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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «Na volta para a Europa, em fevereiro de 1493, aportou á ilha de Santa Maria, onde o capitão João Castanheda, por suspeitas, pretendeu aprisional-o»

jdact

Conforme o original

A América Antecolombiana
«(…) Por este período e segundo dizem vários escriptores, o genovez foi-se guiando por uma carta de marear. Seria a de Toscmelli, egual ã que enviou ao cónego Martins e onde se notava a Antilia? Este homem verdadeiramente extraordinário pela coragem com que persistia, e pela fé cega com que acreditava as inspirações celestes, conseguiu vencer todos os obstáculos e descobrir as ilhas de Cuba, Lucayas c S. Salvador [Varnhagen publicou em Valência a primeira carta que Colombo escreveu a D. Gabriel Sanches, thesoureiro de Aragão, dando conta do famoso descobrimento. Diz o titulo: primera epistola del almirante D. Christobal Cólon dando atenta de su gran descobrimento a D. Gabriel Sanchez, tesorero de Aragon. Acompana el texto original castellano el de la
traduccion latina de Leandro de Cosso, segnn la primera edicion de Roma de 1493, y precede la noticia de una copia del original manuscripto, e de las antiguas adiciones del texto en latin, hecha por el editor D. Genaro H. Volafen (anagratnma de Adolfo de Varnhagen). Depois fez-se nova edição em Vianna, pelo mesmo editor, servindo de texto o único exemplar conhecido da primitiva, em castelhano, que se conserva na bibliotheca Ambrosiona de Madrid, sem indicação de anno. Carta de Christobal Cólon, enviada de Lisboa a Barcelona en Marzo de 1493].
Na volta para a Europa, em fevereiro de 1493, aportou á ilha de Santa Maria, onde o capitão João Castanheda, por suspeitas, pretendeu aprisional-o. A 6 de março entrou o Tejo; e João II, que se achava em Valle do Paraizo, logo que o soube mandou-o chamar, para se informar se o descobrimento das ilhas de Cypango e Antilia, de que vinha tão ufano, estavam dentro dos mares e terras do seu senhorio da Guiné. O genovez alardeando das riquezas e possessões que adquirira para a Hespanha, censurou el-rei João II de não dar credito ás suas promessas. (Aqui contradiz-se em parte a carta que Colombo recebeu em 1488 do monarcha portuguez). Pela sua descortezia houve idéa de o matarem, ao que el-rei se oppoz formalmente. Colombo affirmava ter descoberto a ilha de Ophir, que dizia próxima das Autilias e a que poz o nome de Hispaniola. Pedro Marfim de Angéva na Oceânica diz: ... Offyaã isulã sesse reperisse refert sed cosmographorum tracto, diligêter considerato atilie isule síit ille et adiacètes alies hãc hispaniolã appellanit.
Na corte de Fernando e Isabel foi recebido com as maiores solemnidades em abril de 1493, prestando-se-lhe grandes honras e fazendo-se-lhe largas mercês, entre as quaes a de addicionar ao seu brazão um leão e um caslello.
Em 28 de maio de 1483 foi-lhe confirmado o cargo de almirante, vicerei e governador das ilhas e terras, que havia descoberto e descobrisse. Na mesma data teve a nomeação de capitão general da armada que ia em segunda viagem á índia, com auctorização de prover os officios, e de nomear quem o substituísse na sua ausência. Pouco tempo lhe foi concedido de descanço. A 25 de setembro do mesmo anno tornou a sahir de Cadiz para continuar as descobertas, e os reis de Hespanha, com animo e crença no novo almirante, pozeram á sua disposição 17 navios bem providos e guarnecidos por 1:500 homens. N'esta segunda viagem fundou diversos estabelecimentos nas Antilhas e em S. Domingos. A 24 de abril de 1494 entregou o governo da nova colónia a seu irmão Diogo e, com três caravellas, partiu para continuar as descobertas. Conseguiu chegar ao Cabo de S. António; mas o mau estado dos navios obrigou-o a voltar para a Hispaniola, onde encontrou revoltados a maior parte dos europeus, commettendo as maiores atrocidades, e quando deram noticia da chegada da frota do almirante, apoderaram-se de algumas caravellas e fugiram para Hespanha.
Colombo coadjuvado por seu irmão Bartholomeu e duzentos homens suplantou 100:000 indios; mas fizeram grande numero de victimas, e as crueldades que se praticaram são descriptas por Las Casas com horríveis cores. Constando-lhe que os seus inimigos o accusavam e intrigavam com os reis de Castella, para se justificar, entregou o governo das ilhas a seu irmão Bartholomeu, de sua inteira confiança, com o titulo de Adelanlado de las índias, e embarcou para a Europa». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

