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sábado, 19 de janeiro de 2013

Monumentos e Lendas de Santarém. Zeferino Brandão. «Se um estranho à terra vem, dizeis todos em geral: nunca aqui chegou ninguém; e do vosso natural nada vos parece bem. Enfim que por natureza, e constelação do clima, esta nação portuguesa o nada estrangeiro estima, o muito dos seus despreza»


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«E já os mouros a haviam intitulado Calabicastro, por síncope de Escalabis Castrum, sendo ao mesmo tempo conhecida e venerada dos católicos com o nome de Santarém, o qual como epitáfio lhe puseram, para conservar a memória do sepulcro de Santa Iria.
«A ambição romana, que, em nome, como em posse, queria fazer tudo seu - diz fr. Luiz de Sousa - lhe pôs o de Proesidium Julium, e metendo dentro moradores romanos, como quem conhecia a força do sítio, honrou-a com título e privilégios de Colónia Romana. E porque o lugar era capaz de tudo, assentou nele uma das tres Relações ou casas de justiça com que se governava a Lusitânia, a que chamavam Conventos jurídicos. Eis a derivação dos três nomes, por que foi conhecida Santarém.
Mas na mudança de nome, se bem se considera, diz a crónica dos carmelistas descalços, não perdeu o primeiro de Scalabis, ou (Bis-Scala), por ser agora a Escala, ou Escada dúplice, em que a Terra subiu de ponto, dando túmulo à Santa Iria, e a Santa dando o seu nome à Terra, em que se fez um Empório de singulares prodígios. Em eminente sítio, entre dilatadas campinas, que fertiliza o Tejo, e à direita dele, está situada Santarém, 75 km ao NE de Lisboa, na latitude de 39° 19’ e longitude 9° 50’'. Por causa de dois profundos vales, que se abatem no andar daquele formoso rio, e ainda por amor de outras quebradas, parece o monte uma curta cordilheira, a qual sobre a coroa de seus montes, em plano igual ao daquele que pelo lado do norte os reúne, distinguindo-se pelo do sul a pouca distância que lhes serve de continuação, é assento da grande povoação de Santarém, saudável por seus ares puríssimos, e aprazível por suas vistas esplêndidas.
No primeiro dos seus vales, que é o mais largo, e, junto à margem do rio, está situada a graciosa aldeia da Ribeira, a qual pela sua grandeza bem merecia o privilégio de vila; e no segundo, o cada vez mais triste e decaído lugar do Alfange. Além do Tejo, para o nascente, estendem-se os feracíssimos campos de Almeirim, tão celebrados da antiguidade, pela abundância dos frutos, criação de gados e ligeireza dos cavalos: e da parte do nordeste também bordam a margem direita do rio campos menos extensos, mas igualmente férteis.
Alguns anos faz o Tejo, em uns e outros, o ofício de Nilo no Egipto, e às vezes é tamanha a enchente, que leva grande destruição às terras marginais, como também o notável rio dos Montes de Al-Kamar costuma fazer. Caminhando do norte para sudoeste, vêem-se outeiros e vales cobertos de olivedos e árvores frutíferas, e semeados de habitações pitorescas, com que a terra igualmente se torna atractiva e farta. No Livro das Grandezas de Lisboa dá fr. Nicolau de Oliveira a seguinte curiosa noticia:
  • Em Santarém há tanta cópia de azeite, que ouvi dizer algumas vezes a moradores daquela vila, que se largassem o azeite, que tem, faziam um rio tão grande como o Tejo; e assim se diz por exageração Olivaes de Santarém ; e deste azeite se leva só para Flandes em cada um ano mais do três mil pipas, afora o que vai para as conquistas; e tanto trigo, que a não haver tanto concurso de gente estrangeira neste Reino, e a faltarem-lhe as navegações de suas conquistas, bastava para sua sustentação; e se cultivarão bem os campos e pauis que se tem (o que se poderá fazer com pouco custo) se poderão mandar daqui para fora embarcações carregadas de trigo, assim como agora vem de outras partes.
Em todos os tempos se têm dito e escrito coisas exageradas a respeito de Santarém: é todavia fora de dúvida que as grandes várzeas e colinas, que a circundam, formam um quadro imenso e formosíssimo. A nossa alma sente-se arrebatada perante ele, e quer exclamar com o cantor das Georgicas: O ubi campi!
No remate do primeiro dos montes, para o ladu do sul, e quase a prumo sobre o rio, fica o bairro da Alcáçova, antiga fortaleza, para a qual se entrava por ponte levadiça; o do monte próximo, seguindo para oeste, é coroado pelo cemitério dos Capuchos. Tal é o sitio, onde foi edificada uma das mais insignes povoações deste reino. Depois da descrição primorosa, que tez do mesmo lugar o nosso clássico fr. Luiz de Sousa, foi temeridade esboçá-lo. Mas por não ser um esboço desenho bem acabado, pode aquele tolerar-se, visto ser-nos preciso, antes de entrarmos no assunto principal do livro, indicado pelo titulo deste, dizer onde fica Santarém. Ocultar essa circunstância era faltar ao rigoroso dever de historiador.
Prometemos dizer a verdade, a qual bastante nos custou a apurar do muito que lemos e ouvimos acerca desta terra monumental. Também referiremos o que ouvimos, repare-se bem, porque em matérias onde faltam autores, vale de muito a tradição vulgar, e as coisas que os antigos traziam entre si, como autênticas e verdadeiras, e as ensinavam a seus descendentes. Seremos talvez prolixo, transcrevendo ou citando passagens e documentos curiosos. Assim o entendemos.
Santarém é uma terra, que a maior parte dos portugueses não conhece, e que Portugal deveria ufanar-se de possuir. Todavia, quantos dos nossos compatriotas terão viajado pelo estrangeiro, sem se lembrarem talvez de que existe Santarém! Proh pudor!
É o caso de se dizer com um antigo poeta nosso:

