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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Antologia da Poesia Erótica Brasileira. Roberto Zular. «Contudo, um dos efeitos mais fascinantes dessa antologia é nos fazer imaginar outras antologias, mas eis a novidade que não sabíamos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Organização de Eliane Robert Moraes
«(…) Os exemplos seriam muitos, mas talvez esses bastem para vermos como o erótico produz uma espécie de posição vicária que traz o corpo à tona em variadas dicções (e, portanto, posições!), redesenhando esse mesmo corpo. Ainda assim, é uma permanência do erótico e do poema que esses movimentos dão a ver, como acontece no fluxo prosó­dico já por si libidinal do verso liberado modernista, colocando num mesmo plano o mundo das letras e as experimentações do corpo e que alcança momentos sublimes mesmo em autores inesperados como João Cabral Melo Neto. Veja-se como nesse contexto ganham um súbito alcance versos como os de As frutas de Pernambuco, que:
São ninfomaníacas, quase,
No dissolver-se, no entregar-se,

Sem nada guardar-se, de pu...
Mesmo nas ácidas, o açúcar,

é tão carnal, grosso, de corpo,
de corpo para o corpo, o coito,

que mais na cama que na mesa
seria cómodo querê-las.

Muito haveria o que falar, como muito haveria a acrescentar, além dessas pequenas torções que apontamos da perspectiva retórica de Gregório Mattos refractando o corpo como murmuração ou o corpo romântico como latência de normatividades em conflito que vêm para o mesmo plano no modernismo. Contudo, um dos efeitos mais fascinantes dessa antologia é nos fazer imaginar outras antologias, mas eis a novidade que não sabíamos, eróticas! A sua contemporaneidade diz respeito não à sua novidade, ao seu anacronismo, a uma revelação ou à sua transgressão, como levemente nos fazem crer as rasuras em forma de soneto da capa, mas sim ao modo como trabalha os limites (mesmo da própria escolha antológica). Como tentei mostrar, a questão crucial dessa reunião de poemas não diz respeito à antologia, mas sim à ontologia, isto é, à variação contínua de corpos e poemas em dupla torção. E veja-se como a complexa noção de torção ganha outra dinâmica nesse contexto.
A beleza desses poemas, sobretudo num país com larga tradição patriarcal como o Brasil, é desconstituir constantemente o lugar soberano de enunciação para colocar o eu lírico numa posição que torna impossível a totalização da experiência. Resta sempre a latência de outro corpo que o interpela e às vezes no limite da violência que essa dependência gera como necessidade de controle. Ainda assim, vê-se ao longo do livro a construção de um espaço particular de alteridade, de diferença, de demanda por formas outras de afectos e de afecções, que nos obrigaria a falar, por força de sua alteridade, em um outro lírico, isto é, o espaço em que o eu é um outro (não será o outro do eu o próprio corpo que diz eu?) e que transforma o corpo na relação com outros corpos. Erotizado, o corpo se assume como relação, transformando o eu em uma posição vicária (sujeita a muitas posições) e que pode ser ocupada por outros corpos, para deleite da imaginação do leitor.
O alcance dessa Antologia da poesia erótica brasileira em pleno século XXI talvez não seja questionar o lugar do corpo nos poemas, mas sim perguntar quanto à necessidade e aos modos de se construir esse corpo no campo simbólico: afinal, por que escrever, por que colocar em palavras essa experiência? Em tempos de facebook, selfies, instagram, sites pornos e de encontros marcados, o erotismo talvez esteja se reencontrando com as palavras, não como um campo simbólico que totaliza, sublima e representa a experiência sexual, mas como um conjunto de conexões parciais que tornam o poema um não todo sempre dependente de um outro corpo que o leia erotizando-se e erotizando também a relação com outros corpos. Num tempo em que o mundo das letras também se profissionaliza (na imprensa, no mercado, na universidade), essa antologia vem liberar certo ressentimento do corpo do qual o simbólico não pode dar conta, senão permitindo a emergência de outros corpos na cena dúbia dos muitos mundos que se cruzam na leitura desses poemas eróticos». In Roberto Zular, Resenha de Antologia da Poesia Erótica Brasileira, Organização de Eliane Robert Moraes, Revista Teresa de Literatura Brasileira, 2016, Wikipédia.