Cortesia de Adas Ciências/JDACT

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «… linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviário, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Segunda Conferencia. 31 de maio de 1891
(…) Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fora recusado por João II seu projecto de viagem directa ás índias pelo Atlântico, seguindo rumo de Oeste. Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Génova. Amargurava-se porque desde o principio do século era Portugal a única nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de terras novas e desconhecidas; e pois lhe parecia difficil encontrar, outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio continentes ignorados. Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em que a edade média acreditava; que mostrara emfim que era fabula a existência de monstros marinhos recontados por Endrisi, de estreitas luzentes, por Rogério Bacon, do cahos impenetrável nas proximidades da linha segundo Albi, de basiliscos descriptos por Averrhoes, de gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Árabes, que assim pintando o Atlântico affastavam os espíritos de ousadias de affrontal-o?
Chegado a Génova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus planos marítimos, tratou de obter do governo da republica meios para executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu espirito, affiançando ao estado grandiosas vantagens e glorias immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido, quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolábio e do quadrante, que, no reinado de João II, juntos á agulha, única empregada no tempo de Henrique de Vizeu (infante), facilitavam agora as emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres, podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e ficar-se certo da posição maritima. Com razão escolhia Colombo a Génova por ser sua pátria, no intuito de dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se quanto antes pois que os portuguezes prosseguiam na sua rota, e com suas diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias próximas ao Mar Vermelho e ao golfo Pérsico.
Génova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais republicas marítimas da Itália, que tanto poderio e commercio haviam exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do império grego de Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos, senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Génova não se achava habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas. Dissemos que Génova era sua pátria. Foi elle sempre em sua vida considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse o faz nascer na Sabóia! Para esclarecer a questão de um modo terminante, e provar-se claramente que em Génova e dentro da cidade nascera, e de familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no século actual (século XIX), seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a coroa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido vários fidalgos e famílias italianas, que pretendiam ser reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa; publicaram-se egualmente em Génova, nos nossos dias, umas linhas escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na pagina branca de um breviário, que existe ainda na bibliotheca Corsini de Roma». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «Convocou João II a conselho seus mais reputados sábios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no século XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente. Prevalecia no século XV unicamente, e para os sábios só, o principio da redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro todo e qualquer peso. Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito. Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir ás índias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por João II, na ponta sul da Africa. Não tinha Marco Paulo (Polo?) collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um século antes? Não ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?
As cartas e mappas de então apresentavam a Ásia como mais extensa para o lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade. Os árabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam estas theorias erradas. Elias, todavia, mais animavam, excitavam e firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do Atlântico de duas a três mil milhas marítimas; tendo, além disto, ouvido em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido naufragados, cadáveres de dous homens de organisação physica diversa da Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as índias, atravessando o Atlântico e seguindo para o Occidente.
Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde o infante Henrique trilhavam arrojadamente os mares e commettiam grandes e façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de animo. Como sábio, não excedia também nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim, geographos eminentes da época e empregados em Portugal, e menos ainda ao Infante Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e fazer executar sublimes emprehendimentos. Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação, proveniente de profundíssima convicção. Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu próprio executor. É nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporâneos. Propoz-se então Colombo a João II para emprehender uma viagem directamente ás índias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam alli defronte de Portugal as índias com a China e o Japão? Mais depressa e menos perigosamente se não chegaria lá?
Convocou João II a conselho seus mais reputados sábios. Entre elles figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a Africa, e se navegaria seguro para as índias, e que assim continuasse El-Rei nos seus planos anteriores ; que si não era sonho de Colombo a viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo fructo da imaginação mais que da sciencia humana. Indeferiu João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da empreza. Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza, abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já em 1486 seguiu viagem para Génova». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «… a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo. Copérnico, já como que também adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Ao cessar a primeira metade do século XV três acontecimentos verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do império grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos turcos, que, derrotando os Árabes, se tinham apoderado de toda a Ásia Menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo império, que à pouco e pouco avassallou a Grécia, a Bulgária, a Roumania, a Servia e os estados do Danúbio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.° Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra, Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara emfim expellir os inglezes do seu território, e procurava alargar-se até o Mediterrâneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.
A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Ásia Menor, do mar Negro e de Constantinopla, submettidos e acurvados pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o Egypto que se conservara independente do jugo quer do Árabe já decahido e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera, e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.
Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritânia, subjugou Alzira, Alcácer e Tanger. Por sua morte, o rei João II preferiu continuar as excursões marítimas de seu finado tio infante Henrique e approximar-se da Ásia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza idêntica do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Coroa nas emprezas com força própria e sob direcção governativa. Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de 1470, aventureiro audacioso, temerário, instruído em mathematicas e cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras nações europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a única nação que se devotava á tão profícuo serviço.
Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes, rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as sciencias cosmographicas, geographicas, astronómicas, melhorava instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento progressivo, que seguiu o universo durante o século XV. Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta época, não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de outras nações, divergem, contradizem-se, por forma que ao certo se não alcança a realidade. Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mapas e cartas, e tratou de empregar-se logo na marinha portugueza, casando-se com a filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Coroa com a donatária da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mapas importantes a respeito de navegações marítimas. Colombo relacionou-se também com todos os marinheiros e pilotos que serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos Açores, e fixara residência ordinária na ilha da Madeira.
Dedicado ao estudo náutico, pesquizador de todos os factos que se passavam, engenhou logo empreza que lhe desse renome. Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua actividade, para o fim de adquiril-a. Nessa época era abraçada por muitos sábios e cosmographos a ideia de que o mundo terrestre formava uma esfera ou globo. Copérnico, já como que também adivinhara, que, em torno do sol fixo, é que gyravam a terra e os demais planetas». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

Conferências Públicas. 1891. Pereira da Silva. «Não se penetrara já na zona tórrida, e não se descobrira que ella era habitável? Falleceu, no correr de 1460, o infante Henrique, já nos fins de sua vida endeosado…»

jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristóteles quanto ás ilhas da Atlântida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palácios de mármore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda de que a ilha de S. Brandão fora visitada por um abhade escossez Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer e morreu de novo para alcançar a bemavenlurança no Céo! Certo é que esta ilha figurava em todos os mapas dos séculos XV e XVI, nos próprios traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes, por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões ópticas os habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em certas épocas do anno.
Resolveu-se o infante Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente. Seu pai animava-o, mas nao tinha dinheiro. Empregou o principe a renda do ducado e a do mestrado de Christo que administrava (e os dinheiros dos templários?). Marinheiros, pilotos, ninguém queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços conseguiu o infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431 Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D’ahi fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo em 1433 o rei João I, obteve do filho Henrique que o novo rei, Duarte I, mandasse expedição guerreira á Mauritânia, tendo-o e a seu irmão infante Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está assustando!
Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. O infante Fernando cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. O irmão Henrique volveu para o seu promontório de Sagres (?) em 1437. Não desanimado perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir. Mais lhe firmava no espirito os propósitos de percorrer a costa Africana a ideia de encontrar o caminho para as índias, e collocal-as em directa communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo (não será Polo?) na descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão Alexandre com os seus Gregos, á Arménia os Romanos, á Jerusalém os Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não era indispensável proseguir em expedições marítimas? Não estaria reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar emprezas que espantassem o mundo?
O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos, como são sempre considerados os génios que se adiantam além do seu século. Que lhe importava! Idèas firmadas em fundas convicções não se desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes chegasse ao Gabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguém lá fora, salvo mouro ou árabe, e por terra. Após o Gabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim, ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e preconisando de heroe o príncipe. Os Pontífices Romanos reputavarn-se então autorizados para distribuírem reinos e coroas.
Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos prejuízos populares se desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20 e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor. Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava próximo e certo, não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva; avistar-se-hiam as terras das pérolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona tórrida, e não se descobrira que ella era habitável? Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, o infante Henrique, já nos fins de sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes naquella época». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «E portanto vos rogamos e encommendamos que vossa vinda seja loguo e para isso non tenhaaes pejo algum e teremos muito em serviço. Scripta em Avis a vinte de Marzo de mil cuatrocientos ochenta e ocho…»

