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sábado, 30 de novembro de 2019

Em Torno de Hilda Hilst. Nilze Maria A. R. S. Busato. «Não é de se espantar que o teatro hilstiano tenha chamado atenção de estudiosos no exterior, diante do facto de não ter encontrado ressonâncias, reconhecimento e abrangências…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Possessa e O Verdugo (Éder Rodrigues e Sara Rojo)
«(…) Porém, não se trata de um teatro facilmente determinado por correntes únicas de influências ou inserção. É um teatro que mistura os elementos, que equaciona, que esfacela a realidade e arquitecta outras esferas de tratamentos possíveis ao teatral. Hilst utiliza suas experiências como poeta e projecta novos formatos, outras maneiras de confabular códigos de comunicação, de desconstruir signos e estruturas. Nas palavras da própria autora, em entrevista concedida ao Diário de São Paulo de 29 de Abril de 1973:

As gentes, as pessoas em geral têm medo da ideia, da extensão metafísica de um texto, mas tanto minha prosa como a minha dramaturgia existem somente porque acredito que o próximo século será metafísico. Não me interesso pelas pequenas odisseias domésticas, interesso-me pela situação limite do homem. Não me peçam para pôr os pés na terra se o que pretendo é o fogo do espírito. O espírito é voraz e sofre tensão dolorosa e contínua. Eu sofro de intensidade e de paixão. E gostaria de ter as plantas dos pés sobre a esplêndida superfície da cabeça. (Viana, 1973)

Não é de se espantar que o teatro hilstiano tenha chamado atenção de estudiosos no exterior, diante do facto de não ter encontrado ressonâncias, reconhecimento e abrangências dentro do Brasil. O primeiro estudo completo configurado num livro solo sobre todas as peças da autora não foi realizado no Brasil. Alva Martínez Teixeiro publica em 2009 pelas Publicacións da Biblioteca-Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor, da Universidade da Corunha, na Espanha, a obra O herói incómodo - Utopia e pessimismo no teatro de Hilda Hilst. Trata-se do primeiro livro crítico que se debruça sobre a dramaturgia hilstiana e que analisa inúmeras questões e complexidades sobressalentes nas peças, sublinhando, sobretudo, as correlacções entre os prospectos utópicos e a linhagem pessimista das obras. Anteriormente, os textos que referenciaram o teatro de Hilst foram o de Anatol Rosenfeld, em 1969, o estudo mais abrangente de Elza Cunha de Vincenzo (no capítulo do livro Um teatro da mulher, de 1992) e o de Renata Pallottini, no capítulo sobre o teatro que integra a edição dos Cadernos de Literatura no volume dedicado à autora, em 1999. O teatro de Hilda Hilst só é publicado de forma completa em 2008, pela editora Globo, mais de 40 anos depois de escrita a primeira peça.
Nessa publicação, Alcir Pécora faz colocações pontuando o tom de embates e debates que a edição completa da dramaturgia hilstiana provoca. Com relação às obras, o crítico questiona: relidas como texto somente, funcionaria como teatro, hoje? (Pécora, 2008). Esta pergunta inquieta os autores do presente texto, pois percebemos que a resposta, sendo afirmativa, remete a questões do texto dramático, principalmente no facto de que a potência dramatúrgica não está apenas no que é dito (que no caso das obras de Hilst continua sendo pertinente), mas também na forma como o texto dramático amplia sua projecção espectacular, além da maneira lacunar com que se opera a instância política e a elevação da morte como um recurso trágico de transcendência do pensamento articulado em cena». In Nilze Maria Azevedo Reguera Susanna Busato, Em Torno de Hilda Hilst, Editora UNESP, 2015, ISBN 978-856-833-469-0.

Editora UNESP/JDACT

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Em Torno de Hilda Hilst. Nilze Maria A. R. S. Busato. «… uma postura feminina bem modificada em relação à que a mulher costumava, em geral, manifestar em outras formas de expressão literária»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Para entender esse fenómeno do apelo teatral dos seus textos em prosa, é preciso mergulhar na leitura deles e perceber o quanto o seu processo de composição mais nuclear, a saber, o fluxo de consciência, recebe um tratamento marcadamente dramático que tem menos a ver com uma personagem ensimesmada, cujos pensamentos vão-se construindo ou improvisando mentalmente, que com uma geração contínua de personagens que se desdobram em confronto contínuo. Além disso, tais confrontos de personagens proliferantes dão-se no âmbito de cenários económicos e sistemáticos, quase abstratos, o que os afasta bastante da representação realista. Já comentei esse aspecto dramático da literatura de Hilda em outros textos, mas, melhor do que eu o fiz, procurou evidenciá-lo a tese de doutoramento de Sonia Purceno, ainda inédita em livro, mas passível de ser interpretada on line na Biblioteca da Unicamp. A tese convincentemente demonstra a existência em Fluxo-floema, O caderno rosa de Lori Lamby e em outros textos de ficção, do forte movimento dialógico do fluxo, sustentado por personagens antagónicos e cenários compostos de recintos confinados, mas invariavelmente com escapes estreitos para cima e para baixo. Ou seja, a dramaturgia de Hilda tem se alimentado da sua ficção, mas sua dramaturgia propriamente dita, como disse antes, permanece num limbo tão obscuro como o de suas crónicas.