Se um estranho à terra vem,
dizeis todos em geral:
nunca aqui chegou ninguém;
e do vosso natural
nada vos parece bem.
Enfim que por natureza,
e constelação do clima,
esta nação portuguesa
o nada estrangeiro estima,
o muito dos seus despreza.

In Zeferino Brandão, Monumentos e Lendas de Santarém, Lisboa, David Corazzi Editor, 1883, Makew Parr Collection, Magellan and the Age of Disvovery, presented to Brandeis University, 1961, Tipografia Horas Românticas, Rio de Janeiro.

Cortesia de TH Românticas/JDACT

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Monumentos e Lendas de Santarém. Zeferino Brandão. «Depois das “Viagens na Minha Terra”, Santarém é como um pomo vedado; pertence de propriedade ao autor daquele espirituoso e poético livro»; diz A. Herculano. Mas Santarém já devia de ter sido “pomo vedado depois da História de S. Domingos”; e Garrett, por ser filho de Eva, pecou tocando no pomo»



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«Noutros tempos, para ir de Lisboa a Santarém, metia-se a gente em um barco ‘sério e sisudo’, que nos esperava ao “cais das colunas, no vapor de Vila Nova” saía do cansado corredor no triste desembarcadoiro de Vila Nova da Rainha, o mais feio pedaço de terra aluvial, em que a gente ainda poisou os nossos pés, escarranchava-se sobre uma alimária qualquer, ou encaixava-se dentro da carroça de um amigo, que providencialmente nos aparecia ao desembarcar, apeávamo-nos sobre as areias do célebre pinhal da Azambuja, montávamos uma “enfezada mulinha asneira, que tinha de ser o nosso transporte dali até Santarém, subíamos, a bom trotar da mulinha uma empinada ladeira”, muito próxima da povoação, e chegávamos enfim ao alto, apresentando-se-nos diante do nós a ‘majestosa entrada da grande vila’; como aconteceu ao autor das “Viagens na Minha Terra”.
Ou então em Vila Nova da Rainha saltávamos do vapor para uma «pobre gôndola atada a dois rocins lazarentos, às albardas góticas, aos campinos selvagens, como uma coisa viva a uma coisa morta, e representando um sincronismo impossível entre os dois termos: 1553 – 1853. Dois cavalos éticos, a cujas selas rugosas e remendadas ia prender-se a corda que a movia, choutavam ao longo da senda marginal de sirga, montados por dois campinos em ‘desabilé’ ribatejano, e conduziam-nos até á ponte da Asseca. No cães montávamos, por exemplo, um cavalo que um amigo tinha antecipadamente disposto para aí nos esperar no dia da nossa chegada, e partíamos imediatamente para Santarém», que fica perto, há maneira de A. Herculano, quando em 1854 visitou aquela muito antiga e notável vila.
Hoje não é assim. Quem se resolve a sair da capital destes reinos, para ver Santarém, poucos têm essa curiosidade, chega à estação de Santa Apolónia, compra um bilhete para a de Santarém, mete-se no comboio, e duas horas depois ouve dizer a um empregado da companhia real dos caminhos de ferro portugueses: — «Santarém, dez minutos de demora!» Salta a gente para a plataforma, pega na sua mala, e, ao sair da estação, encontra um veículo, que nos leva inevitavelmente à porta da hospedaria da ‘Felicia’, se não recomendarmos ao cocheiro, que nos conduza a outra parte.