Cortesia de wikipedia e jdact

NOTA: Conforme o original

A América Antecolombiana
«(…) En dicho dia (15 de Octubre de 1487) di á Christóbal Colomo cuatro mil maravedis que sus Altezas le mandaron dar para ayuda a su costa por cédula dei Opispo. Eu 16 de Junio de 1488 di a Cristòbal Colomo três mil maravedis por cédula de sus Altezas. A somma total d'estas verbas são 17:000 maravedis. N’este ultimo anno de 1488 é que foi escripta a carta de Cbristovam Colombo a João II offerecendo-se novamente para descobrir o caminho do Oriente. Navarrete transcreve apenas a resposta do monarcba aceitando a proposta no seguinte theor:

A Christovam Colom, noso especial amigo en Sevilha
Christóbal Cólon. Nos Dom Joham per grasa de Deos Rey de Portugall e dos Algarbes; daquem e dallem mar em Africa senhor de Guinee vos enviamos muito saudar. Vimos a carta que nos escrebestes e a boa vontade e afeizaon que por ella mostraaes teerdes a nosso serviso. Vos agradecemos muito. Emquanto a que vossa industria e boo engenho nos será necessário, nos a desejamos e pracernos-ha muito de que visedes, porque em o que vos toca se dará tal forma de que vos debaes ser contente. E porque por ventura teerees algum rezeo de nossas justizas por razaon dalgumas cousas a que sejaaes obligado. Nos por esta nossa carta vos seguramos polla vinda, estada e tornada que não sejaaes preso, retendo, acusado, citado nem demandado por nenhuma cousa ora seja civil ora criminal de cualquer cualidade. E por ella mesma mandamos a todas nossas justizas que o cumpram assi. E portanto vos rogamos e encommendamos que vossa vinda seja loguo e para isso non tenhaaes pejo algum e teremos muito em serviço. Scripta em Avis a vinte de Marzo de mil cuatrocientos ochenta e ocho. El Rey.

Temos algumas duvidas sobre a authenticidade d'esta carta, em que o rei João II acceita as offertas do genovez com absolvição plena de todas as faltas civis ou criminaes em que tivesse incorrido! O monarcha justo não costumava prestar-se a taes indulgências, e principalmente sendo aquelle considerado um aventureiro que lhe havia fugido dos seus estados. Portugal possuia então grandes cosmographos, que seria longo mencionar, nacionaes e extrangeiros, promptos a emprehenderem as grandes viagens para o descobrimento da Índia e Terra do Preste João. Era este um projecto decidido só diverso do de Colombo na direcção a seguir. Além d’estas razões temos a redacção da carta de João II, em linguagem um pouco hespanholada e destoante ao que então se escrevia. Fazendo mesmo justiça ao caracter de Colombo, então subsidiado por Fernando e Isabel, mal se comprehende a offerta de ir servir outra nação! Só minuciosa analyse na carta original (?) poderia resolver estas duvidas.
Impaciente pela demora que tinham os reis catholicos em organisarem a frota, com que devia tentar a grande descoberta, tomou a resolução de ir a França insistir com o christianissimo Carlos VII para favorecer a missão que Deus lhe havia revelado na terra, como elle dizia. Quando já ia em caminho foi chamado peia rainha dona Isabel, que, apesar da opinião contraria de seu marido, tomou a empreza sob sua protecção, e os aprestos para a viagem começaram immediatamente. Em 17 de abril de 1492 foi assignado um contracto, obrigando-se os reis de Hespanha, no caso de ser bem succedida a empreza, a conferirem a Christovam Colombo e a seus successores o cargo de almirante, com as honras e prerogativas de grande almirante de Castella, o titulo de Dom, e o vice-reinaclo das terras que descobrisse, com direito á decima parte de todas as pérolas, pedras preciosas, oiro, prata, achados, comprados, trocados, e com outras muitas vantagens e privilégios. Os monarchas hespanhoes, pelo mau estado do thesouro em consequência da guerra de Granada, tiveram de contrahir vários empréstimos para aprestar a expedição.
A 3 de agosto de 1492 logrou Colombo mandar desfraldar as vellas da sua frota, composta das caravellas, a Nina de Alonso Pinzon, a Pinta, em que ia seu sobrinho Vicente Pinzon, e a Santa Maria, de maiores dimensões, de 100 tonelladas e uns trinta metros de comprido, do almirante. Sahiu de Paios, pequeno porto da Andaluzia, com a tripulação de 120 homens. Na viagem luctou com immensos obstáculos e contrariedades, sendo das maiores a desconfiança e má vontade das guarnições dos navios. No diário d’esta viagem vem: ... 3 de outubro. Aparecieron pardelas, y erba mucha, alguna muy vieja, y otra muy fresca, y traia como fruta; y no vieron aves algunas, creia el almirante que le quedaban atrás las islãs que traia pintadas en su carta». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

Cortesia de AdasCiências/JDACT

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «En dicho dia (5 de Mayo de 1487) di á Christóbal Colomo, extrangero, três mil maravedis, que está aqui faciendo alguas cosas complideras ai servicio de sus Altezas, por cédula de Alonso Quintanilla…»