A Possessa e O Verdugo (Éder Rodrigues e Sara Rojo)
Os três últimos anos da década de 1960 (1967 a 1969) indicaram uma dedicação exclusiva do trabalho literário de Hilda Hilst à escrita dramática. Período em que a produção artística brasileira reflectia, de forma directa ou indirecta, o violento processo ditatorial. Nesse momento, o teatro e outras expressões artísticas sofriam com a censura e a repressão iniciada com o golpe militar de 1964. Na ratificação extrema do exercício opressivo com a proclamação do AI-5, a actividade teatral tornou-se um dos alvos de intervenção militar. A cena brasileira foi então tomada por grupos como o Teatro Opinião, o Teatro Oficina e o Teatro Arena, que exerciam a sua práxis numa corrente de afronta, resistência e posicionamento diante do contexto. Nessa época se efectiva uma dramaturgia de impacto ante a situação vivida pelo país (Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, Dias Gomes, Plínio Marcos, dentre outros). Segundo o estudo de Elza Cunha Vincenzo na obra Um teatro da mulher (1992), também foi nesse período que surgiram os pilares do que se pode denominar como dramaturgia feminina nacional:

Nesse momento temos uma postura feminina bem modificada em relação à que a mulher costumava, em geral, manifestar em outras formas de expressão literária. Ela, agora, revela nitidamente uma consciência e uma sensibilidade atentas ao momento social, à deterioração das estruturas básicas da sociedade.

O teatro hilstiano está inserido nesta tomada de posição e remonta aos anos opressivos da ditadura no Brasil. Ele também está conectado com as actividades do teatro universitário da época e com o pensamento de cunho social como protagonista da cena, conforme a própria dramaturga afirma em entrevista concedida: o meu teatro é como a CASA dentro de cada um de nós; CASA que não existe para morar, mas para ser pensada. Desse modo, a escrita dramatúrgica de Hilst tem como foco o poder subversivo que a palavra congratula em contacto com o acto que a força cénica lhe agrega. É uma palavra de força política, com suspensão existencial diante das questões humanas e sociais que inquietam tanto o sentido individual quanto a colectividade». In Nilze Maria Azevedo Reguera Susanna Busato, Em Torno de Hilda Hilst, Editora UNESP, 2015, ISBN 978-856-833-469-0.

Editora UNESP/JDACT

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Em Torno de Hilda Hilst. Nilze Maria A. R. S. Busato. «Se há uma disputa que mexe com os nervos entre os leitores de Hilda Hilst é saber se ela é mais poeta ou mais prosadora, ou, de outra maneira, se foi mais longe literariamente na poesia ou na prosa de ficção»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Difícil separar essa carga erótica do próprio percurso poético da palavra na sua obra. Provavelmente é ela que, sub-repticiamente, habita o tom elevado e sublime com que a sua lírica invade os versos de Da morte. Odes mínimas ou dos versos de Poemas malditos, gozosos e devotos. Há em Hilda Hilst uma premência por atingir um alvo sublime, que se deposita num horizonte mítico. A sua palavra, no conjunto da sua obra, carrega esse work in progress, ou seja, um roteiro poético que vai desreferencializando os signos que aponta, nomeando-os de formas diferentes, exponenciando-os como figuras. Que o leitor se entenda nessas sendas. Que o leitor mesmo se enlace e se desenlace e que se lance à leitura dos roteiros que por ora se oferecem à descoberta dos espaços percorridos pela linguagem pela autora brasileira. A literatura é um mal. Opera aos poucos uma metamorfose. Na mente. Na linguagem. No quotidiano das palavras. Acentua os limites. Enfatiza os horizontes. Organiza o caos. Demoniza. E pergunta com a ingenuidade dos que não sabem e têm fome pela voz de uma de suas personagens, América, na peça A possessa: eu digo as coisas que penso. Só isso. Se elas são más não sei. Muitas vezes eu nem sei quem sou. Mas penso que não há mal nenhum em perguntar o que não se entende. [...] Assim é que começam as coisas. Com as perguntas.
Em torno de Hilda Hilst também pergunta. E ousa responder. Mas está no gesto da ousadia toda a fortuna da vida. Mais uma lição que a escritora, poeta e dramaturga soube ensinar na sua vida dedicada à literatura. Este livro é a tarefa e o aprendizado. Que o leitor desfrute sem limite.