Cortesia de TeresaRBLBrasileira/JDACT

Antologia da Poesia Erótica Brasileira. Roberto Zular. «O corpo dos poemas atribuídos ao nome de Gregório Matos que abrem o livro, por exemplo, opera por um rebaixamento satírico que se dá entre um ideal retórico-teológico-político-poético…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Organização de Eliane Robert Moraes
«(…) Sabemos que corpos não são apenas corpos, uma substância natural sobre a qual projectamos a nossa cultura; corpos são produzidos, performatizados, imaginados nas práticas sociais em que se constituem. O corpo que fala pelo c…, goza peid…, chupa os dedos dos pés, escolhe e acolhe diferentes parceiros em diferentes posições e contextos é um corpo em transformação, em variação contínua, que os poemas não representam, mas constituem, realocando a relação com o simbólico e o imaginário.
Interessante notar que é esse movimento fluido, de conexões distantes da cartilha sexual, que dá força aos desenhos de Arthur Luiz Piza. Eles ilustram todo o livro, dando-lhe unidade gráfica. Vemos ali corpos soltos, quase só o traço de um movimento (a insinuação de um gesto, de um ritmo como nos poemas) cuja pouca determinação permite que uma parte toque a outra, atravesse a outra, cubra-a, crie conexões inespera­das, ambíguas, dando uma plasticidade extremamente erótica embora não exactamente sexual na relação entre os corpos.
Mas se isso talvez pareça um tanto relacionado apenas ao sujeito, como se o erótico dissesse respeito tão somente aos modos de subjectivação, vale notar uma incrível subtileza na construção da historicidade da antologia. Isso porque, longe de identificar um lastro corporal imutável e as suas várias interpretações históricas, a organizadora permite um fluxo de transformação contínua do erótico, algo foucaultiano, sim, mas talvez um pouco além, pois vai identificando uma dupla torção entre corpos que são produzidos pelos textos e textos reinventados pelos corpos, algo que lembra o movimento proposto por Meschonnic ao falar de um cruzamento simultâneo de uma forma de vida numa forma de linguagem e de uma forma de linguagem numa forma de vida. O corpo dos poemas atribuídos ao nome de Gregório Matos que abrem o livro, por exemplo, opera por um rebaixamento satírico que se dá entre um ideal retórico-teológico-político-poético e as murmurações de uma voz mundana, arrojadamente escritos dentro de uma tradição e atravessados por musas que caga…, tes… pelo cheiro da mulher suja ou pelas qualidades do […].
Vê-se, já pelos nomes, que não se trata de uma representação do corpo natural mas de um jogo de perspectivas que cruza duas normatividades, a cena retórica e a obscena entrada, ainda que retórica, do corpo singular.
Ao longo do livro, veremos que isso que responde pelo erótico vai criando relações diferentes entre corpo e linguagem (produzindo corpos e linguagens!), como se dá, em seguida, no fluxo sóbrio das Cartas chilenas de Gonzaga, endossando o sexo lascivo como parte do jogo de poder ou o chamado ao coito pela fruição do tempo (o carpe diem) em Marília de Dirceu. Se dermos um salto, ao romantismo, isso fica ainda mais evidente, pois o erótico envolto em medo e angústia instaura uma outra temporalidade e um outro modo de afecção, fazendo do corpo o encontro impossível de normatividades antagónicas como a urgência e a espera, o desejo e as determinações sociais. Aqui, uma bela surpresa, ao lado de Fagundes Varella ou Álvares Azevedo, é Laurindo Rabelo, como na construção que faz em torno do mote: pode apalpar, pode ver/ das coxinhas pode usar/ por fora quanto quiser/ dentro não, que hei-de gritar. Além de o lugar de fala ser transposto para a mulher, o que excita não é o que se dá a ver, mas o espaço tenso entre o possível e o proibido, o visível e o invisível e o campo fértil para o gozo imaginário. Não fales muito. Uma palavra basta/ murmurada ao pé do ouvido […]. Fala-me só com o revólver dos olhos. Espaço tenso e fatal, como todo o gozo, à beira da morte (o que ainda mais excita): escondamo-nos um no seio do outro/ não há assim de nos avistar a morte/ ou morreremos juntos, como em Junqueira Freire». In Roberto Zular, Resenha de Antologia da Poesia Erótica Brasileira, Organização de Eliane Robert Moraes, Revista Teresa de Literatura Brasileira, 2016, Wikipédia.