jdact

NOTA: Conforme o original

A América Antecolombiana
«(…) Em uma partilha dividiu-se a casa entre duas das principaes famílias da ilha (Carvalhal e Ornellas) que depois a venderam. A camara municipal para alargamento e aformoseamento da rua mandou demolir o prédio, conservando-se apenas a janella em poder do conselheiro Agostinho Ornellas. A demolição da casa foi um desses vandalismos que não tem classificação: independente da tradição histórica, era um curioso espécimen architectonico de uma casa nobre do século XV, e que o município por dignidade própria devia ter todo o interesse em conservar. João II assignalou o começo do seu reinado por dois grandiosos actos: o domínio supremo da realeza, e os preparativos para o descobrimento do caminho marítimo para a Índia. Só estes dois factos de grande alcance politico n’aqnella epocha attenuam a rudeza do seu caracter. A arte de navegar continuava a fazer grandes progressos em Portugal, onde a febre dos descobrimentos se tinha tornado geral. Desde o rei até o seu mais infimo vassallo, todos concorriam para as emprezas marítimas, e tratava-se especialmente por esse tempo de procurar o caminho para a terra das especiarias e das pedras preciosas dobrando o celebre Cabo Tormentoso. Esta noticia fez voltar Colombo para Lisboa em 1480, onde se relacionou com os navegadores mais notáveis, nacionaes e extrangeiros, conheceu os novos systemas de navegação, e estreitou intima amizade com Martim Bohemia que já falava nas ilhas Antilia e S. Romão.
A paixão de Colombo pelas viagens aventureiras tocava a monomania, e conhecedor das boas disposições do monarcha, solicitou uma audiência, onde propoz os seus famosos planos de ir ao oriente pelo occidente. conforme lhe havia indicado Toscanelli, pedindo auxilio de gente e barcos para os executar. O rei não o descoroçoou; mas os homens competentes do seu conselho, além de pouco crédulos nas apregoadas maravilhas e riquezas promettidas pelo genovez, ponderaram os inconvenientes de tirar para novas terras mais gente do remo, já bastante despovoado por causa das possessões e guerras d’Africa. O conselho que votou contra as propostas de Colombo, além das razões acima allegadas, pelo seu pouco fundamento e serem excessivamente exigentes pois pedia como recompensa, dado o feliz êxito, o almirantado, o titulo de vice-rei e outras muitas coisas, compunha-se de homens que haviam ajudado as empresas marítimas do infante Henrique, e eram o bispo Diogo Ortiz e os mestres Rodrigo e Joseph, physicos do rei, reputados dos melhores cosmógrafos e geographos da sua epocha. O bispo Diogo era grande partidário de se tentar a descoberta do caminho marítimo para a Índia pelo Cabo da Boa Esperança, e o indicado pelo genovez tinha muitos oppositores. A jornada de Affonso Paiva e de Pêro da Covilhan, em 1486, deu razão ao bispo.
Durante a sua permanência na capital continuou com seu irmão Bartholomeu, que lhe foi um poderoso auxiliar, na industria de pintar cartas marítimas, que tinham muita extracção. Este modo de vida não se combinava com o génio arrojado de Colombo, e com bastante prespicacia não perdia occasião de se instruir, colhendo informações dos navegadores e geographos. Perdidas de todo as esperanças de serem acceitas as suas propostas em Portugal, resolveu dirigir-se á Hespanha, para onde partiu clandestinamente em 1484, ignorando se o motivo que deu logar á fuga; posto que alguns a teem attribuido a ligações politicas na conspiração do duque de Vizeu, apunhalado por João II em Setúbal a 23 de agosto do mesmo anno.
Não foi só em Portugal que se duvidou dos maravilhosos planos de Colombo: o mesmo lhe aconteceu com as propostas feitas a Génova, a Veneza, á França, á Inglaterra, e na Hespanha os duques de Medina Sidónia, Henrique Gusman, de Medina Caeli, Luiz de la Cerda, e os reis catholicos só annos depois se resolveram a prestarem-lhe os auxílios necessários para emprehender a sua descoberta. Em Hespanha luctou sempre com a maior pertinácia na propaganda a favor da sua causa patenteando vasta erudição, o que lhe veleu alguns prosélitos e protectores, sendo o principal fr. João Peres, guardião do convento da Rabida, que gosava de grande importância nos conselhos de Fernando e Isabel. Não faltou também quem lhe chamasse aventureiro, visionário e até louco!! Alguns escriptores carregaram demasiado as cores negras do mau resultado das pretenções de Colombo perante os reis de Castella. N’um livro de contas de Francisco Gonzales Sevilha, thesoureiro dos reis catholicos, entre outras despezas dos annos de 1485 a 1488 estão escripturadas as seguintes verbas: En dicho dia (5 de Mayo de 1487) di á Christóbal Colomo, extrangero, três mil maravedis, que está aqui faciendo alguas cosas complideras ai servicio de sus Altezas, por cédula de Alonso Quintanilla, com mandamiento dei Obispo de Palencia. En 27 de dicho mez (Agosto de 1487) di a Christóbal Colomo cuatro mil maravedis para ir ai Real por mandado de sus Altezas, por cédula del Obispo; y de distinta letra continua asi. Son siete mil maravedis com três mil que se le mandaron dar para ajuda de su costa por outra partida de 3 de Júlio». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

Cortesia de AdasCiências/JDACT

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «Esta ultima parte tinha uma janella em estylo manuelino, distincta pelo seu melhor trabalho artistico, bipartida por uma columna, tendo gravado no capitel, na face esquerda, em uma moldura ms (Jesus), na do centro 1494 e na da direita MARIA»

jdact

NOTA: Conforme o original

A América Antecolombiana
«(…) Em 1494 foi Behaim chamado a Lisboa por João II e encarregado de uma melindrosa missão ao imperador da Allemanba, qual era a de lhe pedir que pela sua grande influencia procurasse destruir as difficuldades, que havia em Portugal para a legitimação de seu filho natural, o príncipe Jorge, sendo a opposição principal a da rainha dona Leonor. N'esta jornada soffreu grandes transtornos, sendo duas vezes aprisionado pelos piratas, e quando conseguiu chegar ao seu destino a feição politica na corte do rei justo havia mudado, e por isso recebeu ordem de sustar as diligencias de que ia encarregado e de regressar ao reino.
A 25 de Outubro de 1495 falleceu João II, e Martim Bohemia voltou para o Fayal, onde residiu até 1506, anno em que tornou com a sua família para Lisboa, onde falleceu numa quinta feira 29 de Julho de 1507 (alguns dizem ter sido em 1506 e assim está na inscripção do retrato, mas damos a preferencia á inscripção mandada pòr por seu filho em 1510, n'uma lapida sepulchral á direita do altar mór no coro da egreja de Santa Catharina em Nuremberg), sendo sepultado na egreja do convento de S. Domingos. Existiram d'elle dois retratos, sendo um em corpo inteiro, que tinha por baixo inscripto: Martinns Bohemus Norimberg. Eques, Serenissimorum Johannis II et Emmanuelis Lusitaniae Regum Thalaslus et Mathematicus insignis. Obiit 1506 Lisabonae. Os portuguezes cada vez mais afoitos com a passagem do Cabo Tormentoso, ajudados com os progressos náuticos e applicação da astronomia á navegação, não conheciam obstáculos para tentarem o descobrimento de novas terras atravez dos immensos mares. O monarca João II, dando como divisa ao seu successor a esphera, parece que lhe prognosticou que no seu reinado colheria os melhores fruclos dos grandes estudos e trabalhos do immortal infante Henrique, e dos que o secundaram nas suas gigantescas aspirações.