Hilda Menor. Teatro e crónica
Se há uma disputa que mexe com os nervos entre os leitores de Hilda Hilst é saber se ela é mais poeta ou mais prosadora, ou, de outra maneira, se foi mais longe literariamente na poesia ou na prosa de ficção. Por outro lado, pouca atenção tem sido dada até agora, mesmo pelos seus mais fiéis leitores, aos textos que produziu nos dois outros géneros, aparentemente mais frutos de ocasião em sua escrita do que de engajamento sistemático e consequente. Falo naturalmente do teatro e da crónica. Em relação à crónica, o desinteresse parece até mais compreensível: Hilda se limitou a escrever para um único jornal, de circulação apenas regional, durante um período bem determinado (1992-1995). A publicação em livro desse material apenas aconteceu, e ainda parcialmente, em 1998, por iniciativa da editora Nankin, de São Paulo. O conjunto delas só foi editado em 2007, pela editora Globo. A rigor, portanto, sua circulação ampla é muito recente. No que toca ao teatro, parte da história é semelhante: as suas oito peças também foram escritas num período bem determinado, mais precisamente de 1967 a 1969. À excepção da única peça mais conhecida, O verdugo, todo o material ficou inédito em livro até 2000, quando foram lançadas quatro das peças pela editora Nankin. A edição do conjunto integral das peças novamente ocorreu apenas na edição da Globo, em 2008.
Há diferenças, contudo: o teatro de Hilda foi escrito num período em que era ele o género que mais contundentemente catalisava a produção e a recepção cultural de época. Ele poderia ter ficado conhecido e ter sido muito mais montado e debatido do que realmente foi. Nada mais diverso do que se dá com a crónica, cujo lugar cultural, tanto no jornal como no cenário literário brasileiro sempre foi secundário. Mesmo Rubem Braga, o mais celebrado dos cronistas brasileiros do século XX, ressentia-se dessa situação de relativo desdém pelo género, mesmo que em geral o negasse. Além disso, há um dado bem curioso e importante a ser anotado aqui. Conquanto o teatro propriamente dito de Hilda Hilst esteja praticamente esquecido, a dramaturgia sobre a sua obra em prosa não teatral cresce sistematicamente! E, a julgar pela volúpia com que jovens dramaturgos têm se lançado sobre sua prosa, esse crescimento promete ser muito maior. É como se o teatro de Hilda apenas alcançasse o seu ponto de realização na prosa e como se o que produziu directamente como teatro não chegasse lá». In Nilze Maria Azevedo Reguera Susanna Busato, Em Torno de Hilda Hilst, Editora UNESP, 2015, ISBN 978-856-833-469-0.

