena caixa de ouro redonda, protegida por um vidro e engastada num círculo de cobre onde estavam gravados vários signos. A letra grega Tau, a cruz suástica, um quarto crescente e um S. É o AOR, disse Guillaume, ao notar o seu olhar. Venho de Paray-le-Monial (centro esotérico cristão fundado pelos seguidores do reverendo padre Drévon, em 1875).
O AOR era a primeira palavra do Génesis. Paray-le-Monial, a capital do reino do Sagrado Coração. Bérenger estava perplexo. O que é que aquele homem quereria dele? Trazia-lhe uma doação, como Elias tinha dito? O AOR é o fogo essencial, disse Guillaume, a origem da luz e da destruição universal. Mas embora o traga comigo, não tenho más intenções. Pertenço a Deus e a Jesus Cristo, vivo pela eucaristia e para a eucaristia». In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O Mistério do Priorado de Sião. Jean-Michel Thibaux. «Então, viu Marie. Sentiu-se um pouco inquieto. Deu uma olhada aos paroquianos. Estavam demasiado ocupados com o porco, nem sequer se tinham apercebido da presença de uma forasteira»

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Renees-le-Château. 11 de Novembro de 1888
«Marie não parava de pensar em Bérenger. Para ela, não existia nenhum outro homem no mundo. No entanto, não o tinha ido ver desde que se tinha mudado para a sacristia, reconstruída de alto a baixo graças a uma doação de três mil francos da Casa Real de França. Bérenger!, Bérenger!, meu amor... Nas suas noites de solidão, abraçava-o, apertava-o contra o seu corpo, cobria-o de beijos, chamando-o com todo o ardor da sua juventude. Uma e outra vez, nos seus sonhos. Agora estava ali, a dez passos, com as mãos vigorosas e fortes na cintura, a contemplar o tumulto que se amontoava diante do estábulo. Ao seu lado, o armeiro parecia um homenzinho adoentado. Marie avançou um passo, logo a seguir outro, sentiu que o coração lhe rebentava. Ainda quererá alguma coisa comigo? Libertou-se do xaile de lã e arregaçou a manga esquerda do seu velho vestido, para assomar o braço fora da camisa. Por baixo do cotovelo usava a fita vermelha, entrançada com os nós do amor. Tinha-a comprado na primeira sexta-feira de Lua nova e feito o primeiro nó a recitar o Pater Noster, até às palavras in tentationem. Depois, tinha de substituir sed libera nos a malo por lude-aludei-ludeo. Tinha repetido esta operação todos os dias, acrescentando um Pater e entrançando outro nó, até completar os nove. Agora só tinha de tocar no sacerdote para que o seu amor se tornasse realidade. Bérenger fez um gesto em direcção ao estábulo e René e Brasc aproximaram-se com outros homens que tinham sido seus inimigos. À sua volta, as crianças corriam aplaudindo e pulando. Porto te cotel, René, que farem de sang, gritavam.
Os homens traziam um porco, que se debatia lançando guinchos estremecedores. Marie aproximou-se até onde estava Bérenger com o armeiro, agachou-se nas suas costas e tocou na mão do sacerdote com o dedo mindinho. Já está feito! Bérenger não se tinha apercebido, pois estava demasiado absorvido com a matança. Os homens já tinham o porco no chão, diante de um grande alguidar de barro. Avança, magarefe!, ordenou Bérenger. O magarefe, que não era outro que René, tirou uma faca afiada do cinto e enterrou-a na cabeça do animal. A multidão estremeceu. As crianças ficaram estáticas no seu lugar, a olhar boquiabertas em volta, ao mesmo tempo satisfeitas e inquietas, curiosas e perversas. O porco guinchou, escoicinhou, sacudiu-se tentando safar-se da dezena de braços que o mantinham prisioneiro. O sangue espesso caiu no recipiente até que cessaram as convulsões da agonia. Os homens relaxaram os braços e aliviaram um pouco os dedos. O fim tinha chegado. René enterrou o punho no sangue e voltou-se para Bérenger. Marie sentiu um calafrio. René era-lhe antipático, espantavam-na os seus lábios brancos, como que cortados com um golpe na sua cara de besta. Sem rancor, cura, arrotou René, traçando uma cruz vermelha na palma da mão do sacerdote, precisamente onde Marie tinha tocado uns minutos antes.