Christovam Colombo e a America
Christovam Colombo nasceu em Génova no anno de 1437 filho primogénito de Dominico Colombo, cardador de lãs, e de sua mulher Susana Fontanarrossa. Em Pavia fez os seus estudos concernentes á navegação em que patenteou o seu grande talento, e sendo ainda muito joven andou em viagens pelo Mediterraneo como tripulante em navios mercantes e de guerra, escolhendo de preferencia expedições aventureiras. Em 1470 attrahido pelos grandiosos emprehendimentos marítimos dos portuguezes veiu estabelecer-se em Lisboa, onde nos séculos XV e XVI não havia exclusivo de nacionalidade para novos descobrimentos: empregavam-se indistinctamente os homens práticos e de reconhecido mérito, que ofereciam garantia de melhor resultado.
Alguns sabios extrangeiros não só foram consultados para essas emprezas, mas até tomaram parte activa nellas, e entre outros citaremos João Mallorca, Martim de Bohemia, João da Nova, Américo Vespucio e o próprio Christovam Colombo que fez varias viagens pelas costas de Portugal e Hespanha, alongando-se até á Guiné e á costa da Mina.
Pouco depois da sua chegada a Portugal esposou dona Filippa Moniz Perestrello, filha de Bartholomeu Perestrello (falecido em 1458), donatário da ilha de Porto Santo, e de sua mulher dona Isabel Moniz, recebendo apenas por dote, segundo dizem alguns historiadores, os mappas, itinerários e papeis de seu sogro, que havia feito parte da casa do infante Henrique e acompanhara Gonçalo Zarco no descobrimento das ilhas da Madeira e Porto Santo, recebendo em remuneração de seus serviços, em Novembro de 1446, a donataria desta ultima ilha. O genovez em seguida ao seu casamento foi para Porto Santo donde passou para o Funchal e ahi viveu de coordenar cartas maritimas. O Rodrigues Azevedo, n’um interessante artigo publicado no jornal d’aquella cidade, descreve conscienciosamente as tradições que ha ácerca da estada de Colombo na Madeira, e da casa em que ahi habitou, acompanhando a descripção uma bella photographia de Camacho (o artigo appareceu depois na Illustração hespanhola de 15 de Outubro de 1878, traduzido á lettra mas assignado por Ventura Callegon; ahi se reproduz o erro do primeiro artigo de Azevedo, dizendo o anno de 1457; motivou o engano o ter sido feita a leitura, quando a janella estava ainda no seu logar, por pessoa pouco competente). A casa indicada pertenceu á família Esmeraldo, que deu o seu nome á rua. Pela photographia reconhece-se bem que a casa, também conhecida com o nome de Granel do Poço, se compunha por ultimo de tres corpos distinctos, não só pelas divisórias mas pelo estylo architectonico, sendo os accrescentamentos posteriores feitos da esquerda para a direita.
Esta ultima parte tinha uma janella em estylo manuelino, distincta pelo seu melhor trabalho artistico, bipartida por uma columna, tendo gravado no capitel, na face esquerda, em uma moldura ms (Jesus), na do centro 1494 e na da direita MARIA. O edifício com os ditos tres corpos, em dois andares, tinha as portas em arco, as janellas de typos diversos, e não é facil acreditar que um homem que obtinha os meios de subsistência de coordenar cartas nauticas, habitasse uma casa de tão vastas dimensões. Suppomos pelo melhor critério que elle só occuparia o corpo da esquerda, o primitivo, ou o segundo, que apesar de posterior é provável estar já construído em 1480, anno em que d'alli partiu o genovez. Emquanto á parte em que está a janella bipartida evidentemente edificada quatorze annos depois, como vimos pelo decalque tirado do capitel, não podia ser habitado por Colombo, que n’essa epocha já havia feito a descoberta da America, e até partira para a sua segunda viagem ao Novo Continente». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

Cortesia de Academia das Ciências/JDACT

Conferências Públicas. 1891. Rio de Janeiro. Christovam Colombo e o Descobrimento da América. Pereira da Silva. «É mister penetrar nestas miudezas para se compreender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é fácil…»

Cortesia de wikipedia e jdact

NOTA: De acordo com o original

Primeira Gonferencia. 17 de maio de 1891
«(…) Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares; apenas a bússola introduzida pelos Árabes servia de instrumento náutico; consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com tombadilhos á popa e proa, espigões de ferro na proa, vãos no centro para 40 a 50 romeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em galeotas que se armavam também em guerra, mais pequenas; em caravellas e fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguém ousava praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos, Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiàticas ao Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em caravanas, provenientes pelo golpho Pérsico e pelo mar Vermelho; percorriam o Mediterrâneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha, dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados tambem e sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes conheciam únicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os géneros de que careciam.
É mister penetrar nestas miudezas para se compreender a temeridade dos Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo vapor, machinismos o construcções admiráveis, instrumentos náuticos perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos, terrores.
Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que fallaram Platão e Aristóteles? As terras que os Phenicios diziam ter conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da época, confusa e diferentemente? Por que se não chegaria ao mar tenebroso, como se intitulava o Atlantico próximo ao equador, ás zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?
Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em Sagres pelo infante Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano Marco Paulo (?), os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus livros; Jaime Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de cartas geographicas. Convém aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que, acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espirites cultos e sabios da epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania». In J. M. Pereira da Silva, Conferências Públicas, propriedade do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro e Academia Real de Sciencias de Lisboa, Brazil, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, Library University of California, 1892.