Cortesia de TeresaRBLBrasileira/JDACT

Antologia da Poesia Erótica Brasileira. Roberto Zular. «Garimpando e selecionando o erótico na poesia brasileira, e um capítulo à parte são os incríveis anónimos ao longo dessa história, entre tantos outros achados, a antologia»

Cortesia de wikipedia e jdact

Organização de Eliane Robert Moraes
«Algo se insinua vermelho aos olhos e se alonga pelos dedos até que um volume encha as nossas mãos. E esse gesto que nos leva até ele, colocando o corpo em movimento, ganha mais força quando se vê que o volume é a Antologia da poesia erótica brasileira, editada pela Atelié e organizada por Eliane Robert Moraes. O erótico aqui começa com outro modo de ler, o corpo afundando na cama, as folhas rolando entre as mãos, as mãos… Eróticos não são só os temas dos poemas ou as experiências das quais eles partem, mas também os afectos que engendram e as implicações entre corpo e linguagem que trazem à tona. Trata-se, sim, de uma antologia de poesia erótica, mas que, mais do que isso, mostra um furo no nosso modo contemporâneo de ler poesia (uma leitura do poema como objecto a ser visto, entendido, interpretado, decodificado) e aponta para outros modos de habitar o poema com seu ritmo, a sua corporeidade, os orifícios que ele abre, sua variação de posições, enfim, seu erotismo (sem o qual, como já disse Octavio Paz, não há poesia).
Garimpando e selecionando o erótico na poesia brasileira, e um capítulo à parte são os incríveis anónimos ao longo dessa história, entre tantos outros achados, a antologia explora a sua penetração e alcance com força para reconfigurar o modo como líamos alguns poemas que sequer considerávamos eróticos. Desde os mais explícitos aos mais subtis, do cómico ao amoroso, do obsceno ao paródico, como aponta a introdução, o erótico se dá por cruzamentos inesperados e relâmpagos perceptivos que dão um novo significado ao mesmo tempo a experiência sexual e a experiência poética, sem perder de vista as tensas relações de classe, de género e de espécie que as atravessam. A temática erótica, portanto, erotiza todos os planos dos poemas. Menos do que descrever uma cena erótica, esses poemas colocam-se como lugar de partilha entre a experiência que encenam e a excitação do próprio acto de leitura. À flor da pele, com o coração na boca, tocando com o ouvido, roçando o gosto das palavras, cedemos nossos corpos aos poemas e somos sugados pelo seu ritmo, pela dança de sua prosódia, pelas suas imagens.
Ao mesmo tempo, o tema obriga, projectamos nossas próprias experiências e ampliamos os limites do nosso corpo. No corpo a corpo com o poema, esses poemas eróticos nos fazem mudar constantemente de posição, somos sujeitos e objectos (assim como o poema é objecto e sujeito), somos leitores e somos lidos, vestimos o poema que nos despe numa variação de posições que faz sonhar com uma potência infinita de relações. Explico-me melhor, quer dizer, implico-me. No nível do enunciado, daquilo que é dito, os poemas accionam experiências corporais ligadas às relações afectivas, ao sexo, à sedução, à excitação, ao escatológico; mas, além dessa linha temática, eles se dobram sobre a sua enunciação, isto é, sobre o dizer por trás do dito, criando uma cenografia enunciativa que, para além da moldura poema erótico, produz uma nova gramática de afectos e acoplagens entre as palavras e os corpos, em que o sexo (para além da diferença sexual) penetra o poema, a sedução se alonga, a excitação ganha contornos, a escatologia abre orifícios no campo simbólico.
Do ponto de vista psicanalítico, o que se dá ao longo da antologia é uma abertura ao campo das pulsões, isto é, aos lugares do corpo onde o somático e o psíquico se tocam (como propõe Freud). Trata-se de um jogo com os orifícios, as bordas, as zonas limiares (olho, ouvido, boca, ânus) que são atravessados pela linguagem (eco no corpo do facto que há um dizer, como quer Lacan). Diria até que esses poemas vão implicando novos lugares e inventando novas acoplagens (além do olhar, da escuta, do oral, do anal) que ampliam e transformam esse campo pulsional, como na linda imagem de uma lira abdominal que dá nome ao ensaio de abertura do livro, inspirado em poema de Manuel Bandeira.
Ao accionar esses orifícios e seus muitos órgãos de excitação (mão, gesto, língua, boca, pau, para ficar nos mais comuns e orgânicos), o campo pulsional é activado, os órgãos ficam eriçados, e os movimentos esboçados no poema, especialmente o ritmo, cruzam a pulsão (ligada a esses orifícios) com a pulsação, a organização do movimento, seus modos sempre abertos de produzir sentido. Entre a pulsão e a pulsação, o erótico produz experiências singulares dos temas tratados, mas atravessando-os por novos modos de relacionar corpo e linguagem». In Roberto Zular, Resenha de Antologia da Poesia Erótica Brasileira, Organização de Eliane Robert Moraes, Revista Teresa de Literatura Brasileira, 2016, Wikipédia.

Cortesia de TeresaRBLBrasileira/JDACT