Que Madalena te proteja e proteja a tua família, respondeu Bérenger. Logo a seguir, abraçou o camponês. Tinha seguido os conselhos do bispo e de Boudet. Desde o seu regresso, tinha acedido a dialogar com os republicanos. Ao fim de alguns dias, bebeu vinho e absinto em casa do ferreiro e a seguir conquistou os corações de toda a gente, quando pediu aos céus invocando os santos, pelos seus rebanhos e as suas colheitas. Os meses passaram. Bérenger organizava procissões e dizia missas. Pediram-lhe chuvas, e tiveram chuvas. Uma noite, reuniram-se todos para caçar o fantasma de um feiticeiro morto há trinta anos, e Bérenger acompanhou-os. Quando começaram a chamar-lhe padre, Bérenger ofereceu-lhes funcho de Narbonne, consagrado nove vezes no fogo da catedral de São João. No dia seguinte, a erva sagrada apareceu em todas as janelas. Agora era seu amigo. René chamou os outros, para que viessem dar-lhe um aperto de mão. Brasc, Simón, Sarda, Delmas e Vidal vieram um atrás do ouro. Perdão e esquecimento. O Estado tinha feito as pazes com a Igreja. As crianças riam com alegria e as mulheres cantavam quando vertiam a água a ferver para raspar o porco. Cozinharam as febras com os feijões, para o almoço. O padre tinha benzido o pão antes da comida.
Bérenger, satisfeito, deu uma palmadinha no ombro do armeiro. Vou preparar a igreja para a missa desta noite, disse, sorridente. Então, viu Marie. Sentiu-se um pouco inquieto. Deu uma olhada aos paroquianos. Estavam demasiado ocupados com o porco, nem sequer se tinham apercebido da presença de uma forasteira. Olá... Vim a Rennes-les-Bains... Bérenger pensou em Boudet. Era ele quem lha mandava. Ofereciam-lhe aquela rapariga para que se abandonasse ao prazer sem conta nem medida. Bastaria um gesto para a fazer sua. Sua! Há dezassete meses que não tocava numa mulher. Dezassete meses com os quais tinha recuperado a paciência e a coragem. Dezassete meses durante os quais tinha purificado o seu corpo. Em dezassete segundos, podia comprometer outra vez a sua alma. Sorriu a Marie. Vem a minha casa, sussurrou, quando passou ao lado dela. Marie sentiu as pernas fraquejar, o corpo amolecido, como um arrebol arrastado pelo vento de Outono. Consegui! Consegui!... Ainda me deseja. Quase sem se dar conta encaminhou-se para a sacristia, abriu a porta, despiu-se diante da lareira e estendeu-se na cama sem demoras. Fechou os olhos quando ouviu a porta. Logo a seguir, ouviu o matraquear dos seus passos, o roçagar da sotaina, um estremecimento... Os pés aproximaram-se, iá descalços, pelo chão. Não ouviu mais nada, mas também não abriu os olhos. O peito subia-lhe e descia debaixo do lençol, tinha os mamilos arrepiados, as coxas tensas, o calor apoderava-se do seu ventre. Uma mão roçou-lhe o corpo através do tecido do lençol. Subiu-lhe pelas pernas, exactamente até à proximidade do sexo. Só precisava de escorregar imperceptivelmente, com um golpe de anca) para alcançar a ponta dos dedos. Bérenger ficou em silêncio. Inclinou-se sobre ela e beijou-lhe as pálpebras. A seguir, beijou-lhe a boca, pousou os lábios num dos seus seios. Marie atirou-se-lhe aos braços. Ansiava sentir o seu calor, a sua força, a sua própria vida». In Jean-Michel Thibaux, O Mistério do Priorado de Sião, Rennes-le-Chatêau, 1888, 2004, tradução de Jorge Fallorca, A Esfera dos Livros, 2006, ISBN 989-626-019-2.

Cortesia de ELivros/JDACT