Cortesia de IHGB/ARC de Lisboa/JDACT

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «Martim de Bohemia nasceu entre os annos 1430 e 1436 na cidade de Nuremberg. Apezar de seguir a vida commercial, dedicou-se por vocação especial ao estudo da mathematica, da cosmographia, da astronomia e da náutica»

jdact

NOTA: Conforme o original

A América Antecolombiana
«(…) As outras nações europeias não protestaram contra a partilha de Alexandre VI, como fez João II: reservaram o direito de acção contra o favor que o chefe da egreja havia feito ás duas coroas. O rei de Inglaterra, numa carta patente concedeu a negociantes seus súbditos, associados a portuguezes, auctorização para descobrirem terras e governal-as em seu nome. A França, não só estabeleceu feitorias em alguns pontos das costas do Brazil, d'onde foram expulsas depois de sanguinolentas luctas, mas permittiu o corso, como meio mais fácil e lucrativo, sahindo dos portos da Normandia, da Gasconha e da Bretanha grande numero de navios armados que causaram graves prejuízos á Hespanha e a Portugal, pelas prezas que fizeram nas embarcações e carregamentos de mercadorias, que vinham da Índia e da America.
Já el-rei Manuel I em 14 de Dezembro de 1508 passara regimento a João Serrão para ir, numa caravella bem artilhada, procurar pelos portos da Europa o corsário francez Mondragon, que roubara em Moçambique a nau de Job Queimado, que não havia podido acompanhar a armada de Tristão da Cunha. Não tendo sido encontrado, a 18 de Janeiro do anno seguinte partiu o heróico Duarte Pacheco Pereira em busca do mesmo corsário. No reinado de João III tomou a pirataria proporções assustadoras. Este monarcha com a maior prudência sollicitou com instancia do rei de França que retirasse a carta de marca, que havia concedido em 27 de Julho de 1530, a João Ango, rico armador dieppez, contra os navios portuguezes, até 220:000 ducados, a titulo de indemnisação e represália por se lhe haver aprisionado um navio nas aguas da barra de Lisboa, que conduzia mercadorias americanas, que se provou serem roubadas. A tripulação foi condemnada á morte pelos tribunaes como piratas.
Apezar de muitas amabilidades trocadas entre os dois soberanos, o de Portugal, vendo que o seu bom irmão Francisco I não cedia, teve de descer a offertas particulares e secretas, promettendo dez mil cruzados a Filippe Chabot, almirante de França (!) e 60:000 francos ao poderoso corsário. D. João II preparou a descoberta da Índia que se levou a effeito no reinado do seu successor, e promoveu os estudos da náutica, que em Portugal, n'aquella epocha, attingiram o maior desenvolvimento. Este progresso marítimo e as emprezas aventureiras, attrahiram ao reino grande numero de extrangeiros, uns no intuito de aprenderem com os pilotos portuguezes nas arriscadas viagens, partilhando da sua gloria e proventos, outros illustrados que offereciam a sua sciencia, e entre estes foi notável Martim Beheim ou Behaim, que os escriptores portuguezes chamam de Bohemia.
Martim de Bohemia nasceu entre os annos 1430 e 1436 na cidade de Nuremberg. Apezar de seguir a vida commercial, dedicou-se por vocação especial ao estudo da mathematica, da cosmographia, da astronomia e da náutica, tendo por mestres as maiores celebridades do seu tempo. Depois de fazer varias viagens entre Malines, Anvers e Vienna, veiu para Portugal, devendo a sua chegada ser anterior a Agosto de 1481, quando João II, seguindo o plano traçado por seu tio na escola de Sagres, tratava de aperfeiçoar a arte de navegar, e Martim de Bohemia como discípulo de Camille Jean Muller de Monte Regio não podia deixar de ler o melhor acolhimento. Martim Behaim com os dois hebreus, mestre Joseph e mestre Rodrigues, ambos physicos notáveis, trabalharam na invenção das taboas da declinação do sol, d'onde resultou poder fazer-se a navegação directa pelo oceano em vez de seguir as costas, o que facilitou muito as viagens e as descobertas.
Em 1484 embarcou como cosmographo, para fazer experiências no applicar o astrolábio á navegação, levando duas caravellas, capitaneadas por Diogo Cão, que seguiram ao longo do continente africano até ao rio Congo, onde foi collocado um padrão com as armas portuguezas, e em Abril ou Maio de 1486 estava de volta em Lisboa. Os novos processos e instrumentos marítimos deram optimos resultados nas experiências. N'este anno de 1480 casou com D. Joanna de Macedo, filha de Job Huerter, primeiro capitão donatário das ilhas do Fayal e Pico, e d'este matrimonio houve um filho. Em 1492 foi visitar a sua terra natal, onde concluiu o celebre globo terrestre, servindo-lhe de grande auxilio os trabalhos de Ptolomeu, Plínio, Strabão, Marco Polo e as derrotas de alguns pilotos portuguezes na Africa até ao Cabo da Boa Esperança. No globo já se acham marcadas as duas ilhas, Antilia ou das Sete Cidades e a de S. Romão. Na cidade de Nuremberg ainda se conservavam, além deste globo terrestre, diversos documentos e cartas originaes do sábio cosmographo.
Voltou a Lisboa em 1493 e seguiu logo com sua mulher para o Fayal, onde foi fixar a sua residência. Parece ter sido portador da carta de Jeronymo Monetário a João II, datada de 14 de Julho de 1493. Neste importante documento recommenda-se Martim de Behaim e indica-se até a competência d'elle para emprehender o descobrimento do oriente pelo occidente, insistindo Monetário na pretendida proximidade das costas orientaes da China ás occidentaes da Europa, como estava marcado no globo de Behaim. Esta theoria, conhecida desde 1474 pela carta de Toscanelli e regeitada nas propostas de Colombo, foi renovada com empenho para João II a empreender não só pelo sábio Münzer, mas tambem pelo imperador Maximiano. Colombo e Martim de Bohemia eram apóstolos da mesma idéa, mas o primeiro, mais insistente, conseguiu o auxilio dos reis de Hespanha e demandando as costas da Ásia descobriu a America». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

Cortesia de Academia das Ciências/JDACT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «O papa era o juiz supremo dos estados cristãos e raras vezes deixava de se acatar a sua autoridade, contudo o rei João II de Portugal protestou contra a partilha, (…) e esta oposição deu origem ao celebre “Tratado de Tordezilhas”, assinado em 7 de Junho de 1494»

jdact e cortesia de wikipedia

NOTA: Conforme o original

(Continuação)