É mais rápido, mais cómodo, mas também é menos poético este passeio hoje em dia.
Não se nos dava de afirmar, que se vivesse agora o autor da ‘Historia de S. Domingos’, não era capaz de descrever ‘O sítio da vila de Santarém’, de forma que o seu estilo tivesse sabor clássico.
«Depois das “Viagens na Minha Terra”, Santarém é como um pomo vedado; pertence de propriedade ao autor daquele espirituoso e poético livro»; diz A. Herculano. Mas Santarém já devia de ter sido “pomo vedado depois da História de S. Domingos”; e Garrett, por ser filho de Eva, pecou tocando no pomo.
Fez muito bem.
A Santarém de fr. Luiz de Sousa, que diferença que fazia da que viu Garrett!
Por isso este fugiu dali exclamando:
  • «Em Portugal não há religião de nenhuma espécie. Até a sua falsa sombra, que é a hipocrisia desapareceu. Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso e disfarçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cínica no meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o espirito».
Grande alma de poeta, que, no meio da horrível devastação, teve a coragem de dizer a verdade a uma geração de hipócritas.
Mas nem por isso Santarém ficou pertencendo de propriedade ao autor das “Viagens na Minha Terra”. E visto que para os ‘escritores de profissão’ é ela como um pomo vedado, nós que não somos do número desses tais, descrevê-la-emos, como podermos e soubermos, e desculpe-nos a veneranda memória do sábio redactor do ‘Panorama’.
O Tibre concorre para a notícia da fundação de Roma, como o Tejo para a de Santarém. Aquele rio não submerge Rómulo e o Tejo arroja à sua margem direita a cesta onde vinha “Abidis”.
E, fábula ou não, Rómulo é amamentado por uma loba, “Abidis” por uma corça.
Se foram, ou não foram alimentados com o ‘nevado sanguíneo alimento das tais’ alimárias, para me servir da frase do padre Vasconcelos, autor da “Historia de Santarém Edificada”, pouco importa.
Heródoto tem o seu Cyro; Tito-Lívio o seu Rómulo: e os nossos cronistas o seu “Abidis”.
O próprio fr. Luiz de Sousa não considerou que poderiam ficar manchadas as páginas da sua brilhantíssima “Historia de S. Domingos”, escrevendo:
  • «com o de Escalabis foi ela (Santarém) conhecida muito antes que a conhecessem Romanos: e tanto atrás que não falta quem queira referir sua origem a um “Abydis” Rei vigésimo quarto dos que em Hespanha floresceram logo depois do dilúvio por sucessão continuada».
A poesia é necessária à historia, e nos livre, que ela faltasse na historia da humanidade.
A história refere a verdade; mas se a narrasse, nua e crua, era de uma aridez insuportável.
Estas reflexões ocorreram-nos a propósito do primeiro nome, que teve Santarém, “Scalabis”. Nome que o nosso Camões, recordou quando disse, referindo-se a Santarém:

… o sempre ennobrecido
Scalabicastro, cujo campo ameno
Tu claro Tejo, regas tão sereno.