Editora UNESP/JDACT

quarta-feira, 31 de julho de 2019

No 31. Em Torno de Hilda Hilst.. Nilze Maria A. R. S. Busato. «… um livro que se situa no panorama da leitura atenta, sensível e curiosa da obra da autora. Reunimos aqui pesquisadores da obra de Hilda Hilst, do Brasil e do exterior, amantes dessa chama inquieta…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O dado de provocação desta pergunta ainda se faz presente, passados dez anos da sua morte (1930-2004). A escritora, poeta e teatróloga, nascida em Jaú, São Paulo, ganha nestes últimos tempos uma nova leitura e um interesse crescente pela sua obra. Teria escrito para quem? Queixava-se desde os anos 1970 da falta de leitores dos seus textos. Teria Hilda Hilst escrito para os leitores de nossa época? Leitores curiosos e abertos aos temas de sua estranha forma? Leitores que não mais se enrubescem ante os despudores das suas personagens? O facto é que há leitores que não têm medo de percorrer o impasse que a literatura oferece no seu insistente renascer de formas e temas. Os que enfrentam o jogo fornecido pela escritora absorvem e revolvem esse universo do sacro e metafísico, do erótico e pornográfico, do combativo discurso político e social, do amoroso e sublime desejo da morte.
Em torno de Hilda Hilst é um livro que se situa no panorama da leitura atenta, sensível e curiosa da obra da autora. Reunimos aqui pesquisadores da obra de Hilda Hilst, do Brasil e do exterior, amantes dessa chama inquieta que é o texto literário que a escritora paulista tão bem soube manter quente e acesa ao longo dos quarenta e sete anos de trabalho exclusivo com a literatura. Vários olhares e vários enfoques acendem a chama da palavra em lança, em jogo perpétuo com a linguagem, com o objectivo único de descobrir como se encena a performance do discurso da obra de Hilda, que, no seu trajecto tenso e violento, sublime e erótico, desafia tanto os trabalhos de tradução, como os trabalhos críticos que se submetem aos interstícios da sua linguagem. Lembremo-nos aqui do primeiro poema de Prelúdios, intensos para os desmemoriados do amor. Hilda Hilst, nesse poema, oferece--nos um corpo. Um corpo de desejos e procuras. De dentro dele, do poema-corpo, emerge uma voz que convida: toma-me. E o poema se entrega como num jogo de sensações e trocas: toma-me / Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute / Em cadência minha escura agonia. Mas enquanto caminhas / Em lúcida altivez, eu já sou o passado. [...] / Passeia / Sobre mim, amor, e colhe o que me resta: / Nocturno girassol. Rama secreta.
Passeamos. Tateamos esse corpo. De dentro e no entorno. E eis que o livro nasce a tantas mãos e tantos olhares e vozes. Nasce com um desejo, o de descobrir a persona ou as várias personas que habitam a lírica de Hilda Hilst. E, ainda, nasce com o desejo de explorar na linguagem de sua narrativa esse lado do obsceno e do inviolável, da ironia e do desmascarar, do erudito e do popular que tão bem soube articular como um repertório cultural rico para a sua obra. Os capítulos a que o leitor se lançará a partir daqui procuram situar-se na obra de Hilda Hilst a partir de um ponto de vista estratégico.
O objectivo de cada um é de levar o leitor a, conjuntamente com os autores, perscrutar o olhar crítico que desenha as formas do texto hilstiano, no seu ondular dramático e erótico do discurso, presente na sua produção tanto teatral quanto narrativa; na natureza vitimológica de sua poesia lírica e suas entranhas discursivas que se desdobram e se exploram intertextualmente. Até as suas crónicas são objecto de leitura, evidenciando nelas o lado humorístico que tão bem Hilda Hilst soube cultivar. Nada nela era para ser levado a sério. Ou antes, tudo era feito dentro da seriedade com que a literatura se busca num incessante renascer de si mesma, pelo esgotamento que logo percebe nas suas rotas.

As vozes que o leitor ouvirá serão múltiplas, cada uma explorando o diapasão acústico das demais vozes que emergem dos Contos d’escárnio, por exemplo, no desafio que impõem à sua tradução para o inglês. Como compreender os caracteres chineses que acompanham os poemas de Sobre a tua grande face, como traduzi-los na sua presença visual concisa contrastada com o verbal solene dos versos? Outro percurso na obra de Hilda Hilst é de suas intestinações, seus espaços de gruta e intimidade lodosa, onde o grotesco e o patético emergem numa linguagem sem pudores. Um modo de ser do sujeito do discurso que revela o humano sob a pele do bicho que habita o homem. Um modo de ser que se revela na linguagem e na cena aberta. O gesto sacrificial e maldito é objecto dos capítulos que se lançam nas sendas desse elemento nocturno e místico, mas tão verdadeiramente sincero na sua projecção lírica que qualquer leitor de Hilda Hilst se vê à mercê da sua palavra. Assim são as análises que se inserem no corpo de Fluxo-floema, nos interstícios de Poemas malditos, gozosos e devotos, nos mistérios que envolvem a morte e a dimensão orgiástica da vida, o erotismo e a libidinagem, em textos como O caderno rosa de Lori Lamby, A obscena senhora D e Da morte. Odes mínimas, por exemplo.
O erotismo na obra de Hilda Hilst não se oferece somente nas referências ao corpo ou nas intenções do enunciador do discurso, ou no jogo enunciativo com a figura de um deus para quem se lança como desejo, como escravo, como dominador. O erotismo na obra de Hilda Hilst habita a linguagem, no seu jogo linguístico, quase carnal com a palavra que vai se despindo e se experimentando, sendo autorreferencializada pelo discurso». In Nilze Maria Azevedo Reguera Susanna Busato, Em Torno de Hilda Hilst, Editora UNESP, 2015, ISBN 978-856-833-469-0.

Editora UNESP/JDACT