A América Antecolombiana
«Magalhães respondeu-lhe nobremente, como homem que nada receia pelos seus actos, e que possuía o valor necessário para fazer manter a disciplina na armada que lhe haviam confiado. Chegando ao Cabo de Santa Maria, que João de Lisboa descobriu em 1514, foram tomar agua e lenha no rio de S. João, e ahi se revoltaram os dois capitães João de Cartagena e Luiz de Mendoça. O plano era matarem o capitão-mór, tomarem o dinheiro e fazenda, que sonegariam, e voltando para Hespanha accusarem Magalhães de os levar vendidos e enganados. O capitão-mór, que estava de prevenção, tomou logo medidas repressivas, mandando o meirinho Ambrósio Fernandes, acompanhado de seis homens escolhidos, os quaes com artimanhas lograram entrar no navio de Luiz de Mendoça, a quem subitamente deram a voz de preso, e pela sua resistência o degolou o dito Ambresio. Magalhães veiu preste em soccorro dos seus, a bordo mandou enforcar nas vergas seis homens que se haviam tornado mais salientes, e deu o commando do navio a seu cunhado Duarte Barboza, portuguez. A nau de Cartagena, solta do ferro, foi abalroar com a do capitão-mór, donde resultou ser preso o chefe da revolta, João de Cartagena, mandado esquartejar com pregão de traidor, e os seus cúmplices encarcerados nas bombas. A nau foi entregue a Álvaro de Mesquita que havia sido contrario ao alevanlamento.
Supplantada a conspiração e concertados os navios, seguiu avante deixando desterrados nas margens do rio alguns dos revoltosos e navegou ao longo da costa até ao rio, a que poz o nome de Victoria, donde lhe desertou a nau de Álvaro de Mesquita. Magalhães com os tres navios restantes caminhou pelo rio mais de cem léguas até sahir ao mar largo, onde, com o levante á popa, andou mais de cinco mezes, indo ter a umas ilhas, sendo uma d'ellas povoada de selvagens com quem ligou trato de amizade, ajudando-os a desbaratar um rei vizinho que os guerreava e fazendo troca de objectos insignificantes por oiro. Passados alguns dias, o rei vencido fez particularmente propostas ao rei vencedor e combinaram que este ultimo convidasse os chefes christãos a um grande banquete onde seriam todos mortos. Fernando de Magalhães com trinta dos principaes tripulantes cahiu na cilada e ahi foram todos traçoeiramente trucidados. Os que ficaram nas naus, sabedores do morticínio, e sem poderem soccorrer nem vingar as victimas deitaram fogo a um dos navios, que fazia muita agua e navegaram para o largo. Um tal Carvalhinho, piloto da capitania foi arvorado por comandante das duas naus, resto das cinco de que se compunha a expedição e foram parar a Borneo donde passaram a Moluco e a Ternate. Ahi João de la Rosa substituiu no mando o Carvalhinho, e depois de muitas contrariedades conseguiu chegar com uma das naus a Hespanha, em 1521, com treze homens de tripulação (Na companhia de Magalhães foi como piloto João Rodrigues Carvalho que provavelmente é aqui designado por Carvalhinho. Gaspar Correia diz ser portuguez João de la Rosa).
Os contractos dos reis de Castella com Fernando de Magalhães e o bacharel Ruy Faleiro, são datados de março de 1518, e existe delles copia authentica d'aquella epocha no archivo da Torre do Tombo. Depois do descobrimento da America por Christovam Colombo e a instancias suas pediu a Hespanha ao papa outra demarcação de limites que lhe garantisse as novas possessões, e Alexandre VI, pela bulla de 4 de maio de 1493
determinou para direito de descoberta uma linha imaginaria que partia das ilhas dos Açores e Cabo Verde, dividindo o globo de norte a sul em partes eguaes, ficando pertencendo a de leste a Portugal e de oeste á Hespanha…
  • Omnes insulas et terras firmes inventas et inveniendas, detectas et detegendas versus occidentem et merediem, fabricando et constituendo unam lineam a polo árctico ad polum antarcticum, quae linea distet a qualibet insularum quae vulgariter nuncupantur de los Azores et Cabo Verde centum leucis versus occidentem et meridiem…
O papa era o juiz supremo dos estados christãos e raras vezes deixava de se acatar a sua auctoridade, comtudo D. João II protestou contra a partilha, não se conformando com a direcção da nova linha divisória, e esta oposição deu origem ao celebre tratado de Tordezilhas, assignado em 7 de junho de de 1494, onde ficou assente entre as duas coroas que a linha divisória passaria a trezentas legoas ao poente do archipelago de Cabo Verde, e por isso ficou pertencendo a Portugal a parte comprehendida na futura descoberta do Brazil». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

continua
Cortesia de Academia das Ciências/JDACT

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Breve Notícia sobre o Descobrimento da América. Teixeira de Aragão. «Álvaro da Costa, não podendo prolongar os estorvos á viagem perante o conselho de Castela, procurou atrair Magalhães com grandes promessas em Saragoça, e o levou a escrever a carta a Manoel I, que Damião de Goes diz ler visto, propondo voltar ao serviço de Portugal»


jdact e cortesia de wikipedia

NOTA: Conforme o original

(Continuação)