E já os muros a haviam intitulado Calabicastro, por síncope de “Escalabis Castrum”, sendo ao mesmo tempo conhecida e venerada dos católicos com o nome de Santarém, o qual como epitáfio lhe puseram, para conservar a memória do sepulcro de Santa Iria (29)». In Zeferino Brandão, Monumentos e Lendas de Santarém, Lisboa, David Corazzi Editor, 1883, Makew Parr Collection, Magellan and the Age of Disvovery, presented to Brandeis University, 1961, Tipografia Horas Românticas, Rio de Janeiro.



 Cortesia de TH Românticas/JDACT

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

História e Monumentos de Santarém. Zeferino Sarmento. «E saindo deste jardim - as Portas do Sol - encontramos à direita a igreja que foi da Alcáçova, com sucessivas reconstruções e que nos evoca ainda a entrada do primeiro rei, abrindo passagem a golpes de montante, entre a mourama, aos cristãos»

(1893-1968)
Santarém
Cortesia de cms

«Ainda que escudado no muito amor a Santarém, que poderei dizer duma região que tanto carinho mereceu a escritores de alto valor e nomeada, tais como Frei Luís de Sousa, Padre Inácio da Piedade e Vasconcelos, Alexandre Herculano, Fialho de Almeida, Ramalho Ortigão, Almeida Garrett e tantos outros.
  • Que Santarém foi tomada por D. Afonso Henriques em 1147?
  • Que do alto dos seus muros desmantelados se desfrutam lindos horizontes?
  • Que é recheada de monumentos, de cujo valor arqueológico e arquitectónico ninguém duvida?
Sabem tudo isto e sabem--no melhor do que eu. O que não conhecem são os detalhes e a alma da cidade scalabitana. Elevada no cume dum altaneiro monte, banha-a essa fita prateada do Tejo, que lhe dá encanto e frescura e que tão avaramente recolheu no meio das águas o túmulo da inocente Iria, martirizada junto ao rio Nabão, em Tomar.

Quem entre em Santarém, vindo de Lisboa ou de além Tejo, pelo lado de Alpiarça ou de Almeirim, ou ainda de Rio Maior ou Pernes, notará o viçoso da vegetação, como moldura de velho carvalho a enquadrar a nobre cidade. E dentro dela, o visitante não saberá se entreter a vista com as pedras dos velhos monumentos, se desfrutar dos miradouros, a paisagem.
Há em Santarém um ponto, cujo nome se repercute por todo Portugal e causa até admiração dos estrangeiros que o visitam, o Parque Pedro Alvares, Cabral - as Portas do Sol - sala de visitas, como é conhecido pelos Santarenos.
O monte avança sobre o Tejo e velhas muralhas de reconstrução afonsina, algumas delas coroadas de ameias, limitam-no na periferia, fechando assim o lugar, outrora ocupado pela Alcáçova. Dos torreões e baluartes a vista alonga-se pela planície fértil e verdejante, alegrada pelo casario branco de Chamusca, Almeirim e Alpiarça.

S. João de Alporão
Cortesia de cms

E ao reparar nesta última vila, descobre-se entre um maciço de árvores a casa solarenga dos «Patudos», residência do artista, que foi José Relvas e que com tanto carinho coleccionou preciosidades de museu, numa variedade que causa assombro a quem visita esta acolhedora mansão da arte.
Merece a pena atravessar a ponte e seguir mais além onze quilómetros para admirar as porcelanas, as pinturas, o mobiliário e as tapeçarias. Adornam o mobiliário exemplares interessantíssimos de Sèvres e de Saxe, da fábrica do Rato e da Bica do Sapato e paredes há, revestidas de azulejos hispano-árabes. Os muros do jardim são cobertos em grande parte por azulejos do convento de Santo António da Chamusca e enquadram o arco sólio do túmulo de D. Aleixo de Meneses.
Quarenta tapetes de Arraiolos constituem a grande colecção e com eles, paramentos religiosos de avultado valor artístico. Cada sala é um museu de pintura. Das paredes pendem tábuas de Jorge Afonso e quadros de Domingos Sequeira, Ferreira Chaves, Anunciação, Silva Porto, Malhoa, Columbano, António Ramalho, Alfredo Keil, salgado, João Vaz, Carlos Reis, António Saúde, Sousa Pinto e de tantos outros de alto merecimento e ainda aguarelas de Roque Gameiro, Columbano, Alves de Sá e Alberto Sousa. Entre tantas obras-primas, há ainda que admirar esculturas de Machado de Castro, Soares dos Reis, Teixeira Lopes, Costa Mota, etc.

E depois deste recolhimento artístico, em que o espírito se recreou perante tão lindos exemplares, devereis regressar por Almeirim, terra que teve palácio real, do qual nada resta, e pena é, porque seria por certo de linhas interessantes, a avaliar por outras edificações espalhadas pelo país da época de D. João I e portanto coevas daquela. A recordar as imediações do paço real, lê-se nas esquinas de duas artérias, rua dos Arreios e rua das Cavalariças.
Somente a toponímia se mantém!
E nesta vasta de Santarém, Alpiarça, Almeirim, alongareis a vista no largo mar de cepas, dum verde-claro. No Outono, os bagos aloirados das uvas são recolhidos nos cestos de vindima por mulheres de airoso porte, elegantes e esculturais, de indumentária característica. E é ver então, a longa fila de carros, cortando as estradas, transportando dentro de grandes dornas os cachos de uva, que no lagar, os homens de camisa sempre alva, pisam e apertam em prensas, até sair da bica o delicioso néctar, que vai depois encher as grandes adegas regionais.

Interior de S. João de Alporão
Cortesia de cms

Mas, eu estava nas Portas do Sol e sem dar por isso, fui passear para a campina. Voltarei ao ponto de partida. Deste miradouro, desfruta-se ainda no Inverno o vasto lençol de água que inunda o campo, submergindo plantações e estradas, até atingir o sopé da serra de Almeirim, deixando-nos ver somente as franjas de algumas árvores e os tectos das barracas dos guardadores de gado. Singram então os barquitos o vasto campo de prata, prestando socorro a um ou outro campino que, esperançado de a cheia não subir mais, se deixou ficar ao abrigo da sua fé; ou salva acolá, uma cabeça de gado, que não fora recolhida a tempo.
Das Portas do Sol divisa-se claramente a povoação de Alfange, campo da tragédia de 1491. Foi na cabana de Álvaro Pires que expirou o infante D. Afonso, depois de correr o páreo com D. João de Meneses e em quem D. João II punha todas as suas esperanças. Foi o maior golpe sofrido pelo grande rei D. João II e foi daquela cabana de pescador, que saiu a divisa da rainha D. Leonor, o camaroeiro, a divisa dessa mulher que, estendida por todo o país, foi a rede de malhas apertadas, de bem-fazer, as misericórdias.
E saindo deste jardim - as Portas do Sol - encontramos à direita a igreja que foi da Alcáçova, com sucessivas reconstruções e que nos evoca ainda a entrada do primeiro rei, abrindo passagem a golpes de montante, entre a mourama, aos cristãos.
Mais além, o magnífico templo românico-ogival, São João de Alporão, utilizado para museu arqueológico desde 1876.
Os muros laterais desta obra de silharia elevam-se sobre repisos, coroados no alto, abaixo da cimalha, por uma fiada de arcaturas, de aresta chanfrada, orlada de pérolas. Três frestas, por lado, de arregace duplo, avançando para dentro em forma de janela com arco de meio ponto, dão luz ao monumento. A abside é poligonal, reforçada por antas nos ângulos, excepto num, abrindo-se nos vãos quatro frestas de visagem igual no interior e exterior, abaixo das quais corre uma imposta em bisel. O pórtico principal, é constituído por quatro colunelos por lado, com capitéis de decoração vegetal e ábacos corridos, sustentando cinco arquivoltas lisas em reentrantes de pleno cintro.

A dois terços da fachada, abre-se a rosácea de duplo arregace, composta por quatro círculos concêntricos, circuitado o primeiro por um listel de miosótis; irradiando do extradorso de anel polilobado no interior, colunelos, que vão apoiar alternadamente nos arquinhos de um anel análogo, que as arquivoltas circundam». In Palestra de Zeferino Sarmento, História e Monumentos de Santarém, Câmara Municipal de Santarém, 1993, Alto patrocínio do I. do Património Arquitectónico e Arqueológico, ISBN 972-95782-4-9.

Cortesia de CM de Santarém/JDACT