A América Antecolombiana
«Não foi só este portuguez que, engodado pelo vil interesse ou ferido pelos desgostos, abandonou a pátria para ir servir estranhos. Na Hespanha e na França eram acolhidos e bem estipendiados os homens práticos nos mares da Guiné e das índias orientaes. Assim se tornaram bem notáveis, entre outros, os pilotos Estevão Dias, o Brigas, Rosado de Villa do Conde, João Fernandes e Fernando de Magalhães.
João Dias, piloto portuguez, em 1495 foi prezo em Hespanha e entregue a Portugal por ter sido cúmplice com os francezes no roubo de 20:000 dobras, feito a uma caravella portugueza que vinha da Mina. A João Fernandes, morador na Ilha Terceira foi concedida em 1499 a capitania de qualquer ilha povoada ou por povoar que descobrisse. Parece ter sido este o piloto que, não conseguindo em Portugal os meios para a expedição, se associara a dois portuguezes dos Açores, Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, e a três negociantes de Bristol, Richard Warde, Thomaz Assehelmret e John Thomaz, a quem Henrique VII de Inglaterra passou, a 19 de março de 1501, uma carta patente para descobrirem terras e governal-as em seu nome. Emquanto a Fernando de Magalhães pela importância da sua empreza marítima e consequências que se seguiram merece menção especial, embora a epocha do facto vá além daquella que nos propomos esboçar.
Pelo aviso de Álvaro da Costa, embaixador em Castella, soube-se logo em Lisboa das propostas de Fernão de Magalhães e do astrólogo e mathematico Ruy Falleiro a Carlos V, e considerou-se caso grave. No conselho de estado reunido em Cintra o bispo de Lamego insistiu em que se chamassem ao reino os dois portuguezes desleaes, e se lhes fizessem mercês que os contentassem; mas el-rei Manoel, o duque de Bragança Jayme, e o conde de Tarouca, sem medirem o alcance de tal tentativa, foram de opinião inteiramente contraria. Álvaro da Costa, não podendo prolongar os estorvos á viagem perante o concelho de Castella, procurou attrahir Magalhães com grandes promessas, tendo com elle longas praticas em Saragoça, e provavelmente o levou a escrever a carta a el-rei Manoel I, que Damião de Goes diz ler visto, propondo voltar ao serviço de Portugal.
Manoel I teimou na recusa, resultando para o reino gastos consideráveis, desavenças entre as duas monarchias, e para Magalhães a gloria dos descobrimentos do Estreito, das Ilhas Philipinas e dos Ladrões, depois chamadas Mariannas. Ás cartas que lhe escreveu Francisco Serrão, feitor em Banda, homem muito conhecedor d’aquellas ilhas, assim como das de Ternale, Maluco e Malaca por onde navegou muitos annos, se attribue o emprehendimento de Magalhães, como verificou António de Brito em Maluco na correspondência encontrada por morte do dito Serrão. Gaspar Correia foi contemporâneo de Fernão de Magalhães, com quem serviu na índia durante o governo de Affonso d’Albuquerque, e por isso o temos como mais authentico e imparcial entre os escriptores que narraram os acontecimentos, e d’elle tresladamos o seguinte:
  • Fernando de Magalhães era da criação de El-Rey e veo á India com o Viso rei dom Francisco, e foy no feito de rumes, e sempre nas armadas, e em Calecut, muyto ferido, e perdeo n’estas naos sua pobreza, e proue se foy a Portugal, e andou em requerimentos de seus serviços, e pedia a El-Rey cem reaes d'acrecentamento em sua moradia, o que lhe El-Rey nom quis fazer, do que se agrauou, e foy pera Castella viuer em Seuilha, onde se casou: e porque tinha muyto saber n’arte de nauegação, e espirito, que se lançou a ysso, se concertou com os regentes da casa da Contratação de Seuilha, com que lhe deu o Emperador huma armada de cinco nauios com que nauegou, descobrindo nouo caminho pera Maluco, o que foy no anno de quinhentos e dezanoue, como adiante em seu logar conlarey; com que deu depois muyto trabalho a Portugal.
No governo de Diogo Lopes de Sequeira, o capitulo XIV tem por titulo:
  • Que reconta da armada que partio de Castella o anno de 1519, de que foy capitão mor Fernão de Magalhães, homem portuguez, que agrauado d'El-Rey de Portugal se foy viuer com o emperador Carlos; e conta todo o que passou na viagem, e os que chegarão a Maluco, e o fim que tod’armada ouve.
Diremos apenas em resumo: que a proposta de Magalhães aos regedores era que, se lhe dessem navios e gente, iria ás ilhas de Malaca e Maluco, que pela demarcação do tratado de Tordesillas estavam no quinhão de Hespanha, obrigando-se a fazer a navegação para lá sem tocar em nenhum mar nem terra de el-rei de Portugal. Carlos V deu a concessão nas condições propostas.

NOTA: Carta Regia dirigida pelo rei de Hespanha a Fernando de Magalhães e a Ruy Faleiro para seguirem na armada viagem para as Molucas. El Rey - Fernando de Magallañs e Ruy Falero, cavalleros de la ordem de Samtiago nuestros capitañs generales dellarmada que mandamos hacer para yr a descobrir, y a los otros capitañs particulares de la dicha armada, e pilotos, e maestros, e contramaestres, e marineros de las náos de la dicha armada : por quanto yo tengo por cierto segund la mucha informacion que he avido de personas que por esperiencias lo an visto, que en las islas de Maluco ay la especiaria, que principalmente ys a buscar com esa dicha armada, e my voluntad es que derechamente sigais el viage a la dichas islas por la forma e manera que lo he dicho e mandado a vós el dicho Fernando de Magallañs: por ende yo vos mando a todos e a cada uno de vos, que en la navegacion dei dicho viage sigais el parecer e determinacion del dicho Fernando de Magallañs para que antes e primero que a otra parte alguna vais a las dichas islas de Moluco sin que en ello aya ninguna falta por que asy cumple o nuestro servicio e despues de fecho eslo se podra buscar lo de mas que convenga, conforme a lo que llevais mandado, e los unos ny los outros non fagades ny fagan ende al por alguna maneia so pena de perdimento de biens, e las personas e la nuestra merced. Fecha en Barcelona a diez e nueve dias dei mez de abril ano de mill e quinientos e diez e nueve anos. Yo elrey.


Concluidos os preparativos da armada, escolheram-se capitães de confiança, que haviam de comandar as naus, e foram elles - João de Cartagena a Santo António, Luiz de Mendoça la Victoria, João Serrano Santiago e Pero de Quesada la Concepcion. A frota com gente paga por seis mezes, levando por capitão-mór Fernando de Magalhães na nau Trinidad, sahiu do Porto de São Lucas de Barrameda a 21 de setembro de 1519 e foi tomar agna ás ilhas Canárias. Ahi recebeu Magalhães carta do sogro, prevenindo-o contra alguns dos capitães, que por occasião do embarque haviam dito que se elle os anojasse o matariam. Magalhães respondeu-lhe nobremente, como homem que nada receia pelos seus actos, e que possuía o valor necessário para fazer manter a disciplina na armada que lhe haviam confiado». In A. C. Teixeira de Aragão, Breve Notícia sobre o Descobrimento da América, Mckew Parr Collection, Maggellan, BrandeisUniversity (Lo que nos importa), Tipografia da Academia Real das Ciências, Lisboa, 1892.

continua
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